Turistas LGBT já contribuem com cerca de US$ 6,8 bilhões para a economia espanhola

quarta-feira, 2 de setembro de 2015 0 comentários


Europa quer a atenção de turistas LGBT

Turistas homossexuais gastam cerca de 30% a mais dos que a média dos demais turistas

A Espanha está ganhando a batalha por turistas homossexuais, homens e mulheres. Visitantes LGBT já contribuem com cerca de US$ 6,8 bilhões à economia espanhola, de acordo com relatório da LGBT Capital, tirando da França o posto de principal destino turístico gay.

Turistas homossexuais gastam cerca de 30% a mais dos que a média dos demais turistas na Espanha, de acordo com estimativas do governo, alavancando um setor que responde por 12% dos empregos.

Enquanto um crescente número de países, como França e Reino Unido, introduz uma legislação de direitos iguais e promove a visitação de gays, a Espanha está na frente de batalha. Mesmo a liderança conservadora de Madri está abraçando essa causa.

Em 2005, a Espanha se tornou o terceiro país europeu a legalizar o casamento gay — depois de Bélgica e Holanda —, saindo da sombra da ditadura católica do general Francisco Franco, que morreu em 1975. Essa medida deu ao país a credencial de destino de férias onde as pessoas podem ser sentir tranquilas em relação à sua sexualidade — de tal maneira que alguns não querem nem voltar para casa.
É muito tolerante e é divertido — disse Fabiano Ribeiro, um brasileiro de 32 anos, que visita Barcelona com dois amigos. — A gente anda de mãos dadas sem nenhum problema.
Todo mês de agosto, Barcelona abriga o maior festival gay da Europa, atraindo 71 mil visitantes só este ano. Durante duas semanas, a segunda cidade da Espanha é tomada de imagens de modelos masculinos para divulgar festas para os visitantes gays e sinalizar lojas com ofertas especiais, de espreguiçadeiras a entradas gratuitas para academias de ginástica. Além disso, a cidade é tomada por festas à beira da piscina e em boates.

Com ingressos para acesso total a € 360 (US$ 406), os organizadores de eventos geram € 150 milhões para a economia local. Após oito anos, o festival crescerá para Ibiza este ano e para as Ilhas Canárias, no ano que vem, respondendo ao aumento da demanda por eventos para gays e lésbicas.
Este fluxo de visitantes também vai para locais como bares, academias de ginástica, até mesmo motoristas de táxi acabam envolvidos — disse o organizador Tes Cuadreny. — Eles sabem que isso beneficia a todos.
Tais iniciativas tornaram a Espanha líder na Europa, à frente da França, que gera US$ 6,6 bilhões em receita, de acordo com a LGBT Capital, uma empresa de investimento baseada nas Ilhas Virgens Britânicas, que se concentra em ativos voltados para o público gay. Os Estados Unidos são líder global com uma receita de US$ 21,5 bilhões.

Em Madri, até o governo regional conservador está cedendo. Pela primeira vez desde sua vitória em maio, a presidente regional Cristina Cifuentes hasteou nos prédios do governo a bandeira do arco-íris, simbolizando o apoio aos homossexuais. Em 2005, seus colegas do Partido do Povo, do presidente do governo espanhol Mariano Rajoy, lideraram 100 mil manifestantes em uma marcha contra a legalização do casamento gay.

A capital espanhola gerou cerca de € 120 milhões desde a maior parada do orgulho gay no início do verão no Hemisfério Norte, de acordo com a organização de vida noturna Noche Madrid.
É um mercado de viagem de alta renda, que não está ligado a férias escolares e que normalmente é mais aventureiro — disse Carlos Kytka, diretor executivo da Associação Europeia de Turismo Gay, que tem mais de 4 mil associados, a maioria hotéis na Europa. — É fácil lotar hotéis no verão em Barcelona, o que nos torna diferente é que viajamos o ano inteiro e gastamos dinheiro. E isso faz o fluxo de dinheiro ser contínuo.
Fonte:  Tribuna da Bahia, 01/09/2015

Filha de Johnny Depp faz campanha a favor de quem não se define 100% como heterossexual

terça-feira, 1 de setembro de 2015 0 comentários

Lily-Rose Depp na Campanha The Self Evident Truths

A filha de Johnny Depp com Vanessa Paradis, Lily-Rose Depp, de 16 anos, é a protagonista de uma nova campanha que defende os direitos dos que não se definem como heterossexuais.

Lily-Rose, que também é modelo, decidiu emprestar sua imagem e dar seu apoio ao The Self Evident Truths, uma campanha a favor do LGBTQ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e 'Queer'), um esforço liderado pela fotógrafa lésbica iO Tillett Wright, e que luta para mostrar a diversidade sexual.

iO Tillett Wright e Lily-Rose Depp

A meta que querem cumprir com essa campanha é ter 10 mil fotos de americanos que 'se identificam com tudo o que não é 100% hetero'.

Rose compartilhou algumas imagens da campanha em suas redes sociais.

A modelo Cara Delevingne colaborou com essa campanha em 2014, a intenção dela e dos demais é lutar contra a discriminação contra os LGBTQ.

Lily-Rose Depp também investe na música e aparece no vídeo do rapper Rejiie Snow (aos 2:12)

Segue também vídeo onde iO Tillett Wright fala sobre seu projeto.

Com informações de O Fuxico (30/08) e outros sites

Cartilha Prazer Sem Medo (saúde e sexualidade para lesbianas)

segunda-feira, 31 de agosto de 2015 0 comentários

A cartilha Prazer Sem Medo - Informações para Mulheres que Transam com Mulheres teve 5 edições (1995, 1996, 2000, 2006 e 2008) publicadas pela Rede de Informação Um Outro Olhar e financiadas pelo PN-DST/AIDS do Ministério da Saúde e a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo.

Aborda a prevenção a doenças sexualmente transmissíveis e outros problemas de saúde específicos da condição lesbiana dentro de um contexto de saúde integral da mulher. Integrou o primeiro projeto brasileiro sobre saúde para mulheres que se relacionam com mulheres, de 1995, intitulado Mulheres & Mulheres: Prazer Sem Medo e foi  publicada posteriormente, de forma independente do projeto original, até 2008.

Duas de suas edições foram distribuídas durante as paradas do orgulho LGBT de São Paulo. A versão digitalizada abaixo é a última de 2008.

Míriam Martinho

São Paulo, 31/08/2015



Dia da visibilidade lésbica: 19 anos de uma história mal contada e sem registro

sábado, 29 de agosto de 2015 4 comentários


Escrevi o artigo abaixo em agosto de 2006 e não lembro de tê-lo revisto desde então. Nove anos se passaram portanto. O que me levou a relembrá-lo e relê-lo foi um texto publicado, em 2014,  no Estado de São Paulo, pelo professor de Filosofia na UFRGS, Denis Lerrer Rosenfield, intitulado Verdade e Narrativa. Vale muito a leitura. Nele, Rosenfield aborda a - como diz - Comissão da (in)Verdade e seu trabalho ideológico de empurrar, por nossa goela abaixo, a sua narrativa, a sua "verdadeira mentira histórica," sobre o período da ditadura militar no Brasil. 

Diz o autor:
A Comissão da Verdade em nosso país, embora não tenha produzido nenhuma foto relevante, está procurando impor sua narrativa do que foi o regime militar. O compromisso com a verdade desaparece em proveito de uma "história" que procura guardar distância da verdadeira. A narrativa que procuram construir é a dos derrotados na luta armada, que tentam agora impor sua versão, como se a "verdade" pudesse ser um instrumento a ser manipulado sob a forma da mentira.
Imaginem historiadores dentro de 30 anos fazendo uma verdadeira pesquisa. Ficarão certamente embasbacados com o primarismo ideológico dessa comissão. Seu trabalho de nada lhes valerá e terão de recorrer às fontes primárias.
Certamente, historiadores que, dentro de 30 anos, se debrucem sobre essa última década de petismo e esquerdismo bolivariano (como denominada hoje em boa parte a esquerda latino-americana) haverão de ficar estupefatos com as toneladas de narrativas criadas e repassadas para a população como se verdade fossem. Seja em nível macropolítico ou micropolítico, a verdade tem mesmo desaparecido em proveito de uma "história" que procura guardar distância da verdadeira. 

No caso da organização LGBT, muitas têm sido também as narrativas inventadas para se sobrepor à história escrita pelos fatos e seus reais protagonistas. O mais recente caso nessa perspectiva, ainda dentro do tema da Comissão da (in)Verdade, é a tentativa de "historiadores" LGBT de torturar a realidade histórica de modo a fazê-la confessar uma suposta perseguição estatal a homossexuais pelos governos militares. Já vale observar que se trata de nova fabulação.

Outra narrativa que lograram consolidar, pelo menos no meio do ativismo LGBT, foi a do tal dia da visibilidade lésbica, escolhido num suposto primeiro encontro de lésbicas, em 1996, por 100 supostas ativistas lésbicas. No artigo abaixo, de 2006, descrevo minuciosamente como essa narrativa colou (com que cola) e quem a colou no imaginário da militância. Se fosse reescrevê-lo hoje, eu apenas o encaixaria dentro do contexto maior do revisionismo que essa turma costuma fazer de toda história que não lhes agrada e não como um fato relativamente circunscrito ao meio dos movimentos sociais. Em 2006, a extensão desse afã revisionista ainda não era tão evidente.

Como não vou reescrevê-lo agora, reitero apenas o quanto a origem do dia é fruto de uma narrativa fraudulenta, na esteira da evocação trazida pela análise do professor Rosenfield. A começar pelo fato da referência para um dia de visibilidade ter sido um encontro invisível. Salvo engano, até hoje, 19 anos decorridos, não apareceram sequer fotos internas (feitas por participantes do evento) do tal seminário de lésbicas tão "histórico", realizado em 1996. Basta lembrar que o primeiro encontro de ativistas lésbicas de fato, ocorrido em São Paulo, em 1981, tem registro inclusive fotográfico. A primeira manifestação lésbica pública, que foi a "invasão" do Ferro's Bar, em 1983, também tem registro feito inclusive pela grande imprensa. Idem para a primeira caminhada de lésbicas, igualmente realizada em São Paulo, em 2003. Por certo, a arrogância de querer inventar a roda e o espírito orwelliano do gênero "Guerra é Paz; Liberdade é Escravidão; Ignorância é Força” estão por trás dessa referência paradoxal e inadvertidamente cômica.

Depois, esse primeiro seminário de lésbicas não teve a participação de 100 ativistas lésbicas porque havia no máximo 4 grupos de lésbicas em 1996, com cerca de 4/5 ativistas (e olhe lá!) em cada um, e um desses grupos não participou do evento. Cumpre salientar que, como eu apontei essa "pequena" falha na narrativa das comadres inventoras do dia da visibilidade, com o passar dos anos, elas revisaram a mentira cabeluda e passaram a dizer que o tal dia foi tirado apenas por 100 lésbicas (sic). Afinal, em 1996, acho que já dava para reunir 100 lésbicas num encontro a fim de, entre algumas politicagens, tomar todas e pegar umas e outras. Não deixa de ser irônico que, no real primeiro (ao que consta) encontro de ativistas lésbicas, ocorrido durante o I Encontro Paulista de Grupos Homossexuais Organizados, em São Paulo, nos dias 25 e 26 de abril de 1981, possa ter havido mais ativistas lésbicas do que no tal seminário das tais lésbicas de 1996. Pelo menos, os registros do evento revelam a presença de ativistas dos grupos Lésbico-Feminista, Terra Maria, Opção Lésbica, Coletivo Alegria, Alegria, Somos SP e Facção da Convergência Socialista.

Como evidenciei no texto abaixo de 2006, a narrativa do dia da visibilidade e sua referência paradoxal ganhou capilaridade repentina, em 2003, via grupos feministas (interessados em pegar carona na visibilidade da temática LGBT trazida pelas grandes paradas) e petistas (além dos congêneres destes), com sua típica sanha autoritária de submeter à realidade a seus caprichos. A intenção dessa gente fina sempre foi intimidar a verdade e forçar todos a reconhecer a sua narrativa, a sua "verdadeira mentira histórica". Para nós, que não fazemos parte dessa turma, fica o dever de facilitar o trabalho dos historiadores do futuro e apresentar dados que permitam separar a verdade da narrativa a fim de conquistar uma memória mais próxima da História real. Para os que apreciam mais os fatos do que os mitos, taí um prato cheio.

Míriam Martinho

São Paulo, 29 de agosto de 2015

Grupos lésbicos brasileiros existentes em 2001. Da esquerda para a direita: Movimento D'Ellas, Um Outro Olhar, Grupo Lésbico da Bahia (GLB), Coletivo de Lésbicas-Feministas (CFL),  Associação Lésbica de Minas (ALÉM), Coletivo de Lésbicas do Rio de Janeiro e Movimento de Lésbicas de Campinas (MOLECA). Também na foto 3 representantes de grupos mistos (Nuances, Arco-Íris e Estruturação). Foto tirada durante reunião sobre saúde lésbica com a CN-DST/AIDS, em Brasília, (março de 2001).


Dia da visibilidade lésbica: 10 anos de uma história mal contada 
Por Míriam Martinho

Quando a idéia do dia da visibilidade foi lançada em 1996, havia menos de 6 grupos lésbicos em todo o Brasil (na foto acima vemos os 7 grupos lésbicos que existiam em 2001), e os grupos existentes eram todos diminutos. Como então pôde o dia da visibilidade ter sido estabelecido por mais de 100 ativistas lésbicas? Em 10 anos, desde a proposta de um dia da visibilidade, apenas 4 deles tiveram efetivamente celebrações da data. Por quê? Para responder essas perguntas vamos fazer uma pequena viagem no tempo da história da organização lésbica no Brasil até 2003 quando o dia visibilidade tira o manto da invisibilidade. 

INTRODUÇÃO

Tendo em vista que a história que se conta sobre a origem e desenvolvimento do dia da visibilidade lésbica viola a história da organização lésbica no Brasil, distorcendo seus fatos e sua evolução natural, cumpre tornar visíveis essas distorções. Cumpre não só porque hoje várias pesquisadoras vêm rastreando o desenrolar dessa história e merecem ter uma visão mais acurada dos fatos como também porque as ativistas lésbicas do presente e do futuro e a população lésbica merecem saber o berço das datas a que são convidadas a comemorar. Para tal, façamos uma breve retrospectiva da organização lésbica em nosso país chegando até o surgimento dos dias de comemoração da lesbianidade brasileira. 

DÉCADA DE 80: INÍCIO DA ORGANIZAÇÃO LÉSBICA NO BRASIL 

A organização lésbica no Brasil surge no início de 1979 dentro do incipiente Movimento Homossexual Brasileiro (MHB), mais precisamente no grupo Somos de São Paulo. Forma-se nesse grupo um subgrupo de mulheres, em função de uma matéria sobre lésbicas para o Lampião da Esquina (maio de 79), que depois se consolida de forma autônoma em relação ao grupo misto. Como na época, o feminismo estava em seu auge e a questão de gênero sempre foi um problema dentro do Movimento Homossexual (hoje LGBT), este subgrupo, identificando-se com o feminismo, se autodenomina subgrupo lésbico-feminista, registrando também outras variantes deste mesmo nome até separar-se do grupo misto (maio de 1980), quando passa a chamar-se Grupo Lésbico Feminista (LF). Este grupo por sua vez, já no final de 1980, sofre um racha e enfraquecido subsiste até meados de 1981, sendo formalmente substituído pelo Grupo Ação Lésbica Feminista (GALF) em outubro de 1981. O GALF, por sua vez igualmente, será o único grupo lésbico a subsistir por toda a década de 80 até 1989, quando cede sua vez à Rede de Informação Um Outro Olhar, formalmente constituída em abril de 1990. Essas diferentes denominações e substituições correspondem a mudanças não só nos coletivos que formaram esses grupos (que tem elos em comum) como nas influências ideológicas que os nortearam, cuja abordagem foge dos objetivos desse artigo. 

Aqui interessa apenas lembrar que o Movimento Homossexual, que nasce em 1978 e tem seu pico de expansão em 1980, começa a declinar a partir de 1981, mergulhando numa grande crise até 1983/84, devido a conflitos internos e a duas questões que se mesclaram numa combinação explosiva: o questionamento sobre a identidade homossexual e a chegada da AIDS, alcunhada em seus primórdios de câncer gay, peste gay. De meados da década de 80 até o início da década de 90, o Movimento Homossexual viverá numa espécie de limbo político, subsistindo graças aos esforços heróicos de grupos como o GALF (SP), GGB (BA), Triângulo Rosa (RJ) e Dialogay (SE), embora outras agremiações femininas, masculinas ou mistas tenham surgido nesse período, todas contudo de vida efêmera. 

Por outro lado, o Movimento Feminista (MF), para onde as lésbicas migram por falta de opção inclusive, vive seu ápice na década de 80, ocupando na mídia, ainda que de forma mais modesta, o lugar que hoje ocupa o Movimento LGBT, com feministas escrevendo em colunas na grande imprensa, coordenando programas de TV e tendo suas reivindicações sendo incorporadas à sociedade em geral.

No que tange às lésbicas, contudo, o Movimento Feminista foi uma verdadeira madrasta. Após o impacto do aparecimento do subgrupo lésbico-feminista em eventos feministas, em 1980, o MF vai absorver individualmente as militantes do LF bem como de outros grupos lésbicos que existiam então (Terra Maria) ao mesmo tempo em que despolitiza a questão lésbica. Ainda que permitindo uma ou outra palestra ou oficina lésbica em seus encontros ou mesmo dando apoio eventual a manifestações lésbicas (como a do 19 de Agosto), liberalidades sempre seguidas da admoestação de que a questão de gênero era a mais importante e não havia espaço para grupos lésbicos específicos, a política do Movimento Feminista para lésbicas, durante toda a década de 80 e 90, posição só alterada em 2002, foi a da invisibilidade. As feministas homossexuais, em número razoável dentro do MF, ou simplesmente se omitiam sobre a questão lésbica (como se não tivessem nada com isso) ou hostilizavam abertamente todas as tentativas de politização do assunto. 

Cansadas dessa situação e de outras tantas contradições do feminismo, o Grupo Ação Lésbica Feminista se afasta do MF em 1988, deixando um vácuo que será preenchido por feministas homossexuais que, ao contrário da maioria, achavam que o MF deveria sim assumir politicamente a questão lésbica, embora permanecessem com a idéia de que seu campo de atuação deveria ser somente o próprio movimento. Uma reunião, realizada durante o X Encontro Nacional Feminista em Bertioga (1989), originará um coletivo de onde surgirão os primeiros grupos lésbicos (3) a subsistirem por mais tempo, no período que vai de 1989 a 1996, concomitantemente ao surgimento da Rede de Informação Um Outro Olhar (também em 1989). 

DÉCADA DE 90: RESSURGIMENTO DO MOVIMENTO HOMOSSEXUAL 

Nesse ínterim, o Movimento Homossexual começa a ressurgir das cinzas, sendo o ano de 1993, um divisor de águas nesse sentido, quando grupos de São Paulo, como a Um Outro Olhar, o grupo Deusa Terra (lésbico), ativistas lésbicas independentes, como Monica Pita, e grupos gays como o incipiente núcleo de gays e lésbicas do PT e o grupo Etecétera e Tal, do psicanalista Arnaldo Domingues organizam, o VII Encontro Brasileiro de Lésbicas e Homossexuais, em Cajamar (set/1993, SP).

O Movimento Homossexual que renasce a partir dos primeiros anos da década de 90, ao contrário de seu antecessor, do final dos anos 70 e começo dos 80, vai ter um perfil fundamentalmente reformista e mais androcêntrico do que a da primeira geração, girando em torno das questões dos gays. Inserir a palavra lésbica no título do VII encontro do movimento, a fim de evidenciar a questão das mulheres homossexuais, exigiu consultas nacionais, abaixo-assinados e troca de desaforos entre as ativistas lésbicas e grupos gays mais tradicionalistas, como o Grupo Gay da Bahia, que viam na mudança de nome uma ameaça à unidade do movimento. Mas a alteração foi assumida e, no próprio encontro, houve outra alteração que resultou na denominação Encontro Brasileiro de Gays e Lésbicas. No VIII Encontro, em Curitiba (jan/1995), as travestis também reivindicaram a inserção do T, sendo acatadas de forma muito mais tranqüila, e os Encontros passaram a denominar-se Encontros Brasileiros de Gays, Lésbicas e Travestis (EBGLT), denominação que prevalece até hoje. 

No encontro de Curitiba, também foi criada a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis (ABGLT) que teve como fundadoras as ativistas da Rede de Informação Um Outro Olhar e do nascente Grupo Lésbico da Bahia (GLB), além de ativistas dos grupos gays e travestis. Do período que vai de 1993 a 1996, desaparecem dois dos grupos lésbicos do início da década de 90, o Estação Mulher e o Deusa Terra, e permanecem a Rede de Informação Um Outro Olhar e o Coletivo de Feministas Lésbicas (todos de São Paulo) este último que, mudando sua política de não trabalhar com homens, passa a atuar também no Movimento agora já GLBT. 

CHEGANDO À IDÉIA DO DIA DA VISIBILIDADE 

No ano seguinte, em 1995, o jovem grupo Arco-Íris, do Rio de Janeiro, e outros grupos cariocas sediam a 17ª Conferência da ILGA (Associação Gay e Lésbica Internacional), de 18 a 25 de junho de 1995, que culminará com Marcha pela Cidadania Plena de Lésbicas e Gays, primeira manifestação de rua realizada no Brasil desde 1981 (quando ocorreu, em São Paulo, a primeira passeata homossexual de protesto contra as prisões arbitrárias de gays, lésbicas, travestis e prostitutas pelo famigerado delegado Richetti). No contexto da Conferência, surgem mais dois grupos lésbicos: o Movimento D’Ellas, fundado pela ativista Yone Lindgren, que militara na primeira geração do MHB e que retornava ao movimento, e o Coletivo de Lésbicas do Rio de Janeiro (COLERJ), formado por mulheres que vinham de experiências tanto no movimento feminista quanto no movimento negro. 

Embora recém-nascido, o COLERJ se propõe a coordenar a Secretaria de Mulheres da ILGA, e a Rede de Informação Um Outro Olhar, que já vinha de uma boa experiência internacional, foi convocada a dividir a secretaria com esse grupo a fim de apoiá-lo. Em julho de 1995, os dois grupos se reúnem na sede da Rede de Informação Um Outro Olhar, em São Paulo, e discutem propostas para a Secretaria de Mulheres da ILGA. O COLERJ, contudo, pensa na Secretaria fundamentalmente como um apoio para a disseminação de encontros lésbicos no Brasil, a fim de incentivar a criação de grupos lésbicos e a criação de um movimento lésbico. Aqui cabe um parêntese para, retornando a 1993, lembrar que o grupo Deusa Terra (SP), durante a tentativa de organizar o IV Encontro Latino-Americano de Lésbicas Feministas no Brasil (1993), já havia proposto o mesmo, ponderando sensatamente que, em vez de fazer um encontro internacional, se passasse a gastar energias para a fundação de grupos lésbicos em nível nacional, proposta que não foi aceita. O COLERJ retoma essa idéia, que tem anuência da Rede de Informação Um Outro Olhar, mas não consegue desenvolvê-la de imediato por conflitos internos do grupo que o levaram a um racha no segundo semestre de 1995.  

Superando esses conflitos em 1996, o COLERJ organiza em 29 de agosto do mesmo ano, o primeiro seminário nacional de lésbicas (SENALE), realizado num hotel do Rio de Janeiro, com financiamento governamental. Em homenagem ao I SENALE, lançou-se de fato, em seu contexto, a idéia do dia 29 de agosto como dia nacional da visibilidade lésbica pelas participantes do evento, participantes que, todavia, de forma alguma conformaram o número de mais de 100 ativistas. Como bem dito acima, o SENALE foi pensado como um estimulador da formação de grupos lésbicos no Brasil porque exatamente na época em que foi realizado, 1996, não havia nem meia dúzia de grupos lésbicos em todo o território nacional, e todos os grupos lésbicos eram diminutos. De onde teriam aparecido então essas mais de 100 ativistas lésbicas que teriam estabelecido o dia 29 de agosto como dia da visibilidade lésbica? De outra dimensão do espaço-tempo? 

Para desvendar esse mistério, cumpre dar um salto de 7 anos à frente desse momento, para o ano de 2003, quando ocorre em São Paulo o V SENALE durante as celebrações da 7ª Parada do Orgulho GLBT. Este será o primeiro SENALE que contará com a presença de mais de 100 participantes, não necessariamente ativistas lésbicas, porém sem dúvida mais de 100. Os anteriores, no Rio, em Salvador, Belo Horizonte e sobretudo em Fortaleza reuniram em média de 40 a 60 participantes, sendo o de Fortaleza o mais desestruturado de todos, ao contrário do que se deveria esperar pela seqüência.

Citando a mim mesma, na revista Um Outro Olhar, sobre o II SENALE de Salvador (24-28/09/97):“Não se sabe se pelo número reduzido de pessoas, considerando tratar-se de um evento nacional, ou se por alguns erros organizativos ou políticos que impediram um aprofundamento das questões, o certo é que o encontro ficou meio chocho, meio morno demais (Revista Um Outro Olhar, 27. Encontro Morno em Salvador. Miriam Martinho).”

Citando Neli Aparecida de Farias, participante do III SENALE: “Dos dias 25 a 27 de setembro de 1998, realizou-se em Betim, Minas Gerais, o III Seminário Nacional de Lésbicas (III SENALE), com mulheres de algumas cidades do Brasil como Campinas, São Paulo, Brasília, Rio e Salvador, além de gente das próprias gerais, somando aproximadamente 40 participantes.” E sobre o clima desse evento, agudizado no encontro posterior, cito Virgínia Figueiredo, outra participante: “Como fomos todas custeando nossas despesas,... parecia que estávamos num retiro para descanso, para bater papo, etc.., pois a grande maioria (desestimulada pela falta de oficinas) preferia ficar bebendo e tomando banho de piscina (Revista Um Outro Olhar, 29. Considerações sobre o III SENALE).”

O IV SENALE, realizado no Ceará, de 29/08-01/07-2001, seguiu o mesmo estilo, caracterizando-se por ser um encontro para a realização de uma enquete/pesquisa. O encontro foi tão desestruturado que as duas integrantes da Um Outro Olhar que dele participaram disseram que não havia o que relatar e que, para simplesmente esculhambar o evento, era melhor se manterem caladas. Lamento essa postura, pois, ficamos sem um registro do encontro com algum distanciamento crítico. De qualquer forma, deste SENALE saiu a decisão de realizar o V SENALE em São Paulo, ao qual a Rede de Informação Um Outro Olhar se comprometeu a apoiar na forma de divulgação ao menos. Nos meses posteriores, contudo, até a realização do evento, não recebemos qualquer notícia ou informação a respeito da organização do mesmo, no velho esquema de comadrio que sempre caracterizou a estruturação desses encontros (em todas as suas versões). 

2003: LÉSBICAS NA PARADA E O LANÇAMENTO DO DIA DO ORGULHO LÉSBICO! 

De agosto de 1996 (quando se registra a idéia do dia da visibilidade) até junho de 2003, a questão dos direitos homossexuais vai ganhar cada vez mais visibilidade na sociedade, sobretudo na mídia, mas não houve comemorações do dia da visibilidade lésbica em todo esse período. O que surgiu nesse sentido foram as Paradas do Orgulho LGBT que hoje tomam conta do país inteiro. 

Ainda durante a 17ª Conferência da ILGA, grupos paulistanos presentes ao evento refletiram que seria interessante trazer o próximo EBGLT para São Paulo novamente e assim acabou ocorrendo. Em fevereiro de 1997, a Rede de Informação Um Outro Olhar organizou, praticamente com os mesmos grupos do VII Encontro, o IX Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas e Travestis (um encontro muito tumultuado por conflitos em sua maioria promovidos por ativistas GLBT petistas), cujo maior mérito foi ter produzido o embrião das futuras paradas que hoje levam milhões às ruas (os participantes saíram em passeata do Largo do Arouche, passando pela República, pelo Teatro Municipal, cruzando a mitológica Ipiranga com a Avenida São João e terminando atrás da Igreja da Consolação). Nesse mesmo ano, em junho, entusiasmados com a experiência do IX Encontro, ativistas gays repetem o feito se reunindo em frente da Gazeta e seguindo em passeata pela avenida Paulista até a praça Roosevelt, no percurso que até este ano (2006) identificou as grandes Paradas do Orgulho de Sampa.  

Na esteira das grandes Paradas de São Paulo, que continuaram num crescendo a cada ano, as ativistas lésbicas começam também a movimentar-se para conseguir marcar presença. A Rede de Informação Um Outro Olhar inicia esse processo em 1999 se postando no início das Paradas, quando ainda era possível fazer isso, carregando faixas relativas à liberdade de expressão sexual. Em 2001, faz a Parada numa truck, tendo em vista a necessidade de distribuir material, no que foi imitada por um outro veículo (um trenzinho) de um outro grupo de lésbicas. De 2001 até hoje (2006), a Rede de Informação Um Outro Olhar saiu nas Paradas com trios elétricos financiados por órgãos governamentais ou por verbas das próprias participantes, dividindo a avenida com o grupo AMAM (lésbico) que também sai tradicionalmente desde a mesma época. 

Igualmente antes e depois das Paradas, passam a ocorrer outros eventos comemorativos do orgulho LGBT nacionais, incluindo atividades para lésbicas. Entre outras, em 2000, ocorreu um evento comemorativo dos 20 anos de ativismo lésbico no Brasil e, em 2003, o V SENALE, além da Primeira Caminhada Lésbica. Neste mesmo ano, Luiza Granado e Neusa Maria de Jesus, da Rede de Informação Um Outro Olhar e da Associação da Parada do Orgulho GLBT, na época, uniram-se para tentar formar uma secretaria de lésbicas dentro da Associação, entidade que sempre se caracterizou por ser fundamentalmente masculina e gaycêntrica. Para dar destaque à questão lésbica, nos eventos comemorativos da Parada do Orgulho LGBT daquele ano organizaram um debate específico sobre a questão lésbica (11/06/2003) e durante o mesmo lançaram o Dia do Orgulho Lésbico, dia 19 de Agosto, em referência à primeira manifestação lésbica contra o preconceito e a discriminação ocorrida no Brasil, em São Paulo, em 1983. O dia foi lançado tendo em vista estabelecer uma referência histórica de luta e orgulho para lésbicas e que de fato pudesse a vir ser comemorada, tendo em vista inclusive que o outro dia que se havia pensado nesse sentido nunca havia saído do papel. 

2003: O ORGULHO LANÇA A VISIBILIDADE 

O lançamento do Dia do Orgulho Lésbico, em 2003, foi amplamente divulgado pela mídia, mais por uma coincidência do que por causa de uma campanha planejada de divulgação. Como de praxe, o jornalista Aureliano Biancarelli, então da Folha de São Paulo, buscou a Rede de Informação Um Outro Olhar para saber o que estávamos planejando para a Parada do Orgulho e foi informado sobre o lançamento do 19 de Agosto. Fez uma reportagem sobre o assunto com Luiza Granado e Neusa Maria de Jesus, pauta que foi, como de costume, reproduzida por outros jornalistas e outros veículos da mídia, dando uma grande divulgação à iniciativa. 

Nesse ínterim, como já dito, ocorria o V SENALE em São Paulo, cujas fundadoras haviam lançado a idéia do dia da visibilidade em 1996, embora nunca tivessem se dado o trabalho de viabilizá-la. Diante da ameaça de ver um outro dia suplantar o dia da visibilidade, durante plenária desse evento, elas ressuscitaram o dia da visibilidade como data de comemoração, passando efetivamente a celebrá-lo a partir deste ano de 2003. 

Até aí morreu Neves, como se diria. O problema é que à parte essa decisão, essas ativistas iniciaram também uma campanha de difamação e injúrias (crimes previstos no Código Penal deste país) contra as pessoas que lançaram o Dia do Orgulho e suas respectivas organizações. O relato que se segue poderia ser definido como uma ópera bufa, não fosse o quadro muito triste do estado moral dos movimentos sociais que vem a revelar. 

Conjugaram-se para ampliação dessa campanha difamatória interesses de ativistas de outros movimentos, desafetos históricos das organizações que lançaram o 19 de Agosto, que se aproveitaram da situação para realizar seus intentos oportunistas e retaliatórios. De um lado, tivemos os glpetistas (gays e lésbicas petistas) que tinham problemas com a diretoria da Associação da Parada de então, que havia expulsado o ex-presidente da entidade, Beto Jesus, sob acusação de improbidade administrativa, e com a própria Rede de Informação Um Outro Olhar, com quem tinham conflitos desde a organização do IX Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas e Travestis (1997), sem falar num conflito de fundo mais antigo que remete à história primeira do movimento homossexual brasileiro, quando os anarquistas deixaram o grupo SOMOS em protesto contra a tomada da organização por grupos da Convergência Socialista. A Um Outro Olhar descende politicamente desse grupo que deixa o SOMOS. De qualquer forma, não pretendo me estender sobre o papel dos glpetistas nessa ópera bufa, assunto para outro momento, mesmo porque o governo Lula, seus mensalinhos e mensalões, cuecas cheias de dinheiro, sanguessugas e outros bichos peçonhentos falam por mim muito melhor do que eu jamais imaginei que poderia dizer. 

De outro lado, tivemos as feministas homossexuais desempenhando um papel importante na construção do dia da visibilidade, como hoje ele se celebra, sobre as quais vale a pena se debruçar um pouco mais. Como vimos no início desse artigo, o movimento feminista pregou a invisibilidade lésbica em seu meio até 2002 quando, na Conferência Nacional de Mulheres Brasileiras (Brasília, 6-7/06/2002), assumiu finalmente a questão. É preciso lembrar que, mesmo aí, o apoio que o MF deu à questão lésbica, ainda era indireto, como apoio à causa de gays, lésbicas e travestis e não como apoio a causa das mulheres lésbicas. Foi esta que lhes escreve que introduziu na Plataforma Feminista o papel fundamental das mulheres lésbicas na luta pelos direitos das mulheres em geral, porque as feministas homossexuais haviam se "esquecido" desse detalhe. 

Voltando um pouco no tempo, lembremos que no início do MF, em nosso país e no mundo todo aliás, a sociedade machista acusava as feministas de reivindicarem igualdade para as mulheres porque elas não gostavam de homens, porque eram sapatões. As feministas se acovardaram diante dessas acusações e sacrificaram a questão lésbica para se manterem distantes desse estigma. O grau de invisibilidade a que as lésbicas ficaram sujeitas dentro do MF foi maior ou menor de acordo com a capacidade destas de aceitarem ou não essa situação. Nos EUA, onde as lésbicas já tinham alguma articulação até antes da emergência do feminismo, essa política não vigorou. No Brasil e em outros países da América Latina, essa política foi hegemônica até o início deste século. 

Acontece que a História pregou uma peça nas feministas. A mesma sociedade machista que as acusava de sapatões por reivindicarem direitos iguais para as mulheres acabou, 26 anos depois, transformando as lésbicas em fetiche da mídia e tirando as feministas e o feminismo da pauta das redações. Prova de que não vale a pena fazer certas barganhas. Principalmente do início do milênio para cá, à parte toda a evidência trazida pelas Paradas do Orgulho LGBT, começaram a surgir personagens lésbicas em novelas, seriados, atrizes e cantoras dando selinhos em amigas, cantoras hétero se fazendo passar por lésbicas, como jogada de marketing, até chegarmos recentemente à novelinha lésbica que é o seriado americano The L Word, onde sobram cenas tórridas de sexo entre mulheres em plena TV. Quem diria, não? 

Nessas circunstâncias, depois de 2001, as feministas homossexuais começaram a se interessar pela organização lésbica que, aos trancos e barrancos, foi de qualquer forma crescendo paralelamente ao MF. Esse interesse se concretizou exatamente em 2003, quando do lançamento do Dia do Orgulho Lésbico e da realização do V SENALE, onde de fato se lançou também o dia da visibilidade lésbica. A princípio algumas feministas homossexuais ficaram em dúvida sobre o que fazer diante da existência de desses dias lésbicos, mas depois consideraram mais oportuno apoiar o dia da visibilidade. 

Se fosse só apoiar, contudo, não haveria problema. Mas elas resolveram encampar a campanha difamatória e injuriosa contra as pessoas que lançaram o Dia do Orgulho Lésbico, com armações e articulações nada condizentes com os princípios feministas (o que será isso?) ou de direitos humanos. Os ataques visaram atingir a credibilidade das pessoas que lançaram o Dia do Orgulho e a validade do mesmo, inclusive com ameaças de ostracismo político contra aquelas e aqueles que naturalmente apoiavam o dia. 

Então, nós tivemos dois movimentos na construção do dia da visibilidade: 

1) primeiro, o da afirmação do dia, através do mito de que ele teria sido lançado por mais de 100 ativistas lésbicas, em 1996, e conseqüentemente comemorado desde então e

2) segundo, o do ataque à credibilidade das pessoas que lançaram o Dia do Orgulho Lésbico e à validade do mesmo. Neste segundo movimento, procurou-se invalidar o Dia do Orgulho dizendo que ele não tinha sido tirado numa plenária, pois só uma plenária daria aval a tais comemorações. Esqueceram-se, contudo, que os símbolos máximos de celebração da comunidade LGBT em todo o mundo, comemorados inclusive por estas mesmas pessoas, não saíram de nenhuma plenária. O Dia Internacional do Orgulho Gay, o dia 28 de junho, foi lançado por um grupo homossexual americano que capitalizou a revolta de Stonewall Inn e a bandeira do arco-íris foi criada por um artista gay americano e divulgada no meio LGBT passando a ser adotada internacionalmente. 

De fato, as razões para as feministas homossexuais terem se metido nessa pendenga (pendenga desnecessária, diga-se de passagem) remetem a uma repetição da História. Como já vimos anteriormente, o Movimento Feminista da década de 80, após o impacto do aparecimento dos grupos lésbicos em seu meio, absorve individualmente as ativistas lésbicas de então enquanto esvazia politicamente a questão lésbica. Quase duas décadas e meia depois, esse mesmo MF volta a absorver a organização lésbica brasileira, agora como apoiadoras da visibilidade lésbica (sic).

Na verdade, trata-se de um dos casos mais deslavados de cooptação e aparelhamento de um movimento por outro de que tenho notícia. Só para citar dois exemplos mais acintosos dessas ações: na caminhada lésbica de Sampa, em 2005, se viram mais bandeiras sobre o aborto do que bandeiras com temas lésbicos na avenida. No último SENALE, em Recife, viu-se a princípio, como propostas de temas para as mesas do encontro, novamente o aborto e os direitos sexuais e reprodutivos. Isso sem falar que o evento foi organizado por grupos como o Fórum de Mulheres de Pernambuco e, como se soube posteriormente, teve, em sua comissão organizadora, até mulheres heterossexuais, enquanto, ao mesmo tempo, não aceitou a presença de mulheres transexuais. Por fim, vem se notando também, nos últimos 3 anos, uma inflação repentina de grupos lésbicos, todos, contudo, se identificando também como feministas. 

Aqui, cabe um aparte, antes de encerrar este artigo que já se estende além de seus propósitos. O Movimento Feminista não é o Movimento Lésbico. Embora o Movimento Lésbico, em todas as partes do mundo, principalmente na América Latina, tenha muitas vezes intersectado ou tangenciado o Movimento Feminista, sua história e suas protagonistas não são as mesmas, o que fica evidente principalmente quando lembramos da política de despolitização da questão lésbica que o MF manteve durante décadas. 

Outrossim, o Movimento Lésbico é composto, internacionalmente, além de lésbicas que se identificam como feministas, de lésbicas radicais, separatistas, políticas, de buches e femmes, lésbicas BDSMistas, lésbicas queer e de uma maioria de lésbicas que não está afinada com nenhuma tribo política, mas que, a seu modo, sempre foi mais visivelmente lésbica do que as feministas homossexuais jamais conseguiram ser nem no movimento que sempre carregaram nas costas. 

CONCLUINDO 

Como disse no início desse artigo, meu objetivo foi tornar visíveis as distorções históricas que se seguiram ao real lançamento do dia da visibilidade lésbica, tendo em vista que essas distorções violam a história da organização lésbica no Brasil, seus fatos e sua evolução natural. 

Resumindo, a principal distorção histórica, que passou a ser repetida exaustivamente principalmente depois de 2004, é de que o dia da visibilidade lésbica teria sido tirado por uma plenária de mais de 100 ativistas lésbicas, em 1996, quando em 1996 não havia sequer 6 grupos lésbicos no país inteiro. Outra distorção, decorrência da primeira, é a de que o dia da visibilidade lésbica teria sido celebrado desde 1996, ao ser lançado, quando de fato passou a ser celebrado apenas em 2003 para contrapor-se ao dia do orgulho lésbico.  

Tais fatos podem ser tranqüilamente levantados por qualquer pesquisador(a) que se disponha a rastrear essa história buscando registros dessas supostas mais de 100 ativistas lésbicas e de onde e como foram celebrados os dias da visibilidade lésbica antes de 2003. Seguramente, encontrará atividades públicas e visíveis de 2003 para cá, intituladas de visibilidade lésbica, mas antes só encontrará registros da primeira manifestação lésbica contra o preconceito e a discriminação que foi efetuada em 1983 num bar da capital paulistana chamado Ferro’s Bar. 

Meu segundo objetivo, foi tornar visível a campanha difamatória e injuriosa armada contra as pessoas e as organizações que lançaram o Dia do Orgulho Lésbico em 2003, tendo em vista invalidar o dia e afetar a credibilidade de suas promotoras para, entre outras coisas, por exemplo, impedir que artigos como este, que denunciam estas distorções, sejam levados em consideração. 

Cumpre finalizar lembrando que as razões para essas distorções têm motivações muito pouco auspiciosas que inclusive colocam em cheque o próprio espírito da luta de quem as produziu. Primeiro, provam a incapacidade dessas pessoas, que reivindicam da sociedade o respeito às diferenças, de respeitar as diferenças. Enquanto a motivação para a celebração do dia da visibilidade foram suas próprias qualidades intrínsecas, ele nunca saiu do papel. Quando se tratou de competir com outro dia e de, sobretudo, de tentar suprimir esse outro dia, o dia da visibilidade encontrou motivação para existir e expandir-se. Triste combustível esse. 

E esse afã supressor parte do mesmo princípio que levou a tantos na história da humanidade a acreditar no Deus único, no partido único, em tantas outras balelas únicas, cuja unicidade sempre precisou ser mantida às custas de muitas guerras morais ou materiais. No caso dessa pendenga dos dias lésbicos, não fosse por esse afã supressor de inspiração claramente fascista, ambas as datas seriam comemoradas por umas e outras, mais por umas, menos por outras, mas ambas seriam celebradas sem traumas por transeuntes dos dois eventos.

No entanto, fica muito difícil para as promotoras do dia da visibilidade lésbica explicar porque elas não celebram a primeira manifestação de visibilidade lésbica ocorrida no Brasil em 1983. Fica difícil explicar porque não celebram a memória da ativista (Rosely Roth) que encarnou – como ninguém – o conceito que essas pessoas têm de visibilidade lésbica. Melhor apagar todos esses incômodos questionamentos apagando a lembrança do evento que os origina.

Infelizmente, o afã supressor das promotoras do dia da visibilidade acabou criando um clima totalmente hostil à convivência entre os eventos, descambando para um vale-tudo destrutivo onde prevaleceu até agora a máxima maquiavélica de que os fins justificam os meios e a máxima goebeliana de que uma mentira repetida mil vezes ganha foros de verdade. 

Sabemos todos que há mentiras brancas cuja elucidação não vale a pena, pois as motivações que as criaram inclusive foram positivas. Há outras mentiras, no entanto, com as quais não podemos conviver assim como há princípios que não podemos barganhar. Que se comemore o dia da visibilidade lésbica não é um problema nem o objeto desse artigo, mas que ele pelo menos se sustente em sua realidade histórica e não em inverdades que atingem historica e moralmente muito mais do que a ele mesmo.  

Publicado originalmente, no site Um Outro Olhar, em 29 de agosto de 2006
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Miriam Martinho, 60 anos, é fundadora do Movimento Lésbico no Brasil, tendo organizado as primeiras entidades lésbicas brasileiras, a saber, Grupo Lésbico-Feminista (1979-1981), Grupo Ação Lésbica-Feminista (1981-1989) e Rede de Informação Um Outro Olhar (1989....). Editou também as primeiras publicações lésbicas do país, como o fanzine ChanacomChana (década de 80) e o boletim e posterior revista Um Outro Olhar (década de 90 até 2002). Atualmente edita o site Um Outro Olhar, lançado em junho de 2004, e o blog Contra o Coro dos Contentes, lançado em junho de 2008.

Fundou igualmente o movimento de saúde lésbica no Brasil, em 1994, realizando a primeira campanha de prevenção às DST-AIDS para mulheres que se relacionam com mulheres, em 1995, e editando as primeiras publicações sobre o tema desde essa época (em 2006 publicou a 4 edição da cartilha Prazer sem Medo sobre saúde integral para lésbicas e bissexuais). Participou da organização do I EBHO (1980), organizou dois encontros LGBT nacionais (VII EBLHO/93 e IX EBGLT/97) e foi sócia-fundadora da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis (ABGLT-1995). Participou igualmente de vários encontros internacionais com destaque para a IX Conferência Internacional do Serviço de Informação Lésbica Internacional-ILIS (Genebra, Suiça, 28 a 31/03/1986), o I Encontro de Lésbicas-Feministas Latino-Americanas e do Caribe (Taxco, México, 1987) e a Reunião de Reflexão Lésbica-Homossexual (Santiago, Chile/ nov. 1992).

Ver também:
Tributo a Rosely Roth e Livreto Dia do Orgulho das Lesbianas do Brasil
Agosto com orgulho: Repercussão do 19 de agosto na Imprensa
19 de Agosto: A noite em que as lésbicas invadiram seu próprio bar 
Agosto com orgulho: os primórdios da organização lésbica no Brasil

AUTONOMIA (dos movimentos sociais)

sexta-feira, 28 de agosto de 2015 2 comentários

Charge: Míriam Martinho, 12/06/1983

Hoje, dia 28 de agosto de 2015, completam-se 25 anos da partida de Rosely Roth, pioneira ativista lésbica, libertária e autonomista dos anos oitenta. Para homenageá-la, transcrevo um texto que ela escreveu, em 1983, sobre a imprescindível separação entre movimentos sociais e partidos. Ainda que seja necessário contextualizar historicamente o texto, em alguns aspectos, sua atualidade impressiona, principalmente quando ela diz: (Embora militantes digam que podem separar os objetivos do partido dos do movimento)  
"... Mas um partido tem um programa e um projeto para quase todas as questões. É toda uma estrutura partidária tradicional que a militante leva de alguma forma para o seu grupo."

Nada mais preciso, tanto que atualmente os movimentos sociais, como o LGBT, através dos militantes partidários, tornaram-se meras correntes de transmissão de partidos e suas ideologias, onde as questões específicas são sempre contingenciadas pelas prioridades oficiais em detrimento das prioridades da população a quem dizem representar.

Ilustrei o artigo de Rosely, na época, com a charge que também reproduzo acima e que, sem falsa modéstia, me parece ainda mais atual que o texto. 

Míriam Martinho
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AUTONOMIA
Rosely Roth

Para mim, quando penso na questão da autonomia, uma pergunta se coloca: como um grupo pode ser autônomo, se todas ou quase todas as suas integrantes estão em partidos? Da mesma forma, como posso me dizer independente (de quê?) e defensora da autonomia se estou e/ou acredito nos partidos como canais de mudanças radicais?

Creio que está, na teoria dos grupos feministas e homossexuais, a não reprodução da política tradicional (não cito os grupos de negros e ecologistas por falta de informações e porque a minha experiência se restringe ao movimento de mulheres e ao movimento homossexual). Entendo, por práticas políticas tradicionais, aquelas que reproduzem os valores vigentes: hierarquia, competição, divisão entre as que pensam e os que fazem, preocupação quase que exclusiva com a tomada do poder, entre outros valores. É a autorrepresentação do sistema. Os partidos políticos, em minha opinião, estão neste esquema: uns reproduzem mais os valores dominantes, outros reproduzem menos, mas as velharias básicas permanecem: a estrutura hierárquica, a falta de democracia interna, o machismo, a vontade do poder.

A experiência histórica dos países socialistas demonstrou até agora o fracasso dos partidos, da ditadura do proletariado ou sobre este. O que ficou claro é que um canal que reproduz valores opressivos não pode construir uma sociedade não opressiva. A recusa da organização, diz Lefort, vem da consciência de que, em todas elas, uma minoria de dirigentes se cinde da massa dos executantes, a informação se retrai para o espaço do poder, hierarquias manifestas ou ocultas se fazem suporte dos aparelhos, setores de atividades se fecham, o princípio de eficácia que rege a divisão do trabalho e do saber se faz passar por princípio de realidade, o pensamento se deposita e se petrifica em programas que assinalam a cada um os limites do que é permitido fazer e pensar (MATOS, Olgaria C.F. -Paris 1968, As barricadas do desejo).

É neste sentido, como consequência desta desilusão, que surgiram os movimentos alternativos em 70. Foi uma desilusão positiva, pois o descrédito quanto aos partidos não gerou alienação, inércia, morgação, mas propostas como a da organização de grupos de mulheres homossexuais e ecologistas: cujas discriminações (juntas com as dos negros), até então tinham sido consideradas menores pela política oficial pela política oficial dos sindicatos e dos partidos legais e clandestinos. Estes grupos tinham, como proposta inicial, procurar reinventar a política. A política tradicional, até então, separava o privado do público: o presidente de um partido poderia se considerar altamente revolucionário e ser um ditador com a mulher e os filhos. (“Aquele que fala de revolução sem mudar a vida cotidiana tem na boca um cadáver” —inscrição de Strasbourg durante maio de 1968.) Uma revolução radical deve começar no nosso cotidiano, já que cada ato executado envolve uma parte da nossa concepção e perspectiva de vida, cada ato pode conter também relações de poder.

A questão dos negros, mulheres, homossexuais e ecologistas eram vistas para depois da revolução. O orgasmo também. Sexualidade era considerada coisa da pequena burguesia. O proletariado não trepava (sic). A sacralização e mistificação de uma classe revolucionária, quase nunca presente nos partidos, também foi desmistificada em 68, quando os estudantes de Paris tomaram à frente durante as contestações radicais contra as estruturas de poder. O tão falado e sacralizado proletariado em sua maioria não saiu das reivindicações econômicas e permaneceu atrelado a suas organizações burocráticas. A crença num setor específico que nos libertará (no caso o proletariado) parece falsa. A prática vem demonstrando que são os diversos movimentos sociais, os setores oprimidos de um país: mulheres, operários (as), negros(as), ecologistas, homossexuais, camponeses, etc, que, através de suas lutas, podem conseguir a transformação social.  Estas lutas podem convergir em vários momentos, sem perderem as suas especificidades.

Penso que os grupos surgiram como alternativas políticas, tentando não reproduzir em seu meio a política tradicional. Isto significou trazer a questão das mulheres, dos homossexuais, negros e ecologistas, como questões políticas diretamente ligadas aos valores e padrões patriarcais, ao funcionamento opressivo da sociedade. O orgasmo, o prazer, passaram a ser conquistas a serem feitas no dia a dia. A revolução deixou de ser mito, algo para poucos iluminados de uma vanguarda, mas passou a ser algo que deve ser construído no cotidiano.

Querer reinventar a política dentro dos partidos, já em si um veículo tradicional de se fazer política, parece no mínimo contraproducente. É uma questão de opção. Onde empregar as energias? Para mim, como lésbica-feminista, prefiro empregá-las dentro do meu grupo e para o movimento de mulheres e homossexual. Se quero reinventar a política, procurarei pensar em formas de organização alternativas aos partidos, que até agora fracassaram historicamente e atuar em cima disto. Existe uma posição, bastante difundida, de que não há nada demais em se estar ao mesmo tempo em um partido e num grupo autônomo e de que uma coisa não exclui a outra. Várias defensoras desta posição acham que estar nos partidos, não as impede de serem "autônomas” e de pregarem a autonomia para o movimento de mulheres. Elas colocam que devemos separar os objetivos do movimento de mulheres daqueles dos partidos aos quais as mulheres se incorporaram. Isto na prática mostrou-se inviável, já que as mulheres se dividem, se enfraquecem por causa das suas posições partidárias, como ocorreu antes e durante as eleições de novembro (isto acontece ainda hoje). Como se daria esta separação entre os objetivos do partido e os do movimento? Nos partidos exercer-se-ia a política tradicional e nos grupos se tentaria questionar esta política e reinventá-la? Outras colocam que se não levarmos para os grupos as posições partidárias, tudo se ajeita. Mas um partido tem um programa e um projeto para quase todas as questões.

Além das discussões anteriores realizadas, por exemplo, sobre o movimento de mulheres, é toda uma estrutura partidária tradicional que a militante leva de alguma forma para o seu grupo. Além do que os partidos só se lembram de nós, mulheres, negros, homossexuais e ecologistas, na época de eleições para arrebanharem "votos ou no máximo nos cooptarem como bases das suas (nossas?) vontades de poder. Talvez uma "dupla” militante acredite que nos grupos ela discute as suas questões "específicas", e as gerais, como tomada do poder, no partido. Não entendo bem isto de questões “específicas” e “gerais”. Por exemplo: as nossas questões "específicas” como aborto, creches, lavanderias e restaurantes coletivos, contra as discriminações sobre a mulher negra e lésbica, entre outras, não podem ser resolvidas no capitalismo e não foram pelo socialismo. As nossas questões "específicas”,  para serem resolvidas, precisam da transformação total das sociedades, isto em termos internacionais. A mudança deve ser radical não podendo comportar nenhum tipo de opressão, e, para alcançá-la, é que começamos por construí-la no cotidiano.

Outra questão importante é que os partidos visam a tomada do poder. Tomar o poder para exercê-lo de forma diferente. Creio que toda autoridade (título dado a algumas pessoas que, segundo a educação por nós recebida, devem ser respeitadas e aceitas passivamente) é ridícula, mitos de nossas inseguranças, transferências para outro do que nós mesmas podemos fazer e não fazemos. A questão não é tomar o poder e sim dispersá-lo, descentralizar, para que não haja o poder de uns sobre outros. A autogestão política, econômica, social e cultural da sociedade, feita por todos os seus membros. Mas para isso acontecer é necessário que uma grande  parte da população acredite na sua própria capacidade de decisão e não delegue a sua vida para outros. Os partidos também são formas de se delegar as coisas.

É impossível negar as instituições autoritárias: escola, família, Igreja, partidos, entre outras, pois elas estão aí, e nós, de alguma forma, temos relações com estas instituições. Mas isto não significa que não podemos e não devemos criticá-las e tentar justificar ou destruir estas instituições. No caso dos partidos, podemos manter relações, sem entrar em nenhum. Isto acontece quando participamos de debates promovidos por algum deles, utilizamos alguma gráfica (deles) ou levamos alguma ação conjunta em determinado momento.

Estar nos partidos é não acreditar nos grupos como possíveis veículos de transformação social. Multiplicação dos grupos autônomos de negros, feministas, homossexuais, ecologistas e de outros setores oprimidos (camponeses, operários, etc..), pode gerar cooperativas, federações, ou seja, um ou mais organizações que poderão levar a mudanças radicais da sociedade. Estar em partidos é acreditar na política tradicional. Aposto que se, por exemplo, todas as feministas que estão nos partidos, saíssem (deles), o movimento feminista seria muito mais forte e capaz em termos teóricos e práticos, podendo até traçar uma organização alternativa. Este exemplo vale também para os outros movimentos sociais.

Finalizando, acredito que toda e qualquer mudança depende de cada um de nós e, neste sentido, repito: os grupos verdadeiramente autônomos, organizados conjuntamente, na unidade da diversidade, podem, através da prática interna levar à transformação total da sociedade. Os movimentos autônomos provam que é possível militar e atuar  como força alternativa aos partidos. Não dá mais para acreditar em tomada de poder. Então para que os partidos?
Fonte: Chana com Chana, n. 4, p.5-8, 1983 

Tributo a Rosely Roth, pioneira da visibilidade lesbiana no Brasil

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Fonte: Folha de São Paulo, 01 de junho de 1985

Rosely Roth
(21/08/59- 28/08/1990)

Por Míriam Martinho

Rosely Roth nasceu de família judia, em 21 de agosto de 1959, tendo cursado escolas judaicas e não-judaicas durante a infância e a adolescência e, posteriormente, formado-se em Filosofia (1981) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, onde também pós-graduava-se em Antropologia (85/86) com os trabalhos Vivências Lésbicas - Investigação acerca das vivências e dos estilos de vida das mulheres lésbicas a partir da análise dos bares freqüentados predominante por elas e Mulheres e Sexualidades.

Iniciou seu contato com o movimento de mulheres, no primeiro semestre de 1981, quando começou a participar simultaneamente dos grupos Lésbico-Feminista/LF (1979-1981) e SOS Mulher (1980-1983).

Em outubro de 1981, fundou comigo o Grupo Ação Lésbica-Feminista/GALF (1981-1990), um grupo a princípio de continuidade do grupo lésbico-feminista (cujo coletivo original se dispersara), mas que viria, no decorrer de sua existência, a desenvolver características próprias tanto em termos políticos quanto de atividades.

A partir de 1982, deixou de atuar no coletivo SOS Mulher, vindo a dedicar-se exclusivamente ao Grupo Ação Lésbica-Feminista (GALF) do qual foi figura de destaque seja por seus artigos, nas duas publicações da entidade – os boletins ChanacomChana (12/82 a 05/87) e Um Outro Olhar (até 1990) - e pela organização de debates, com outros grupos dos Movimentos Feminista, Homossexual e Negro, além de com parlamentares da época, seja por sua participação em atividades externas (manifestações, encontros, simpósios, congressos) ou por sua presença constante, publicamente lésbica, na mídia brasileira.

Rosely no III Encontro Feminista
 Latino-Americano e do Caribe
Entre as inúmeras atividades que realizou, por seu impacto político, destacam-se: 1) a organização da manifestação de protesto de 19/08/83, junto aos proprietários do Ferro’s Bar (o mais antigo e tradicional bar lésbico do Brasil) que não permitiam a venda do boletim Chanacomchana em seu recinto, apesar de este ser sustentado fundamentalmente por lésbicas, e que reuniu ativistas do movimento homossexual e feminista, parlamentares e representantes da OAB, com bastante destaque na mídia, e 2) duas participações (25/05/85-20/04/86) em programas da apresentadora Hebe Camargo (uma das mais populares do Brasil), em cadeia nacional, falando aberta e tranqüilamente sobre lesbianidade, com grande repercussão na imprensa e junto à própria comunidade lésbica e gay.

Rosely Roth foi pioneira no que se convencionou chamar de “política da visibilidade” em uma época (década de 80) em que, com raras exceções, ninguém mais o fazia, aliando aparições públicas, geralmente marcantes, a uma fundamentação teórica que lhe permitiu ir além do ramerrão vitimista e reformista que muitas vezes caracteriza o discurso e as atividades dos grupos sociais discriminados. 

Na década de 90, a visibilidade ganhou as páginas dos jornais, os programas de TV e até as ruas, em manifestações de orgulho cada vez maiores e com várias pessoas dando as caras, mas até hoje, não surgiu quem superasse em excelência, Rosely Roth como a ativista lésbica do Brasil. Em sua homenagem, republico, anualmente, um seu texto muito significativo, chamado AUTONOMIA (dos movimentos sociais)  bem como o texto informativo sobre a manifestação do Ferro's Bar que ela liderou.  Reproduzo, neste ano, de 2015, matéria da Folha de São Paulo que relata a polêmica surgida quando da primeira participação de Rosely no programa da apresentadora Hebe Camargo.

Fonte: Revista Um Outro Olhar, n. 33, Ano 14, Outubro-Dezembro de 2001. Fonte matéria abaixo: Folha de São Paulo, 01/06/1985


 
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