Deputada evangélica Júlia Marinho quer alterar o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para proibir a adoção de crianças por casais homoafetivos.

sexta-feira, 27 de março de 2015 0 comentários

Integrante da bancada evangélica, Júlia quer
 evitar que casais homoafetivos adotem

Deputada quer proibir adoção por casal homoafetivo

Em proposta apresentada na Câmara, Júlia Marinho alega que família composta por dois pais ou duas mães “não logra ampla aceitação social” e pode gerar “desgaste psicológico e emocional” na criança adotada. Ex-ministra vê retrocesso

A deputada Júlia Marinho (PSC-PA), integrante da bancada evangélica da Câmara, apresentou um projeto de lei com o intuito de alterar o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), de maneira que seja proibida a adoção de crianças por casais homoafetivos. A proposição foi apresentada no dia 6 de março e tramita na Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara.

O projeto de lei pretende incluir mais um parágrafo, dentro do artigo 42 do ECA. Esse dispositivo estabelece regras para a adoção de crianças no Brasil. Hoje, para ser pai ou mãe adotiva, a pessoa precisa ter 18 anos, ter pelo menos 16 anos a mais que o adotado e garantir a segurança da criança ou do adolescente. Mas a parlamentar quer incluir mais uma condicionante para as adoções: “É vedada a adoção conjunta por casal homoafetivo”, aponta o projeto.

Júlia afirma, no documento, que “o reconhecimento jurídico de união homoafetiva não implica automaticamente a possibilidade de adoção por estes casais, matéria que, a toda evidência, dependeria de lei”. A parlamentar alega, no projeto de lei, que família composta por dois pais ou duas mães “não logra ampla aceitação social” e “pode gerar desgaste psicológico e emocional” na criança adotada.
Assim, até que estudos científicos melhor avaliem os possíveis impactos sobre o desenvolvimento de crianças em tal ambiente e que a questão seja devidamente amadurecida, por meio de discussão no âmbito constitucionalmente previsto para tanto – o Parlamento, deve ser vedada a adoção homoparental”, defende a deputada.
O regramento legal da adoção não se sujeita ao das uniões civis ou ao do casamento. Cuida-se de instituto especial, que visa ao atendimento dos interesses do adotando, não se podendo alegar que sua vedação a casais homossexuais seja discriminação no acesso a um direito”, justifica a congressista.
É na família que as primeiras interações são estabelecidas, trazendo implicações significativas na forma pela qual a criança se relacionará em sociedade. O convívio familiar é o espaço de socialização infantil por excelência, constituindo a família verdadeira mediadora entre a criança e a sociedade”, afirma Júlia, logo em seguida. “O novo modelo de família, contrário ao tradicional, consagrado na referida decisão judicial, encontra ainda resistência da população brasileira”, justifica.
A proposta enfrenta resistência na Câmara. Ex-ministra da Secretaria de Direitos Humanos, a deputada Maria do Rosário (PT-RS) vê o projeto de lei como um retrocesso num país que tem garantido igualdade de direitos a todos os gêneros. 
Na última semana, a ministra Cármen Lúcia [do Supremo Tribunal Federal] tomou uma decisão inédita que assegurou a constituição da adoção por um casal homoafetivo. Essa garantia é um direito que ela assegurou às crianças. Lugar de criança não é em abrigo”, disse a petista. “Nessa decisão, a ministra também assegurou o direito a essas pessoas adultas que, como brasileiros, de ter uma família, de ter os seus filhos”, complementou.
Além dessa proposta, a bancada evangélica aposta em outro projeto que também inviabiliza, na prática, a adoção de crianças por casais homoafetivos, o chamado Estatuto da Família. O texto, que tramita em comissão especial, reconhece como família apenas a união entre um homem e uma mulher.

Na próxima sexta-feira (27), “beijaço” contra homofobia na praça São Salvador no Rio

quinta-feira, 26 de março de 2015 0 comentários

"Beijo na Praça" contra LGBTfobia acontece nesta sexta-feira (27)Reprodução / Facebook

Grupo organiza “beijaço” contra homofobia na praça São Salvador, no Rio

Um casal de homens teria sido agredido com copos de vidro durante um beijo no local

A comunidade LGBT organiza um beijaço para a próxima sexta-feira (27) na praça São Salvador, em Laranjeiras, zona sul do Rio. Segundo a organização, o ato surge como resposta a um episódio de homofobia que aconteceu no dia 1º de março no mesmo local. Um casal de homens teria sido agredido por outros dois frequentadores da praça com copos de vidro durante um beijo.

O casal teria buscado ajuda com guardas municipais e policiais militares que estavam próximos ao local, sem sucesso. A reação de alguns dos presentes na praça foi realizar um “beijaço” instantâneo, em apoio ao casal.

Segundo Thiago Bassi, um dos apoiadores do ato do dia 27, a reação gerou mais ódio.

— Quando esse grupo de 10, 12 pessoas, começou a se beijar, as pessoas jogaram mais copos e garrafas de vidro.

De acordo com o relato, os policiais militares só se dispuseram a levar o casal até a delegacia quando a multidão que assistia à c enaproferiu palavras de contra-agressão e vaias. As vítimas teriam sido questionadas sobre a possibilidade de ir na mesma viatura que os supostos agressores, o que não foi aceito.

Bassi afirma que a agressão aconteceu em frente ao bar Casa Brasil, que teria fornecido mais copos e garrafas para que a agressão não fosse interrompida. Procurado pelo R7, o bar afirmou que soube do caso, mas que não teria acontecido próximo ao estabelecimento.

Nas redes sociais, mais de 300 pessoas já confirmaram presença no “beijaço”. Bassi afirma que vários coletivos já declaram apoio ao evento. No manifesto da página, a organização explica que a frente de combate à LGBTfobia reúne “coletivos e ativistas que advogam por uma sociedade livre de exploração e qualquer tipo de preconceito”.

Em resposta ao preconceito contra a comunidade LGBTI, a frente de coletivos criou o site Tem Local, que reúne locais ditos lgbtfóbicos. O mapa colaborativo será lançado no dia do “beijaço”.

A concentração do ato começa às 18h. A partir das 20h haverá beijaço de hora em hora até as 23h. Haverá apresentação da banda da Orquestra Voadora, “guerra de purpurina” e presença de diferentes coletivos do movimento LGBT.

No dia 1º de abril também haverá uma nova ocupação, na rua Voluntários da Pátria, em Botafogo, zona sul do Rio. Bassi afirma que houve relatos de lesbofobia no local, que será ocupado com purpurina e panfletos com manifestos contra o preconceito.

Fonte: R7 Notícias, 23/03/2015

Vereador de Itatira (CE) apresenta projeto de semana de valorização da família contra "ditadura gay"

quarta-feira, 25 de março de 2015 0 comentários

Vereador de Itatira apresenta projeto contra "ditadura gay"
O autor da proposta é o vereador Anastácio Ribeiro Filho (PPS). Ele defende a criação da "semana de valorização da família". O evento seria anual e aconteceria todo dia 21 de outubro

Palco de repetidas denúncias de homofobia, o município de Itatira, a 176 quilômetros de Fortaleza, chamou, mais uma vez, a atenção de defensores dos direitos humanos. Na última sexta-feira, 20, um projeto de lei municipal propôs a criação da “semana de valorização da família”. O evento seria anual, todo 21 de outubro, e ensinaria valores contrários ao que o redator, o vereador Anastácio Ribeiro Filho (PPS), classificou como “ditadura gay”.

Em entrevista ao O POVO, Ribeiro Filho chegou a negar a autoria da proposta. Mas voltou atrás minutos depois. “Me inspirei na presidente Dilma para criar a semana de valorização da família. Ela sancionou, em 16 de maio de 2012, a Lei 12.647, que cria o dia de valorização da família”, argumenta.

No texto, o vereador acusa a mídia de prejudicar a família tradicional, a honra, o respeito e a decência e afirma: “(...) novos conceitos de família deixam de valorizar as pessoas para valorizar opções, orientações, seja lá como queiram se referir ao que chamo de ditadura gay”.

O presidente da Câmara Municipal de Itatira, Almir Costa (Pros), informa que ainda não há data marcada para votação. O projeto aguarda aprovação da Comissão de Constituição e Justiça, no prazo máximo de 15 dias, antes de seguir para o plenário. “A menos que haja mudança no texto, acredito que serei contra. Tem certas partes que não concordo, mas prefiro não comentar”, diz Costa.

Questionado sobre o conteúdo e as intenções da proposta, Ribeiro Filho encerrou a ligação e não respondeu às novas tentativas de contato do O POVO.

A advogada do Escritório de Direitos Humanos Frei Tito de Alencar, Luanna Marley, afirma que o projeto de lei, da forma como está escrito, é inconstitucional. “Homofobia não é crime no Código Penal, mas é uma discriminação, que pela Constituição é algo inadmissível”, explica.

Histórico

Há pouco mais de um mês, casos de violência contra homossexuais em Itatira mobilizaram a Secretaria de Direitos Humanos (SDH) da Presidência da República. O órgão federal pediu que instituições locais investigassem o grande número de denúncias recebidas pelo Disque 100, linha gratuita do governo federal.

Para Luanna Marley, que acompanhou o caso em fevereiro, o projeto de lei de Ribeiro Filho é uma prova de que o município é homofóbico. A advogada conta que foi pedido abertura de inquérito civil para apurar as denúncias.

A defensora diz ainda que o vereador, enquanto figura pública, não deveria ter postura discriminatória. Segundo ela, ele tem posição de influência ideológica. “O mais grave é que passa a incitar mais ainda um ódio que já existe contra a população LGBT do município”, diz.

SERVIÇO

Denúncias de homofobia:
Disque 100 (Ligação gratuita)
Secretaria Nacional de Direitos Humanos (CDH):www.sdh.gov.br/

Saiba mais

Se aprovada, a semana comemorativa sugerida pelo vereador entraria no calendário oficial do município e os custos estariam previstos no orçamento plurianual.

Com cerca de 20 mil habitantes, Itatira está entre os municípios mais pobres do Estado. Dados de 2009 do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece) mostram que a cidade tem o segundo pior em Índice de Desenvolvimento Social (IDS-O) do Ceará.

O município ocupa a posição 178, de 184, no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) estadual, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).

O Ceará é o 12º estado mais homofóbico do País, conforme a Secretaria de Direitos Humanos (SDH), com 1,69 denúncia a cada 100 mil habitantes.

Fonte: O Povo Online, 24/03/2015

As novelas e as novas formações familiares que já configuram 50,1% dos lares brasileiros

terça-feira, 24 de março de 2015 0 comentários

Teresa (Fernanda Montenegro) e Estela (Nathalia Timberg) são mães
de Rafael (Chay Suede) em Babilônia (Foto: Divulgação/TV Globo)

RIO - Um beijo, logo no primeiro capítulo de “Babilônia”, na segunda-feira, selou para os espectadores da novela das 21h a relação de Teresa (Fernanda Montenegro) e Estela (Nathalia Timberg). Juntas há décadas, as duas têm um filho, Rafael (Chay Suede), neto biológico de Estela. Mais cedo, na trama das 18h, “Sete vidas”, Regina Duarte é Esther, que recorreu, junto com a companheira (hoje já morta), a um banco de sêmen para gerar seus dois filhos, Laila (Maria Eduarda Carvalho) e Luis (Thiago Rodrigues).

Com três das maiores atrizes brasileiras, esses núcleos dos dois folhetins, que estrearam há pouco, refletem uma mudança em curso na sociedade brasileira: a formação clássica de família, com pai, mãe e filhos, já não é maioria no país.

O último censo do IBGE, em 2010, mostrou que as novas configurações familiares estão em 50,1% dos lares, ou seja, somam 28,647 milhões, 28.737 domicílios a mais que a formação clássica. São casais sem filhos, pais ou mães solteiros, netos criados por avós, irmãos e irmãs, casais gays, amigos convivendo, pessoas morando sozinhas, famílias “mosaico” (as dos “meus, os seus e os nossos filhos”)...

Alguns desses modelos vêm sendo representados na teledramaturgia. E nas duas novas tramas a diversidade chama a atenção. Em “Sete vidas”, a tal família “mosaico”, por exemplo, foi atualizada. Lígia (Débora Bloch) é a mãe do bebê Joaquim, fruto de seu relacionamento com Miguel (Domingos Montagner), e se casa com Vicente (Ângelo Antônio), pai de Pedro (Jayme Matarazzo), gerado com o esperma de um doador, que vem a ser Miguel.

Estranhamento do público? Só num primeiro olhar, crê a autora de Sete Vidas, Lícia Manzo.
Em princípio, qualquer mudança pressupõe medo e certa resistência, mas acredito que o afeto é capaz de nos conduzir por onde quer que seja. Onde falta tradição, é o afeto que irá legitimar todos os laços. Por conta da novela, assisti a documentários, reportagens e realities sobre filhos de doadores anônimos. Por trás de cada história, sempre uma nova família: mãe solteira com filho, duas mães, grupos de meio-irmãos de até 30 pessoas”, diz Lícia, que se amparou em pesquisas para criar sua novela cuja trama principal é a ligação de sete meio-irmãos gerados por um doador anônimo. “Em um trabalho que aborda um tema real e contemporâneo, a pesquisa para mim é imprescindível. De acordo com dados, a formação clássica deixou de ser maioria nos lares. E me pareceu oportuno dar voz a esses personagens”.
As múltiplas famílias também estão retratadas em Babilônia. Autor da trama ao lado de Gilberto Braga e João Ximenex Braga, Ricardo Linhares cita os exemplos presentes na trama das 21h: além de Rafael e suas duas mães, Teresa e Estela, há a mulher provedora, como Regina (Camila Pitanga), mãe solteira de Julia (Sabrina Nonata), que ajuda a mãe, Dora (Virginia Rosa), e o irmão, Diogo (Thiago Martins); Karen (Maria Clara Gueiros), que sustenta o lar junto com a mãe, Zélia (Rosi Campos), já que o marido, Luis Fernando (Gabriel Braga Nunes) vive desempregado. Há, ainda, Tadeu (Cesar Mello), responsável pelos irmãos Wolnei (Peter Brandão) e Carlinhos (Cauê Campos) depois da morte dos pais; e Fred (Filipe Ribeiro), que, após a separação dos pais, opta por morar com Carlos Alberto (Marcos Pasquim), entre outros.
“Os novos arranjos familiares não são modismo. São a realidade do dia a dia brasileiro. Quem não vê essa mudança não olha ao redor”, observa Linhares.
Em Babilônia, os autores contam não ter se apoiado em em pesquisas (“Somos 100% intuitivos”, afirma Ximenes), mas nem por isso estão afastados do que acontece no seu entorno.
O papel da novela é entreter. Acontece que o escritor busca, na vida real, matéria-prima para conflito. Babilônia, reflete a diversidade das famílias na vida real”, destaca Ximenes. Autores, atores e especialistas refletem sobre a realidade dos novos arranjos familiares representada em novelas
Estatuto da família
Já que os personagens das duas novelas foram criados há bastante tempo, coincidentemente, o debate sobre novas formações familiares está em voga no país. No último mês, as hashtags #emdefesadetodasasfamílias #somostodosfamília e #nossafamíliaexiste marcaram presença nas redes sociais em resposta ao desarquivamento do Projeto de Lei 6.583/2013, mais conhecido como o Estatuto da Família, pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que restringe família ao núcleo formado por um homem, uma mulher e seus descendentes. E que também proíbe a adoção de crianças por casais homoafetivos.
O Estatuto da Família não é excludente apenas com famílias homoafetivas, mas também com as diversas formações familiares contemporâneas”, comenta Linhares: “O estatuto é inconstitucional e anacrônico, poderia ter sido inventado por Aderbal Pimenta (Marcos Palmeira), o político corrupto e hipócrita da novela. A Constituição é clara: o Brasil é um país laico. Os fundamentalistas religiosos, portanto, não têm respaldo jurídico para tentar impor seu gosto pessoal”.
Lícia tem opinião similar: 
Me causa espanto a tentativa de criar um ‘manual de normalidade’ a esta altura, quando o modelo de família tradicional deixou de ser maioria nos lares brasileiros, me parece defasada e ingênua”.
Advogada especializada em adoção, Silvana Monte foi uma das que iniciaram a reação ao desarquivamento do projeto do Estatuto da Família. Ela comemora a presença de lares formados por múltiplas combinações nas novelas e acredita que isso ajuda sim a derrubar preconceitos.
Quando se coloca dois ícones da teledramaturgia como Fernanda e Nathalia numa relação homoafetiva que perdura, como qualquer casamento, até a terceira idade, você mostra para a sociedade que o amor supera o preconceito e a homofobia. A gente precisa realmente desmistificar essa questão”, avalia Silvana, que gostaria de ver Estela e Teresa engajadas na luta contra o estatuto usando as hashtags do movimento no Twitter.
Silvana explica que o estatuto não marginaliza apenas as famílias homoafetivas, mas todas as em que não há descendência biológica. Ela acredita que ver diferentes tipos de família na TV as tiram da ‘invisibilidade’.
Em Império, por exemplo, foi mostrada uma família poliafetiva, a de Xana (Aílton Graça), Naná (Viviane Araújo) e Antônio (Lucci Ferreira), que adota o menino Luciano (Yago Machado). Quando falamos de poliafetividade, não se trata de polissexualidade, isso não parecia haver nesse núcleo. A família hoje em dia se baseia no afeto e no carinho”.
Representar na TV com naturalidade os novos arranjos familiares é o propósito de autores e atores. E, mesmo sem militância, as obras mostram que ainda existe preconceito. Em uma cena de Babilônia, Teresa é chamada à escola do filho para ouvir que o menino ter duas mães não é bem aceito e seria melhor que ela fosse chamada de ‘tia’. Em Sete Vidas, Esther vê o filho se tornar um conservador.
Estamos mostrando um casal que tem uma vida comum. O preconceito está diminuindo, mas ainda está aí. A sociedade já caminhou bastante”, afirma Fernanda Montenegro.
Chay Suede completa:
O meu personagem não conhece outras mães que não sejam as dele, é super cabeça-feita e tem uma família como qualquer outra pessoa. Toda família é única”.
Naná (Viviane Araújo) e Xana (Aílton Graça), da recém-terminada Império, também são citados pela antropóloga Mirian Goldenberg:
É exemplo de família completamente fora do padrão, mas que convence por ter um lado humano. Afinal, quem disse que não existe vida sem sexo? A sociedade tem que passar a reconhecer os arranjos como legítimos, porque mesmo quando os comportamentos mudam, acho que os valores tradicionais ainda resistem”, defende ela.
O autor Aguinaldo Silva ressalta que, apesar de ficcionais, as novelas sempre procuram refletir o que acontece na vida real:
‘Para o bem ou para o mal’. “Seria hipocrisia fingir que isso não existe na ficção, não mostrar casais formados por pessoas gays, por exemplo. É um pouco obrigação do novelista tratar desse assunto de maneira positiva. A trama da Xana foi bastante avançada porque foram dois homens, uma mulher e uma criança juntos no final”.
Foi o que houve em Amor à Vida (2013), quando Walcyr Carrasco juntou Niko (Thiago Fragoso) e o malvado redimido Félix (Mateus Solano). O casal se beijou no último capitulo – cena que entrou para a história das telenovelas – e terminou com dois filhos, um biológico de Niko, gerado por inseminação, e o outro adotado.
O importante ao mostrar as diversas formações familiares atuais é promover a aceitação. Acho que o autor, em todos os seus trabalhos, tem que mostrar no que acredita, e eu acredito que a realidade é múltipla, com famílias tradicionais, conservadoras, liberais, inovadoras. Tudo faz parte de nosso mundo atual”.
Outro ponto que Walcyr destaca é Niko ter adotado Jayminho (Kaiky Gonzaga), um menino negro e já mais crescido:
Acho importante promover a adoção interracial. Crianças negras costumam ser rejeitadas na hora da adoção. Crianças mais velhas também. Quis quebrar esse paradigma”.
Triângulo
Já em 2007, Aguinaldo explica ter apostado em uma formação familiar ‘inédita’:
Em Duas Caras, fiz um triângulo formado pela Dália (Leona Cavalli), Bernardinho (Thiago Mendonça) e Heraldo (Alexandre Slaviero). Quando Dália fica grávida, eles optam por não saber quem é o pai. E a filha de Dália é registrada por dois pais”, recorda o autor.
Para Mírian, alguns tipos, no entanto, ainda não são muito retratados na ficção. Por exemplo, as mulheres que vivem sozinhas, que já somam 3,4 milhões em todo país. Isso, para a antropóloga, merece reflexão.
O legal é que as novelas estão mostrando que não existe um tipo de família, uma normalidade, uma obrigação. Só que eu acho que a novela ainda reforça a ideia de que para uma mulher ser normal, ela tem que casar e ter filhos no último capítulo. Talvez seja um avanço mostrar que a felicidade é subjetiva, mas ao mesmo tempo acho que todo mundo se sente obrigado a cumprir um padrão que ainda continua forte como modelo”, argumenta.
Filha da personagem de Regina Duarte em Sete Vidas, a atriz Maria Eduarda crê que a novela ajuda a tornar situações como essas mais ‘palpáveis’ aos olhos do espectador. Ela conta que, antes da trama, conversou com uma mulher que tinha dois filhos, um menino e uma menina, com sua companheira. Cada criança gerada por uma das mães por meio de inseminação.
Na escola, minha filha de 4 anos tem uma amiguinha com duas mães, outra que foi adotada por uma mãe solteira. Eu mesma não estou mais casada com o pai dela. Se antes esses arranjos eram vistos como fora do padrão, hoje configuram as infinitas possibilidades de família. O preconceito ainda está muito arraigado, falar e mostrar isso, é mais um jeito de ir contra ele”, analisa.
Doutor em teledramaturgia Brasileira e Latino-Americana na USP, e integrante da Academia Internacional de Artes e Ciências da Televisão de Nova York (Emmy), Mauro Alencar também acredita que entretenimento e reflexão andam juntos na teledramaturgia.
Afinal, a telenovela conseguiu extrair do cotidiano a matéria-prima para a sua ficção. Portanto, segue com seu propósito de mediadora social. Tudo o que a novela apresenta já está na sociedade. Sua maior virtude é apresentar, explicar, levar a uma compreensão e, com isso, transformar a dor, o conflito proposto, em manifestação artística”, explica.
Pioneira ao inserir em suas tramas avanços tecnológicos para criar dramas e conflitos nas histórias, como em Barriga de Aluguel (1990), Gloria Perez acredita que Lícia Manzo está se aprofundando no tema como Sete Vidas.
Em Barriga de Aluguel, eu quis discutir a configuração de uma nova família a partir de uma criança com duas mães. A maternidade, até então, era inquestionável, e sempre foi uma evidência. A paternidade, sim, era questionada. Mas e quando você separa óvulo do útero? Muita gente associa a gravidez ao parto. Quis discutir a ética disso. Hoje esse tema já figura no código. A genética sempre foi um assunto que me interessou. Tudo isso cria núcleos familiares novos”, observa Gloria.
Em Sete Vidas, por exemplo, Marlene (Cyria Coentro) é uma mulher que se separa já madura e precisa do banco de esperma para gerar seu filho, Bernardo (Ghilherme Lobo), sozinha.

Fertilização
As formas contemporâneas de fertilização podem até se transformar em comédia. Na série Pé na Cova, por exemplo, Odete Roitman (Luma Costa) e Tamanco (Mart’nália) decidem ter um filho por meio de inseminação artificial, usando como doador Marcão (Maurício Xavier), irmão de Tamanco. Mas as amostras são trocadas na clínica do Dr. Zóltan (Diogo Vilela), e nasce uma criança oriental para fazer parte da família, que já conta com o menino Sermancino (Gabriel Lima), adotado pelo casal. Na nova temporada da atração escrita por Miguel Falabella, prevista para o primeiro semestre, veremos como está essa família.
Desde o início, eu sabia que queria escrever uma comédia sobre a tolerância. A minha ideia principal era uma bizarra família do Irajá que se mantinha unida e em pé por causa de um conceito de família, e consequentemente uma família tolerante, já que eles eram todos ‘marginais’. Agora, o grande conflito é o novo filho do casal, a criança chinesa concebida por inseminação artificial”, adianta Falabella.
A expectativa de todos os autores parece ser, ao menos, fazer o público pensar:
Ao mostrar com naturalidade as novas famílias, as novelas levam o público a encarar de forma natural os novos arranjos que vê no dia a dia. O importante é ressaltar a igualdade de direitos de todos, não importa a orientação de cada um. O espectador não precisa concordar, mas refletir”, pondera Linhares. Colaborou Zean Bravo.
Fonte: CORREIO24HORAS, 23/03/2015

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