Chanacomchana 9: resgate e edição comentada

terça-feira, 28 de novembro de 2023

CCC 9dez., jan. 85/86 © Coleção Chanacomchana. Míriam Martinho

 Míriam Martinho

Em dezembro de 1982, era lançado o primeiro número do boletim Chanacomchana (ver resgate do CCC 1 aqui, CCC2 aqui, CCC 3 aqui, CCC 4 aqui, CCC 5 aqui, CCC6 aqui, CCC 7 aqui, CCC 8 aqui), seguido de outros 11 números. Neste artigo, abordo o ChanacomChana 9, não sem antes falar do contexto histórico e político de onde o periódico emerge, fundamental para entender sua produção e conteúdo (ver mais informações aqui).

Grupo Ação Lésbica-Feminista (GALF) e sua primeira publicação, o boletim Chanacomchana, nascem durante o primeiro ciclo do MHB (Movimento Homossexual Brasileiro) também chamado de ciclo libertário (78-83/84) porque nele prevaleciam as ideias da Contracultura, aquele grande guarda-chuva de movimentações e movimentos socioculturais e comportamentais que se inicia já nos anos 50, percorre as décadas de 60 e 70, terminando no início dos anos 80. Retomando elementos do anarquismo e do romantismo, a Contracultura vai priorizar a revolução individual, politizando o cotidiano e as inter-relações humanas (o privado é político) e retomando a máxima gandhiana de que as pessoas tinham que se tornar a mudança que queriam ver no mundo. Não havia interesse na tomada de poder do Estado, objetivo dos partidos políticos, mas sim na revolução molecular dos grupos discriminados e oprimidos que unidos superariam a incompetência da América católica e seus ridículos tiranos (Enquanto os homens exercem seus podres poderes, índios e padres e bichas, negros e mulheres e adolescentes fazem o carnaval - Caetano Veloso).

Na prática, os grupos daquele incipiente movimento se preocupavam com a não reprodução da política tradicional, suas hierarquias, disputas de poder, discursos da boca para fora, e tentavam (com pouco sucesso) não reproduzir suas mazelas. Nesse sentido também, pregavam a autonomia dos movimentos sociais em relação aos partidos políticos, uma das bandeiras de maior bom senso daquela época. O GALF era tributário dessas ideias (vide o texto Autonomia), via esquerda libertária, das ideias do feminismo de segunda onda, com seu questionamento dos papéis sexuais, e das correntes do separatismo lésbico do também incipiente movimento lésbico internacional.

Nem o GALF nem o ChanacomChana refletem qualquer luta contra a ditadura militar mesmo porque seu contexto histórico é o do governo da abertura do general Figueiredo, da redemocratização, que se iniciara com a revogação do AI-5 em 13/10/78, ainda sob o governo Geisel. De fato, o governo Figueiredo foi uma democratura, uma convivência de elementos ainda autoritários do regime em decomposição com aumento crescente de características democráticas caminhando a passos largos para o restabelecimento do poder civil. Embora a censura, só revogada com a Constituição de 1988, ainda existisse no período, ela não vitimou o GALF ou o ChanacomChana em momento algum. Tal fato pode ser constatado facilmente pela simples leitura dos Chanas onde não se encontram sequer informes referentes ao regime militar, muito menos registro de qualquer arbitrariedade que tenhamos sofrido dos militares. O GALF e suas publicações foram, de fato, insurgências contra a ditadura da heterossexualidade obrigatória praticamente onipresente do período.

A Revolução DIY
Todo esse amálgama de ideias e inspirações aparecem nas páginas do Chanacomchana do seu período inicial e nele permanecem no período posterior, de 1985 em diante, apesar do afã revolucionário contracultural do MHB ir sendo paulatinamente substituído pelo reformismo pragmático de grupos como o GGB e o Triângulo Rosa.

Também do ponto de vista gráfico, o CCC vai seguir a ética e a estética contracultural do "Do It Yourself - DIY" (Faça você mesmo) matriz, entre outras produções, dos fanzines produzidos artesanalmente, com colagens e mistura de tipos gráficos, e, no conteúdo, com uma miscelânea de textos políticos, tirinhas, desenhos, poesias, depoimentos, notícias e app arcaico de namoro (o Troca-cartas). Nas vendas, o corpo a corpo junto ao público-alvo ou, posteriormente, via correios através do sistema de associação.

Chanacomchana nº – Edição comentada

 Sumário

 Por que nós nos chamamos de lésbicas - p. 1
 Associe-se ao GALF - p. 2
 Em Movimento - p. 3-5
 III Encontro Feminista Latino-americano e do Caribe - p.6-12  
 Dicas de Leitura - p. 12
 Poesia - p. 13
 AIDS: fato e preconceito - p. 14-15
 A Homossexualidade na Constituição - p.16-19
 Deusas da Cura - p. 20-21
 Lésbicas e Sexualidade - p. 22-26
Assine ChanacomChana - p.26
 Troca-cartas - p - 27

Por que nós nos chamamos de Lésbicas - p.1 (Míriam Martinho)



Na década de 80, a palavra "lésbica" ainda tinha uma conotação pejorativa que a maioria das mulheres homossexuais se recusava a enfrentar. "Sapatão", termo também detestado pela maioria das lésbicas do período, foi popularizado pelo apresentador de TV, Chacrinha, através de sua marchinha de carnaval "Maria Sapatão", sucesso na folia de 1981. No caso da palavra lésbica, seu uso passou a ser mais ressignificado positivamente na década de 90, com o surgimento da sigla comercial GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes) e a sigla mais militante GL, posteriormente, LG e etecétera. O termo "sapatão" passou a ser ressignificado positivamente pelas gerações de lésbicas mais recentes, parecendo ter boa acolhida hoje em dia.

Mas, na década de 80, a palavra "lésbica" ainda era problemática para boa parte das lésbicas e mais de uso das ativistas. Em geral, mulheres homossexuais se identificavam como entendidas, homossexuais e fanchas e ladies ou ainda gays (este termo mais para o fim dos anos 80).  Daí eu ter escrito textos, algumas vezes, explicando por que utilizávamos um termo "ofensivo" para nos identificar. 

Desta feita, tracei a origem da palavra até o século VI a.C. quando a poetisa Safo organizou uma escola de artes para mulheres, em Mytilene, na ilha de Lesbos, onde "ensinava poesia, canto, música e, dizem, o amor (entre mulheres)." Então, a palavra lesbianismo foi atribuída ao amor entre mulheres em lembrança do lugar onde viveu a grande poetisa.

Seguia dizendo que com a consolidação do patriarcado, os poemas de Safo foram destruídos sobrando apenas fragmentos e que a palavra lésbica passa a ser utilizada em fins do século XIX, mas já com uma conotação negativa. Relato, em seguida, que só a partir da década de 60, com o (re)surgimento do movimento feminista e de gays e lésbicas, a partir da origem histórica da palavra, as mulheres que amavam mulheres começaram a se chamar de lésbicas, "investindo essa designação de conceitos de força, independência, liberdade e beleza."

Terminava dizendo que, apesar da conotação negativa da palavra, tendo em mente o significado positivo que descrevi, recomendava o uso regular do termo lésbica para com o tempo se tornar tão natural como dizer pão, tirando dos preconceituosos o poder de usá-la para agredir. Que tinha sido assim com a gente do GALF.

Associe-se ao GALF, p. 2 (Míriam Martinho)

Imagem: Women's Bathroom, Tamara de Lempicka, 1929.  Associação ao GALF, CCC9, p.2

Em movimento, p. 3-5 (Míriam Martinho)

Monumento às mulheres Lésbicas e Homens Gays mortos em Campos de Concentração

Foto: Florida Center for Instructional Technology
Informe sobre a inauguração de uma lápide, em homenagem a gays e lésbicas, no campo de concentração nazista de Neuengamme, cidadezinha perto de Hamburgo. A lápide foi iniciativa de um grupo chamado Homossexuais Alternativos Independentes. Nela a inscrição, "Dedicada às vítimas homossexuais do Nacional Socialismo, 1985. Cerca de 100 homossexuais foram aprisionados neste campo, muitos tendo sido assassinados.
 Em 1985, acreditava--se que entre 250.000 a 500.00 pessoas homossexuais (gays e lésbicas) haviam morrido em campos de concentração nazistas.

Lésbicas em Nairobi

Informe sobre a participação das integrantes do Serviço de Informação Lésbica Internacional (ILIS) durante a Conferência das Nações Unidas para o encerramento da década da mulher (1975-1985) em Nairóbi, no Quênia. Oficialmente a Secretária de Estado Holandesa para Emancipação falou sobre a dupla opressão das lésbicas, da importância de se quebrar a invisibilidade e da necessidade de se ver os relacionamentos lésbicos como uma alternativa totalmente viável à homossexualidade. Ainda dentro da agenda oficial do evento, foram realizadas oficinas com os temas "Lésbicas e Trabalho, Lésbicas e Saúde, Lésbicas e Racismo, Lésbicas e Juventude, reformas na lei e formação de uma Rede Lésbica Internacional."

Nas reuniões paralelas à agenda oficial, o ILIS distribuiu 4000 panfletos com o título "Mulheres que amam Mulheres" e 500 de seus boletins e abordo os temas do se assumir, lésbicas e outros movimentos e grupos lésbicos na América Latina, África e Ásia. O ponto alto do Fórum foi a conferência de imprensa quando lésbicas de várias partes do mundo falaram sobre suas vivências, apresentaram suas demandas e afirmaram que não aceitariam mais a invisibilidade. A conferência serviu também para que o ILIS aumentasse seus contatos internacionais com vistas à organização do seu encontro que queriam fosse o mais internacional de todos e que de fato foi e veio a ser realizado em março de 1986 (eu participei dele).

Fim do Espaço Gay (Rosely Roth)

Em geral, todos os informes eram feitos por mim, mas este foi trazido pela Rosely, pois ela foi pessoalmente conversar com a jornalista do Notícias Populares (NP) sobre o encerramento do Espaço Gay do jornal. O Notícias Populares (15/10/1963-20/01/2001), do Grupo Folha, era dirigido às classes populares, com manchetes sensacionalistas sobre crime, sexo e violência. Por isso, também era tido como jornal "pinga sangue". Lésbicas geralmente apareciam nas páginas do MP em função de crimes passionais ou de outra natureza. Entretanto, o surgimento do Espaço Gay, considerada a segunda coluna dirigida a homossexuais na grande imprensa (a primeira foi a Coluna do Meio) se deu pela percepção do jornal de que homossexuais também liam o NP e que valia a pena falar com esse público. 

Segundo Rosely, desde o surgimento do Espaço Gay, em novembro de 83, a responsável pela coluna, sob o pseudônimo Julian Gray, sempre havia demonstrado solidariedade em relação ao trabalho do GALF, informando sobre o grupo e o Chanacomchana. O GALF chegava a receber mais de 5 cartas por semana de lésbicas que ficavam sabendo da nossa existência através da coluna. 

O encerramento da coluna se deu 02/09/1985 e, segundo Rosely apurou junto a Julian, se deveu ao fato do editor-chefe do NP considerar o número de leitores da coluna mínimo (o que Julian contestou) e uma pedra no sapato do leitor médio do jornal que era moralista e conservador, embora gostasse de ver mulher pelada no jornal.

Pintou o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher

Informe sobre o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), criado em 29 de agosto de 1985, ligado ao Ministério da Justiça, mas com autonomia administrativa e financeira, com um programa prioritário de combate à violência, implantação de creches e participação das mulheres na constituinte. Tomou posse em 10/09/1985, na presidência da entidade a atriz e ex-deputada pelo PMDB, Ruth Escobar, assessorada por 17 conselheiras.

III Encontro Feminista Latino-americano e do Caribe, p. 6-12 (Míriam Martinho)

No resgate desse encontro, ocorrido numa colônia de férias em Bertioga (SP), descrevi a agradável surpresa de me deparar com um evento de bom astral, ao contrário de tantos outros demarcados por mapeamentos político-partidários, heterossexismos, jogos de poder, omissões e expulsões. (O fato de ter sido um encontro internacional, não local, pode ter pesado nesse resultado). Tinha ido mais com a perspectiva de vender o Chana e travar contatos com lésbicas de outros países, mas acabei gostando do evento no geral, apesar do conflito com umas mulheres que queriam entrar sem pagar e foram recusadas. Como o encontro era autofinanciado, não havia a possibilidade de ceder bolsas. Mas, apesar dessa situação não resolvida ficar pairando sobre o encontro, não chegou a comprometê-lo. Como o artigo é bem longo, para mais detalhes, vale lê-lo inteiro.

Aqui vou resgatar fundamentalmente minha análise das três oportunidades em que o encontro possibilitou a discussão do tema do lesbianismo (como se dizia então): o encontro informal que o GALF brasileiro organizou com o GALF peruano (Grupo de Autoconsciencia de Lesbianas Feministas), a apresentação de uma tese sobre o tema, e o debate oficial do encontro sobre o assunto.
Só lésbicas

Rebecca Sevilla (GALF-PE)-Míriam Martinho (GALF-BR)

A reunião só para lésbicas, organizada pelo GALF brasileiro (representado por mim e Rosely) e o GALF peruano (com destaque para Rebecca Sevilla) foi a mais significativa das 3 realizadas por marcar finalmente a ruptura da ligação simbólica que o GALF tinha com o coletivo que o precedeu, o grupo lésbico-feminista (05/79-06/81). Parte desse coletivo, após sua dissolução em junho de 1981, migrou para o movimento feminista, onde se acomodou no armário feminista da época. Nesta reunião organizada perto do bar da colônia de férias, participaram ao menos 3 ex-integrantes do citado grupo que deram seus depoimentos sobre as questões levantadas, mas sem demonstrar qualquer interesse por algum trabalho específico por e para lésbicas (uma delas veio inclusive a dizer não muito depois que era impossível organizar lésbicas no Brasil). Esse desinteresse nos trouxe a consciência, que já vinha se formando há algum tempo, de que nem simbolicamente tínhamos de fato mais nada em comum com o citado coletivo que justificasse continuar agregando-o ao histórico do GALF. Águas passadas nunca moveram moinhos.

Desta reunião participaram lésbicas do Brasil, Argentina, Peru, República Dominicana, México, Chile, EUA, Canadá e da Espanha que relataram suas experiências pessoais com seus grupos lésbicos (quando integravam algum), com o Movimento Feminista de seus respectivos países e com outras lésbicas não-feministas.

Dois temas se destacaram nos relatos: o tabu em relação à questão lésbica no MF, sendo ou simplesmente omitida ou abordada raramente e de forma superficial; e as dificuldades das feministas de lidar com léshicas não-feministas, principalmente as dos bares e boates, em função da reprodução dos papeis sexuais de feminino (passiva) e masculino (ativo) entre elas. A posição do GALF, em função de seu contato com as discussões da chamada Sex Wars (guerra sexuais) nos EUA, divergia desta postura sobre a reprodução dos papeis sexuais nas relações lésbicas, ponto que abordo quando falar da segunda reunião lésbica do encontro. 

Lésbicas latino-americanas, mas residentes nos EUA, falaram de seus trabalhos em arte e sobre a questão do racismo americano. Uma espanhola, do grupo Coletivo de Feministas Lesbianas de Madri, relatou que seu grupo havia aberto espaço no feminismo espanhol estando presente em todas as frentes possíveis. Eu pontuei que, talvez pelas diferenças culturais entre o Brasil e a Espanha, nós nunca tivéssemos tido esse sucesso embora fazendo o mesmo. Uma mexicana, de um grupo chamado Cuarto Creciente, relatou que os grupos lésbicos haviam se dissolvido já há alguns anos sem seu país, dando a impressão de que isto teria acontecido por falta de perspectivas políticas. No entanto, nós tínhamos informação de havia um grupo lésbico atuante no Estado de Morales, e, mais ainda, posteriormente, em 1986, não só contatamos outro grupo mexicano, como o primeiro encontro de lésbicas feministas vai ser organizado por ele, em outubro de 87, em Cuernavaca.

Vale aqui comentar que, neste encontro, além do desinteresse das lésbicas brasileiras, inclusive as do já citado ex-LF, por qualquer organização específica, ainda prevalecia a ideia de que lésbicas deveriam restringir suas atuações ao movimento feminista e não ter um movimento autônomo. No início da década de 90, vão surgir outros grupos lésbicos no movimento feminista, mas a posição permanecia a de levar a questão lésbica exclusivamente dentro do movimento feminista sem ter atuação com gays (porque seriam sexistas, machistas, misóginos) nem pensar num movimento específico. Questão lésbica só nos intervalos de algum evento feminista.

A Comunicação Individual

Hilda Rais -
Fonte: Potencia Tortillera
Em seus apontamentos, Hilda Ruis vai apontar que a lésbica é reprimida porque foge ao papel a ela designado por nossa sociedade machista que é de ser reprodutora da espécie, da mão de obra no casal e na família e objeto sexual dos homens. Segundo a autoria, a lésbica também desmascara o mito falocêntrico de que uma mulher para gozar precisa de um pênis e de que os papéis de feminino e masculino são naturais em vez de culturais. A lésbica seria, portanto, uma mulher independente dos homens sexual, emocional e economicamente, configurando, portanto, a transgressão e a desordem do sistema patriarcal.

Essa independência das lésbicas é punida com violência individual, familiar, social e institucional. Essa violência viria pela negação, do não-registro da existência da lesbianidade (nada sexual pode existir entre mulheres), pela tolerância (gostamos dela, apesar de lésbica) e pela repressão policial, discriminação no trabalho e via psicologia clínica tradicional. Acrescenta que esses três itens se amoldam para influenciar a autoimagem das lésbicas que experimentam sentimentos de culpa, vergonha, medo, solidão, isolamento, o que contribuiria para a existência dos guetos (bares, boates) onde a reprodução dos papéis sexuais oriundos do modelo heterossexual era generalizada.

Hilda finaliza sua apresentação defendendo grupos específicos de autoconsciência e autoafirmação para as lésbicas, mesmo que transitórios, com o objetivo de estas participarem mais plenamente do Movimento Feminista (observem que não para melhorar a própria vida). E que as mulheres heterossexuais deveriam revisar seus preconceitos e não mais verem o lesbianismo como um simples apêndice do tema mulher para que se pudesse ter um diálogo entre as diferenças.

Lesbianismo, Apontamentos para uma discussão feminista (Hilda Rais)

Após a apresentação, foi aberta discussão sobre os pontos levantados pela autora, com ênfase na questão da reprodução dos papéis sexuais, o que me surpreendeu. A maioria das presentes colocou que considerava a reprodução dos papéis uma coisa limitadora e que, nos bares e boates de seus respectivos países, a violência, o machismo e o alcoolismo eram muito comuns nesses lugares.

Influenciadas pelos debates acalorados das chamadas "guerras sexuais" do feminismo americano, inéditos no Brasil, que questionavam a postura feminista considerada restritiva sobre a sexualidade especialmente lésbica, eu e Rosely contestamos essas visões sobre papeis sexuais e gueto, mas não deu para aprofundar. Então, nesse relato do encontro, tentei aprofundar mais o tema, tendo considerado a maioria das abordagens lineares e um tanto moralistas.

Primeiro, pontuei que nós mulheres, feministas ou não, também reproduzíamos, em maior ou menor escala, os valores contidos nos estereótipos de gênero feminino e masculino porque fomos adestradas a partir deles. E que não podíamos confundir a necessidade de desmistificar a suposta naturalidade desses estereótipos, ou seja, mostrar que era tudo inventado, com uma postura pseudo iluminada e catequista de desprezo por aquelas mulheres lésbicas que não conheciam essa perspectiva ou, se conheciam, não compartilhavam desses questionamentos.

Depois, pontuei que as relações fancha-lady, apesar da reprodução do binômio masculino-feminino, não eram necessariamente uma reprodução das relações de poder homem-mulher, pois não cumpriam a função primordial deles na relação hétero que era a de manter a submissão da mulher ao homem e dar a este, através da monogamia feminina, alguma certeza da paternidade (os exames de DNA surgem na Inglaterra em 1985 e chegam ao Brasil em 1988). Que elas não eram, portanto, necessariamente opressivas, e que outras relações entre mulheres, onde não havia aparente reprodução dos papeis, podiam ser opressivas por diferenças outras como classe social, nível educacional, idade etc. Concluí dizendo que a utilização dos papéis de fancha e lady tinha também a ver com o erotismo, com a fantasia e a busca do prazer entre mulheres, não podendo ser sumariamente rotulada de reprodução das relações heterossexuais.

Pontuei ainda que, embora de fato no gueto (bares e boates) surgissem problemas de violência, machismo e alcoolismo, não dava para afirmar que tais problemas decorressem da reprodução dos estereótipos de ativa e passiva, mas sim fruto do próprio contexto de marginalidade desses locais que afetavam a autoestima das lésbicas. Argumentei também que não se devia execrar o gueto como lugares onde apenas rolassem problemas porque eles ainda eram os únicos locais de socialização disponíveis para as lésbicas e que, sem eles, as sapatas amargariam mais isolamento e solidão. O mais proveitoso era criar outros espaços alternativos para lésbicas, por exemplo, no próprio feminismo.

De fato, o que as feministas homossexuais criaram, até meados da década de 90, no Brasil ao menos, foi um novo gueto de lésbicas dentro do movimento feminista, um gueto onde as lésbicas não reproduziam visivelmente os papeis de fancha e lady, mas reproduziam outros aspectos dos estereótipos de gênero tanto masculino quanto feminino. Fora que, nos bares e boates, a função era de socialização e namoro, como qualquer outro espaço dessa natureza, não de politização, mas, no feminismo, teria que haver esse aspecto de politização da lesbianidade que nunca ocorreu. O gueto feminista homossexual também era só de socialização e pegação, mas as feministas lésbicas pareciam acreditar que eram ativistas lésbicas só por serem feministas, embora nada fizessem pelos direitos das lésbicas. 

Finalizei esse tópico, dizendo que minha intenção não era propor que lésbicas tivessem relações a partir de papeis bem determinados, mas sim que era preciso tomar cuidado ao abordar o complexo terreno da sexualidade para não correr o risco de limitar o exercício das individualidades e não propor apenas uma nova receita de comportamentos por mais que os considerássemos ideais.

A discussão oficial

A discussão oficial (porque estava na agenda do encontro) reuniu cerca de 70 mulheres de distintas orientações sexuais para se discutir a temática ainda tabu nos feminismos latinoamericanos: o lesbianismo como preferência sexual (a questão do desejo), o lesbianismo como questão política (não apenas como questão sexual) e as formas de se levar as questões lésbicas dentro do movimento feminista.

Dessas questões, a considerada mais polêmica foi a da lesbianidade como questão política, como um estilo de vida possível para todas as mulheres. Essa abordagem do GALF (via Rosely) foi considerada o discurso mais novo e interessante do encontro.

Houve também colocações sobre a necessidade das lésbicas de se reunirem em grupos específicos, curiosamente refutados por feministas homossexuais que pleiteavam só grupos mistos com héteros. E o questionamento sobre o porquê dos silêncios dos grupos feministas no tocante às questões lésbicas. Ficou claro que a questão lésbica ainda sofria todo um processo discriminatório, sendo mantida exclusivamente dentro do terreno do privado, apesar do slogan feminista de que o "privado era político".

De positivo dessa reunião, ficou a constatação de que as mulheres de vivência heterossexual reconheciam a especificidade lésbica e que, ao contrário da lenda de que se sentiam ameaçadas pelos grupos lésbicos, queriam discutir o tema.

Concluí repetindo o que dissera no início do texto - de que o encontro fora uma surpresa positiva - e listei os grupos lésbicos e mistos que participaram do mesmo. E informei que o fecho do encontro foi uma manifestação na Praça da Sé, centro de São Paulo, no dia 5 de agosto onde as participantes cantaram e dançaram e celebraram o próximo encontro que se daria no México em 1987.

Dicas de leitura (Míriam Martinho)





Poesia, p. 13

Poesia era um espaço que eu definia como "para as lésbicas poderem falar de como era bonito, sensual, gostoso e ótimo amar outra mulher." Nesse sentido, sempre busquei trazer poesias de teor romântico e erótico de autoras conhecidas e desconhecidas que apreciavam escrever poesias, mais ou menos elaboradas, atividade pela qual lésbicas sempre tiveram predileção.

Neste número 9, escolhi 4 poesias, incluindo uma minha, levemente eróticas e irônicas, e com uma maior abrangência temática.

Em Asas Abertas, Jurema Barreto de Souza, tematiza a coragem de se ser quem se é, que pode ser lido no sentido mais geral ou no específico da lesbianidade discriminada, com a ruptura dos limites impostos pela sociedade à individualidade de cada pessoa. "Não calar as verdades para sairmos desta gaiola dos limites impostos. De uma vez por todas...voar."

Em Cicatriz, Ana Valim rechaça a visão negativa sobre a vulva/vagina vigente na sociedade patriarcal so dizer que "Ela possui uma beleza 'imprópria, um cheiro intrigante, quando brinco com ela e chupo os meus dedos melados."

Em Maria eu faço uma Eucaristia lésbica onde o pão que colho do cesto da boca de Maria e o vinho de sua saliva se transubstanciam no corpo e sangue do desejo. Corpo tão intenso de Maria que o corto em fatias e o distribuo como hóstia a quem passa. E aos que intencionam me prender por heresia afirmo que a carne de Maria (do desejo) é sagrada como a função dos meus olhos que já tinham visto muito, mas ainda precisavam ver.
Em Confissão, Reca Polleti, bem no estilo casual, irônico, cotidianizado da geração mimeógrafo/marginal dos anos 70, vai confessar sua vontade de morder a mulher do próximo e chupar seus ossos. Fingindo-se arrependida, jura não sentir mais essas coisas escabrosas, desde que a do próximo pare de vir dormir em sua casa.

AIDS: fato e preconceito, p. 14-15 (Selma Giorgio)

Este texto, escrito pela bióloga Selma Giorgio, retrata o início da chegada da AIDS ao Brasil quando as vítimas da síndrome ainda eram fundamentalmente os gays.  Ela relata que a maioria dos pacientes (70%) era de homens homossexuais e bissexuais, embora já houvesse contato heterossexual registrado. Na década de 90, o número de pessoas heterossexuais afetadas, sobretudo mulheres, vai aumentar consideravelmente.

Nesse primeiro momento, a síndrome foi rotulada de peste gay, câncer gay, e moveu muitos homens homossexuais para os incipientes grupos de prevenção a AIDS, como o GAPA. Ela também afirmava que, até onde se conhecia, não havia riscos nas relações entre lésbicas. Na década de 90, com o aumento dos casos da síndrome entre mulheres, começaram a surgir registros de alguns casos entre mulheres lésbicas e bissexuais, o que motivou o surgimento de campanhas de prevenção como a Rede Um Outro Olhar iniciou a partir de 1995. No entanto, a AIDS felizmente nunca se tornou facilmente transmissível no sexo entre mulheres, como outras doenças sexualmente transmissíveis, não se constituindo num grande problema de saúde para as sapatas, o que não descarta a necessidade de cuidados nos relacionamentos.

A autora discorre no seu texto sobre as características da síndrome, formas de contaminação, sobrevida dos pacientes e lamenta que, num momento em que o Conselho Federal de Medicina resolvera não mais considerar o homossexualismo (nos termos de então) como transtorno mental, os gays passassem a ser vistos como os sujeitos da doença. Temia que a AIDS se tornasse uma boa desculpa para perseguir gays e para retroceder direitos duramente conquistados. Igualmente temia que se normatizassem as relações gays (volta ao casal) com a medicina substituindo a moral cristã do pecado e do puritanismo.

De fato, a AIDS vai representar o fim da revolução sexual, um dos baluartes da revolução sociocomportamental da Contracultura dos anos 60 e 70 que também se encerra nesse período.

Homossexualidade na Constituição, p. 16-19 (Rosely Roth)


Em Homossexualidade na Constituição, Rosely vai abordar a possibilidade de inserção de um item contra a discriminação a gays e lésbicas na elaboração da nova constituição brasileira que viria a ser promulgada em 05 de outubro de 1988. Lembra, na ocasião do artigo, que a campanha para eleger diretamente o presidente da República, chamada Diretas-Já, havia trazido de volta o interesse da população pela participação política, apesar de a emenda Dante Oliveira não ter passado no congresso e Tancredo Neves ter sido eleito ainda pelo Colégio Eleitoral.

Mesmo depois da morte de Tancredo, que acabou não assumindo, e a ascensão de seu vice, José Sarney, à presidência da República, a perspectiva de uma nova constituição como corolário do processo de redemocratização em curso, manteve a população animada com a política a ponto de o hino e a bandeira brasileiras voltarem a ficar na moda. Sarney fez a convocação para candidatos a constituintes no dia 28 de maio de 1985, sendo a eleição geral realizada em 27 de novembro de 1985, quando se estipulou que os membros da Câmara dos Deputados e do Senado Federal eleitos deveriam se reunir, em Assembleia Nacional Constituinte, no dia 1º de fevereiro de 1987, na sede do Congresso Nacional.

Rosely observa que, no debate sobre a constituinte em curso em 1985, o deputado do PMDB Flávio Bierrenbach defendia a realização de um plebiscito, em 12 de março de 86, para a população decidir se preferia uma constituinte independente do Congresso Nacional ou um Congresso Constituinte. A proposta de Bierrenbach foi vencida, e a maioria dos partidos apoiou a posição do governo de uma Assembleia Constituinte partidária. Condizente com sua perspectiva de priorização dos movimentos sociais, Rosely afirmou que preferia uma assembleia constituinte formada por integrantes desses movimentos que defenderiam projetos e propostas próprias da sua base.
Rosely também faz um apanhado das 7 constituições até então promulgadas, sendo 3 precedidas de assembleias constituintes. Apenas cito as 7 abaixo e me atenho a seus comentários sobre as precedidas de assembleias constituintes.

1ª - Constituição de 1824 (Brasil Império)
2ª - Constituição de 1891 (Brasil República) - precedida de Assembleia Constituinte
3ª - Constituição de 1934 (Segunda República) - precedida de Assembleia Constituinte
4ª - Constituição de 1937 (Estado Novo)
5ª - Constituição de 1946. (Redemocratização) - precedida de Assembleia Constituinte
6ª - Constituição de 1967 (Regime Militar)
7ª - Constituição de 1969 (Regime Militar) *
8ª - Constituição de 1988 (Redemocratização) - precedida de Assembleia Constituinte

*A história oficial reconhece as constituições brasileiras como somente sete, considerando a de 69 como apenas uma reinterpretação do texto de 1967 (Emenda Constitucional 1/1969) pela Junta Militar que governou o Brasil após a morte do presidente-general Costa e Silva.

Sobre a Assembleia Constituinte de 1890, da qual só por curiosidade participou meu bisavô, Martinho Rodrigues de Souza, Rosely deu ênfase à questão da participação popular praticamente inexistente, já que as mulheres, os analfabetos e os menores de 21 anos não puderam votar na escolha dos participantes da constituinte. Esta constituição (a 2ª), que durou 43 anos, instituiu o federalismo e o voto direto para presidente (com mandato de 4 anos).

Sobre a Assembleia Constituinte de 1933, 3ª, Rosely lembrou que, pela primeira vez, as mulheres e os maiores de 18 anos puderam votar para os membros que integrariam a Assembleia Constituinte. Esta constituição instituiu o salário-mínimo, a jornada de 8 horas e as férias anuais. Teve duração efêmera, pois três anos depois da sua promulgação foi abolida por Getúlio Vargas que deu início a ditadura do Estado Novo.

Carlota Pereira de Queiroz durante a Constituinte de 1934.
Secretaria Municipal de Cultura de SP

Sobre a Assembleia Constituinte de 45, a 5ª, Rosely observou que, nas eleições gerais daquele ano, os analfabetos, embora majoritários, e os menores de 18 anos não puderam votar. E, de fato, no próprio texto constitucional, essa limitação seria mantida. E que o grande mérito da nova constituição, comparada com a autoritária de 1937, era o retorno do voto direto.

Rosely foi muito lacônica sobre essa constituição que, de fato, consolidou a democracia no Brasil, via sistema representativo, com eleições para os cargos em todas as esferas: federal, estatal, municipal. Ela também estabeleceu o voto secreto, mandatos de presidentes e governadores por 5 anos (sem reeleição), delimitação precisa dos limites do Executivo, Legislativo e Judiciário, autonomia política para os estados e importantes direitos individuais, como a liberdade de imprensa e de opinião.

Rosely termina seu texto lamentando mais uma vez o fato de que os movimentos sociais não iriam ter representantes próprios na Assembleia Constituinte de 87, pois isso a tornaria menos representativa e democrática, mas via como alternativa a busca de propostas concretas de inserção de um item na Assembleia Constituinte de 87, contra a discriminação à homossexualidade, a ser apresentada aos constituintes que quisessem encaminhá-las. Acreditava que, mesmo não sendo bem-sucedidas na inserção do citado item, as lésbicas ampliariam o debate sobre a lesbianidade e a homossexualidade no geral ao discutir com outros setores da sociedade, contribuindo assim para combater o preconceito.

De fato, as décadas se passaram e nunca rolou uma lei específica para o que passou a ser chamado de homofobia. Houve apenas, em 2019, uma decisão do STF inserindo os casos de homofobia (e aí já de transfobia) na Lei do Racismo (Lei n 7.716/1989). Por essa inserção esdrúxula, de acordo com o artigo 20 da citada lei, alguém considerado homofóbico pode pegar pena de um a três anos de reclusão e multa.

Como de fato, nunca se conseguiu passar leis nem regulando o casamento entre pessoas de mesmo sexo nem contra a homofobia, a possibilidade de reversão dessas pretensas vitórias obtidas via STF permanece presente a depender das articulações dos setores conservadores.

Deusas da Cura, p. 20-21 (Míriam Martinho)

Ísis amamentando o filho Hórus
Deusas da cura é uma tradução que fiz a partir de um texto original da revista sobre medicina Panakaeia, publicado em outra revista chamada Isis Women's World em 1985. O texto tratava da relação das deusas da antiguidade e de sua relação com as artes da cura.

O feminismo de segunda onda (provavelmente o último real exemplar de sua espécie) buscava apontar o patriarcado como o fenômeno histórico, político e social que é, desconstruindo a ideia prevalente deste como uma realidade imutável desde a época das cavernas. Dada à importância das religiões patriarcais, em especial as abraâmicas, como o Judaísmo, Cristianismo, Islamismo, na consolidação desse sistema, pesquisadoras feministas (arqueólogas, antropólogas entre outras) trabalharam para resgatar as deusas que essas religiões buscaram apagar da História e sua relação com sociedades onde não vigorava o deus-pai.

Outra perspectiva muito importante do feminismo de segunda onda era o trabalho com a saúde e a sexualidade das mulheres que gerou vários coletivos nessa área. Focada no autoconhecimento do corpo feminino e em tratamentos alternativos aos tradicionais, essa perspectiva gerou alguns trabalhos antológicos como o livro Our Bodies, Ourselves, de 1973, do coletivo de mulheres de Boston que teve várias edições ampliadas a cada reimpressão.


Our Bodies, Ourselves, 1973
Este texto que traduzi trata do papiro de Ebers, descoberto num túmulo egípcio de 1500 anos a.C. no século XIX, onde, além de um pedido à deusa Ísis por cura, encontra-se uma compilação de 875 receitas para todos os tipos de males.  Segundo o texto, documentos como esses evidenciavam que a medicina e o conhecimento das ervas, a prescrição de drogas e a cirurgia estiveram por milhares de anos nas mãos das mulheres.

Que a ideia de que a arte da cura teria surgido com o deus greco-romano Esculápio e a medicina com Hipócrates escamoteia o protagonismo das mulheres na área da saúde. O deus Asclepius (Esculápio em latim) seria o pai de duas deusas da cura, subordinadas a ele: Higia (de onde deriva a palavra higiene) e Panakaeia (de onde deriva a palavra panaceia, remédio para todos os males). Estas "filhas", porém, já existiam antes da mitologia greco-romano inventar que as artes da cura teriam surgido com o deus Asclepius-Esculápio. De fato, essas deusas eram expressões da Grande Mãe, em suas formas de cura, figura central da época em que a humanidade venerava deusas, cujos cultos começaram a desaparecer por volta de 2.400 a.C. com a invasão de povos indo-europeus que acreditavam em deuses masculinos.

 
Lésbicas e Sexualidade, p. 22-26 (Luiza Granado e Selma Giorgio)

Na sequência das entrevistas publicadas no Chanacomchana, sobre temas vários, esta sobre sexualidade foi a que obteve mais retorno das leitoras e associadas do GALF. Segundo Luiza Granado e Selma Giorgio que elaboraram as perguntas e compilaram as respostas, a entrevista tentou abordar vários aspectos da sexualidade lésbica: o aspecto social, o processo de autoafirmação, o uso de objetos sexuais, a questão do orgasmo, dos papeis sexuais, da monogamia, entre outros. 

Segundo Luiza e Selma, a receptividade foi surpreendente, revelando a necessidade de mais oportunidades para discutir o assunto, e demandando uma filtragem maior das respostas, por questão de espaço no boletim. Assim sendo, foram publicadas duas respostas de diferentes mulheres (com nomes fictícios) para cada pergunta da entrevista.

No aspecto social e da autoimagem, as perguntas giraram em torno da visão das entrevistadas sobre:

> se a sexualidade ainda era um tabu (a que responderam afirmativamente), 
se o preconceito contra a lesbianidade interferiu em sua sexualidade (a que responderam que sim na adolescência e no sentido de gerar confusão sobre sua orientação sexual),
se gostavam do próprio corpo no geral (a que responderam de forma enfaticamente positiva)
se achavam suas chanas bonitas e o que pensavam dos cheiros (a que uma respondeu de forma totalmente positiva sobre a aparência e o cheiro de sua chana e a outra de que não achava o aspecto nem feio nem bonito, mas gostava do cheiro).
se viviam com as namoradas ou não (uma respondeu que sim, embora considerasse a convivência bem ruim, e a outra que não vivia com a namorada e que transavam no apartamento dela ou em hotel).
se eram monogâmicas (uma respondeu que sim, a outra que não)
como viam o sexo sem amor (ao que uma respondeu negativamente e a outra como tudo bem, mas que com amor era melhor)
qual a importância que o sexo tinha em suas vidas (ambas responderam que não vinha em primeiro lugar, mas logo em seguida)
como viam as noções da sexualidade lésbica como doente, anormal, imatura (ambas responderam que essas noções derivavam do fato de as lésbicas romperam com o modelo do sexo reprodutivo, esperado para as mulheres na relação heterossexual, tendo relacionamentos fundamentados no amor e no prazer, o que seria revolucionário).
> se acreditavam que a sociedade estava passando por uma fase de transição ou de mudança em relação a sexualidade, uma respondeu que não, que de fato todo mundo tinha vergonha de ser preconceituosa, mas, no fundo, os tabus permaneciam. Outra que estávamos sim numa fase de mudança, mas bem no início, e que a liberação sexual, o sexo pelo sexo, a obrigatoriedade do orgasmo tinha deixado algumas mulheres até mais frias.

Sobre a sexualidade lésbica e as práticas sexuais, as perguntas respostas foram sobre:

> quais práticas sexuais preferiam, duas responderam que todas possíveis, mas uma se mostrou bastante refratária ao uso de objetos sexuais nas relações entre mulheres e outra que jamais pagaria para transar com uma mulher. 
> como viam os papeis sexuais de ativa e passiva, duas responderam negativamente, uma por considerá-los restritivos do comportamento simplesmente, outra, por além disso, reproduzirem o duo senhora e escrava, "macho e fêmea".
> se conversavam com as namoradas sobre suas preferências sexuais, uma afirmou que falava sim sobre sexo com a namorada, mas que reconhecia ser uma minoria a fazer isso. Outra que não tinha um diálogo aberto com a namorada, pois ela não se abria para tal. Que havia lhe dado até literatura sobre sexualidade e lesbianismo, mas que não forçava esse tipo de conversa para não estragar o relacionamento afetivo com ela.
qual a importância do orgasmo nas relações sexuais, uma afirmou que era chato não atingir o orgasmo, mas que não o via como uma obrigatoriedade, que a transa valia mais pela entrega, pelo momento em comum. Outra que o objetivo da transa era chegar ao orgasmo e que era ruim para o relacionamento quando uma o atingia e a outra não.
> quais as preferências sobre penetração, sexo oral, carícias nos seios. A maioria apontou o sexo oral como sua preferência, tanto ao fazer quanto ao receber. Outras estimulações do clitóris como a manual ou por tribadismo também foram citadas. Quanto à penetração, uma disse que não gostava de forma alguma de ser penetrada, outra que fantasiava penetrar uma mulher. Carícias nos seios com dedos ou a boca também foram cotadas como preferidas.

Em 1985, nós ainda vivíamos os eflúvios da revolução sexual da Contracultura, dos anos 60-70-início dos 80, que vai possibilitar a emergência de discussões na TV brasileira sobre a sexualidade e outras questões das mulheres. Em 1980, a Globo dava início ao programa TV Mulher que ficou no ar até 1986, e reuniu um time de apresentadores, onde se destacaram, entre outros, Marília Gabriela, Xênia Bier, e Clodovil. Havia também vários quadros nesse programa, por exemplo, sobre o Direito da Mulher, com a advogada Zulaiê Cobra Ribeiro, e sobre comportamento sexual com a então sexóloga Marta Suplicy,  o mais polêmico da TV Mulher a ponto de ter chamado a atenção da Divisão de Censura do regime militar que o classificou de baixo nível e motivo de preocupação. Amostra abaixo.


O fato é que a revolução sexual foi de fato uma revolução não só porque tirou a sexualidade do reino do tabu, existente até os anos 50, como também a colocou como fundamental para a felicidade e a realização das pessoas. Liberou a sexualidade feminina, junto com o advento da pílula contraceptional, e ajudou a desestigmatizar a homossexualidade. Mas nem tudo foi um mar de rosas e, na revisão daquele período, principalmente as mulheres reclamaram da "tirania das relações múltiplas, do prazer e do orgasmo". Curioso observar, na entrevista ao Chana, que já em 1985, uma das entrevistadas vai dizer que "a liberação sexual, o sexo pelo sexo, a obrigatoriedade do orgasmo tinha deixado algumas mulheres até mais frias." 

Na verdade, passou-se de um extremo ao outro. Se na década de 50 do séc. XX, sexo ainda era tabu e pegava muito mal falar sobre o assunto, depois da revolução sexual, sobretudo nos dias de hoje, com sua hiperssexualização, fala-se demais em sexo, e o amor é que se tornou tabu. A geração atual parece inclusive achar que as pessoas têm a obrigação de transar com quem não têm interesse algum só pra posar de não-fóbico de alguma coisa na foto do fascismo woke. Retrocesso.

Troca-cartas 
Para um bom papo, aquela transa, um grande amor

Neste troca-cartas, mudei a imagem da seção e listei 17 correspondentes, sendo oito paulistanas, quatro paulistas, duas do Rio, uma gaúcha, uma cearense e uma baiana curiosamente, como observado no CCC 7-8, com a maioria colocando seu nome por extenso.

CCC 9dez., jan. 85/86 © Coleção Chanacomchana. Míriam Martinho

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