Memória Lesbiana: IX EBGLT, organizado por lésbicas, foi embrião das Paradas do Orgulho LGBT no Brasil

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Manifestação ao final do IX EBGLT foi a primeira passeata exclusivamente homossexual
da cidade de São Paulo e embrião da I Parada do Orgulho GLT

40 anos de organização lésbica no Brasil:
IX EBGLT, organizado por lésbicas, foi embrião das Paradas do Orgulho LGBt no Brasil


Míriam Martinho*

2019 é o ano da Copa Feminina de Futebol na França, esporte praticado por muitas lésbicas e apreciado por muitas delas também. Marca igualmente os 40 anos do início da organização lésbica no Brasil, a partir do surgimento do Grupo Lésbico Feminista (LF) em maio de 1979. Para celebrar essas quatro décadas de ativismo, relembraremos, durante este ano, os grupos e eventos organizados por lésbicas que determinaram inclusive os rumos do movimento pelos direitos de gays e lésbicas em nosso país.

Assim sendo, começamos por relembrar o IX Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas e Travestis, realizado há 22 anos, do dia 20 ao dia 26 de fevereiro de 1997, no Hotel San Raphael, centro da cidade de São Paulo, pela Rede de Informação Um Outro Olhar, entidade da capital paulistana composta só por lésbicas. Foi o segundo encontro nacional encabeçado pela organização, tendo sido o primeiro o VII Encontro Brasileiro de Lésbicas e Homossexuais, ocorrido em 1993, em Cajamar, cidade do interior paulista.

O IX EBGLT foi acompanhado do II Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas e Travestis que Trabalham com AIDS e financiado pela Coordenação de DST/AIDS do Ministério da Saúde, com aporte ainda da Secretaria de Saúde de São Paulo. Participaram dos eventos 338 pessoas, sendo 53% homens, 42% mulheres, 4% travestis e 1% transexuais. Ambos os encontros foram compostos de mesas, painéis, grupos de discussão, oficinas e atividades artísticas, com a participação de políticos, como Marta Suplicy, acadêmicos (que apresentaram suas pesquisas sobre a temática LGBT), representantes de ONG e do governo na área de prevenção à DST/AIDS, militantes das organizações de lésbicas, gays e travestis do Brasil da época e artistas que se voluntariaram para apresentar performances teatrais e espetáculos de dança e música.

Políticas e Politicagens

Do ponto de vista político, como descrevi na avaliação dos encontros em pauta, eles tiveram duas caras: uma solar, dos que tinham ido simplesmente ouvir os palestrantes, apresentar suas oficinas  e participar dos grupos de discussão e atividades em geral, e, outra, sombria, de alguns militantes do período que foram aos eventos  para tumultuá-los, movidos por irresponsabilidade, inconsequência e pelas picuinhas de poder que costumeiramente ocorrem entre integrantes de movimentos sociais. De qualquer forma, seu intento foi fracassado, e os eventos transcorreram independentemente de suas ações. Muitos participantes dos encontros, panelistas, oficinistas, sequer ficaram sabendo das ações circenses dos militantes revoltosos. Outros, como o escritor João Silvério Trevisan, que deu palestra sobre o histórico do movimento então GLT no IX EBGLT, tiraram da cartola muitos coelhos fabulosos. Trevisan declarou o seguinte em seu livro Devassos no Paraíso:
No entanto, o movimento homossexual correu o risco e em muitos casos resultou demasiadamente atrelado à luta contra a Aids, restringindo sua ótica e seu espaço. O resultado mais palpável, e, para dizer o mínimo constrangedor, pôde ser constatado no IX Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas e Travestis, em 1997, quando militantes rivais chegaram às vias de fato, indo acabar na polícia, dentro de um clima de conspiração e competição generalizado, que só fizera piorar com o passar dos anos. Estavam em disputa, nem mais nem menos, as minguadas mas fundamentais verbas dos Ministério da Saúde. (Devassos no Paraíso, p. 370, Rio de Janeiro: Record, 2000)
Passeata de encerramento do IX Encontro

Embora tenha havido de fato muita baixaria verbal dos rebeldes sem causa nos bastidores do IX EBGLT e do II EBGLT-AIDS, não há registro de que alguém tenha chegado às vias de fato, ou seja, brigado fisicamente, e ido parar na delegacia. E as disputas não foram pelas minguadas verbas do Ministério da Saúde, que não estavam em pauta nos eventos nem são passíveis de disputa em encontros, mas por picuinhas de poder dos que queriam ter protagonismo indevido no IX EBGLT, passando por cima do previamente acordado, e retaliaram a comissão organizadora por não lhes dar ouvidos  e espaço. Fora um bocado de sexismo contra a comissão organizadora que era fundamentalmente lésbica. O efeito imediato mais negativo das ações irresponsáveis desses ativistas foi o cancelamento, por parte do hotel, de um encontro de travestis que já havia sido agendado no local.

A passeata do dia 26 de fevereiro que foi embrião da I Parada do Orgulho GLT


De qualquer forma, a Rede de Informação Um Outro Olhar carregou os dois encontros nas costas, garantindo sua realização, apesar dos pesares, e ainda registrou o grupo Corsa como um dos organizadores do evento, embora sua contribuição tenha sido mínima e contraditória. No mais, possibilitou, junto ao DSV paulistano, a realização da passeata de gays, lésbicas e travestis que encerrou os eventos, no dia 26 de fevereiro,  e foi o embrião da primeira parada do orgulho GLT que viria a ser organizada naquele mesmo ano meses depois. Segundo uma das participantes da passeata, enquanto carregava a faixa de sua organização, ela já pensava em repetir a manifestação por ocasião do dia 28 de junho, o que de fato levou a cabo com outros grupos que também participaram do IX Encontro. Na tese "Sopa de Letrinhas - Movimento Homossexual e produção de identidades coletivas nos anos 90:  um estudo a partir da cidade de São Paulo", de Regina Facchini, lê-se à página 99:
Os IX EBGLT e II EBGLT-Aids foram encerrados com uma passeata pelas ruas do centro da cidade. o que já havia ocorrido em outros encontros, inclusive na 17ª Conferência Internacional da ILGA (Rio de Janeiro, 1995). Essa passeata foi referida, por alguns entrevistados para este trabalho, como uma experiência marcante, que influenciou definitivamente a ideia da organização de eventos de rua por ocasião do Dia Internacional do Orgulho Gay.
Assim se, no primeiro evento nacional que organizou, a Um Outro Olhar conseguiu mudar o nome do encontro e do movimento, então só homossexual, para de Gays e Lésbicas, iniciando o movimento LGBT no Brasil, no segundo, gerou o embrião das Paradas do Orgulho LGBT ao propiciar a primeira passeata específica de gays, lésbicas e travestis da cidade São Paulo.

Vale salientar que, em 13 de junho de 1980, ocorreu uma manifestação pública contra as prisões arbitrárias de prostitutas, travestis, negros, gays e lésbicas, movidas pelo delegado Wilson Richetti em sua chamada “operação limpeza”. O evento consta como a primeira participação de ativistas lésbicas e gays numa manifestação pública, mas não se tratava de uma passeata especificamente homossexual. Foi uma manifestação que uniu o movimento negro, o movimento feminista, e o incipiente movimento homossexual daquele tempo, fora entidades estudantis, num protesto “contra a violência policial, o desemprego, a discriminação racial e sexual, e pelo direito de ir e vir” (do documento da manifestação, intitulado Carta Aberta à População).

Assim sendo, até prova em contrário, a passeata ocorrida ao término do IX Encontro Nacional de Gays, Lésbicas e Travestis, no dia 26 de fevereiro de 1997, foi a primeira manifestação de rua especificamente homossexual de São Paulo. Em agosto de 1983, o Grupo Ação Lésbica Feminista (GALF) organizou a primeira manifestação pública exclusivamente lésbica (e homossexual) ao invadir o Ferro’s Bar, para poder vender seu boletim no recinto, mas o evento ficou circunscrito ao estabelecimento, apesar de ter tido grande repercussão na mídia.

 No relatório do encontro, assim descrevi a manifestação:


Para mais informações, acessem o relatório dos encontros clicando aqui.

*A Rede Um Outro Olhar participou das Paradas do Orgulho LGBT em São Paulo, a pé ou com trios elétricos de 2000 a 2009.

** Houve outras manifestações de rua especificamente LG, no final de janeiro de 1995, em Curitiba, pelo encerramento do VIII Encontro Brasileiro de Gays e Lésbicas e, no final de junho do mesmo ano, por ocasião da 17 Conferência Internacional da ILGA no Rio de Janeiro. Esta última foi chamada de Marcha pela Cidadania de Gays e Lésbicas.  A passeata pós IX EBGLT foi embrião da primeira parada do orgulho LGBT, então intitulada “Parada do Orgulho GLT” ocorrida em São Paulo, em junho de 1997, e que posteriormente veio a se multiplicar pelo Brasil.


Concentração a passeata do IX Encontro em frente ao Teatro Municipal

* Miriam Martinho é uma das fundadoras do Movimento Homossexual brasileiro, em particular da organização lésbica, tendo co-fundado as primeiras entidades lésbicas brasileiras, a saber, Grupo Lésbico-Feminista (1979-1981), Grupo Ação Lésbica-Feminista (1981-1989) e Rede de Informação Um Outro Olhar (1989....). Editou também as primeiras publicações lésbicas do país, como o fanzine ChanacomChana (década de 80) e o boletim e posterior revista Um Outro Olhar (década de 90 até 2002). Atualmente administra as páginas Um Outro Olhar e Contra o Coro dos Contentes.

Fundou igualmente o movimento de saúde lésbica no Brasil, em 1994, realizando a primeira campanha de prevenção às DST-AIDS para mulheres que se relacionam com mulheres, em 1995, e editando as primeiras publicações sobre o tema desde essa época (em 2006 publicou a 4 edição da cartilha Prazer sem Medo sobre saúde integral para lésbicas e bissexuais). Participou da organização do I EBHO (1980), organizou dois encontros LGBT nacionais (VII EBLHO/93 e IX EBGLT/97) e foi sócia-fundadora da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis (ABGLT-1995). Participou igualmente de vários encontros internacionais com destaque para a IX Conferência Internacional do Serviço de Informação Lésbica Internacional-ILIS (Genebra, Suiça, 28 a 31/03/1986), o I Encontro de Lésbicas-Feministas Latino-Americanas e do Caribe (Taxco, México, 1987) e a Reunião de Reflexão Lésbica-Homossexual (Santiago, Chile/ nov. 1992).

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