STF decide que uniões homoafetivas devem ter acesso a políticas públicas voltadas para a família

terça-feira, 24 de setembro de 2019 0 comentários


O Supremo Tribunal Federal decidiu, por unanimidade, que uniões homoafetivas não podem ser excluídas do conceito de entidade familiar e, portanto, devem ter acesso a políticas públicas voltadas para a família.

A decisão foi tomada depois que o PT questionou o artigo 2º da Lei 6.160/2018, que define define como entidade familiar apenas o núcleo formado a partir da união entre um homem e uma mulher por meio de casamento ou união estável.

O partido alegou que o termo violava o princípio constitucional da dignidade humana, já que exclui pessoas LGBTQ+ das políticas públicas.

Com o voto dos onze ministros, o STF excluiu do Código Civil qualquer interpretação que impeça o reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo como família, seguindo as mesmas regras e com as mesmas consequências da união estável heteroafetiva.
Quando a norma prevê a instituição de diretrizes para implantação de política pública de valorização da família no Distrito Federal, deve-se levar em consideração também aquelas entidades familiares formadas por união homoafetiva", concluiu o relator da ação, o ministro Alexandre de Moraes.
Clipping STF proíbe que casais gays e lésbicos sejam excluídos de políticas públicas, Universa, 16/09/2019

Kátia, a primeira personagem lésbica da coleção Graphic MSP do Maurício de Souza

sexta-feira, 13 de setembro de 2019 0 comentários

Personagem Kátia, a primeira personagem lésbica da coleção Graphic MSP

Pré-lançada em agosto deste ano, a história em quadrinhos “Tina – Respeito” (Editora Panini) foi a 24ª edição da coleção Graphic MSP que teve uma de suas edições (Laços) adaptada para os cinemas como um filme live-action da Turma da Mônica.

Nesta 24ª edição Respeito, Maurício de Souza apresentou Kátia, a primeira personagem lésbica do selo que irá integrar o elenco da nova HQ. Na história, a protagonista é uma jornalista recém-formada que acaba de realizar o sonho de trabalhar em uma redação. No entanto, a jovem, além de enfrentar desafios pessoais, irá lidar com o assédio no ambiente de trabalho.

Fefê Torquato
A autora desta HQ é Fefê Torquato, que, como outros roteiristas e ilustradores do circuito independente nacional antes dela, foi especialmente convidada a recriar mais um dos clássicos personagens de Mauricio Sousa. 

Lembrando que, em outras edições da HQ Tina (número 6), já havia aparecido um personagem gay chamado Caio, que retornou em edições seguintes, bem como personagens cabeleireiros, maquiadores e estilistas que orbitavam o universo da personagem sem ter, porém, suas sexualidades abordadas.

No sábado, dia 14 de setembro, Fefê estará em Curitiba para lançar Tina – Respeito, com tarde de autógrafos e bate-papo com os leitores na Itiban (mais informações sobre o evento você tem aqui)


Com informações de Cultureba, Exitoína e RIC.MAIS, 12/09/2019

Aprovada 1ª cooperativa de crédito para gays e lésbicas nos EUA

quarta-feira, 11 de setembro de 2019 0 comentários

 Superbia Credit Union, instituição financeira, para clientela de gays, lésbicas e outras minorias

Na segunda-feira, o estado de Michigan aprovou a licença para a nova instituição financeira, Superbia Credit Union, pensada para clientela de gays, lésbicas e outras minorias, o que abre caminho para o serviço on-line começar a ser oferecido no início de 2020.

A Superbia Credit Union oferecerá produtos que muitas vezes estão fora do escopo de um banco mais tradicional, disse Myles Meyers, fundador da Superbia Services, com sede em Nova York, que criou a cooperativa de crédito.
Posso entrar em um banco ou cooperativa de crédito e solicitar um empréstimo ou cartão de crédito ou conta poupança e, francamente, não há problema", disse Meyers. "Se eu for para a mesma instituição com meu marido, podemos encontrar respostas distintas e uma recepção diferente. É aí onde tudo começa a mudar para a comunidade."
Agora, grandes segmentos corporativos dos EUA anunciam apoio aos direitos de gays, lésbicas e outras minorias, e centenas de empresas aderiram às leis federais e estaduais para oferecer proteção igualitária à comunidade. A maioria dos americanos afirma apoiar o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Mas a legislação ainda protege quem discrimina consumidores homossexuais na maioria dos estados dos EUA, e pesquisas mostram que casais homossexuais enfrentam obstáculos no setor bancário, independentemente da localização. Um casal do mesmo sexo tem menos probabilidade de conseguir a aprovação de um empréstimo, por exemplo. E, quando consegue, paga mais pelo financiamento.

Existe um incentivo financeiro para focar mais diretamente na clientela de gays, lésbicas e outras minorias  ao oferecer serviços bancários. O poder de compra combinado da população adulta de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros dos EUA foi estimado em US$ 987 bilhões em 2017, segundo dados da Witeck Communications.
Com o estatuto em vigor, a Superbia formará um conselho e começará a contratar executivos. Além da cooperativa de crédito, a Superbia Services também planeja oferecer produtos como seguros, assistência médica e gestão do patrimônio personalizados especificamente para clientela de gays, lésbicas e outras minorias, disse Meyers.
Clipping Michigan aprova licença de 1ª cooperativa de crédito gay dos EUA, por Daniela Milanese, via Bloomberg, UOL Economia, 10/09/2019

Beijo cortado entre Camila e Valéria em "Órfãos da Terra" irrita fãs da novela

sexta-feira, 6 de setembro de 2019 0 comentários

Tão esperado beijo entre Camila e Valéria não rolou. Retrocesso na Globo?

Má notícia para os fãs do casal Valéria (Bia Arantes) e Camila (Anajú Dorigon). O capítulo de “Órfãos da Terra” desta sexta-feira (06) não vai exibir o tão esperado beijo entre ‘Vamila”, anunciado pela própria emissora.
O momento foi notado primeiramente pelos espectadores que acompanham a novela das seis pela plataforma de streaming da Globo, que sempre libera os capítulos no dia anterior. Entretanto, a emissora confirmou ao UOL que o beijo realmente não entrou para o corte e também não vai ser exibido na TV.
Após a revolta dos fãs, que subiram a hashtag “Vamila sem censura” no Twitter e atribuíram a falta de beijo a homofobia, a Globo também explicou por que decidiu tirar a cena que já havia sido anunciada no resumo do site oficial da novela. “Decisão puramente artística”, justificou ao UOL.
Na sequência em questão, Valéria dá um anel de brilhantes para a namorada e se declara: “Camila Nasser, eu te amo! Quer casar comigo?”. Camila acha que é só uma brincadeira, mas a amada confirma tudo: “Nunca falei tão sério na minha vida. Eu quero me casar com você. Aceita?”. As duas choram e ficam bem pertinho, encostando a testa e o nariz, mas o beijo na boca realmente não acontece. Ao invés disso, elas se olham e dão um beijinho… no rosto. Decepcionante é pouco!
Assista aqui:
O site oficial da trama descrevia a cena exatamente como aconteceu, mas no final mencionava “e é aí que rola o beijo apaixonado”. O texto foi publicado há seis dias, mas quem for procurar agora não vai mais encontrá-lo: ele foi tirado do ar.

A publicação também comprovava que as atrizes gravaram a cena, ao mostrar uma entrevista com elas contando os bastidores. “A gravação foi supertranquila! Eu e a Anajú somos amigas na vida e essa cumplicidade ajuda a fazer qualquer cena que seja. A gente não ficou nervosa”, disse Bia Arantes à Globo.
Nas redes sociais, os fãs do casal, que já viram os spoilers, se revoltaram. “É um desrespeito com telespectador que espera a semana inteira pra ver uma cena de #Vamila em #Órfãosdaterra com beijo pra chegar agora e a Globo cortar a p*rra da cena. Então por que divulgou no site de vocês e fez maior auê pra agora fazer isso”, questionou uma fã.
é um Desrespeito com telespectador que espera semana inteira pra ver uma cena de #vamila em #Órfãosdaterra com beijo pra chegar agora a globo corta a porra da cena, então porque divulgou no site de vocês e vez maior aue pra agora fazer isso.
— Nanda Lewis 🔮 (@nandalewiis_) September 6, 2019
Outro internauta, não concordou com a justificativa da Globo. “Muita mancada cortarem o beijo #Vamila. Não há “decisão puramente artística” que justifique a censura de uma cena gravada”, desabafou. “Só observando o descaso absurdo que a @RedeGlobo está fazendo com #Vamila, com o público e com as atrizes”, endossou outra usuária da rede.
Sobre o capítulo 136 de #ÓrfãosDaTerra desta sexta (6), já disponível no @globoplay: Muita mancada cortarem o beijo #Vamila. Não há "decisão puramente artística" que justifique a censura de uma cena gravada. E, finalmente, estava + que na hora de Dalila ser pega. Demorou demais!
— Robson Gomes (@robinhogomes) September 6, 2019
Só observando o descaso absurdo que a @RedeGlobo está fazendo com #Vamila com o público é com as atrizes #VamilaSemCensura#ÓrfãosDaTerra pic.twitter.com/LiaPllD3r4— Nathy (@Nathy0896) September 6, 2019
O corte ainda contraria o histórico recente da emissora, que exibiu o primeiro beijo gay na faixa das 18h há um ano, em “Orgulho e Paixão”, e, na semana passada, viu seu público comemorar ubeijo “natural” entre dois homens em “Bom Sucesso”.

Clipping “Órfãos da Terra”: Fãs ficam revoltados após Globo cortar beijo entre Camila e Valéria; emissora ‘explica’ decisão", Hugo Gloss, 06/09/2019

Vasco da Gama combate preconceito dentro e fora de campo

quarta-feira, 4 de setembro de 2019 0 comentários

Em partida contra o Cruzeiro, no Mineirão, em 01/09, Vasco em campo contra a homofobia

O futebol brasileiro viveu uma situação inédita no jogo entre Vasco e São Paulo do dia 25/08, pelo Campeonato Brasileiro: o árbitro Anderson Daronco paralisou o jogo por causa de cantos homofóbicos da torcida vascaína e alertou que não era permitido. Durante a vitória vascaína por 2 a 0, o técnico e os jogadores do clube pediram que a torcida parasse e foram atendidos. Assim, o jogo continuou. A postura do clube foi muito boa também fora de campo. Em nota divulgada no dia 26/08, o clube se colocou contra os cantos e diz que motivação para deixar de cantá-los tem que ser não por receio de uma punição, mas sim por uma questão de cidadania, respeito ao próximo e cumprimento da lei – homofobia, afinal, é crime.

Mais do que isso: a Diretoria Administrativa vascaína pede desculpas, na nota, a todos que corretamente se sentiram ofendidos por este comportamento. Com um histórico de origem popular e de combate ao preconceito, a nota do clube ressalta justamente essa história vascaína para pedir uma mudança de comportamento dos torcedores. 
Preconceito é crime. E se existe um Clube no Brasil historicamente habituado a levantar a voz contra qualquer tipo de discriminação este é o Vasco da Gama, dono da história mais bonita do futebol. Assim foi com a resposta histórica de 1924; assim é com os cantos que o torcedor vascaíno entoa orgulhosamente na arquibancada enaltecendo a luta do Clube a favor de negros e operários”, diz o documento divulgado pelo clube.
As palavras são muito importantes em um processo que vivemos de repensar, civilizatório. O mundo evolui e o racismo que era “cultural” no futebol passou a ser mal visto (embora, infelizmente, ainda presente). Por décadas, foi comum usar xingamentos racistas no estádio, impunemente, de forma jocosa e ofensiva, com a justificativa de ser cultural. Isso mudou.

Como está mudando agora também a questão da homofobia. Ainda é muito comum ver xingamentos desta natureza nos estádios, mas a aceitação não é mais a mesma. E, não por acaso, o Brasil e o mundo mudaram. A Fifa passou a punir seleções cujas torcidas entoem gritos homofóbicos, como o México e o Brasil, que receberam multas. Ainda é pouco, mas foi um início. 

Agora, há o estabelecimento de procedimentos para que os árbitros tomem quando há cantos homofóbicos. Vimos um jogo na França ser paralisado por causa dos cantos homofóbicos, fazendo, enfim, valer algo que a Fifa estabeleceu que é positivo. O STJD já tinha avisado, no dia 19 de junho, que haveria punições por cantos homofóbicos de torcedores, assim como existe a previsão de punição por racismo, já que os dois passaram a serem crimes no Brasil. 

O processo é longo, não é simples, mas é importante que os clubes tenham consciência do seu papel social. A homofobia não pode ser aceitável e é de uma ignorância enorme. Isso não acaba com o futebol, muito pelo contrário: o torna muito melhor. É possível apoiar o time sem precisar discriminar alguém. Discriminar inclusive torcedores que sejam homossexuais, sempre afastados dos estádios por comportamentos ridículos de torcedores em todo o mundo. Passou da hora disso mudar. E o Vasco se colocou desta forma: a favor de mudanças. 

As palavras do clube são animadoras não só pela postura, mas também porque o clube se comprometeu a ser proativo e promover ações educativas neste sentido junto ao seu torcedor. Mais do que isso, chamou o torcedor para ser parte disso, alinhado à história do clube, do que é o Vasco. A nota diz que a Diretoria Administrativa está “certa de que encontrará em cada vascaíno um aliado no combate a qualquer tipo de discriminação. O Vasco é de todos”. 

Esse tipo de atitude é fundamental. Além da postura em uma nota oficial, o que o futebol brasileiro – e a sociedade, como um todo – precisa é ter ações que efetivamente busquem uma conscientização. O futebol é democrático e permite que todo mundo possa não só se divertir jogando, mas também participar torcendo, apoiando e sendo parte de algo maior. Independente de sexo, sexualidade, religião, classe social. O futebol é de todos.

N.E. O time também entrou em campo, na partida do 01/09/, contra o Cruzeiro, no Mineirão, com uma faixa de luta contra a homofobia. Os dizeres da mensagem mostravam a seguinte frase: "Respeito e igualdade são a nossa história".

Confira a íntegra da nota do Vasco:
Em relação ao episódio registrado na partida deste domingo (25/08) contra o São Paulo, o Club de Regatas Vasco da Gama lamenta e repudia qualquer canto ou manifestação de caráter homofóbico por parte de alguns de seus torcedores. Da mesma forma, a Diretoria Administrativa do Clube manifesta seu pedido de desculpas a todos que, corretamente, se sentiram ofendidos por este comportamento.

O combate a este tipo de postura – iniciado ainda em campo, quando o técnico Vanderlei Luxemburgo, os jogadores, parte da torcida e o próprio Vasco da Gama, através do sistema de som do estádio, clamaram para que os gritos cessassem – não deve ser motivado pelo receio de punição desportiva (eventual perda de pontos), mas, sim, por uma questão de cidadania e respeito ao próximo e cumprimento da lei. Preconceito é crime. E se existe um Clube no Brasil historicamente habituado a levantar a voz contra qualquer tipo de discriminação este é o Vasco da Gama, dono da história mais bonita do futebol. Assim foi com a resposta histórica de 1924; assim é com os cantos que o torcedor vascaíno entoa orgulhosamente na arquibancada enaltecendo a luta do Clube a favor de negros e operários.

A plateia de um estádio de futebol e a sociedade de maneira geral passam por um processo de aprendizado e conscientização necessário para que atos de preconceito fiquem no passado – um triste passado, diga-se. A Diretoria Administrativa do Club de Regatas Vasco da Gama compromete-se em promover ações educativas neste sentido junto ao seu torcedor, certa de que encontrará em cada vascaíno um aliado no combate a qualquer tipo de discriminação. O Vasco é a casa de todos.

Diretoria Administrativa
Clipping Vasco dá exemplo em nota sobre cantos homofóbicos, promete combate e ressalta postura histórica do clube, por Felipe Lobo, 26/08/2019

Freiras lésbicas: encontros secretos e troca de cartas de amor em conventos

sexta-feira, 30 de agosto de 2019 0 comentários

A história da freira Juana Inés virou uma série da Netflix com temática lésbica

Em 2005, Jeannine Gramick, freira americana e co-fundadora da organização New Ways Ministry, de apoio à comunidade LGBT católica, disse, durante estadia no Brasil para participar do 13º Festival de Cinema e Vídeo da Diversidade Sexual, que em seu convento havia freiras lésbicas:
Uma noviça comentou que, antes de entrar no convento, foi a um bar de frequência gay na cidade. Depois daquele episódio, soube que havia lésbicas no que eu estava", explicou, afirmando que todas deveriam se assumir: "Quando Paul Newman aparece na tela, as heterossexuais suspiram. As lésbicas não podem fazer o mesmo quando é a Jane Fonda?".
 Jeannine Gramick em apoio ao casamento igualitário

A presença de lésbicas em conventos parece não ser novidade para historiadores que estudam esse assunto. Eles relatam histórias de mulheres, que, à força ou por vontade própria dentro deles, tiveram a possibilidade de expressar sua liberdade, inclusive sexual, até serem reprimidas.

Noviças rebeldes

No livro Atos Impuros, em português, a historiadora Judith C. Brown, da Universidade Wesleyan, nos Estados Unidos, cita o caso sexual entre as freiras italianas Benedetta Carlini e Bartolomea Crivelli, ocorrido por volta de 1620, durante o Renascimento. Benedetta, que foi enviada a um convento na Toscana pelos próprios pais, começou a ter visões perturbadoras e, segundo a autora, "usava sua possessão por um espírito masculino como explicação para os atos com a colega", que foi nomeada sua cuidadora durante seus "períodos de êxtase".

Alguns anos depois, durante uma investigação encomendada pela Igreja, descobriu-se que as freiras mantinham relações sexuais há anos. O caso resultou na separação das duas e o pouco que se sabe é que Benedetta foi enviada para uma prisão, onde permaneceu até morrer.

Sua história inspirou uma peça teatral da dramaturga canadense Rosemary Rowe e o filme biográfico francês e holandês "Benedetta", previsto para ser lançado em 2020.

As freiras italianas Benedetta e Bartolomea viveram um caso
em um convento  da Itália e Bendetta foi presa por isso.

Conventos já foram mais liberais

Se hoje os conventos transmitem a ideia de serem locais humildes, tranquilos e acessíveis, antes, alguns deles eram bem diferentes. Na América colonial, entre os séculos 16 e 17, por exemplo, havia conventos em que ocorriam bailes, apresentações de teatro, debates intelectuais e as freiras podiam ter acomodações luxuosas, com direito a criadas e escravas, usar joias, receber visitas da corte e estudar livros proibidos pela Igreja.
Um convento, muitas vezes, significava acesso a um melhor e mais seguro padrão de vida", comenta a historiadora Sarah Rees Jones, da Universidade de York, no Reino Unido, e autora do livro "Cristãos e Judeus na Inglaterra Angevina", em português.
Em um desses conventos, no México, viveu Juana Inés de la Cruz, freira por escolha própria e poetisa do século 17, que dedicou versos elogiosos e de amor para várias mulheres de seu convívio, como para Maria Luísa Manrique y Gonzaga, vice-rainha da Nova Espanha: "pois você sabe que as almas/ ignoram distância e sexo" e "quando minha/te chamo, não pretendo/que julguem que és minha,/só que eu ser tua quero".

Segundo Alicia Gaspar Alba, pesquisadora da Universidade da Califórnia e autora do livro "[Un]framing the 'Bad Woman'": "Juana foi uma feminista lésbica chicana". Chicano é um termo para designar cidadãos de origem mexicana.

Apesar da afirmação de Alba, não há um consenso entre os historiadores a respeito disso, por falta de provas. Sendo uma freira poetisa famosa e tendo contato com a corte, era mais fácil despistar a Inquisição. Para ter ideia, com a publicação do primeiro livro da freira, "Inundação Castálida", de 1689, uma nota esclarecendo sua "amizade casta" com a vice-rainha foi logo anexada nele explicando que havia "na poetisa um amor a Sua Excelência com puro ardor".

Em 2016, Juana virou protagonista da série da Netflix "Juana Inés", na qual é apresentada como uma freira feminista, que vive relacionamentos lésbicos em uma época de opressão.

"Juana Inês" na Netflix

Carta de amor

Além de poemas, cartas também foram escritas em conventos. Em 2018, Erik Wade, professor medievalista da Universidade de Bonn, na Alemanha, compartilhou em seu Twitter uma carta de amor entre duas freiras e amantes do século 12 que parecem ter sido separadas. As duas, sem nomes identificados, são representadas no documento pelas letras C e B. Na ocasião, Wade escreveu: "Eu li isto em uma classe e 'chorei de amor'".

A carta foi extraída do livro "Latim Medieval e a Ascensão do Amor-Lírico Europeu", do pesquisador e membro da Academia Britânica Peter Dronke. Abaixo, a versão em português:
"Para C-, mais doce que mel ou favo de mel, B- envia todo o amor que existe para o seu amor. Você que é única e especial, por que você demora tanto tempo, tão longe? Por que você quer que sua única morra, alguém que, como você sabe, te ama com alma e corpo, que suspira por você a cada hora, a todo o momento, como um passarinho faminto. 
Desde que eu tive que ficar sem sua doce presença, eu não queria ouvir ou ver qualquer outro ser humano, mas como a pomba, tendo perdido sua companheira, empoleira-se para sempre em seu pequeno ramo seco, então eu lamento sem fim até que eu aproveite sua confiança de novo. Eu olho e não encontro minha amante -- ela não me conforta nem com uma única palavra. De fato, quando reflito sobre a beleza de sua fala e aspecto mais alegre, fico completamente deprimida, pois não encontro nada que eu possa comparar com seu amor, doce além do mel e do favo de mel, comparado com o brilho do ouro e da prata. 
O que mais? Tudo em você é gentileza, perfeição, então meu espírito definha perpetuamente por sua ausência. Você é desprovida da ousadia de qualquer falta de fé, você é mais doce que leite e mel, você é inigualável entre milhares, eu te amo mais do que qualquer outra. Você é o meu amor e desejo, você é o doce resfriamento da minha mente, não há alegria para mim em qualquer lugar sem você. Tudo o que foi delicioso com você é cansativo e pesado sem você. 
Então eu realmente quero te dizer, se eu pudesse comprar a sua vida pelo preço da minha, [eu faria] instantaneamente, pois você é a única mulher que eu escolhi de acordo com o meu coração. Por isso, rogo a Deus que a morte amarga não venha a mim antes que eu desfrute da visão desejada de você novamente. Adeus. Tens de mim toda a fé e amor que existem. Aceite a escrita que envio e, com ela, meu constante pensamento".

Clipping Freiras lésbicas: encontros secretos no convento e troca de cartas de amor, por Marcelo Testoni, 27/05/2019

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