Unidas no amor, rivais nos campos de futebol

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019 0 comentários

Alisha Lehmann e Ramona Bachmann são companheiras na seleção suíça e rivais
 na liga feminina inglesa; fora de campo, são namoradas

Conheça a história de amor de duas jogadoras que virou documentário na TVecola

Alisha Lehmann e Ramona Bachmann são rivais na Women's Super League (WSL), o Campeonato Inglês feminino. A primeira defende o West Ham, enquanto a segunda joga pelo Chelsea. 

Fora de campo, porém, as duas jogadoras suíças são um casal. E a situação chamou a atenção da rede de TV britânica BBC, que conta a história delas em um episódio recente de Britain's Youngest Football Boss, uma série documental voltada para o futebol. 

Aos 28 anos, Ramona é a mais experiente da dupla. Jogadora do Umea (Suécia) entre 2007 e 2009 e em 2011, chegando inclusive a ser colega de Marta no clube durante a primeira passagem, ela teve destaque por clubes como Rosengard, também da Suécia (2012 a 2015); e e Wolfsburg, da Alemanha (2015 a 2016), entre outras equipes. Em 2017, chegou ao Chelsea.

Em 2015, durante a Copa do Mundo feminina disputada no Canadá, ela tornou público o relacionamento que tinha com Camille Lara, então uma estudante sueca de 21 anos.
Quando caminho de mãos dadas com Camille pelas ruas na Suíça, as pessoas se viram (para olhar). Não é o caso na Suécia, e não é o caso aqui no Canadá", disse ela na época ao jornal suíço Sonntagsblick. 
Já Alisha, de 20 anos, é a mais nova. Revelada em 2016 pelo YB Frauen, o time feminino do Young Boys, ela ganhou suas primeiras convocações para defender a Suíça a partir de 2017 - dez anos depois da estreia da namorada pela seleção. Em 2018, transferiu-se para o West Ham como reforço para a temporada 2018/2019.

Foi também em 2018 que o relacionamento das duas se tornou público. Em dezembro, a imprensa suíça, Ramona Bachmann disse que nunca fez questão de esconder a questão:
Não sei se nosso relacionamento é privado. Jogamos juntas na seleção há quase um ano".
Na seleção suíça, o namoro das duas atacantes também é encarado com naturalidade. Em dezembro, segundo a revista Schweizer Illustrierte, a treinadora Martina Voss-Tecklenburg disse que "a situação não é incomum no futebol feminino". "Mas as jogadoras são profissionais", completou, sem preocupação com a influência em campo da vida pessoal das duas.

Bachmann (à esquerda) joga pelo Chelsea e Lehmann pelo West Ham

Na Inglaterra, as duas até já se enfrentaram. Em 4 de dezembro, o Chelsea visitou o West Ham pela WSL e venceu por 2 a 0, justamente com dois gols de Ramona Bachmann. Titular no time adversário, Alisha Lehmann foi substituída nos acréscimos do segundo tempo, dando lugar a Rosie Kmita. Mas a rivalidade em campo não afeta a relação.
Há muitas coisas positivas em estar com alguém que faz o mesmo que você. Ela sabe o que penso e eu também compreendo ela", disse Ramona, segundo o conteúdo da BBC.
Alisha também é só elogios à namorada.
Era meu ídolo quando comecei a jogar futebol. É muito boa, técnica e rápida", disse a atacante do West Ham. "Mas se marcar contra nós de novo, me sentirei realmente mal", completou.
Os dois times voltam a se enfrentar em 31 de março.

Fonte: Do UOL, em São Paulo 17/02/2019


Evangélicos pressionam Toffoli contra a criminalização da homofobia

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019 0 comentários



Bancada evangélica vai a Toffoli contra criminalização da homofobia no Supremo

A bancada evangélica pediu audiência com o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias Toffoli, para pedir a retirada de pauta de duas ações sobre a criminalização da homofobia. O processo tramita na Corte desde 2013 e será relatado pelo ministro Celso de Mello.

Na sessão, os ministros devem definir se o Supremo pode criar regras temporárias para punir agressores do público LGBT, devido à demora da aprovação da matéria no Congresso Nacional. Pelo atual ordenamento jurídico, a tipificação de crimes cabe ao Poder Legislativo, responsável pela criação das leis.

O deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) reclama que Toffoli descumpre compromisso firmado ainda ano passado de não pautar assuntos relacionados às agendas de costumes.
Ele fez um compromisso com o presidente da Câmara (Rodrigo Maia), fez compromisso com membros da bancada evangélica, entre eles eu, que não pautaria nada que fosse assunto legislativo”, afirma.
Os parlamentares ainda não tiveram retorno do pedido de audiência, mas prometem ir ao Supremo na terça-feira, 12, e permanecer até serem atendidos.
Se necessário for, vamos pedir para o presidente da Câmara interceder, para o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e até mesmo o presidente Jair Bolsonaro. Não vamos brincar com isso”, sustenta Sóstenes.
Como instrumento de pressão, a bancada iniciou na segunda-feira, 11, campanha nas redes sociais pedindo a retirada de pauta do assunto. Vão divulgar banner “pela liberdade de expressão e pela liberdade religiosa”.

As duas ações no Supremo, uma relatada pelo ministro Celso de Mello e a outra pelo ministro Edson Fachin, propõem a criminalização de todas as formas de homofobia e transfobia, incluindo ofensas, homicídio, agressões e discriminações motivadas por orientação sexual ou identidade de gênero. Uma foi proposta pelo Partido Popular Socialista (PPS) e a outra pela Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transgêneros (ABGLT). Segundo os autores, o Congresso foi omisso ao não legislar sobre o assunto.

A maioria dos ministros tende a considerar as práticas criminosas, mesmo que o Congresso Nacional não tenha aprovado lei nesse sentido. No entanto, parte dos ministros da Corte avalia, nos bastidores, pedir vista para adiar a decisão. Seria uma forma de não desestabilizar a relação entre Judiciário, Executivo e Legislativo logo no início do mandato de Jair Bolsonaro.

Fonte: Com informações de Estadão, por Juliana Braga, e O Globo (11/02/2019)

O caso discreto entre a atriz Tessa Thompson e a cantora Janelle Monaé

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019 0 comentários

Tessa Thompson e Janelle Monaé

Tessa Thompson sobre relacionamento com Janelle Monaé: "Deixem falar"

O casal Tessa Thompson e Janelle Monaé é bem reservado quando o assunto é o seu relacionamento – algo que elas preferem por não rotular como "namoro" ou qualquer outra classificação. Em entrevista ao Porter Edit, a atriz, conhecida por seu mais recente trabalho na série “Westworld”, abriu o jogo sobre seus sentimentos em relação à cantora...
Nós nos amamos intensamente. Estamos na mesma sintonia! Se as pessoas querem especular sobre o que nós ‘somos’. Deixe que falem”, disse ela. Juntas desde 2015, Tessa comentou sobre como é viver um relacionamento sob os olhares da mídia, comentando a respeito da importância em tornar isso público quando a intenção é levar representatividade às pessoas.
É complicado, principalmente porque eu e Janelle somos muito reservadas e estamos descobrir como conciliar privacidade e espaço, e também usar nosso relacionamento como uma influência. Eu posso deixar uma mensagem porque tive o apoio da minha família sobre minha sexualidade – somos tão livres que podemos ser o que quisermos ser.”
Eu me sinto atraída por homens e mulheres. Se eu levar qualquer um dos dois para casa, não vai surgir uma discussão sobre isso. Quero que todos tenham essa liberdade e apoio que eu tenho dos meus entes queridos, já que muitas pessoas não têm”, disse. 


Fonte: Universa, 29/06/2018

Mulher negra sai do armário aos 40 e diz que foi a coisa mais libertadora de sua vida

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019 0 comentários

Nicole Gilley relata seu calvário até se assumir lésbica

Por que esperei até ter 40 anos para dizer que sou lésbica?
Sou uma mulher negra, criada por mãe solo e religiosa que nunca me incentivou a buscar nada senão Deus, um marido e filhos.

Eu nunca quis ser lésbica. Fui criada por minha mãe solo, que me ensinou que a homossexualidade é a única abominação que Deus não perdoa. Durante minhas três primeiras décadas de vida, tentei de tudo para expulsar minha natureza. Eu passava noites incontáveis chorando de joelhos, suplicando para Deus tirar isso de mim, sem entender por que ele teria me feito carregar essa cruz se ser homossexual era realmente pecado. As noites que eu não passava rezando eram passadas embaixo de inúmeros homens cujos nomes eu nem me dava ao trabalho de descobrir. Eu pensava realmente que, se transasse com homens suficientes, isso faria minha heterossexualidade pegar no tranco. Não funcionou, é claro.

Quando eu tinha 23 anos e estava morando em Los Angeles, comecei a trabalhar num call center, recebendo ligações para um serviço de encaminhamento a dentistas. Foi ali que me apaixonei para valer pela primeira vez, por uma colega de trabalho. Quando ela percebeu o que eu estava sentindo, graças à minha falta de sutileza, me denunciou para o call center inteiro.

A humilhação me obrigou a sair da empresa e começar a trabalhar com vendas, onde continuei a evitar minha sexualidade e a transar com homens. Com 31 anos, me matriculei numa faculdade pública e continuei a fazer de tudo para fugir da minha sexualidade – trabalho, estudos, álcool, noitadas. Mas aos 32 anos fui internada às pressas, com diagnóstico de gastrite e duas úlceras. Entendi então que não conseguiria expulsar minha homossexualidade com orações. Finalmente admiti para mim mesma que eu era lésbica. Ali mesmo no leito do hospital, resolvi que em vez de ficar onde eu estava e evitar minha sexualidade, eu iria embora.
Passei noites incontáveis chorando de joelhos, suplicando a Deus para tirar isso de mim, sem entender por que ele me fez carregar essa cruz de ser homossexual se isso era realmente pecado.
Comecei a me candidatar a cursos universitários de quatro anos para onde pudesse pedir transferência, e pouco tempo depois de completar 33 anos, larguei meu emprego na Califórnia e me mudei para Nova York, onde fui morar no Harlem e estudar na NYU. Eu tinha uma meta na cabeça: ser verdadeira comigo mesma e abraçar minha sexualidade. Nova York me pareceu que seria o melhor lugar para fazer isso. Depois de me mudar para lá, entendi que não era a vergonha de minha mãe que me estava impedindo de ser quem eu era: era minha própria vergonha. Em Nova York, eu falava com minha mãe com frequência e pensava honestamente que poderia abraçar ser lésbica e conservar um relacionamento com ela. Nunca parei para refletir sobre os efeitos que manter segredo teriam sobre mim, minha vida amorosa e meu relacionamento com minha mãe.

Mesmo estando a milhares de quilômetros de minha família, eu não conseguia simplesmente pressionar um interruptor e virar abertamente gay. Dois meses depois de me mudar para Nova York, finalmente criei coragem de ir ao meu primeiro bar de lésbicas. No frio, embarquei no metrô da linha D e fui para o centro. Quando cheguei perto do bar, vi algumas mulheres – imaginei que fossem lésbicas – do lado de fora, fumando cigarros, sorrindo e dando risada. Dominada pelo medo e a vergonha, passei reto e, em vez de ir àquele bar, fui a outro bar nas proximidades e bebi até afogar meu sentimento de vergonha. Tentei imaginar como aquelas mulheres podiam amar a si mesmas, sendo como eram. Como eu faria para chegar a isso? Voltando para casa, tomei a decisão de nunca mais tentar aquilo. Tinha me provocado ansiedade demais.

Só consegui me sustentar em Nova York, vivendo na cidade e estudando na NYU, por um ano. Depois desisti. Eu não podia voltar para casa, então em janeiro de 2012 resolvi me mudar para Las Vegas e estudar na Universidade de Nevada. Seria a mesma ideia: eu seria lésbica em outro estado e conseguiria meu diploma de faculdade. Percebi que ir a um bar representava pressão demais para me relacionar com outras lésbicas, então em 2015 me aventurei no namoro online e conheci uma mulher. Estar com ela foi o início de meu processo de me compreender. Eu estava apaixonada e queria que o mundo inteiro soubesse, mas ela estava no armário. Foi uma coisa arrasadora, porque, além de meus próprios problemas de sentir vergonha de mim mesma, agora eu estava lidando com os dela também. No final, não consegui mais encarar, e nos separamos. Tudo o que eu queria era poder ligar para um serviço de terapia familiar pelo telefone e me abrir com quem atendesse, mas eu não podia.

No final de 2015 eu estava com 38 anos, tinha me formado na faculdade e estava mais do que pronta para voltar para casa, para Los Angeles, mas ainda não pretendia me assumir como lésbica diante da minha família. Levei mais seis meses para decidir que eu precisava fazer terapia. Foi assim que me vi sentada diante de uma mulher branca de 30 e poucos anos, chorando loucamente e contando a ela que eu não queria ser gay. Tentei imaginar se ela teria condições de compreender realmente como é ser uma lésbica negra. Será que ela sabia que a comunidade negra é notoriamente homofóbica? Sou uma mulher negra, criada por mãe solteira e religiosa que nunca me incentivou a buscar nada senão Deus, um marido e filhos. O fato de ter crescido em conflito entre quem eu era e quem ela queria que eu fosse me provocava muita dor, confusão e depressão.
Sou uma mulher negra, criada por mãe solteira e religiosa que nunca me incentivou a buscar nada senão Deus, um marido e filhos.
Me perguntei se a terapeuta teria como me ajudar a encarar o fato de que sair do armário implicaria perder o amor e a aceitação de minha mãe. Ela poderia me ajudar a ganhar força suficiente para realizar o que eu me propunha a fazer? Uma vez por semana eu passava 90 minutos sentada num consultório bege com decoração discreta, aprendendo a dizer "sou lésbica". Fiz cinco meses de terapia até começar a contar às pessoas.

Pouco antes de completar 40 anos, resolvi contar primeiro a uma prima minha, e ela me deu todo o apoio. Outros amigos também me apoiaram, mas eu tinha medo de me assumir diante de minha melhor amiga. Ela nunca tinha mostrado apoio aberto à homossexualidade. Na realidade, os gays muitas vezes eram os alvos de suas piadas. Quatro meses depois de me abrir com minha prima, procurei minha amiga, e, para surpresa minha, ela me deu apoio total. Meu medo todo tinha sido desnecessário. Minha amiga passou os últimos 20 anos tentando servir de casamenteira para mim; acho que esse papel dela não mudou, só que agora ela me apresenta para mulheres, em vez de homens.

Foi um alívio mostrar a minhas melhores amigas quem eu sou de verdade, mas eu ainda estava nervosa, sem saber como reagiriam meus familiares religiosos. Eles me rejeitariam? Depois de pouco a pouco começar a contar outros primos e parentes, percebi que essas pessoas todas gostavam de mim de verdade e não se importavam com quem eu namorasse. Só queriam que eu fosse feliz. Mas ainda faltava eu falar com minha mãe.

Era uma noite de sábado. Minha mãe e eu estávamos sentadas num restaurante Roscoe's Chicken. Inicialmente tentei dizer que eu era bissexual, na esperança de acostumá-la à ideia aos poucos. É claro que isso não funcionou – apenas lhe deu a falsa esperança de que eu ainda poderia namorar um homem. Ela disse terminantemente que nunca aceitaria que eu fosse lésbica, mas não chegou a dizer que isso era nojento ou que eu era nojenta.

Desde então, tenho tido uma conversa contínua com ela. Quando a Tchetchênia promoveu um expurgo dos gays, minha mãe falou que é melhor que o governo os pegue antes que Jesus o faça.
Dizer que aos 40 anos eu não anseio pela aceitação e aprovação de minha mãe seria mentira.
Minha mãe me disse que, se eu me casar algum dia, ela não vai ao casamento. Embora seja isso que mais me doa, fui obrigada a entender que esse é um problema dela, não meu. Mereço ser feliz na vida, e não devo ter vergonha de ser quem eu sou. Minha mãe e eu ainda nos falamos, mas agora falta intimidade no nosso relacionamento. Ela não sabe nada da minha vida nem das mulheres com quem saio. E não quer perguntar sobre isso. Nosso relacionamento se limita a falar generalidades sobre política ou as coisas que estão acontecendo na vida dela. A posição dela sobre minha sexualidade não mudou, e, como ela tem 75 anos, não imagino que vá mudar.

Dizer que aos 40 anos eu não anseio pela aceitação e aprovação da minha mãe seria mentira. Eu quero muito, mas percebi que não preciso disso para ser feliz. Alguns dias são melhores que outros, mas na maioria dos dias eu me vejo caminhando com uma nova visão de quem sou e com nova confiança, pelo fato de ser lésbica assumida.

Sair do armário aos 40 anos foi a coisa mais libertadora que pude fazer por mim mesma, e a única coisa que lamento é não ter feito isso antes. Não passo mais minhas noites chorando, e, com o encorajamento de minha terapeuta, minhas amigas e mentoras, olho com confiança e prazer para o futuro, querendo aproveitar minha nova vida como lésbica e me libertar de qualquer resquício de sentimento de vergonha.

Fonte: Huff Post BR, 14/05/2018

Lei de 2018 criou penas específicas contra o estupro corretivo de lésbicas

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019 0 comentários

Desenho de Charles Laveso

Estupro corretivo: entenda o crime de violência sexual contra lésbicas

A lei 13.718, sancionada em setembro de 2018, criou penas específicas para novas formas de violência contra mulheres. Novas, porém, elas são apenas no que diz respeito à legislação: são agressões praticadas muito antes da criação da lei e, entre elas, está o chamado estupro corretivo, prática violenta de que lésbicas, em sua maioria, além de gays e trans, relatam ser vítimas. Segundo o texto, o estupro corretivo é uma tentativa de "controlar o comportamento social ou sexual da vítima." Ou seja, é quando o crime é cometido na tentativa de "corrigir" uma característica da vítima, como sua orientação sexual.

Segundo a advogada especializada em direitos das mulheres Gabriela de Souza, lésbicas são os alvos principais. Ela, que já atende dois casos com essa tipificação, afirma que as mulheres relatam ouvir frases homofóbicas no momento da violência. Comentários como "você vai conhecer um homem de verdade e aprender a gostar disso" ou "você vai virar mulher de verdade" estão entre essas frases. 
São agressões com falas sempre muito violentas e ligadas à não aceitação da exposição das mulheres como lésbicas", diz Gabriela.
Aumento de pena A proposta de inserir o termo estupro corretivo em nossa legislação foi levada à Câmara dos Deputados em 2017, pela então deputada Tia Eron (PRB-BA), nomeada nova secretária de Políticas Públicas para Mulheres do Ministério de Mulher, Família e Direitos Humanos. Foi anexado a outros textos que já tramitavam no Congresso e aprovado no ano passado. Com a nova lei, se comprovado o estupro corretivo, a pena para o crime de estupro, que é de seis a dez anos, aumenta de um terço a dois terços --podendo ir de oito a 17 anos de prisão--, de acordo com a advogada Ananda Hadah Rodrigues Puchta, especialista em direitos humanos..
Mas entra como aumento da pena de todos os crimes sexuais contra vulneráveis (menores de 14 anos) e crimes contra a liberdade sexual", explica Ananda. Entre esses crimes estão o de importunação sexual (pena de um a cinco anos) e assédio sexual (pena de um a dois anos).
Machismo extremo, como explica Gabriela, o termo já vem sendo usado por movimentos feministas e de gays e lésbicas há pelo menos 20 anos. "Mas é uma prática milenar a de tentar 'corrigir' lésbicas. Apenas foi nomeada mais recentemente", diz.

"É o machismo extremo quando o homem acredita que, por ser o 'macho' e possuir o falo, tem o poder de corrigir uma mulher que ele julga ter um comportamento errado", diz ela, que acredita ser um avanço incluir o termo no Código Penal, ainda que tardiamente.

Dossiê do lesbocídio

Não há números de casos de estupros corretivos no Brasil. No geral, são registrados apenas como estupro, que ainda assim é um crime subnotificado, o que significa que as ocorrências são muito maiores do que as denúncias realizadas pelas vítimas. Um dos raros levantamentos sobre violências cometidas contra lésbicas, o "Dossiê Sobre Lesbocídio no Brasil", lançado no ano passado, mostra que, em 2017, houve 54 mortes de lésbicas no país, sendo que em 3% dos casos foi cometido estupro seguido de assassinato. 

Fonte: Universa (UOL), por Camila Brandalise, 04/02/2019

Famílias de gays e lésbicas já se destacam entre os arranjos tradicionais

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019 0 comentários

Gilberto, Rafaela, Paulo Henrique e Rodrigo mostram que o carinho e o acolhimento
 foram essenciais em casa, assim como em qualquer família

Famílias formadas por pai, mãe e filhos já não são maioria no país
A sociedade brasileira se acostuma com uma mudança, cada vez mais visível, da configuração tradicional das famílias no país

O tradicional arranjo de família — com pai, mãe e filho(s) — mudou. Além das formações convencionais, novas configurações crescem e mostram desafios diários enfrentados por mães e pais sozinhos, divorciados que unem as famílias, crianças que são criadas pelos avós, coparentalidade e casais homoafetivos que lutam para que seus afetos sejam respeitados. O que há de comum entre eles é o amor, cada um à sua maneira. As diferentes formas de composição familiar mostram que o gênero, a idade e o status civil de quem cria não importam; prevalecem sempre o respeito e a união.

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) revelam que, desde 2005, o perfil composto unicamente por pai, mãe e filhos deixou de ser maioria nos domicílios brasileiros. No estudo, o tradicional arranjo ocupava 42,3% dos lares pesquisados — uma queda de 7,8 pontos percentuais em relação a 2005, quando abrangia 50,1% das moradias.

Moradores de Teresópolis (RJ), o jornalista Gilberto Scofield Junior, 53 anos, e o corretor de imóveis Rodrigo Mello, 34, vivem juntos há 15 anos e oficializaram a união na última sexta-feira. Eles são pais de Paulo Henrique, 9, e Rafaela, 18, que personificaram um grande sonho do casal. O processo de adoção do menino durou cerca de um ano e meio. Paulo chegou a ser rejeitado por três casais heterossexuais e acabou adotado em 2014. Rafaela foi acolhida dois anos depois.

A vida do casal mudou completamente em 23 de outubro de 2014, quando o companheiro Rodrigo recebeu a notícia de um grupo de entidades de adoção sobre a disponibilidade de Paulo, que, à época, tinha 4 anos. Ele estava em um abrigo na cidade de Capelinha (MG), no Vale do Jequitinhonha.
Foram sete horas de viagem, entre carro e avião. A primeira impressão foi emocionante, ele era muito carente, muito carinhoso. Quando chegamos lá, descobrimos que ele tinha uma irmã, a Rafaela. Naquele momento, não estávamos preparados para adotar os dois. O juiz pediu para não tirar o contato com ela, e eles iam se falando”, conta Gilberto.
Até a adoção de Rafaela, muito aconteceu. A decisão de aumentar a família veio após um período de trabalho na China. “Por conta da política de filho único (no país oriental), as meninas eram abandonadas, principalmente no interior. Ficamos tocados com isso e a ideia amadureceu”, lembra Gilberto. O carinho e o acolhimento se tornaram os ingredientes necessários para romper as barreiras da adaptação.
É um pouco mais difícil quando é uma criança que não acompanhamos desde o início. Buscamos entender a psicologia por trás das ações e preencher instintivamente lapsos passados. O acolhimento fez com que as crianças se adaptassem. Paulo foi rapidamente ambientável. Rafaela, por ser maior e estar na fase da adolescência, levou mais tempo”, conta.
Gilberto, Rodrigo, Paulo Henrique, Rafaela e os animais de estimação da casa formam uma família como qualquer outra; lidam com as alegrias e as preocupações diárias similares às de pais tradicionais. Questionado sobre a aceitação dos filhos em relação à presença de dois pais em casa, Gilberto afirma que são bem resolvidos.
Os amigos perguntam: São dois pais? Eles respondem que sim e não questionam mais. O colégio deles é progressista.
Para Gilberto, o estranhamento da sociedade é ligado ao preconceito dela e da maneira como julgam as pessoas que não seguem os padrões considerados tradicionais, da heteronormatividade.
Educar é um exercício diário. Isso se passa exercendo, dando exemplo. Negociamos na base da conversa, mas isso não me impede de ser rígido quando preciso, de cobrar disciplina. Buscamos convencer, inspirar naturalmente”, diz. Paulo Henrique, inclusive, fala com emoção sobre o relacionamento com os pais e garante: “Amo meus pais. Eles fazem tudo por nós e nos amam muito. Carinho é o que não falta”.
Márcia e Rayssa: mudanças amenizaram os preconceitos

Ato político

Mari Mira e Patrícia Egito, ambas com 32 anos, se conheceram há cinco anos no trabalho. Pati era produtora cultural do antigo Balaio Café e Mari atuava como VJ e produtora cultural no local. Não demorou para que se tornassem amigas. Logo se apaixonaram e pouco tempo depois estavam morando juntas. Este ano, decidiram fazer uma festa para celebrar a união entre elas. Foi uma forma de reunir os amigos e os familiares “na luta pelo bem viver das famílias LGBTs”.
Sentimos a importância e a necessidade de reafirmar nosso amor perante a sociedade. Queremos nos tornar visíveis, tanto ao nosso redor quanto dentro das estatísticas. Fizemos para mostrar que casais como nós existem e nossos afetos devem ser respeitados e legitimados sempre. ‘Amor como luta’ foi a frase que norteou a nossa cerimônia”, explica Mari.
Sócias em um restaurante de gastronomia brasileira há três anos, já compartilhavam, sob o mesmo teto, angústias, realizações e alegrias. Tudo isso envolto numa relação de respeito e apoio das famílias de ambas.
Elas são muito integradas à nossa vida. Sabemos que isso é um privilégio e somos muito gratas. Juntas, nós nunca sofremos preconceito, mas, nas nossas vidas individualizadas, sim. São histórias que já estão gastas, queremos falar de outras coisas”, pontua.
A psicóloga e economiária Márcia Lopes, 56, é mãe solo e enxerga a estruturação da família como algo que perpassa qualquer rótulo. O importante é o carinho, o respeito e a união. A filha Rayssa, de 33 anos, nunca teve contato com o pai — e sempre foi algo muito bem resolvido na conjuntura familiar. Isso porque, explica Márcia, a rede de apoio dela se manteve muito consistente, com o apoio de pais, tios e primos.
Sei que sou muito privilegiada, porque sempre tive apoio emocional e financeiro. Mas reconheço as dificuldades das mulheres que resolvem ser mães sozinhas e não têm essas condições. É um caminho muito mais árduo, com diversos obstáculos e desafios”, destaca.
A vida de Márcia mudou desde quando se tornou mãe. Apesar dos desafios de conduzir sozinha a educação de uma pessoa e de arcar com todos os custos disso, a psicóloga afirma que nunca se sentiu só. Evidentemente, quando situações difíceis acontecem, gostaria de ter com quem desabafar, mas nada que a família não consiga dividir.
A maternidade mudou a minha vida. A gente passa a repensar prioridades e abre mão de alguns desejos pessoais em prol de outro alguém. É muito prazeroso”, conta, emocionada.
Ela ressalta as mudanças na sociedade que, mesmo lentas, já amenizaram o preconceito em torno de mães solo:
Hoje em dia, não é algo tão incomum. Naquela época, era mais difícil. Mas é muito prazeroso também ouvir pessoas que conhecem a minha história dizendo que me admiram por isso”.
O apoio dos parentes é fundamental para Patrícia e Mari (foto: Luísa Dalé/Divulgação)
Sangue

A psicóloga Priscila Preard explica que o conceito de família vai além do compartilhamento consanguíneo.
Família é um lugar em que, independentemente da orientação sexual, condição financeira, existe amor, respeito, diálogo, cuidado, afeto. É com quem compartilhamos os problemas e as conquistas. Família não precisa ser de sangue”.
A especialista relata que a diversidade do mosaico familiar começou há muitos anos, com o auxílio de fatores como a entrada da mulher no mercado de trabalho, a chegada da pílula anticoncepcional, a legalização do divórcio e, mais recentemente, com a conquista da união homoafetiva.
Acredito que, no campo homoafetivo, teve o reconhecimento jurídico. Eles galgaram isso e foram para outra esfera, de criar filhos. Em relação aos pais ou mães solo, a mudança vem de muito tempo, desde a Revolução Industrial. A mulher entendeu que o campo amoroso não necessariamente tem a ver com a formação familiar. Também teve a entrada dela no mercado de trabalho, que deu maior independência”, aponta.
No entanto, famílias formadas por homossexuais e pais e mães solteiros ainda enfrentam preconceito na sociedade.
Tanto homoafetivos quanto quem cria sozinho enfrentam preconceito. As dificuldades de quem cria sozinho também são maiores, pois, muitas vezes, não dispõe de uma rede de ajuda, que facilitaria nos cuidados em alguns momentos”, completa.
Para ela, é preciso deixar claro que a orientação sexual não dita a capacidade de laço afetivo.
Não é porque é diferente de algum modo que não vai cuidar ou dar amor. É um princípio ético. A sociedade precisa entender que, por mais que não ame ou goste daquele modelo familiar, tem que respeitar e considerar o próximo. Pode não ser a favor, mas tem que respeitar”.
Família é um lugar que, independentemente da orientação sexual, condição financeira, existe amor, respeito, diálogo, cuidado, afeto. É com quem compartilhamos os problemas e as conquistas. Família não precisa ser de sangue”  Priscila Preard, psicóloga
Fonte: Correio Brasziliense, por Ingrid Soares e Gabriela Vinhal, 25/12/2018

 
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