Casal de mulheres ganha presente duplo feito por filha na creche

sexta-feira, 13 de maio de 2022 0 comentários

                              Elis, de 1 ano e doze meses, entregou presente para as duas mães;                                 post com foto chegou a mais de 100 mil curtidas no Twitter

Quem tem filhos que frequentam creche ou escolinha sabe que possivelmente receberá, em alguma data comemorativa, um presente personalizado feito pela criança durante a aula. Nesta sexta (6), foi a vez de a biomédica Tainá Maia e a servidora pública Keite Valença entrarem para esse time: mães de Elis, de 1 ano e 11 meses, elas viram a menininha chegar com duas almofadas, cada uma desenhada para uma das mães.

Juntas há 12 anos, elas vivem o que é chamado dupla maternidade. O casal acredita que falar sobre mães lésbicas e outras configurações de família que não sejam apenas pai e mãe é importante. Por isso, Keite foi ao Twitter celebrar o mimo enviado pela creche. A foto das três conquistou os usuários da rede social: até a publicação desta reportagem, haviam sido 113 mil curtidas e mais de mil compartilhamentos do conteúdo celebrando a imagem.
Ficamos felizes com a repercussão. Falta a discussão de que família não é só pai e mãe, existem várias conformações do que é família", comentou a servidora pública em entrevista para o site Universa.

 Dupla maternidade e o presente de Dia das Mães

As mães, que moram no Rio de Janeiro, se surpreenderam
com o presente entregue pela creche de Elis Imagem: Arquivo pessoal

Keite e Tainá viverão o segundo Dia das Mães com a pequena Elis nos braços. Neste ano, no entanto, o presente das mães foi garantido pela creche: a menina usou carimbos de coração para enfeitar uma almofada com o nome dela e a mensagem "Mamãe, te amo".

A servidora pública diz que antecipadamente já sabiam que a escola era "preocupada com a inclusão e com as particularidades de cada criança". Mas o mimo foi uma surpresa.
Essa consideração da creche nos deixou muito felizes. Lá, eles também fazem o Dia das Famílias e não fazem festinhas de Dia das Mães ou Dia dos Pais, para não ficar uma situação de constrangimento para as crianças que não têm essa configuração familiar com pai e mãe."
Tainá conta que foi buscar a filha na escola e a professora comentou:
Se ela tem duas mamães, tem que levar dois presentes".
Para ela, o episódio é um pequeno movimento em uma extensa luta para o fim do estigma que recai sobre diferentes configurações de família.
Quando começamos a nos relacionar, não era permitido nem casar, que dirá ter dupla maternidade. Hoje, quando o bebê nasce já é possível até colocar o nome das duas mães na certidão. É um avanço, mas ainda temos um caminho longo."
Para Keite, o fato de a foto da família ter recebido tantos elogios no Twitter também indica essa mudança comportamental e novos caminhos na representação de mães lésbicas.
Vi meninas lésbicas dizendo que daqui a uns anos querem isso para elas. É uma representatividade que não tínhamos há 20 anos."

Gestação foi realização de um desejo das duas mães; hoje, Elis tem quase dois anos
Imagem: Arquivo pessoal..

Keite e Tainá contam que estão numa fase de viver "a delícia que é criar um ser humaninho" como Elis.
Sempre quis ser mãe, nos programamos para isso. E nós duas participamos de tudo ativamente, Tainá até conseguiu amamentar nos primeiros meses de vida da nossa filha [é possível fazer tratamento para indução de produção de leite materno]", diz a servidora pública.
Para este domingo, a família terá uma programação agitada: vai visitar avós e bisavós e celebrar a maternidade entre elas.
Queremos dar atenção a todas essas mulheres que ajudaram a nos formar e que, com certeza, já estão ajudando a formar Elis", explica Keite.
Clipping Ela tem duas mamães': casal ganha presente duplo feito por filha na creche, por Nathália Geraldo, Universa, UOL, 07/05/2022

Apesar de 47.000 registros de crianças por duas mães, a lei ainda não é igualitária para as lésbicas.

quarta-feira, 11 de maio de 2022 0 comentários

A decisão de quem vai gestar o bebê é particular,
mas as tentativas costumam ser duplas.
Imagem: Depositphotos

Mesmo com mais de 45 mil registros em certidões de nascimento por duas mães nos últimos nove anos, leis do país não garantem direitos

Hoje é cada vez mais comum acompanhar o processo de gravidez que envolve duas mulheres. De perfis nas redes sociais a casais de famosas como Nanda Costa e Lan Lanh, mulheres lésbicas compartilham a realidade da chamada dupla maternidade. De acordo com a Associação dos Notários e Registradores do Brasil (Anoreg/BR), entre 2013 e fevereiro de 2022, foram realizados 47.124 registros de crianças por duas mães em todo o Brasil.

Se por um lado, a dupla maternidade tem ganhado as redes sociais e os lares brasileiros, a legislação ainda está longe de contemplar esse modelo familiar. Abaixo entrevista do site Nós com a advogada Lucila Lang do escritório Lang & Michelena Advogadas que atende, em especial, casos de pessoas LGBTQIA+, que relatou os principais desafios enfrentados por mulheres lésbicas na hora de ter filhos.

Lei ainda é restrita para quem gesta

A decisão de quem vai gestar o bebê é muito particular. Pode ser quem nutre um maior desejo ou quem está mais apta sob a perspectiva de saúde física e mental, por exemplo. Em muitos casos a tentativa é dupla, com ambas as mães passando pelos processos para engravidar. No entanto, na maioria dos casos, apenas uma das mulheres do casal engravida, o que faz com que automaticamente, as leis sejam exclusivas para elas.
Culturalmente nossa sociedade parte do princípio que o lugar da maternidade está ligada à gestação e essa visão é geral e não só da lei", explica Lucila.
Licença-maternidade e salário-maternidade são os principais direitos quando se fala em parentalidade e, em geral, estão atrelados.
São coisas diferentes mas que acontecem juntas. A licença é o período de afastamento do trabalho, já o salário significa a verba disponibilizada durante o período de afastamento", explica a advogada.
Para quem gesta, a legislação prevê 120 dias; já quem não, tem direito a cinco dias na chamada licença-paternidade, que não conta com remuneração. Outro benefício também exclusivo de quem gesta é a estabilidade, que proíbe a empresa de desligar a pessoa quando retornar ao trabalho.
Essa falta de suporte faz com que muitas mulheres não confrontem as empresas que trabalham, afinal não existe nenhuma garantia de suporte financeiro ou de que seguirão contratadas após a licença", relata.
Esse possível confronto se dá, em especial, porque com a falta de legislação cabe às empresas o estabelecimento de políticas que beneficiem quem não gesta, sendo necessária a ação de vários agentes: se o RH está disposto a comprar a briga dentro da empresa, quais são as políticas já estabelecidas desta organização, se a gestão apoia ou não a causa e assim por diante.

Mãe e Mãe

Outro desafio encontrado pelas mães é o próprio registro do bebê. O provimento 63/2017 do Conselho Nacional de Justiça prevê a lavratura do registro de duas mães em caso de reprodução assistida, desde que se apresente uma série de documentos, incluindo laudos da clínica de fertilização, o que já exclui automaticamente casais que optam por outras formas de reprodução como inseminação caseira. 
Existe a certidão de nascido vivo que é emitida pelo hospital, que depois de muita luta passou a trazer recentemente os campos de genitor(a) 1 e genitor(a) 2, ao invés de pai e mãe, e mesmo com essa certidão e os documentos da fertilização tem cartório que recusa o registro", detalha a advogada, revelando que o mesmo não acontece com casais heterossexuais.
Para registrar o bebê com dupla maternidade as mães enfrentam uma série de burocracias Foto: iStock

A legislação também só autoriza o nome de ambas as mães na certidão de nascimento se o casal for legalmente casado, porém, caso um homem chegue no cartório sem nenhuma relação formal com a mulher que deu à luz, não é exigida nenhuma documentação específica.
São processos burocráticos completamente diferentes e sem nenhum motivo", aponta a advogada.
No momento, segue na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 5423/20, proposto por Maria do Rosário (PT-RS), que busca garantir o direito de registro de dupla maternidade ou paternidade a casais homoafetivos que tiverem filhos independentemente do estado civil, mas sem previsão de avanço nas tramitações.

Falta de acesso acentua desigualdade

Lucila aponta que nunca tomou conhecimento de um caso de inseminação caseira em que as mães conseguiram o registro, e consequentemente acesso aos direitos, sem judicialização.
Conforme vai se criando jurisprudência o caminho encurta e hoje já vemos casos onde os pedidos judiciais se dão no começo da gestação e ao nascer já há um parecer, porém, por anos acompanhei crianças com três, quatro anos de idade sem o registro das duas mães", relata, lembrando ainda que o casal precisava apresentar uma série de laudos de assistência social e psicólogos para conseguir o direito de registrar o filho ou filha.
Ainda que o país conte com um programa de reprodução assistida público, via SUS, o tempo médio de espera é de quatro anos, o que faz com que muitas pessoas não consigam esperar, inclusive pelo fator etário, que pode inviabilizar a gestação. Para uma pessoa de 30 anos, a taxa de sucesso do procedimento de fertilização assistida é de 34%. Já aos 45 anos, essa taxa cai para 12%.
Todo o processo é muito caro, desde o acesso a medicação, passando pelo rastreamento genético e chegando aos procedimentos em si. E isso faz com que a questão do direito reprodutivo seja uma questão de classe, raça e território", finaliza Lucila, fazendo referência ao fato de que apenas oito dos 27 estados oferecem o serviço gratuitamente ou a um custo razoável: Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Distrito Federal, Goiás, Bahia, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul.
Clipping Os desafios legais da dupla maternidade, por Iran Giusti, Terra (Nós), 07/05/2022

Espaço de acolhimento para lésbicas na favela da Maré

sexta-feira, 15 de abril de 2022 0 comentários


Espaço será também o primeiro em território de favela a contar com abrigo temporário para lésbicas faveladas

A laje da Casa Resistências ficou pequena para receber as cerca de 50 mulheres que estavam em festa para a inauguração do espaço localizado na Vila dos Pinheiros. A Casa Resistências será a sede da Coletiva Resistência Lésbica da Maré, formado por cerca de 15 mulheres, que atua desde 2016. O espaço será também o primeiro em território de favela a contar com abrigo temporário para lésbicas faveladas que foram expulsas de suas casas por lesbofobia. Além do lugar de acolhimento, a casa será um pólo de produção de arte e cultura, com viés na produção de direitos humanos para lésbicas de favela.

O evento teve mesa de abertura com mediação de Paloma Marins, integrante da Coletiva Resistência Lésbica da Maré. Participaram da conversa Lazana Guizzo, arquiteta; Dayana Gusmão, coordenadora da Casa Resistências; Beatriz Adura, psicóloga e coordenadora de acolhimento da Casa Resistências; Flavinha Cândido, educadora e coordenadora do grupo de trabalho do mandato da deputada estadual Renata Souza; Mãe Lenira D’Óxum, matriarca da Casa Resistências e Camila Felippe, integrante da Coletiva Resistência Lésbica da Maré e coordenadora de segurança alimentar da Casa Resistências. A festa contou com a presença da vereadora Mônica Benício, viúva da também vereadora Marielle Franco.

Nos discursos, ficou evidente a necessidade de mulheres lésbicas de favela se organizarem para lutar por seus direitos.
Percebemos que a unidade de pessoas lésbicas de favela é forte. No Brasil, faltam casas como essa, pois quando se pensa em acolhimento, às existentes são fora da favela. Essa casa veio para mostrar que a favela é acolhedora, que ninguém precisa sair do seu território para ser cuidada”, diz Beatriz Adura.
Para Paloma Marins, a inauguração é a realização de um sonho coletivo.
Juntas foi possível criar um espaço só nosso, da mulher lésbica. Um local onde uma vai cuidar da outra, sendo uma casa que vai ser o pontapé inicial na vida dessa mulher”, conta.
No evento também foi mencionado que toda mulher lésbica de favela que queira somar na luta é bem-vinda. “Pelo que sabemos, essa é a primeira casa de acolhimento lésbica numa favela na América Latina. Hoje realizamos um sonho de uma casa com felicidade, esperança e afetividade”, lembra Camila Felippe. A casa terá infraestrutura onde as acolhidas terão um cômodo escritório para criação de currículo e estudo.
Não será uma casa só de afeto, mas de cuidado com alimentação e a saúde da mulher A união é prioridade, pois sabemos que para as mulheres pretas, pobres e lésbicas a vida é muito mais difícil”, comenta.
Colaborar para a casa continuar de braços abertos

A casa tem a capacidade de receber até oito mulheres, como um domicílio de passagem onde a mulher permanece pelo período de seis meses.
A ideia nasceu na pandemia de uma demanda que recebemos de muitas. Aqui, após sair de casa, vão ser acolhidas para fazer algo mais objetivo e prático. Um local de apoio para superar o momento, mas não só isso, aqui é um espaço de resistência cultural”, expõe Dayana Gusmão.
A integrante da Coletiva Resistência Lésbica da Maré, Marcela Ferreira, moradora do Parque Maré, estava contente com a conquista.
É uma vitória da favela que agora me sinto representada por essa casa que vai acolher e abraçar essa mulher lésbica que passa por um momento difícil”, conclui.
Todas as mulheres presentes deixaram claro que a manutenção da casa só será possível com a ajuda de todo mundo. O imóvel está alugado e apesar da inauguração ainda precisa de reformas. No futuro, o grupo pensa na compra do local. Quem desejar conhecer a Casa Resistências, pode fazê-lo pelo Instagram: @resistencialesbica ou fazendo uma visita ao local, que fica na Via A/1, número 91, na Vila dos Pinheiros. 

Clipping Mulheres lésbicas terão espaço de acolhimento dentro da Maré, por Hélio Euclides, editado por Jéssica Pires, Maré de Notícias Online,05/04/2022

Elayne Baeta, autora de romance juvenil lésbico, diz que falta presença lésbica nos gêneros literários

quarta-feira, 13 de abril de 2022 0 comentários


Autora de romance lésbico juvenil: 'Falta de representatividade me cansou

Desestimulada por sempre encontrar casais hetero  nos romances, Elayne Baeta resolveu escrever sua própria história. "O Amor Não É Óbvio" (Galera Record), primeiro romance lésbico juvenil a integrar a lista de mais vendidos da revista Veja, chegou primeiro nas plataformas digitais antes de ganhar espaço em uma grande editora.
Me sentia frustrada demais por não achar livros sobre mim, então fiz esse romance lésbico clichê. Mas não imaginava que me tornaria escritora depois disso", contou Elayne em entrevista a Universa.
Segundo a autora, durante o seu período de descoberta de orientação sexual, fez falta conseguir achar um livro que narrasse histórias sobre ela, por isso fez a escolha de ajudar adolescentes a ter o que ela não teve: referências. "Eu adorava ler mas só tinham histórias de casais héteros. Eu fui parando de ler por causa disso. Até tentava, na minha cabeça, trocar a sexualidade dos personagens, mas a falta de representatividade me cansou. Comecei a escrever por isso. Talvez fosse tarde demais para mim, mas não era para muitas meninas", diz Elayne.

Como o sucesso de vendas do livro, ficou claro que ela está dialogando com muita gente além do público jovem. E pela experiência da Elayne com o público é bem isso que acontece: para o bem e para o mal. Enquanto há pais que proíbem a leitura, rasgam e jogam fora o livro, outros a agradecem por existir um caminho para que consigam entender melhor os filhos.
De mães, avós a leitoras com a idade da minha mãe me mandam mensagem. Algumas me agradecem por ajudá-las a abrir a cabeça. Na sessão de autógrafos que fiz na Bienal do Livro do Rio de Janeiro a fila era bem diversa. Tinham meninos gays, mãe de leitora, pai de leitora. Claro que também recebo muitas histórias tristes, de pais que proibiram ou rasgaram o livro", conta.
Muitos pais alegam não querer que os filhos tenham a sexualidade afetada pela história - um dos grandes absurdos da homofobia.

Elayne Baeta, autora de romance juvenil lésbico

O clichê que faltava

Quantos beijos lésbicos você já viu em livros de romance? Se pesquisar, consegue encontrar livros digitais com protagonistas gays, mas até eles priorizam os homens. E, quando se encontra, a pegada é mais erótica do que romântica. Entre os livros impressos em grandes editoras é quase impossível de localizar algo sobre o tema.
Não temos conteúdos com essa vibe de colégio como em 'O Amor não é Óbvio'. Livros com homens gays já conquistaram mais espaço, mas falta muito para as outras siglas. Espero que mais livros lésbicos surjam e que a gente consiga alcançar mais espaço na literatura atual. Não conheço nenhum além do meu. Eu pretendo publicar muitos livros sobre o assunto. Minha meta é que estejamos em todos os gêneros literários. Quero ver lésbicas na fantasia, por exemplo", diz Elayne.
E foi essa ausência nas livrarias que a fez escolher escrever uma história água com a açúcar e clichê: é para ser fofinho como vários livros com outros personagens que encontramos por aí.

Além disso, a autora tinha como foco conseguir dialogar com o público que mais precisa se sentir acolhido em um momento de descoberta, as adolescentes.
Só conseguia pensar que se eu tivesse encontrado esse refúgio quando jovem, meu processo de descoberta teria sido diferente e eu não teria me sentido tão sozinha nesse momento que é muito solitário. Todos precisamos de apoio e representatividade. A nossa trajetória, traumas, inseguranças e até a coragem interna se definem a partir disto. Por isso, minha história fala de uma personagem jovem, saindo do armário e passando por situações semelhantes a algumas que eu vivenciei", diz Elayne.
Apesar do sucesso, essa não é a única obra da autora. Ela também está lançando "Oxe, baby", um livro de poemas.
Ele já pré existia. Eu fiz uma seleção do que eu já tinha escrito para a publicação. Foi para a editora depois, mas na minha vida de escritora veio antes do romance", conta.

N.E. Elayne deve se referir aos romances lésbicos para o público juvenil porque, literatura lésbica de fato, existe no Brasil desde Cassandra Rios há uns 50 anos. 

Clipping "Autora de romance lésbico juvenil: 'Falta de representatividade me cansou, por Rafaela Polo, Universa (UOL),07/04/2022 

Bruna Linzmeyer enfrentou preconceito ao se revelar lésbica publicamente

segunda-feira, 11 de abril de 2022 0 comentários

Bruna Linzmeyer - foto Instagram

Atriz Bruna Linzmeyer foi alvo de homofobia ao tornar pública sua orientação sexual.

Bruna Linzmeyer comentou sobre os momentos difíceis que enfrentou ao revelar que é lésbica, em entrevista ao programa PodPah, na última terça-feira (5). A intérprete de Madeleine em ‘Pantanal’ teve sua vida invadida e diversos trabalhos cancelados na época que sua sexualidade veio à tona.
Foi em 2015, eu já estava há cinco anos na TV. E já namorava a Kity, que foi minha primeira namorada, há uns bons meses”, disse em menção à relação com a cineasta Kity Féo, que durou apenas um ano.
Na época, a revelação gerou tanto impacto que Linzmeyer teve sua vida pessoal invadida pela mídia. Ela contou:
Foi super indelicado, pegaram informações sobre a vida dela [Kity] que não era uma pessoa pública. Fotos e tal”.
O âmbito profissional também foi afetado devido à homofobia dos contratantes e até colegas de trabalho, como relembrou a atriz.
As pessoas que trabalhavam comigo cogitaram que eu negasse e eu disse que isso não era uma possibilidade”, disse.
Em seguida, lamentou:
Foi muito esquisito no começo. A gente tinha umas publicidades marcadas para aquela semana e para a semana seguinte, e as coisas foram cancelando. Diziam: ‘Não vai mais acontecer e tal'”, contou.
Foi apenas com o passar dos anos que Bruna começou a ser aceita do jeito que é. Sem nunca esconder sua sexualidade, a artista acredita que o que era alvo de preconceitos se tornou um bônus em sua carreira.
Hoje em dia as pessoas me chamam porque eu sou sapatão também. Querem estar comigo porque eu tenho e tive essa coragem. E hoje em dia é mais tranquilo falar disso do que era naquela época. Então, tem muitos trabalhos, tanto no cinema quanto na publicidade, que as pessoas chegam perto de mim porque gostam de quem eu sou”, concluiu ela.
Confira a entrevista completa:


Clipping Bruna Linzmeyer teve trabalhos cancelados após se revelar lésbica: “Muito esquisito”, O Segredo, 07/04/2022


Amores lesbianos na terceira idade

sexta-feira, 8 de abril de 2022 0 comentários

'Aos 50 anos, divorciada, conheci a Fulvia', conta Maria Rita, que está casada com companheira há 23 anos Foto: Maria Isabel Oliveira / Agência O Globo

Relacionamento entre Adriana Calcanhoto e Maitê Proença, que nunca tinha se relacionado com outras mulheres antes, reacende o debate sobre as late-blooming-lesbians, ou 'lésbicas tardias', em tradução livre

Na peça autobiográfica “O pior de mim”, em cartaz no Teatro Prudential, no Rio, a atriz Maitê Proença, de 64 anos, revisita episódios marcantes de sua vida. Lançado virtualmente em 2020, o espetáculo traz, entre temas diversos, comentários da atriz sobre os homens e o machismo, mas deixa de lado um evento que marcaria uma fase recente de sua trajetória: o relacionamento amoroso com a cantora Adriana Calcanhotto. O namoro, assumido publicamente no ano passado, é a primeira relação homoafetiva da atriz, que contou à revista Quem, em entrevista, que “gosta de homem” e que esta é sua “tendência”, mas que “gostou dela (da Adriana) e ela gosta de mulher”.

Embora a atriz não tenha declarado uma orientação sexual lésbica, a liberdade presente em sua escolha amorosa, já em idade madura, reacende o debate sobre as late-blooming-lesbians (traduzindo, “lésbicas tardias”). O conceito abarca mulheres que começaram a ter relações homossexuais somente após os 30 anos.

Segundo a professora Joana Ziller, coordenadora do Grupo de Estudos em Lesbianidades da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), as primeiras pesquisas sobre lésbicas tardias datam da década de 1980, mas o fenômeno se intensificou na atualidade devido à quebra gradual de preconceitos contra pessoas homossexuais. Ziller pontua que não há uma explicação concreta para o fato de mulheres se sentirem atraídas por outras em idade mais madura. Cada caso é um caso. Mas, talvez, a ampliação da aceitação de possibilidades diversas de relacionamento propiciou as experiências.
O termo late-blooming-lesbians chega a ser poético por representar uma mulher que floresce como lésbica após a juventude. Mas, como quase tudo relacionado à sexualidade humana, não há resposta para esse fenômeno. É muito importante se questionar: o desejo floresceu realmente depois dos 30 anos ou a heteronormatividade foi tamanha que impossibilitou de se pensar no assunto? — questiona Joana.
‘Me arrepiei toda’

A psicóloga Maria Rita Lemos se descobriu lésbica aos 50 anos, após três décadas se relacionando apenas com homens. Maria Rita, hoje com 74, conta que levava uma vida nos “moldes tradicionais”: casou-se cedo, gerou duas filhas e, após ficar viúva, conheceu um outro homem com quem teve mais um filho. À época, nem passava pela sua cabeça a possibilidade de se relacionar amorosamente com uma mulher. Mas isso mudou no dia 16 de outubro de 1998, quando, em um bate-papo virtual, ela conheceu a motorista de aplicativo Fulvia Margotti, de 60 anos.
Eu me apaixonei pela foto de perfil dela. Ela estava de farda e segurando um cachorrinho. A Fulvia tinha tudo o que eu procurava, mas apesar de ter gostado dela, eu não sabia como seria nossa conexão física presencialmente, porque nunca tinha tido experiência com outra mulher. Quando nos vimos e ela encostou no meu braço no carro ao passar a marcha, me arrepiei toda — lembra Maria Rita.
Apesar de Fulvia ter sido sua primeira e única experiência homoafetiva, Maria Rita diz que em momento algum ficou apreensiva em relação à fluidez de sua orientação sexual:
Minha esposa me satisfaz em todos os sentidos da vida. O companheirismo é total e a vida sexual até melhorou, a mulher conhece mais o corpo uma da outra. Não gosto de rótulos. Desde que nos conhecemos não tive mais interesse por homens e nem por outra mulher — conta Maria Rita, casada com Fúlvia há 24 anos.
Se para Maria Rita, assumir-se lésbica foi tranquilo, para a aposentada Willman Defacio, de 74 anos, que descobriu que gostava de mulheres aos 38, a possibilidade de um namoro homoafetivo era nulo, pelo preconceito.

Somente depois de um casamento e de alguns outros relacionamentos heterossexuais, é que decidiu se abrir à experiência. Ela estava então em um processo de divórcio, interessou-se por uma colega de trabalho e o sentimento foi recíproco. Então percebeu que o tesão e a paixão que não sentia nas antigas relações era porque gostava de mulheres. Este ano, ela completa 28 anos de casada com Angela Fontes:
Eu nunca tinha saído com mulheres e aconteceu naturalmente. Eu sabia que não sentia prazer com o meu ex-marido, mas não entendia o motivo. Depois dessa experiência, só me relacionei com mulheres e hoje tenho a sorte de dividir a vida com a Angela.
Apesar da preocupação inicial, todo o processo de contar para a família sobre sua sexualidade foi fácil para Willman.

Amadurecimento afetivo

Por se descobrirem lésbicas após os 30, grande parte das late-bloomers já foi casada com homens e teve filhos. De acordo com a psicóloga Fabiana Esteca, que estuda gênero e sexualidade humana, toda essa descoberta requer autoconhecimento e independência para assumir possíveis preconceitos. Por isso é comum que aconteça em idade avançada.
Depois dos 30 existe um amadurecimento afetivo sexual, uma apropriação do próprio corpo. Elas se permitem experimentar outros tipos de relacionamentos e se encontram. Existe também uma parcela que tem uma sexualidade fluida e vai sentir atrações diferentes ao longo da vida — explica Fabiana.
Fabiana diz que se assumir tardiamente pode trazer impactos emocionais às mulheres, e é importante que elas sejam amparadas por familiares e amigos.
As late-bloomers constroem uma identidade social pautada na heterosexualidade. Ao se assumirem, muitas são lidas como farsantes, como se estivessem a todo esse tempo dentro do armário, o que não é a verdade. Esse questionamento faz elas duvidarem da própria sexualidade novamente e é o momento onde surgem conflitos internos — conclui.
Clipping Mulheres contam como se descobriram lésbicas após os 30 anos: 'Elas se permitem experimentar e se encontram', diz pesquisadora, por Pâmela Dias, O Globo, 01/04/2022 

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