Primeira adoção de criança por casal gay na Alemanha

quinta-feira, 12 de outubro de 2017 1 comentários

Casal gay se casa na Alemanha momentos depois de a lei que permite a união de pessoas do mesmo sexo entrar em vigor no país Foto: REUTERS/Axel Schmidt

Alemanha registra primeira adoção de criança por casal gay Associação de defesa dos direitos dos gays e das lésbicas anunciou que tribunal autorizou na semana passada o casal Michael e Kai Korok a adotar criança de 2 anos e meio que já vive com eles desde o nascimento; casamento gay entrou em vigor no país neste mês
BERLIM - A primeira adoção na Alemanha de criança por um casal homossexual foi registrada em Berlim, anunciou nesta terça-feira, 10, uma associação de defesa dos direitos dos gays e das lésbicas.

A adoção foi autorizada em 5 de outubro por um tribunal de Tempelhof-Kreuzberg, um bairro do sul da capital, depois da entrada em vigor, no dia 1º deste mês, da legalização da união entre pessoas do mesmo sexo, abrindo caminho para o direito à adoção.

Michael e Kai Korok se casaram em 2 de outubro e precisavam apenas pedir a certidão de casamento. O pedido de adoção já havia sido apresentado há meses.

O garoto, de dois anos e meio, vive desde seu nascimento com esse casal designado como família substituta. Apesar de recorrerem à Justiça, eles tentavam em vão adotar o menino.
"É um grande passo para os gays e lésbicas com maior segurança jurídica agora", comemorou Jörg Steinert, porta-voz da associação de gays e lésbicas de Berlim.

Votada em 30 de junho, a lei que abre caminho para as uniões entre pessoas do mesmo sexo modificou o Código Civil que agora define o casamento como "uma união para a vida entre duas pessoas de sexo diferente, ou idêntico". / AFP

Conselho Federal de Psicologia vai recorrer da decisão liminar de juiz brasiliense que possibilita "cura gay"

segunda-feira, 18 de setembro de 2017 0 comentários



Resolução CFP 01/99 é mantida em decisão judicial
Justiça Federal do DF preserva a íntegra do texto normativo, mas se equivoca ao definir como o Conselho Federal de Psicologia deve interpretar a resolução

A Justiça Federal da Seção Judiciária do Distrito Federal acatou parcialmente o pedido liminar numa ação popular contra a Resolução 01/99 do Conselho Federal de Psicologia (CFP) que orienta os profissionais da área a atuar nas questões relativas à orientação sexual. A decisão liminar, proferida nesta sexta-feira (15/9), abre a perigosa possibilidade de uso de terapias de reversão sexual. A ação foi movida por um grupo de psicólogas (os) defensores dessa prática, que representa uma violação dos direitos humanos e não tem qualquer embasamento científico.

Na audiência de justificativa prévia para análise do pedido de liminar, o Conselho Federal de Psicologia se posicionou contrário à ação, apresentando evidências jurídicas, científicas e técnicas que refutavam o pedido liminar. Os representantes do CFP destacaram que a homossexualidade não é considerada patologia, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) – entendimento reconhecimento internacionalmente. Também alertaram que as terapias de reversão sexual não têm resolutividade, como apontam estudos feitos pelas comunidades científicas nacional e internacional, além de provocarem sequelas e agravos ao sofrimento psíquico.

O CFP lembrou, ainda, os impactos positivos que a Resolução 01/99 produz no enfrentamento aos preconceitos e na proteção dos direitos da população LGBT no contexto social brasileiro, que apresenta altos índices de violência e mortes por LGBTfobia. Demonstrou, também, que não há qualquer cerceamento da liberdade profissional e de pesquisas na área de sexualidade decorrentes dos pressupostos da resolução.

A decisão liminar do juiz federal Waldemar Cláudio de Carvalho mantém a integralidade do texto da Resolução 01/99, mas determina que o CFP a interprete de modo a não proibir que psicólogas (os) façam atendimento buscando reorientação sexual. Ressalta, ainda, o caráter reservado do atendimento e veda a propaganda e a publicidade.

Interpretação – O que está em jogo é o enfraquecimento da Resolução 01/99 pela disputa de sua interpretação, já que até agora outras tentativas de sustar a norma, inclusive por meio de lei federal, não obtiveram sucesso. O Judiciário se equivoca, neste caso, ao desconsiderar a diretriz ética que embasa a resolução, que é reconhecer como legítimas as orientações sexuais não heteronormativas, sem as criminalizar ou patologizar. A decisão do juiz, valendo-se dos manuais psiquiátricos, reintroduz a perspectiva patologizante, ferindo o cerne da Resolução 01/99.

O Conselho Federal de Psicologia informa que o processo está em sua fase inicial e afirma que vai recorrer da decisão liminar, bem como lutará em todas as instâncias possíveis para a manutenção da Resolução 01/99, motivo de orgulho de defensoras e defensores dos direitos humanos no Brasil.

Mulheres e homens que se conciliaram com o próprio corpo e destransicionaram

sexta-feira, 8 de setembro de 2017 2 comentários

Isabela Arouca chegou a iniciar transição, mas desistiu - Marcos Alves / Agência O Globo

Conheça a história de homens e mulheres que mudaram de gênero e, depois, voltaram atrás

Aumenta o número de grupos na internet que discutem processo de 'destransição'

SÃO PAULO - Denise, de 24 anos, acompanha atentamente a movimentação de Ivana, na novela “A Força do Querer”. Em frente à TV, acha curiosa uma das cenas, quando a personagem injeta na própria perna hormônio masculino. Ela mesma, num processo de automedicação, também recorreu à testosterona. Assim como a personagem de Gloria Perez, que passa por uma transição de gênero, Denise se identificou como homem aos 18 anos, tomou hormônio, adotou Danilo como nome social e chegou a retirar os seios. Mas ela não se adaptou e, como Danilo, tentou se matar após a cirurgia de mastectomia. Em menos de dois anos, resolveu “destransicionar” — termo utilizado no processo de quem decide voltar à identidade original. Uma série de questões existenciais e o desconhecimento sobre os efeitos da medicação têm feito com que pessoas parem com a transformação.

Ao mesmo tempo em que aumenta a discussão sobre identidade de gênero, cresce também o número de grupos na internet que discutem o processo de “destransição”. Uma busca simples no Facebook com a palavra mostra uma série de depoimentos nesse sentido. Em um dos grupos, chamado “Destransicionando”, há 5,3 mil seguidores. O GLOBO conversou com cinco pessoas — quatro mulheres e um homem — que mudaram de gênero e depois voltaram atrás diante de diferentes situações com que se depararam.
Transicionei para me encontrar, mas isso me afastou de muita gente. Fui vista como ameaça e doeu muito. Percebi que ser homem trans acabaria me limitando, e traria consequências que talvez eu resolvesse de outra forma. Mas a gente nunca volta para o mesmo estado. Vamos para outro — justifica Denise.
Para passar por todo esse processo, Denise procurou o Centro de Referência e Treinamento DST/AIDS de São Paulo (CRT). O correto, segundo o Sistema Único de Saúde (SUS), é o paciente ser avaliado e ter acompanhamento de profissionais da saúde, incluindo psicológico, por pelo menos dois anos, para que ele tenha segurança e certeza de suas vontades. Também deve ter, no mínimo, 18 anos. Para procedimentos cirúrgicos, a idade mínima é de 21 anos, e a fila de espera pode levar uma década.

REJEIÇÃO, MEDO E DÚVIDAS

Denise entrega que “furou fila” com ajuda de um profissional do CRT. O médico a atendeu em seu consultório privado e em seis meses ela conseguiu o aval para tomar hormônios. A cirurgia, realizada menos de um ano depois do início do processo, foi bancada por sua mãe num hospital privado. Denise lembra que um dos motivos que a fez parar a transição foi pela rejeição dentro do próprio meio trans.
Hoje me sinto bem porque deixei de tentar me encaixar, mas entendo as pessoas trans. Foi um caso particular, só meu — frisa ela, hoje fazendo uso de um sutiã de silicone.
O alagoano Pedro, de 19 anos, não procurou a ajuda de especialistas e usou hormônios femininos aos 10 anos por conta própria, para atender “uma grande vontade de ter a puberdade que minhas irmãs tinham”. Aos 14 anos, já tinha seios. Entre medos, traumas e dúvidas quanto à sexualidade, parou com o medicamento no início de agosto deste ano. Em duas semanas, diz que seus seios reduziram e a barba começou a crescer. Agora, diz que é capaz de “se ver novamente”.
Tentei por anos me encaixar em alguma classe e não consegui. Me taxam de coisas e eu vivo a tristeza de não me contentar com nada. Tive meu lado mulher como personagem para fugir de uma realidade que estava vivendo, mas entrei em outra que não me pertencia. Decidi ser o que minha natureza reservou pra mim — declara ele.
Voltar atrás, seguir adiante ou tomar um terceiro caminho em busca da satisfação pessoal é normal, afirma a psicanalista Letícia Lanz. Ela defende que “as pessoas têm o direito de ser o que elas são, sem receber um rótulo, podendo ter quantos gêneros puder”. Letícia se assumiu trans após os 50 anos e afirma ter sofrido preconceito mesmo dentro do seu meio.
Quem destransiciona sofre o mesmo tipo de coisa que sofreu quando transicionou, com o agravante de que, além da sociedade, agora tem também parte da população transgênero contra ela — aponta Letícia, dizendo ser contrária ao uso do hormônio em crianças.
O tratamento hormonal precoce também é visto com ressalvas pela psicanalista Natália Pereira Travassos, voluntária da ONG Grupo Arco-Iris. Segundo ela, jovens estão buscando respostas muito precocemente sobre uma questão bastante complexa:
 Nada implica que a transição seja definitiva, logo é necessário suspender qualquer decisão enquanto esse processo subjetivo não se completar.
Apesar de a paulistana Carolina, de 45 anos, ter feito a transição para o gênero masculino aos 35 anos, “com consciência do que queria”, os hormônios renderam internações por trombose no cérebro e pulmão. Ela desistiu do processo, mas gostaria de voltar:
A vida não é um ioiô. Quem começa esse processo cheia de dúvidas pode querer voltar atrás — diz.
O psicólogo Alexandre França, do Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro, defende, antes de mais nada, maior atenção aos que OPTAM pela transição de gênero:
 Precisamos verificar como a sociedade acolhe os que passarão pela transição, e como essas pessoas conseguem sobreviver a todo esse processo.
Sobre pessoas que furam a fila com ajuda de médicos, o Ministério da Saúde informa, por nota, que há fiscalização dos serviços prestados por meio de monitoramento, supervisão e auditorias, e que repudia qualquer ato ilícito. A pasta cobre cirurgias e procedimentos ambulatoriais para pacientes que desejam fazer a redesignação sexual desde 2008. Não há dados oficiais sobre a quantidade de pessoas que desistem da transição, depois de terem dado início ao processo.

Até maio deste ano, ao todo, foram realizados 18.241 procedimentos ambulatoriais e 400 cirurgias de mudança de sexo num dos nove centros habilitados para oferecer estes procedimentos. Para quem se arrepende dos procedimentos, o Ministério informa que a conduta da equipe médica é considerar cada caso, e que é possível a reversão.

As histórias de “destransição” são muitas. A jornalista paulistana Rafaela, de 23 anos, se identificou como um homem trans aos 21, quando passou a atender pelo nome de Henrique. Enquanto frequentava reuniões com pessoas trans, percebeu, no entanto, que poderia fazer as mesmas coisas que sente vontade na pele de Rafaela:
Entendi que a mudança não me faria pertencer a algum lugar. Várias amigas que passaram pela transição dizem que essa crise de gênero não passa e decidi viver essa dúvida — conta.


'Ser mulher é um ato político'

Por Isabela Aroca

Sempre gostei de usar roupas confortáveis. Ia para a escola de chuteira. Ouvia gracinha por causa do meu jeito mais masculino e sofria muito preconceito e misoginia. Tentei ser aceita na sociedade, usando umas roupas femininas de vez em quando. Aos 27 anos, adotei o nome de Bruno para fugir da opressão. Você acha que por ser um homem não vai sofrer. Então fiquei um ano forçando meus pais e amigos a me chamarem pelo nome masculino.

Para ajudar no processo, fui ao Centro de Referência e Treinamento DST/AIDS de São Paulo (CRT) e comecei a fazer acompanhamento psicológico. Já tinha a ideia de tirar o seio para ter a liberdade de usar camiseta, ou não usar nada, sem sofrer violência. Também parei de usar sutiã e adotei cabelos curtos.

Ao frequentar grupos de discussão com homens trans, comecei a analisar os mais velhos. Muitos têm problemas de saúde por causa do hormônio e me preocupei com isso. Você não tem um acompanhamento voltado para a saúde do homem trans. As pessoas te falam como é o tratamento e mandam ir lá uma vez na semana pegar seu hormônio.

O estado não dá uma segurança, não passa o que a gente espera. Fora isso, você chega lá, te colocam num fundo de hospital, com cadeiras e macas quebradas. Me peguei pensando: larguei o que achava que eu era para ser outra pessoa e encarar a mesma coisa, ou seja, ser jogada na sociedade, sem estrutura nenhuma?

Também percebi — e friso aqui que não são todos — que o homem trans, para ser aceito, acaba oprimindo uma mulher da mesma forma que era oprimida. Mas esse é o meu entendimento. Há quem esteja buscando sua afirmação e vai em busca do seu lugar. Eu me peguei praticando machismo e cheguei à conclusão de que não poderia reproduzir o que passei como mulher.

Minha companheira me mostrou textos variados sobre o tema, muitos apontando problemas de saúde por causa do uso de hormônios e cheguei a um artigo sobre “destransicionamento”. Conheci mulheres que desistiram da transição e a conclusão foi a de que temos que entender a nossa posição na sociedade.

Eu quero liberdade. E, se quero isso, não posso ser uma pessoa que não sou. Sou alguém que gosta de mulher e de se vestir confortavelmente.

Ser mulher é um ato político. Minha genitália não define nada. Quem define sou eu. Aprendi a aceitar meu corpo. Quando eu entendi, decidi que quero proteger as minhas, ser mulher”.

Fonte: O Globo, por Luiza Souto/Juliana Arreguy, 03/09/2017   #NãoExisteCriançaTrans 

Deborah Secco declara que, se tiver filha lésbica, estará ao lado dela

quarta-feira, 30 de agosto de 2017 0 comentários

Deborah Secco se desculpa com LG por comentários preconceituosos de seus seguidores

Deborah Secco critica comentários preconceituosos: “Se for minha filha, estarei do lado dela”

A atriz Deborah Secco tem grandes trabalhos na TV, e também é bastante popular em perfis nas redes sociais.

Segundo informações do UOL, ela usou a sua conta oficial no Instagram para criticar a homofobia. Primeiro, compartilhando a capa da nova edição da Vogue Itália, em que dois homens aparecem se beijando. E depois, rebateu comentários preconceituosos de seus seguidores.
Desculpa o pijama, a cara, a hora, mas eu fiz um post agora de uma capa da do Giovanni Bianco. Dois homens se beijando, ele fez também duas mulheres se beijando, um beijo lésbico, e um homem e uma mulher se beijando, um beijo hétero. E aí veio uma chuva de comentários preconceituosos, maldosos, odiosos. Vim aqui me desculpas com mães de possíveis meninos ou meninas homossexuais que tenham por ventura lido isso, se magoado com tantos comentários maldosos, odiosos e preconceituosos”, disse ela.
Em outro momento do vídeo, ela responde a um seguidor que perguntou o que ela faria se fosse a filha dela beijando outra mulher:
Quero responder também em especial um que perguntou ‘e se fosse sua filha?’. Bem, se fosse minha filha, eu quero te dizer que vou estar do lado dela seja qual for o caminho que ela resolva seguir. Vou estar com ela dando amor para ela, o que vou ensinar para ela é que ela pode tudo o que ela quiser a partir do momento que ela não prejudique uma outra pessoa. Acho que essa condição sexual não prejudica ninguém. Desrespeito, intolerância, preconceito, sim. Vamos amar mais, gente”, pediu a atriz.
Fonte: Minuto Livre, 29/08/2017


Dia da visibilidade lésbica: 27 anos de uma história mal contada e sem registro

terça-feira, 29 de agosto de 2017 6 comentários


Escrevi o artigo abaixo em agosto de 2006 e, este ano (2022), fiz uma releitura do mesmo porque utilizei alguns de seus dados para a redação do artigo Orgulho Lésbico: o happening político do Ferro's Bar (edição 2022) quando falo da trajetória do movimento lésbico nacional. Mas não o alterei em nada porque continua atualíssimo. Apenas coloquei uma série de links referentes a textos que, na época de sua produção, não estavam disponíveis.

Na última introdução de 2017 a esse artigo, também falei de um texto do professor de Filosofia da UFRGS, Denis Lerrer Rosenfield, intitulado Verdade e Narrativa, publicado no Estadão em 2014, onde ele questionava a chamada Comissão da Verdade (que nome orwelliano!). Segundo Rosenfeld, a comissão buscava emplacar uma "verdadeira mentira histórica" sobre o período da ditadura militar no Brasil, sem a isenção de uma investigação verdadeira.  Destaquei o trecho em que dizia:
Imaginem historiadores dentro de 30 anos fazendo uma verdadeira pesquisa. Ficarão certamente embasbacados com o primarismo ideológico dessa comissão. Seu trabalho de nada lhes valerá e terão de recorrer às fontes primárias.
Aproveitei esse gancho para concordar que, tanto em nível macropolítico quanto micropolítico, a verdade tinha mesmo desaparecido em proveito de uma "história" que procurava guardar distância da verdadeira. Tanto que havia inclusive "historiadores" LGBT torturando a realidade de modo a fazê-la confessar uma suposta perseguição estatal a homossexuais pelos governos militares, uma tese bem discutível, para dizer o mínimo. Emendava com o trecho que transcrevo abaixo pois continua pertinente:
Outra narrativa que lograram consolidar, pelo menos no meio do ativismo LGBT, foi a do tal dia da visibilidade lésbica, escolhido num suposto primeiro encontro de lésbicas, em 1996, por 100 supostas ativistas lésbicas. Para começar, vale apontar o paradoxo de a referência para um dia de visibilidade ter sido um encontro invisível. Salvo engano, até hoje, 36 anos decorridos, não apareceram sequer fotos internas (feitas por participantes do evento) do tal seminário de lésbicas tão "histórico", realizado em 1996. Basta lembrar que o primeiro encontro de ativistas lésbicas de fato, ocorrido em São Paulo, em 1981, tem registro inclusive fotográfico. A primeira manifestação lésbica pública, que foi a "invasão" do Ferro's Bar, em 1983, também teve registro feito inclusive pela grande imprensa. Idem para a primeira caminhada de lésbicas, igualmente realizada em São Paulo, em 2003.  
Grupos Lésbico-Feminista, Terra Maria Opção Lésbica, Coletivo Alegria,
 Alegria, 
Somos-SP e Facção da Convergência Socialista durante o
I Encontro Paulista de Grupos Homossexuais Organizados,
em São Paulo, nos dias 25 e 26 de abril de 1981
Depois, esse primeiro seminário de lésbicas não teve a participação de 100 ativistas lésbicas porque havia no máximo 4 grupos de lésbicas em 1996, com cerca de 4/5 ativistas (e olhe lá!) em cada um, e um desses grupos não participou do evento. Cumpre salientar que, como eu apontei essa "pequena" falha na narrativa das inventoras do dia da visibilidade, com o passar dos anos, elas revisaram a mentira cabeluda e passaram a dizer que o tal dia foi tirado apenas por 100 lésbicas (sic). Depois, a conta subiu para mais de 100 (cem) mulheres de todo o Brasil, considerando as que supostamente teriam assinado uma ata do evento, pois outras não teriam podido assinar "por toda violência e invisibilidade sofrida pelas lésbicas." Não deixa de ser irônico que, no real primeiro (ao que consta) encontro de ativistas lésbicas, ocorrido durante o I Encontro Paulista de Grupos Homossexuais Organizados, em São Paulo, nos dias 25 e 26 de abril de 1981, possa ter havido mais ativistas lésbicas do que no tal seminário das tais mais de 100 lésbicas de 1996. Pelo menos, os registros do evento revelam a presença de ativistas dos grupos Lésbico-Feminista, Terra Maria Opção Lésbica, Coletivo Alegria, Alegria, Somos SP e Facção da Convergência Socialista. E, sim, há registros desse evento de 1981, mas não deram visibilidade ao registro do primeiro SENALE.
E terminava indicando o texto abaixo de 2006 que descreve, em detalhes, como o dia da visibilidade e sua referência paradoxal ganharam capilaridade repentina, em 2003, principalmente via grupos feministas (interessados em pegar carona na visibilidade da temática LGBT trazida pelas grandes paradas). Completava afirmando que essas narrativas visavam intimidar a verdade e forçar a todos a reconhecer sua "verdadeira mentira histórica". E que era dever dos que não participam de grupos de "narradores" facilitar o trabalho dos historiadores do futuro apresentando dados que permitam separar o joio do trigo a fim de conquistar uma memória mais fidedigna. Reassino embaixo do que escrevi em 2017, mais do que nunca. 

Míriam Martinho

São Paulo, 22 de julho de 2022

Nota: Nos últimos 3 anos, as mesmas figuras que descrevo aqui como tendo promovido quase duas décadas de tentativas de apagar o 19 de Agosto da história, agora resolveram usurpá-lo e distorcê-lo bem como toda a história da organização lésbica da década de 80 quando nada fizeram pelas lésbicas. Fica, claro, comparando com este texto que escrevi em 2006, o tamanho da ignomínia dessas fulanas. É como se neonazistas resolvessem celebrar a memória das vítimas do holocausto. 06/09/2023

Grupos lésbicos brasileiros existentes em 2001. Da esquerda para a direita: Movimento D'Ellas, Um Outro Olhar, Grupo Lésbico da Bahia (GLB), Coletivo de Lésbicas-Feministas (CFL), Associação Lésbica de Minas (ALÉM), Coletivo de Lésbicas do Rio de Janeiro e Movimento de Lésbicas de Campinas (MOLECA). Também na foto 3 representantes de grupos mistos (Nuances, Arco-Íris e Estruturação). Foto tirada durante reunião sobre saúde lésbica com a CN-DST/AIDS, em Brasília, (março de 2001).

Dia da visibilidade lésbica: 27 anos de uma história mal contada 
Por Míriam Martinho

Quando a ideia do dia da visibilidade foi lançada em 1996, havia menos de 6 grupos lésbicos em todo o Brasil (na foto acima vemos os 7 grupos lésbicos que existiam em 2001), e os grupos existentes eram todos diminutos. Como então pôde o dia da visibilidade ter sido estabelecido por mais de 100 ativistas lésbicas? Em 10 anos, desde a proposta de um dia da visibilidade, apenas 4 deles tiveram efetivamente celebrações da data. Por quê? Para responder essas perguntas vamos fazer uma pequena viagem no tempo da história da organização lésbica no Brasil até 2003 quando o dia visibilidade tira o manto da invisibilidade. 

INTRODUÇÃO

Tendo em vista que a história que se conta sobre a origem e desenvolvimento do dia da visibilidade lésbica viola a história da organização lésbica no Brasil, distorcendo seus fatos e sua evolução natural, cumpre tornar visíveis essas distorções. Cumpre não só porque hoje várias pesquisadoras vêm rastreando o desenrolar dessa história e merecem ter uma visão mais acurada dos fatos como também porque as ativistas lésbicas do presente e do futuro e a população lésbica merecem saber o berço das datas a que são convidadas a comemorar. Para tal, façamos uma breve retrospectiva da organização lésbica em nosso país chegando até o surgimento dos dias de comemoração da lesbianidade brasileira. 

DÉCADA DE 80: INÍCIO DA ORGANIZAÇÃO LÉSBICA NO BRASIL 

A organização lésbica no Brasil surge no início de 1979 dentro do incipiente Movimento Homossexual Brasileiro (MHB), mais precisamente no grupo Somos de São Paulo. Forma-se nesse grupo um subgrupo de mulheres, em função de uma matéria sobre lésbicas para o Lampião da Esquina (maio de 79), que depois se consolida de forma autônoma em relação ao grupo misto. Como na época, o feminismo estava em seu auge e a questão de gênero sempre foi um problema dentro do Movimento Homossexual (hoje LGBT), este subgrupo, identificando-se com o feminismo, se autodenomina subgrupo lésbico-feminista, registrando também outras variantes deste mesmo nome até separar-se do grupo misto (17 de maio de 1980), quando passa a chamar-se Grupo Lésbico Feminista-LF (Ver O Racha do Somos). Este grupo por sua vez, já no final de 1980, sofre um racha e enfraquecido subsiste até meados de 1981, sendo formalmente substituído pelo Grupo Ação Lésbica Feminista (GALF) em outubro de 1981 (ata de fundação do GALF sob o codinome de Grupo Ação de Liberação Feminista). O GALF, por sua vez igualmente, será o único grupo lésbico a subsistir por toda a década de 80 até 1989 (ver Memória Lesbiana: 40 anos do Grupo Ação Lésbica Feminista (GALF) entre fato e ficção, quando cede sua vez à Rede de Informação Um Outro Olhar (ver Memória lesbiana: há 32 anos surgia a Rede de Informação Um Outro Olhar, paladina da visibilidade lésbica), formalmente constituída em abril de 1990. Essas diferentes denominações e substituições correspondem a mudanças não só nos coletivos que formaram esses grupos (que tem elos em comum) como nas influências ideológicas que os nortearam, cuja abordagem foge dos objetivos desse artigo. 

Aqui interessa apenas lembrar que o Movimento Homossexual, que nasce em 1978 e tem seu pico de expansão em 1980, começa a declinar a partir de 1981, mergulhando numa grande crise até 1983/84, devido a conflitos internos e a duas questões que se mesclaram numa combinação explosiva: o questionamento sobre a identidade homossexual e a chegada da AIDS, alcunhada em seus primórdios de câncer gay, peste gay. De meados da década de 80 até o início da década de 90, o Movimento Homossexual viverá numa espécie de limbo político, subsistindo graças aos esforços heroicos de grupos como o GALF (SP), GGB (BA), Triângulo Rosa (RJ) e Dialogay (SE), embora outras agremiações femininas, masculinas ou mistas tenham surgido nesse período, todas contudo de vida efêmera. 

Por outro lado, o Movimento Feminista (MF), para onde as lésbicas migram por falta de opção inclusive, vive seu ápice na década de 80, ocupando na mídia, ainda que de forma mais modesta, o lugar que hoje ocupa o Movimento LGBT, com feministas escrevendo em colunas na grande imprensa, coordenando programas de TV e tendo suas reivindicações sendo incorporadas à sociedade em geral.

No que tange às lésbicas, contudo, o Movimento Feminista foi uma verdadeira madrasta. Após o impacto do aparecimento do subgrupo lésbico-feminista em eventos feministas, em 1980, o MF vai absorver individualmente as militantes do LF bem como de outros grupos lésbicos que existiam então (Terra Maria) ao mesmo tempo em que despolitiza a questão lésbica. Ainda que permitindo uma ou outra palestra ou oficina lésbica em seus encontros ou mesmo dando apoio eventual a manifestações lésbicas (como a do 19 de Agosto), liberalidades sempre seguidas da admoestação de que a questão de gênero era a mais importante e não havia espaço para grupos lésbicos específicos, a política do Movimento Feminista para lésbicas, durante toda a década de 80 e 90, posição só alterada em 2002, foi a da invisibilidade. As feministas homossexuais, em número razoável dentro do MF, ou simplesmente se omitiam sobre a questão lésbica (como se não tivessem nada com isso) ou hostilizavam abertamente todas as tentativas de politização do assunto. 

Cansadas dessa situação e de outras tantas contradições do feminismo, o Grupo Ação Lésbica Feminista se afasta do MF definitivamente em 1988, deixando um vácuo que será preenchido por feministas homossexuais que, ao contrário da maioria, achavam que o MF deveria sim assumir politicamente a questão lésbica, embora permanecessem com a ideia de que seu campo de atuação deveria ser somente o próprio movimento. Uma reunião, realizada durante o X Encontro Nacional Feminista em Bertioga (1989), originará um coletivo de onde surgirão os primeiros grupos lésbicos (3) a subsistirem por mais tempo, no período que vai de 1989 a 1996, concomitantemente ao surgimento da Rede de Informação Um Outro Olhar (também em 1989, oficialmente em abril de 90). 

DÉCADA DE 90: RESSURGIMENTO DO MOVIMENTO HOMOSSEXUAL 

Nesse ínterim, o Movimento Homossexual começa a ressurgir das cinzas, sendo o ano de 1993, um divisor de águas nesse sentido, quando grupos de São Paulo, como a Um Outro Olhar, o grupo Deusa Terra (lésbico), ativistas lésbicas independentes, como Monica Pita, e grupos gays como o incipiente núcleo de gays e lésbicas do PT e o grupo Etecétera e Tal, do psicanalista Arnaldo Domingues organizam, o VII Encontro Brasileiro de Lésbicas e Homossexuais, em Cajamar (set/1993, SP).

O Movimento Homossexual que renasce a partir dos primeiros anos da década de 90, ao contrário de seu antecessor, do final dos anos 70 e começo dos 80, vai ter um perfil fundamentalmente reformista e mais androcêntrico do que a da primeira geração, girando em torno das questões dos gays. Inserir a palavra lésbica no título do VII encontro do movimento, a fim de evidenciar a questão das mulheres homossexuais, exigiu consultas nacionais, abaixo-assinados e troca de desaforos entre as ativistas lésbicas e grupos gays mais tradicionalistas, como o Grupo Gay da Bahia, que viam na mudança de nome uma ameaça à unidade do movimento. Mas a alteração foi assumida e, no próprio encontro, houve outra alteração que resultou na denominação Encontro Brasileiro de Gays e Lésbicas. No VIII Encontro, em Curitiba (jan/1995), as travestis também reivindicaram a inserção do T, sendo acatadas de forma muito mais tranquila, e os Encontros passaram a denominar-se Encontros Brasileiros de Gays, Lésbicas e Travestis (EBGLT), denominação que prevalece até hoje. 

No encontro de Curitiba, também foi criada a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis (ABGLT) que teve como fundadoras as ativistas da Rede de Informação Um Outro Olhar e do nascente Grupo Lésbico da Bahia (GLB), além de ativistas dos grupos gays e travestis. Do período que vai de 1993 a 1996, desaparecem dois dos grupos lésbicos do início da década de 90, o Estação Mulher e o Deusa Terra, e permanecem a Rede de Informação Um Outro Olhar e o Coletivo de Feministas Lésbicas (todos de São Paulo) este último que, mudando sua política de não trabalhar com homens, passa a atuar também no Movimento agora já GLBT. Fechou esse encontro uma colorida manifestação de seus participantes pelas ruas de Curitiba na que foi provavelmente a primeira do gênero desde os anos 80. (Ver Em Movimento, Revista UOO 22, p. 10)

CHEGANDO À IDEIA DO DIA DA VISIBILIDADE 

No ano seguinte, em 1995, o jovem grupo Arco-Íris, do Rio de Janeiro, e outros grupos cariocas sediam a 17ª Conferência da ILGA (Associação Gay e Lésbica Internacional), de 18 a 25 de junho de 1995, que culminará na Marcha pela Cidadania Plena de Lésbicas e Gays, outra manifestação de rua mais expressiva do que a de Curitiba inclusive porque internacional. No contexto da Conferência, surgem mais dois grupos lésbicos: o Movimento D’Ellas, fundado pela ativista Yone Lindgren, que militara na primeira geração do MHB (Somos RJ) e que retornava ao movimento, e o Coletivo de Lésbicas do Rio de Janeiro (COLERJ), face lésbica do grupo feminista CEDOICOM, formado por mulheres que vinham de experiências tanto no movimento feminista quanto no movimento negro, mas não no movimento de gays e lésbicas.  

Embora recém-nascido, o COLERJ se propôs a coordenar a Secretaria de Mulheres da ILGA, e a Rede de Informação Um Outro Olhar, que já vinha de uma boa experiência internacional, foi convocada a dividir a secretaria com esse grupo a fim de apoiá-lo. Em julho de 1995, os dois grupos se reúnem na sede da Rede de Informação Um Outro Olhar, em São Paulo, e discutem propostas para a Secretaria de Mulheres da ILGA. O COLERJ, contudo, pensa na Secretaria fundamentalmente como um apoio para a disseminação de encontros lésbicos no Brasil, a fim de incentivar a criação de grupos lésbicos e a criação de um movimento lésbico. Aqui cabe um parêntese para, retornando a 1993, lembrar que o grupo Deusa Terra (SP), durante a tentativa de organizar o IV Encontro Latino-Americano de Lésbicas Feministas no Brasil - 1993 (revista Um Outro Olhar, 22, p. 11-12), já havia proposto o mesmo, ponderando sensatamente que, em vez de fazer um encontro internacional, se passasse a gastar energias para a fundação de grupos lésbicos em nível nacional, proposta que não foi aceita. O COLERJ retoma essa ideia, que tem anuência da Rede de Informação Um Outro Olhar, mas não consegue desenvolvê-la de imediato por conflitos internos do grupo que o levaram a um racha no segundo semestre de 1995.  

Superando esses conflitos em 1996, o COLERJ organiza em 29 de agosto do mesmo ano, o primeiro seminário nacional de lésbicas (SENALE), realizado num hotel do Rio de Janeiro, com financiamento governamental. (Ver revista Um Outro Olhar n. 25, p. 5). Em homenagem ao I SENALE, lançou-se de fato, em seu contexto, a ideia do dia 29 de agosto como dia nacional da visibilidade lésbica pelas participantes do evento, participantes que, todavia, de forma alguma conformaram o número de mais de 100 ativistas. Como bem-dito acima, o SENALE foi pensado como um estimulador da formação de grupos lésbicos no Brasil porque exatamente na época em que foi realizado, 1996, não havia nem meia dúzia de grupos lésbicos em todo o território nacional, e todos os grupos lésbicos eram diminutos. De onde teriam aparecido então essas mais de 100 ativistas lésbicas que teriam estabelecido o dia 29 de agosto como dia da visibilidade lésbica? De outra dimensão do espaço-tempo? 

Para desvendar esse mistério, cumpre dar um salto de 7 anos à frente desse momento, para o ano de 2003, quando ocorre em São Paulo o V SENALE durante as celebrações da 7ª Parada do Orgulho GLBT. Este será o primeiro SENALE que contará com a presença de mais de 100 participantes, não necessariamente ativistas lésbicas, porém sem dúvida mais de 100. Os anteriores, no Rio, em Salvador, Belo Horizonte e sobretudo em Fortaleza reuniram em média de 40 a 60 participantes, sendo o de Fortaleza o mais desestruturado de todos, ao contrário do que se deveria esperar pela sequência.

Citando a mim mesma, na revista Um Outro Olhar, sobre o II SENALE de Salvador (24-28/09/97):
Não se sabe se pelo número reduzido de pessoas, considerando tratar-se de um evento nacional, ou se por alguns erros organizativos ou políticos que impediram um aprofundamento das questões, o certo é que o encontro ficou meio chocho, meio morno demais (Revista Um Outro Olhar, 27. Encontro Morno em Salvador, p. 16-18, Miriam Martinho).”
Citando Neli Aparecida de Farias, participante do III SENALE:
Dos dias 25 a 27 de setembro de 1998, realizou-se em Betim, Minas Gerais, o III Seminário Nacional de Lésbicas (III SENALE), com mulheres de algumas cidades do Brasil como Campinas, São Paulo, Brasília, Rio e Salvador, além de gente das próprias gerais, somando aproximadamente 40 participantes.” E sobre o clima desse evento, agudizado no encontro posterior, cito Virgínia Figueiredo, outra participante: “Como fomos todas custeando nossas despesas,... parecia que estávamos num retiro para descanso, para bater papo, etc.., pois a grande maioria (desestimulada pela falta de oficinas) preferia ficar bebendo e tomando banho de piscina (Revista Um Outro Olhar, 29, p. 11-12; 14. Considerações sobre o III SENALE).”
O IV SENALE, realizado no Ceará, de 29/08-01/07-2001, seguiu o mesmo estilo, caracterizando-se por ser um encontro para a realização de uma enquete/pesquisa. O encontro foi tão desestruturado que as duas integrantes da Um Outro Olhar, Luiza Granado e Angela Gonçalves, que dele participaram disseram que não havia o que relatar e que, para simplesmente esculhambar o evento, era melhor se manterem caladas. Lamento essa postura, pois, ficamos sem um registro do encontro com algum distanciamento crítico. De qualquer forma, deste SENALE saiu a decisão de realizar o V SENALE em São Paulo, ao qual a Rede de Informação Um Outro Olhar se comprometeu a apoiar na forma de divulgação ao menos. Nos meses posteriores, contudo, até a realização do evento, não recebemos qualquer notícia ou informação a respeito da organização do mesmo, no velho esquema de comadrio que sempre caracterizou a estruturação desses encontros (em todas as suas versões). 

2003: LÉSBICAS NA PARADA E O LANÇAMENTO DO DIA DO ORGULHO LÉSBICO! 

De agosto de 1996 (quando se registra a ideia do dia da visibilidade) até junho de 2003, a questão dos direitos homossexuais vai ganhar cada vez mais visibilidade na sociedade, sobretudo na mídia, mas quase não houve comemorações do dia da visibilidade lésbica em todo esse período. O que surgiu nesse sentido foram as Paradas do Orgulho LGBT que hoje tomam conta do país inteiro. 

Ainda durante a 17ª Conferência da ILGA, grupos paulistanos presentes ao evento refletiram que seria interessante trazer o próximo EBGLT para São Paulo novamente e assim acabou ocorrendo. Em fevereiro de 1997, a Rede de Informação Um Outro Olhar organizou, praticamente sozinha, o IX Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas e Travestis (um encontro muito tumultuado por conflitos em sua maioria promovidos por ativistas GLBT petistas), cujo maior mérito foi ter produzido o embrião das futuras paradas que hoje levam milhões às ruas (os participantes saíram em passeata do Largo do Arouche, passando pela República, pelo Teatro Municipal, cruzando a mitológica Ipiranga com a Avenida São João e terminando atrás da Igreja da Consolação). Nesse mesmo ano, em junho, entusiasmados com a experiência do IX Encontro, ativistas gays repetem o feito se reunindo em frente da Gazeta e seguindo em passeata pela avenida Paulista até a praça Roosevelt (Revista Um Outro Olhar, 26, p. 8), no percurso que até este ano (2006) identificou as grandes Paradas do Orgulho de Sampa.  

Na esteira das grandes Paradas de São Paulo, que continuaram num crescendo a cada ano, as ativistas lésbicas começam também a movimentar-se para conseguir marcar presença. A Rede de Informação Um Outro Olhar inicia esse processo em 1999 se postando no início das Paradas, quando ainda era possível fazer isso, carregando faixas relativas à liberdade de expressão sexual. Em 2001, faz a Parada numa truck, tendo em vista a necessidade de distribuir material, no que foi imitada por um outro veículo (um trenzinho) de um outro grupo de lésbicas. De 2001 até hoje (2006), a Rede de Informação Um Outro Olhar saiu nas Paradas com trios elétricos financiados por órgãos governamentais ou por verbas das próprias participantes, dividindo a avenida com o grupo AMAM (lésbico) que também sai tradicionalmente desde a mesma época. 

Igualmente antes e depois das Paradas, passam a ocorrer outros eventos comemorativos do orgulho LGBT nacionais, incluindo atividades para lésbicas. Entre outras, em 2000, ocorreu um evento comemorativo dos 20 anos de ativismo lésbico no Brasil e, em 2003, o V SENALE, além da Primeira Caminhada Lésbica. Neste mesmo ano, Luiza Granado e Neusa Maria de Jesus, da Rede de Informação Um Outro Olhar e da Associação da Parada do Orgulho GLBT, na época, uniram-se para tentar formar uma secretaria de lésbicas dentro da Associação, entidade que sempre se caracterizou por ser fundamentalmente masculina e gaycêntrica. Para dar destaque à questão lésbica, nos eventos comemorativos da Parada do Orgulho LGBT daquele ano organizaram um debate específico sobre a questão lésbica (11/06/2003) e durante o mesmo lançaram o Dia do Orgulho Lésbico, dia 19 de Agosto, em referência à primeira manifestação lésbica contra o preconceito e a discriminação ocorrida no Brasil, em São Paulo, em 1983. O dia foi lançado tendo em vista estabelecer uma referência histórica de luta e orgulho para lésbicas e que de fato pudesse a vir ser comemorada, tendo em vista inclusive que o outro dia que se havia pensado nesse sentido nunca havia saído do papel. 

2003: O ORGULHO LANÇA A VISIBILIDADE 

O lançamento do Dia do Orgulho Lésbico, em 2003, foi amplamente divulgado pela mídia, mais por uma coincidência do que por causa de uma campanha planejada de divulgação. Como de praxe, o jornalista Aureliano Biancarelli, então da Folha de São Paulo, buscou a Rede de Informação Um Outro Olhar para saber o que estávamos planejando para a Parada do Orgulho e foi informado sobre o lançamento do 19 de Agosto. Fez uma reportagem sobre o assunto com Luiza Granado e Neusa Maria de Jesus, pauta que foi, como de costume, reproduzida por outros jornalistas e outros veículos da mídia, dando uma grande divulgação à iniciativa. Seguiram-se outras matérias na imprensa que podem ser vistas aqui.

Nesse ínterim, como já dito, ocorria o V SENALE em São Paulo, cujas fundadoras haviam lançado a ideia do dia da visibilidade em 1996, embora nunca tivessem se dado o trabalho de viabilizá-la. Diante da ameaça de ver um outro dia suplantar o dia da visibilidade, durante plenária desse evento, elas ressuscitaram o dia da visibilidade como data de comemoração, passando efetivamente a celebrá-lo a partir deste ano de 2003. 

Até aí morreu Neves, como se diria. O problema é que à parte essa decisão, essas ativistas iniciaram também uma campanha de difamação e injúrias (crimes previstos no Código Penal deste país) contra as pessoas que lançaram o Dia do Orgulho e suas respectivas organizações. O relato que se segue poderia ser definido como uma ópera bufa, não fosse o quadro muito triste do estado moral dos movimentos sociais que vem a revelar. 

Conjugaram-se para ampliação dessa campanha difamatória interesses de ativistas de outros movimentos, desafetos históricos das organizações que lançaram o 19 de Agosto, que se aproveitaram da situação para realizar seus intentos oportunistas e retaliatórios. De um lado, tivemos os glpetistas (gays e lésbicas petistas) que tinham problemas com a diretoria da Associação da Parada de então, que havia expulsado o ex-presidente da entidade, Beto Jesus, sob acusação de improbidade administrativa, e com a própria Rede de Informação Um Outro Olhar, com quem tinham conflitos desde a organização do IX Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas e Travestis (1997), sem falar num conflito de fundo mais antigo que remete à história primeira do movimento homossexual brasileiro, quando os anarquistas deixaram o grupo SOMOS em protesto contra a tomada da organização por grupos da Convergência Socialista. A Um Outro Olhar descende politicamente desse grupo que deixa o SOMOS. De qualquer forma, não pretendo me estender sobre o papel dos glpetistas nessa ópera bufa, assunto para outro momento, mesmo porque o governo Lula, seus mensalinhos e mensalões, cuecas cheias de dinheiro, sanguessugas e outros bichos peçonhentos falam por mim muito melhor do que eu jamais imaginei que poderia dizer. 

De outro lado, tivemos as feministas homossexuais desempenhando um papel importante na construção do dia da visibilidade, como hoje ele se celebra, sobre as quais vale a pena se debruçar um pouco mais. Como vimos no início desse artigo, o movimento feminista pregou a invisibilidade lésbica em seu meio até 2002 quando, na Conferência Nacional de Mulheres Brasileiras (Brasília, 6-7/06/2002), assumiu finalmente a questão. É preciso lembrar que, mesmo aí, o apoio que o MF deu à questão lésbica, ainda era indireto, como apoio à causa de gays, lésbicas e travestis e não como apoio a causa das mulheres lésbicas. Foi esta que lhes escreve que introduziu na Plataforma Feminista o papel fundamental das mulheres lésbicas na luta pelos direitos das mulheres em geral, porque as feministas homossexuais haviam se "esquecido" desse detalhe. 

Voltando um pouco no tempo, lembremos que no início do MF, em nosso país e no mundo todo aliás, a sociedade machista acusava as feministas de reivindicarem igualdade para as mulheres porque elas não gostavam de homens, porque eram sapatões. As feministas se acovardaram diante dessas acusações e sacrificaram a questão lésbica para se manterem distantes desse estigma. O grau de invisibilidade a que as lésbicas ficaram sujeitas dentro do MF foi maior ou menor de acordo com a capacidade destas de aceitarem ou não essa situação. Nos EUA, onde as lésbicas já tinham alguma articulação até antes da emergência do feminismo, essa política não vigorou. No Brasil e em outros países da América Latina, essa política foi hegemônica até o início deste século. 

Acontece que a História pregou uma peça nas feministas. A mesma sociedade machista que as acusava de sapatões por reivindicarem direitos iguais para as mulheres acabou, 26 anos depois, transformando as lésbicas em fetiche da mídia e tirando as feministas e o feminismo da pauta das redações. Prova de que não vale a pena fazer certas barganhas. Principalmente do início do milênio para cá, à parte toda a evidência trazida pelas Paradas do Orgulho LGBT, começaram a surgir personagens lésbicas em novelas, seriados, atrizes e cantoras dando selinhos em amigas, cantoras hétero se fazendo passar por lésbicas, como jogada de marketing, até chegarmos recentemente à novelinha lésbica que é o seriado americano The L Word, onde sobram cenas tórridas de sexo entre mulheres em plena TV. Quem diria, não? 

Nessas circunstâncias, depois de 2001, as feministas homossexuais começaram a se interessar pela organização lésbica que, aos trancos e barrancos, foi de qualquer forma crescendo paralelamente ao MF. Esse interesse se concretizou exatamente em 2003, quando do lançamento do Dia do Orgulho Lésbico e da realização do V SENALE, onde de fato se lançou também o dia da visibilidade lésbica. A princípio algumas feministas homossexuais ficaram em dúvida sobre o que fazer diante da existência de desses dias lésbicos, mas depois consideraram mais oportuno apoiar o dia da visibilidade. 

Se fosse só apoiar, contudo, não haveria problema. Mas elas resolveram encampar a campanha difamatória e injuriosa contra as pessoas que lançaram o Dia do Orgulho Lésbico, com armações e articulações nada condizentes com os princípios feministas (o que será isso?) ou de direitos humanos. Os ataques visaram atingir a credibilidade das pessoas que lançaram o Dia do Orgulho e a validade do mesmo, inclusive com ameaças de ostracismo político contra aquelas e aqueles que naturalmente apoiavam o dia. 

Então, nós tivemos dois movimentos na construção do dia da visibilidade: 

1) primeiro, o da afirmação do dia, através do mito de que ele teria sido lançado por mais de 100 ativistas lésbicas, em 1996, e consequentemente comemorado desde então e

2) segundo, o do ataque à credibilidade das pessoas que lançaram o Dia do Orgulho Lésbico e à validade dele. Neste segundo movimento, procurou-se invalidar o Dia do Orgulho dizendo que ele não tinha sido tirado numa plenária, pois só uma plenária daria aval a tais comemorações. Esqueceram-se, contudo, que os símbolos máximos de celebração da comunidade LGBT em todo o mundo, comemorados inclusive por estas mesmas pessoas, não saíram de nenhuma plenária. O Dia Internacional do Orgulho Gay, o dia 28 de junho, foi lançado por um grupo homossexual americano que capitalizou a revolta de Stonewall Inn e a bandeira do arco-íris foi criada por um artista gay americano e divulgada no meio LGBT passando a ser adotada internacionalmente. 

De fato, as razões para as feministas homossexuais terem se metido nessa pendenga (pendenga desnecessária, diga-se de passagem) remetem a uma repetição da História. Como já vimos anteriormente, o Movimento Feminista da década de 80, após o impacto do aparecimento dos grupos lésbicos em seu meio, absorve individualmente as ativistas lésbicas de então enquanto esvazia politicamente a questão lésbica. Quase duas décadas e meia depois, esse mesmo MF volta a absorver a organização lésbica brasileira, agora como apoiadoras da visibilidade lésbica (sic).

Na verdade, trata-se de um dos casos mais deslavados de cooptação e aparelhamento de um movimento por outro de que tenho notícia. Só para citar dois exemplos mais acintosos dessas ações: na caminhada lésbica de Sampa, em 2005, se viram mais bandeiras sobre o aborto do que bandeiras com temas lésbicos na avenida. No último SENALE, em Recife, viu-se a princípio, como propostas de temas para as mesas do encontro, novamente o aborto e os direitos sexuais e reprodutivos. Isso sem falar que o evento foi organizado por grupos como o Fórum de Mulheres de Pernambuco e, como se soube posteriormente, teve, em sua comissão organizadora, até mulheres heterossexuais. Por fim, vem se notando também, nos últimos 3 anos, uma inflação repentina de grupos lésbicos, todos, contudo, se identificando também como feministas. 

Aqui, cabe um aparte, antes de encerrar este artigo que já se estende além de seus propósitos. O Movimento Feminista não é o Movimento Lésbico. Embora o Movimento Lésbico, em todas as partes do mundo, principalmente na América Latina, tenha muitas vezes intersectado ou tangenciado o Movimento Feminista, sua história e suas protagonistas não são as mesmas, o que fica evidente principalmente quando lembramos da política de despolitização da questão lésbica que o MF manteve durante décadas. 

Outrossim, o Movimento Lésbico é composto, internacionalmente, além de lésbicas que se identificam como feministas, de lésbicas radicais, separatistas, políticas, de butches e femmes (bofinhos e ladies), lésbicas fetichistas, lésbicas lipsticks, etc... e de uma maioria de lésbicas que não está afinada com nenhuma tribo política, mas que, a seu modo, sempre foi mais visivelmente lésbica do que as feministas homossexuais jamais conseguiram ser nem no movimento que sempre carregaram nas costas. 

CONCLUINDO 

Como disse no início desse artigo, meu objetivo foi tornar visíveis as distorções históricas que se seguiram ao real lançamento do dia da visibilidade lésbica, tendo em vista que essas distorções violam a história da organização lésbica no Brasil, seus fatos e sua evolução natural. 

Resumindo, a principal distorção histórica, que passou a ser repetida exaustivamente principalmente depois de 2004, é de que o dia da visibilidade lésbica teria sido tirado por uma plenária de mais de 100 ativistas lésbicas, em 1996, quando em 1996 não havia sequer 6 grupos lésbicos no país inteiro. Outra distorção, decorrência da primeira, é a de que o dia da visibilidade lésbica teria sido celebrado desde 1996, ao ser lançado, quando de fato passou a ser celebrado apenas em 2003 para contrapor-se ao dia do orgulho lésbico.  

Tais fatos podem ser tranquilamente levantados por qualquer pesquisador(a) que se disponha a rastrear essa história buscando registros dessas supostas mais de 100 ativistas lésbicas e de onde e como foram celebrados os dias da visibilidade lésbica antes de 2003. Seguramente, encontrará atividades públicas e visíveis de 2003 para cá, intituladas de visibilidade lésbica, mas antes só encontrará registros da primeira manifestação lésbica contra o preconceito e a discriminação que foi efetuada em 1983 num bar da capital paulistana chamado Ferro’s Bar. 

Meu segundo objetivo, foi tornar visível a campanha difamatória e injuriosa armada contra as pessoas e as organizações que lançaram o Dia do Orgulho Lésbico em 2003, tendo em vista invalidar o dia e afetar a credibilidade de suas promotoras para, entre outras coisas, por exemplo, impedir que artigos como este, que denunciam estas distorções, sejam levados em consideração. 

Cumpre finalizar lembrando que as razões para essas distorções têm motivações muito pouco auspiciosas que inclusive colocam em cheque o próprio espírito da luta de quem as produziu. Primeiro, provam a incapacidade dessas pessoas, que reivindicam da sociedade o respeito às diferenças, de respeitar as diferenças. Enquanto a motivação para a celebração do dia da visibilidade foram suas próprias qualidades intrínsecas, ele nunca saiu do papel. Quando se tratou de competir com outro dia e de, sobretudo, de tentar suprimir esse outro dia, o dia da visibilidade encontrou motivação para existir e expandir-se. Triste combustível esse. 

E esse afã supressor parte do mesmo princípio que levou a tantos na história a acreditar no Deus único, no partido único, em tantas outras balelas únicas, cuja unicidade sempre precisou ser mantida às custas de muitas guerras morais ou materiais. No caso dessa pendenga dos dias lésbicos, não fosse por esse afã supressor de inspiração claramente fascista, ambas as datas seriam comemoradas por umas e outras, mais por umas, menos por outras, mas ambas seriam celebradas sem traumas por transeuntes dos dois eventos.

No entanto, fica muito difícil para as promotoras do dia da visibilidade lésbica explicar porque elas não celebram a primeira manifestação de visibilidade lésbica ocorrida no Brasil em 1983. Fica difícil explicar porque não celebram a memória da ativista (Rosely Roth) que encarnou – como ninguém – o conceito que essas pessoas têm de visibilidade lésbica. Melhor apagar todos esses incômodos questionamentos apagando a lembrança do evento que os origina.

Infelizmente, o afã supressor das promotoras do dia da visibilidade acabou criando um clima totalmente hostil à convivência entre os eventos, descambando para um vale-tudo destrutivo onde prevaleceu até agora a máxima maquiavélica de que os fins justificam os meios e a máxima goebbeliana de que uma mentira repetida mil vezes ganha foro de verdade. 

Sabemos todos que há mentiras brancas cuja elucidação não vale a pena, pois as motivações que as criaram inclusive foram positivas. Há outras mentiras, no entanto, com as quais não podemos conviver assim como há princípios que não podemos barganhar. Que se comemore o dia da visibilidade lésbica não é um problema nem o objeto desse artigo, mas que ele pelo menos se sustente em sua realidade histórica e não em inverdades que atingem historica e moralmente muito mais do que a ele mesmo.  

Publicado originalmente, no site Um Outro Olhar, em 29 de agosto de 2006
__________________________________________________________________

Miriam Martinho, 69 anos, é fundadora do Movimento Lésbico no Brasil, tendo organizado as primeiras entidades lésbicas brasileiras, a saber, Grupo Lésbico-Feminista (1979-1981), Grupo Ação Lésbica-Feminista (1981-1989) e Rede de Informação Um Outro Olhar (1989....). Editou também as primeiras publicações lésbicas do país, como o fanzine ChanacomChana (década de 80) e o boletim e posterior revista Um Outro Olhar (década de 90 até 2002). Atualmente edita o site Um Outro Olhar, lançado em junho de 2004, e o blog Contra o Coro dos Contentes, lançado em junho de 2008.

Fundou igualmente o movimento de saúde lésbica no Brasil, em 1994, realizando a primeira campanha de prevenção às DST-AIDS para mulheres que se relacionam com mulheres, em 1995, e editando as primeiras publicações sobre o tema desde essa época (em 2006 publicou a 4 edição da cartilha Prazer sem Medo sobre saúde integral para lésbicas e bissexuais). Participou da organização do I EBHO (1980), organizou dois encontros LGBT nacionais (VII EBLHO/93 e IX EBGLT/97) e foi sócia-fundadora da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis (ABGLT-1995). Participou igualmente de vários encontros internacionais com destaque para a IX Conferência Internacional do Serviço de Informação Lésbica Internacional-ILIS (Genebra, Suiça, 28 a 31/03/1986), o I Encontro de Lésbicas-Feministas Latino-Americanas e do Caribe (Taxco, México, 1987) e a Reunião de Reflexão Lésbica-Homossexual (Santiago, Chile/ nov. 1992).

Ver também:
Tributo a Rosely Roth 
Agosto com orgulho: Repercussão do 19 de agosto na Imprensa
Agosto com orgulho: os primórdios da organização lésbica no Brasil
Orgulho Lésbico: o happening político do Ferro's Bar (edição 2022)

L, o Musical: espetáculo teatral que aborda vivências lésbicas

sexta-feira, 25 de agosto de 2017 0 comentários


Crítica: L, o musical fala de estupro e lesbofobia sem perder o humor
Espetáculo fica em cartaz na capital até o dia 1° de setembro
Como falar de preconceito e de crimes como o chamado 'estupro corretivo', que é cometido contra mulheres lésbicas, numa comédia musical? A ideia do diretor Sérgio Maggio era interessantíssima desde o começo: realizar uma montagem que tivesse como personagens 'mulheres que amam mulheres' e cuja dramaturgia dialogasse com o repertório da MPB.

Sem cair num tom panfletário, L, O Musical é um espetáculo que brinda a vida e exalta a liberdade, o desejo e os afetos femininos, e está lotando o teatro do Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília (CCBB) com total entusiasmo e engajamento do público. Na capital federal, fica até 1º de setembro; depois segue outubro, novembro e dezembro no Rio de Janeiro, janeiro e fevereiro em São Paulo, março e abril em Belo Horizonte.

Despretensioso, o texto é bem construído e conectado com o conteúdo de canções de compositoras brasileiras, muitas delas lésbicas assumidas, como Angela Ro Ro, Zélia Duncan e Adriana Calcanhotto. A agulha e a linha – conduzidas por Maggio e pelo diretor musical Luis Filipe de Lima, com o diretor-assistente Jones de Abreu – alinhavam bem uma narrativa às outras.

O público é apresentado a um momento da história de Ester Rios (a histriônica novelista interpretada por Elisa Lucina); sua ex-amante, a atriz Ruth D’Almeida (Ellen Oléria); a coautora de novelas Anne, (Renata Celidônio), que é casada com um homem mas se descobre apaixonada por Ester; e a namorada de Ruth, a militante LGBT Simone (Gabriela Correa). No elenco ainda estão Tainá Baldez (Elle, filha de Ruth) e Luiza Guimarães (Xena/Léa/Pietra/Felipa).

Com cenário simples assinado por Maria Carmen de Souza – basicamente um tablado redondo, manequins de vitrine, uma cortina diáfana branca, almofadas e, em posição privilegiada, a maravilhosa banda composta por mulheres – a montagem utiliza de rápidos movimentos de palco das coxias para o proscênio (centro do palco), ou do fundo do teatro para a frente.

São destaques o desenho de luz de Aurélio de Simoni e o trabalho de movimento e coreografia realizado pela experiente bailarina, atriz e diretora Ana Paula Bouzas, que permitiu mesclar os tempos e locais diversos das cenas que movimentam a trama em espaço tão exíguo. Sara Mariano fez um ótimo trabalho de preparo vocal com as atrizes, que são acompanhadas pelas tarimbadas musicistas Carolina Setubal (baixo), Marlene Lima (guitarra), Nathália Reinehr (bateria) e Janá Sabino (teclado).

Criado pelo coletivo Criaturas Alaranjadas Núcleo de Criação Continuada, o musical se opõe à intolerância e à lesbofobia, e mostra as peripécias de Ester, Ruth, Anne, Simone, Elle, Filipa, Léa e Xena sob a perspectiva de mulheres que amam mulheres. No texto, palavras jocosas são ditas com naturalidade e cumplicidade humorada do público, e as piadas envolvem o “universo sapatão”.

Há diversas citações e referências, como por exemplo a menção à peça e filme As lágrimas amargas de Petra von Kant, do alemão Rainer Fassbinder, que tem protagonistas lésbicas e, no Brasil, teve uma premiadíssima montagem com Fernanda Montenegro e Renata Sorrah nos papéis principais na década de 80.

No meio do musical, há um exercício de metateatro com uma cena original mesclada a uma de 'As lágrimas'. O nome da personagem Filipa, por sua vez, é, provavelmente, uma referência a Filipa de Sousa, portuguesa acusada de “práticas nefandas”, leia-se acusada de ser lésbica, pelo Santo Ofício na Bahia, no século XVI.

O fato de o diretor ser um homem não mudou nada a proposta de se falar desse universo feminino tão específico. É visível que, no processo criativo, as intérpretes puderam brincar com o texto. As intervenções de Ellen Oléria e Elisa Lucinda são muito orgânicas, assim por dizer, e revelam uma total cumplicidade e um elo afetivo que se estende às outras atrizes. Renata Celidônio também se destaca pelo desempenho vocal, agilidade e timing de humor.

Responsável por muitos dos momentos mais engraçados da peça, Luiza Guimarães interpreta Xena Charme, a produtora que recebe o público; a youtuber Léa Secret (que aparece em hilárias inserções durante a montagem); Filipa e Petra. É também uma das atrizes atuantes em Brasília (junto com Gabriela Correa e Tainá Baldez) que a montagem levará como grata revelação ao público e imprensa cariocas.

Em sua segunda direção de musicais (o primeiro foi Eu vou tirar você deste lugar – As canções de Odair José), Sergio Maggio obteve um resultado muito mais consistente e conseguiu a proeza de um espetáculo leve, engraçado, e ao mesmo tempo engajado, em que o público se envolve, bate palmas em cena aberta e parece absorver com prazer as mensagens cidadãs embaladas como biscoito fino.

Serviço
L, o musical
Centro Cultural Banco do Brasil (SCES, Tc 2). Até 1º de setembro, de quarta a domingo, às 20h. Nos dias 13/8 e 19/8, sessão extra, às 16h30. Não recomendado para menores de 16 anos.

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