Casal de lésbicas diz ter sofrido discriminação em evento da Portela. Escola de Samba pediu desculpas.

quarta-feira, 23 de março de 2022 0 comentários

Crédito: Reprodução/Instagram @oficialportela

Um casal de lésbica denunciou ter sofrido homofobia depois de darem um beijo em um evento da Escola de Samba Portela. A inconveniência teria vindo de uma das funcionárias que estava trabalhando na Feijoada da Portela, que aconteceu no último sábado, 5.

A denúncia foi realizada nas redes sociais pela página Caldo de Piranha.
Nesse cenário aparentemente acolhedor, duas de nós tiveram um beijo interrompido por funcionária do local, com o dito de que haviam crianças ao redor e pessoas incomodadas”, disseram.
Duas de nós fomos abordadas por uma funcionária da Portela que pediu para que não nos beijássemos mais. A funcionária disse que atendia ao pedido de pessoas no local que alegavam estar com crianças e constrangidas”, diz o grupo.
Na publicação da página Caldo de Piranha, eles se pronunciam, depois do recebimento da resposta da própria Escola, e sinalizam que “o episódio de lesbofobia ocorrido na quadra” merece pedido de desculpas formal.

A post shared by Caldo de Piranha (@caldo.de.piranha)

Homofobia é crime

Desde junho de 2019, o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu que o crime de homofobia deve ser equiparado ao de racismo.

Em alguns casos, a discriminação pode ser discreta e sutil, como negar-se a prestar serviços. Não contratar ou barrar promoções no trabalho e dar tratamento desigual a LGBT são atos homofóbicos também.

Mas muitas vezes o preconceito se torna evidente com agressões verbais, físicas e morais, chegando a ameaças e tentativas de assassinato.

Qualquer que seja a forma de discriminação, é importante que a vítima denuncie o ocorrido. A orientação sexual não deve, em hipótese alguma, ser motivo para o tratamento degradante de um ser humano.

Clipping Casal de lésbicas diz ter sofrido homofobia em evento da Portela. A Escola de Samba se responsabilizou pelo ato cometido e pediu desculpas; O grupo promete tomar as providências, por Catraca Livre, 11/03/2022 

Brunna Gonçalves, esposa de Ludmilla, revelou no programa Prazer, feminino que ama o cheiro da chana da amada

segunda-feira, 21 de março de 2022 0 comentários

Ludmilla e Bruna Gonçalves - (crédito: Reprodução/Instagram)

O clima ficou 'pra lá de quente' no programa Prazer, feminino, no canal GNT, apresentado por Karol Conká e Marcela Marcela McGowan. Brunna Gonçalves, foi uma das três convidadas da atração.

A dançarina, esposa de Ludmilla, abriu a sua intimidade e não escondeu sua paixão por sentir o cheiro 'íntimo' da sua amada. Além da ex-BBB, também foram convidadas as influenciadoras digitais Alexandra Gurgel (Alexandrismos) e Ellora Haonne.

A bailarina também comentou sobre sua bissexualidade e confessou que o sexo oral com uma pessoa do mesmo sexo é mais confortável.
Eu tinha muita vergonha. Eu nunca me senti à vontade no sexo hétero. Depois que eu me descobri [bissexual], minha vida mudou! Eu pensei: 'como eu passei 26 anos da minha vida aceitando aquilo que eu recebia?', questionou.
Eu me senti muito mais confortável, sabe?! Quando eu recebo sexo oral de uma mulher do que de um homem. […] Tô no mesmo barco, está tudo certo, tenho o que ela tem. Não tem nem comparação", acrescentou.
Momentos depois, sem papas na língua, Brunna entregou que ama o cheiro da vagina da cantora, quando as entrevistadas falavam sobre gostos e cheiros na hora do sexo oral com parceiras.
Então gente, eu amo cheiro da 'pepeka' do mozão. Quando eu acabo [sexo oral] eu falo assim 'ai gente, que cheirinho maravilhoso, meu Deus'. Não gosto nem de lavar o rosto, gosto de ficar sentido aquele cheiro em mim. É incrível, eu amo, eu amo".
Brunna Gonçalves
A influenciadora digital também detalhou o que ela faz para se preparar na hora H. 
Eu sempre gosto de tomar banho antes, sou muito chata. […] Ficar preparada, cheirosinha", afirmou. 


Clipping Brunna Gonçalves revela amar cheiro de parte íntima de Ludmilla: 'Eu amo'  'Gosto de ficar com aquele cheiro em mim', disparou a dançarina,  por Douglas Lima, Correio Brasiliense, 11/03/2022

Beijão entre personagens Ilana e Gabriela em "Um Lugar ao Sol" entusiasma lésbicas

terça-feira, 8 de março de 2022 1 comentários


Beijo de Ilana e Gabriela em "Um Lugar ao Sol"Imagem: Reprodução/TV Globo

Não foi selinho, mas um beijão. Na noite deste sábado (5), foi ao ar a cena do primeiro beijo entre as personagens Ilana (Mariana Lima) e Gabriela (Natalia Lage) na novela "Um Lugar ao Sol", da TV Globo.
Eu acho que me apaixonei por você, mas eu não sei o que fazer com isso", afirmou Ilana a Gabriela, que responde pedindo um abraço, mas recebe um beijo.
A cena tão aguardada, exibida na última semana da novela, foi comemorada por mulheres lésbicas nas redes sociais.
Hoje não terá uma lésbica triste no brasil por motivos desse beijo bonito entre mulheres na maior emissora de televisão do país", brincou uma telespectadora no Twitter.
Não é só um beijo gay, vai além. É REPRESENTATIVIDADE. É você ligar a TV para assistir uma novela e se ver nela", disse outra noveleira.
A Youtuber Louie Ponto usou seu perfil no Twitter para comemorar a cena com seus mais de 250 mil seguidores.
Hoje nós vencemos", ela publicou. "Eu queria falar tantas coisas? A diferença de altura? A delicadeza do abraço que virou beijão.... A importância dessa cena no horário nobre da televisão aberta."
Ela aproveitou também para pedir mais representatividade de casais lésbicas em novelas da emissora. 
Todo mundo falando que vai ver a novela agora. Se colocassem mais LGBTs, a audiência ia lá em cima. Aprende Globo, aqui a gente vive de migalhas."
Um ponto notado pelas telespectadoras o beijo não ter sido somente um selinho.
Caraca finalmente um beijo sáfico digno em novela chega de bitoca! Bitoca nunca mais! (Rachel)
E teve também quem sofreu com gatilhos por causa da cena e ficou com saudades da sua própria "cremosa".
Bom dia para Ilanna, que não deu um mínimo de espaço para Gabriela se desvencilhar de seus braços. Eu te entendo Ilanna 20 anos quero a cremosa assim rendida nos seus braços. Meusshippos (@meusshippos) 
E, você viu a cena?

Clipping (editado) Mulheres lésbicas comemoram beijo em novela: 'Hoje nós vencemos', Universa, em São Paulo (SP), 06/03/2022 

Pesquisa Gallup mostra que 20,8% dos jovens americanos se declaram LGBT

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022 0 comentários

Pouco bolo: dos 7% de americanos que se declaram LGBT, apenas 16% vivem
 sob o mesmo teto 
(Anne Cusack / Los Angeles Times)

Pesquisa Gallup mostra como raramente houve na história uma transformação comportamental tão rápida e extrema, refletindo aceleração de percepções

Como você sabe que é homossexual? Quando faz Justin Bieber parecer hétero”. É claro que a piadinha, uma das raras publicáveis, fica mais engraçada contada com verve gay.
E como você sabe se “parece” haver mais pessoas da turma LBGT por que ficou mais fácil assumir ou por que é um modismo dos tempos atuais?

Resposta: não é possível cravar nenhuma opção. Mas com certeza a percepção do “parece” é confirmada pelos números.

Segundo uma pesquisa feita pela Gallup nos Estados Unidos, o número de americanos que se declaram LBGT (o instituto dispensou as outras letras) é hoje 7,1% da população.

Era a metade, 3,5%, em 2012. A linha moderadamente ascendente arrancou a partir de 2017: foi de 4,5% para 5,6% em 2020. O salto para os 7,1% atuais faz prever que a linha vai continuar a subir.

O aumento reflete a entrada na vida adulta da Geração Z, os nascidos entre 1997 e 2003. Nessa faixa, os que se declaram LBGT são 20,8% (75,7% são heterossexuais e 3,5% não responderam).

Os quase 21% são praticamente o dobro dos 10,5% de sexualidades alternativas entre a geração Millenial (nascidos de 1981 a 1996). E quase dez vezes mais do que a geração Baby Boom (1946 a 1980). Como protagonistas da revolução sexual e de costumes, os “boomers”, como são chamados, declaravam apenas 2,6% fora da heterossexualidade.

Hoje, entre os 7% que se declaram LGBT, 57% se identificam como bissexuais. Outras filiações: 21% são gays, 14% lésbicas, 10% transgêneros e 4% alguma outra coisa.

Com toda a visibilidade que a campanha pelo casamento gay provocou, nos Estados Unidos e em outros países, apenas 10% dos LBGT são casados com pessoa do mesmo sexo e 6% têm relação estável, segundo outra pesquisa do Gallup.


A proporção de pessoas homossexuais e correlatos casadas equivale a apenas 0,7% da população americana.

Como os relacionamentos fixos tendem a ser aqueles em que os envolvidos adotam filhos ou fazem inseminação artificial, o número de 20% de jovens que são LBGT e não casados pode ter consequências sobre o crescimento populacional.

Populações que encolhem são um problema em praticamente todos os países desenvolvidos dos Ocidente, bem como no Japão, na Rússia e na própria China.

Se os números de LBGT continuarem o caminho ascendente, como tudo indica, em poucos anos os Estados Unidos terão 10% da população total nessa categoria.

No meio dessa tendência, alguns fenômenos específicos. Um deles: casais de mulheres lésbicas tendem a se separar mais do que casais de homens gay. A feminista Julie Bindel cita no Spectator números da Holanda, o primeiro país onde o casamento homossexual foi reconhecido, em 2005. Desde então, 15% das parcerias entre homens foram desfeitas, contra 30% das mulheres em situação equivalente.

Motivo especulado: por Bindel quando o casamento homossexual foi aprovado, muitos casais procuraram o reconhecimento social que a legalização trazia, mas depois descobriram que isso não bastava para manter a união estável. Outro: mulheres lésbicas tendem a partir para um relacionamento sério logo no início do envolvimento e pulam fases que confirmariam se casar é realmente uma boa ideia (piadinha contada por ela: “O que uma lésbica leva para o primeiro encontro? O gato e um caminhão de mudança”).

Gays e lésbicas das primeiras gerações de assumidos, enquadrados nos “boomers, não queriam saber de gato nem de casamento, mas de aproveitar um estilo de vida exatamente oposto.

O que os jovens LBGT querem ainda está sendo definido. Se já são 21% num país como os Estados Unidos, tenderão progressivamente a deixar de ser uma minoria pequena para se transformar em minoria grande.

É uma mudança enorme e acelerada. Em 1997, 68% dos americanos em geral eram contra no casamento gay nas mesmas bases do hétero e apenas 27% eram a favor. Hoje, os números são exatamente o oposto. O ponto de intersecção aconteceu em 2011.

E a aceleração está aumentando de três anos para cá.

Clipping Mudança radical: 20,8% dos jovens americanos se declaram LGBT, por Vilma Gryzinski, Veja, 18/02/ 2022

A novela "Nos Tempos do Imperador" trará beijo lésbico entre personagens Vitória e Clemência

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022 0 comentários

Vitória e Clemência vão se envolver amorosamente (Foto: Montagem)

A novela Nos Tempos do Imperador irá surpreender muitos telespectadores na reta final da história. Isso porque, segundo o apurado pela colunista Patrícia Kogut, do Jornal O Globo, as personagens Vitória (Maria Clara Gueiros) e Clemência (Dani Barros) acabarão se relacionando amorosamente na trama inédita de Thereza Falcão e Alessandro Marson.

De acordo com a publicação, tudo terá início quando a irmã adotiva de Quinzinho (Augusto Madeira) resolver novamente partir do Brasil, fato este que fará com que a personagem de Dani Barros fique completamente decepcionada, a ponto de se trancar em seu quarto para não querer sair mais de lá. Porém, a arqueóloga decidirá ter uma conversa séria com a mulher.
Não foi isso que você sempre quis? Ser a dona do Cassino, que você tanto ama? Conseguiu!”, disparará Vitória. 
Você se acha tão inteligente, mas não entendeu nada! Amava o Cassino porque você estava junto comigo! E isso me deu uma vida nova! Uma vida que nunca imaginei que pudesse desejar tanto!”, confessará Clemência.
Sem entender o que a amiga quis dizer, a personagem de Maria Clara Gueiros pedirá para ela traduzir e, então, ouvirá:
Jura que você ainda não percebeu? Ou está fingindo? Me apaixonei por você, Vitória! Eu te amo!”, soltará a mãe de Hilário (Theo de Almeida).
Diante disso, Vitória se mostrará chocada com a revelação e logo pedirá para ela passar uma borracha nessa história. Contudo, a filha de Ana (Isabelle Drummond) e Joaquim (Chay Suede) voltará atrás em sua decisão minutos depois.
Depois do que você me falou, pensei muito nessa minha ida a Paris. E resolvi botar um ponto final nessa história”, dirá Vitória. “O que você quer dizer com… ‘ponto final’?”, indagará Clemência.
Será, portanto, nessa hora que a veterana abrirá o jogo e confessará:
Não vou mais a Paris nem a lugar nenhum! Vou ficar aqui. Por você. Por nós!”.
Ao final, por incrível que parece, as duas darão um beijo apaixonado, nas cenas que vão ao ar somente nos últimos capítulos da sua novela das seis.

Clipping Bomba! Vitória e Clemência se relacionarão na reta final de Nos Tempos do Imperador", Resumo das Novelas, Metrópoles, 11/01/2022

ChanacomChana 1: resgate e edição comentada

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021 2 comentários

Capa Helena A. © coleção ChanacomChana Míriam Martinho

Em dezembro de 1982, era lançado o primeiro número do boletim Chanacomchana seguido de outros 11 números (ver resgate do CCC 1 aqui, CCC2 aqui, CCC 3 aqui, CCC 4 aqui, CCC 5 aqui, CCC6 aqui, CCC 7 aqui, CCC 8 aqui, CCC 9 aqui, CCC 10 aqui, CCC 11 aqui, CCC 12 aqui). Neste artigo, abordo o ChanacomChana 1, não sem antes falar do contexto histórico e político de onde o periódico emerge, fundamental para entender sua produção e conteúdo (ver mais informações em Memória Lesbiana: 41 anos de ChanacomChana  aqui).

Grupo Ação Lésbica-Feminista (GALF) e sua primeira publicação, o boletim Chanacomchana, nascem durante o primeiro ciclo do MHB (Movimento Homossexual Brasileiro) também chamado de ciclo libertário (78-83/84) porque nele prevaleciam as ideias da Contracultura, aquele grande guarda-chuva de movimentações e movimentos socioculturais e comportamentais que se inicia já nos anos 50, percorre as décadas de 60 e 70, terminando no início dos anos 80. Retomando elementos do anarquismo e do romantismo, a Contracultura vai priorizar a revolução individual, politizando o cotidiano e as inter-relações humanas (o privado é político) e retomando a máxima gandhiana de que as pessoas tinham que se tornar a mudança que queriam ver no mundo. Não havia interesse na tomada de poder do Estado, objetivo dos partidos políticos, mas sim na revolução molecular dos grupos discriminados e oprimidos que unidos superariam a incompetência da América católica e seus ridículos tiranos (Enquanto os homens exercem seus podres poderes, índios e padres e bichas, negros e mulheres e adolescentes fazem o carnaval - Caetano Veloso).

Na prática, os grupos daquele incipiente movimento se preocupavam com a não reprodução da política tradicional, suas hierarquias, disputas de poder, discursos da boca para fora, e tentavam (com pouco sucesso) não reproduzir suas mazelas. Nesse sentido também, pregavam a autonomia dos movimentos sociais em relação aos partidos políticos, uma das bandeiras de maior bom senso daquela época. O GALF era tributário dessas ideias (vide o texto Autonomia), via esquerda libertária, das ideias do feminismo de segunda onda, com seu questionamento dos papéis sexuais, e das correntes do separatismo lésbico do também incipiente movimento lésbico internacional.

A Revolução DIY
Todo esse amálgama de ideias e inspirações aparecem nas páginas do Chanacomchana do seu período inicial e nele permanecem no período posterior, de 1985 em diante, apesar do afã revolucionário contracultural do MHB ir sendo paulatinamente substituído pelo reformismo pragmático de grupos como o GGB e o Triângulo Rosa.

Também do ponto de vista gráfico, o CCC vai seguir a ética e a estética contracultural do "Do It Yourself - DIY" (Faça você mesmo) matriz, entre outras produções, dos fanzines produzidos artesanalmente, com colagens e mistura de tipos gráficos, e, no conteúdo, com uma miscelânea de textos políticos, tirinhas, desenhos, poesias, depoimentos, notícias e app arcaico de namoro (o Troca-cartas). Nas vendas, o corpo a corpo junto ao público-alvo ou, posteriormente, via correios através do sistema de associação.

Nem o GALF nem o ChanacomChana refletem qualquer luta contra a ditadura militar mesmo porque seu contexto histórico é o do governo da abertura do general Figueiredo, da redemocratização, que se iniciara com a revogação do AI-5 em 13/10/78, ainda sob o governo Geisel. De fato, o governo Figueiredo foi uma democratura, uma convivência de elementos ainda autoritários do regime em decomposição com aumento crescente de características democráticas caminhando a passos largos para o restabelecimento do poder civil. Embora a censura, só revogada com a Constituição de 1988, ainda existisse no período, ela não vitimou o GALF ou o ChanacomChana em momento algum. Tal fato pode ser constatado facilmente pela simples leitura dos Chanas onde não se encontram sequer informes referentes ao regime militar, muito menos registro de qualquer arbitrariedade que tenhamos sofrido dos militares. O GALF e suas publicações foram, de fato, insurgências contra a ditadura da heterossexualidade obrigatória praticamente onipresente do período.


Chanacomchana nº – Edição comentada

 Sumário

 GALF - ILIS -  p. 1
 O Lesbianismo e um barato -  p. 2
 Mulher de chuteira -  p. 3
 Carta por Sandra Mara -  p. 5
 I Festival Nacional de Mulheres nas Artes - p. 6 
 Informes: encontro de grupos homossexuais 
 com o governador Franco Montoro; caso Antonio   
 Crisóstomo; SOS-Mulher  -  p.10   
    
 

Em dezembro de 1982, era lançado o ChanacomChana 1, que se insere no período inicial do GALF (10/81 a 08/ 85) correspondente à fase em que a organização adota o histórico do coletivo que o precedeu, o Grupo Lésbico-Feminista (05/1979-06/1981), divide sedes com o grupo gay Outra Coisa de Ação Homossexualista e promove a hoje célebre invasão do Ferro’s Bar. Também é o período em que o grupo vive vários conflitos com o Movimento Feminista por este não incorporar a questão lésbica à sua agenda oficial.

Por ser a primeira edição do boletim CCC, ela ainda não tem a separação por seções que vou introduzir nos números posteriores, apesar de já aparecerem os informes.

Informes, p. 1 (Míriam Martinho)

O boletim se inicia com alguns informes sobre o GALF, ainda intitulado então de Grupo de Ação Lésbico-Feminista, e sobre o Serviço de Informação Lésbica Internacional (ILIS), organização criada por lésbicas europeias que vai ter grande importância na expansão do movimento lésbico para além da Europa e dos EUA nos anos 80 e 90.

"Não sofra calada", ©Míriam Martinho, 08/07/1982
- Crítica ao grupo feminista SOS-Mulher

O Lesbianismo é um barato, p. 2 (Míriam Martinho)

No primeiro texto que escrevi para a coleção CCC, O Lesbianismo é um Barato, e ilustrei com a tirinha Não Sofra Calada, também de minha autoria, eu criticava a postura do grupo feminista SOS Mulher, um coletivo feminista que, embora dissesse lutar contra a violência sobre as mulheres, não abordava a violência específica contra as lésbicas.

No texto, eu me remetia a uma gíria da época, “barato”, sobre os efeitos prazerosos do uso de algumas drogas. Equivale ao “brisa” atual. No entanto, significava também uma coisa muito legal. Várias gírias da época vieram do mundo dos usuários de drogas, mas que adquiriram acepções mais abrangentes. “Careta” era a princípio quem não tomava drogas, mas se expandiu para designar pessoa muito certinha, conservadora. Ficar de bode era fundamentalmente um pós viagem ruim de drogas, mas se expandiu para estar deprimido, de mau humor. Enfim, ainda estávamos sob os eflúvios da Contracultura e sua muito conhecida apreciação pelas drogas de vários tipos que influenciavam inclusive as gírias.

Nesse texto, então, eu afirmava que o lesbianismo era uma coisa muito boa, um barato, mas o preço que a gente pagava para curtir esse barato era bem caro. Coerente com a visão do GALF do lesbianismo como algo político, transcendendo à orientação sexual, vou dizer que o lesbianismo era um barato porque propunha o amor entre as mulheres bem no meio das estruturas ultramisóginas do sistema patriarcal. Também por demonstrar que as mulheres não estavam tão ilhadas nas diferenças de classe, “raça” ou sexualidades, a ponto de não poderem trabalhar juntas, pois inclusive as lésbicas eram negras, brancas, mães, operárias, donas de casa e frequentemente tinham intersecções com todas as mulheres.

Mulher de Chuteira (p. 3-4)

Mulher de Chuteira- Charge
Míriam Martinho para CCC1

Entrevista com jogadoras de futebol feminino da boate lésbica Moustache, Mulher de Chuteira (p. 3-4) feita pelo coletivo do GALF da época. Vale lembrar que o futebol feminino foi vetado por Getúlio Vargas em 14 de abril de 1941, via o Decreto-Lei 3.199, art. 54, que proibia as mulheres de praticar esportes que não fossem "adequados a sua natureza". No início da ditadura militar, em 1965, o Conselho Nacional de Desportos (CND) citou nominalmente os esportes proibidos para as mulheres, como "lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo-aquático, Rugby, halterofilismo e beisebol”. Entretanto, ainda na vigência do regime militar, o decreto do Vargas foi extinto em 1979, e o futebol feminino regulamentado em 1983. Ou seja, um pouco depois da entrevista das jogadoras ao Chana em que pediram para não ter seus nomes citados. Em 11/08/2024, as jogadoras brasileiras de futebol trouxeram novamente a prata olímpica de volta ao Brasil.

Carta por Sandra Mara 
(Rosely Roth)

Texto, de Rosely Roth, sobre a ex-interna da FEBEM Sandra Mara Herzer que se suicidara em 9 de agosto de 1982 e sobre o livro A Queda Para o Alto, lançado em outubro de 1982, contendo um misto de poesias e relatos de Sandra sob o pseudônimo de Anderson Herzer. Acompanha também o texto de minha autoria do panfleto Carta por Sandra Mara que o GALF distribuiu na Assembleia Legislativa de São Paulo por ocasião do lançamento do livro. Vale ressaltar que Sandra Mara, apesar de adotar persona e pseudônimo masculinos, não era nenhum "homem trans", pois não havia tal identidade na época. Lésbicas masculinizadas eram chamadas somente de sapatões, franchonas, caminhoneiras, etc. Reescrituras da história, retratando, como "homens e mulheres trans", gays e lésbicas que representavam estereótipos de gênero atribuídos ao sexo oposto ao seu, não passam de anacronismo, algo a ser evitado por qualquer pessoa que queira ter alguma credibilidade intelectual.

I Festival Nacional De Mulheres Nas Artes, p. 6 (Míriam Martinho e Rosely Roth)

Matéria sobre o Festival de Mulheres nas Artes (3-12/09/1982), p. 6 a 10, que teve como principal organizadora a atriz Ruth Escobar (também foi deputada estadual), personalidade de destaque do período. A matéria foi redigida por mim e Rosely, registrando nossas impressões sobre esse evento tão diverso e rico em vários sentidos. Fora as programações artísticas propriamente ditas, o Festival promoveu o futebol feminino que, pela primeira vez, entrou no estádio do Morumbi, e trouxe palestras com expoentes do feminismo internacional como Kate Millet, Dacia Maraini, Antoinette Fouque, estas duas últimas falando das implicações políticas da lesbianidade, algo bem oposto ao discurso da lesbianidade como opção sexual vigente no feminismo brasileiro da época. São abordagens provocativas que resistiram ao tempo e valem a leitura. A matéria registra ainda a censura à música "Franchitude de Francha" (Gisele Fink-Míriam Martinho) que foi proibida de concorrer, pela censura federal, no Festival Feminino da Canção para o qual havia sido aprovada. A música era uma paródia das relações tumultuadas das sapatas do Ferro's Bar, muito influenciada pelas músicas do cantor e compositor Eduardo Dussek.

O GALF redigiu uma nota de protesto contra a censura que reproduzo por ser um exemplo das diferenças de pensamento entre o ativismo daquela época e de hoje. Atitudes censórias eram típicas do governo militar que nos governava há quase duas décadas. Daí a frase: "Acreditamos que toda e qualquer censura é uma violência a um direi­to intrínseco de todo ser humano: o direito a expressão de seu pensamento."

O ativismo de hoje, sob a desculpa de combater discursos de ódio (e praticamente tudo virou discurso de ódio), não faz outra coisa que não querer censurar tudo e todos que não sigam por suas linhas tortas via cultura do cancelamento. Nesse afã, como os ditadores do passado, "destroem a criação, a consciência, a crítica positi­va, a liberdade, o bom humor, o ser humano..."
Liberdade, abra as asas sobre nós

O FESTIVAL NACIONAL DAS MULHERES NAS ARTES representou uma oportunidade para que nós, mulheres, pudéssemos mostrar nossos trabalhos há tanto tempo silenciados pela cultura masculina. 
E é esta mesma cultura, da qual tantas vezes gomos cúmplices, que como não poderia deixar de ser, manifestou-se concretamente durante este Festival. A música "Franchitude de Francha", classificada na terceira eliminatória, foi proibida pela censura federal. Acreditamos que toda e qualquer censura é uma violência a um direi­to intrínseco de todo ser humano: o direito a expressão de seu pensamento.
A liberdade é como uma máquina nova, enquanto não se tiver contato com ela, não será possível aprender a manejá-la. Proibir a música "Franchitude de Francha" é manter ideias pré-concebidas que destroem a criação, a consciência, a crítica positi­va, a liberdade, o bom humor, o ser humano, um povo .

Liberdade, abra as asas sobre nós." (p. 7)

Informes, p. 10 (Míriam Martinho) 

Na última página do CCC1, voltamos aos informes, com destaque para a notícia do encontro das organizações civis da época com o governador Franco Montoro, eleito na primeira eleição direta para o Palácio dos Bandeirantes desde 1962. Neste encontro, o GALF reivindicou o fim do parágrafo 302.0 que rotulava a homossexualidade como doença, o direito dos casais homossexuais à custódia de seus filhos e à adoção de crianças, etc...

CCC 1dez. 1982  © Coleção ChanacomchanaMíriam Martinho

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