Solta tabeliã americana homofóbica na condição de não interferir na emissão de licenças de casamento para casais LGBT

quarta-feira, 9 de setembro de 2015 0 comentários

Com a prisão, Kim Davis virou heroína para milhares
 de americanos que se opõem ao casamento gay

Funcionária de cartório que se negava a casar gays é libertada nos EUA

A funcionária pública americana que foi enviada à prisão porque se negava a emitir certidões de casamento para homossexuais foi libertada terça-feira (08/09) porque seu condado, no estado rural do Kentucky (centro), já está obedecendo a lei de oficializar os matrimônios.

Kim Davis estava na prisão desde quinta-feira passada por desacato à autoridade.

A cristã devota de 49 anos se negava a emitir as certidões de casamento alegando que suas crenças religiosas são contrárias ao casamento gay, que é legal desde junho em todos os Estados Unidos.

Um juiz federal ordenou que seja libertada imediatamente, já que cinco dos seis adjuntos de Davis no condado de Rowan "declararam sob juramento que obedecerão a ordem do tribunal e emitirão certidões de casamento a todos os casais legalmente aptos".

Davis recebeu a ordem de "não interferir de nenhuma maneira, direta ou indiretamente", na emissão de tais certidões, escreveu o juiz David Bunning, advertindo que será punida se não agir desta forma.

Ao se negar a emitir as certidões de casamento a casais do mesmo sexo, Davis passou de uma simples funcionária pública a uma heroína para milhares de americanos que se opõem ao casamento gay. Inclusive foi elogiada por vários candidatos presidenciais do Partido Republicano.

No fim de junho, a Suprema Corte dos Estados Unidos legalizou o casamento entre homossexuais em todo o país, uma decisão histórica e uma vitória emblemática do presidente democrata Barack Obama.

Fonte: Estado de Minas, 08/09/2015

Presa tabeliã americana que se negava a emitir licenças de casamento para casais de mesmo sexo

terça-feira, 8 de setembro de 2015 0 comentários

Kim Davis em foto divulgada pelo Centro de Detenção do condado de Carter, na quinta (3)
 (Foto: Carter County Detention Center via AP)

Tabeliã americana cita Deus para negar licença de casamento a gays
Kim Davis entrou com ação judicial para negar casamento entre gays. Desde junho, homossexuais podem oficializar união nos Estados Unidos.
Uma tabeliã americana, que se recusou a emitir licenças de casamento para casais homossexuais, invocou a "autoridade de Deus" para desafiar uma decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos.

Em um embate de forças que durou dois meses, Kim Davis, tabeliã do condado de Rowan, em Kentucky, citou suas crenças religiosas para sustentar suas ações.

Na segunda-feira (31), a Suprema Corte rejeitou o pedido de ordem de emergência feito por Kim, que lhe permitiria negar licenças de casamento para casais de pessoas do mesmo sexo, enquanto apela da ordem de um juiz federal que a obriga a emiti-las.

Nesta terça-feira (1º), quando indagada sobre com qual autoridade ela recusava os documentos, a tabeliã respondeu "com a autoridade de Deus", repudiando a corte que, em junho, decidiu que a constituição americana concede aos casais gays o direito de se casarem.

Em julho, oito pessoas entraram com uma ação civil federal contra Kim, contestando a política de seu gabinete de não emitir licenças de casamento para qualquer casal, gay ou heterossexual.

Tabeliã dos EUA que negou licença de casamento a gays é presa
Juiz determinou prisão de Kim Davis por desacato na quinta (3). Por crenças religiosas, ela se negava a cumprir ordem da Suprema Corte.

Uma tabeliã do Estado norte-americano de Kentucky que se recusou a emitir licenças de casamento para casais homossexuais por motivos religiosos foi colocada sob custódia por um juiz federal nesta quinta-feira (3) por ter cometido desacato.

Kim Davis, tabeliã do condado de Rowan, foi retirada da corte por policiais federais, que confirmaram que ela estava presa.

“O tribunal não faz isto levianamente”, disse o juiz David Bunning ao ordenar que ela fosse posta sob custódia.

Citando suas crenças religiosas, Kim negou licenças de casamento para qualquer casal, gay ou heterossexual, desde que a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu, em junho último, que a Constituição dos EUA concede aos pares gays o direito de se casarem.

Antes da audiência, cerca de 200 manifestantes dos dois lados se reuniram do lado de fora da corte, alguns entoando frases de efeito e muitos empunhando cartazes.


Fonte: G1, 01/09/2015
   

Turistas LGBT já contribuem com cerca de US$ 6,8 bilhões para a economia espanhola

quarta-feira, 2 de setembro de 2015 0 comentários


Europa quer a atenção de turistas LGBT

Turistas homossexuais gastam cerca de 30% a mais dos que a média dos demais turistas

A Espanha está ganhando a batalha por turistas homossexuais, homens e mulheres. Visitantes LGBT já contribuem com cerca de US$ 6,8 bilhões à economia espanhola, de acordo com relatório da LGBT Capital, tirando da França o posto de principal destino turístico gay.

Turistas homossexuais gastam cerca de 30% a mais dos que a média dos demais turistas na Espanha, de acordo com estimativas do governo, alavancando um setor que responde por 12% dos empregos.

Enquanto um crescente número de países, como França e Reino Unido, introduz uma legislação de direitos iguais e promove a visitação de gays, a Espanha está na frente de batalha. Mesmo a liderança conservadora de Madri está abraçando essa causa.

Em 2005, a Espanha se tornou o terceiro país europeu a legalizar o casamento gay — depois de Bélgica e Holanda —, saindo da sombra da ditadura católica do general Francisco Franco, que morreu em 1975. Essa medida deu ao país a credencial de destino de férias onde as pessoas podem ser sentir tranquilas em relação à sua sexualidade — de tal maneira que alguns não querem nem voltar para casa.
É muito tolerante e é divertido — disse Fabiano Ribeiro, um brasileiro de 32 anos, que visita Barcelona com dois amigos. — A gente anda de mãos dadas sem nenhum problema.
Todo mês de agosto, Barcelona abriga o maior festival gay da Europa, atraindo 71 mil visitantes só este ano. Durante duas semanas, a segunda cidade da Espanha é tomada de imagens de modelos masculinos para divulgar festas para os visitantes gays e sinalizar lojas com ofertas especiais, de espreguiçadeiras a entradas gratuitas para academias de ginástica. Além disso, a cidade é tomada por festas à beira da piscina e em boates.

Com ingressos para acesso total a € 360 (US$ 406), os organizadores de eventos geram € 150 milhões para a economia local. Após oito anos, o festival crescerá para Ibiza este ano e para as Ilhas Canárias, no ano que vem, respondendo ao aumento da demanda por eventos para gays e lésbicas.
Este fluxo de visitantes também vai para locais como bares, academias de ginástica, até mesmo motoristas de táxi acabam envolvidos — disse o organizador Tes Cuadreny. — Eles sabem que isso beneficia a todos.
Tais iniciativas tornaram a Espanha líder na Europa, à frente da França, que gera US$ 6,6 bilhões em receita, de acordo com a LGBT Capital, uma empresa de investimento baseada nas Ilhas Virgens Britânicas, que se concentra em ativos voltados para o público gay. Os Estados Unidos são líder global com uma receita de US$ 21,5 bilhões.

Em Madri, até o governo regional conservador está cedendo. Pela primeira vez desde sua vitória em maio, a presidente regional Cristina Cifuentes hasteou nos prédios do governo a bandeira do arco-íris, simbolizando o apoio aos homossexuais. Em 2005, seus colegas do Partido do Povo, do presidente do governo espanhol Mariano Rajoy, lideraram 100 mil manifestantes em uma marcha contra a legalização do casamento gay.

A capital espanhola gerou cerca de € 120 milhões desde a maior parada do orgulho gay no início do verão no Hemisfério Norte, de acordo com a organização de vida noturna Noche Madrid.
É um mercado de viagem de alta renda, que não está ligado a férias escolares e que normalmente é mais aventureiro — disse Carlos Kytka, diretor executivo da Associação Europeia de Turismo Gay, que tem mais de 4 mil associados, a maioria hotéis na Europa. — É fácil lotar hotéis no verão em Barcelona, o que nos torna diferente é que viajamos o ano inteiro e gastamos dinheiro. E isso faz o fluxo de dinheiro ser contínuo.
Fonte:  Tribuna da Bahia, 01/09/2015

Filha de Johnny Depp faz campanha a favor de quem não se define 100% como heterossexual

terça-feira, 1 de setembro de 2015 0 comentários

Lily-Rose Depp na Campanha The Self Evident Truths

A filha de Johnny Depp com Vanessa Paradis, Lily-Rose Depp, de 16 anos, é a protagonista de uma nova campanha que defende os direitos dos que não se definem como heterossexuais.

Lily-Rose, que também é modelo, decidiu emprestar sua imagem e dar seu apoio ao The Self Evident Truths, uma campanha a favor do LGBTQ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e 'Queer'), um esforço liderado pela fotógrafa lésbica iO Tillett Wright, e que luta para mostrar a diversidade sexual.

iO Tillett Wright e Lily-Rose Depp

A meta que querem cumprir com essa campanha é ter 10 mil fotos de americanos que 'se identificam com tudo o que não é 100% hetero'.

Rose compartilhou algumas imagens da campanha em suas redes sociais.

A modelo Cara Delevingne colaborou com essa campanha em 2014, a intenção dela e dos demais é lutar contra a discriminação contra os LGBTQ.

Lily-Rose Depp também investe na música e aparece no vídeo do rapper Rejiie Snow (aos 2:12)

Segue também vídeo onde iO Tillett Wright fala sobre seu projeto.

Com informações de O Fuxico (30/08) e outros sites

Cartilha Prazer Sem Medo (saúde e sexualidade para lesbianas)

segunda-feira, 31 de agosto de 2015 0 comentários

A cartilha Prazer Sem Medo - Informações para Mulheres que Transam com Mulheres teve 5 edições (1995, 1996, 2000, 2006 e 2008) publicadas pela Rede de Informação Um Outro Olhar e financiadas pelo PN-DST/AIDS do Ministério da Saúde e a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo.

Aborda a prevenção a doenças sexualmente transmissíveis e outros problemas de saúde específicos da condição lesbiana dentro de um contexto de saúde integral da mulher. Integrou o primeiro projeto brasileiro sobre saúde para mulheres que se relacionam com mulheres, de 1995, intitulado Mulheres & Mulheres: Prazer Sem Medo e foi  publicada posteriormente, de forma independente do projeto original, até 2008.

Duas de suas edições foram distribuídas durante as paradas do orgulho LGBT de São Paulo. A versão digitalizada abaixo é a última de 2008.

Míriam Martinho

São Paulo, 31/08/2015

Rosely Roth e a autonomia dos movimentos sociais

sexta-feira, 28 de agosto de 2015 2 comentários


No dia 28 de agosto deste ano de 2022, completam-se 32 anos da partida de Rosely Roth, pioneira ativista lésbica, libertária e autonomista dos anos oitenta. Para relembrá-la, transcrevo um seu texto de 1983, sobre a imprescindível separação entre movimentos sociais e os partidos. Ainda que seja necessário contextualizar historicamente o texto, em alguns aspectos, sua atualidade permanece, principalmente quando diz: (Embora militantes insistam que conseguem separar os objetivos do partido dos do movimento)
"... Mas um partido tem um programa e um projeto para quase todas as questões. É toda uma estrutura partidária tradicional que a militante leva de alguma forma para o seu grupo."

Nada mais preciso tanto que atualmente até datas históricas dos movimentos sociais são organizadas por partidos, e ninguém vê nada demais nisso. Nos primórdios do movimento pelos direitos homossexuais, do qual Rosely fez parte, porém, os ativistas eram muito mais conscientes da necessidade de separação dessas duas instâncias de se fazer política.

O GALF que Rosely fundou comigo, em outubro de 1981, portanto, era um grupo autonomista e libertário que não aceitava dupla militância fosse em partidos ou outros movimentos. Acreditava nos movimentos sociais como alternativas aos partidos tradicionais e suas estruturas hierárquicas e obsessões pela tomada de poder. Ponderava que, para os ativistas da dupla militância, as questões específicas eram sempre contingenciadas pelas prioridades partidárias em detrimento das prioridades da população a quem dizem representar. Daí sua militância ser conflitiva e muitas vezes contraproducente. 

Que diria Rosely, se viva fosse, das múltiplas cooptações pelas quais passou o ativismo lésbico da qual foi uma das pioneiras a ponto de ter degenerado num movimento de alhos com bugalhos que não só não defende mais os direitos homossexuais e das mulheres como inclusive os deteriora? Adeptas desse desmovimento LGBTQIA+ andaram usurpando a imagem de Rosely para colocá-la como pioneira dessa degeneração. Não sei exatamente o que ela diria de tantas cooptações da organização lésbica já ocorridas, mas, sobre ter algo a ver com o tal desmovimento LGBTQIA+, seguramente mandaria, aos que a colocaram nessa roubada, um sonoro VTNC.

Ilustrei o artigo de Rosely, na época, com a charge que também reproduzo acima e que, sem falsa modéstia, me parece ainda mais atual que o texto. 


Míriam Martinho
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AUTONOMIA
Rosely Roth

Para mim, quando penso na questão da autonomia, uma pergunta se coloca: como um grupo pode ser autônomo, se todas ou quase todas as suas integrantes estão em partidos? Da mesma forma, como posso me dizer independente (de quê?) e defensora da autonomia se estou e/ou acredito nos partidos como canais de mudanças radicais?

Creio que está, na teoria dos grupos feministas e homossexuais, a não reprodução da política tradicional (não cito os grupos de negros e ecologistas por falta de informações e porque a minha experiência se restringe ao movimento de mulheres e ao movimento homossexual). Entendo, por práticas políticas tradicionais, aquelas que reproduzem os valores vigentes: hierarquia, competição, divisão entre as que pensam e os que fazem, preocupação quase que exclusiva com a tomada do poder, entre outros valores. É a autorrepresentação do sistema. Os partidos políticos, em minha opinião, estão neste esquema: uns reproduzem mais os valores dominantes, outros reproduzem menos, mas as velharias básicas permanecem: a estrutura hierárquica, a falta de democracia interna, o machismo, a vontade do poder.

A experiência histórica dos países socialistas demonstrou até agora o fracasso dos partidos, da ditadura do proletariado ou sobre este. O que ficou claro é que um canal que reproduz valores opressivos não pode construir uma sociedade não opressiva. A recusa da organização, diz Lefort, vem da consciência de que, em todas elas, uma minoria de dirigentes se cinde da massa dos executantes, a informação se retrai para o espaço do poder, hierarquias manifestas ou ocultas se fazem suporte dos aparelhos, setores de atividades se fecham, o princípio de eficácia que rege a divisão do trabalho e do saber se faz passar por princípio de realidade, o pensamento se deposita e se petrifica em programas que assinalam a cada um os limites do que é permitido fazer e pensar (MATOS, Olgaria C.F. -Paris 1968, As barricadas do desejo).

É neste sentido, como consequência desta desilusão, que surgiram os movimentos alternativos em 70. Foi uma desilusão positiva, pois o descrédito quanto aos partidos não gerou alienação, inércia, morgação, mas propostas como a da organização de grupos de mulheres homossexuais e ecologistas: cujas discriminações (juntas com as dos negros), até então tinham sido consideradas menores pela política oficial dos sindicatos e dos partidos legais e clandestinos. Estes grupos tinham, como proposta inicial, procurar reinventar a política. A política tradicional, até então, separava o privado do público: o presidente de um partido poderia se considerar altamente revolucionário e ser um ditador com a mulher e os filhos. (“Aquele que fala de revolução sem mudar a vida cotidiana tem na boca um cadáver” —inscrição de Strasbourg durante maio de 1968.) Uma revolução radical deve começar no nosso cotidiano, já que cada ato executado envolve uma parte da nossa concepção e perspectiva de vida, cada ato pode conter também relações de poder.

A questão dos negros, mulheres, homossexuais e ecologistas eram vistas para depois da revolução. O orgasmo também. Sexualidade era considerada coisa da pequena burguesia. O proletariado não trepava (sic). A sacralização e mistificação de uma classe revolucionária, quase nunca presente nos partidos, também foi desmistificada em 68, quando os estudantes de Paris tomaram à frente durante as contestações radicais contra as estruturas de poder. O tão falado e sacralizado proletariado em sua maioria não saiu das reivindicações econômicas e permaneceu atrelado a suas organizações burocráticas. A crença num setor específico que nos libertará (no caso o proletariado) parece falsa. A prática vem demonstrando que são os diversos movimentos sociais, os setores oprimidos de um país: mulheres, operários (as), negros(as), ecologistas, homossexuais, camponeses, etc., que, através de suas lutas, podem conseguir a transformação social.  Estas lutas podem convergir em vários momentos, sem perderem as suas especificidades.

Penso que os grupos surgiram como alternativas políticas, tentando não reproduzir em seu meio a política tradicional. Isto significou trazer a questão das mulheres, dos homossexuais, negros e ecologistas, como questões políticas diretamente ligadas aos valores e padrões patriarcais, ao funcionamento opressivo da sociedade. O orgasmo, o prazer, passaram a ser conquistas a serem feitas no dia a dia. A revolução deixou de ser mito, algo para poucos iluminados de uma vanguarda, mas passou a ser algo que deve ser construído no cotidiano.

Querer reinventar a política dentro dos partidos, já em si um veículo tradicional de se fazer política, parece no mínimo contraproducente. É uma questão de opção. Onde empregar as energias? Para mim, como lésbica-feminista, prefiro empregá-las dentro do meu grupo e para o movimento de mulheres e homossexual. Se quero reinventar a política, procurarei pensar em formas de organização alternativas aos partidos, que até agora fracassaram historicamente e atuar em cima disto. Existe uma posição, bastante difundida, de que não há nada demais em se estar ao mesmo tempo em um partido e num grupo autônomo e de que uma coisa não exclui a outra. Várias defensoras desta posição acham que estar nos partidos, não as impede de serem "autônomas” e de pregarem a autonomia para o movimento de mulheres. Elas colocam que devemos separar os objetivos do movimento de mulheres daqueles dos partidos aos quais as mulheres se incorporaram. Isto na prática mostrou-se inviável, já que as mulheres se dividem, se enfraquecem por causa das suas posições partidárias, como ocorreu antes e durante as eleições de novembro (isto acontece ainda hoje). Como se daria esta separação entre os objetivos do partido e os do movimento? Nos partidos exercer-se-ia a política tradicional e nos grupos se tentaria questionar esta política e reinventá-la? Outras colocam que se não levarmos para os grupos as posições partidárias, tudo se ajeita. Mas um partido tem um programa e um projeto para quase todas as questões.

Além das discussões anteriores realizadas, por exemplo, sobre o movimento de mulheres, é toda uma estrutura partidária tradicional que a militante leva de alguma forma para o seu grupo. Além do que os partidos só se lembram de nós, mulheres, negros, homossexuais e ecologistas, na época de eleições para arrebanharem "votos ou no máximo nos cooptarem como bases das suas (nossas?) vontades de poder. Talvez uma "dupla” militante acredite que nos grupos ela discute as suas questões "específicas", e as gerais, como tomada do poder, no partido. Não entendo bem isto de questões “específicas” e “gerais”. Por exemplo: as nossas questões "específicas” como aborto, creches, lavanderias e restaurantes coletivos, contra as discriminações sobre a mulher negra e lésbica, entre outras, não podem ser resolvidas no capitalismo e não foram pelo socialismo. As nossas questões "específicas”,  para serem resolvidas, precisam da transformação total das sociedades, isto em termos internacionais. A mudança deve ser radical não podendo comportar nenhum tipo de opressão, e, para alcançá-la, é que começamos por construí-la no cotidiano.

Outra questão importante é que os partidos visam a tomada do poder. Tomar o poder para exercê-lo de forma diferente. Creio que toda autoridade (título dado a algumas pessoas que, segundo a educação por nós recebida, devem ser respeitadas e aceitas passivamente) é ridícula, mitos de nossas inseguranças, transferências para outro do que nós mesmas podemos fazer e não fazemos. A questão não é tomar o poder e sim dispersá-lo, descentralizar, para que não haja o poder de uns sobre outros. A autogestão política, econômica, social e cultural da sociedade, feita por todos os seus membros. Mas para isso acontecer é necessário que uma grande parte da população acredite na sua própria capacidade de decisão e não delegue a sua vida para outros. Os partidos também são formas de se delegar as coisas.

É impossível negar as instituições autoritárias: escola, família, Igreja, partidos, entre outras, pois elas estão aí, e nós, de alguma forma, temos relações com estas instituições. Mas isto não significa que não podemos e não devemos criticá-las e tentar justificar ou destruir estas instituições. No caso dos partidos, podemos manter relações, sem entrar em nenhum. Isto acontece quando participamos de debates promovidos por algum deles, utilizamos alguma gráfica (deles) ou levamos alguma ação conjunta em determinado momento.

Estar nos partidos é não acreditar nos grupos como possíveis veículos de transformação social. Multiplicação dos grupos autônomos de negros, feministas, homossexuais, ecologistas e de outros setores oprimidos (camponeses, operários, etc..), pode gerar cooperativas, federações, ou seja, um ou mais organizações que poderão levar a mudanças radicais da sociedade. Estar em partidos é acreditar na política tradicional. Aposto que se, por exemplo, todas as feministas que estão nos partidos, saíssem (deles), o movimento feminista seria muito mais forte e capaz em termos teóricos e práticos, podendo até traçar uma organização alternativa. Este exemplo vale também para os outros movimentos sociais.

Finalizando, acredito que toda e qualquer mudança depende de cada um de nós e, neste sentido, repito: os grupos verdadeiramente autônomos, organizados conjuntamente, na unidade da diversidade, podem, através da prática interna levar à transformação total da sociedade. Os movimentos autônomos provam que é possível militar e atuar como força alternativa aos partidos. Não dá mais para acreditar em tomada de poder. Então para que os partidos?


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