Na Polônia, populistas de direita elegem os gays como seus maiores inimigos

quarta-feira, 10 de abril de 2019 0 comentários



Populistas da Polônia escolhem os gays como seus maiores inimigos
Sigla governista e líderes católicos se dizem contrários a direitos para comunidade LGBT
Quando Maciej Gosniowski estava crescendo numa cidade pequena no sul da Polônia, parte de uma família religiosa e de uma comunidade conservadora, as pessoas viviam dizendo que havia algo de errado com ele.
Seria melhor eu mudar meu jeito de ser”, ele se recorda de ouvir de seus professores. “Seria melhor se eu me comportasse mais como menino. Isso facilitaria minha vida.”
Gosniowski levava surras de outros alunos, que o xingavam usando palavrões homofóbicos que ele ainda não entendia. Ele não quer que outras crianças ou adolescentes sofram como ele sofreu, por isso saudou a decisão do prefeito de Varsóvia, no mês passado, de fazer uma declaração promovendo a tolerância.

Mas as reações contra a declaração o deixaram abalado.

O partido governista da Polônia, Lei e Justiça, aproveitou a declaração e toda a questão dos direitos dos gays na campanha que está fazendo para as eleições de representantes na União Europeia, em maio, e para as eleições nacionais, no próximo outono.

No passado o partido atacava migrantes, vendo-os como ameaça à alma do país. Mas nas últimas semanas os homossexuais viraram seu inimigo público número um.

Isso espelha uma tendência crescente na Europa central e do leste, onde partidos nacionalistas e populistas vêm cada vez mais recorrendo a questões culturais –e a ataques a gays— para mobilizar seus seguidores.

Desde a Romênia, onde o governo tentou mas não conseguiu emendar a Constituição para proibir o casamento homossexual, até a Hungria, onde homossexuais são vilipendiados e descritos como ameaça à família tradicional, a sigla LGBT vem sendo repudiada. Isso ocorre no contexto de uma luta mais ampla contra o que nacionalistas e populistas descrevem como “valores europeus”.

Jaroslaw Kaczynski, líder do partido Lei e Justiça e político mais poderoso da Polônia, usou a convenção da sigla em março para declarar que a guerra à homossexualidade é uma guerra que a Polônia precisa vencer para poder sobreviver.
Como hoje já sabemos, trata-se da sexualização das crianças desde a primeira infância”, ele disse. “Precisamos combater isso. É preciso defender a família polonesa. Precisamos defendê-la furiosamente, porque esta é uma ameaça à civilização, não apenas da Polônia mas da Europa como um todo, uma ameaça a toda a civilização baseada no cristianismo.”
O chamado mobilizou as bases do partido.
Acho que a Polônia vai se tornar uma região livre de LGBTs”, comentou Elzbieta Kruk, candidata do partido a uma cadeira no Parlamento Europeu. “Espero que sim.”
Outras organizações ecoaram os ataques, muitas vezes usando linguagem mais radical.

Durante uma partida de futebol no mês passado os torcedores de um dos clubes mais populares do país, o Legia Varsóvia, agitaram uma bandeira contendo um insulto homofóbico. Nada foi feito contra a bandeira durante o jogo. O clube disse mais tarde que não queria se envolver em “disputas políticas e ideológicas” e que a bandeira “não reflete a posição do Legia”.

Lideranças polonesas na Igreja Católica, ela própria abalada por revelações sobre abusos sexuais cometidos por clérigos, também aderiram à campanha.

O conhecido padre católico e educador Marek Dziewiecki disse a uma emissora de rádio local em entrevista recente que o sinal de “+” na sigla LGBTQ+ representa “pedófilos, zoófilos, necrófilos” e que o objetivo final é “converter as pessoas em “erotomaníacas inférteis”.

Quando 1.500 seguidores de organizações de direita radical foram a Czestochowa, o maior santuário religioso da Polônia, este mês, o reverendo Henryk Grzadko avisou as pessoas reunidas no local que a Polônia vive “uma invasão civilizacional”.

Durante sua homilia numa missa no encontro ele disse: “Eles agitam uma bandeira de arco-íris e procuram roubar nossos valores internos, como verdade, amor, vida humana, família baseada no matrimônio e moralidade fundamentada no Evangelho e nos Dez Mandamentos”.

Rafal Trzaskowski, o prefeito de Varsóvia, que divulgou a declaração de tolerância, disse que já previa uma reação cínica do governo mas acha preocupante o tipo de propaganda política produzida por emissoras públicas.


Segundo ele, foi esse mesmo tipo de material carregado de ressentimentos e ódio que levou um homem a apunhalar o prefeito de Gdansk, Pawel Adamowicz, na televisão ao vivo este ano, o matando.
Eles baseiam sua política no medo”, ele disse em entrevista dada na sede da prefeitura. “Começaram alguns anos atrás com refugiados, pintando um quadro assustador, dizendo que seríamos invadidos por centenas de milhares de migrantes que iam estuprar nossas mulheres e introduzir doenças na Polônia. Estão fazendo exatamente a mesma coisa agora.”
Mas Trzaskowski acha que não vai funcionar. Em 2015, quando o partido Lei e Justiça chegou ao poder, uma maioria avassaladora de poloneses concordou com a ideia de que era preciso fazer mais para proteger as fronteiras da Europa contra a chegada de migrantes.

Essa ameaça em grande medida já desapareceu, e a questão dos migrantes não mobiliza as pessoas como mobilizava antes, segundo sondagem de opinião divulgada na semana passada pelo Conselho Europeu de Relações Externas.
A migração ainda é importante para alguns eleitores, mas não é o único campo de batalha onde se disputarão votos antes das eleições para o Parlamento Europeu”, disse a entidade em comunicado à imprensa.
Trzaskowski, o prefeito de Varsóvia, não acredita que atacar gays seja uma arma tão eficiente quanto a campanha contra os migrantes.
A maioria da população polonesa não vai aceitar a ideia de que os homossexuais colocam nossa cultura e nossos valores em risco”, ele opinou.
Um candidato abertamente gay, Robert Biedron, formou um novo partido liberal e vem encontrando apoio amplo para sua mensagem, mesmo fora dos centros urbanos.

Uma pesquisa recente de opinião pública conduzida pela Ipsos para o site OKO.Press concluiu que 56% dos poloneses não são contra as uniões civis; dois anos atrás, eram 52%.

Ao mesmo tempo, porém, os poloneses continuam a se opor à adoção de crianças por casais gays: apenas 18% das pessoas são a favor da ideia.

Oktawiusz Chrzanowski, 36, que teve uma participação crucial na redação da declaração de Varsóvia, e seu companheiro, Hubert Sobecki, disseram que um dos elementos mais ofensivos da campanha do governo foi o esforço para retratar a homossexualidade como um perigo para as crianças.
O mais chocante e revoltante é o modo como alegam que os membros da comunidade LGBT são pedófilos”, disse Sobecki.
A declaração de Varsóvia prevê educação sexual nas escolas que siga as diretrizes da Organização Mundial de Saúde e determina a criação de um abrigo na cidade para pessoas rejeitadas e expulsas por suas famílias e comunidades.

Chrzanowski espera que algum dia no futuro não distante todas as escolas contem com a figura de um “guia”, alguém a quem os estudantes possam pedir conselhos e orientação sem o receio de serem julgados.

Gosniowski, que decidiu sair do armário depois de ser espancado no colégio e que é uma das poucas drag queens do país, disse que hoje sente-se confiante em sua sexualidade.

Num almoço recente em um café de Varsóvia, ele usou moletom cor-de rosa e brincos dourados de argola, com os cabelos loiros compridos. É uma tomada inequívoca de posição em um país onde o inconformismo ainda pode ter custo elevado.

Fonte: Folha de SP, por Marc Santora, Tradução de Clara Allain, 09/04/2019

Filhos de casais de mesmo sexo poderão ser batizados em Igreja Mórmon

segunda-feira, 8 de abril de 2019 0 comentários

Mulher posa para foto com uma bandeira de arco-íris enquanto pessoas se reúnem para uma renúncia em massa à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias em Salt Lake City, nos EUA, em 2015. — Foto: Rick Bowmer/AP

Mórmons permitirão batismo de filhos de casais LGBT
Impedimento determinado em 2015 tinha afastado 1.500 membros da congregação, segundo relatório. Mudanças foram promovidas pelo presidente da Igreja, Russell Nelson, a fim de 'reduzir o ódio e os conflitos tão comuns na atualidade'.

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias informou nesta quinta-feira (4) nos Estados Unidos que permitirá que filhos de casais de mesmo sexo sejam batizados.

Em comunicado, a igreja anunciou esta mudança nas políticas internas envolvendo fiéis membros da comunidade LGBT, especificamente a anulação de uma medida de 2015 que impedia que filhos de casais do mesmo sexo fossem batizados e recebessem bênçãos, assim como que também não vai classificar como "apostasia" as uniões de casais homoafetivos.
Os filhos de pais que se identificam como lésbicas, gays ou outras minorias podem ser batizados sem a aprovação da Primeira Presidência se os pais com custódia derem permissão para o batismo", diz o comunicado, divulgado dois dias antes da conferência anual dos mórmons no estado de Utah, nos Estados Unidos.
O anúncio, feito por Dallin Oaks, da Primeira Presidência, explica que o novo enfoque não representa uma modificação na doutrina a respeito "do casamento ou dos mandamentos de Deus sobre castidade e moralidade". Isso significa, especificou Oaks, que espera-se que os mórmons LGBT "atuem conforme as doutrinas da Igreja".

A regra estabelecida em 2015, segundo relatórios, provocou o afastamento de 1.500 membros da comunidade LGBT da congregação.

As mudanças foram promovidas pelo presidente da Igreja, Russell Nelson, que assumiu o cargo há um ano, a fim de "reduzir o ódio e os conflitos tão comuns na atualidade".

Há algumas semanas, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, que é a frequentada pela maioria dos moradores de Utah, deixou de se opor à inclusão da comunidade gay em uma medida legislativa de combate aos crimes de ódio no estado, abrindo o caminho para que a iniciativa se tornasse lei.

Fonte: G1, via Agência Efe, 04/04/2019

Nova minissérie da Globo, “Se Eu Fechar os Olhos Agora”, trará novo casal de mulheres

sexta-feira, 5 de abril de 2019 0 comentários


Prevista para estrear no próximo dia 15 de abril, a nova minissérie da Globo, “Se Eu Fechar os Olhos Agora”, vai mostrar uma sociedade conservadora da década de 60. E, entre as diversas histórias  fora dos padrões na trama, um dos destaques será o relacionamento de Isabel (Débora Falabella) e Adalgisa (Mariana Ximenes)

Na história teremos uma das personagens como a primeira-dama da cidadezinha de São Miguel, no interior do Rio de Janeiro, casada com o prefeito Adriano (Murilo Benício), com quem vive um relacionamento de aparências. A outra personagem é uma mulher à frente do seu tempo, para 1960, num relacionamento moderno com Geraldo (Gabriel Braga Nunes), porém sem graça. 

As personagens Isabel (Débora Falabella) e Adalgisa (Mariana Ximenes) vão viver um romance que começará às escondidas, quando ambas insatisfeitas em seus relacionamentos hétero, buscam mais liberdade e aventura em suas vidas.
Fico muito contente que ela tenha um outro romance, que é misterioso. É onde ela se sente feliz e realizada, onde ela se sente mulher”, celebra Mariana Ximenes.
Eu acho que a Isabel é uma mulher que tem a ânsia de ser feliz e de furar com aquela bolha em que ela vive. O grande barato da série é esse: mostrar a sociedade que diz que é uma coisa, se coloca de uma forma superconservadora, mas todos têm teto de vidro e algo de obscuro, de secreto, de transgressor. Cada um de um jeito”, opina Débora Falabella.
Para mais informações sobre direitos e conquistas das mulheres em geral, acesse Contra o Coro dos Contentes

Fonte: Com informações de Vipado e EntrePop, 29/03/2019


Eleita primeira prefeita negra e lésbica em Chicago

quarta-feira, 3 de abril de 2019 0 comentários

Lori Lightfoot, prefeita eleita de Chicago vai enfrentar grandes desafios em uma das cidades mais
populosas dos EUA (Joshua Lott/Reuters)

Chicago elege a primeira prefeita negra e lésbica
Lori Lightfoot enfrentará problemas como altas taxas de criminalidade, corrupção endêmica, déficits financeiros e falta de recurso

Chicago — A democrata Lori Lightfoot foi eleita na terça-feira, 3, por esmagadora maioria, como a primeira prefeita negra e lésbica de Chicago, a terceira cidade mais populosa dos Estados Unidos.
Hoje nós não apenas fizemos história, mas iniciamos um movimento de mudança”, disse a advogada de 56 anos, que comemorou sua vitória em um hotel na cidade pouco depois do Conselho Eleitoral a declarar vencedora com 73,8%.
Quando começamos nossa campanha, ninguém confiava em nossas possibilidades. Agora vejam onde chegamos”, acrescentou a prefeita eleita, que prometeu colocar “os interesses de todos os moradores da cidade acima dos interesses de alguns poderosos”.
Lori enfrentará problemas como altas taxas de criminalidade, brutalidade policial, corrupção endêmica, déficits financeiros e falta de recursos para a educação pública. A cidade de Chicago registrou 561 assassinatos em 2018, 100 a menos que no ano anterior, porém mais que Nova York e Los Angeles – as duas maiores cidades do país -, juntas.

Essas taxas de homicídio levaram o presidente americano, Donald Trump, a ameaçar em 2017 intervir na cidade com forças federais para conter o que ele chamou de “carnificina”.

Nas eleições, Lori Lightfoot derrotou a também negra Toni Preckwinkle, presidente do Partido Democrata em Illinois, que obteve 26,2% dos votos.
Esta é claramente uma noite histórica, pois até pouco tempo atrás, duas mulheres negras em um segundo turno para a prefeitura, seria algo impensável”, disse Preckwinkle.
No pleito, apenas 29% dos 1,5 milhão dos eleitores participaram, número menor que os 34% participaram do primeiro turno, em fevereiro, quando tinha 14 candidatos na disputa. Esse número foi o resultado do abalo político que levou ao anúncio em setembro do atual prefeito, Rahm Emanuel, de não tentar um terceiro mandato.

O ex-congressista e também ex-chefe do Gabinete dos presidentes Bill Clinton e Barack Obama, que chegou ao poder com as melhores credenciais, entrou em descrédito com a população após um caso de violência policial.

O escândalo ocorreu em 2014, quando um policial branco matou um adolescente negro, com 16 disparos pelas costas. Emanuel perdeu o apoio da comunidade negra depois que seus líderes o acusaram de encobrir o crime. O policial Jason Van Dyke foi condenado a 81 meses de prisão por um assassinato em segundo grau.

Fonte: Exame, 03/04/2019

Para mais informações sobre direitos e conquistas das mulheres em geral, acesse Contra o Coro dos Contentes

Nadia Bochi e Silvia Henz sempre se reapaixonando

sexta-feira, 29 de março de 2019 0 comentários

Nadia Bochi e Silvia Henz (Foto: Reprodução/Instagram)

Nadia Bochi ganha beijo da namorada e se declara: "Repaixão"
Repórter do Mais Você namora Silvia Henz
Nadia Bochi, repórter do Mais Você, se derreteu toda pela namorada, Silvia Henz, na noite desta sexta-feira (15). Em suas redes, a jornalista compartilhou um clique recebendo um beijo da amada e se declarou.
É repaixão mesmo a palavra @silviahenz ?! Quando a gente ama alguém faz tempo e se apaixona de novo!", escreveu na legenda da foto.
Em junho de 2018 a jornalista fez um grande desabafo falando sobre sua homossexualidade, machismo e assédio, relembrando a época em se descobriu e assumiu lésbica.
Me reconheci lésbica numa época em que ser homossexual não tinha nenhum glamour. Não existia beijo gay nas novelas, pelo contrário as lésbicas explodiam junto com os prédios. Aliás, até no cinema era difícil demais encontrar algum tipo de casal que me representasse. Tive que inventar o imaginário que não existia fora da ficção, bem lá na realidade crua onde a palavra homossexualismo ainda era nome de doença, segundo a Organização Mundial de Saúde. Parece distante, mas isso tudo foi ontem, nos anos 90. Década em que comecei a trabalhar como jornalista em um dos canais de TV a cabo mais importantes do mundo (a HBO) e tive o a oportunidade de descobrir que era possível ser gay e viver fora do armário", dizia parte do relato.
Nadia Bochi, repórter do Mais Você, se assume lésbica (Foto: Reprodução/Facebook)

Gays e Lésbicas na terceira idade: amor, solidão e resistência

quarta-feira, 27 de março de 2019 0 comentários

Silmara e Valeria dançando Imagem: Arquivo pessoal

LGBT na terceira idade: 3 histórias inspiradoras sobre amadurecer

Uma projeção do IBGE aponta que o Brasil terá mais idosos que jovens em 2060. E, se envelhecer é tabu para qualquer pessoa, essa angústia se reforça entre a população de gays e lésbicas. 

"Isso porque existe uma possibilidade maior de essa pessoa se ver 'mais sozinha' na velhice em relação a outras pessoas", explica a neuropsicóloga Elaine di Sarno.

Há motivos variados de solidão: quem rompeu com familiares de origem há algumas décadas por conta da orientação sexual, quem não teve filhos... a psicóloga Juliana Guimarães de Araujo acredita que essa postura tem a ver com o momento em que se assume a homossexualidade. Só em 1990 a OMS retirou a homossexualidade da lista internacional de doenças.

"A pessoa que se assumiu nessa época teve uma determinada experiência. Até por conta do contexto social, cultural da época: ninguém os estimulava a se expressarem. Muitos pensavam que tinham de se moldar para serem aceitos", conta a profissional.

Mas como é a vida de pessoas de 50, 60 e 70 anos que se assumiu LGBT há algumas décadas?

Veja relatos de pessoas maduras que contam como vivem o amor (e a solidão) hoje:

Ela era o amor da minha vida

Se eu me sinto sozinha? Sim, mas por causa da ausência da Ester."
Assim começou a entrevista com a jornalista e escritora Laís de Castro, 72 anos, que acabara de enviuvar de Ester -- segundo ela, o grande amor da sua vida, com quem comemorou 28 anos de união estável em fevereiro.

Laís conta que, meses antes, as duas haviam feito check-ups e estavam com a saúde em dia - mas a companheira teve um infarto fulminante.

Física nuclear e professora, casou com o pai de seu filho aos 23 anos, mas aos 27 já estava separada e namorando uma moça. Cerca de 10 anos depois, ela e Laís foram apresentadas. "Eu não a conhecia, nunca tinha visto na vida, mas foi como se um raio caísse na cabeça das duas. Um ano depois nós estávamos juntas, e assim passamos os últimos 28 anos."

Laís se considera privilegiada pelo fato de ter uma família que sempre respeitou sua orientação sexual, assim com as suas companheiras.
Eu tenho 5 irmãos e 19 sobrinhos -- e eles são muito meus amigos. Então, tem alguns que ficaram até mais amigos dela", contou fingindo estar com ciúmes. "Minha irmã, maravilhosa, no velório [da Ester] chorou quase tanto quanto eu."
Além disso, ela trabalhava em ambientes que considerava mais abertos, relacionados à Comunicação. Por isso, acha que nunca esteve no armário.
Quando alguém me convidava para algum evento, sempre chamavam a mim e à Ester. Eu nunca cheguei e falei que era homossexual", lembra.
Por outro lado, como professora universitária e física nuclear, Ester não se sentia tão confortável.
Com o pessoal do trabalho, ela só falava do ex-marido, do filho."
Em 2013, as duas foram morar em Franca, no interior de São Paulo: Ester foi convidada para ser reitora de uma grande faculdade particular da região. Laís foi com ela, claro. Como prima.

A reitora não pode ser sapatão, né?

No armário permaneceram até 2018, quando Ester morreu -- lá em Franca, mesmo. Seu filho, então com 38 anos de idade, já era médico geriatra e foi um dos responsáveis por atestar o óbito da mãe. Ele também é descrito por Laís como um grande amigo.
Sou uma idosa autônoma: eu dirijo meu carro, compro meus remédios, vou ao médico sozinho e sou craque no computador", diz Laís. "Eu não tenho problema de saúde, meus 72 anos são só no documento. Eu vivo como uma pessoa de 60", disse ela, que não aguentou permanecer na casa onde viviam juntas e se mudou para Ribeirão Preto, também no interior paulista.
Por outro lado, tenho outras amigas LGBT também, que vivem uma realidade complicadíssima: como não têm filhos, não têm acompanhantes para levarem aos médicos e fazer exames, por exemplo", lamenta.
Conheço outras idosas lésbicas que sofrem com a solidão porque não têm um vínculo com as famílias, ou não tem boas relações com as colegas. Ficam vivendo só entre elas."
No dia 25 de março, quando a morte de Ester completa um ano, Laís lança o livro "Vida a duas - O livro do nosso amor", que ela escreveu "para que a mulher nunca seja esquecida". Ela prefere não mostrar fotos da parceira para não expor.

Se eu pudesse escolher, eu nascia era gay, de novo

"Nascido em Recife, o sociólogo Carlos Sena, 68 anos, disse que nunca
teve problemas por ser gay" Imagem: Arquivo pessoal

Nascido no interior de Pernambuco, o sociólogo Carlos Sena, 68 anos, disse que nunca teve problemas por ser gay. Veio de Bom Conselho para Recife cedo, mas quando morava lá, namorava mulheres. Depois que chegou em Recife e começou a trabalhar e a fazer faculdade, começou a notar os olhares de outros homens.
Eu sempre apresentei meus namorados com a maior naturalidade para a minha família. E sempre me senti superior a qualquer tipo de preconceito."
Sena dava aulas de psicologia social e sociologia. Um dia, uma aluna disse que estava apaixonada por ele.
Ela sabia que eu era gay, mas disse que queria me colocar no caminho certo. Eu disse que não queria."
Especializado em gestão pública em saúde, ele conta que já ocupou cargos importantes do governo de Pernambuco e sempre foi tratado com respeito, porque sempre se impôs.
Ainda tem muito preconceito dentro do mundo gay. Muitas "bichinhas" se acham melhor que as outras porque não são pintosas, ou porque têm mais dinheiro".
Apesar de ter sido casado algumas vezes, ele reclama que o problema sempre foi arrumar um parceiro que o acompanhasse no nível intelectual.
Se eu nascesse de novo e pudesse escolher, eu nascia era gay. Eu me amo e são poucas as bichas que travam o caminho de se amar", diz ele que garante não sentir solidão, apesar de estar solteiro há seis meses. "Chovia rapaz novinho na minha horta, mas eu não quero."

“Eu aprendo muito com a Sil. Com ela fui a primeira vez em um boteco.
Ela me incentivou a voltar a estudar, a me preparar para o concurso” Imagem: Arquivo pessoal


Conheci o amor da minha vida numa sala de bate-papo.

A funcionária pública Valéria Casolato, 53 anos, esteve com um homem durante 14 anos -- 2 de namoro e 12 de casamento.
De repente, me vi em um casamento falido, sem emoções, sem amizade ou companheirismo e com uma filha de menos de dez anos. Eu não tinha mais sonhos ou objetivos aos 30 e poucos anos."
Desencantada com a crise no casamento, ela procurou atividades como teatro e até salas de bate papo virtuais -- muito populares no fim dos anos 90.
Entrei em uma sala de lésbicas porque queria conversar com pessoas diferentes de mim e conheci o amor da minha vida."
Fiquei assustada, claro. Fui para a terapia para entender o que eu estava sentindo, coloquei a minha filha também. Depois conversei com o meu marido e me separei."
Formada em Relações Públicas, ela acredita que a área é mais aberta e, por isso, se deparou com poucas situações em que foi vítima de preconceito. Mas, no meio familiar, foi mais difícil.
Quando minha mãe soube, teve um pico de pressão alta e foi parar no hospital. Ela achava que eu só dividia um apartamento com uma amiga."
Mesmo sentindo que estava fazendo algo errado, Valeria percebia que estava cada vez mais envolvida com a atual esposa, Silmara.
Eu aprendo muito com a Sil. Ela me incentivou a voltar a estudar, a me preparar para o concurso", conta. Em fevereiro elas comemoraram 19 anos de relacionamento.
Até hoje durmo com ela fazendo carinho em mim. Passamos por muitas coisas juntas: falta de grana, desemprego, doenças. Mas gostamos de estar juntas e temos um trato: não dormimos brigadas."

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