Memória lesbiana: há 34 anos surgia a Rede de Informação Um Outro Olhar, paladina da visibilidade lésbica

segunda-feira, 12 de abril de 2021 2 comentários

Trio elétrico da Um Outro Olhar em 2003

Registrada em 12 de abril de 1990, a Rede de Informação Lésbica Um Outro Olhar (RILUOO) marca o divórcio do Grupo Ação Lésbica Feminista (GALF/1981-1990) do movimento feminista, dando início a um ativismo focado nas questões e visibilidade lésbicas. De fato, o GALF já iniciara um processo de separação do movimento feminista desde 1985, priorizando mais a população lésbica do que as chamadas questões de gênero, por considerar contraproducente sua atuação num movimento que, à época, hostilizava sem pudores a visibilidade lésbica. Entre as feministas homossexuais do período prevalecia a ideia de que era necessário submergir a identidade lésbica na identidade feminista (o armário feminista) ou de que as lésbicas deveriam no máximo se contentar em realizar alguma oficina sobre “lesbianismo” perdida entre zilhões de outros temas heterossexuais dos encontros feministas. Grupo autônomo de lésbicas nem pensar.

As ativistas do GALF, contudo, vão progressivamente considerar que valia mais a pena tentar a autonomia, influenciadas pelo crescimento das organizações lésbicas em nível internacional e pela leitura do livro Lesbian Ethics da filósofa lésbica americana Sarah Lucia Hoagland e seu conceito de redes entre sapatas. Com esta nova perspectiva em mente, as integrantes do GALF passaram a gerar a Um Outro Olhar a partir dos últimos 2 meses de 1989, oficializando-a em abril do ano seguinte.

Entre inúmeras produções e atividades, ao longo de sua trajetória, a Um Outro Olhar publicou o título Um Outro Olhar, primeiro como boletim (11 edições), depois como revista (14 edições). A partir de 1995, como parte do pioneiro projeto Prazer sem Medo, financiado pelo Ministério da Saúde, publicou também o boletim Ousar Viver (15 edições) sobre saúde lésbica em geral, encartado na revista Um Outro olhar, a cartilha Prazer sem Medo, e vários outros materiais sobre prevenção a doenças sexualmente transmissíveis e saúde lésbica em geral.

Na organização de atividades, destacaram-se, entre suas realizações, a organização do VII Encontro de Lésbicas e homossexuais, em setembro de 1993, inserindo a palavra lésbica no nome do encontro e inaugurando o movimento de gays e lésbicas brasileiro, antigo Movimento Homossexual, e o IX Encontro Brasileiro de Lésbicas e Travestis, em fevereiro de 1997, que inspirou a I Parada GLT de SP. Destacou-se também pelo lançamento do Dia Do Orgulho Lésbico, em 2003, em homenagem à primeira manifestação lésbica contra a discriminação e à memória de Rosely Roth, destaque do evento. Participou ainda pioneiramente da maior parte das edições das Paradas LGBT de São Paulo até 2009, sempre buscando garantir a visibilidade lésbica num evento até hoje majoritariamente masculino.


A Um Outro Olhar foi igualmente sócia-fundadora da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis (ABGLT-1995) e participou de vários outros encontros, nacionais e internacionais, como a Reunião de Reflexão Lésbica-Homossexual (Santiago, Chile/ nov. 1992), a 17ª Conferência da ILGA (18 a 25/05/1995), no Rio, e a Conferência Nacional de Mulheres Brasileiras (6-7 de julho de 2002), onde garantiu a menção, na Plataforma Feminista, da contribuição inestimável das lésbicas para a luta das mulheres, pelo direito ao próprio corpo, pela livre orientação sexual e tantas outras contribuições sapatônicas pelos direitos do sexo feminino.

Ainda a Rede de Informação Um Outro Olhar construiu acervo onde preservou publicações e documentações das primeiras organizações lésbicas e homossexuais desde 1979, inventariados e resgatados agora por sua orgulhosa herdeira, esta página Um Outro Olhar, através da série Memória Lesbiana e outros títulos históricos. Informe mais detalhado da organização para breve.

Míriam Martinho e gay criativo na Parada do Orgulho LGBT de SP


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*Miriam Martinho é uma das fundadoras do Movimento Homossexual brasileiro, em particular da organização lésbica, tendo co-fundado as primeiras entidades lésbicas brasileiras, a saber, Grupo Lésbico-Feminista (1979-1981), Grupo Ação Lésbica-Feminista (1981-1989) e Rede de Informação Um Outro Olhar (1989....). Editou também as primeiras publicações lésbicas do país, como o fanzine ChanacomChana (década de 80) e o boletim e posterior revista Um Outro Olhar (década de 90 até 2002). Atualmente administra as páginas Um Outro Olhar e Contra o Coro dos Contentes. 

Fundou igualmente o movimento de saúde lésbica no Brasil, em 1994, realizando a primeira campanha de prevenção às DST-AIDS para mulheres que se relacionam com mulheres, em 1995, e editando as primeiras publicações sobre o tema desde essa época (em 2006 publicou a 4 edição da cartilha Prazer sem Medo sobre saúde integral para lésbicas e bissexuais). Participou da organização do I EBHO (1980), organizou dois encontros LGBT nacionais (VII EBLHO/93 e IX EBGLT/97) e foi sócia-fundadora da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis (ABGLT-1995). Participou igualmente de vários encontros internacionais com destaque para a 8ª Conferência Internacional do Serviço de Informação Lésbica Internacional-ILIS (Genebra, Suiça, 28 a 31/03/1986), o I Encontro de Lésbicas-Feministas Latino-Americanas e do Caribe (Cuernavaca, México, 1987) e a Reunião de Reflexão Lésbica-Homossexual (Santiago, Chile/ nov. 1992).

Cantora Kehlani assume ser lésbica no Instagram

sexta-feira, 9 de abril de 2021 0 comentários


A cantora americana Kehlani, dona do hit Nights like this, fazia uma live no Instagram ao lado da sua fotógrafa, Jamie-Lee B, quando disparou: “Querem saber uma novidade sobre mim? Eu finalmente sei que sou lésbica".
Vocês todos querem algo novo sobre mim, vocês querem saber?” perguntou a cantora de 25 anos enquanto cozinhava com um amigo. “Eu finalmente sei que sou lésbica.” O amigo dela reagiu, gritando imediatamente, “lançamento de bomba!”
Ano passado, a artista, 25 anos, havia se declarado queer. Ao assumir-se lésbica, a cantora disse que a situação dela é mais fácil, pois é muito difícil as pessoas olharem para ela e dizerem que ela é homossexual.

A americana completou falando que muitos artistas acabam sendo forçados a se assumir. “É mais difícil para homens negros gays. É mais difícil para mulheres negras homossexuais 'masculinas", completou Kehlani.

Diante da repercussão da notícia nas redes sociais, a cantora mostrou-se surpresa, mas muito feliz com as mensagens de apoio e carinho recebidas.

Com informações de Cantora Kehlani assume homossexualidade em live nas redes sociais, Correio Braziliense, 08/04/2021, Kehlani assumiu ser lésbica em uma live no Instagram, por Vinicius Prado, 07/04/2021, Portal RapMais.


Marina Lima lança songbook e EP e fala sobre relação com advogada

segunda-feira, 5 de abril de 2021 0 comentários

Marina Lima e a namorada Lídice Xavier

Marina Lima aparece na tela do laptop pontualmente às 19h30, hora marcada para a entrevista por videochamada. A precisão do horário remete, imediatamente, às características de seu signo, virgem, cantado em verso, prosa e título de um dos 21 álbuns da cantora. Marina em seu apartamento em São Paulo, onde mora há 11 anos 

Uma das representantes máximas das aspirações da geração dos anos 1980, Marina — moderna desde o primeiro acorde — não se prendeu ao passado. O tempo fez com que ela mudasse e avançasse. “As mulheres costumam ter problema com idade. Não sou assim. Nunca fui presa a estereótipos. Aos 65 anos, me sinto inteira e com o direito de dizer tudo que penso, sem culpa.”

Tamanha liberdade ganhará, na sexta-feira, dia 9, sua mais perfeita tradução com o lançamento, simultâneo, do livro “Marina Lima música e letra” e do EP “Motim”. O songbook celebra um ciclo de 21 discos e contém partituras e letras de 175 canções compostas, interpretadas e com arranjo de Marina. É digital, didático e gratuito. “O público fez a minha obra, que toca no rádio até hoje, do Oiapoque ao Chuí. Quis dar de volta”, justifica. O EP traz quatro músicas — “Motim” (Marina/Bizzotto/Alvin L.), “Kilimanjaro” (Marina/Alvin L./Alex Fonseca), “Pelos apogeus” (Marina) e “Nóis”, com participação de Mano Brown.

A seguir, os melhores trechos da conversa com O Globo em que Marina falou sobre sexualidade, depressão, pandemia e Brasil.

Completamos um ano de pandemia. Como você enxerga esse momento?

Estou no limite. O Brasil vive um caos, e a gente não vê um caminho. Ninguém toma providência. Estou, desde o começo da pandemia, muito isolada. Por isso, criei tanto. Voltei a estudar, a compor, terminei o songbook. Mãos à obra, falei para mim mesma. Do contrário, a gente faz um buraco e se enterra.

Como surgiu a ideia do songbook e do EP?

Qualquer artista quer criar um songbook. A vida inteira, achei que era cedo. Quando fiz 20 discos, falei: “Agora dá”. Convidei o músico Giovanni Bizzotto para transcrever as músicas e ficamos dois anos trabalhando. O songbook contempla 21 discos e contém letras e partituras de 175 canções minhas ou gravadas por mim. É didático, digital e gratuito. O público fez a minha obra, que toca no rádio até hoje, do Oiapoque ao Chuí. Quis dar de volta. Já com o EP, lanço quatro músicas fortes e independentes: “Motim” “Pelos apogeus”, “Kilimanjaro” e “Nóis”, com Mano Brown.

Você é uma artista que se posiciona bastante, né?

Neste momento, como não se posicionar? O Brasil parece um filme de terror. Tem um bando de gente negacionista no comando que não quer encarar a realidade. Bastou o Trump (Donald Trump), que negava a ciência e tinha problema com a questão do clima, deixar a presidência dos Estados Unidos e entrar o Biden (Joe Biden), um presidente responsável, para o avanço ser enorme. E aqui nada acontece. Estamos imobilizados dentro de casa e as pessoas loucas fazendo tudo o que querem.Marina Lima: EP de inéditas 

Como você vê o novo feminismo?

Se tivesse que escolher vir de novo na música, queria ser eu mesma. Mas, caso pudesse mudar de área e ser mais velha, seria a Heloisa Buarque de Hollanda (escritora, pesquisadora e crítica literária). Gostaria de envelhecer como ela. Que farol. O tempo dela é hoje. Se tivesse a chance de ser mais nova, escolheria a Maria Casadevall, uma atriz incrível que fala sobre as questões social, indígena e de gênero. O negócio é espelhar-se nisso.

Você disse que o tempo da Heloisa Buarque de Hollanda é hoje. Também sente isso?

As mulheres costumam ter problema com a idade. Para algumas, é muito limitadora. Elas se sentem passadas. Não sou assim. Nunca fui presa a estereótipos, sempre gostei de viver a minha idade. Aos 65 anos, me sinto inteira e com o direito de dizer tudo que penso, sem culpa. Se não gostarem, paciência. É a minha existência e já tenho liberdade e direitos adquiridos de tempo e estrada para falar o que me interessa.

E a questão estética?

Não é um problema mais para mim. Sempre achei que tinham coisas ao favor de nós, mulheres. Sentia pena, antigamente, dos meus amigos que não podiam se maquiar. Mas olha o Fiuk no “BBB 21”. Ele usa saia, pinta o olho, faz rabo de cavalo. É isso. Liberdade e espaço conquistados. O resto depende da cabeça, de como se colocar. Mas claro que existem as angústias. Por exemplo, quando tive depressão. Foi bom ter vivido e entrar em contato com meu lado sombrio.

Essa crise depressiva foi nos anos 90.

Sim. Era a mulher pop do Brasil e não estava gostando mais daquela demanda. Percebi que precisava procurar um trabalho um pouco mais sofisticado e sabia que isso custaria um preço. E vamos nos deparando com pessoas que nos decepcionam, com a inveja, isso vai dando tristeza. Foi uma depressão que acabou atingindo a minha voz porque a voz depende da respiração. E eu mal conseguia respirar, era uma angústia imensa, doía... Mas, quando foi passando, senti uma libertação. Entendi quem eu era, quem eu queria ser e quem estava comigo ainda. Para quem estava ligado a uma coisa antiga, ficaram os discos. Os que me acompanharam foram muito bem-vindos, vamos juntos.

A sua voz também foi afetada por um procedimento médico na garganta que deu errado?

Tive uma gripe fortíssima, estava péssima, fui ao médico e ele resolveu aspirar um pus na garganta, e acho que aquilo me machucou. Foi um conjunto de coisas. Porém, quando fiquei livre da depressão, entrei na fono, realizei exercícios e fui melhorando.

De que maneira tratou a depressão?

Procurei um psiquiatra. Em seis meses, comecei a entender tudo de novo. A depressão representou um divisor de águas. Do contrário, seguiria um perfil de carreira feito uma boneca.Marina Lima Foto: Sergio Santoian

Qual é a importância de falar sobre saúde mental?

Hoje está muito melhor, quebrou-se um preconceito em relação a esse tema. Porém, quando tive depressão, muita gente achava que era frescura. As pessoas diziam: “Ah, Marina, para com isso”. Qualquer pessoa que tenha problema com álcool e drogas e fale sobre isso, abre caminhos para a cura de muita gente.

Como você passou pelas drogas nos anos 1980?

Sempre gostei de ginástica, do dia, de praia, de pegar onda. O Caju (Cazuza) ficava indignado porque ele não contava comigo nas noitadas, eu era matinê. Mas claro que experimentei de tudo. Não gostava de cheirar pó, ficava tensa, com taquicardia. Sorte a minha. Maconha, acho que tem de liberar.

E a decisão de viver plenamente sua sexualidade?

Minha família sempre foi liberal. Isso nunca foi um assunto à mesa. O importante era eu e meus irmãos (um deles, o imortal da ABL Antonio Cicero) estudarmos. Só toquei nesse tema com a minha mãe, aos 17 anos, quando resolvi arriscar e viajar com uma pessoa famosa. Não queria que ela soubesse de outras maneiras. Difícil foi entender que o mundão não era o meu núcleo familiar.

Essa famosa, sua primeira namorada, foi a Gal costa. ela não gostou quando você falou sobre esse relacionamento. O que aconteceu?

Na década de 1990, resolvi abrir isso na revista de uma amiga. Tinha namorado pessoas em São Paulo, gente de moda, das artes plásticas, e via que os pais as perseguiam. Fiquei impressionada e quis ajudar. Morava no Rio, que, naquela época, era uma cidade mais liberal. Nunca poderia imaginar que a pessoa em questão fosse ficar puta. Até por que aprendi muito sobre libertação sexual com aquela geração, com os baianos. Não toco mais nesse assunto, não quis aborrecer ninguém. Foi um susto causar incômodo, fiquei indignada até. Mas cada um sabe da sua vida.

E agora você está morando em São Paulo e casada.

Moro em São Paulo há onze anos e estou casada há oito. A Lídice (Xavier) é uma pessoa incrível. Aos 20, 30 anos, a gente idealiza as coisas. Passei muito tempo sozinha. Pensei: “Vou segurar a minha solidão e carência e esperar alguém com quem tente ter uma vida realista, não idealizada”. O dia a dia é difícil. Estava há três anos morando em São Paulo quando conheci uma advogada carioca, amiga de um amigo, num show meu. Foi amor à primeira vista.

Vocês pensam ou pensaram em ter filhos?

Quando completei 40 anos, me deu vontade de ser mãe. Mas primeiro teria que escolher quem seria o pai. A maioria dos homens com quem gostaria de ter um filho eram grandes amigos. E eles estavam casados ou não queriam. Fui adiando. Aos 50, deixou de ser uma questão. Quando conheci a Lídice, ela estava nesse impasse. Disse: “Se for importante para você, topo ter um filho”. Mas ela optou por não ter. Foi uma decisão em comum.

Depois do lançamento do songbook e do EP, quais são seus planos? O que espera do futuro?

Espero que tudo melhore e que em 2022 a gente renove o quadro que está aí. A comunicação musical mudou. Desejo fazer discos menores, trilhas sonoras de filmes e de marcas. Quero me comunicar de todas as formas que a vida colocar ao meu dispor.

Clipping Marina Lima lança songbook e EP, conta como tem criado na pandemia, lembra depressão e fala sobre relação com advogada. Já tem oito anos. Foi amor à primeira vista', afirma a cantora, por Marcia Disitzer, 04/04/2021 

Comédia autobiográfica italiana “Mãe+Mãe” conta as dificuldades de duas mulheres para engravidar

quarta-feira, 31 de março de 2021 0 comentários


Baseado na história de amor da vida real da diretora Karole Di Tommaso, “Mãe+Mãe”, mostra a trajetória de duas mulheres, Karole (Linda Caridi) e Ali (Maria Roveran) que se amam e sonham em ter uma criança e formar uma família juntas. Elas logo percebem que não será tão simples quanto esperavam e, à medida que o entusiasmo diminui, o amor delas é desafiado. Para superar os obstáculos, elas devem acreditar na força de seu desejo e no apoio de seus entes queridos.

Direção: Karole Di Tommaso
Título Original: Mamma+Mamma (2018)
Gênero: Romance | Comédia
Duração: 1h 20min
País: Itália

Quando o Fim é o Começo

Inédito no Brasil, chegou, no dia 12 de março, ao catálogo do novo serviço de streaming Supo Mungam Plus o italiano “Mãe+Mãe“, uma comédia autobiográfica da diretora Karole Di Tommaso. Um caso típico de autoria e de entrega da própria história a favor da arte, mas, curiosamente, sem as amarras melodramáticas comuns às narrativas de um gênero que – há muito tempo – precisa deixar de sê-lo.

Ainda há uma mistura de orgulho e incômodo quando as grandes plataformas como a Netflix dividem as obras com a clássica definição “Filmes LGBT”. Se por um lado satisfaz a todos que desejam que histórias como a de Karole (na ficção interpretada pela carismática Linda Caridi) ampliem sua visibilidade nos grandes pontos de consumo de cinema, fica sempre a sensação de que há, por trás de tudo, um “aviso”. É possível que o espectador tradicional não encontre tais produções nas estantes virtuais de drama, comédia – quando muito, nas biografias. Ou seja, enquanto indústria, ainda há essa dicotomia pesada (e relevante) na hora de vender tal produto.

Feita essa breve intervenção,  resta a certeza de que amor é um conceito – forte e único. O de Karole por Ali (Maria Roveran) não é diferente de nenhum outro, mas gera a resistência de qualquer sociedade cuja opinião pública resta ultrapassada. A cineasta, então, nos propõe em “Mãe+Mãe” contar a trajetória do casal em uma tentativa de inseminação, possibilitando a realização do sonho da maternidade das duas. O faz, entretanto, com uma leveza, com flashbacks que nos faz resgatar a inocência basilar da humanidade a partir da infância, tornando todos os pilares do conservadorismo adornos de uma estrada que nossas protagonistas não deixaram nunca de seguir caminho.

As representações iniciais do filme promovem o tradicionalismo narrativo de um drama (interessante que, ontem, falamos como a série “Filhas de Eva” usa as mesmas simbologia dos folhetins brasileiros para quebrá-los). Cada vez mais o audiovisual humanista entende que jogar o jogo do público não convertido é uma tática poderosa. Com isso, somos levados ao pesadelo de Karole em que ela perde um filho e chegamos a alguns rituais de maternidade clichês, mas ao mesmo tempo singelos e inafastáveis. Um deles é a escolha do nome da futura criança, inclusive em homenagem a um antepassado da família.

O primeiro grande “desafio” (na verdade preconceito, que transformado em obstáculos corriqueiros não transformam a ideia do que realmente é fica por conta do preenchimento de fichas. Um constrangimento a partir de rotulações que muitos passaram a vida lutando contra. Por mais que a sociedade tenha rediscutido o conceito de família e, ao custo de muita regulamentação progressista feita na marra, tenha admito em alguns lugares o registro e, em outros mais, a adoção de bebês por casais LGBT, os questionários não mudam. Para falar de definições, deixo um link de uma carta aberta do Coletivo Feminismo com Classe sobre barriga de aluguel, em que a definição de sintético aparece – uma das âncoras dramáticas do longa-metragem.

Karole e a mulher, Ali, viajaram a Barcelona para realizar o sonho de engravidarem.

Por sinal, em “Mãe+Mãe” parte do ritual ansiado pelo casal demanda a gestação de uma delas, o que até age em consonância com o texto publicado no QG Feminista. A diretora usa sua história e evita didatizar qualquer assunto, tornando todas as manifestações fundamentais elementos da narrativa – porém, capazes de provocar apenas aos que desenvolvem empatia prévia. Uma forma de se expressar bem mais justa e menos maniqueísta do que dramas que exigem essa conexão pela empatia. São palavras e gestos que emocionam os mais atentos, os envolvidos ou todos aqueles que se projetam na história de Karole e Ali. Em um deles, a carga de responsabilidade e a demonstração de amor quando a médica permite que uma faça o ato de inseminar a outra, por exemplo.

Ao resgatar outros pontos de sua biografia, principalmente da infância, Di Tomasso em “Mãe+Mãe” faz lembrar do tempo em que conceitos são moldados – geralmente ao custo de muito preconceito. São os momentos em que o espectador é envolvido em uma construção mais doce, de uma menina consciente de si. Dali em diante, ela terá pela frente os tais pilares já mencionados. O avô, que possui uma visão distante enquanto reflexo do choque geracional; até o Padre, que aplica os preceitos da religião da forma que convencionaram, ignorando o fato de que o amor de Deus é universal. Referenciais masculinos, claro, que não têm como serem eliminados em todo da realidade de nenhum de nós.

Porém, curiosamente Ali lembra que, para muitas mulheres (mães e filhas), a ausência do referencial masculino é fato incontroverso. Quantos pais fogem da responsabilidade, pelos motivos mais torpes e cafajestes possíveis? Mesmo assim, a reprodução de outros preceitos, o da heteronormatividade e do patriarcado, permaneceram ao longo do tempo. Quando o filme atinge essa estágio, ele está pronto para – na forma estilingada como desenvolve sua trama – complexificar o conceito de maternidade. Abdicando, como já dissemos, do melodrama. Totalmente o oposto de “Mães de Verdade” (2020), produção recente da diretora Naomi Kawaze que chega ao circuito brasileiro daqui a dois meses.

Sem a representação folhetinesca, aplicando a leveza para dar peso a palavras e gestos, “Mãe+Mãe” já seria inesquecível pela forma doce com a qual nos prende. Adiciona, por fim, a importante conclusão de que – após todos os embates com uma sociedade preconceituosa e um sistema feito para fazê-las desistir – o final é apenas o começo. Ao fim de tudo aquilo, há vida. Na ficção, há um roteiro a ser escrito e um filme a ser lançado. Na realidade, uma nova pessoa no mundo, para destruir as ideias envelhecidas que muitos acreditam que conseguem perpetuar.



Clipping Mãe+Mãe, por Jorge Cruz Jr., Apostila de Cinema, 11/03/2001

Drama lésbico "Fale com as Abelhas" estreia nas plataformas de streaming

sexta-feira, 26 de março de 2021 0 comentários

Drama lésbico Fale com as Abelhas estreia nas plataformas de streaming

Fale com as Abelhas, drama lésbico estrelado por Anna Paquim (X-Men), chegou em várias plataformas de streaming na quinta-feira (25/3). Baseado no livro homônimo da atriz e escritora Fiona Shaw (Killing Eve), o longa estará disponível primeiramente no NOW, SKY Play, Vivo Play e Looke. A partir do dia 08 de abril, ele também poderá ser alugado na Apple TV e no Google Play.

Fale com as Abelhas conta a história da médica Jean Markham (Paquin), que após a morte de seu pai, retorna à sua cidade natal para assumir as funções dele. Quando ela conhece Charlie (Gregor Selkirk) e sua mãe Lydia (Holliday Grainger) a sua vida toma um rumo inesperado que coloca a sua carreira e reputação em risco. Uma sensível história de amor e luta contra o preconceito que movimentará uma pequena cidade escocesa na década de 1950.

Dirigido por Annabel Jankel e com roteiro de Henrietta Ashworth e Jessica Ashworth, o filme trata de temas importantes e complexos, como racismo, homofobia, aborto, violência doméstica e agressão sexual e foi exibido Festival Internacional de Cinema de Toronto em 2019.

FALE COM AS ABELHAS

Tell It to the Bees
Reino Unido, Suécia , 2 0 1 9 , 1 0 8 min
Direção: Annabel Jankel
Roteiro: Henrietta Ashworth e Jessica Ashworth
Produção: Daisy Allsop , Nick Hill , Annabel Jankel , Nik Bower e Laure Vaysse
Co-produção: Sean Wheelan, Anthony Muir e Hannah Leader
Direção de fotografia: Bartosz Nalazek
Edição: Jon Harris e Maya Maffioli
Música: Claire M Singer
Elenco: Anna Paquin, Euan Mason, Holliday Grainger, Lauren Lyle , Kate Dickie , Billy Boyd, Gregor Selkirk , Joanne Gallagher




Com informações de Fale com as Abelhas, drama LGBTQ+ com Anna Paquim, chega ao streaming, por Ítalo Alves, 24/03/2021, Matinê, e Fale com as abelhas estreia no streaming dia 25 de Março, por Ketryn Carvalho, Observatório G

Casal de mulheres comove ao conseguir registrar filha no nome das duas em Guarujá (SP)

quarta-feira, 24 de março de 2021 0 comentários

Criança nasceu no dia 14 de março, mas só foi registrada após ofício emitido pela Justiça — Foto: Arquivo Pessoal

Relato das mães comoveu a web. Helena nasceu no dia 14 de março, mas só pôde ser registrada dias depois, após liberação da Justiça.

Duas mães emocionaram a web após relatarem nas redes sociais uma conquista do casal: registrar a pequena Helena Ramires Martins com o nome de ambas, em Guarujá, no litoral paulista. Em entrevista ao G1 nesta segunda-feira (22), a auxiliar de cozinha Magda Bianca Ramires Martins, de 25 anos, e a atendente Meiriely Ramires Martins, de 24, relataram o planejamento da filha.

De acordo com Meiriely, que gerou o bebê, elas se casaram há quase dois anos, e desde então pensavam em ter uma filha. Tentaram adotar, contudo, o fato de serem um casal de mulheres aumentou as dificuldades para que conseguissem. Por meio de uma reportagem, a atendente descobriu o método conhecido como inseminação caseira.

Mesmo com o atraso, o bebê nasceu saudável. “Ela já é muito amada. A gente não vai deixar faltar nada para ela. É nosso sonho realizado”, conta Bianca. A mãe ainda relata que o preconceito que tiveram de enfrentar, por serem um casal homoafetivo, machucou, mas não as fez desistir do sonho de construir uma família.
Quando postamos sobre o registro no Facebook, muitas pessoas comentaram, dizendo que o mundo está perdido, que é uma vergonha. Infelizmente, o mundo ainda é muito preconceito, as pessoas não pensam no amor, no carinho e atenção que vamos dar para essa criança, e isso machuca muito”, desabafa.
Ela ainda questiona o fato de precisarem provar à Justiça e às pessoas o amor que possuem pela filha.
Se fosse um casal hétero, não teria que provar nada, era só ir lá e registrar. Por serem duas mulheres, tivemos que provar cada passo”, lamenta.
A auxiliar de cozinha conta que ela e a esposa se conheceram enquanto trabalhavam em quiosques na praia. Viraram melhores amigas e descobriram que a relação despertava algo mais em ambas. Por isso, iniciaram um relacionamento, casaram e desejaram estender o amor que sentiam uma pela outra tendo uma filha.

Por não ter gerado a criança, Bianca relata que ficou muito alegre ao conseguir o ofício emitido pela Justiça para realizar o registro da filha.
Somos muito gratas à equipe do hospital, se não fossem eles, nossa filha estaria morta agora. Também agradeço à nossa advogada, sem ela, a Helena não teria meu nome hoje”, explica.
Uma semana após o nascimento da criança, as mães celebram a conquista juntas, garantindo que o lar em que Helena crescerá tenha muito amor. Elas também fizeram um apelo aos casais homoafetivos que passam pelo mesmo processo.
Não desistam, metam a cara mesmo, e prossigam, porque tudo dá certo. A gente é a prova viva disso”, conclui Bianca.
Ela mostrou o procedimento para a companheira, encontrou um doador de sêmen, que apresentou os exames necessários para comprovar que não possuía qualquer doença e, na segunda tentativa, conseguiu engravidar.

Desde então, os desafios começaram. Elas foram ao cartório entender como funciona o processo de registro. Por conta de a criança ter sido gerada por inseminação caseira, elas tiveram que entrar com uma ação na Justiça para receberem um ofício que autorizasse o registro da menina.

Durante o processo, segundo Meiriely, a promotora sugeriu que somente após o nascimento de Helena, e alguns meses de convivência, o casal poderia registrar a filha. No entanto, o juiz discordou, e autorizou o registro.
A nossa advogada questionou a promotora, disse que estávamos casadas há um ano e nove meses, e tínhamos certeza de que queríamos construir essa família. Até o juiz questionou a promotora, e disse 'ela [Bianca] tem direito de querer uma família'”, relata.
No dia 14 de março, Helena nasceu, porém, só pode ser registrada na última quinta-feira (18), pois o ofício só foi emitido no dia 17. Além da espera para o registro, a menina também precisou esperar mais do que o necessário para nascer. Segundo a família, uma semana antes do parto, a gestante começou a sentir fortes dores, e se dirigiu a um hospital de Guarujá, mas os médicos disseram que ainda não estava no momento.

No dia 13, ela retornou ao local por duas vezes, com sangramento e contrações, mas a equipe médica decidiu enviá-la para casa novamente. Preocupadas, elas decidiram ir até o Hospital dos Estivadores, em Santos, onde foram informadas de que a criança já estava nascendo, e que o parto já deveria ter sido realizado.

Helena Ramires Martins foi registrada em cartório de Guarujá, SP — Foto: Arquivo Pessoal

Mesmo com o atraso, o bebê nasceu saudável.
Ela já é muito amada. A gente não vai deixar faltar nada para ela. É nosso sonho realizado”, conta Bianca.
A mãe ainda relata que o preconceito que tiveram de enfrentar, por serem um casal homoafetivo, machucou, mas não as fez desistir do sonho de construir uma família.
Quando postamos sobre o registro no Facebook, muitas pessoas comentaram, dizendo que o mundo está perdido, que é uma vergonha. Infelizmente, o mundo ainda é muito preconceito, as pessoas não pensam no amor, no carinho e atenção que vamos dar para essa criança, e isso machuca muito”, desabafa.
Ela ainda questiona o fato de precisarem provar à Justiça e às pessoas o amor que possuem pela filha. 
Se fosse um casal hétero, não teria que provar nada, era só ir lá e registrar. Por serem duas mulheres, tivemos que provar cada passo”, lamenta.

A auxiliar de cozinha conta que ela e a esposa se conheceram enquanto trabalhavam em quiosques na praia. Viraram melhores amigas e descobriram que a relação despertava algo mais em ambas. Por isso, iniciaram um relacionamento, casaram e desejaram estender o amor que sentiam uma pela outra tendo uma filha.

Por não ter gerado a criança, Bianca relata que ficou muito alegre ao conseguir o ofício emitido pela Justiça para realizar o registro da filha.
Somos muito gratas à equipe do hospital, se não fossem eles, nossa filha estaria morta agora. Também agradeço à nossa advogada, sem ela, a Helena não teria meu nome hoje”, explica.
Uma semana após o nascimento da criança, as mães celebram a conquista juntas, garantindo que o lar em que Helena crescerá tenha muito amor. Elas também fizeram um apelo aos casais homoafetivos que passam pelo mesmo processo.
Não desistam, metam a cara mesmo, e prossigam, porque tudo dá certo. A gente é a prova viva disso”, conclui Bianca.
Mães celebraram conquista após meses solicitando direito de registrar criança no cartório com o nome das duas — Foto: Arquivo Pessoal

Clipping Casal homoafetivo celebra registro da filha em cartório após inseminação caseira, por Luana Chaves, Santos e Região, G1, 22/03/2021

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