Aumentam os direitos LGBT no mercado de trabalho

quarta-feira, 31 de julho de 2013 0 comentários

Fora do armário e dentro do mercado de trabalho

Dobram empresas que dão benefícios a parceiros do mesmo sexo
Entre 2010 e 2012, fatia das empresas que concedem benefícios a parceiros homossexuais praticamente dobrou, de 41% para 78%, diz pesquisa

São Paulo - Ao mesmo tempo em que os homossexuais conquistam uma série de direitos no mundo todo – recentemente o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi aprovado no Brasil, na França, em alguns estados dos Estados Unidos – eles também ganham espaço e conseguem maiores benefícios no mercado de trabalho. É o que apontam dados de uma pesquisa sobre benefícios inédita da Tower Watson, obtidos com exclusividade por EXAME.com. 

Segundo o estudo, realizado junto a 194 companhias nacionais e estrangeiras com operação no Brasil, em 2010, apenas 41% das companhias incluíam companheiros do mesmo sexo que seus funcionários em planos de saúde. Em 2012, essa fatia aumentou para 78%. Em 2011, o percentual era de 66%.

“É importante ressaltar que a extensão dos planos de saúde a cônjuges e dependentes, quando não estabelecidos em acordo coletivo da categoria, é uma escolha da empresa e não está previsto em lei. O que acontece é que as corporações acompanham de perto o que é tendência no mercado, por isso o aumento nos números”, afirma Cesar Lopes, líder da área de benefícios da TW. 

Os dados da pesquisa refletem práticas de inclusão adotadas livremente pelas empresas. Porém, a partir de maio de 2013 – com a decisão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) de obrigar todos os cartórios brasileiros a celebrar o casamento entre pessoas do mesmo sexo – companhias que oferecem benefícios a cônjuges de seus funcionários, também precisam ofertá-los aos casais homossexais.

“Desde que o empregado apresente a certidão de casamento, a empresa não pode negar a ele os direitos. Se isso acontecer, ele pode entrar com uma ação de dano moral por discriminação. A possibilidade do casamento traz segurança não só para os homossexuais, mas também para as empresas, que muitas vezes não sabiam como agir nesses casos”, explica a presidente da Comissão de Diversidade Sexual da OAB de São Paulo, Adriana Galvão.

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Fonte: Exame.com, 31/07/2013

GaymerX, evento gamer destinado ao público LGBT

terça-feira, 30 de julho de 2013 0 comentários


Evento gamer destinado ao público gay ganha data

GaymerX, destinado à comunidade LGBT acontecerá em 3 e 4 de agosto em San Francisco, nos EUA

São Paulo - A convenção GaymerX, primeiro grande evento gamer destinado à comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) acontecerá em 3 e 4 de agosto em San Francisco, nos Estados Unidos.

O evento, que originalmente se chamava GaymerCon, foi proposto em agosto de 2012 no site de financiamento coletivo Kickstarter. O projeto pedia 25 mil dólares para realizar uma feira de games aberta a todos os gamers, mas centrada em questões da comunidade LGBT.

Sucesso absoluto, o evento arrecadou quase quatro vezes o que pediu (91 mil dólares), com mais de 1,5 mil apoiadores.

"Assim com a maior parte dos gamers, os geeks gays e os gaymers também querem sentir como uma comunidade", disseram os fundadores do projeto Matt Conn e Kayce Brown na página do evento no Kickstarter. "Logo, queremos criar um espaço onde os todos os jogadores e geeks gays possam se unir, em um local amistoso e seguro."

O evento contará com painéis, cosplayers, estandes e outras atividades típicas de eventos de games. Electronic Arts, BioWare e Xbox estão entre as marcas que já confirmaram presença na convenção.

Confira a programação completa do evento no site oficial do GaymerX.

Fonte: Christian Costa, de  via Exame.com

Campanha da ONU para a promoção da igualdade LGBT

segunda-feira, 29 de julho de 2013 0 comentários

O Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) lançou esta sexta-feira (26) acampanha Livres e Iguais de educação pública global para promover a igualdade de lésbicas, gays, bissexuais e transexuais (LGBT).

Numa conferência de imprensa realizada na Cidade do Cabo, África do Sul, a Alta Comissária para os Direitos Humanos da ONU, Navi Pillay, acompanhada pelo arcebispo emérito Desmond Tutu e pelo Juiz Edwin Cameron do Tribunal Constitucional Sul-Africano anunciou o projeto que terá um ano de duração. A versão brasileira da campanha será lançada em outubro próximo.

“A Declaração Universal dos Direitos Humanos promete um mundo no qual todos nascem livres e iguais em dignidade e direitos – sem exceções, sem que ninguém seja deixado para trás”, disse a Alta Comissária Pillay. “No entanto, ainda é uma promessa vazia para muitos milhões de pessoas LGBT forçadas a enfrentar o ódio, a intolerância, a violência e a discriminação em uma base diária.”

“A mudança de atitudes nunca é fácil. Mas já aconteceu em relação a outras questões e está acontecendo já em muitas partes do mundo em relação a esta mesma questão. Ela começa com conversas muitas vezes difíceis”, disse Pillay. “E é isso que nós queremos fazer com esta campanha. “Livres e Iguais” vai inspirar milhões de conversas entre as pessoas em todo o mundo e em todo o espectro ideológico.”

A campanha tem como objetivo aumentar a conscientização sobre a violência e discriminação homofóbica e transfóbica, e incentivar um maior respeito pelos direitos das pessoas LGBT. Ao longo do próximo ano, será lançada uma série de conteúdos criativos na mesma linha conceitual de O Enigma, um vídeo divulgado pelo ACNUDH para o Dia Internacional Contra a Homofobia e Transfobia, e A história de uma mãe do Brasil, que é o primeiro de uma série de filmes com entrevistas aos familiares das pessoas LGBT em todo o mundo.

A campanha surge na sequência de um relatório ACNUDH publicado em dezembro de 2011, que foi o primeiro relatóriooficial da ONU sobre a violência e discriminação contra pessoas LGBT. O relatório documentou abusos generalizados dos direitos humanos. Hoje, mais de 76 países ainda criminalizam relações homossexuais consensuais, enquanto em muitos outros a discriminação contra pessoas LGBT é generalizada – inclusive no local de trabalho, bem como nos setores da educação e saúde. A violência e a manifestação de ódio contra pessoas LGBT, incluindo agressão física, violência sexual e assassinato seletivo, foram registadas em todas as regiões do mundo.

A campanha vai se focar na necessidade de reformas legais e educação pública para combater a homofobia e transfobia.

Várias celebridades empenhadas em promover a igualdade deram o seu apoio a “Livres e Iguais”, tornando-se campeões da igualdade da ONU e ajudando a espalhar mensagens e materiais de campanha através das redes sociais. Entre esses incluem-se o artista pop Ricky Martin, a cantora Sul Africana Yvonne Chaka Chaka, a atriz de Bollywood Celina Jaitly e a cantora brasileira Daniela Mercury. Outros campeões da igualdade serão anunciados à medida que a campanha se desenrola.

Siga a campanha Livres e Iguais nas redes sociais:
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Saiba mais sobre a campanha Livre e Igual em www.unfe.org

Condenado por ser homossexual, Alan Turing, gênio da computação, agora será perdoado por seu "crime"

sexta-feira, 26 de julho de 2013 0 comentários


Pai da computação será perdoado por ser gay
Bruno Calzavara

Nos idos de 1952, o matemático e cientista da computação Alan Turing foi condenado por “indecência pesada”, a acusação criminal padrão da época para a homossexualidade. Depois de sua castração química (!), ele se matou comendo uma maçã envenenada com cianeto, assim como na história da Branca de Neve, de quem era fã. Agora, mais de 60 anos depois, ele está prestes a ser perdoado.

É difícil avaliar o legado de Alan Turing. Sua contribuição começou com a tese Church-Turing, cujo pensamento central é o de que nossa noção de algoritmo pode ser formalizada sob a forma de funções computáveis e que computadores podem executar esses algoritmos.

Além disso, qualquer computador pode, teoricamente, executar qualquer algoritmo, isto é, o poder computacional teórico de cada computador é o mesmo e não é possível construir um artefato de cálculo mais poderoso que um computador. Todos os computadores são “iguais”, variando apenas a capacidade de processamento – isso formulado na década de 1930.

Na realidade, não foi utilizada a palavra “computador” na época, e sim “máquina de Turing”, mas trata-se de um modelo abstrato e anterior ao nosso computador, que se restringe apenas aos aspectos lógicos do seu funcionamento, como memória, estados e transições, e não à sua implementação física.

Outra importante contribuição foi o chamado Teste de Turing, de 1950, cujo objetivo era determinar se máquinas podem exibir comportamento inteligente. No exemplo original de Turing, um juiz humano conversa em linguagem natural com um humano e uma máquina criada para ter desempenho indistinguível do ser humano, sem saber qual é máquina e qual é humano. Se o juiz não pode diferenciar com segurança a máquina do humano, então é dito que a máquina passou no teste.

E tudo isso sem falar no papel importantíssimo de Turing na Segunda Guerra Mundial, ao decifrar o código criptográfico usado pelos nazistas. À medida que o texto era digitado na máquina Enigma (nome bem adequado), os rotores embaralhavam as letras de modo que o conteúdo ficasse incompreensível. A encriptação de mensagens funcionava de maneira similar ao que se usa hoje para transmitir dados bancários pela internet.

A única maneira de entender a mensagem recebida era utilizar a mesma chave da encriptação original. Os rotores permitiam milhões de combinações, e as chaves eram trocadas mensalmente. Mesmo assim, Turing conseguiu descobrir o segredo usando uma técnica eletromecânica conhecida como bomba. As tais bombas permitiam várias análises dos textos, em velocidade muito parecida à dos humanos.

Em 1942, os ingleses já conseguiam ler 50 mil mensagens por mês, uma por minuto. Foi assim que ficaram sabendo de informações cruciais sobre os ataques planejados pelos alemães, principalmente no Atlântico Norte. Quando a guerra acabou, Turing foi trabalhar no Laboratório Nacional de Física. Ninguém ficou sabendo da importância da sua participação na quebra dos códigos da máquina Enigma.

No entanto, mesmo após todas essas incríveis e essenciais contribuições ao país e ao mundo da tecnologia, o Reino Unido decidiu não consagrá-lo e sim aterrorizá-lo simplesmente porque era gay.

Dois anos atrás, o governo britânico pediu desculpas oficialmente por sua homofobia, mas a sua condenação permaneceu nos livros. Agora, o governo disse que não impediria um completo perdão parlamentar a Alan Turing.

De acordo com o jornal inglês “The Telegraph”, em dezembro passado, Stephen Hawking e outros cientistas escreveram para o periódico britânico pedindo o perdão de Turing e citando que o trabalho dele ajudou a apressar o fim da Segunda Guerra Mundial.

Discursando na Câmara dos Lordes, na sexta-feira (19), o Lorde Ahmad de Wimbledon declarou que o governo não iria ficar no caminho de um projeto de lei trazido pelo Liberal Democrata que oferece a Alan Turing o completo perdão parlamentar póstumo.

Falando na Câmara dos Lordes, pouco antes do projeto de lei Alan Turing (Perdão Estatutário) receber uma segunda leitura, sem oposição, Lorde Ahmad declarou que o próprio Alan Turing acreditava que a atividade homossexual seria considerada legal por uma Comissão Real. “Na verdade, de forma adequada, foi o Parlamento que descriminalizou a atividade pela qual Turing foi condenado”, declarou. “O Governo, portanto, está muito consciente da causa para perdoar Turing dado o seu excelente desempenho e, portanto, tem grande simpatia com o objetivo do projeto de lei”.

Claro que isso pouco serve de consolo para Turing ou para os outros 49 mil homens homossexuais que foram condenados pela Emenda Criminal de 1885 – numa lista que incluía o escritor irlandês Oscar Wilde. Talvez o ato mais ousado fosse reconhecer o erro cometido contra esses indivíduos também. [io9, The Telegraph e Aventuras na História]

Fonte: Hypescience

N.E. [Ver aquí a tramitação do projeto de "perdão" de Turing].

28 escolas de ensino médio de Pernambuco combatem o machismo e a homofobia

quinta-feira, 25 de julho de 2013 0 comentários

Na Escola Professor Trajano de Mendonça, balões e cartazes decoram a Semana Rosa e Lilás

PE: alunos discutem homofobia e machismo para romper preconceitos
Núcleos de estudo de gênero criados em 28 escolas de ensino médio de Pernambuco ajudam a combater a discriminação

As discussões sobre machismo e homofobia estão nas redes sociais, na TV, nos jornais e não poderiam ficar muito tempo longe da escola. Com o objetivo de promover ações de formação e pesquisa em gênero e educação e incentivar alunos e professores a debaterem estes temas, Escolas Referência de Ensino Médio (Erems) de Pernambuco implementaram, desde o ano passado, Núcleos de Estudos de Gênero e Enfrentamento da Violência Contra a Mulher. Fruto da articulação entre a Secretaria da Mulher e a Secretaria de Educação com as escolas de nível médio, a iniciativa já alcança 28 instituições de ensino do Estado.

Localizada em Jardim São Paulo, na zona oeste do Recife, a Erem Professor Trajano de Mendonça é uma das participantes do projeto. Professores e alunos de diferentes séries e disciplinas formaram o Grupo Margarida Maria Alves de Estudos de Gênero. Coordenadora do grupo e professora de português da instituição, Rosário Leite explica que a escola já tinha um projeto que tratava do tema desde 2011 e, por conta disso, recebeu o convite da Secretaria da Mulher para implantar o núcleo ainda no ano passado. "Ele nasceu com a proposta de discutir a violência contra a mulher, já que o Estado de Pernambuco tem um alto número de casos de agressão contra mulheres, inclusive com mortes. Conforme fomos angariando parceiros, ampliamos o debate para questões de outros gêneros", conta.

Segundo Rosário, o núcleo ainda está em fase inicial. As reuniões ocorrem quinzenalmente, em contraturno, e não são obrigatórias. "É uma atividade voluntária", comenta. Nos encontros, os alunos debatem temas como machismo e homofobia a partir de filmes, notícias, leituras e relatos de experiência. A temática não fica restrita aos debates. "A ideia é trazer essa discussão de gênero para a sala de aula também de forma que perpasse todas as disciplinas, fazendo pontos de intersecção. Queremos trazer para o dia a dia mesmo, pois quanto mais presente a discussão, mais fácil combater a violência", afirma.

A escola também incentiva que os alunos participem de concursos de redação sobre temáticas de gênero. "É muito importante participar de eventos escolares, fazer debates nas salas, oficinas, seminários e palestras", diz Rosário. O marco das discussões, de acordo com ela, é março, na Semana da Mulher, um período especial, com atividades envolvendo toda a escola. "Ampliamos o foco, saímos da questão da violência doméstica e passamos a abordar a diversidade sexual e a questão da igualdade de gêneros. Com o núcleo, os alunos passam a ser sujeitos dessa ação, a ideia é que se transformem em multiplicadores dessa questão contra a violência", completa.

Na Trajano de Mendonça, este período ficou conhecido como Semana Rosa e Lilás, na qual alunos e professores usam peças de roupa nestas cores, além de decorar a escola com balões e cartazes. "Também é realizada uma série de encontros. Nós trazemos voluntários para darem palestras. Neste ano, por exemplo, a semana foi aberta com a discussão sobre homofobia, e finalizamos discutindo violência de gênero no mundo inteiro", diz.

Dos cerca de 700 alunos da escola, entre turmas do nono ano e do ensino médio, participam regularmente dos encontros quinzenais em torno de 20. "Nem sempre são os mesmos. O grupo todo trabalhando chega a 90 alunos diretamente engajados, fora os professores", afirma Rosário. Além disso, a escola mantém um grupo de discussões no Facebook, onde os alunos postam e comentam sobre temas relacionados.

A mudança no tratamento entre os colegas, bem como a conscientização e a formação de multiplicadores contra a violência de gênero, são o resultado da implantação do núcleo. "Isso se reflete até nas famílias, muitos pais passaram a apoiar o projeto", diz. As reuniões auxiliam no desenvolvimento dos alunos e na formação social. "É muito importante para nós que todos participem. Os professores, por exemplo, vão sempre vestidos de rosa na Semana Rosa e Lilás. Ver outros homens usando esta cor, já faz esses alunos enxergarem a questão de outra forma", relata. 

Rosário conta que ainda há brincadeiras e provocações eventualmente na sala de aula ou no intervalo. "Isso acaba repercutindo entre os alunos e vira debate. Os estudantes tornam-se vigilantes. E queremos isso: que conversem sobre o tema, que não seja necessário uma advertência do professor", aponta.

Futuro com menos preconceito

Hoje aos 18 anos, Emanuela Sibalde participou do núcleo desde sua implantação. "Adquiri conhecimento sobre o assunto. A violência contra a mulher é uma realidade que muita gente desconhece. Com o núcleo, debatemos isso e formamos nossa opinião", avalia. A jovem nota que os meninos passaram a respeitar mais as mulheres e as próprias meninas após a discussão em sala de aula. Também acredita que incentivar o debate irá diminuir o preconceito. "Para o futuro, vai ser melhor. Tendo consciência de que somos todos iguais, acredito que vai diminuir o preconceito e a violência contra a mulher", opina.

Os números que indicam o preconceito contra homossexuais, porém, ainda assustam, conforme as estatísticas do Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau (IPMN). Levantamento realizado em 26 escolas públicas, em junho, mostrou que mais da metade dos entrevistados, com entre 14 e 20 anos, não são favoráveis à união homossexual, enquanto 30,9% são a favor e 14,8% são indiferentes ao tema.

Cura gay em clínicas e comunidades terapêuticas católicas e evangélicas

quarta-feira, 24 de julho de 2013 0 comentários

No Lar Cristão Ala Feminina, no Mato Grosso,
“lésbicas são levadas a deixar a homossexualidade”


Clínicas prometem tratamento de ‘cura gay’

  • Pelo menos seis entidades no país afirmam fazer a chamada ‘conversão da sexualidade’, aponta relatório


SÃO PAULO - O jovem F.G., de 21 anos, dormia quando três enfermeiros entraram em seu quarto e o imobilizaram. A pedido de sua mãe, o então jogador de futebol foi levado sedado de Belo Horizonte para o interior de São Paulo, onde foi internado de maneira involuntária em uma clínica de reabilitação para viciados em drogas. O atleta, que nega ser dependente químico, acusou a mãe de tê-lo internado apenas pelo fato de ser homossexual. O namorado do jovem foi impedido pela família de vê-lo no tempo em que permaneceu no local. Ele ficou na clínica por mais de dois meses, nos quais chegou a permanecer por algum tempo em uma espécie de “solitária”.


O caso, que desde 2009 tramita em segredo judicial e foi levado ao Ministério Público, não é a única denúncia feita por violação de direitos humanos a homossexuais contra clínicas de reabilitação ou comunidades terapêuticas. Um relatório produzido pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP), com a colaboração da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), revela indícios de que instituições que oferecem tratamento a dependentes químicos no país tratam com preconceito gays e lésbicas e, algumas delas, inclusive submetem os internos a processos de conversão da sexualidade.

Ao todo, segundo o documento, há indícios de que pelo menos seis delas realizam o que chamam de “libertação” de internos homossexuais.

As unidades são, na sua maioria, de orientação religiosa — evangélicas e católicas — e estão distribuídas em Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pernambuco e Sergipe. O relatório aponta, por exemplo, que na Associação Beneficente Metamorfose, em Goiás, “os casos de diversidade sexual são estimulados a ser libertados”.

Na Fazenda Esperança, no Sergipe, a instituição “recebe homossexuais que, por motivos pessoais, desejem se internar para tentar deixar esta orientação sexual”. No Esquadrão da Vida, no Mato Grosso do Sul, “a instituição não permite nem a manifestação nem a prática da homossexualidade e realiza um trabalho religioso para converter o interno”.

‘Trabalho de libertação’

O relatório aponta, por exemplo, que no Lar Cristão Ala Feminina, no Mato Grosso, “lésbicas são levadas a deixar a homossexualidade”. Em conversa pelo telefone, uma funcionária confirmou ao GLOBO que a entidade aceita homossexuais que não necessariamente sejam dependentes químicos.

— No caso, é só um trabalho de libertação. São quatro cultos por dia e tem um culto à noite. Aí vai trabalhando, vai libertando — relatou uma funcionária, sem se identificar.

O coordenador da Comissão Nacional de Direitos Humanos do CFP, Pedro Paulo Bicalho, atribui os casos de violação de direitos humanos ao fato de a maioria dessas instituições ser gerida por religiosos, e não por profissionais de Saúde. Na avaliação dele, gera preocupação que entidades que se proponham a oferecer reabilitação a viciados em drogas reproduzam suas crenças religiosas no tratamento médico. Ele observa que, em muitas dessas entidades, não há nem profissionais de Saúde nem psicólogos.

— Esses profissionais, de um modo geral, não dizem claramente o que fazem, então é difícil identificar casos em que a identidade de gênero é violada. Mas a gente sabe que eles existem. E existem com muito mais presença e força que um relatório é capaz de identificar — afirmou.

Segundo resolução do CFP, é proibido oferecer tratamento ou cura para a homossexualidade. Em face das denúncias, a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT) informou que enviou o conteúdo do relatório ao Ministério Público Federal, para que sejam abertas investigações contra as clínicas e comunidades.

Organizações negam que convertam homossexuais

Procuradas pelo GLOBO, clínicas de reabilitação e comunidades terapêuticas, citadas no relatório do Conselho Federal de Psicologia, negaram que oferecem tratamento de conversão da sexualidade a internos homossexuais. Em nota, o presidente da Fazenda Esperança, em Sergipe, Maurício Bovo, argumentou que sempre cumpriu com o determinado na legislação e afirmou que “não há nenhum tipo de segregação e preconceito com o homossexual que procura a entidade, o qual é bem acolhido como todas as pessoas”. “A proposta de mudança de vida não que dizer que a pessoa tenha que deixar de ser homossexual. Ela é livre em sua escolha”, afirmou.

A presidente da Associação Beneficente Metamorfose, em Goiás, Sônia Maria Borges, negou que a clínica ofereça conversão a homossexuais e alega que a mensagem da entidade de recuperação a dependentes químicos foi mal interpretada pelo Conselho Federal de Psicologia.

— Nós colocamos a palavra de Jesus: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres”. Para nós, a conotação é essa. Na minha clínica, a palavra “livre” se refere a livre das drogas, da depressão, do que eles querem ser livres. Eu não disse do homossexualismo, eu disse do que eles quiserem ser livres. Se é do homossexualismo, que seja do homossexualismo. A gente prega a liberdade de ser feliz — disse.

A vice-presidente do Esquadrão da Vida, Magali Rodrigues, disse que os indícios presentes no relatório são mentirosos, ressaltou que não há discriminação na entidade e afirmou que a clínica aceita dependentes de álcool e drogas que queiram se recuperar apenas do vício. A presidente do Lar Cristão Ala Feminina, Helen Cristine, não respondeu ao pedido de entrevista.

O procurador regional do Direito do Cidadão em São Paulo, Jefferson Aparecido Dias, explicou que, nos casos de violação de direitos humanos, cabe o ingresso pelo Ministério Público de pedido judicial que pode resultar no fechamento da clínica. Ele lembrou que, em São Paulo, o Ministério Público conseguiu lacrar entidades para tratamento de dependentes químicos que foram alvo de denúncias de preconceito contra homossexuais.

— Normalmente, as entidades que recebem as denúncias não deixam de cumprir apenas uma legislação. Elas não só discriminam, mas também acabam violando leis que envolvem o tratamento que se esperaria dessas instituições, o que pode também resultar no fechamento — disse.

Fonte: O Globo via Clipping Seleção de Notícias, 21/07/03

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