Memória Lesbiana: 40 anos do Grupo Ação Lésbica Feminista (GALF) entre fato e ficção

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Míriam e Rosely barradas no Ferro's Bar em 19/08/1983


Há 40 anos, oficialmente no dia 17 de outubro de 1981, eu fundava, com Rosely Roth e colaboradoras, o Grupo Ação Lésbica Feminista (GALF), estatutariamente sob o codinome de Grupo Ação de Liberação Feminista. O registro do grupo como feminista, preservando a sigla “GALF”, visava evitar problemas com os cartórios (que costumavam dificultar o registro de grupos de gays e lésbicas na época) e pragmaticamente atender nossas necessidades de abrir conta em banco, ter uma caixa postal, receber dinheiro via vale postal e outras formalidades. Visava também proteger  as lésbicas que nos escreviam (a maioria no armário), caso tivessem que escrever o nome do grupo por extenso. O grupo ficaria incomunicável, entre a maioria das sapatas da época, se usasse a palavra lésbica para esses trâmites institucionais. Outros grupos do período encaravam o registro no cartório até como parte da luta homossexual, mas nós avaliávamos que, na relação custo-benefício, não valia o custo. Além disso, para uma organização que vendia um boletim com o nome “Chanacomchana”, assumir-se no cartório era o de menos.


Neste resgate, retomo partes do texto 19 de agosto: há 38 anos o GALF invadia o Ferro’s Bar, onde já abordara a trajetória do GALF, mas trazendo novos dados e esclarecimentos sobre a hoje histórica e muito mistificada sigla. Neste texto, busco em particular desconstruir um pouco essas mistificações. Para tal, entre outras coisas, divido a trajetória do GALF em dois períodos: do início em outubro de 81 até meados de 1985 e de meados de 1985 até seu final em 1989 (oficialmente em março de 1990).


O período inicial do GALF (10/81 a 08/ 85) corresponde à fase em que a organização adota o histórico do coletivo que o precedeu, o Grupo Lésbico-Feminista(05/1979-06/1981), divide sedes com o grupo gay Outra Coisa de Ação Homossexualista e inicia a produção do boletim ChanacomChana a partir de dezembro de 1982, além de promover a hoje célebre invasão do Ferro’s Bar. Também é o período em que o grupo tentou sem sucesso fazer com que o Movimento Feminista incorporasse a questão lésbica à sua agenda oficial.


O segundo período, de meados de 1985 a 03/1990, corresponde ao fim da identificação do GALF com seu predecessor LF (pela constatação de que de fato não houvera uma continuidade real entre os dois coletivos); à perda das sedes públicas (as reuniões do grupo passaram a ocorrer em meu apartamento); à maior divulgação do grupo, em particular pelas aparições de Rosely Roth na mídia impressa e televisiva, à aproximação com o incipiente movimento lésbico internacional, à participação em encontros lésbicos internacionais e ao progressivo distanciamento do movimento feminista que culminaria com o fim da própria organização.

GALF primeira fase (10/81 a 08/85): problemas de identidade


Nos seus primeiros 3 anos e meio aproximadamente (de outubro de 1981 a meados de 1985), o GALF vai adotar a trajetória do Grupo Lésbico Feminista (LF), coletivo que o precedeu, fato observável nos históricos que eu mesma redigi nos boletins ChanacomChana até sua oitava edição (agosto de 1985). Como hoje existe muita fabulação sobre o GALF, com gente se dizendo integrante do mesmo sem nunca ter sido, vale aprofundar esse tema, esclarecendo a parte que possivelmente nos toca nessas mistificações.


A incorporação da trajetória do Lésbico-Feminista ao histórico do GALF, em seus primeiros anos, se deveu a uma somatória de fatores, entre simplórios e surreais, que criou uma ilusão de continuidade em nossas cabeças: a sede que Rosely encontrara, no centro de São Paulo (Praça da República), onde também nos conhecemos, ter sido pensada para o lésbico-feminista (que morreu na praia); eu e Rosely termos vindo, a partir de momentos distintos desse coletivo; o tempo que separava o fim do LF do início do GALF ter sido ínfimo (em torno de 4 meses) e, sobretudo, nossa decisão de continuar com um grupo específico de lésbicas em vez de submergir nossa identidade em alguma identidade feminista genérica (lero muito em voga na época). Fora também algum sentimentalismo barato pelo fim do coletivo anterior.

Vendo em perspectiva, deveríamos ter deixado o Lésbico-feminista morrer em paz em vez de ter-lhe dado uma sobrevida artificial de três anos e meio. Deveríamos ter fundado um outro grupo lésbico-feminista, mas com nome bem distinto do anterior, já que eu e Rosely estávamos também iniciando uma interação (não estivemos juntas no LF). De qualquer forma, o GALF só vai ter três assinaturas e uma única identidade: a do cartório,
Grupo Ação de Liberação Feminista, Grupo de Ação Lésbico-Feminista (como aparece nos dois primeiros números do Chana, 82-83) e Grupo Ação Lésbica-Feminista de maio de 1983 em diante.

 
Neste ano de 1983, [...], decidimos optar finalmente por nos chamarmos Grupo Ação Lésbica Feminista, abdicando da concordância com a palavra grupo, como ocorria com a maioria das outras denominações, e colocando tudo no feminino (CCC 3, p.2.).


Só a partir de meados de 85, nos cai de vez a ficha de que a suposta continuidade entre os dois coletivos não só nunca existiu de fato como, ao contrário, na verdade, o que houve foi ruptura entre ambos, ruptura e abandono. A maioria das lésbicas que participou do lésbico-feminista ou deixou a militância ou se meteu no armário do heterocêntrico movimento feminista do período, algumas inclusive agindo paradoxalmente como agentes de invisibilização lésbica. Em consequência, já nos ChanascomChana de 9 a 12, cessam os históricos do GALF, onde aparecia incorporada a trajetória do LF (nos números 11 e 12 do Chana desaparece inclusive o logo LF), processo que continua nos boletins Um Outro Olhar, do número 1 ao número 8, também publicados pelo GALF.

 

No final de 1986, num histórico do ChanacomChana para associadas do GALF, eu já fazia um ajuste de contas com os fatos e separava o GALF do LF (ver mais no tópico sobre a segunda fase do GALF) . E, no último histórico do GALF que publiquei no boletim Um Outro Olhar 9, de novembro de 1989, de fato um balanço da primeira década de mobilização lésbica no Brasil, 1979-1989: 10 anos de movimentação lésbica no Brasil (p.8-17), repito essa  conscientização aí já pra lá de consolidada. Nesse balanço, o histórico do Grupo Lésbico-Feminista é apresentado como realmente se deu, de maio de 1979 até meados de 81 (oficialmente até outubro de 1981), e o do Grupo Ação Lésbica Feminista (GALF), a partir de outubro de 81 até seu término extraoficial no final de 1989. Essa separação não foi, claro, uma negação dos históricos que escrevi nos primeiros números do ChanacomChana, que incluíam as atividades do LF como parte das do GALF, mas sim um ajuste de contas com os acontecimentos e uma depuração da identidade dos dois coletivos que de comum só tiveram mesmo duas ativistas e o termo lésbico-feminista. Não raro nossos desejos não combinam com os fatos.


Vale salientar outros aspectos distintivos entre os dois coletivos como o contexto em que se desenvolveram e sua composição. O Grupo Lésbico-Feminista, surge, a princípio, como um subgrupo do grupo Somos, em maio de 1979, e sofre grande influência deste em seu perfil. Vai ser, em seu breve tempo de existência, um grupo fundamentalmente  de socialização e pegação com um núcleo de militância. Nesse sentido, chegou a ter umas 30 mulheres circulantes, mas com no máximo 10 delas tendo algum ativismo real. Vai emergir no momento de ascensão do primeiro ciclo do movimento homossexual no Brasil, de 79 a 80,  ainda sob os eflúvios contraculturais, e desaparecer com o início do refluxo desse movimento em meados de 81. As polêmicas que enfrentou foram relativas a seu posicionamento no racha do Somos (Lampião, n. 25, p. 8), ao tema da autonomia do movimento homossexual frente às tentativas de cooptação da esquerda ortodoxa (Convergência Socialista) e o impacto de sua entrada no heterossexista movimento feminista do período. Era um coletivo mal alinhavado, muito anárquico, que não conseguiu adquirir consistência para sobreviver mais do que dois anos. Apesar de haver mantido uma única identidade natural, Grupo Lésbico-Feminista (LF), caracterizou-se por ter mais assinaturas do que tempo de vida, incluindo uma que excluía o termo lésbica (sic). Foi logo absorvido pelo movimento feminista.


O GALF, por outro lado, já começou como um grupo autônomo, tendo seu registro em cartório como ponto de partida. Vai se desenvolver no período de esvaziamento do movimento homossexual que se inicia em meados de 81 e se mantém por toda a década de 80. Sempre foi um grupo pequeno, com uma média de 5, 6 integrantes durante sua longa trajetória, e com um perfil fundamentalmente de estudo e militância. Nada do clima “relações abertas, sexo, drogas e rock’n´roll” característico do LF, ainda que também tenha formado namoradas em seu tempo de existência. Perto do LF, o GALF era careta, felizmente. Conseguiu obter a consistência necessária para sobreviver cerca de longos 8 anos e meio, sobretudo em função da produção e venda dos boletins ChanacomChana e Um Outro Olhar. Como desafios, enfrentou o questionamento da identidade lésbica-homossexual que levava inevitavelmente à desmobilização política, o heterossexismo do movimento feminista que hostilizava a politização das questões lésbicas, a perda das sedes públicas, no início de 1985, e o esvaziamento do movimento homossexual. Foi um coletivo de resistência e vanguarda (num contexto particularmente adverso) que o movimento feminista nunca conseguiu deglutir. E, como já dito, teve apenas uma identidade fundamental: Grupo Ação Lésbica Feminista.

 

Destaques da linha do tempo da primeira fase do GALF (10/81-08/1985):

Com o Movimento Homossexual do período
, sobretudo na parceria com o grupo gay Outra Coisa, o GALF desenvolveu várias atividades, com destaque para:

jun. de 82 (com o Outra Coisa): “Viva a Homossexualidade” (debates sobre feminismo e lesbianismo e política e desejo; exibição dos filmes “O homem que deu cria” e “Trotta” na sede dos dois grupos. E debate sobre “homossexualismo e partidos políticos” no Teatro Ruth Escobar).

ago. de 82: encontro com o psicanalista e filósofo Félix Guattari na sede do GALF-Outra Coisa.


out. de 82: debate sobre feminismo e homossexualismo com representantes de todos os partidos políticos na sede do GALF-Outra Coisa.


dez. de 82 (9): Encontro do GALF e do Outra Coisa e outras entidades civis com o governador recém-eleito Franco Montoro (o primeiro a ser diretamente eleito ainda sob o regime militar). Foram reivindicadas, entre outras coisas, que o Secretário da Segurança Pública pusesse fim às prisões arbitrárias de homossexuais feitas pela polícia civil e militar e ao Secretário de Saúde que apoiasse a exclusão do parágrafo 302.0 do Código de Saúde do Inamps que rotulava o homossexualismo como “desvio e transtorno sexual”.

05 de abril de 1983: Encontro com o Secretário de Segurança de São Paulo, Manoel Pedro Pimentel, onde reivindicou um tratamento menos preconceituoso das forças de segurança em relação a gays e lésbicas, repetindo a reivindicação já feita ao governador.

23 a 29/05/1983: Debate sobre Autonomia e os Grupos Alternativos com representantes de grupos homossexuais, de feministas e negros. Mostra de arte gay e lésbica; exibição dos vídeos “A Dama do Pacaembu” e “A Mulher de Barba”, de Rita Moreira, e do filme alemão “Henrique”. Festa no Teatro Ruth Escobar

19/08/1983: Manifestação do Ferro’s Bar – após serem proibidas de vender o boletim ChanacomChana, no Ferro’s Bar, tradicional ponto de encontros da lésbicas paulistanas e de todo o país, em 23/07/1983 e de distribuir panfleto, em 13/08/1983, convocando para a manifestação, as integrantes do GALF, com seu parceiro Outra Coisa, e outros grupos gays e feministas “invadiram” o Ferro’s Bar e obtiveram dos donos do bar o direito a vender o boletim sem problemas. As integrantes do GALF que participaram da manifestação foram Célia Miliauskas, Elisete Neres, Luiza Granado, Míriam Martinho, Rosely Roth e Vanda Frias. Entre os gays identificáveis pelas fotos, Ricardo Calil Cury e Antônio Carlos Tosta (do Outra Coisa) e Nestor Perlongher, na época do Somos (entre os gays, há outros atores a identificar nas fotos) Entre as feministas, Bete Feijó, Maria Teresa Aarão (Teca), Sonia Álvarez, Míriam Botassi e Regina Estela.

Elisete Neres foi uma das integrantes do GALF que participou
da manifestação do Ferro's Bar e acaba de partir. R.I.P.


Agosto de 83
– perda da sede da Rua Aurora, por excesso de atividades no espaço (sic.). O GALF e o Outra Coisa vão ocupar, durante o segundo semestre de 1983, a sede que fora do Grupo Somos que se extinguira, na Rua da Abolição, na Bela Vista, e, de janeiro a março de 1984, um apartamento na rua Teodoro Baima, na República, perto do início da Consolação. Após a desestruturação do Outra Coisa, no final de março de 1984, o GALF tenta dividir um espaço com o CIM, de abril a dezembro de 1984, quando arbitrariamente este grupo despeja o GALF do local em 21/12/1984 (exemplo de sororidade feminista).

Com o Movimento Feminista do período, o GALF participou de várias atividades, tais como:


março de 1982 – participação no 8 de março, Dia Internacional da Mulher, com venda de camisetas, distribuição do tabloide ChanacomChana 0 e um texto sobre a data. Também interferimos para que se colocasse uma cena sobre a violência contra lésbicas no teatrinho que o grupo SOS-Mulher apresentou no evento.

início de maio de 1982 – participação no intitulado “happening” do Ibirapuera, onde o grupo montou uma barraquinha para vender camisetas, livros e frutas anunciadas com plaquinhas que diziam “coma uma frutinha para transar com sua vizinha” ou “o enrustimento mata“.

julho de 1982 - participação no IV Encontro Nacional Feminista, Campinas, São Paulo

Set. de 82 – Participação do Festival das Mulheres nas Artes onde fez contatos e entrevistas com feministas internacionais como Antoinette Fouque (França), Dacia Maraini (Itália) e Kate Millet (EUA). Também passou uma moção de repúdio contra a proibição da música Franchitude de Francha, pela Censura, e garantiu que fosse apresentada hours concours.


mar. de 1983 – participação na organização do 8 de março e da festa política referente à data no Museu de Arte de São Paulo.


mar. de 83 – encontro com a feminista Dacia Maraini que voltara ao Brasil entre março e abril para dar um curso de roteiro na Faculdade Armando Álvares Penteado (Mulherio, ano III, n. 13, maio/junho de 1983). Em históricos do GALF consta que esse encontro teria se dado na sede do GALF, mas não é fato. As fotos do encontro mostram outras dependências.

abr. de 1983 – Intervenção num debate sobre Sexualidade e Violência, do grupo SOS Mulher, ocorrido no Sindicato dos Jornalistas, onde entramos de máscaras, para simbolizar a situação da mulher homossexual, e distribuímos o texto intitulado Sobre Violência, onde conclamávamos o movimento feminista a também defender as lésbicas.


Set. de 1984 - GALF consegue passar trechos de texto sobre saúde lésbica, que também propunha a exclusão do código 302.0, num documento feminista apresentado durante I Congresso Brasileiro de Proteção Materno-Infantil no Senado Federal.

Nov. de 1984 – Participação no I Encontro Nacional de Saúde da Mulher, dos dias 15 a 18 de  novembro, em Itapecerica da Serra.


Maio de 1985  – Participação de Rosely Roth no primeiro programa da Hebe Camargo sobre “homossexualismo feminino” no dia 25 de maio de 1985.



Destaque do GALF não relacionado diretamente ao movimento homossexual ou feminista (vale salientar que a participação do GALF em encontros, congressos, simpósios, etc., foi intensa. Aqui registrei só alguns eventos).


jun. 1985 (29)- Vivências Lésbicas –  atividade com apresentação do filme Liana e do programa Hebe Camargo com participação de Rosely Roth, seguido de debate com participação da vereadora Irede Cardoso, do psiquiatra Ronaldo Pamplona da Costa e da integrante do GALF Rosely Roth.

ChanascomChanas: produzi e editei neste período 8 edições do ChanacomChana, a saber:

Dez. 82 - publicação do CCC 1
Fev. 83 - publicação do CCC 2
Maio 83 – publicação do CCC 3
Set. 83 – publicação do CCC 4
Maio 84 – publicação do CCC 5
Nov. 84 – publicação do CCC 6
Abr. 85 – publicação do CCC 7
Ago. 85 – publicação do CCC 8

GALF segunda fase (08/85 até 1989): Separando o Joio do Trigo, tornando-se nacional e internacional

A partir de agosto de 1985, como já dito anteriormente, caiu de vez a ficha do GALF de que a suposta continuidade entre ele e o coletivo do grupo lésbico feminista, cujo histórico adotara a princípio, não só nunca havia existido de fato como, ao contrário, na verdade, o que houvera fora ruptura entre ambos, ruptura e abandono. Um evento do qual o GALF participou, o III Encontro Feminista Latino-Americano e do Caribe, ocorrido em Bertioga, região litorânea de São Paulo, dos dias 31 de julho a 4 de agosto, funcionou como o estalo que faltava sobre essa realidade. Neste evento, o GALF vai se encontrar com outro GALF (o Grupo de Autoconsciencia de Lesbianas Feministas), do Peru, com quem já se correspondia, e organizar uma reunião lésbica ao ar livre perto de um bar da colônia de férias que acolhia o encontro. Nessa reunião, lésbicas latino-americanas, do Canadá, EUA e Europa relataram que, para seus respectivos Movimentos Feministas, a questão lésbica ainda era um tabu, sendo ou simplesmente omitida ou abordada raramente e de forma superficial. Dessa reunião, participaram ex-integrantes do LF (Grupo Lésbico-Feminista -05/1979-06/1981), como Marisa Fernandes e Vilma Monteiro, que até deram seus pitacos, mas não demonstraram qualquer interesse em voltar a ter uma militância lésbica. Pareciam estar ali a passeio numa reunião social.

"Não sofra calada", Míriam Martinho, 08/07/1982 - Crítica ao grupo feminista SOS-Mulher


Retomando, das lésbicas que participaram do LF, uma boa parte migrou para o grupo SOS-Mulher que, enquanto existiu, de outubro de 80 até agosto de 1983, tornou-se arqui-inimigo do GALF pois, apesar da presença marcante de lésbicas na organização, pregava que as sapatas deveriam submergir a identidade lésbica na identidade feminista e trabalhar para melhorar a vida das mulheres heterossexuais, esquecendo da própria. A falta de consciência  era tal que até a violência contra as mulheres míopes era abordada pelo grupo, menos a violência contra as lésbicas. Uma das plantonistas da entidade, Teresa Vilalba, veio até a sede do GALF pedir nossa ajuda para bolar uma cena contra a violência contra as lésbicas, no teatrinho do SOS, porque no próprio não conseguia achar alguém que a ajudasse. Nossas respostas a esse grupo se deram na forma de tirinhas irônicas (desenhos), intervenções, debates, sempre gerando enormes pitis de parte das alienadas. E, claro, o mais maluco da história é que boa parte das alienadas vinha exatamente do primeiro coletivo de lésbicas brasileiro, o Lésbico-Feminista.

Outras que haviam deixado o lésbico-feminista e sumido do mapa, como as citadas Marisa Fernandes e Vilma Monteiro, embora não fossem hostis à organização lésbica, como as do finado SOS-Mulher, também aderiram ao “clube das comadres feministas homossexuais do armário político” e faziam de conta que a questão lésbica não era mais com elas.

Como poderia então o GALF que pregava postura exatamente oposta à dessas mulheres ter algo a ver com elas? Algo de errado não estava mesmo certo, e vimos que era hora de acertar os ponteiros do relógio. Num histórico sobre o Chanacomchana, provavelmente do final de 86 (pois Rosely começara a aparecer em programas de TV, no final de 1984), enviado às associadas do GALF, eu dizia:


[...] Nos últimos dois anos, em consequência da divulgação do trabalho do GALF, através da televisão e de alguns jornais, o ChanacomChana vem se tornando mais conhecido das lésbicas brasileiras, tendo se expandido para outros estados além de São Paulo. Por meio de sua publicação, temos podido conhecer mais da nossa própria realidade, enquanto lésbicas, e podido reorientar nossas abordagens para melhor adequá-las a nossas vivências.

 

No início desse histórico do Chana, eu afirmava, fazendo a já bem atrasada retificação:


ChanacomChana foi publicado, pela primeira vez, em janeiro de 1981, como um pequeno jornal, pelo coletivo que compunha o Grupo Lésbico-Feminista (1979-1981). Nesse mesmo ano, também foram feitas outras tentativas de editar um novo número do jornal, então com a participação de mulheres de outros grupos, mas a divergência de ideias quanto à linha de publicação a ser seguida levou ao abandono do projeto. Ainda em 1981, o próprio Grupo Lésbico-Feminista desmobilizou-se, sendo que a maioria de suas integrantes deixou de atuar politicamente. Das que continuaram militando, algumas partiram para atividades em outros grupos feministas enquanto outras, entre as quais me incluo, decidiram dar continuidade a um trabalho especificamente lésbico.

Demos o nome de Grupo Ação Lésbica Feminista (GALF) a essa nova fase de atuação onde passamos a enfatizar mais a leitura de textos e a desenvolver ações voltadas também para lésbicas não-feministas.

 

Destaques da linha do tempo da segunda fase do GALF (08/85 até 1989):

segundo semestre de 1985  

Aproveitando a abrangência que o grupo adquiriu, graças a sua divulgação pela mídia da época, o GALF iniciou seu sistema de associação, forma de arrecadar fundos junto às lésbicas oferecendo informativos com serviços de correspondência pessoal, guia de bares e boates, históricos do CCC e do GALF, endereços de outros grupos de gays e lésbicas, indicações de livros (cópias do mesmos inclusive) e programação de eventos públicos da organização. Nesse momento, o CCC ainda era vendido separadamente da associação, o que mudará em 1988.

Também tivemos a visita de duas integrantes do grupo suíço Vanille Fraise (baunilha-morango), Toni e Viviane, que representava o ILIS (Serviço de Informação Lésbica Internacional) nesse período e iria organizar a 8ª Conferência do Serviço de Informação Lésbica Internacional em março de 1986. Elas vieram nos conhecer e, posteriormente, financiaram a minha passagem aérea  para a Conferência em Genebra. Toni era espanhola, mas também falava português, o que facilitou bastante a conversa.

Manifesto pelo Asilo Político de Lésbicas
de todos os países - ILIS

mar. 1986 - Participação na 8ª Conferência do Serviço de Informação Lésbica Internacional (ILIS), em Genebra, na Suíça. Fui acompanhada de uma colega e colaboradora do GALF, Denise Bretas, que se autofinanciou. Sem dúvida, o encontro mais interessante e emocionante de que participei. Lésbicas de várias partes do mundo, fora as europeias naturalmente, trocando experiências de como era ser lésbica nos países os mais diversos. Desta conferência fundamental, decorreram vários encontros regionais na América Latina e Ásia, realizados nos anos seguintes. Na passeata pela superlimpa e tranquila cidade de Genebra, exclusivamente lésbicas. 


Abril de 1986 – Segunda participação de Rosely Roth no programa da Hebe Camargo para debater “homossexualismo feminino” em 29/04/196. 


7-8 de agosto de 1986 – Participação no 8º Encontro Nacional Feminista com uma oficina sobre lesbianismo que foi a mais concorrida do encontro. 92 mulheres apareceram ao evento, apesar da oficina “misteriosamente” não constar da programação do encontro no dia previsto para sua realização. As lésbicas presentes à reunião solicitaram reuniões só de lésbicas para próximas oficinas, o que nos pareceu importante com vistas à criação de uma futura rede lésbica nacional, o que poderia levar a encontros estaduais e nacionais na perspectiva da criação de um movimento lésbico autônomo.

4 julho de 1987 - Com a perda das sedes públicas, as reuniões passaram a se dar em meu apartamento, mas apenas com as sapatas mais próximas, o que obviamente restringiu bastante a atuação do grupo. Para sanar esse problema, a partir de julho de 1987, o GALF volta a fazer reuniões, agora com suas associadas, em um bar de lésbicas, o Enfin’s Bar, gentilmente cedido por suas proprietárias. No relatório da integrante do GALF, Maria Luiza,  sobre o I Encontro de Associadas do GALF, mais de 30 mulheres compareceram, incluindo duas do Rio, duas do Espírito Santo e uma de Belém do Pará, dando um caráter nacional à reunião.

4 a 6 de setembro –  Participação no 9 º Encontro Nacional Feminista em Garanhuns, Pernambuco, graças à colaboração de Ubiratan da Costa e Silva, do Grupo Lambda – Movimento pela Livre Orientação Sexual

19 de setembro – II Encontro de Associadas do GALF – Também realizado no bar Enfin’s contou com maior número de associadas em sua organização e durou das 9 às 17:00, com o tema “Sexualidade” e a exibição do vídeo “Corações Solitários”.

19 a 26 de setembro – Reunião de Luiza, Míriam e Rosely do GALF com as holandesas Ingrid Zwartjes e Sylvia Borren do ILIS (o secretariado do ILIS estava então com o grupo holandês Interpot – Política Lésbica Internacional) para discutir estratégias de aprimoramento do trabalho do GALF e projetos de financiamento para o grupo. Através desse contato, o GALF teve financiamento de duas passagens aéreas para participar do I Encontro de Lésbicas Feministas Latino-americanas e do Caribe, pela coordenadoria do próprio evento, de mais uma, de modo que fomos em três para o citado encontro.

14 a 17 de outubro – participação no I Encontro de Lésbicas-Feministas Latino-americano e do Caribe. Ver apanhado do evento aqui. Infelizmente, esse encontro que prometia muito para nós do GALF, porque tínhamos conseguido financiamento para três integrantes do grupo, marca o início dos problemas psiquiátricos de Rosely Roth. Ela já havia começado a se comportar de maneira bem estranha logo após as oficinas que fizemos com as integrantes holandesas do ILIS, em setembro. No México, durante o encontro feminista latino-americano e do Caribe, que ocorreu depois do encontro lésbico, ela teve o primeiro surto propriamente dito, vendo e ouvindo coisas que não existiam, tendo sido atendida por uma psiquiatra que se encontrava no evento.

set-dezembro de 1987 – Publicação do primeiro número do boletim Um Outro Olhar, com o qual substituímos o Chanacomchana. 

Fevereiro-Março de 1988 – O precário estado de saúde de Rosely a tirou da militância, e colocou o restante do grupo, que havia voltado a crescer nos últimos anos (de meados de 85 a 87), em marcha ré. Mesmo assim, em 1988, retomamos o sistema de associação do GALF e informamos às associadas que estávamos fazendo a fusão desse sistema com a publicação do boletim Um Outro Olhar, já que as duas atividades em separado tinham se mostrado inviáveis.

1988-1989 – Foram anos em que o GALF se ausentou de atividades externas, dedicando-se à publicação do boletim Um Outro Olhar, que mais uma vez provou ser o eixo de sustentação do grupo, organizando sua biblioteca, ampliando o número de associadas e gestando a Rede de Informação Um Outro Olhar, sua  substituta a partir de abril de 1990. A Rede foi uma decorrência da real experiência do GALF tanto do ponto de vista prático quanto ideológico, sendo mais lesbocentrada do que o GALF. Nos boletins Um Outro Olhar, que foram publicados com maior periodicidade nesses dois anos de 1988-89, já se observa esse maior lesbocentramento, com uma boa participação de lésbicas de todo o Brasil. Me autocitando, no artigo 19 de agosto: há 38 anos o GALF invadia o Ferro’s Bar:

O GALF terminou em função do esgotamento de seu ciclo de ativismo junto ao Movimento Feminista. Ficou claro para suas integrantes o quanto era contraproducente levar as lésbicas para o feminismo e, ao mesmo tempo incentivá-las a sair do armário, quando o próprio Movimento Feminista impunha a despolitização das vivências lésbicas empurrando-as para o terreno do privado, da chamada “opção sexual”. Nada incomum, no período de existência do GALF e até na década de noventa, encontrar grupos feministas formados majoritariamente por lésbicas, mas exclusivamente referentes às chamadas questões de gênero, ou seja, questões voltadas para a resolução dos problemas das mulheres heterossexuais em seus relacionamentos com homens. Não havia mais porque manter um grupo lésbico-feminista nesse contexto. 


Nov. de 1989 - No boletim Um Outro Olhar de número 9, como já mencionado no início, fiz um balanço da primeira década da organização lésbica no Brasil, intitulado 1979-1989- Dez Anos de Organização Lésbica no Brasil, onde resgato sobretudo as atividades do GALF, por ter sido o único grupo lésbico a se manter atuante por toda a década de 80. Registro também a passagem de outros grupos e publicações lésbicas da década que, apesar de vida efêmera, não deixaram de ser uma tentativa válida de organização sapatã. Termino o artigo dizendo o seguinte:

Este   artigo,   onde procurei fazer um apanhado da mobilização lésbica na  última década, encerra também o capítulo do GALF, com quem tanto aprendemos e sonhamos, e que será substituído pela REDE DE INFORMAÇÃO LÉSBICA UM OUTRO OLHAR  a  partir do início de 1990.

Com ela, esperamos poder aprimorar os acertos do GALF e eliminar seus erros, tornando-nos uma organização mais abrangente e participativa. Esperamos, acima de tudo, poder compartilhar a próxima década, que se anuncia como uma década de volta a valores mais cooperativos e humanos, com, pelo menos, algum outro grupo lésbico brasileiro”.

Sigo listando os grupos que DE FATO atuaram pela questão lésbica na década de 80, fora o lésbico-feminista e o GALF

              “OUTROS GRUPOS E PUBLICAÇÕES

Temos registro dos seguintes grupos e publicações lésbicas, durante a década de 80:

. Terra-Maria, Opção Lésbica (SP);
. Grupo Libertário Homossexual (BA); publicava o boletim Amazonas;
. Iamaricumás publicava o boletim de mesmo nome (RJ);
.Terceira Dimensão (RS);
. Grupo Gaúcho de Lésbicas Feministas (RS);
. Boletim Xerereca (RJ).”


O artigo foi muito bem recebido pelas associadas do GALF, bem como pelo GGB, e sua listagem de organizações e publicações se tornou referência para quem viria a escrever sobre esses grupos e a imprensa lésbica brasileira muitas décadas depois.


ChanascomChanas e Um Outro Olhar: produzi, editei e publiquei, na segunda fase do GALF até  março de 1990, 4 edições do ChanacomChana e 10 do Um Outro Olhar, a saber:

Dez-fev.1985/6 -publicação do CCC 9
Jun.-Set. 1986 - publicação do CCC10
Out.-Jan. 1986/7 -publicação do CCC 11
Fev.-Maio 1987- publicação do CCC 12
Set.-Dez. 1987 - publicação do UOO 1
Fev.-Mar. 1988 -publicação do UOO 2
Abr.-Maio 1988 - publicação do UOO 3
Jun.-Jul. 1988 - publicação do UOO 4
Ago.- Out. 1988 - publicação do UOO 5
Fev.-Mar. 1989 - publicação do UOO 6
Jun.-Jul. 1989 - publicação do UOO 7
Ago.-Out. 1989 - publicação do UOO 8
Nov.- Jan. 1989/1990 - publicação do UOO 9
Fev.-Abr- 1990 - publicação do UOO 10

Ser ou estar homossexual não era a questão

Uma das questões polêmicas que o GALF enfrentou, nos seus primeiros anos, foi o questionamento da identidade gay e lésbica trazido por ex-colunistas do Lampião da Esquina, como o antropólogo Peter Fry, o cineasta Jean-Claude Bernardet, o artista plástico Darcy Penteado, e outros acadêmicos como Edward MacRae (em menor grau) e a feminista Maria Luiza Heilborn. Resgatei alguns textos desses autores aqui para ilustrar sobre o que falo.


A questão da identidade (das identidades) é complexa e geralmente polêmica. A sociedade patriarcal conservadora, racista e heterossexista nos divide a partir de externalidades como sexo, etnia, orientação sexual e nos compartimentaliza nessas categorias estanques. Para romper com as opressões várias sofridas pelos discriminados por essas coletivizações forçadas, estes acabam tendo que se valer da identidade que lhes foi imposta a fim de criar um sujeito político inteligível pela sociedade em geral. Trata-se de uma faca de dois gumes porque se útil de um lado, na conquista de direitos civis, pode realmente ferir seus portadores a depender do manejo da arma.


O grande líder negro, Martin Luther King, tinha um discurso universalista e transcendente resumido na frase “Eu tenho um sonho de que meus quatro filhinhos, um dia, viverão numa nação onde não serão julgados pela cor de sua pele e sim pelo conteúdo de seu caráter.”, ou seja, que viessem a ser julgados como indivíduos independentemente do coletivo negro em que foram compartimentalizados. Entretanto, para proferir seu célebre discurso “Eu tenho um sonho”, onde se encontra essa frase, King não ficou apenas na Igreja dando sermões aos fiéis, mas foi à luta pelos direitos civis dos “negroes”, termo hoje considerado pejorativo. Foi com base nessa identidade que King conquistou direitos civis básicos para os negros americanos. Teria conseguido algo se se abstivesse de lutar por considerar a divisão entre brancos e negros falsa – já que somos todos seres humanos – e, portanto, afirmar uma identidade negra seria limitadora da potencialidade dos indivíduos? Parece piada, não?

 

Pois, é, mas aqui, no Brasil, nos idos de 82, os autores que citei acima passaram a dizer coisas como:


[...] Através da ideologia do “assumir-se’, indivíduos com forte gosto para relações sexuais com membros do mesmo sexo são pressionados a encarar tais desejos como sintomas de uma condição que devem “assumir” publicamente. As relações homossexuais existem, “ergo” os “homossexuais” existem. Ao pressionar as pessoas a seguirem determinadas carreiras sexuais, corre-se o risco de desempenhar o papel de eliminar a anomalia e a ambiguidade na vida da sociedade e do indivíduo. (Peter Fry)


[...] Na verdade, não existe nem heterossexualidade nem homossexualidade. Existe, sim, a sexualidade, com grandes nuances, grandes variações, com um grande leque onde há inúmeras opções. Mas já que estamos conversando sobre uma coisa que afirmo que não existe, temos que determinar, de uma vez por toas, o enterro dessas classificações. Somos seres sexuais. Ninguém é heterossexual e ninguém é homossexual. (Darcy Penteado)


[...] A afirmativa de que a declaração explícita da orientação homoerótica não é considerada necessária, e sobretudo, é entendida como limitadora das potencialidades dos indivíduos desperta suspeitas com frequência atribuídas ao medo do estigma, à covardia diante das convenções sociais, a uma estratégia calculista de anonimato, ou ainda à falta de solidariedade para com seus "iguais". (Maria Luiza HEILBORN)


[....] Desde meados de 1979, têm existido no Brasil, com níveis de atividade variável, grupos dedicados a mudar a forma preconceituosa com que são encarados os homossexuais e combater a sua marginalização. Mas da mesma forma que os outros movimentos reivindicatórios, como o feminista e o negro, que privilegiam a questão de identidade mais do que a de classe, o movimento homossexual tem sofrido uma série de questionamentos acerca de sua validade. Uma das dúvidas frequentemente levantadas concerne o resultado possivelmente opressivo que pode ter a atitude de seus ativistas de aceitarem e até exibirem com orgulho o rótulo “homossexual”
. (Edward MacRae)

 

Recomendo a leitura do PDF onde resgatei parte dos textos de onde extraí as citações acima. Acho que os questionamentos sobre identidade feitos lá nos anos 80 seriam bem proveitosos nos dias de hoje quando os movimentos sociais passaram a usar as identidades não como meio, mas como fim, dando um caráter essencialista  às mesmas, muito no sentido dos perigos identitários vislumbrados  pelos autores que citei. Basta ver o circo de letrinhas que virou o antigo movimento LGBT, com uma infinidade de identidades conflitivas e ironicamente até antihomossexuais.

 

Mas, nos anos 80, quando gays e lésbicas estavam começando a dar seus primeiros passinhos para fora da marginalidade, essa discussão era simplesmente bizantina, embora bem influente, junto com a chegada da epidemia da AIDS, na desmobilização política do movimento homossexual do período. Para o heterocêntrico movimento feminista então, às voltas com a homofobia das organizações de esquerda, de onde a maioria das feministas provinha, esse discurso caiu como uma luva no sentido de deixar as bonitas à vontade a fim de reivindicar a volta das lésbicas para o armário. Agora elas tinham uma justificativa “intelectual” para dizer que a lesbianidade era apenas uma preferência sexual, a ser vivida no privado, uma particularidade a mais das vidas das sapatas que não precisava ser politizada, que bastava se lutar contra a subalternidade da mulher (no singular) que tudo se resolveria. Serto.


Eu respondi a essa conversa bizantina de outrora com textos, charges e tirinhas, tais como A Negação da Homossexualidade (CCC 2, p. 2) e  Ser ou Estar, Eis a Questão? (CCC 5, p. 3). Em texto enviado aos grupos homossexuais da época, quando da discussão da crise do MHB, eu também alertava para o fato de que essa discussão, que valia sim para reflexão, estava levando, contudo, as pessoas a questionarem a necessidade da existência do próprio MHB. Da forma como foi colocada, essa era a consequência lógica aliás. Pessoalmente, sempre vi as identidades como meramente funcionais, mas imprescindíveis. No decorrer dos anos 80, contudo, acabou prevalecendo, no MHB, a visão essencialista das identidades homossexuais, inclusive porque os críticos dessa perspectiva se ausentaram do debate.


De qualquer forma, mesmo hoje, quando os questionamentos sobre a esquerda identitária se fazem  cada vez mais presentes e necessários, ainda resta a pergunta de como garantir direitos civis para grupos discriminados sem denominá-los de alguma forma. Não seria o fato de ter se perdido a perspectiva universalista de Luther King que entornou o caldo?


Fábulas sem nenhuma moral


Como apontei no início desse resgate, busquei em particular desconstruir um pouco das  mistificações em torno do GALF e agora me detenho em algumas mais diretamente. Acima, resumi um pouco da história do GALF e a linha do tempo da organização com destaques de sua atuação ao longo de cerca de 8 anos e meio. Este é o GALF real, não aquele impressionantemente mistificado que rola por aí. As mistificações a respeito do grupo chegam a ser folclóricas, como, por exemplo, a história de que ele teria surgido em 1977 contada pela feminista Amelinha Teles em entrevista para o site Sul 21, de nov. 2013,  por ocasião do lançamento de um seu livro “Da guerrilha à imprensa feminista: a construção do feminismo pós-luta armada no Brasil (1975-1980)”.


O Grupo de Ação Lésbico-Feminista (GALF) foi criado em 1977, em São Paulo, e elas atuavam muito com a gente nas manifestações. Esse foi o alicerce do feminismo, que cresceu e passou a todo o território brasileiro.


Em 1977, nem o Somos existia quanto mais o GALF. Além de errar na data de surgimento da organização lésbica no país, Amelinha ainda aponta uma integração inexistente entre ativistas lésbicas e feministas que, apesar dos estranhamentos, teria se feito valer desde a década de setenta. A verdade é que o movimento feminista cooptou e absorveu as lésbicas do Grupo Lésbico-feminista (LF), repetindo, ao mesmo tempo em que despolitizava a questão lésbica. As feministas homossexuais criaram uma espécie de clube de comadres homossexuais dentro do armário lilás do movimento feminista. Nada além. Em termos políticos, o movimento só oficializou seu apoio à causa homossexual em geral e à lésbica em particular durante a Conferência Nacional de Mulheres Brasileiras, em Brasília, dos dias 6 a 7 de junho de 2002. E no que diz respeito às lésbicas, só porque eu estava lá para garantir um destaque, inserido no preâmbulo da Plataforma Feminista da citada conferência, sobre a inestimável colaboração das mulheres homossexuais em apoio à causa das mulheres em geral, pelo direito ao próprio corpo, pela livre orientação sexual, etc.

Dando um salto temporal, em 2019, num artigo sobre visibilidade lésbica , li o seguinte:

 

Em 1980, importantes pioneiras do movimento, como Rosely Roth e Míriam Martinho, decidiram criar o Grupo de Ação Lésbica Feminista (Galf), que atuou fortemente contra as prisões e torturas durante a Ditadura Militar. Além disso, as lésbicas do Galf criaram a revista "ChanacomChana", em 1983, e sofreram duras críticas do regime. As ativistas do Galf costumeiramente se reuniam no Ferro's Bar, no centro de São Paulo, para protestar e se organizar politicamente.


Essa autora então viajou na maionese mesmo, misturando alhos com bugalhos fartamente. O GALF nunca teve nada a ver com luta contra prisões e torturas durante a Ditadura Militar e nunca sofreu críticas do regime. O boletim ChanacomChana surge em dez. de 1982 e, não, a gente não costumava se reunir no Ferro’s.

Correlata a essa fábula, rola a história do ChanacomChana como símbolo de resistência à ditadura militar. Cabe, então, esclarecer: nem o Movimento Homossexual, nem o Grupo Lésbico-Feminista nem o GALF surgiram como resistência à ditadura militar. Existia um único grupo, a Fração Gay da Convergência Socialista (SP), que queria envolver aquele incipiente Movimento Homossexual do período na chamada luta maior contra a ditadura. Sua proposta, contudo, não encontrou eco entre os grupos de gays e lésbicas da época, zelosos da autonomia do  recém-formado movimento. O Movimento Homossexual nasce como uma insurgência contra outra ditadura, esta sim praticamente totalitária na época, a ditadura da heterossexualidade obrigatória. Contra essa sim o ChanacomChana pode ser considerado um símbolo, símbolo contra uma ditadura presente na esquerda (com exceção da contracultural), na direita, no movimento feminista, na sociedade em geral.

O GALF e o Chanacomchana não foram uma resistência contra a ditadura militar e sim uma insurgência contra a praticamente hegemônica ditadura da  heterossexualidade compulsória.
Não custa contextualizar historicamente as coisas. O Movimento Homossexual Brasileiro nasce no período da chamada abertura do regime militar, quando saímos de uma ditadura plena para uma democratura. Quer dizer, no governo Figueiredo, ao lado de características de um regime ainda de exceção, já progredia a volta de princípios do estado democrático de direito. Retorna o pluripartidarismo, a possibilidade de eleger políticos por via direta, a possibilidade de se manifestar sem apanhar e ir parar na cadeia. E aquele incipiente movimento homossexual do período já se articulava o suficiente para ir conversar com o governador Franco Montoro e posteriormente com o Secretário de Segurança Pública (vide as atividades em destaque do GALF)  a fim de reivindicar o fim das prisões arbitrárias de gays e lésbicas com a desculpa do “atentado ao pudor”. Essa conjuntura e essas ações é que provavelmente explicam o fato da PM ter sido convocada para nos tirar do Ferro’s Bar e não ter feito nada, o que causa surpresa em jovens lésbicas acostumadas a ouvir que nos vivíamos num apocalipse zumbi de gays e lésbicas até mesmo às vésperas da volta à democracia.  

Aproveito para citar, a quem interessar possa, minhas únicas ações - como pessoa física, indivídua - durante o período do regime militar que foram:

31/10/1975 - Participei da Missa Ecumênica de 7 dias, na Catedral da Sé, em homenagem ao jornalista Vladimir Herzog que foi assassinado pelos agentes de repressão da ditadura.

1977 - Participei de várias manifestações de rua em protesto contra a ditadura organizadas pela UNE que tentava se rearticular (lembrando que a UNE foi proscrita pelo regime desde 1965)

22/07/1977 - Fui presa na tristemente histórica invasão da PUC-SP, quando novamente participava de manifestação em frente ao teatro da universidade (TUCA), pelo famigerado coronel Erasmo Dias. Fui levada para o Batalhão Tobias de Aguiar, na Av. Tiradentes, bairro da Luz (centro de São Paulo) onde passei a noite e fui fotografada, fichada, sendo liberada pela manhã.

16/04/1984 - Participei do gigantesco comício pelas Diretas Já, no Anhangabaú, centro de SP, que reivindicava o voto direto e o retorno à democracia plena.

Coquetel de supostos triângulos amorosos com questões políticas

E, falando em viajar na maionese, não poderia deixar de citar uma tese, ainda da década de 80, de fato sobre o grupo lésbico-feminista, mas que, na velha história de quem conta um conto aumenta um ponto, acabou virando uma história sobre o GALF. Como essa tese meio mirabolante é campeã de reprodução nas teses do pessoal do “copia e cola”, vale a pena analisa-la mais atentamente inclusive porque ela traz, além de grossa fabulação, a questão da identidade homossexual de que falei anteriormente e que ocupou boa parte das discussões da década de 80, principalmente nos primeiros anos.

Trata-se de uma tese sobre o SOS Mulher, o grupo para qual migrou boa parte do coletivo que compunha o Grupo Lésbico-Feminista (LF) e que pregava a despolitização da questão lésbica reduzindo-a à opção sexual. A autora da tese, intitulada Do palco aos bastidores – O SOS-Mulher (SP) e as PráticasFeministas Contemporâneas”, Heloísa André Pontes, faz o maior samba da pesquisadora doida, misturando personagens e eventos desconexos no tempo e no espaço e supostos triângulos amorosos com questões políticas. Tive acesso a essa tese na própria década de 80 e a apelidei de tese-fofoca porque é disso que se trata ao menos no que diz respeito às lésbicas.


O tal SOS-Mulher surgiu, em outubro de 1980, de uma comissão de luta contra a violência a mulher, formada a partir de uma frente feminista da qual o Grupo Lésbico-Feminista fez parte. No conto de Pontes, o Grupo Lésbico Feminista teria rachado porque Teca – “uma das fundadoras do LF e sua principal líder” – tendia para “a necessidade política  de se dissolver a identidade lésbica no interior de uma identidade feminista mais geral” e outra parte do grupo não concordava com isso. 


Segundo Pontes, tal processo de segmentação teria sido acompanhado pela eclosão de conflitos pessoais, pois Z (Teca) estaria rompendo uma ligação amorosa de dois anos com L (Míriam), militante lésbica. Por minha vez, eu estaria namorando M (Rosely) que também era integrante do grupo. Vou reproduzir o texto-piada-fofoca na íntegra:

 

Este triângulo amoroso foi vivido de uma maneira extremamente conturbada tanto pelas suas protagonistas como pelas demais militantes lésbicas. Algumas, revoltadas com o comportamento e com a forma de condução do novo  romance, aliaram-se a Z (Teca); outras a M(Rosely). Em ambos os casos, as alianças e dissidências apareceram revestidas por concepções políticas distintas, relativas a maneiras divergentes de qualificar as preferências sexuais.

 

As que romperam com Z (Teca), aglutinaram-se em torno de M (Rosely) e se desvincularam do SOS. Para elas, o lesbianismo não se constituía apenas em uma opção sexual, sendo tratado, antes de tudo, como um problema de identidade social e política. Em torno dessa preferência sexual construíam uma prática centrada na necessidade tanto de atribuir ao lesbianismo uma dimensão político-cultural como de ampliar a luta homossexual em São Paulo. Entendiam que o lesbianismo devia ser “assumido” como uma identidade por todas as mulheres que o praticavam. Não punham, portanto , em “questão os fundamentos da taxinomia que divide o mundo em ‘heterossexuais’, ‘homossexuais’ e marginalmente , ‘bissexuais’.

 

Ao contrário, as que se aliaram a Z (Teca), retiraram-se do LF e passaram a recusar a identidade lésbica enquanto uma identidade política. Essa recusa, em certa medida, era legitimada pelos artigos do antropólogo Peter Fry, escritos para o jornal Lampião da Esquina, lidos por várias delas. Ao romperem com o LF, privilegiaram a identidade feminista, pois entendiam que o fato de praticarem o lesbianismo como preferência sexual era uma particularidade a mais de suas vidas e não a marca definidora de suas identidades. Antes de tudo, se reconheciam como mulheres e, como tal, pressupunham a vivência de uma condição estrutural de subalternidade baseada em gênero.

 

Lamento informar ao pessoal do “copia e cola” (Crtl C + Crtl V), mas essa história é totalmente inventada. Pontes deve ter escutado um monte daqui e de acolá no tal SOS e misturou as fofocas que ouvia com a tal questão da identidade que nunca foi tema de discussão no LF mas sim do SOS. E o pior é que os e as que têm copiado esse conto ainda o atribuem a um suposto GALF que teria surgido quando o LF deixou o Somos, outra fabulação cabeluda em voga atualmente e criada pela turminha dos eternos literatos frustrados travestidos de historiadores e antropólogos. Nesse ponto, porém, Pontes não inventa: ela fala do grupo lésbico feminista (LF) e não do GALF, correspondendo aos fatos portanto.


E vamos a eles. Como eu disse, Pontes misturou personagens e eventos desconexos no tempo e no espaço para criar essa fábula. Houve de fato um racha do lésbico-feminista em outubro de 1980, mas esse racha precede a existência do SOS-Mulher que acabara de nascer. E esse racha do LF nada teve que ver com supostos triângulos e questões de identidade. O lésbico-feminista entrou em crise, após o encontro de Valinhos, em função de problemas pessoais entre as integrantes do grupo (no caso da Vilma Monteiro) e por interesse em outro tipo de projeto (no caso da Teca). Nesse racha de outubro, saíram Teca, para ajudar a fundar o tal SOS-Mulher, e Vilma para fundar o Terra Maria, Opção Lésbica. Não houve nessas desistências nenhuma questão político-ideológica de permeio apimentada por triângulos amorosos.


Mulherio, n. 9, set./out 1982

Apesar de Teca ter saído do LF e eu ter ficado, continuamos namoradas até meados de 82. Eu nunca convivi com Teca e Rosely no lésbico-feminista (elas também não conviveram no LF), muito menos no SOS-Mulher do qual jamais participei. Aliás, como já disse, eu só passei a conviver com Rosely em julho de 1981 quando a conheci na inauguração da sede que deveria ter sido do Lésbico-Feminista e acabou sendo do GALF. Quando fundamos o GALF, éramos apenas amigas e ainda levaria mais de um ano até começarmos a namorar. E o Lésbico-feminista terminou em meados de 1981 porque seu coletivo simplesmente se dispersou. O fogo que aquecia o LF era de palha e logo se apagou. E a única pessoa que desistiu do SOS para ficar só na militância lésbica (aí no caso no GALF) foi a própria Rosely e por considerar muito desgastante militar nas duas entidades. Em suma, Pontes deu asas à imaginação nessa história,  voando bem acima da realidade.

 


Mitomania profissional

Neste tópico sobre as fabulações envolvendo o GALF, não poderia deixar de citar, por fim, a ex-integrante do Grupo Lésbico-Feminista (LF), Marisa Fernandes, que, aliás, foi quem fechou a porta e apagou as luzes desse coletivo em meados de 1981. E a cito pelo papel de produtora de fábulas mil sobre o LF/GALF. Antes resgato sua trajetória na década de 80.

Neste período, tivemos raros contatos, apenas de cunho social, exatamente porque nossas vidas seguiram caminhos distintos: ela deixou o ativismo lésbico e eu continuei atuando no GALF. Como a maioria das integrantes do extinto LF, Fernandes nunca demonstrou qualquer interesse pelo GALF ou qualquer outra militância lésbica após sua saída do LF. Nunca demonstrou interesse sequer por escrever algum texto ou depoimento para o ChanacomChana ou o Um Outro Olhar nos anos 80, o que pode ser constatado pela simples leitura dessas publicações onde não se vê nenhum escrito por alguma Marisa (lembrando que as pessoas usavam seus reais prenomes nos textos).  

Fora a participação na reunião informal que os GALF peruano e brasileiro fizeram durante o Encontro Feminista em Bertioga, como já relatei, a única outra aparição de Fernandes a ver com militância foi durante a estadia das integrantes holandesas do ILIS, em meu apartamento,  em setembro de 1987. Não lembro como soube da presença das holandesas, só sei que apareceu para espiar a cara das ditas, saiu sem comprar o Chanacomchana, dizendo que uma das gringas fazia meu tipo e que não havia como se organizar lésbicas no Brasil.

A próxima vez que a vi foi em 1988, num encontro pessoal mais prolongado, quando rapidamente me vi envolvida em mais um de seus históricos barracos (nisso sim ela é histórica). Na ocasião, dei-lhe um chega prá lá, o que parece ter ferido sua masculinidade tóxica, pois, desde então, mantém uma vendeta patológica contra mim. Até parece que a gente não tem o direito de escolher com quem quer conviver, né mesmo? Nesse entrevero, saiu dizendo que eu era vagabunda por atuar na militância lésbica e manter publicações a respeito.

Posteriormente, já em 1990, recebi carta da feminista Maria Otacília Bocchini me dizendo que formara um coletivo de feministas lésbicas, com a Marisa Fernandes, para levar a questão lésbica estritamente no movimento feminista, indicando que Fernandes já tinha mudado de ideia sobre militância lésbica ser sinônimo de vagabundagem. Como não mais frequentava o MF, só fui ver o referido coletivo de feministas lésbicas em meados de 1993, quando fiquei sabendo, pra minha surpresa, que feministas estavam tentando organizar o I Encontro de Lésbicas-Feministas Latino-americano e do Caribe com reuniões na sede do Centro Informação Mulher (CIM), próximo à igreja da Consolação. Na ocasião, já como integrante da Rede de Informação Lésbica Um Outro Olhar, fui espiar, com Luiza Granado, do que se tratava tal milagre e lá encontramos Fernandes e outras integrantes do CFL, mais Míriam Botassi do CIM e sua companheira. Como também estávamos organizando o VII Encontro Brasileirode Lésbicas e Homossexuais, aproveitamos a deixa para solicitar a utilização da sede do CIM para a comissão organizadora desse evento. Assim ficamos em tese em duas comissões organizadoras, mas, de fato, só na do encontro de gays e lésbicas. Este encontro estava sob tiroteio pesado porque nós, da Rede e o grupo Deusa Terra, mais uma militante independente, com apoio dos gays da comissão organizadora, queríamos mudar o nome do encontro, incluindo a palavra lésbica para nos sentirmos representadas, e grupos como o GGB e o Triângulo Rosa não queriam. Consultamos os grupos de todo o país, conseguimos aval para mudar o nome, realizamos um bem-sucedido encontro e inauguramos o movimento de gays e lésbicas no Brasil. O CFL de Fernandes, mudando sua diretriz de não trabalhar com gays, porque eram sexistas, machistas, misóginos, etc., aderiu ao encontro de última hora.

A partir desse encontro, Fernandes já inicia sua trajetória de mitômana em tempo integral, no movimento de gays e lésbicas, dizendo-se militante histórica que atuara em toda a década de 80, sem dizer onde. Não foi a única a inventar uma militância lésbica inexistente na década de 80, mas, sem dúvida, a que mais tem fabulado a respeito com o objetivo de se autopromover pelo que não viveu e não fez.

Por minha vez, deixei a militância grupal em 2009, com síndrome de burn-out, mantendo apenas páginas na Internet, onde comecei a resgatar a história da organização lésbica no Brasil. Eis que, devido aos 40 anos do Movimento LGBT em 2018, fui contatada por um bocado de gente para entrevistas, as quais atendi bem pouco por estar às voltas com outras questões pessoais, de saúde em particular. Nesse ano, porém, fui avisada de que Marisa Fernandes estava se dizendo editora do Chanacomchana e integrante do GALF (1981-1990).  Comecei a pesquisar sobre o assunto e descobri que já fazia alguns anos que a mitômana estava nessa velhacaria. Andei fazendo retificações dessa informação falsa onde pude e ouvindo algumas desculpas esfarrapadas de que não tinha sido Fernandes que havia dito que era editora do Chana, que havia sido erro de não sei quem. E por aí vai.

Encurtando a conversa que já vai longa, recentemente, porém, ela teve um lapso de honestidade e revelou umas meia-verdades numa entrevista para a tese de 2019  Trajetória Da Imprensa Lésbica No Brasil (1981-1995), de Paula Silveira Barbosa.

 Segue um trecho:

Paula: Agora, o LF, que depois se tornou GALF, teve várias fases, mas você disse que só participou no início. Depois que sai aquela edição especial do Chana, em 81, acontece um hiato. Ele só volta em dezembro de 82, já em formato de boletim. O que aconteceu nesse meio tempo? Foi a partir daí que você se afastou?

Marisa: É, é. (Risos). Acompanhei até o grupo conseguir uma sede própria na rua Aurora. Depois, eu precisei me afastar, por questões de saúde. Minha questão de saúde era uma desintoxicação mesmo. Eu tava abusando de substâncias psicoativas e álcool. Enfim, tudo o que tinha. Para segurar tanta energia, tanto trabalho, porque eu era bastante ativa. Então, eu estava muito intoxicada e resolvi sair de São Paulo, para fazer essa desintoxicação.

Parei com o ativismo em coletivos, em grupos. Mas quando eu retornei para São Paulo, eu nunca deixei de ir, por exemplo, às reuniões organizativas do 8 de março, mas eu era autônoma.

P: E quando você volta?

M: Ah, que pergunta difícil! Não tenho muita memória. Mas, eu me desliguei de coletivos. Por quê? Porque a gente fazia as reuniões bebendo, fumando e cheirando. Quando a gente saía, sempre tinha alguém que falava: “vamos tomar uma?”. Ou você se desliga um pouco desse social que te leva a tanta dependência ou você faz o seu caminho muito mais difícil. Então, foi uma questão de saúde mesmo, uma escolha que eu tive que fazer. Saí do ativismo coletivo, mas me mantive de forma autônoma. (p.209)

 

P: É, mas em 90, vem o CFL. E você é uma das fundadoras.
M: Aí já era outra coisa. [...] Bom, aí nós colocamos o nome do nosso grupo de Coletivo de Feministas Lésbicas de São Paulo. Quando a gente foi registrar o grupo, uns quatro anos depois, foi muito engraçado. Por exemplo, o oficial lá do cartório de registro se recusou porque era a contra a moral e os bons costumes.

P: Em 90?!

M: É. Em 1994, em São Bernardo do Campo. (p.210) 


Bem, não foi o LF que entrou na sede da Aurora (inaguraa em julho de 1981). Somente eu e Rosely que havíamos sido do LF entramos naquela sede e ficamos na situação insólita de ter espaço e não ter grupo, no limbo, na esperança de que alguma ex-LFana se animasse pelo menos a produzir outro Chana, o que não aconteceu, como já relatei. O GALF surge exatamente quando o registramos no cartório em outubro de 81, com outras lésbicas que nada tinham a ver com o LF. Mas o importante aqui é que Fernandes reconhece que não participou do GALF real, né mesmo? Porque ela agora inventou um GALF que teria surgido após a saída do LF do Somos. É mole? Quanto a ela ter ido se desintoxicar é outra piada. Bem pelo contrário, continuou se intoxicando por toda a década de 80, como constatei no entrevero que tivemos em 1988.


Não obstante ter dito, na entrevista acima, que deixara o LF (que ela chama de GALF) quando  este conseguira sede própria,  em outro  texto "Ser Lésbica na ditadura: vida e militância sob estado de exceção", do livro Mulheres de Luta: feminismo e esquerdas no Brasil (1964-1985), Cristina Scheibe Wolff, Jair Zandoná, Soraia Carolina de Mello (Organizadores.), também de 2019,  lá está ela se colocando como integrante do GALF de novo, que agora, na nova fabulação, teria surgido em 1980. Segue o trecho onde a mitômana é apresentada:


As mulheres entrevistadas foram Carmen Lucia Luiz, enfermeira, ex-conselheira nacional de Saúde2; Marisa Fernandes, historiadora, uma das primeiras ativistas lésbicas do Brasil, cofundadora e integrante do LF (Lésbico-Feminista-1979) e da Galf (Grupo de Ação Lésbica Feminista – 1980- 1989), coorganizadora do livro História do Movimento LGBT no Brasil, lançado em 2018; Carmen Silvia Rial e Miriam Pillar Grossi, ambas antropólogas, professoras e pesquisadoras da Universidade Federal de Santa Catarina. Elas nos concederam testemunhos acerca do que observaram e do que viveram como mulheres lésbicas num contexto ditatorial... (p. 188)


Quanto ao ChanacomChana, na entrevista que ela deu para a tese Imprensa Lésbica, afirmou:


P: Então, nem desse primeiro número você participou? Porque tem uma Marisa no expediente do jornal. Eu achei que era você.

M: Não. Tinha três Marisas no grupo. Eu não me lembro de fazer essa entrevista. Não me faz pergunta minuciosa assim. Aquela época era muito doida, muita correria. Não lembro de tudo (risos).

Neste ponto, ela reconhece que nem do ChanacomChana tabloide participou, embora não entenda onde a entrevistadora tenha visto um nome Marisa no expediente da publicação. Consta uma Marisa na entrevista com a Angela Roro, mas de fato o Grupo Lésbico-Feminista teve 4 Marisas. Não dá pra saber de que Marisa se trata. Então, se ela própria diz que não integrou nem essa publicação feita pelo grupo LF do qual de fato foi integrante, como poderia se dizer editora do boletim ChanacomChana, quando afirmou antes que deixara o grupo quando ele entrou na sede da Aurora? O Chanacomchana só passa a ser produzido um ano depois da entrada do GALF na referida sede em dezembro de 1982.


Cito um último exemplo  da mitomania dessa fulana nefasta. Quando o dia do Orgulho Lésbico foi lançado em 2003, o pessoal do dia da visibilidade ficou histérico, porque conviver com diferenças não é de sua natureza, e lançou uma campanha violenta contra essa data histórica. Nessa época, grupos e militantes usavam as listas de discussão, e Fernandes saiu dizendo em e-mail que a data era mórbida porque homenageava uma pessoa que havia se matado. Tentaram de todas as formas eliminar o 19 de agosto do mapa. Mas algo não deu certo, o dia reemergiu, e agora Fernandes diz que admira a Rosely, que o 19 de agosto é um reconhecimento merecido da luta da moça. Coitada da Rosely, deve se revirar no túmulo tanto quanto meu estômago revira diante de tanta hipocrisia. 😖

Agora, qualquer pessoa que faça uma pesquisa séria sobre as falas de Fernandes, ao longo do tempo, poderá atestar as inúmeras mentiras e contradições presentes no que diz. Basta não ser acadêmico-militante, tentando encaixar os fatos em narrativas ideológicas distantes da realidade, parafraseando o antropólogo Antonio Risério, que se consegue esse objetivo sem muito esforço.

Mitômanos não são nada incomuns na sociedade brasileira, em geral de moral bem baixa. Tivemos inclusive presidentes e ministros, tanto de esquerda quanto de direita, mentindo até em currículo acadêmico. A cientista Joana D'Arc Félix de Souza que se dizia formada por Harvard foi pega na mentira porque a famosa universidade negou que a tenha tido como aluna. Mas essas figuras de maior destaque têm a grande imprensa a investigar a veracidade do que dizem. Em movimentos sociais, é fácil para mitômanas como Marisa Fernandes proliferarem porque não contam com a mesma vigilância e tem inclusive apoio de outras e outros como ela.

Faço, então, um pouco o papel de agência de checagem, pois inclusive  tenho sido vítima dessa  velhaca por muito tempo, e também porque, mesmo quando falar a verdade tem um alto custo, é nossa obrigação moral dizê-la. Cumpri mais uma vez minha obrigação.­­­­­­­

Um desagravo ao Grupo Lésbico-Feminista- LF (05/1979-06/1981)

O Grupo Lésbico-Feminista (LF) foi uma parte ínfima de minha militância e não deixou saudades, mesmo porque mal começou e já acabou. Nunca mais tive qualquer contato com ex-integrantes do grupo, a não ser com duas que já conhecia de antes da militância, mesmo assim esporadicamente. As demais só me contataram em anos recentes pelo Facebook. No entanto, tenho uma dídiva de gratidão com ele e também com o Somos porque, através deles,  pude me sentir confortável como lésbica pela primeira vez. Fora isso, ele teve um ciclo de vida que precisa ser respeitado e não violentado para atender aos fetiches de medíocres mitômanas que querem a fórceps se encaixar num outro coletivo, o GALF, pelo qual não tiveram qualquer interesse enquanto este existiu. Escrevi sobre o LF em 2019, como pode ser lido aqui

Em respeito ao Lésbico-Feminista, do qual também fui cofundadora, cumpre repetir, quantas vezes for necessário, que, apesar de ele ter adotado tantas assinaturas variando em torno do termo lésbico-feminista, sua identidade sempre foi apenas Lésbico-Feminista. É falsa  a informação de que ele se tornou GALF após deixar o Somos em 17 de maio de 1980.

No Lampião da Esquina, n. 25, p.8, na matéria O Racha do Somos/SP, em junho de 1980, o agora Grupo Lésbico-Feminista explica, num documento, os motivos da sua separação do Somos e assina Grupo Lésbico-Feminista.

Exemplos não faltam para desconstruir essa nova falácia de um LF que teria virado GALF após o racha do Somos. Até a memorabilia do grupo contesta essa história. Por exemplo, em 30/31 de maio de 1980, o LF fez uma festa na boate Mistura Fina para celebrar um ano de sua existência. Dois meses depois, em 03/08/1980, o Grupo Lésbico Feminista faz filipetas datilografadas para convidar as frequentadoras da boate Mistura Fina para seu bingo.

Já em 81, também no Lampião da Esquina, edição 35, de abril de 1981, p. 13, praticamente um ano após a separação do Lésbico-Feminista do Somos, na matéria Um Congresso Bem-Pensante?, são entrevistadas uma ex-integrante do Lésbico-Feminista e uma atual (termos do jornal). Para a representante do Lésbico Feminista é perguntado: "E o Lésbico-Feminista, por que entrou no Congresso e em que ciscunstâncias?" Ao que a entrevistada responde porque o LF isso, o LF aquilo e o LF aquilo outro. Até Vange Leonel, que esteve de passagem, no LF, no primeiro semestre de 1981, nessa nova fabulação a respeito dos primórdios da organização lésbica brasileira, teria entrado num GALF que não existiu. Entretanto, em entrevista ao site A Capa, de 2012, sua apresentação é a seguinte:

"A música, que ecoou por rádios de todo o país, catapultou o nome de Vange Leonel, que anos mais tarde assumiria publicamente sua homossexualidade. Na mesma época, Vange viria a fortalecer seu vínculo com a militância LGBT, que começou ainda em 1981, quando ela fez parte do grupo LF (Lésbico Feminista), uma dissidência do SOMOS."

 

É fato que o LF também assinou uns dois folhetos como Grupo de Ação Lésbica Feminista, por exemplo, mas não após o racha do Somos, e também continuou assinando e se reconhecendo como Lésbico-Feminista até o seu final em meados de 81. Inventar que o LF virou GALF após sair do Somos e acoplá-lo ao GALF que fundei em outubro de 81 com Rosely (vide a ata de fundação do GALF) é destruir metade da história do já breve primeiro coletivo de lésbicas ativistas do país e deturpar a história do segundo.

Os grupos são conformados pelas pessoas que os compõem a despeito de siglas. No Peru, houve dois GALF, exatamente a mesma sigla, mas nenhum deles procurava se fazer passar pelo outro. É da interação entre suas integrantes que surge a real identidade dos grupos desembocando em ações específicas. Os coletivos do Lésbico-Feminista e do GALF foram bem distintos, pois mesmo eu e Rosely, que passaramos pelo LF, iniciamos uma interação totalmente nova com o GALF. Todas as outras integrantes do GALF que se juntaram a nós, ao longo da década de 80,  nada tiveram a ver com o coletivo do LF. Por isso, a trajetória dos dois grupos foi bem distinta também, seu espírito e sua produção idem. Mas ambos precisam ter suas histórias respeitadas. 
    


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*Miriam Martinho é uma das fundadoras do Movimento Homossexual brasileiro, em particular da organização lésbica, tendo co-fundado as primeiras entidades lésbicas brasileiras, a saber, Grupo Lésbico-Feminista (1979-1981), Grupo Ação Lésbica-Feminista (1981-1989) e Rede de Informação Um Outro Olhar (1989....). Produziu e editou também as primeiras publicações lésbicas do país, como o fanzine ChanacomChana (década de 80) e o boletim e posterior revista Um Outro Olhar (década de 90 até 2002). Atualmente administra as páginas Um Outro Olhar e Contra o Coro dos Contentes.

Fundou igualmente o movimento de saúde lésbica no Brasil, em 1994, realizando a primeira campanha de prevenção às DST-AIDS para mulheres que se relacionam com mulheres, em 1995, e editando as primeiras publicações sobre o tema desde essa época (em 2006 publicou a 4 edição da cartilha Prazer sem Medo sobre saúde integral para lésbicas e bissexuais). Participou da organização do I EBHO (1980), organizou dois encontros LGBT nacionais (VII EBLHO/93 e IX EBGLT/97) e foi sócia-fundadora da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis (ABGLT-1995). Participou igualmente de vários encontros internacionais com destaque para a 8ª Conferência Internacional do Serviço de Informação Lésbica Internacional-ILIS (Genebra, Suiça, 28 a 31/03/1986), o I Encontro de Lésbicas-Feministas Latino-Americanas e do Caribe (Cuernavaca, México, 1987) e a Reunião de Reflexão Lésbica-Homossexual (Santiago, Chile/ nov. 1992).

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