Lésbicas e as dores e delícias de se sair do armário

sexta-feira, 3 de maio de 2019 0 comentários

Lara, filho de Mardejan e Mardejan - Imagem: Arquivo Pessoal

A dificuldade de sair do armário: lésbicas relatam histórias de dor e afeto


Abrir o jogo sobre a homossexualidade para amigos e família é um processo delicado. Enquanto em alguns casos o assunto é tratado com naturalidade e acolhimento, em outras situações, a homofobia começa dentro do próprio lar.

Universa conversou com mulheres e relata experiências muito diferentes sobre a hora de sair do armário. Há quem tenha sido acolhida, há humilhação e até situações inusitadas.

Negação, religião, ameaças e gravidez

Lara, filho de Mardejan e Mardejan 

"Comecei a me relacionar com mulheres aos 14 anos. O processo de aceitação comigo foi muito doloroso, chorava bastante e me reprimia. Tinha medo de magoar minha mãe, de ser julgada. Aos 15, tive amigas que também estavam se descobrindo e pude experimentar a minha liberdade ilusória.

Aos 17, minha mãe, desconfiada, mudou de Duque de Caxias para Campos de Goytacazes, no Rio, em uma tentativa de me afastar das "péssimas amizades" e me isolar. Ficamos próximas da família dela, onde todos são evangélicos fanáticos.

E, então, me vi prisioneira. Antes de me mudar, eu estava namorando uma menina e postava coisas sobre nós em uma rede social. Um primo acessou o computador que eu usei, descobriu, e espalhou para toda a família. Fui ridicularizada, chantageada. Tiraram meu celular, eu não podia acessar a internet, ter amizades fora da igreja, ouvir músicas "mundanas".

Chegou até o ponto de não poder usar tênis, porque seria para "me sentir homem". Era obrigada a ouvir sermões e salmos. E claro, não podia sair. Minha mãe não me agrediu, mas me ameaçou muito. Eu passei a fugir de casa, pulava o muro ou inventava situações religiosas para conseguir sair. Me sentia em um cárcere, privada de amar.

Me cobravam que, se eu não havia transado com homens, não poderia ter certeza da minha sexualidade. Vivia um processo de heterossexualidade compulsória e em uma das fugas, acabei transando com um desconhecido. Estava extremamente bêbada e ele agiu como quis. Usamos camisinha, mas ele tirou sem minha permissão. Descobri um mês depois que estava grávida, quando fiz 18 anos.

Fugi de casa, deixando uma carta e fui em busca da minha liberdade, mesmo com a maternidade chegando pra me acorrentar. Hoje vivemos eu e meu filho Pierre, ele tem oito anos e ama minha namorada. Minha família segue religiosa e acreditando em uma milagre divino e eu sigo acreditando no amor", Mardejan, cantora, 27 anos.

Delatada pela 'máquina da verdade'
Jessica Luz, tatuadora Imagem: Arquivo Pessoal

"Meu pai trabalha com terapias alternativas, holísticas e frequências corporais. Quando eu tinha 18 anos, ele comprou um aparelho em que você coloca uns eletrodos na cabeça, nos pulsos, nos tornozelos e fica relaxado enquanto essa máquina vai passando várias frequências para um programa que lê e interpreta o que cada uma delas significa.

Ele me passou nessa máquina e depois me chamou para conversar, prescreveu alguns florais e falou: 'então, eu queria te perguntar uma coisa, eu vi nas suas frequências tendências homossexuais. Você quer conversar sobre isso, filha?' e eu fiquei: eita, eita, eita. E aí admiti e falei 'pai, então: a máquina está certa, pelo menos agora sabemos que ela funciona mesmo'. Ele foi tranquilo, e desde então meus amigos chamam esse aparelho de máquina da verdade. Mas foi muito louca a forma como meu pai descobriu", relembra a tatuadora." Jessica Luz, de 28 anos

Marina e Alessandra

Independência financeira, direito de amar, e, por fim, aceitação
"Eu, desde sempre, tinha me relacionado com homens. Tinha terminado um relacionamento abusivo há cerca de dois anos, e, nesse meio tempo, tinha saído do armário pra mim mesma. Pra mim, a saída do armário veio no mesmo momento da independência financeira. Quando eu terminei a faculdade e, com 23 anos, consegui me bancar, e não precisei mais dos meus pais.

Contei para minha mãe primeiro, quando eu comecei a namorar uma mulher. Minha mãe reagiu me dizendo que preferia que eu estivesse com um homem casado e com filhos, e me proibiu de contar para o resto da família, porque ela não queria ter essa vergonha. Eu pedi que ela esperasse eu mesma contar paro meu pai e ela não esperou.

Aí, foi uma sucessão de coisas horríveis. Eles são da igreja e não aceitavam, não falavam com a minha namorada, não olhavam, não perguntavam: nada. Depois dessa relação, eu firmei o pé, dizendo que gostava mesmo de mulheres e que isso não iria mudar.

Tive que bloquear os meus pais de todas as redes sociais e do Whatsapp, porque eles falavam sobre como eles ficavam mal, perguntavam qual era a necessidade de eu postar fotos com a minha namorada, ficavam perguntando aonde eles tinham errado, por que eu tinha terminado a relação com um cara, só que eles não sabiam que, nos bastidores, a relação era ruim.

Ficamos meses sem nos falarmos, e, depois de um tempo, eles aceitaram receber a minha namorada, que agora é esposa, na casa deles. A gente avisou que ia casar. Foi difícil, mas eles vieram ao nosso casamento, em novembro do ano passado e, depois, meu pai esteve na nossa casa, ficou uns dois dias, minha mãe também esteve lá recentemente. Agora eles já perguntam por ela, chamam pelo nome, querem saber, já a abraçam. Mas, até hoje, eles nunca pediram desculpa", conta Mariana Sampaio, 26 anos, servidora pública, que está casada e muito feliz.

Acolhimento e respeito ao tempo

Camila Martins

"Saí do armário há cerca de oito anos. Liguei para minha mãe, que mora em outro estado, e disse que estava indo visitá-la, mas que levaria minha namorada. E ela, prontamente, disse que tudo bem. Depois me mandou várias mensagens de afeto e disse que falaria com meu pai, que também foi tranquilo.


A essa altura minhas irmãs já sabiam e um tio, que é gay, já havia conhecido a minha primeira namorada, me acolhendo em todos os momentos. Contar para a família me ajudou a sair de um processo de depressão profunda, porque me assumi lésbica muito tardiamente, com 26 anos, e foi uma libertação emocional. O que mais me marcou na fala da minha mãe foi "Eu já sabia, sempre soube, e só estava esperando você me contar".

Ela respeitou meu momento e me deu todo apoio diante do restante da família. Foi aí que comecei a falar abertamente nas redes sociais. Ao mesmo tempo, percebi que outros espaços foram fechados, como alguns núcleos da família e de amigos. Mas houve muito apoio e acolhimento. E o que eu mais ouvi foi: "nós sempre soubemos".

Tirei um peso da minha vida. Mas entendo que sair do armário não é para todas as pessoas, uma vez que nós, lésbicas, somos ameaçadas pelo estupro corretivo, assassinato. Ficar no armário, muitas vezes, significa estratégia de sobrevivência diante do quadro de lesbofobia", conta a editora Camila Marins, de 34 anos.

Sair do armário em casa e no trabalho

"Eu nunca tive um relacionamento maravilhoso com a minha família. Até que eu me apaixonei por essa menina, C., e começar a sair com ela direto. Um dia, minha mãe me avisa pra eu tomar cuidado porque ela sabia que a C. era sapatão e ia querer me comer. Eu aproveitei a deixa para dizer um 'Tomara!' e falar que eu também era sapatão e não via nada demais, minha mãe ficou com nojo e se recusou a encostar ou falar comigo direito por meses.

Ela sugeriu que meu irmão me tirasse das redes sociais, pois poderia pegar mal ele ter ligações com uma pessoa gay; meu pai me fez prometer que eu nunca seria foto de capa de um jornal no topo de um trio elétrico com os peitos de fora numa parada gay. Eles passaram a me tratar mal e não falar comigo, tentar me impedir de sair, ou fazer pequenas humilhações diárias.

Por fim, avisei que sairia de casa. Eles, então, fizeram uma conta de tudo que já haviam gastado comigo na vida e me ofereceram para pagar um aluguel para ficar na casa deles, para que eles pudessem ser compensados pelos anos que passaram investindo em mim para eu estudar e ter sucesso ao invés de acabar 'me tornando' sapatão e arruinar tudo. Eles fizeram os cálculos de quantas viagens teriam feito à Europa não fosse o fardo de me criar e sustentar.

Depois de muito tempo e terapia, hoje temos um relacionamento agradável e nos falamos com frequência. Eu também tive que sair do armário no trabalho, em um lugar muito tóxico, repleto de pessoas machistas e homofóbicas. Percebi logo nos primeiros dias que não daria pra ser assumida nesse emprego.

Deixei o cabelo crescer para as piadas diminuírem e ouvia calada os comentários homofóbicos. Tinha medo de ser mandada embora. Um dia, cheguei para trabalhar e minha chefe me chamou em particular e disse que estava oferecendo a oportunidade de me explicar, pois alguém tinha contado para ela que eu sou gay e se ela soubesse disso antes ela não teria me contratado. Ela queria entender a razão de eu não ter contado para ela. Fiz um barraco, falei que era um absurdo, que eu não precisava da permissão dela para existir.

Foi uma história engraçada, porque o argumento dela foi que quando ela me imaginava com uma mulher, ela me imaginava fazendo atos sexuais muito fora da caixinha e isso a deixava desconfortável.


Respondi que quando ela me contou que era casada, eu não a imaginava chupando o marido dela, então não entendia a dificuldade. Encerramos a conversa ali e passei um ano trabalhando com ela, e ela interrompendo cada vez que o nome da minha namorada era mencionado", conta a professora M, de 31 anos, que, apesar de ser assumida, prefere não ter a identidade revelada pois muitas pessoas de seu convívio profissional são homofóbicos.

Fonte: Universa, por Elisa Soupin, 30/04/2019

Casais de mulheres e de homens contam suas felizes histórias de adoção

segunda-feira, 29 de abril de 2019 0 comentários


Casais homoafetivos contam histórias de adoção. Spoiler: com final feliz!

No Brasil, existem mais de 9.300 crianças e adolescentes à espera de serem adotados, de acordo com o Cadastro Nacional de Adoção, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Do outro lado, existem pais e mães que buscam um filho para fechar uma espécie de elo e formar uma família. No meio destes, estão os casais homossexuais. Pela legislação brasileira, não há qualquer diferença no processo de adoção por casais gays. Até por isso, não há estatística que mostre quantos casais formados apenas por homens ou apenas por mulheres adotaram crianças no Brasil.

O ritual segue o mesmo de um casal heterossexual: inscrição, curso de preparação, avaliação psicossocial dos pretendentes, entrevista técnica, inscrição na fila de adoção, estágio de convivência e adoção definitiva.

O que a lei permite de maneira tão fácil, porém, não reflete o que a sociedade pensa. Uma pesquisa realizada pelo Ibope mostrou que 55% dos brasileiros são contra a união estável e a adoção de crianças por casais homossexuais.

Mas quem resolve deixar as opiniões contrárias de lado e entrar nessa corrida, só tem boas histórias para contar.


Jorge, Walter e Arthur, no Rio Imagem: Arquivo Pessoal.
Tive medo que não nos aceitassem

Jorge Luiz Brasil Ninho, 50 anos, jornalista, e Walter do Patrocínio, 54 anos, farmacêutico, de Niterói (RJ), são pais de Arthur, de 11 anos.
O nosso desejo de adotar uma criança nasceu há 14 anos. Chegamos a dar entrada no processo, mas uma série de contratempos nos obrigou a parar a busca. Esse desejo ficou quietinho até que 10 anos depois voltou com muita força. Mas eu tinha receio da nossa habilitação não ser aceita por sermos um casal homoafetivo.
Mesmo assim resolvemos ir em frente. Pensamos, no primeiro momento, em uma criança entre dois e quatro anos. Mas o tempo amadureceu nossas ideias e decidimos pela adoção tardia -- quando a criança tem mais de seis anos. Contamos com a ajuda de uma ONG que emite comunicados com listas de crianças nesse perfil disponíveis em todo país.
E foi aí que conhecemos o Suênio, que hoje é o nosso Arthur. Na época, com seis anos. Desde o primeiro contato, falamos abertamente sobre o fato de ter dois pais. E só levamos a adoção à frente quando tivemos certeza que ele poderia lidar bem com isso.
Foi um processo longo e burocrático em que passamos por momentos bem angustiantes. Um deles foi a expectativa pelo parecer do juiz porque ainda não havia tido um caso como nosso, de um casal homoafetivo adotando uma criança, na comarca de Niterói. E quando o Arthur chegou, tivemos que lidar com a sua adaptação. Na primeira semana ele estava muito agitado e até tentou fugir da escola que o matriculamos. Respiramos fundo e tentamos fazer com que se sentisse mais seguro e confiante.
Uma semana depois, ele estava mais calmo e feliz e começou a nos chamar naturalmente de pai. Nunca passamos por nenhuma situação de preconceito. E nem damos espaço para que isso aconteça. Se tem festa do Dia das Mães na escola, eu o deixo participar. Se tiver alguma atividade, como uma dança com as mães num palco, eu danço com ele. Não percebo nenhum desdém ou deboche. E se um dia acontecer, ele será enfrentado com muito amor. E se for ofensivo, levaremos à Justiça.
Essa criança mudou tudo em nossa vida. Absolutamente tudo. Emocionalmente, psicologicamente, financeiramente, socialmente, fisicamente. Vida pessoal? Esquece. Não existe mais. Hoje só existe a vida com ele. Mas não é ruim. Pelo contrário: é maravilhoso. Nem consigo me lembrar como era nossa vida sem ele. Arthur é o que faz nossos corações continuarem batendo e o que nos move a levantar da cama todos os dias para amá-lo."

Ninguém nos tratou diferente no processo de adoção

Monica Drumond de Araújo, 51 anos, administradora, e Jeanne Tostes Drumond, 52 anos, cirurgiã dentista, de Lagoa Santa (MG), são mães da Giovanna, de 6 anos, e da Lorena, de 4 anos
Eu e a Jeanne estávamos há oito anos juntas, quando decidimos que era hora de termos os nossos filhos. Como nós duas já éramos histerectomizadas, a adoção foi o caminho para formarmos nossa família. Passamos por todo o processo normal de habilitação. Nunca fomos tratadas de forma diferente por sermos um casal homossexual. Em alguns momentos, nos sentimos até beneficiadas.
Primeiro, recebemos a Giovanna. Na época ela era recém-nascida e foi emocionante pegá-la no colo pela primeira vez. A primeira noite foi muito complicada. Ela dormiu direto e eu e a Jeanne ficamos ao lado dela até o amanhecer acompanhando o sono e certificando de que respirava. Depois, decidimos entrar na fila novamente.
Passamos pelo processo mais uma vez e recebemos a Lorena, na época com nove meses. Preconceito é algo que não nos afeta. Elas cresceram com duas mães e encaram isso com muita naturalidade. Eu sou a Mamamon e a Jeanne é a Mamathih, ou simplesmente, mamães. Quando nos chamam, sabemos pelo tom de voz, qual mãe elas querem naquele momento.
Conversamos muito e contamos a elas que não nasceram das nossas barrigas, mas que outra pessoa as fez para nós. Conforme elas vão crescendo e as curiosidades aumentando, podemos ir nos aprofundando no assunto. A emoção e a alegria não dão espaço para outro sentimento que não seja paixão pelas nossas filhas. Moramos numa cidade pequena e aqui somos uma família muito querida, aceita e respeitada. Pensamos em dar para as meninas todos os valores e referências para que sejam pessoas de bem e que no futuro continuem mudando a vida das gerações que virão a partir da nossa, com amor, respeito, cuidado e proteção."

Quatro gigantes dos negócios que têm programas de inclusão para lésbicas, gays e outras minorias

sexta-feira, 26 de abril de 2019 0 comentários

Exame Fórum Diversidade

Diversidade “faz toda a diferença” nestas quatro gigantes dos negócios


São Paulo – Etnia, cor de pele, idade, gênero, religião, orientação sexual, identidade de gênero, deficiências, classe social…A lista de singularidades humanas é tão diversa quanto a própria sociedade. Felizmente, algumas empresas já começam a acolher toda essa diversidade como uma fonte de riqueza, algo que torna as organizações e o mundo mais sustentáveis e justos.

Ao reconhecerem a diversidade como fator de inovação, criatividade e vantagem competitiva, elas se esforçam para criar um ambiente de trabalho onde todos se sentem bem e confortáveis em se expressar, um exercício que exige dedicação e esforços diários.

Durante o Forum EXAME Diversidade, reallizado na quarta-feira (27/03/19), quatro empresas de referência em seus respectivos setores discutiram como os negócios podem contribuir para a valorização da diversidade, impactando positivamente a sociedade e as próprias companhias.
Carrefour
Como uma empresa de varejo, temos o desafio de lidar com a diversidade e inclusão todos os dias. O varejo é um recorte da sociedade brasileira, temos todos os perfis representados na nossa companhia e lidamos com milhões de consumidores”, afirmou a pernambucana Karina Chaves, gerente de diversidade e inclusão do Carrefour.
Em 2013, a rede criou um comitê dedicado à diversidade com atuação transversal, por entender que este não é um tema específico de uma área, mas do negócio como um todo.

O Carrefour montou uma plataforma de diversidade que opera em quatro frentes: 1) promover a igualdade de oportunidade e de tratamento, considerando as diferenças e desigualdades presentes na sociedade; 2) promover um ambiente de trabalho respeitoso, acolhedor e focado no que é essencial para a empresa; 3) aprimorar as práticas de gestão empresarial por meio de aprendizados com os diferentes públicos e parceiros; 4) contribuir para criar referenciais competitivos ao considerar a diversidade como fonte de valor.
Para atingir esses objetivos, é essencial manter a cultura da diversidade viva e repensar processos. Há todo um aprendizado em procedimentos internos para ser alcançado”, destacou Karina. “Ainda assim com tudo o que fazemos, há sempre riscos, porque cada pessoa tem sua própria história. Como sociedade, temos ainda muitos preconceitos e racismos enraizados. Mas acredito no poder educacional das empresas”.
Cargill

A gigante global dos alimentos Cargill tem ações especificas voltadas à inclusão e diversidade nas suas operações no Brasil, que empregam 10 mil pessoas. Em 2016, formou um comitê de igualdade, com iniciativas transversais que reúnem funcionários interessados no assunto.

Esse movimento originou redes de atuação temáticas, como a AfroCargill, focada em igualdade étnico-racial e a PRIDE (palavra que significa “orgulho”, em inglês), para promoção de um ambiente seguro e que valorize profissionais gays, lésbicas e outras minorias. Também criou a MOB, sigla da rede Mulheres Operando no Brasil, cuja missão é incentivar as mulheres e seus potenciais para crescimento e liderança na empresa.

Empenhada em criar e manter um ambiente de trabalho inclusivo e diverso, desde 2017, a Cargill tem empregado diversas mudanças em seu processo seletivo, tanto para vagas de estágio quanto de liderança. Inspirada em modelos de recrutamento europeus, passou a contratar profissionais por meio do “currículo cego”, no qual o recrutador não sabe o gênero nem identidade do candidato.
O objetivo é eliminar o viés consciente ou inconsciente na contratação e estimular a contratação de profissionais por suas qualificações e competências, e não por gênero, cor, orientação sexual ou idade”, explicou Simone Beier, diretora de Recursos Humanos (RH) da Cargill no Brasil.
Segundo a executiva, o engajamento dos funcionários e dos líderes das redes, que são voluntários, é um diferencial para a promoção da diversidade na empresa.
Isso vai contagiando outras pessoas, e daí surgem novas sugestões por conta desse ambiente favorável para engajamento”, afirma Simone. Em um estudo global da empresa, 84% dos funcionários do Brasil disseram que se sentem confortáveis em ser quem são na companhia.
Simone Beier, diretora de Recursos Humanos (RH) da Cargill

Accenture

Na consultoria Accenture, a agenda de diversidade está totalmente conectada com o negócio, que lida com perfis de clientes variados, do varejo ao financeiro. Para Beatriz Sairafi, diretora de RH da empresa, a promoção de valores de inclusão não acontece sem “patrocínio da liderança”.
Temos a meta de alcançar 50% de equidade entre mulheres e homens  até 2030”, conta. “Um dos pilares da empresa está ligado às práticas, que devem ser abertas e inclusivas para todos”.
 Na Accenture, o nascimento de um filho dá direito à licença igual tanto para as mães quanto para os pais, além do benefício de creche para ambos.
O que transforma o ambiente interno é ter praticas que empoderam os colaboradores”, acrescenta a executiva. E lá, isso é praticamente um mantra. 
Grupo Boticário

No Grupo Boticário, além de um valor, diversidade é uma das seis competências pelas quais os gestores são avaliados. Há inclusive uma área de dados que permite estratificar todos os 12 mil colaboradores do grupo por singularidades, como etnia, cor de pele, gênero e classe social.
É uma fonte rica de insight para os gestores trabalharem o aperfeiçoamento de pessoas e grupos na empresa”, destaca Alvaro Garcia, diretor de marketing de “quem disse, berenice”, uma das marcas do Grupo Boticário, ao lado de O Boticário, Eudora, The Beauty Box, Multi B e Vult.
Além de fazer parte dos valores organizacionais da companhia, o tema da diversidade envolve todos os públicos do Grupo. E os consumidores não são exceção.
Por meio do nosso programa de consumidor oculto, pessoas de diferentes perfis visitam nossos pontos de venda se passando por um consumidor comum para avaliar o atendimento, conforme suas necessidades específicas. A partir dessa experiência, melhoramos o que for preciso, como treinar um colaborador para ajudar uma pessoa com deficiência visual a se maquiar ou falar sobre cores”, exemplificou o executivo.
Se a diversidade faz parte da cultura e dos valores organizacionais da companhia, ainda carrega estigmas pesados na sociedade brasileira. O Grupo “sentiu na pele” esses preconceitos quando lançou em 2015 a campanha de Dia dos Namorados, do Boticário, que mostrou diferentes tipos de casais, heterossexuais e homossexuais, trocando presentes. A propaganda virou alvo de protestos e ameaça de boicote à marca nas redes sociais e até de denúncia ao Conar.

No ano passado, o alvo das críticas foi o comercial da marca retratando uma família negra para o Dia dos Pais.
Em ação recente, quem disse berenice? retratou casais heteros, amigos e homossexuais se beijando. Perdemos mais de 14 mil seguidores nas redes sociais, mas ganhamos mais de 10 mil”, conta Alvaro.
Para o executivo, há um aprendizado em todos os esforços das empresas para promover a diversidade, tanto internamente quanto externamente.
Diversidade não é um fim, mas uma jornada. Há sempre oportunidades para dar novos passos. Se cada indivíduo colocar seu tijolinho ali e fizer a sua parte, nós construiremos o monumento da diversidade. É um trabalho em conjunto”.
Alvaro Garcia, diretor de marketing de “quem disse, berenice” da Boticário

Fonte: Exame, 28/03/2019

Casal de mulheres alega ter sofrido discriminação num motel

quarta-feira, 24 de abril de 2019 0 comentários

Foto: Reprodução/Facebook/Jessy Oliveira

Casal de lésbica sofre homofobia em motel: 'Se fosse um casal hétero teria vaga'

Casos de homofobia continuam vindo à tona todos os dias e a jovem paulistana Jessy Oliveira foi mais a entrar nas estatísticas. Em um grupo no Facebook, ela conta que ao tentar comemorar três anos de relacionamento com sua namorada em um motel na zona leste de São Paulo, elas foram impedidas de entrar por serem lésbicas.

No post, Jessy conta que foi informada pelo telefone que a entrada no local era permitida após 1 da manhã. Ela e a namorada então chamaram um Uber próximo do horário e ficaram aguardando na frente do UNOTEL, na Avenida Aricanduva.
Era 00h58 quando chegamos ao motel e tinham dois carros na nossa frente. Quando chegou nossa vez, a atendente olhou para dentro do carro e gritou: ‘está tudo lotado, não têm vagas’. Estávamos alterando o endereço da viagem para nossa casa quando chegaram mais dois casais”, relata.
O casal em questão era heterossexual e logo que abordaram a atendente na recepção, ela apresentou alguns quartos disponíveis.
Desci e fui perguntar se tinha quarto, pois ela havia acabado de deixar um casal entrar após efetuar o pagamento. Ela gritou: ‘não moça, já te falei que não tem quarto, eles entraram para esperar e ver se tem vaga para eles’. Aí perguntei o motivo dela não ter oferecido que esperássemos também e ela falou mais alto ‘porque já te disse que não têm quartos’.
Agressividade

Em entrevista ao Yahoo, Jessy contou que foi a primeira vez que tentou ir ao motel e que se surpreendeu com a atitude da atendente.
Em nenhum momento ela mencionou nossa sexualidade, simplesmente disse que não haviam quartos disponíveis. Mas o tom foi agressivo”.
A certeza de que se tratava de um caso de homofobia veio logo depois de dois casais terem sido avisados que haviam quartos disponíveis.
Só não havia vaga para minha esposa e eu (duas mulheres), pois se fosse um casal hétero teria”. Ainda de acordo com Jessy, o motorista do Uber incentivou as jovens a tomarem medidas judiciais. .
Medidas legais

O caso aconteceu no dia 6 de abril e Jessy entrou em contato com o motel para esclarecer o ocorrido, além de ter feito uma queixa no Reclame Aqui.

Ela decidiu esperar pela resposta do estabelecimento para tomar alguma medida judicial e disse que ela e a namorada se sentiram muito mal com a situação.
Desfecho

Na tarde do dia 17, o UNOTEL finalmente entrou em contato com Jessy e a resposta foi inesperada:
Eles disseram que deve ter sido um mal entendido ou então que a atendente não estava em um bom dia porque, para eles, não aconteceu homofobia. Até porque a atendente também é lésbica“, dizia o comunicado.
Jessy e sua namorada foram convidadas a voltar ao motel para uma noite grátis.
A atendente pediu para eu ir um dia lá e disse que vai me dar uma diária sem cobrar, para entender melhor o que aconteceu”.
Fonte: Yahoo Vida e Estilo, por Higor Dorta, 18 de abril de 2019

O Mau Exemplo de Cameron Post: filme sobre cura lésbica estreia nos cinemas

segunda-feira, 22 de abril de 2019 0 comentários


Filme sobre 'cura gay' sem maniqueísmos estreia nos cinemas brasileiros

Dois meses atrás, "Boy Erased", filme crítico sobre a chamada "cura gay", passou reto pelos cinemas brasileiros e foi direto para o DVD, apesar de seu elenco hollywoodiano e indicação ao Globo de Ouro. Razões comerciais, segundo a sua distribuidora.

Por ironia, outro longa com a mesma abordagem sobre o assunto, mas sem nomes estrelados,  estreiou no país na quinta (18) até mesmo em sala de shopping center.

A cineasta Desiree Akhavan se surpreende ao saber.
Tivemos que lutar muito para que o nosso filme estreasse nos cinemas aqui nos Estados Unidos, enquanto Boy Erased' teve um lançamento grande."
Nem mesmo o fato de ter sido o grande premiado do Festival Sundance, a meca da produção independente, ajudou.
Acho que tem a ver com o fato de lidarmos com sexualidade feminina, com a história de uma garota que se masturba e tem desejos", crê.
Ambas as produções partem de livros. Em Boy Erased (ed. Intrínseca), o americano Garrard Conley narra as memórias de quando foi levado pelo pai, um pastor batista, a um desses locais que se propõem a reorientar gays. Narra como um psicólogo dali aplicava jogos mentais nos frequentadores e incentivava exorcismos.

Cameron Post (ed. HarperCollins) é o romance juvenil escrito por Emily M. Danforth, inspirado em uma experiência do mesmo tipo, só que com uma adolescente lésbica.

Ambos os filmes abordam a inspiração religiosa que guia esses centros, evocam suas normas peculiares, como a revista de pertences para proibir a entrada de itens profanos, e o senso de inadequação dos protagonistas diante das arbitrariedades de seus líderes.

Enveredam, assim, por esse quase gênero cinematográfico que é o do filme de internação. São praticamente versões LGBT teens de Um Estranho no Ninho.

Mas as semelhanças terminam aí.

Boy Erased está mais para uma (mal sucedida) tentativa de fazer bom-mocismo com pautas identitárias e chamar a atenção ao escalar atores como Nicole Kidman e Russell Crowe para papéis centrais. Vem também de um diretor, Joel Edgerton, com pouca ligação com a causa.

Já O Mau Exemplo de Cameron Post faz jus ao pedigree indie, que lhe rendeu prêmio em Sundance, com produção mais modesta, mais sutileza e menos atores famosos. Sua diretora também é um nome conhecido em produções que resvalam na temática gay e lésbica.

O filme também deixa de lado o maniqueísmo que marca Boy Erased  e opta por não tratar religiosos como vilões nem os frequentadores desses centros como incautos vítimas de lavagem cerebral.
Não queria transformá-los numa piada", explica Akhavan. "A esquerda liberal não gosta muito da ideia, mas eu queria falar da humanidade que existe mesmo nos que defendem essas formas de terapias." 
Chloë Grace Moretz (Deixe-me Entrar) interpreta a personagem-título, uma adolescente órfã que é flagrada pelo namorado aos beijos com uma outra menina. A tia a obriga a frequentar o Promessa de Deus, programa mantido por psicólogos evangélicos em algum lugar não especificado dos rincões americanos.

Ali, Cameron aprende que o desejo homossexual é a ponta do iceberg de uma série de questões que só a religião irá sanar. O ano é 1993. Sem internet para conhecer histórias de outras lésbicas, a sensação de inadequação e solidão da garota é maior. É naquele centro, contudo, que encontrará mais gente como ela.

Nova-iorquina filha de iranianos, a diretora usou no filme parte de suas experiências num retiro destinado a pessoas com sobrepeso.
Para mim, foi bom. Cheguei odiando todas as pessoas que também estavam ali e aos poucos passei a ver traços meus em cada uma delas."
Isso ajuda a explicar o seu olhar um pouco mais generoso aos demais personagens que, assim como Cameron, são submetidos às regras do Promessa de Deus, incluindo aí os que as respeitam cegamente, seja lá por que razão. 

Durante as filmagens do longa, no segundo semestre de 2016, Donald Trump acabou eleito, levando a tiracolo o seu vice, Mike Pence, religioso e entusiasta fervoroso desse tipo de terapia de reorientação sexual.
Não mudou a nossa abordagem, mas trouxe um senso de urgência para o filme", explica Akhavan.
Antes, nos preocupávamos se seria relevante tratar do assunto naquele momento. Aquilo, então, deixou de ser apenas retórico."
Fonte: GaúchaZH, 17/04/2019



O Mau Exemplo de Cameron Post: Diretora explica como equilibrar drama e humor em filme sobre a "cura gay"

Chegou aos cinemas, na quinta passada, o vencedor do prêmio do júri no Festival de Sundance: O Mau Exemplo de Cameron Post, drama sobre as terapias de "cura gay" nos Estados Unidos. Chloë Moretz interpreta uma garota levada a um acampamento cristão após ser flagrada fazendo sexo com uma amiga.

Desiree Akhavan
O drama demonstra a violência psicológica destes procedimentos, que levam os jovens a "odiarem a si mesmos", nas palavras de Cameron. Ao mesmo tempo, o filme permite abordar o tema com leveza e humor, destacando as amizades formadas dentro do acampamento God's Promise ("Promessa de Deus").

O site AdoroCinema conversou com a diretora Desiree Akhavan sobre o projeto, adaptado do livro de Emily M. Danforth:

Como você conheceu o livro e o que te fez acreditar que renderia uma boa adaptação para o cinema?

Desiree Akhavan: O livro foi presente de uma amiga. Eu amei e dei para a minha namorada imediatamente. Na verdade, não foi minha ideia transformar em um filme, minha namorada na época amou também e disse: “Isso vai dar um ótimo filme”. Eu estava muito intimidada porque eu era uma grande fã do livro, eu não queria arruinar ele. Eu não sentia que era digna de readaptar esse livro, mas era uma coisa que eu pensava constantemente.

Quando eu lancei meu primeiro filme e estava viajando com ele, minha produtora disse: “Eu acho que a gente tem que transformar esse livro em um filme” e quando ela me disse que tinha amado, eu confiei nas pessoas ao meu redor porque eu não tinha confiança para fazer sozinha. Foram essas pessoas ao meu redor que disseram: “Você deve ir em frente”.

Quais foram as principais mudanças e concessões que você teve que fazer para adaptar o livro?

Desiree Akhavan: O livro tem 500 páginas, é muito longo. Além disso, ele começa quando Cameron tem 11 anos e vai até os 17 anos. A primeira coisa que eu sabia é que queria restringir as ações somente ao que aconteceu no acampamento God’s Promise. Então, nós nos ativemos principalmente a essa locação e a um pouco da vida dela antes. Esse era o meu foco: eu me ative à personagem.

Filme e literatura são meios muito diferentes. O filme é muito simplista, ele não fornece muito espaço para se aprofundar. Você pode fazer, mas não vai ser tão detalhado quanto o livro. Então, grande parte do trabalho consistiu em transportar a essência e manter a história o mais simples possível. Eu e minha co-escritora, Cecilia Frugiuele, demoramos um ano para conseguir isso.



Como você preparou o elenco? Fizeram pesquisas sobre outros grupos de conversão ou você queria que os atores se ativessem ao roteiro?

Desiree Akhavan: Eu queria que eles fossem verdadeiros com o roteiro. Chloe [Grace Moretz] e eu nos encontramos com vítimas da terapia de conversão gay, então ela conversou com pessoas que sofreram traumas. Mas eu, minha co-escritora e a escritora do livro pesquisamos muito, porque nós três sabíamos que se tratava de algo muito íntimo.

Para os jovens atores, preferia que eles sentissem como se estivessem em uma dessas comédias passadas na escola. Não queria que reforçassem a gravidade do tema. Para muitas pessoas que passaram por essas terapias, esta foi a primeira vez que conheceram outras pessoas gays na vida. Apesar de estarem em uma época terrível, eles também estavam se conectando com indivíduos LGBT pela primeira vez, então não deixa de existir algo carinhoso.

Como você decidiu que formas de violência mostrar ou apenas sugerir no filme?

Desiree Akhavan: Bom, isso foi um reflexo do livro. Nós vemos o mundo pelos olhos de Cameron e a personagem não está em todos os lugares. Ela não está junto de Mark (Owen Campbell) quando ele se mutila, por exemplo. Enquanto cineasta, eu queria que o espectador acompanhasse o mundo dela e foi por isso que optamos pela coerência com este único ponto de vista. Não precisamos ver o horror. Ele está presente quando Mark tem um colapso, durante a sessão em grupo, e se nós fizemos nosso trabalho direito, o espectador vai sentir a violência deste colapso na terapia.



Você diria que se trata de um político, ou que tenha uma mensagem a transmitir?

Desiree Akhavan: Qualquer filme que tenha algo novo a dizer é político. Eu só não quero que as pessoas assistam a isso e sintam que que estão tomando uma dose de remédio, que estão recebendo uma prescrição. Desde a infância, a maioria dos filmes nos diz o que é certo e o que é errado, seguindo um tipo de narrativa moralista.

Eu sempre fico animada quando assisto a algo que desafia minhas crenças, que desafia minhas expectativas. Então, sim, eu acredito que seja um filme político, mas, ao mesmo tempo, eu não acredito que tenha uma mensagem única a passar, nem que esteja julgando os jovens ou os líderes dessa terapia de conversão gay.

Os líderes da "cura gay" poderia soar como vilões, inclusive, mas você evita este caminho.

Desiree Akhavan: Sim, eu pensei que se fizesse meu trabalho direito, os espectadores sentiriam empatia por Lydia (Jennifer Ehle) e Rick (John Gallagher Jr.), entenderiam de onde eles vêm e porque chegaram onde estão. Para mim, como diretora, este era um desafio muito maior que representá-los como vilões. Seria mais interessante como espectador e muito mais desafiador realmente ter empatia por alguém nessa posição.

Mesmo assim, existe uma violência psicológica evidente neste acampamento. Quem você culparia pelos maus tratos: os líderes do acampamento? Os pais que internaram os jovens? Uma ideologia maior?

Desiree Akhavan: Acredito que todos estes sejam responsáveis. Quem você culpa por alguém como Donald Trump no poder, por exemplo? É o medo. Nós vivemos em um mundo de medo, onde as pessoas têm medo de qualquer coisa diferente do que elas estão habituadas. Quando seu filho é gay mas você é hétero, para algumas pessoas esse é um território desconhecido que eles não desejam enfrentar. Então, eles tentam fazer com que você seja com os outros. Então, sim, você culpa o medo, você culpa o governo, você culpa a cultura em que vivemos, você culpa os pais destes jovens.

Mas o que era difícil e interessante para mim era pensar: “Eu sempre quis fazer um filme sobre abuso infantil, mas eu não queria que fosse do mesmo jeito que sempre vi nas telas, de modo pesado e trágico. Enquanto crescia, eu descobri que o abuso sempre vem das pessoas que mais te amam e têm as melhores intenções. Elas estão munidas de discursos carinhosos do tipo: “Eu quero o que é melhor para você”. Isso era muito mais doloroso e muito mais interessante para mim como artista do que sugerir que existem pessoas boas e outras más.



Que reações o filme despertou desde o Festival de Sundance?

Desiree Akhavan: Eu fico muito grata que as pessoas tenham se identificado com Cameron e sua história. Fiquei surpresa com a quantidade de heterossexuais que se identificaram e enxergaram a sua própria adolescência no filme. Eu fiquei preocupada que o filme pudesse dialogar apenas com homossexuais, mas percebi que esta é uma história muito mais universal, e tenho muito orgulho disso. O senso de humor torna essa história muito mais universal.

Que experiências deste filme você vai levar para seus próximos projetos?

Desiree Akhavan: Esse filme foi uma verdadeira colaboração entre muitas mulheres inteligentes da minha vida. Minha co-escritora e produtora Cecilia Frugiuele, minha fotógrafa Ashley Connor, minha editora Sara Shaw. Eu estava muito calma, este era o meu segundo filme e eu queria aproveitar a experiência, para falar a verdade.

No meu primeiro filme eu estava tão nervosa, com medo de ser julgada, que não senti nenhum prazer em filmar. Neste filme eu deixei fluir, deixei as pessoas discordarem e foi prazeroso por causa disso. Esse filme foi melhor porque eu deixei acontecer e tive minhas colaboradoras na mesa comigo. Cada uma delas trouxe isso, então meu trabalho foi possível pela confiança nas pessoas.

Fonte: Adoro Cinema, por Bruno Carmelo, com a colaboração de Maria Clara Guedes, 19/04/2019

Videomaker resgata biografia da feminista Ti-Grace Atkinson e seu lesbianismo político

terça-feira, 16 de abril de 2019 0 comentários

Videomaker Rita Moreira faz videobiografia de feminista histórica Ti-Grace Atkinson

Lá pelo meio da conversa com a videomaker Rita Moreira, 74 anos, ela se apresenta: "Sou lésbica, feminista radical e de esquerda". Não que fosse preciso dizer. Àquela altura, Moreira já havia exibido para o blog seu vídeo mais recente, uma "biografia de ideias" da ativista norte-americana Ti-Grace Atkinson, 80 anos, que foi fortemente influenciada pela filósofa francesa Simone de Beauvoir (1908-1986) e ficou conhecida como uma das pioneiras do lendário Women's Movement, criado no início dos anos 1970.

Simone de Beauvoir é considerada um ícone do feminismo contemporâneo. Seu livro "O Segundo Sexo" (1949) tornou-se um clássico sobre a opressão às mulheres. Companheira indissociável do filósofo Jean-Paul Sartre (1905-1980), com quem manteve um relacionamento aberto durante a vida toda, ela partilhava com ele da filosofia existencialista, cuja base são experiências humanas concretas, digamos, prosaicas, e não apenas elaborações do sujeito pensante. Com Sartre e Michel Foucault (1926-1984), Beauvoir assinou a polêmica Lettre ouverte sur la révision de la loi sur les délits sexuels concernant les mineurs (Carta aberta sobre a revisão da lei sobre ofensas sexuais envolvendo menores), publicada pelo jornal Le Monde em 1977. Na França, a idade mínima de consentimento para relações sexuais era 15 anos.

Lesbianismo político

Entre as ideias  pregadas por Ti-Grace Atkinson, estão a analogia entre "feminismo radical" e "lesbianismo político" (forma de relacionamento sem caráter sexual, mas voltado à união visceral de mulheres pela mesma causa); o "separatismo" ("as mulheres devem se unir sem a presença do homem, para se definirem através de si, e usarem a raiva para ir adiante"); e, ultimamente, a convicção de que as trans não devem participar de manifestações feministas, "já que a questão de gênero não diz respeito ao movimento e sim aos direitos humanos").

Atkinson, à esquerda, e mais três pioneiras do feminismo: "Olha que lindinha!" (Foto: Reprodução).

Olha que lindinha!

Rita Moreira conhece Atkinson desde o começo dos anos 1970, quando morou em Nova York com a então companheira na vida pessoal e profissional, Norma Bahia Pontes. Fã incondicional da filósofa, mantém em casa diversas fotografias emolduradas dela. "Olha que lindinha! A Ti é a da esquerda", aponta a videomaker, quando a imagem de quatro feministas radicais aparece na tela.

Moreira afirma que tudo o que ela pensa está na videobiografia de Atkinson. E faz suas as palavras dela.
Os trans, os negros e os homens não têm nada que ficar tirando lasquinha das nossas passeatas. A gente não vai na deles!"
Ela não se conforma com as consequências que o debate sobre as questões de gênero trouxeram para as mulheres: 
Agora, a gente tem tido que explicar que somos mulheres nascidas mulheres. É o cúmulo! Só existem dois sexos: o ser humano nasce com um pinto ou uma xoxota. Aí, dizem que a gente é contra trans!"
Rita Moreira com Norma Pontes Bahia, companheira dos tempos em que morou em Nova York
 (Foto: Reprodução)

Atkinson tem legião de fãs 

Apesar de atrair uma legião de fãs, Atkinson não era lésbica nem tampouco manteve relacionamentos com homens — o que só aumentava o mistério em torno dela. "Mistério, não!", exalta-se Rita. Então ela era assexuada? Mais gritos. "Isso não vinha ao caso! Ela considerava as instituições como o casamento, a maternidade e a religião os fundamentos da opressão da mulher." Mas não podia nem transar? "Você não entendeu nada!", continua Rita.

Nas entrevistas do filme, Atkinson aparece usando óculos redondos com lentes acinzentadas, à francesa, ou muito grandes, de armação transparente. Mantém uma postura de intelectual séria, ri pouquíssimo e pensa muito antes de soltar elaborações como: "Só porque você está viva, não significa que você tem uma vida." Onde quer que ela fosse, sempre havia uma câmera para captar sua imagem: ora esbravejando com policiais em uma marcha política, ora falando a feministas embevecidas, ou simplesmente atravessando uma rua com uma legenda. "Ela detestou esse cabelo", lembra Moreira, em uma das entrevistas do vídeo.

Três momentos de Atkinson: em manifestação pelo impeachment do presidente Richard Nixon; em entrevista recente; e em outra, no começo dos anos 1970 (Foto: Reprodução)

Quem tem ódio de quem

Na esteira do discurso de Atkinson, Rita Moreira afirma: "As pessoas costumam dizer que as feministas radicais têm ódio de homens. Mas pega as estatísticas de violência doméstica, e vê quem odeia quem. Só em janeiro, foram 117 mulheres mortas por companheiros no Brasil." Comento, sem números, que possivelmente os homens que batem em mulheres não são a maioria. Ela: "Claro que há homens bons. Deve haver até muçulmano legal…"

Ainda assim, Moreira acredita que as mulheres são mais "valentes".
Desço aqui na (avenida) Paulista, para observar o movimento de manhã cedo, vejo que elas já estão com as banquinhas armadas vendendo café, enquanto os homens estão largados pelo chão."
Padrão contrarrevolucionário

A octagenária Ti-Grace, que chegou a comparar o casamento à escravidão e que, quando perguntaram qual seria o possível substituto, respondeu "o câncer", lamenta profundamente que o atual movimento gay tenha adotado a instituição.
As feministas dos anos 70 não cairiam nisso. Hoje, elas acham que se juntar ao que é aceitável pela sociedade é a resposta. Por isso que eu digo que o sentimento precisa ser muito bem analisado, caso contrário pode reproduzir um padrão antigo, contrarrevolucionário."
Em relação ao casamento heterossexual, especialmente no Brasil, ele se tornaria inviável por causa da violência doméstica. Moreira, que foi casada (ou morou junto) com algumas mulheres, pergunta:
Como pode, com esse feminicídio, ainda haver tanta mulher querendo se casar?"
Incrível retrocesso
Sobre as mulheres e o feminismo que se pratica atualmente, Atkinson afirma que, "fora pouquíssimos avanços que podem ser retirados (como a eventual liberação do aborto)" vivemos um período de incrível retrocesso.
Voltamos aos anos 1930", diz. "Nos tornamos coniventes com o subjugo, em parte para sobreviver. Ver-nos diminuídas permanentemente é intolerável. Por outro lado, acho o movimento #metoo interessante, mas não busca respostas profundas." Iniciado em 2017 pela ativista norte-americana Tarana Burke, o #metoo levou mulheres do mundo todo a declarar publicamente que sofreram assédio sexual.
Fonte: Universa, Blog do Paulo Sampaio, 15/04/2019 (editado)


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