Tributo a Rosely Roth, pioneira da visibilidade lesbiana no Brasil

quarta-feira, 28 de agosto de 2019 2 comentários

Rosely Roth (GALF-BR) com integrantes do GALF peruano no III EFLC (Acervo Um Outro Olhar)

Rosely Roth
(21/08/59- 28/08/1990)


Rosely Roth nasceu de família judia, em 21 de agosto de 1959, tendo cursado escolas judaicas e não-judaicas durante a infância e a adolescência e, posteriormente, formado-se em Filosofia (1981) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, onde também pós-graduava-se em Antropologia (85/86) com os trabalhos Vivências Lésbicas - Investigação acerca das vivências e dos estilos de vida das mulheres lésbicas a partir da análise dos bares freqüentados predominante por elas e Mulheres e Sexualidades.

Iniciou seu contato com o movimento de mulheres, no primeiro semestre de 1981, quando começou a participar simultaneamente dos grupos Lésbico-Feminista/LF (1979-1981) e SOS Mulher (1980-1983).

Em outubro de 1981, fundou comigo o Grupo Ação Lésbica-Feminista/GALF (1981-1990), um grupo a princípio de continuidade do grupo lésbico-feminista (cujo coletivo original se dispersara), mas que viria, no decorrer de sua existência, a desenvolver características próprias tanto em termos políticos quanto de atividades.

A partir de 1982, deixou de atuar no coletivo SOS Mulher, vindo a dedicar-se exclusivamente ao Grupo Ação Lésbica-Feminista (GALF) do qual foi figura de destaque seja por seus artigos, nas duas publicações da entidade – os boletins ChanacomChana (12/82 a 05/87) e Um Outro Olhar (até 1990) - e pela organização de debates, com outros grupos dos Movimentos Feminista, Homossexual e Negro, além de com parlamentares da época, seja por sua participação em atividades externas (manifestações, encontros, simpósios, congressos) ou por sua presença constante, publicamente lésbica, na mídia brasileira.

Entre as inúmeras atividades que realizou, por seu impacto político, destacam-se: 1) a organização da manifestação de protesto de 19/08/83, junto aos proprietários do Ferro’s Bar (o mais antigo e tradicional bar lésbico do Brasil) que não permitiam a venda do boletim Chanacomchana em seu recinto, apesar de este ser sustentado fundamentalmente por lésbicas, e que reuniu ativistas do movimento homossexual e feminista, parlamentares e representantes da OAB, com bastante destaque na mídia, e 2) duas participações (25/05/85-20/04/86) em programas da apresentadora Hebe Camargo (uma das mais populares do Brasil), em cadeia nacional, falando aberta e tranquilamente sobre lesbianidade, com grande repercussão na imprensa e junto à própria comunidade lésbica e gay.

Rosely Roth foi pioneira no que se convencionou chamar de “política da visibilidade” em uma época (década de 80) em que, com raras exceções, ninguém mais o fazia, aliando aparições públicas, geralmente marcantes, a uma fundamentação teórica que lhe permitiu ir além do ramerrão vitimista e reformista que muitas vezes caracteriza o discurso e as atividades dos grupos sociais discriminados. 

Na década de 90, a visibilidade ganhou as páginas dos jornais, os programas de TV e até as ruas, em manifestações de orgulho cada vez maiores e com várias pessoas dando as caras, mas até hoje, não surgiu quem superasse em excelência, Rosely Roth como a ativista lésbica do Brasil. Em sua homenagem, republico, anualmente, um seu texto muito significativo, chamado AUTONOMIA (dos movimentos sociais)  bem como o texto informativo sobre a manifestação do Ferro's Bar que ela liderou.  Reproduzo tambémmatéria da Folha de São Paulo que relata a polêmica surgida quando da primeira participação de Rosely no programa da apresentadora Hebe Camargo.

Fonte: Revista Um Outro Olhar, n. 33, Ano 14, Outubro-Dezembro de 2001. Fonte matéria abaixo: Folha de São Paulo, 01/06/1985


Confundidas com casal homossexual, mãe e filha quase são linchadas

segunda-feira, 26 de agosto de 2019 0 comentários



Mãe e filha são confundidas com casal homossexual e quase são linchadas

Mãe e filha que esperavam ônibus em uma parada, em frente a um shopping, na Avenida do CPA (Mato Grosso), foram agredidas e ameaçadas por Marcelo Ceribelli, 39 anos. Ele foi preso e confessou que 'surtou', com as mulheres, pois desconfiou que elas seriam lésbicas. 

De acordo com o boletim de ocorrência, a Polícia Militar foi acionada por testemunhas que viram mãe e filha sendo vítimas de ofensas e ameaças de cunho preconceituoso. Segundo o denunciante, o homem chegou a pedir o linchamento das mulheres; “sapatão deveria ser linchada", diz trecho do Boletim de Ocorrência.

À polícia, mãe e filha contaram que retornavam da casa de um familiar em Várzea Grande (MT) e ao chegarem no ponto de ônibus o suspeito se aproximou delas e começou a ameaçá-las, inclusive, de morte.

Após os insultos, o suspeito fugiu do local, mas foi localizado entrando no Grande Templo das Assembleias de Deus. A polícia não soube informar se ele seria membro da igreja. 

Ele foi reconhecido pela vítima e conduzido para a Central de Flagrantes para as providências cabíveis. A Polícia Civil acompanha o caso.

Clipping O Bom da Notícia, por Rafael Medeiros, 19/08/2019

19 de agosto: há 38 anos, o GALF realizava a primeira manifestação lésbica contra a discriminação no Brasil

segunda-feira, 19 de agosto de 2019 1 comentários

Míriam Martinho e Rosely Roth barradas na porta do Ferro's Bar

Míriam Martinho

No dia 19 de agosto de 1983, em São Paulo, as ativistas do Grupo Ação Lésbica Feminista – GALF (1981-03/1990) – ver resumo do histórico da organização abaixo - fizeram uma demonstração de protesto em frente ao antológico bar da noite paulistana, o Ferro’s Bar, contra os abusos dos donos do estabelecimento que as impediam de vender seu boletim ChanacomChana, dirigido às lésbicas, num espaço sustentado por lésbicas. Com apoio de ativistas gays, feministas e parlamentares do período, as ativistas do GALF conseguiram entrar no bar que lhes estava vetado e obter a promessa de seus donos de que não seriam mais impedidas de vender seu trabalho naquele famoso recinto, como todos os demais ambulantes, artistas e toda a fauna alternativa do período costumavam fazer. Primeira demonstração do gênero no Brasil, foi chamada por publicações homossexuais da época de nosso “pequeno Stonewall Inn”, em referência à revolta de gays, lésbicas e travestis contra a repressão policial em Nova Iorque (28 de junho de 1969) que daria origem ao Dia Internacional do Orgulho Gay.



Em 2003, o 19 de agosto foi lançado publicamente, pelos grupos Rede de Informação Um Outro Olhar e Associação da Parada LGBT de São Paulo, como Dia do Orgulho das Lésbicas no Brasil com novamente grande repercussão na imprensa, como quando da sua realização. Também, em 19/6/2008, os deputados que integravam a Comissão dos Direitos Humanos da Assembleia Legislativa paulista aprovaram o Projeto de Lei 496/2007, do deputado Carlos Giannazi (PSOL), que instituiu o Dia do Orgulho Lésbico no Estado de São Paulo. Para mais informações sobre o 19 de agosto, acesse “19 de Agosto: Primeira Manifestação lesbiana contra a discriminação no Brasil.

Para lembrar um pouco o ambiente do Ferro’s Bar, segue vídeo filmado em dependências do estabelecimento, com música de Gisele Fink e Míriam Martinho, parodiando as relações explosivas dos casais de lésbicas do famoso point.


Fanchitude de Fancha (letra original)
(Gisele Fink/Míriam Martinho)

Brigou comigo
saiu aos berros lá do Ferro’s
chamando a atenção do fancharéu.

Bebeu comigo e meio tonta
deixou a conta na qual bem pronta
eu dei o chapéu.

Saí do boteco atordoada
atrás da descarada
e desmaiei no elevador.

Quando acordei
nem sabia onde estava
pois aquela madrugada
foi demais pra minha dor.

Alucinada entrei no apartamento
e naquele momento a pomba gira me tomou.

Peguei a fancha na garganta dei-lhe um tapa
arranquei-lhe a gravata e a coisa toda começou.

Veio o passado das torturas recordando,
a cabeça esquentando resolvi me separar.

Mas quando olhei pros seus olhos de janela – escancarados -
eu lembrei que depois dela outra fancha vou achar.

Fancha por fancha fico mesmo na esperança
de que um dia esta mude e eu possa só cantar.
Fancha por fancha fico mesmo na esperança
por tão pouco é impossível essa vida abandonar.

Ver também: 

Memória lesbiana: o dia do orgulho lésbico já havia sido pensado em 2000 para homenagear Rosely Roth
Memória Lesbiana: um Raio-X dos boletins ChanacomChana e Um Outro Olhar e suas digitalizações
19 de Agosto: Primeira Manifestação lesbiana contra a discriminação no Brasil
Agosto com orgulho: Repercussão do 19 de agosto na Imprensa


Grupo Ação Lésbica Feminista – GALF (17/10/1981- 03/1990): Vanguarda e Resistência

Integrantes do GALF que participaram do 19 de Agosto: Célia Miliauskas, Elisete Ribeiro  Neres, Luiza Granado,
 Míriam Martinho, Rosely Roth e Vanda Frias. Na foto acima: Maria Rita  (ao lado de Rosely) não participou.   
Na foto abaixo: Liete (à direita, sentada, não participou).


Fundação

O Grupo Ação Lésbica Feminista foi fundado, em 17 de outubro de 1981, por duas remanescentes do Grupo Lésbico Feminista (LF), Míriam Martinho e Rosely Roth, mais quatro de suas colaboradoras, que queriam manter um grupo especificamente lésbico, em vez de entrar em algum armário feminista ou qualquer outro. Após tentativas frustradas de reunir ex-integrantes do LF e outras feministas homossexuais em torno ao menos da elaboração da segunda edição do tabloide ChanacomChana ( ed. 02/1981), Míriam e Rosely decidiram seguir adiante com outras pessoas e nova configuração. 

Para o burlar o preconceito da sociedade conservadora de então e o preconceito internalizado das próprias lésbicas, fora evitar problemas com o cartório, as ativistas do GALF adotaram a mesma estratégia criada pelo Grupo Somos, estatutariamente um clube cultural, e registraram seu grupo como um grupo feminista, preservando a sigla “GALF”. O objetivo do estatuto era pragmaticamente atender as necessidades de abrir conta em banco, uma caixa postal, receber dinheiro via vale postal e outras formalidades. O grupo ficaria incomunicável, entre as lésbicas da época, se usasse a palavra lésbica para esses trâmites institucionais.

Publicações: boletins ChanacomChana e Um Outro Olhar

Foram bem poucas, no entanto, as concessões que o GALF faria à ferrenha heteronormatividade da década de 80. Pelo contrário, o grupo vai se caracterizar como pioneiro da visibilidade lésbica, num período em que inclusive o movimento feminista pregava um armário acolchoado para as lésbicas que o compunham. O mantra era “a necessidade política de se dissolver a identidade lésbica em uma identidade feminista mais geral.” A vivência lésbica devia ser encarada apenas como uma particularidade da vida de algumas mulheres e vivida exclusivamente como opção ou preferência sexual. Politização somente para as vivências heterossexuais.

ChanacomChana n. 12

As ativistas do GALF nunca compraram essa falácia e tinham clareza da importância de as lésbicas politizarem a própria vivência, pois que não faltavam questões específicas a trabalhar e direitos a reivindicar. Assim retomam, entre outras atividades, a publicação do título Chanacomchana, agora em formato de boletim, em dezembro de 1982. Confeccionado e editado por Míriam Martinho como fanzine, a partir de colagens e textos datilografados, o CCC vai reunir produções das integrantes do GALF, sobretudo nos seus três primeiros anos, e posteriormente, com a maior divulgação do grupo, de colaboradoras de todo o país. Foram 12 edições até 1987, abordando questões especificamente lésbicas e da mulher em geral, quando o CCC cede lugar ao título Um Outro Olhar, outro boletim que o GALF publicará até fevereiro de 1990, no total de 10 edições*. Com tiragem média de 500 exemplares, o CCC era rodado em gráficas de universidades e da Câmara Municipal de SP pela cota de parlamentares solidários, como a vereadora Irede Cardoso (então PT), de saudosa memória. Os boletins Um Outro Olhar foram em boa parte xerografados e vendidos fundamentalmente para as associadas do GALF.

Boletim Um Outro Olhar n. 1

*Formalmente, o GALF encerra as portas em março de 1990 com a publicação do número 10 do boletim Um Outro Olhar (fevereiro/abril). Uma de suas últimas atividades foi gestar a Rede de Informação Lésbica Um Outro Olhar, desde os dois últimos meses de 1989, anunciada para abril de 1990 no próprio boletim citado (p. 4).

O Outra Coisa e o GALF em sua sede (maio de 1983) - Acervo Um Outro Olhar

Organização de eventos e participação em encontros e campanhas nacionais do MHB

Na área de militância, a partir de meados de 1982, o GALF começou a dividir sede com o Grupo Outra Coisa de Ação Homossexualista, grupo gay oriundo do racha do Somos, com quem terá uma fecunda parceira até o início de 1984. Em seu espaço comum, conjunta ou separadamente, os dois grupos organizaram reuniões com grupos feministas, candidatos de vários partidos (reivindicando o fim do parágrafo 302.0, que considerava a homossexualidade desvio mental, a custódia dos filhos de casais homossexuais, o fim da repressão policial), mostras de arte como o “Viva a Homossexualidade” e a celebração dos 4 anos do movimento homossexual, além de encontros com intelectuais como Félix Guattari, entre outros. O Outra Coisa também participou ativamente da invasão do Ferro’s Bar, em apoio ao GALF, em particular na pessoa de seu maior articulador, Antonio Carlos Tosta (fundador do Somos, do Outra Coisa, do Movimento Homossexual Autônomo).
O GALF também participou de vários encontros do Movimento Feminista, como, por exemplo, os 8° Encontro Nacional feminista – Petrópolis (7-10/08/1986) e 9° Encontro Nacional feminista - Garanhuns (PE), em 1987, sempre organizando alguma oficina ou debate sobre a questão lésbica nesses eventos, apesar do clima nem sempre acolhedor.

Um evento não tão visível, mas marcante, se deu, em abril de 1982, no Sindicato dos Jornalistas, quando as ativistas do GALF entraram com máscaras em um debate do grupo SOS Mulher, cujo slogan era "o silêncio é cúmplice da violência" e tratava da violência contra a mulher, menos da violência contra as lésbicas, e distribuíram o seguinte folheto, de autoria de Míriam Martinho:


Sobre violência

Estamos aqui para expor a nossa opressão. Olhem para nossos rostos e verão máscaras.
Estamos aqui para mostrar como temos que viver diariamente: temos que viver assim, com máscaras.
Temos que viver mascaradas, nas casas de nossos pais, para não perdermos relações afetivas que nos são caras.
Temos que viver mascaradas nas escolas, para não sermos ridicularizadas, humilhadas, agredidas e, até mesmo, impedidas de conseguir um nível mínimo de educação.
Temos que estar aqui, mascaradas, porque não podemos denunciar nossa opressão sem máscaras, porque corremos o risco de perder nossas famílias, nossos empregos, nosso direito de estudar sem qualquer tipo de pressão.
A sociedade nos impõe a esquizofrenia como estilo de vida e nos deixa num beco sem saída na medida que, praticamente, impossibilita a própria denúncia desta situação.
Precisamos romper esse círculo vicioso.
Queremos tirar a máscara antes que ela nos cole à face e não possamos mais nos distinguir dela. Queremos que cada mulher tire sua máscara.
Queremos propor que o movimento feminista seja um espaço onde as mulheres homossexuais não precisem utilizar nenhum tipo de máscara.
Queremos propor que o movimento feminista não reproduza o discurso politiqueiro machista das lutas gerais contra as lutas específicas e que todas as questões referentes a todas as mulheres sejam igualmente prioritárias.
Igualmente prioritárias mesmo porque a mulher homossexual também é negra, a mulher homossexual também é dona-de-casa, a mulher homossexual também é prostituta, a mulher homossexual também é operária, a mulher homossexual também está na periferia e calar a respeito dessas múltiplas opressões também nos torna cúmplices da violência"
.

Igualmente participou das duas principais campanhas do Movimento Homossexual Brasileiro (MHB) da década de 80: 
A campanha contra o código 320 da CID, seguido pelo INAMPS no Brasil, que considerava a homossexualidade uma doença mental. Em São Paulo, em 1982, o GALF reivindicou o fim do código junto ao então governador Franco Montoro. Em 1983, articulou-se com as deputada e vereadora Ruth Escobar e Irede Cardoso para promover a exclusão do código do INAMPS e fez palestra na Associação Paulista de Medicina com o mesmo objetivo. Em setembro de 1984, o GALF conseguiu inclusive passar trechos de um texto sobre saúde lésbica, que também propunha a exclusão do código, num documento feminista apresentado durante I Congresso Brasileiro de Proteção Materno-Infantil no Senado Federal.
Em 9 de fevereiro de 1985, o Conselho Federal de Medicina atendeu a reivindicação do MHB retirando a aplicação no Brasil do código 302.0 da classificação internacional de doenças que definia a homossexualidade como desvio e transtorno sexual. A homossexualidade passa a ser enquadrada como outras circunstâncias psicossociais ao lado do desemprego, desajustamento social e tensões psicológicas que podem levar alguém ao consultório médico.
A campanha pela inserção, no inciso IV do artigo 3º na de 1988 (artigo 153 da Constituição de 1969), da frase “contra a discriminação por preferência ou orientação sexual” conjuntamente com os grupos Triângulo Rosa e Grupo Gay da Bahia. Ainda que a campanha não tenha obtido êxito, valeu pela visibilidade dada à questão homossexual na política institucional, sobretudo pela participação do protagonista da ação, João Antônio Mascarenhas (Triângulo Rosa/RJ), em subcomissões da Assembleia Nacional Constituinte (abril/1987). 
Participação em encontros internacionais
Míriam Martinho (ao centro de azul) na 8ª Conferência do ILIS em Genebra (03/1986)

O GALF participou de dois encontros feministas latino-americanos e do Caribe, como sempre levando a questão lésbica para os debates desses eventos. No III Encontro Feminista Latino-americano e do Caribe, realizado em Bertioga em agosto de 1985, o GALF realizou com outro GALF (o Grupo de Autoconsciencia de Lesbianas Feministas – Peru, Lima), uma reunião extraoficial que reuniu várias lésbicas presentes no encontro a fim de discutir a então complicada relação das lésbicas com o movimento feminista regional. Participou também do IV Encontro Feminista Latino-americano e do Caribe em outubro de 1987 na cidade de Taxco, México.
Míriam Martinho em manifestação do IV Encontro Feminista
Latino-americano e do Caribe (México, 10/1987) -Acervo Um Outro Olhar

Os encontros internacionais mais significativos dos quais o GALF participou, contudo, foram os referentes à articulação do movimento de lésbicas internacional em pleno florescimento naquele período. Em abril de 1980, foi criado durante conferência da IGA (Associação Gay Internacional), o Serviço Internacional de Informação Lésbica (ILIS, em inglês), tornado independente em abril do ano seguinte em Turim, na Itália. Encaminhado por grupos europeus, de forma rotativa, a começar por Amsterdam, o ILIS vai ter papel fundamental na ampliação e fortalecimento dos grupos lésbicos em todo o mundo, particularmente em países em desenvolvimento. O GALF contou com o apoio financeiro e logístico do ILIS para participar de sua oitava conferência, em Genebra, na Suíça, de onde surgiram as redes latino-americana e asiática de lésbicas, e do I Encontro de Lésbicas-Feministas Latino-Americanas e do Caribe, na cidade de Cuernavaca, Morelos, no México, em outubro de 1987. Após 18 anos de serviços prestados à organização lésbica mundial, o ILIS publica seu último boletim em 1998.

Linha do tempo da trajetória do ILIS

GALF - Vanguarda e Resistência

Finalizando, neste breve resumo da trajetória do GALF, cujo extenso inventário de produções e atividades será objeto de outro resgate, vale salientar o papel de vanguarda e resistência representado pela organização durante seus oito anos de existência. De resistência por ter sido o único grupo de lésbicas a permanecer ativo durante toda a década de oitenta, num contexto adverso fosse pela carência de recursos, fosse pela desarticulação do Movimento Homossexual fosse pela hostilidade do movimento feminista do período à politização da questão lésbica em seu meio.

De vanguarda porque manteve, a duras penas, a temática lésbica presente não só nos movimentos em que atuou, como – principalmente – na conservadora e heterossexista sociedade brasileira de sua época. Seja pela produção do sugestivo título ChanacomChana, seja pelas atividades públicas que desenvolveu, como a manifestação do Ferro’s Bar e as participações de Rosely Roth na grande mídia, em particular em dois programas da Hebe Camargo, o GALF foi a grande referência dos anos oitenta não só para o ativismo do gênero como para a população lésbica da época.

Rosely Roth (à direita) entrevistando Cassandra Rios
 e Irede Cardoso no Ferro's Bar

Mesmo as reflexões presentes nos escritos da organização se caracterizaram pelo vanguardismo, inclusive porque ironicamente derivadas das situações adversas que o grupo experimentou durante sua trajetória. Com a intensa retração do Movimento Homossexual, a partir de 1984, e a hostilidade quanto à visibilidade lésbica que o GALF insistia em cobrar no Movimento Feminista, o grupo ficou praticamente sem interlocutores no Brasil. Findo o chamado ciclo libertário do MHB (1978-1983), pródigo em debates sobre as diferentes facetas da questão e da identidade homossexual, sobreveio a perspectiva estritamente reformista e legalista dos grupos GGB e Triângulo Rosa que não dava espaço para maiores discussões.

Do lado feminista, prevaleceu, como já dito, a ideia de uma suposta necessidade de dissolução da identidade lésbica em uma identidade feminista mais geral, tratando a lesbianidade como uma questão de ordem privada, embora o movimento pregasse que “o privado era político”. Sobrou para o GALF então, a interlocução com os grupos lésbicos do exterior, de várias correntes, em particular com as teóricas lésbicas-feministas e separatistas daquele período, antecipando discussões  que só veríamos chegar expressivamente ao Brasil muitas décadas depois.

Por último, ao contrário das inúmeras fabulações a respeito da entidade, o GALF não subsistiu durante toda a década de 80, apesar de supostamente ter seguido um padrão de grupos lésbicos formados por casais que, ao se romper, terminavam ou fragilizavam suas organizações. O Grupo Lésbico-Feminista, que precede o GALF, não foi fundado por um casal nem terminou com o fim dele. Esse coletivo teve várias fundadoras e simplesmente se dispersou após dois anos. E o Grupo Ação Lésbica Feminista também não foi fundado por um casal nem terminou por causa dele, ainda que, ao longo de sua trajetória, tenha formado casais.

O GALF terminou em função do esgotamento de seu ciclo de ativismo junto ao Movimento Feminista. Ficou claro para suas integrantes o quanto era contraproducente levar as lésbicas para o feminismo e, ao mesmo tempo incentivá-las a sair do armário, quando o próprio Movimento Feminista impunha a despolitização das vivências lésbicas empurrando-as para o terreno do privado, da chamada “opção sexual”. Nada incomum, no período de existência do GALF e até na década de noventa, encontrar grupos feministas formados majoritariamente por lésbicas, mas exclusivamente referentes às chamadas questões de gênero, ou seja, questões voltadas para a resolução dos problemas das mulheres heterossexuais em seus relacionamentos com homens. Não havia mais porque manter um grupo lésbico-feminista nesse contexto.

A Rede de Informação Lésbica Um Outro Olhar, como vimos. gestada pelo próprio GALF em seus últimos meses de existência, buscará um outro caminho a percorrer pelos direitos das lésbicas, renomeando, em setembro de 1993, o ainda então Movimento Homossexual Brasileiro de movimento de gays e lésbicas. To be continued....

_______________________

*Miriam Martinho é uma das fundadoras do Movimento Homossexual brasileiro, em particular da organização lésbica, tendo co-fundado as primeiras entidades lésbicas brasileiras, a saber, Grupo Lésbico-Feminista (1979-1981), Grupo Ação Lésbica-Feminista (1981-1989) e Rede de Informação Um Outro Olhar (1989....). Editou também as primeiras publicações lésbicas do país, como o fanzine ChanacomChana (década de 80) e o boletim e posterior revista Um Outro Olhar (década de 90 até 2002). Atualmente administra as páginas Um Outro Olhar e Contra o Coro dos Contentes. 

Fundou igualmente o movimento de saúde lésbica no Brasil, em 1994, realizando a primeira campanha de prevenção às DST-AIDS para mulheres que se relacionam com mulheres, em 1995, e editando as primeiras publicações sobre o tema desde essa época (em 2006 publicou a 4 edição da cartilha Prazer sem Medo sobre saúde integral para lésbicas e bissexuais). Participou da organização do I EBHO (1980), organizou dois encontros LGBT nacionais (VII EBLHO/93 e IX EBGLT/97) e foi sócia-fundadora da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis (ABGLT-1995). Participou igualmente de vários encontros internacionais com destaque para a 8ª Conferência Internacional do Serviço de Informação Lésbica Internacional-ILIS (Genebra, Suiça, 28 a 31/03/1986), o I Encontro de Lésbicas-Feministas Latino-Americanas e do Caribe (Cuernavaca, México, 1987) e a Reunião de Reflexão Lésbica-Homossexual (Santiago, Chile/ nov. 1992).

Ativista lésbica francesa foi responsável por desassociar a palavra lésbica de conteúdo pornô na busca do Google

sexta-feira, 16 de agosto de 2019 0 comentários

Fanchon Mayaudon-Nehlig iniciou a discussão sobre como o algoritmo do Google selecionava
 conteúdos de busca sobre lésbicas.

Em julho deste ano, a francesa Fanchon Mayaudon-Nehlig, consultora de comunicação, recebeu uma ligação: “ei, você viu que a palavra ‘ lesbienne’ [lésbica, em francês] não é mais associada a resultados pornográficos no Google?”.

Três meses antes, a criadora do grupo ativista SEO Lesbianne havia iniciado uma campanha para que o algoritmo de busca da ferramenta fosse corrigido e parasse de apresentar conteúdos de pornografia ligados ao termo.
O mais engraçado é que, no momento em que recebi a ligação, eu estava no trabalho: o firewall que meu cliente usa em seu escritório proíbe que eu digite a palavra ‘lesbienne’, como se fosse um palavrão. Eu tive que sair do meu local de trabalho para verificar a informação e eu não acreditei em meus olhos”, disse em entrevista ao HuffPost Brasil.
Nossa primeira ação foi fazer com que as pessoas percebessem que havia um problema, um erro com os resultados sobre a palavra específica “lesbienne”. Fanchon Mayaudon-Nehlig, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Pela primeira vez em sua vida, ela pode digitar a palavra francesa “lesbienne” e não havia nenhuma pornografia nos resultados. O Google anunciou na última sexta-feira (9) que consertou o algoritmo com a intenção de fornecer resultados mais precisos e de qualidade para este tipo de consulta.

A mudança já está em vigor, mas ainda em fase inicial e termos relacionados ou buscas em línguas diferentes ainda podem apresentar os conteúdos antigos que apareciam nas buscas. Mas Fanchon acredita que após esse passo é questão apenas de um pouco de tempo para que a realidade seja modificada.
A SEO Lesbienne incentiva todas as lésbicas a mostrarem suas vidas diárias e produzirem muitos conteúdos associados à palavra ‘lésbica’ na internet em seu próprio idioma”, disse.
Abaixo entrevista do HuffPost com Fanchon sobre a iniciativa, os motivos de ocorrer por tantos anos a associação da palavra lésbica a conteúdos sexuais e a importância da mudança. 

HuffPost: Fale um pouco sobre a história e atuação da SEO Lesbienne e de como começou a campanha em relação à mudança do algoritmo de busca desse termo. 

Fanchon Mayaudon-Nehlig: O SEO lesbienne é agora um grupo ativista lésbico francês, não somos pagos e nao dependemos de nenhuma outra organização. Eu criei pela primeira vez a hashtag #SEOlesbienne no Twitter em abril de 2019, depois que minha esposa, Louise, me fez perceber que eu não estava confortável em usar a palavra “lesbienne” em público. Neste momento na França, algumas mídias tradicionais estavam começando a falar sobre lésbicas, e as próprias lésbicas estavam tentando alertar sobre o quanto somos sexualizadas, especialmente na internet.

Por acaso, o #SEOlesbienne teve a oportunidade de ser ouvido e o assunto foi coberto pela imprensa francesa (graças à mídia tecnológica Numerama e à jornalista Marie Turcan), mas há anos lésbicas e ativistas são alertados sobre esse assunto. Nós não tínhamos a menor ideia de que o Google mudaria alguma coisa sobre seu algoritmo, mas estávamos dispostas a tentar, e éramos apenas duas pessoas no SEO Lesbienne: eu e minha esposa. Sou consultora de comunicação e minha esposa é designer.

Tínhamos a intuição de que poderia funcionar se pudéssemos trazer especialistas em SEO conosco, por isso organizamos uma reunião de desafio: “vamos hackear o SEO da palavra lesbienne”: desde esse encontro fundador, SEO Lesbienne é um misto de especialistas em SEO e lésbicas.

Nossa primeira ação foi fazer com que as pessoas percebessem que havia um problema, um erro com os resultados sobre a palavra específica “lesbienne” nos resultados das páginas do Google. No momento, a SERP (página de resultados do mecanismo de pesquisa) mostrava apenas conteúdo pornográfico, como é possível ver na imagem abaixo.


Como você se sentiu quando recebeu a informação de que o algoritmo de busca tinha sido modificado?

Em primeiro lugar, o resultado foi inesperado! Sabíamos que o Google France poderia mudar o algoritmo, pois havia um precedente com a palavra “chatte” no Google relacionada a vaginas e não gatinhos como esperado, o que expunha crianças à sexualidade, por isso estávamos prestes a iniciar uma petição para fazer o Google France reagir sobre a palavra “lesbienne” sendo associada exclusivamente com pornografia.

Nós queríamos informá-los sobre como isso afeta os mais jovens da comunidade, quando no dia 18 de julho recebemos uma ligação da mídia francesa LGBT Têtu: eles nos disseram “ei, você viu que a palavra ’ lesbienne’não é mais associada a resultados pornográficos no Google?”.

O mais engraçado é que, no momento em que recebi a ligação, eu estava no trabalho: o firewall que meu cliente usa em seu escritório proíbe que eu digite a palavra “lesbienne”, como se fosse uma palavrão! Eu tive que sair do meu local de trabalho para verificar a informação e eu não acreditei em meus olhos. Essa foi literalmente a primeira vez da minha vida em que eu pude digitar a palavra francesa “lesbienne” e não havia nenhuma pornografia nos resultados!

Nós sabíamos que não estávamos lutando apenas por nós, era tarde demais para nós, tivemos que lidar com essa situação durante muitos anos, mas poderíamos impactar as meninas mais novas que se perguntam sobre sua orientação romântica. Lembrei-me de como fiquei surpresa com os resultados que descobri como uma adolescente digitando discretamente no Google “lesbienne”. Eu não queria ser atriz pornô, mas o Google parecia acreditar nessa única opção para mim!

Por que o termo “lésbica” ainda era associado exclusivamente a conteúdos sexuais enquanto outras palavras da comunidade LGBTQ isso não acontecia?

Alguns ativistas LGBTQ franceses nem sabiam que a palavra “lesbienne” era exclusivamente associada a conteúdo pornográfico no Google, enquanto a palavra “gay” não era. Quando perceberam essa injustiça, ficaram surpresos! 

A questão é que, como mulheres, a internet inteira não é o que podemos chamar de “lugar seguro”, e o ponto de vista expresso no algoritmo do Google pode ter algumas ligações sexistas. Por exemplo, é muito difícil para uma mulher contribuir na Wikipédia, e páginas relacionadas a mulheres famosas são frequentemente descartadas. Tivemos literalmente que lutar para mudar a imagem da página francesa “lesbianisme” com uma imagem histórica da poeta Safo em vez de uma imagem sexualizada.

Outra explicação talvez seja encontrada na pornografia em si. Pornografia gay é comercializada para homens gays: você tem que mudar a página ou mesmo o site para acessar pornografia gay. Considerando que não há pornografia “lésbica”, “lésbicas” é uma tag em sites pornográficos comercializados para homens heterossexuais. Na internet, admitem-se lésbicas para satisfazer o prazer de adultos do sexo masculino, e somente com esse objetivo.

Qual foi e qual pode ser o impacto dessa mudança para a comunidade lésbica?

O impacto dessa mudança no algoritmo do Google é enorme, e ainda não sabemos o tamanho! Acreditamos que o Google pode nos ajudar a tornar a palavra “lésbica” em todos os idiomas mais respeitada e, por consequência, todas as lésbicas podem ser tratadas da maneira que merecemos.

Também queremos que as pessoas estejam cientes de que o Google nem sempre reflete a realidade, e nós, como cidadãos, podemos nos reunir e fazer com que o SEO mude para o melhor. A palavra “lesbienne” não pertence à indústria pornográfica: ela pertence a nós, e estamos satisfeitas pelo fato de o Google ter nos dado a oportunidade de possuí-la e criá-la.

Após essa conquista, na sua opinião, quais são os próximos passos que a comunidade LGBT pode dar em relação a busca por visibilidade e igualdade sexual?

Homens gays e outros devem incentivar mais mulheres a falar, porque não é fácil ser abertamente lésbica em espaços públicos e na internet: nós nos expomos à misoginia e à lesbofobia. Desde o início de SEO Lesbienne, recebi insultos em minhas redes sociais, e sei que é um risco ter meu nome completo e rosto expostos em mídias em todo o mundo, mas sinto que tenho que fazer isso por outros que simplesmente não podem falar.

Gays, lésbicas e outras minorias não têm liberdade para viajar em alguns países onde suas próprias vidas são colocadas em risco. Não podemos viver nossas vidas sem nos preocuparmos com a comunidade em outros países. A história recente provou como as leis e os governos afetam nossas vidas para melhor e para o pior também. As mídias sociais são uma oportunidade para as lésbicas de todo o mundo se reunirem e mostrarem que nós existimos e importamos! 

Localmente falando, em alguns meses, o parlamento francês debaterá sobre a abertura da procriação medicamente assistida para lésbicas (conhecida como PMA na França), acompanharemos a evolução da palavra “lesbienne” no Google durante este período de tensão.

A SEO Lesbienne incentiva todas as lésbicas a mostrarem suas vidas diárias e produzirem muitos conteúdos associados à palavra “lésbica” na internet em seu próprio idioma.

Clipping "Palavra lésbica ‘pertence a nós’, diz criadora de campanha para corrigir algoritmo do Google", por Ana Ignacio, 12/08/2019

Drama lésbico do Quênia nos cinemas brasileiros

quarta-feira, 14 de agosto de 2019 0 comentários


Quando estreou no Festival de Cannes de 2018, “Rafiki” fez história. Não só pelo fato de ter sido a primeira produção cinematográfica queniana a ser escolhida pelo principal festival do mundo, mas por ser uma história lésbica passada no país.

Ao fazer o filme, sabia que seria importante para muitas pessoas, mas quando tudo disparou, fiquei surpresa e tive dificuldade em entender tudo”, conta a atriz Sheila Munyiva.
Eu me sinto muito orgulhosa de fazer parte de algo que está fazendo história.”
O filme da diretora Wanuri Kahiu estreiou na quinta-feira, dia 8, no Brasil.  Munyiva faz Ziki, uma das protagonistas da trama, que vive um relacionamento com a personagem Kena, interpretada por Samantha Mugatsia.
As duas estão apaixonadas, mas há dois empecilhos —o preconceito e a disputa política local entre seus pais. A inspiração é o conto “Jambula Tree”, da escritora ugandense Monica Arac de Nyeko. Rafiki significa, no Quênia, amigo ou amiga.
Desde 1897, quando o Quênia ainda era uma colônia, a homossexualidade é criminalizada. Em maio deste ano, o Supremo Tribunal local julgou a possibilidade de abolição dessas leis, mas a proposta acabou rejeitada.
Apesar de ser um pouco mais branda para as mulheres, a legislação do país prevê até 19 anos de prisão para quem tem relações com pessoas do mesmo sexo. O Código Penal impõe até 14 anos de prisão para os que tiverem uma “conjunção carnal não natural” e cinco anos para “práticas indecentes entre homens”.
No ano passado, o presidente do país, Uhuru Kenyatta, ao ser entrevistado pela CNN, disse que o debate sobre os direitos LGBT é um tema “sem importância”.
Por isso, para a atriz Sheila Munyiva, o filme tem sua importância tão grande. “Não há nada mais fortalecedor do que se ver representado na tela”, afirma.
Ao crescer, tive dificuldade em apreciar minhas características africanas, porque tudo o que via na TV era cabelo longo e liso, pele clara e corpos magros. Foi uma tortura, até que mais mulheres não brancas começaram a aparecer nas telas”, diz.
Rafiki’ será capaz de fazer o mesmo para pessoas da comunidade lésbica e gay. Isso permitirá que se sintam vistos, lindos, amados, ouvidos e, mais importante, pertencentes.”
Diante dessa situação era possível esperar alguma reação por parte do governo do Quênia em relação ao longa. Logo após a exibição em Cannes, a obra foi proibida no seu país de origem.
O motivo, segundo o órgão de controle da produção cinematográfica do país, foi o fato de a obra “ter temática homossexual e intenção clara em promover o lesbianismo”. Ainda houve um pedido, não aceito pela cineasta Wanuri Kahiu, para cortar as cenas de sexo entre as personagens.
A cineasta, no entanto, conseguiu reverter a situação. Depois de ter afirmado que houve censura, ela ganhou na Justiça o direito de filme ficar em cartaz nos cinemas do país —ainda que só por uma semana, em setembro de 2018. Isso permitiria ao longa ser escolhido como representante queniano no Oscar, o que acabou não acontecendo.
Fiquei de coração partido e em choque quando ouvi que o filme foi banido”, diz Munyiva, a atriz. Eu não entendi porque eles nos davam uma licença para filmar no país, mas depois não permitiam que mostrássemos o filme.”
A relação entre as duas personagem, na minha opinião, não seria impossível. O filme realmente mostra como é problemático ser lésbica no Quênia, mas também quão possível, bonito e terno é quando você encontra o amor. É uma representação realista.”
Para ela, “Rafiki” pode ainda fazer despertar a aceitação.
Espero que os que são ignorantes quanto à situação da comunidade lésbica assistim ao filme e vejam o amor e, talvez então, aceitem seus compatriotas homossexuais e os vejam como iguais.”
Clipping "Drama lésbico desafia leis do Quênia que criminalizam homossexuais", FSP, 07/08/2019

Batwoman lésbica estreia dia 6 de outubro pela CW TV Network

segunda-feira, 12 de agosto de 2019 0 comentários

Batwoman está na HBO
A atriz Ruby Rose será a primeira protagonista lésbica da televisão em Batwoman, produção da CW Television Network. Para ela, a sociedade percorreu um longo caminho aceitando diferentes grupos e que, agora, existe uma representação maior LGBT na TV. A estreia está marcada para 6 de outubro nos Estados Unidos.

Na trama, a protagonista foi expulsa do exército por causa do relacionamento com Sophie Moore, interpretada por Meagan Tandy.
Penso em todas as pessoas que foram separadas de seus parceiros ou expulsas do exército. Essa cena tem um grande peso", declarou Ruby Rose. 
Durante evento na Associação de Críticos de TV dos Estados Unidos, a atriz disse que há "muita pressão" nas crianças hoje e ela quer que os jovens sejam capazes de se identificar e se relacionar com os personagens que estão assistindo em Batwoman.

A produtora da série, Caroline Dries, explica que Kate Kane, interpretada por Rose, se torna a vigilante de Gothan City na ausência de Batman. Ela também enfrentará vilões já conhecidos dos telespectadores.
Confira a sinopse.
Kate Kane (Ruby Rose) nunca planejou ser uma vigilante de Gotham. Três anos depois do Batman desaparecer misteriosamente, Gotham é uma cidade em desespero. Sem o Cavaleiro das Trevas, o Departamento de Polícia foi superado e desarmado pelos bandidos. Assim entra Jacob Kane (Dougray Scott) e a sua empresa de segurança privada Crows, que protege a cidade. Anos antes, a primeira esposa e filha de Jacob foram mortas em um tiroteio. Ele mandou a sua única filha, Kate, para longe de Gotham para sobreviver. Depois de ser dispensada da escola militar e de anos de treinamento brutal pela sobrevivência, Kate volta para casa quando a gangue Alice no País das Maravilhas ataca a Crows, ao sequestrar a melhor agente, Sophie Moore (Meagan Tandy). Apesar de ter casado novamente, com a socialite Catherine Hamilton-Kane (Elizabeth Anweis), que mantém a Crows, Jacob ainda luta com a perda da família, enquanto mantém Kate distante. Mas, Kate é uma mulher que não pede mais permissão. Para ajudar a família e a sua cidade, ela vai se tornar algo que o pai odeia – uma vigilante. Com a ajuda da sua meia-irmã Mary (Nicole Kang) e Luke Fox (Camrus Johnson), filho de Lucius Fox, Kate continuará o legado do primo desaparecido, Bruce. Ainda tendo uma paixão pela ex-namorada, Sophie, Kate fará de tudo para combater a terrível Alice (Rachel Skarsten), que está em algum lugar entre a sanidade e a loucura. Armada com uma paixão pela justiça social e o dom de falar o que pensa, Kate vigiará as escuras ruas de Gotham como a Batwoman. Mas, não chame ela de heroína ainda. Em uma cidade desesperada por um salvador, ela deve primeiro vencer os próprios demônios para ser chamada de símbolo de esperança de Gotham”.
Batwoman está na HBO (HBO GO)

Clipping Correio 24 horas

Ver também Ruby Rose será Batwoman lésbica em série de TV
Jessica Jones 3: por que mulheres ambiciosas e poderosas têm que acabar presas ou mortas? ~ Contra o Coro dos Contentes

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