Morreu Gilbert Baker, criador da bandeira do arco-íris

segunda-feira, 3 de abril de 2017 0 comentários

Gilbert Baker, ativista e ex-soldado que aprendeu a costurar sozinho, morreu aos 65 anos

Morreu Gilbert Baker, criador da bandeira do arco-íris símbolo do orgulho gay

O artista norte-americano Gilbert Baker, criador da bandeira com um arco-íris que se tornou símbolo do orgulho gay, morreu aos 65 anos, revelou, na sexta-feira, o seu amigo de longa data e ativista Cleve Jones.

Gilbert Baker criou a famosa bandeira com oito cores para o dia da liberdade homossexual em 1978, uma iniciativa que mais tarde inspirou as marchas do "orgulho gay", que se instituíram por todo o mundo.

O ex-soldado, que aprendeu a costurar sozinho quando tinha vinte anos, esteve envolvido no nascimento do movimento Lésbicas, Gays, Bissexuais e Travestis (LGBT) em São Francisco (oeste dos Estados Unidos).

Gilbert Baker tornou-se próximo do político e ativista dos direitos LGBT assassinado Harvey Milk.
Estou com o coração partido. O meu melhor amigo partiu. Gilbert deu ao mundo a bandeira do arco-íris e me deu 40 anos de amor e amizade", escreveu Cleve Jones no Facebook. Não consigo parar de chorar. Amo-te para sempre, Gilbert Baker", acrescentou.
Cleve Jones não divulgou a causa da morte, mas o jornal "San Francisco Chronicle" escreve que o artista morreu durante o sono, na sua casa em Nova Iorque, na noite de quinta para sexta-feira.

Cleve Jones convidou os amigos de São Francisco para uma vigília sob a bandeira do arco-íris do distrito de Castro, onde reside uma grande comunidade LGBT.

O anúncio da morte de Gilbert Baker provocou uma avalanche de homenagens nas redes sociais.
Os arco-íris choram. Sem ti, o nosso mundo fica sem cores, meu amor", twittou o realizador Dustin Lance Black, que ganhou um Óscar pelo argumento do filme "Milk" (2008, com Sean Penn no papel de Harvey Milk) e criou uma série de televisão sobre o movimento LGBT, "When we rise".
Gilbert Baker nasceu no Kansas (centro dos Estados Unidos) em 1951. Serviu dois anos no exército, segundo a sua página da internet. Morava em São Francisco na altura em que o movimento pelos direitos dos homossexuais começou a ganhar força.

Fonte: Diário de Notícias, 01/04/2017

Indenização aos gays alemães condenados por terem feito sexo com outros homens

sexta-feira, 31 de março de 2017 0 comentários

Heinz Schmitz, em sua juventude. EL PAÍS

Alemanha irá indenizar condenados até 1994 por serem homossexuais

Governo dará 3.000 euros por condenação e 1.500 por ano de prisão por ter feito sexo com outro homem

Esta quarta-feira foi um dia muito especial para Heinz Schmitz. Passados 55 anos desde que ele sofreu o trauma de ser levado para uma prisão de menores por cometer “atos desonestos” com outro homem, o Governo alemão aprovou a lei com que pretende reabilitar e indenizar os homossexuais condenados pelo inglório artigo 175 do Código Penal, que punia o sexo entre homens e que só foi abolido totalmente em 1994.
Estou muito nervoso. Acompanho as notícias o dia inteiro. Mas também muito contente pelo fato de depois de tanto tempo se reconheça o que nós passamos. Sinto pena por aqueles que sofreram e que já não estão entre nós. Os que ainda estamos aqui já somos bem idosos”, afirma Schmitz ao EL PAÍS em conversa pelo telefone desde a sua casa em Friburgo, sudoeste da Alemanha.
O Governo alemão deu sinal verde para o projeto do ministro da Justiça, o social democrata Heiko Maas, para indenizar e anular as condenações impostas desde o fim da II Guerra Mundial. A lei era particularmente violenta até 1969, ano em que se passou a punir o sexo entre homens somente no caso de um deles ser menor de 21 anos.

O texto legal dos anos cinquenta e sessenta era o mesmo que era aplicado pelos nazistas, que enrijeceram um artigo que vigorava desde o nascimento do Império Alemão, em 1871. O Bundestag –a Câmara dos Deputados do Parlamento—já havia anulado, em 2002, as condenações aos homossexuais impostas durante a ditadura nacional-socialista, mas não mexeu com as que havia sido decididas já no período da República Federal.
O Governo estima que o artigo 175, que punia o sexo entre homens — não entre mulheres, pois esta era uma possibilidade que não foi então nem sequer contemplada — gerou cerca de 64.000 processos penais. Todas as condenações serão anuladas, mas as indenizações — 3.000 euros por condenação e 1.500 euros por ano passado na prisão — beneficiarão apenas os que ainda estão vivos. Calcula-se que estes cheguem a 5.000 pessoas, para as quais se destina um orçamento de 30 milhões de euros (aproximadamente 102 milhões de reais).

O ministro Maas explicou sua iniciativa pela necessidade de se dar o que é devido aos que “foram perseguidos, castigados e desterrados somente por seu amor aos homens”. “O artigo 175 bloqueou caminhos profissionais, destroçou carreiras e aniquilou biografias. É preciso que as escassas vítimas ainda vivas tenham justiça”, acrescentou o ministro da Justiça. Após receber o sinal verde do Governo, a lei deverá ser aprovada pelo Parlamento para entrar em vigor. Diferentes líderes parlamentares mostraram sua vontade de que isso ocorra ainda no mandato atual, que acaba no final do ano.

Além das indenizações, a lei estabelece uma subvenção de 500.000 euros (1,7 milhão de reais) anuais à fundação Magnus Hirschfeld para custear seu projeto de documentação das vidas roubadas dos homens condenados por suas tendências. O nome dessa fundação vem do pesquisador sobre comportamento sexual que no final do século XIX e começo do XX foi um defensor pioneiro dos direitos dos homossexuais.
A história do artigo 175 nos demonstra que injustiças também são cometidas em um Estado de direito. A força desse se mostra também em sua capacidade de corrigir erros”, acrescentou o ministro Maas.
Schmitz se alegra pela ideia de receber em breve 3.000 euros (10.090 reais) que irão resolver mais de um problema. Muitos dos condenados por sua sexualidade estão agora em uma situação econômica difícil, como consequência de processos que normalmente lhes custava o emprego. Mas o dinheiro não é seu principal motivo de alegria.
O importante é o sinal que essa lei envia. É um reconhecimento de nossas vidas”, diz.
Heinz Schmitz, de 73 anos, condenado em 1962 a seis meses de prisão por manter relações homossexuais. 

"Lesbian Premium": porque as lésbicas ganham mais do que as mulheres heterossexuais

quinta-feira, 30 de março de 2017 0 comentários


Lésbicas ganham mais do que as mulheres heterossexuais

Em 2014, Nick Drydakis descobriu que este fenômeno, chamado “lesbian premium”, é maior nos Estados Unidos, onde as mulheres lésbicas ganham 20% mais do que as mulheres heterossexuais.

Segundo um estudo realizado pelo IZA World Labor, as lésbicas também são favorecidas no Canadá, na Alemanha e no Reino Unido. Já na Grécia e na Austrália são desfavorecidas – chegando a ganhar, em média, menos 28% do que as mulheres heterossexuais.

Os especialistas argumentaram que as mulheres homossexuais trabalham, em média, mais horas do que as mulheres heterossexuais, o que poderia levar a uma maior experiência e maior probabilidade de promoção.
E pode haver ainda outro motivo para esta diferença salarial: os homens. Num artigo publicado no Washington Post, a jornalista Daniella Paquette cita um estudo da Universidade de Nevada que descobriu que as mulheres lésbicas que já tinham tido parceiros do sexo masculino previamente ganhavam 9,5% menos do que aquelas que nunca tinham coabitado com um marido.

Para além disso, ao contrário de casais heterossexuais em que as mulheres tendem a cuidar dos filhos ou optar pelo trabalho doméstico, as mulheres do mesmo sexo podem ter uma distribuição mais equilibrada de tarefas.

Mas, apesar deste “lesbian premium”, os homens gays ainda são discriminados devido à sua sexualidade.

Em 2014, a investigadora Marieka Klawitter, da Universidade de Washington, reuniu 31 estudos realizados entre 1995 e 2012 nos EUA e em outros países desenvolvidos e concluiu que, em média, os homens homossexuais ganham 11% menos do que os seus colegas heterossexuais.

De acordo com o Economist, “para impulsionar lucros, nada é melhor do que ser um homem branco, heterossexual e casado”.

Fonte: Zap aeiou, 24/03/2017

Celebridades lésbicas (celesbians) saem do armário em Hollywood

quarta-feira, 29 de março de 2017 0 comentários

Kristen Stewart e seus múltiplos romances em 2016: começou o ano com a cantora Soko, saiu com St. Vincent quando esta rompeu com Cara Delevingne e acabou com a modelo Stella Maxwell, da Victoria’s Secret (a foto, no centro, é do Baile do Met, em maio) getty/cordonpress

E Hollywood se rende ao poder das lésbicas
Um dos tabus mais arraigados nos estúdios finalmente é derrubado. Atrizes já não precisam mais esconder sua sexualidade em público
E temos aqui conosco, como apresentadores: uma lésbica e um paquistanês. Ou, como Hollywood gosta de nos retratar: uma mulher hétero e seu técnico de informática.”
Quando Kumail Nanjiani (de Silicon Valley) e Kate McKinnon (Caça-Fantasmas/Saturday Night Live) apresentaram juntos a mais recente cerimônia do Independent Spirit Awards, fizeram piada com a paradoxal realidade dos grandes estúdios. De um lado, está a vida atrás das câmeras e, de outro, os idealizados clichês empurrados pelos seus filmes.

O fato de eles poderem verbalizar isso diante da nata do setor audiovisual indica, porém, que algo já mudou. Que muitas águas rolaram desde que Hollywood impôs os lavender marriages (‘casamentos-lavanda’) para ocultar a homossexualidade ou bissexualidade de seus intérpretes (Rock Hudson e Barbara Stanwyck, entre outros), e que a normalização lésbica é um fato. E é assim desde que figuras como Ellen Degeneres – a quem o presidente Barack Obama condecorou recentemente com a Medalha da Liberdade –, Ellen Page e Jodie Foster manifestaram publicamente sua condição de lésbicas, em discursos que ultrapassaram fronteiras e ajudaram a demonstrar que a visibilidade  entre mulheres era necessária também.

Resultado de imagem para cara delevingne e namorada
Cara Delevingne é, segundo a imprensa de celebridades, o novo ícone da cultura ‘celesbian’.
Na foto, Cara com a cantora St. Vincent

Se há algo que 2016 demonstrou é que foi o ano em que as celesbians (junção das palavras celebrity e lesbian) se tornaram mais fortes do que nunca na mídia. Se em 2015 Cara Delevingne precisou calar a boca da Vogue e declarar, depois de uma polêmica entrevista, que “minha sexualidade não é uma fase passageira“, em 2016, Sarah Paulson não precisou de uma palestra para escancarar sua condição sexual. “Se você está me vendo, Holland Taylor, te amo”, gritou ela às câmeras em pleno tapete vermelho do Emmy, espaço onde outra lésbica poderosa, a criadora e diretora de Transparent, Jill Soloway, pediu a “destruição do patriarcado”.
Mas, sem dúvida, foi outra atriz que deu um passo adiante nesse processo de normalização: Kristen Stewart. A mesma que evita verbalizar o assunto (quando os rumores sobre sua bissexualidade e um relacionamento com sua assistente Alicia Cargile vieram à tona, ela disse que “há muito mais gente que considera desnecessário saber se sou gay ou hétero”) não se esquivou de exibir publicamente suas relações e se deixou fotografar sem temer escândalos.
Stewart não fala sobre sua lesbianidade com a mídia – outras lutaram anteriormente para abrir o caminho –, mas tampouco precisa escondê-la. A imprensa de celebridades registrou, durante 2016, seu volumoso histórico amoroso, tratando-a como a versão feminina de Leonardo DiCaprio: além da mencionada Cargile, Stewart levou a Cannes a cantora francesa Soko, confirmou sua relação com a artista St. Vincent – ex de Cara Delevingne – num evento da Women in Hollywood e terminou o ano em Savannah com Stella Maxwell, angel da Victoria’s Secret e suposta ex de Miley Cyrus.
Não acho que Kristen sossegue o facho com alguém tão cedo, e por que deveria? É bonita, é jovem e é rica. Pessoalmente eu adoraria vê-la continuar namorando com todas as famosas com que puder.” 
Quem diz isso, numa entrevista na The Cut, é a conta do Twitter e podcast @celesbians que se dedica a especular e aumentar a rumorologia dos romances entre lésbicas famosas. Entre seus ícones adultos confirmados favoritos estão Carrie Brownstein, Abbi Jacobson, Stewart, Amber Heard (declarou-se bissexual), St. Vincent, Stella Maxwell e Cara Delevingne, e entre as adolescentes constam todas as atrizes Amandla Stenberg, Rowan Blanchard, Bella Thorne e Chloe Grace Moretz.

As lésbicas já não se escondem em Hollywood. Nem na tela, embora sua incursão seja tímida entre o grande público, com filmes recentes como Carol, Azul é a cor mais quente e A criada. A revista Slate destacava há alguns dias De chica en chica, o filme espanhol protagonizado por María Botto, que nasceu no calor do sucesso da websérie sobre lésbicas Chica busca chica, ambientada em Madri.

Sem uma nova Carol no horizonte dos grandes estúdios, as revistas já aquecem a temporada de prêmios com capas onde aparecem os atores que mais veremos sobre o tapete vermelho. Especialmente comentada por sua alta voltagem erótica lésbica foi a imagem protagonizada, na revista W, por duas atrizes que dominarão as manchetes nos próximos meses: Ruth Negga (Loving) e Natalie Portman (Jackie), embora enhuma das duas seja uma celesbian (Negga namora Dominic Cooper, e Portman mantém uma relação com o bailarino Benjamin Millepied).

Fonte: El País, por Nelia Ramírez, 06/01/2017

Bisavô de 95 anos se assume gay e provoca reflexão sobre velhice e homossexualidade

terça-feira, 28 de março de 2017 0 comentários

Liberdade. Roman Blank, 95, sobrevivente do Holocausto e que ficou 60 anos casado, conta ao youtuber Davey Wavey sobre a decisão de se revelar homossexual

Bisavô de 95 anos que se revelou gay abre debate sobre o tema na terceira idade

Assumir a homossexualidade é uma decisão difícil para a maior parte das pessoas, pois não se sabe de que forma a revelação irá afetar a vida afetiva, familiar e profissional. Por isso, muitos acabam deixando a revelação em último plano. E, quando a velhice e a homossexualidade ocupam os mesmos espaços, o preconceito e a exclusão costumam aparecer em dose dupla. Por outro lado, para outros, é quando chega a terceira idade que a vida pode ganhar todo um novo sentido.

Recentemente, o bisavô inglês Roman Blank surpreendeu o mundo ao se declarar homossexual aos 95 anos. A revelação desse senhor, que sobreviveu ao holocausto, foi casado por mais de 60 anos com uma mulher e tem dois filhos, foi feita ao youtuber Davey Wavey em vídeo que já teve mais de 405 mil visualizações.
Eu disse para eles (família) que nasci e fui gay a minha vida toda. Então, contei a eles toda a tragédia que foi a minha vida, para que eles pudessem entender o que houve comigo. Você pode imaginar 90 anos no armário?”, disse Roman.
Orgulhoso de sua coragem, um dos netos, Brando Gross, decidiu registrar essa história no documentário “On My Way Out” (“A Caminho de Fora”, em tradução livre), que ainda está sendo produzido.
Há, de fato, um número maior de pessoas se revelando, aponta o psicólogo e psicoterapeuta de terapia afirmativa para homossexuais Klecius Borges. Com base em relatos feitos em seu consultório, em São Paulo, ele atribui esse comportamento “às mudanças comportamentais e sociais em relação à sexualidade e também a uma ênfase maior na busca por uma vida mais feliz e livre”.

Por outro lado, quem acaba adiando demais essa manifestação costuma ter que lidar também com os prejuízos e os sintomas decorrentes do processo de autorrepressão, como depressão, ansiedade, abuso de substâncias (álcool, cigarro e outras drogas), doenças psicossomáticas, entre outras, diz Borges.

Segundo uma pesquisa realizada em 2012 pela ONG inglesa Stonewall, o preconceito e a falta de direitos civis acentuam as consequências do envelhecimento para os homossexuais. Resultados semelhantes também foram encontrados no Brasil. Dados apresentados pela psiquiatra Carmita Abdo durante o Congresso Brasileiro de Geriatria e Gerontologia, em 2014, indicam que os idosos LGBTs são mais propensos a sofrer de depressão: 24% das lésbicas e 30% dos gays, contra 13,5% de heterossexuais.

Situações de maus-tratos e solidão, que acometem a população idosa em geral, são ainda mais preocupantes entre os gays. O Brasil é o país que mais mata LGBTs no mundo. O levantamento aponta que, entre a população com mais de 61 anos, existem 2,2% de homossexuais e 1,8% de bissexuais do sexo masculino. O índice, porém, não reflete, necessariamente, a sociedade, haja vista que muitas pessoas não revelam sua orientação.
Preconceito interno. No livro “Ao Sair do Armário, Entrei na Velhice... Homossexualidade Masculina e o Curso da Vida”, escrito pelo ativista e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Murilo Peixoto da Mota, chama atenção o preconceito entre os próprios homossexuais. No caso da velhice, os próprios LGBT discriminam seus pares que chegam a essa idade, logo tachados de “bichas velhas”.
Vivemos em uma sociedade que cultua a juventude, o velho é encarado como feio, não sexualmente atraente”, diz.
Na avaliação da coordenadora da especialização em geriatria da Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia – Seção Minas Gerais, Ana Cristina Nogueira, em Belo Horizonte ainda é difícil que os idosos falem sobre sexualidade nos consultórios, pois “foram criados com muito rigor, preconceitos e religiosidade”.
Tive um paciente que me falou uma vez que ser uma ‘bicha velha’ era impossível, usando um termo que transparecia uma autoimagem horrível”, contou.
Para Ana Cristina, a revelação desse segredo, embora possa causar sofrimento, pode também ajudar a curar feridas familiares. Ela ressalta que,
para muitos idosos, as questões relativas à aceitação por parte dos outros tendem a ser menos significativas, pois já estão em um estágio da vida em que valorizam a liberdade e sabem que têm menos tempo para serem felizes”.
Fonte: Com informações de O Tempo, 26/03/2017, por Litza Mattos


Bofinhos e Ladies fazem sucesso na Tailândia

segunda-feira, 27 de março de 2017 0 comentários


O país onde garotas estão em evidência por se vestir de homens

A produtora Beary está sentada no bar. Percebe que outra jovem se aproxima para puxar papo. "Amei sua camisa. Quantos anos você tem?", a garota pergunta. "Vinte e dois", Beary responde, num agudo bem feminino. A moça então dá uma desculpa qualquer e vai embora. "Isso acontece o tempo todo", diverte-se Beary. "As pessoas acham que sou um cara por causa da minha aparência."

Beary, que prefere não revelar o nome completo, nasceu e mora na Tailândia --líder mundial em cirurgias de troca de sexo e conhecida por aceitar e receber com naturalidade as transgêneros e as "krathoeys", palavra local com significado próximo ao de travesti.
Eu sou uma tom", explica a produtora. Isso quer dizer que Beary se identifica com o gênero feminino, mas se veste e se comporta como homem.
A palavra vem do inglês "tomboy" (menina que gosta de atividades associadas a homens). As toms namoram as dees, abreviação de "ladies" (senhoritas, em tradução livre do inglês), meninas que fazem questão de manter o estilo "princesa" bem feminino: cabelos longos, roupas justas e unhas pintadas.
Cultura tailandesa

Segundo a pesquisadora Georgia Megan Sinnot,  a aceitação das lésbicas no país começou com mudanças na tradição do casamento. Até a década de 1970, as mulheres se casavam muito jovens e o casamento era uma convenção. Como o sexo antes do matrimônio poderia arruinar a reputação da mulher, muitas passaram a explorar a sexualidade entre si. Mais tarde, com o crescimento econômico do país, começaram a trabalhar nas grandes cidades, alcançaram autonomia financeira e não precisaram mais se casar tão cedo nem esconder sua orientação sexual.

Além disso, a percepção do relacionamento entre os tailandeses também contribuiu para melhor aceitação dos casais toms e dees. Isso porque na cultura tailandesa um casal deve ser composto por uma figura masculina e uma feminina, não importando que ambas sejam do mesmo sexo. Por outro lado, a relação entre duas toms ou duas dees pode ser considerada um desvio, inclusive dentro do próprio grupo.

Para a dee Masraphinath Ratkotchakornkirasiri, o fator essencial para que ela se apaixone pelas toms é a compreensão feminina. 
"Elas têm a sensibilidade para me entender como mulher, o que falta em um homem", afirma.
Popularidade
A editora da revista 'TomAct' diz querer
ajudar a nova  geração de lésbicas
Imagem: Arquivo pessoal

A notoriedade das toms e dees levou ao nascimento, em 2007, da revista "Tom Act", especializada no estilo de vida "tomboy". A editora Nathnarath Ratchakodchakinasiri, de 53 anos, diz ter vivido na pele a revolução silenciosa promovida pelas lésbicas tailandesas e afirma querer hoje ajudar a nova geração.
A revista é um guia para garotas que ainda não sabem como agir, para sentirem que não estão sozinhas", afirma.
A existência da revista se deve também a uma demanda de mercado. A publicação busca um nicho formado pelas Um dos marcos para esse público foi o lançamento do filme "Yes or No", em 2011, que se tornou sucesso entre garotas lésbicas ao retratar uma história de amor entre uma tom e uma dee --enredo próximo ao do filme brasileiro "Hoje eu Quero Voltar Sozinho" (2014), de Daniel Ribeiro, que trata de descobertas amorosas entre dois meninos adolescentes.

Com o fenômeno cada vez mais popular, celebridades também se sentem à vontade para assumir a sexualidade. A miss Tailândia 2006, Lalana Kongtoranin, trocou a coroa pelo boné no início de 2014 --agora ela se veste como uma tom, ainda que diga não gostar de rótulos. Atualmente é seguida por quase 1 milhão de pessoas apenas no Instagram.

Preconceito



Apesar da aceitação, a Tailândia ainda registra casos de preconceito contra lésbicas. Em 2012, uma garota de 14 anos denunciou o próprio pai à polícia por estuprá-la durante quatro anos seguidos. Ele não queria que a filha saísse com as amigas toms por temer que ela se tornasse homossexual. Em 2009, duas meninas foram encontradas mortas na cidade de Chiang Mai. O casal foi esfaqueado mais de 60 vezes por um homem que gostou de uma delas e sentiu repulsa pela relação homossexual.

Entre 2006 e 2012, 15 mulheres homossexuais foram assassinadas no país, de acordo com relatório feito pela Comissão Internacional de Direitos Humanos de Gays e Lésbicas (IGLHRC, na sigla em inglês). É difícil calcular o número exato de mortes depois dessa data porque a lei tailandesa não classifica os assassinatos como crimes de ódio. Eles são catalogados, na maioria, como passionais.

Além disso, direitos básicos, como o de alterar o nome nos documentos e a união civil entre casais do mesmo sexo, ainda são negados à população LGBT do país.

É nas escolas onde o bullying é mais frequente. Um em cada três estudantes LGBT da Tailândia diz ter sofrido algum tipo de agressão por causa de gênero ou orientação sexual, segundo levantamento da ONG Plan International, Unesco e Universidade de Mahidol.

Anjana Suvarnananda, de 59 anos, lésbica e uma das principais ativistas do país, trabalha para que as instituições de ensino se tornem ambientes inclusivos. Mas, como no Brasil, a tarefa esbarra em setores conservadores da sociedade, que se refletem na política.
Eles acham que a Tailândia ainda não está pronta para discutir o tema", afirma.
Fonte: UOL via BBC, por Vinicius Tamamoto, 25/03/2017

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