Memória Lesbiana: IX EBGLT, organizado por lésbicas, foi embrião das Paradas do Orgulho LGBT no Brasil

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019 0 comentários

Manifestação ao final do IX EBGLT foi a primeira passeata exclusivamente homossexual
da cidade de São Paulo e embrião da I Parada do Orgulho GLT

40 anos de organização lésbica no Brasil:
IX EBGLT, organizado por lésbicas, foi embrião das Paradas do Orgulho LGBt no Brasil


Míriam Martinho*

2019 é o ano da Copa Feminina de Futebol na França, esporte praticado por muitas lésbicas e apreciado por muitas delas também. Marca igualmente os 40 anos do início da organização lésbica no Brasil, a partir do surgimento do Grupo Lésbico Feminista (LF) em maio de 1979. Para celebrar essas quatro décadas de ativismo, relembraremos, durante este ano, os grupos e eventos organizados por lésbicas que determinaram inclusive os rumos do movimento pelos direitos de gays e lésbicas em nosso país.

Assim sendo, começamos por relembrar o IX Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas e Travestis, realizado há 22 anos, do dia 20 ao dia 26 de fevereiro de 1997, no Hotel San Raphael, centro da cidade de São Paulo, pela Rede de Informação Um Outro Olhar, entidade da capital paulistana composta só por lésbicas. Foi o segundo encontro nacional encabeçado pela organização, tendo sido o primeiro o VII Encontro Brasileiro de Lésbicas e Homossexuais, ocorrido em 1993, em Cajamar, cidade do interior paulista.

O IX EBGLT foi acompanhado do II Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas e Travestis que Trabalham com AIDS e financiado pela Coordenação de DST/AIDS do Ministério da Saúde, com aporte ainda da Secretaria de Saúde de São Paulo. Participaram dos eventos 338 pessoas, sendo 53% homens, 42% mulheres, 4% travestis e 1% transexuais. Ambos os encontros foram compostos de mesas, painéis, grupos de discussão, oficinas e atividades artísticas, com a participação de políticos, como Marta Suplicy, acadêmicos (que apresentaram suas pesquisas sobre a temática LGBT), representantes de ONG e do governo na área de prevenção à DST/AIDS, militantes das organizações de lésbicas, gays e travestis do Brasil da época e artistas que se voluntariaram para apresentar performances teatrais e espetáculos de dança e música.

Políticas e Politicagens

Do ponto de vista político, como descrevi na avaliação dos encontros em pauta (ver link para o relatório abaixo), eles tiveram duas caras: uma solar, dos que tinham ido simplesmente ouvir os palestrantes, apresentar suas oficinas  e participar dos grupos de discussão e atividades em geral, e, outra, sombria, de alguns militantes do período que foram aos eventos  para tumultuá-los, movidos por irresponsabilidade, inconsequência e pelas picuinhas de poder que costumeiramente ocorrem entre integrantes de movimentos sociais. De qualquer forma, seu intento foi fracassado, e os eventos transcorreram independentemente de suas ações. Muitos participantes dos encontros, panelistas, oficinistas, sequer ficaram sabendo das ações circenses dos militantes revoltosos. Outros, como o escritor João Silvério Trevisan, que deu palestra sobre o histórico do movimento então GLT no IX EBGLT, carregou nas tintas sobre o ocorrido e declarou em seu livro Devassos no Paraíso:

No entanto, o movimento homossexual correu o risco e em muitos casos resultou demasiadamente atrelado à luta contra a Aids, restringindo sua ótica e seu espaço. O resultado mais palpável, e, para dizer o mínimo constrangedor, pôde ser constatado no IX Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas e Travestis, em 1997, quando militantes rivais chegaram às vias de fato, indo acabar na polícia, dentro de um clima de conspiração e competição generalizado, que só fizera piorar com o passar dos anos. Estavam em disputa, nem mais nem menos, as minguadas mas fundamentais verbas dos Ministério da Saúde. (Devassos no Paraíso, p. 370, Rio de Janeiro: Record, 2000)

Embora tenha havido de fato muita baixaria verbal dos rebeldes sem causa nos bastidores do IX EBGLT e do II EBGLT-AIDS, não há registro de que alguém tenha chegado às vias de fato, ou seja, brigado fisicamente, e ido parar na delegacia. E as disputas nem eram pelas minguadas verbas do Ministério da Saúde, que não estavam em pauta nos eventos, mas por picuinhas de poder dos que queriam ter protagonismo indevido no evento e retaliaram a comissão organizadora por não lhes dar ouvidos  e espaço. Fora um bocado de sexismo contra a comissão organizadora que era fundamentalmente lésbica. O efeito imediato mais negativo das ações irresponsáveis desses ativistas foi o cancelamento, por parte do hotel, de um encontro de travestis que já havia sido agendado no local.

A passeata do dia 26 de fevereiro que foi embrião da I Parada do Orgulho GLT

De qualquer forma, a Rede de Informação Um Outro Olhar carregou os dois encontros nas costas, garantindo sua realização, apesar dos pesares, e ainda registrou o grupo Corsa como um dos organizadores do evento, embora sua contribuição tenha sido mínima e contraditória. No mais, possibilitou, junto ao DSV paulistano, a realização da passeata de gays, lésbicas e travestis que encerrou os eventos, no dia 26 de fevereiro,  e foi o embrião da primeira parada do orgulho GLT que viria a ser organizada naquele mesmo ano meses depois. Segundo uma das participantes da passeata, enquanto carregava a faixa de sua organização, ela já pensava em repetir a manifestação por ocasião do dia 28 de junho, o que de fato levou a cabo com outros grupos que também participaram do IX Encontro.

Assim se, no primeiro evento nacional que organizou, a Um Outro Olhar conseguiu mudar o nome do encontro e do movimento, então só homossexual, para de Gays e Lésbicas, iniciando o movimento LGBT no Brasil, no segundo, gerou o embrião das Paradas do Orgulho LGBT ao propiciar a primeira passeata específica de gays, lésbicas e travestis da cidade São Paulo.

Vale salientar que, em 13 de junho de 1980, ocorreu uma manifestação pública contra as prisões arbitrárias de prostitutas, travestis, negros, gays e lésbicas, movidas pelo delegado Wilson Richetti em sua chamada “operação limpeza”. O evento consta como a primeira participação de ativistas lésbicas e gays numa manifestação pública, mas não se tratava de uma passeata especificamente homossexual. Foi uma manifestação que uniu o movimento negro, o movimento feminista, e o incipiente movimento homossexual daquele tempo, fora entidades estudantis, num protesto “contra a violência policial, o desemprego, a discriminação racial e sexual, e pelo direito de ir e vir” (do documento da manifestação, intitulado Carta Aberta à População).

Assim sendo, até prova em contrário, a passeata ocorrida ao término do IX Encontro Nacional de Gays, Lésbicas e Travestis, no dia 26 de fevereiro de 1997, foi a primeira manifestação de rua especificamente homossexual de São Paulo. Em agosto de 1983, o Grupo Ação Lésbica Feminista (GALF) organizou a primeira manifestação pública exclusivamente lésbica (e homossexual) ao invadir o Ferro’s Bar, para poder vender seu boletim no recinto, mas o evento ficou circunscrito ao estabelecimento, apesar de ter tido grande repercussão na mídia.

 No relatório do encontro, assim descrevi a manifestação:


Para mais informações, acessem o relatório dos encontros clicando aqui.

Concentração a passeata do IX Encontro em frente ao Teatro Municipal

* Miriam Martinho é uma das fundadoras do Movimento Homossexual brasileiro, em particular da organização lésbica, tendo co-fundado as primeiras entidades lésbicas brasileiras, a saber, Grupo Lésbico-Feminista (1979-1981), Grupo Ação Lésbica-Feminista (1981-1989) e Rede de Informação Um Outro Olhar (1989....). Editou também as primeiras publicações lésbicas do país, como o fanzine ChanacomChana (década de 80) e o boletim e posterior revista Um Outro Olhar (década de 90 até 2002). Atualmente administra as páginas Um Outro Olhar e Contra o Coro dos Contentes.

Fundou igualmente o movimento de saúde lésbica no Brasil, em 1994, realizando a primeira campanha de prevenção às DST-AIDS para mulheres que se relacionam com mulheres, em 1995, e editando as primeiras publicações sobre o tema desde essa época (em 2006 publicou a 4 edição da cartilha Prazer sem Medo sobre saúde integral para lésbicas e bissexuais). Participou da organização do I EBHO (1980), organizou dois encontros LGBT nacionais (VII EBLHO/93 e IX EBGLT/97) e foi sócia-fundadora da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis (ABGLT-1995). Participou igualmente de vários encontros internacionais com destaque para a IX Conferência Internacional do Serviço de Informação Lésbica Internacional-ILIS (Genebra, Suiça, 28 a 31/03/1986), o I Encontro de Lésbicas-Feministas Latino-Americanas e do Caribe (Taxco, México, 1987) e a Reunião de Reflexão Lésbica-Homossexual (Santiago, Chile/ nov. 1992).

Final feliz para duas mulheres que quase foram presas por se casaram irregularmente na Costa Rica

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019 0 comentários

Jazmín e Laura foram quase processadas por “matrimônio proibido” e condenadas a até três anos da prisão

Costa Rica pediu prisão para duas mulheres que se casaram graças a um erro de registro

Jazmín e Laura foram quase processadas por “matrimônio proibido” e condenadas a até três anos da prisão

Jazmín de los Ángeles Elizondo conseguiu se casar com sua noiva, Laura Flórez-Estrada, porque um funcionário a registrou como menino em 1991, quando nasceu no município costa-riquenho do Pérez Zeledón (centro-sul da Costa Rica). Elas compõem o único casal homossexual a ter se casado até hoje nesse país centro-americano, que no ano passado estabeleceu um prazo até meados de 2020 para que os casamentos igualitários sejam legalizados.

Jazmín e Laura podem causar inveja em muitos outros casais de mulheres na Costa Rica, um país muito avançado em questões sociais para os padrões latino-americanos, mas atrasado na regulação de alguns direitos civis. Por isso, o direito a serem felizes para sempre não foi plenamente cumprido: elas quase enfrentaram um processo penal por “matrimônio proibido”, que podia resultar em até três anos da prisão. Na Costa Rica, diferentemente do Brasil, um advogado é responsável pelo procedimento de legalização do casamento no Registro Civil. Mario Castillo, o advogado que registrou o casamento das duas, também correu risco de ser condenado a 18 anos de reclusão por falsidade ideológica.

Jazmín – conhecida como Jaz, uma atriz de 27 anos – e Laura – ou Lalai, chef de cozinha espanhola de 31 anos – conseguiram dar visibilidade à causa da população LGBT na Costa Rica. Mas também se tornaram um exemplo especialmente claro da discriminação do Estado neste país, como lamenta Castillo, o advogado responsável pelo registro quase sigiloso do casamento em 25 de julho de 2015. A carteira de identidade de Jazmín dizia que ela era do sexo masculino; a de sua noiva, que pertencia ao sexo feminino – tudo estava juridicamente em ordem, até que o caso ganhou a esfera pública, e as autoridades manifestaram seu desgosto. O Registro Civil trocou a letra M de “masculino” pelo F de “feminino” e quis anular o casamento. Também abriu um processo penal contra as duas mulheres, que foram julgadas, em audiência preliminar, no dia 05/02, juntamente com Castilho e duas testemunhas do enlace.



O caso seguiu adiante apesar de uma sentença emitida em novembro pela Sala Constitucional, que deu 18 meses para que a Costa Rica reconheça o matrimônio igualitário, hoje proibido em toda a América Central. Tampouco foi afetado pelo pronunciamento da Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) – que ainda por cima tem sua sede em San José a apenas um quilômetro do restaurante do casal –, e em 9 de janeiro de 2018 determinou a oferta desse direito legal à população LGTB, atiçando uma discussão local ainda vigente entre progressistas e conservadores com fortes raízes religiosas. A história de Lalai e Jaz é parte desse debate.

Para o Estado, não se tratava de algo menor, e sim de uma fraude. Jazmín teria passadp por homem aproveitando um erro, conforme salientava a acusação do Registro Civil, subordinado ao Tribunal Supremo de Eleições. A vítima não seria ninguém em concreto, e sim um conceito: “A família costa-riquenha”. O Código de Família ainda diz que é proibido o casamento entre pessoas do mesmo sexo, como é o caso delas.
É ridículo que nós, ao formarmos uma família, atentemos contra o conceito de família. É risível que nos acusem de algo assim no século XXI. É até difícil de explicar pela jurisprudência que já há”, disse Flórez-Estrada ao EL PAÍS enquanto trabalhava no seu restaurante, identificado na fachada com a bandeira multicolorida do arco-íris.
O advogado Castillo também considerou que o caso deveria ser encerrado desde que a CIDH emitiu sua decisão favorável ao casamento igualitário, ou pelo menos desde que a Sala Constitucional ordenou sua aplicação na Costa Rica.
Mas o Ministério Público insistiu em nos acusar; não sei bem por que, mas isto só serviu para que mais gente nos apoiasse”, respondeu. Por isso, os réus esperavam que a audiência preliminar do dia cinco se transformasse em uma nova manifestação pelo direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, sem a necessidade de erros do cartório.
E foi o que acabou ocorrendo. O processo foi arquivado por "atipicidade dos fatos apresentados" e inclusive o casamento foi validado.

Fonte: Com informações do El País, Álvaro Murillo e do La Nación, 05/02/2019

Unidas no amor, rivais nos campos de futebol

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019 0 comentários

Alisha Lehmann e Ramona Bachmann são companheiras na seleção suíça e rivais
 na liga feminina inglesa; fora de campo, são namoradas

Conheça a história de amor de duas jogadoras que virou documentário na TVecola

Alisha Lehmann e Ramona Bachmann são rivais na Women's Super League (WSL), o Campeonato Inglês feminino. A primeira defende o West Ham, enquanto a segunda joga pelo Chelsea. 

Fora de campo, porém, as duas jogadoras suíças são um casal. E a situação chamou a atenção da rede de TV britânica BBC, que conta a história delas em um episódio recente de Britain's Youngest Football Boss, uma série documental voltada para o futebol. 

Aos 28 anos, Ramona é a mais experiente da dupla. Jogadora do Umea (Suécia) entre 2007 e 2009 e em 2011, chegando inclusive a ser colega de Marta no clube durante a primeira passagem, ela teve destaque por clubes como Rosengard, também da Suécia (2012 a 2015); e e Wolfsburg, da Alemanha (2015 a 2016), entre outras equipes. Em 2017, chegou ao Chelsea.

Em 2015, durante a Copa do Mundo feminina disputada no Canadá, ela tornou público o relacionamento que tinha com Camille Lara, então uma estudante sueca de 21 anos.
Quando caminho de mãos dadas com Camille pelas ruas na Suíça, as pessoas se viram (para olhar). Não é o caso na Suécia, e não é o caso aqui no Canadá", disse ela na época ao jornal suíço Sonntagsblick. 
Já Alisha, de 20 anos, é a mais nova. Revelada em 2016 pelo YB Frauen, o time feminino do Young Boys, ela ganhou suas primeiras convocações para defender a Suíça a partir de 2017 - dez anos depois da estreia da namorada pela seleção. Em 2018, transferiu-se para o West Ham como reforço para a temporada 2018/2019.

Foi também em 2018 que o relacionamento das duas se tornou público. Em dezembro, a imprensa suíça, Ramona Bachmann disse que nunca fez questão de esconder a questão:
Não sei se nosso relacionamento é privado. Jogamos juntas na seleção há quase um ano".
Na seleção suíça, o namoro das duas atacantes também é encarado com naturalidade. Em dezembro, segundo a revista Schweizer Illustrierte, a treinadora Martina Voss-Tecklenburg disse que "a situação não é incomum no futebol feminino". "Mas as jogadoras são profissionais", completou, sem preocupação com a influência em campo da vida pessoal das duas.

Bachmann (à esquerda) joga pelo Chelsea e Lehmann pelo West Ham

Na Inglaterra, as duas até já se enfrentaram. Em 4 de dezembro, o Chelsea visitou o West Ham pela WSL e venceu por 2 a 0, justamente com dois gols de Ramona Bachmann. Titular no time adversário, Alisha Lehmann foi substituída nos acréscimos do segundo tempo, dando lugar a Rosie Kmita. Mas a rivalidade em campo não afeta a relação.
Há muitas coisas positivas em estar com alguém que faz o mesmo que você. Ela sabe o que penso e eu também compreendo ela", disse Ramona, segundo o conteúdo da BBC.
Alisha também é só elogios à namorada.
Era meu ídolo quando comecei a jogar futebol. É muito boa, técnica e rápida", disse a atacante do West Ham. "Mas se marcar contra nós de novo, me sentirei realmente mal", completou.
Os dois times voltam a se enfrentar em 31 de março.

Fonte: Do UOL, em São Paulo 17/02/2019


Evangélicos pressionam Toffoli contra a criminalização da homofobia

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019 0 comentários



Bancada evangélica vai a Toffoli contra criminalização da homofobia no Supremo

A bancada evangélica pediu audiência com o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias Toffoli, para pedir a retirada de pauta de duas ações sobre a criminalização da homofobia. O processo tramita na Corte desde 2013 e será relatado pelo ministro Celso de Mello.

Na sessão, os ministros devem definir se o Supremo pode criar regras temporárias para punir agressores do público LGBT, devido à demora da aprovação da matéria no Congresso Nacional. Pelo atual ordenamento jurídico, a tipificação de crimes cabe ao Poder Legislativo, responsável pela criação das leis.

O deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) reclama que Toffoli descumpre compromisso firmado ainda ano passado de não pautar assuntos relacionados às agendas de costumes.
Ele fez um compromisso com o presidente da Câmara (Rodrigo Maia), fez compromisso com membros da bancada evangélica, entre eles eu, que não pautaria nada que fosse assunto legislativo”, afirma.
Os parlamentares ainda não tiveram retorno do pedido de audiência, mas prometem ir ao Supremo na terça-feira, 12, e permanecer até serem atendidos.
Se necessário for, vamos pedir para o presidente da Câmara interceder, para o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e até mesmo o presidente Jair Bolsonaro. Não vamos brincar com isso”, sustenta Sóstenes.
Como instrumento de pressão, a bancada iniciou na segunda-feira, 11, campanha nas redes sociais pedindo a retirada de pauta do assunto. Vão divulgar banner “pela liberdade de expressão e pela liberdade religiosa”.

As duas ações no Supremo, uma relatada pelo ministro Celso de Mello e a outra pelo ministro Edson Fachin, propõem a criminalização de todas as formas de homofobia e transfobia, incluindo ofensas, homicídio, agressões e discriminações motivadas por orientação sexual ou identidade de gênero. Uma foi proposta pelo Partido Popular Socialista (PPS) e a outra pela Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transgêneros (ABGLT). Segundo os autores, o Congresso foi omisso ao não legislar sobre o assunto.

A maioria dos ministros tende a considerar as práticas criminosas, mesmo que o Congresso Nacional não tenha aprovado lei nesse sentido. No entanto, parte dos ministros da Corte avalia, nos bastidores, pedir vista para adiar a decisão. Seria uma forma de não desestabilizar a relação entre Judiciário, Executivo e Legislativo logo no início do mandato de Jair Bolsonaro.

Fonte: Com informações de Estadão, por Juliana Braga, e O Globo (11/02/2019)

O caso discreto entre a atriz Tessa Thompson e a cantora Janelle Monaé

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019 0 comentários

Tessa Thompson e Janelle Monaé

Tessa Thompson sobre relacionamento com Janelle Monaé: "Deixem falar"

O casal Tessa Thompson e Janelle Monaé é bem reservado quando o assunto é o seu relacionamento – algo que elas preferem por não rotular como "namoro" ou qualquer outra classificação. Em entrevista ao Porter Edit, a atriz, conhecida por seu mais recente trabalho na série “Westworld”, abriu o jogo sobre seus sentimentos em relação à cantora...
Nós nos amamos intensamente. Estamos na mesma sintonia! Se as pessoas querem especular sobre o que nós ‘somos’. Deixe que falem”, disse ela. Juntas desde 2015, Tessa comentou sobre como é viver um relacionamento sob os olhares da mídia, comentando a respeito da importância em tornar isso público quando a intenção é levar representatividade às pessoas.
É complicado, principalmente porque eu e Janelle somos muito reservadas e estamos descobrir como conciliar privacidade e espaço, e também usar nosso relacionamento como uma influência. Eu posso deixar uma mensagem porque tive o apoio da minha família sobre minha sexualidade – somos tão livres que podemos ser o que quisermos ser.”
Eu me sinto atraída por homens e mulheres. Se eu levar qualquer um dos dois para casa, não vai surgir uma discussão sobre isso. Quero que todos tenham essa liberdade e apoio que eu tenho dos meus entes queridos, já que muitas pessoas não têm”, disse. 


Fonte: Universa, 29/06/2018

Mulher negra sai do armário aos 40 e diz que foi a coisa mais libertadora de sua vida

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019 0 comentários

Nicole Gilley relata seu calvário até se assumir lésbica

Por que esperei até ter 40 anos para dizer que sou lésbica?
Sou uma mulher negra, criada por mãe solo e religiosa que nunca me incentivou a buscar nada senão Deus, um marido e filhos.

Eu nunca quis ser lésbica. Fui criada por minha mãe solo, que me ensinou que a homossexualidade é a única abominação que Deus não perdoa. Durante minhas três primeiras décadas de vida, tentei de tudo para expulsar minha natureza. Eu passava noites incontáveis chorando de joelhos, suplicando para Deus tirar isso de mim, sem entender por que ele teria me feito carregar essa cruz se ser homossexual era realmente pecado. As noites que eu não passava rezando eram passadas embaixo de inúmeros homens cujos nomes eu nem me dava ao trabalho de descobrir. Eu pensava realmente que, se transasse com homens suficientes, isso faria minha heterossexualidade pegar no tranco. Não funcionou, é claro.

Quando eu tinha 23 anos e estava morando em Los Angeles, comecei a trabalhar num call center, recebendo ligações para um serviço de encaminhamento a dentistas. Foi ali que me apaixonei para valer pela primeira vez, por uma colega de trabalho. Quando ela percebeu o que eu estava sentindo, graças à minha falta de sutileza, me denunciou para o call center inteiro.

A humilhação me obrigou a sair da empresa e começar a trabalhar com vendas, onde continuei a evitar minha sexualidade e a transar com homens. Com 31 anos, me matriculei numa faculdade pública e continuei a fazer de tudo para fugir da minha sexualidade – trabalho, estudos, álcool, noitadas. Mas aos 32 anos fui internada às pressas, com diagnóstico de gastrite e duas úlceras. Entendi então que não conseguiria expulsar minha homossexualidade com orações. Finalmente admiti para mim mesma que eu era lésbica. Ali mesmo no leito do hospital, resolvi que em vez de ficar onde eu estava e evitar minha sexualidade, eu iria embora.
Passei noites incontáveis chorando de joelhos, suplicando a Deus para tirar isso de mim, sem entender por que ele me fez carregar essa cruz de ser homossexual se isso era realmente pecado.
Comecei a me candidatar a cursos universitários de quatro anos para onde pudesse pedir transferência, e pouco tempo depois de completar 33 anos, larguei meu emprego na Califórnia e me mudei para Nova York, onde fui morar no Harlem e estudar na NYU. Eu tinha uma meta na cabeça: ser verdadeira comigo mesma e abraçar minha sexualidade. Nova York me pareceu que seria o melhor lugar para fazer isso. Depois de me mudar para lá, entendi que não era a vergonha de minha mãe que me estava impedindo de ser quem eu era: era minha própria vergonha. Em Nova York, eu falava com minha mãe com frequência e pensava honestamente que poderia abraçar ser lésbica e conservar um relacionamento com ela. Nunca parei para refletir sobre os efeitos que manter segredo teriam sobre mim, minha vida amorosa e meu relacionamento com minha mãe.

Mesmo estando a milhares de quilômetros de minha família, eu não conseguia simplesmente pressionar um interruptor e virar abertamente gay. Dois meses depois de me mudar para Nova York, finalmente criei coragem de ir ao meu primeiro bar de lésbicas. No frio, embarquei no metrô da linha D e fui para o centro. Quando cheguei perto do bar, vi algumas mulheres – imaginei que fossem lésbicas – do lado de fora, fumando cigarros, sorrindo e dando risada. Dominada pelo medo e a vergonha, passei reto e, em vez de ir àquele bar, fui a outro bar nas proximidades e bebi até afogar meu sentimento de vergonha. Tentei imaginar como aquelas mulheres podiam amar a si mesmas, sendo como eram. Como eu faria para chegar a isso? Voltando para casa, tomei a decisão de nunca mais tentar aquilo. Tinha me provocado ansiedade demais.

Só consegui me sustentar em Nova York, vivendo na cidade e estudando na NYU, por um ano. Depois desisti. Eu não podia voltar para casa, então em janeiro de 2012 resolvi me mudar para Las Vegas e estudar na Universidade de Nevada. Seria a mesma ideia: eu seria lésbica em outro estado e conseguiria meu diploma de faculdade. Percebi que ir a um bar representava pressão demais para me relacionar com outras lésbicas, então em 2015 me aventurei no namoro online e conheci uma mulher. Estar com ela foi o início de meu processo de me compreender. Eu estava apaixonada e queria que o mundo inteiro soubesse, mas ela estava no armário. Foi uma coisa arrasadora, porque, além de meus próprios problemas de sentir vergonha de mim mesma, agora eu estava lidando com os dela também. No final, não consegui mais encarar, e nos separamos. Tudo o que eu queria era poder ligar para um serviço de terapia familiar pelo telefone e me abrir com quem atendesse, mas eu não podia.

No final de 2015 eu estava com 38 anos, tinha me formado na faculdade e estava mais do que pronta para voltar para casa, para Los Angeles, mas ainda não pretendia me assumir como lésbica diante da minha família. Levei mais seis meses para decidir que eu precisava fazer terapia. Foi assim que me vi sentada diante de uma mulher branca de 30 e poucos anos, chorando loucamente e contando a ela que eu não queria ser gay. Tentei imaginar se ela teria condições de compreender realmente como é ser uma lésbica negra. Será que ela sabia que a comunidade negra é notoriamente homofóbica? Sou uma mulher negra, criada por mãe solteira e religiosa que nunca me incentivou a buscar nada senão Deus, um marido e filhos. O fato de ter crescido em conflito entre quem eu era e quem ela queria que eu fosse me provocava muita dor, confusão e depressão.
Sou uma mulher negra, criada por mãe solteira e religiosa que nunca me incentivou a buscar nada senão Deus, um marido e filhos.
Me perguntei se a terapeuta teria como me ajudar a encarar o fato de que sair do armário implicaria perder o amor e a aceitação de minha mãe. Ela poderia me ajudar a ganhar força suficiente para realizar o que eu me propunha a fazer? Uma vez por semana eu passava 90 minutos sentada num consultório bege com decoração discreta, aprendendo a dizer "sou lésbica". Fiz cinco meses de terapia até começar a contar às pessoas.

Pouco antes de completar 40 anos, resolvi contar primeiro a uma prima minha, e ela me deu todo o apoio. Outros amigos também me apoiaram, mas eu tinha medo de me assumir diante de minha melhor amiga. Ela nunca tinha mostrado apoio aberto à homossexualidade. Na realidade, os gays muitas vezes eram os alvos de suas piadas. Quatro meses depois de me abrir com minha prima, procurei minha amiga, e, para surpresa minha, ela me deu apoio total. Meu medo todo tinha sido desnecessário. Minha amiga passou os últimos 20 anos tentando servir de casamenteira para mim; acho que esse papel dela não mudou, só que agora ela me apresenta para mulheres, em vez de homens.

Foi um alívio mostrar a minhas melhores amigas quem eu sou de verdade, mas eu ainda estava nervosa, sem saber como reagiriam meus familiares religiosos. Eles me rejeitariam? Depois de pouco a pouco começar a contar outros primos e parentes, percebi que essas pessoas todas gostavam de mim de verdade e não se importavam com quem eu namorasse. Só queriam que eu fosse feliz. Mas ainda faltava eu falar com minha mãe.

Era uma noite de sábado. Minha mãe e eu estávamos sentadas num restaurante Roscoe's Chicken. Inicialmente tentei dizer que eu era bissexual, na esperança de acostumá-la à ideia aos poucos. É claro que isso não funcionou – apenas lhe deu a falsa esperança de que eu ainda poderia namorar um homem. Ela disse terminantemente que nunca aceitaria que eu fosse lésbica, mas não chegou a dizer que isso era nojento ou que eu era nojenta.

Desde então, tenho tido uma conversa contínua com ela. Quando a Tchetchênia promoveu um expurgo dos gays, minha mãe falou que é melhor que o governo os pegue antes que Jesus o faça.
Dizer que aos 40 anos eu não anseio pela aceitação e aprovação de minha mãe seria mentira.
Minha mãe me disse que, se eu me casar algum dia, ela não vai ao casamento. Embora seja isso que mais me doa, fui obrigada a entender que esse é um problema dela, não meu. Mereço ser feliz na vida, e não devo ter vergonha de ser quem eu sou. Minha mãe e eu ainda nos falamos, mas agora falta intimidade no nosso relacionamento. Ela não sabe nada da minha vida nem das mulheres com quem saio. E não quer perguntar sobre isso. Nosso relacionamento se limita a falar generalidades sobre política ou as coisas que estão acontecendo na vida dela. A posição dela sobre minha sexualidade não mudou, e, como ela tem 75 anos, não imagino que vá mudar.

Dizer que aos 40 anos eu não anseio pela aceitação e aprovação da minha mãe seria mentira. Eu quero muito, mas percebi que não preciso disso para ser feliz. Alguns dias são melhores que outros, mas na maioria dos dias eu me vejo caminhando com uma nova visão de quem sou e com nova confiança, pelo fato de ser lésbica assumida.

Sair do armário aos 40 anos foi a coisa mais libertadora que pude fazer por mim mesma, e a única coisa que lamento é não ter feito isso antes. Não passo mais minhas noites chorando, e, com o encorajamento de minha terapeuta, minhas amigas e mentoras, olho com confiança e prazer para o futuro, querendo aproveitar minha nova vida como lésbica e me libertar de qualquer resquício de sentimento de vergonha.

Fonte: Huff Post BR, 14/05/2018

 
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