Memória lesbiana: o dia do orgulho lésbico já havia sido pensado em 2000 para homenagear Rosely Roth

sábado, 21 de agosto de 2021 0 comentários


Míriam Martinho

Hoje, dia 21 de agosto, seria aniversário de Rosely Roth
a quem eu já havia dedicado o 19 de agosto (dia da manifestação no Ferro's Bar), como dia do orgulho lésbico brasileiro, em outubro de 2000, na revista Um Outro Olhar 33 (ver abaixo). A ideia foi retomada por Luiza Granado (da Rede) e Neusa Maria de Jesus, 45, da Coordenadoria Especial de Lésbicas (CEL), da Associação da Parada GLBT (SP) em junho de 2003. 

Na entrevista que deram à Folha de São Paulo, elas disseram porque decidiram lançar o dia do orgulho lésbico. 

Assumir a identidade de lésbica é difícil na família, no trabalho, na igreja. É difícil também quando se trata de saúde", diz a economista Luiza Granado, 42, coordenadora da Rede de Informação Um Outro Olhar. 

A iluminadora de teatro Neusa Maria de Jesus, 45, da Coordenadoria Especial de Lésbicas (CEL), da Associação da Parada GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros), diz que a criação de um dia do "orgulho lésbico" é uma identificação para as mulheres. "Nós queríamos um dia específico para nós", afirma.

Na revista Um Outro Olhar 33, eu disse:

[...] em sua homenagem, decidimos marcar o dia 19 de agosto, dia da manifestação do Ferro's Bar, chamado pelos ativistas da época de nosso pequeno Stonewall Inn, como Dia do Orgulho Lésbico Brasileiro. Assim também prestamos nosso tributo ao Ferro's, fechado no começo de setembro (2000), que, por 38 anos, foi palco de tantas histórias de amor, de tantas histórias políticas e culturais das lésbicas não só paulistanas como de todo o país. 

Recordar é viver! 
 


Memória Lesbiana: Míriam Martinho e o processo de produção dos boletins ChanacomChana e Um Outro Olhar

terça-feira, 17 de agosto de 2021 0 comentários

Exemplares 1, 4 e 11 do boletim Chanacomchana © Coleção Chanacomchana. Míriam Martinho  

Míriam Martinho*
uoo@umoutroolhar.com.br

Chanacomchana e Um Outro Olhar foram boletins que produzi e editei de dezembro de 1982 até 1994 para dois dos grupos dos quais fui cofundadora (Grupo Ação Lésbica Feminista – GALF) e Rede de Informação Lésbica Um Outro Olhar. O boletim Um Outro Olhar se transformou em revista, que também produzi a partir de maio de 1995, com 16 edições (22-38), até dezembro de 2002.

Chanacomchana: um título debochado por libertárias até sérias

CCC 0

O boletim ChanacomChana teve um precedente, o CCC 0, en formato tabloide, impresso em janeiro de 1981 e lançado pelo Grupo Lésbico-Feminista, coletivo que antecedeu o GALF, em março de 1981, durante o III Congresso da Mulher Paulista. Embora conste um histórico do Lésbico-Feminista de minha autoria nesse trabalho, porque dele também fui uma das cofundadoras, não tive participação em sua produção e edição. Como sempre me pedem referência de quem o produziu, deixo aqui o nome da ex-integrante do Grupo Lésbico-Feminista, Maria Teresa Aarão, mais conhecida como Teca, que deve poder indicar quem o realizou.

Retomando, após a desarticulação do coletivo Lésbico-Feminista, em meados de 1981, duas de suas ex-integrantes, eu mesma e Rosely Roth, com algumas colaboradoras, fundamos o Grupo Ação Lésbica Feminista (GALF), sob o codinome de Grupo Ação de Liberação Feminista, em outubro de 1981 (estatutariamente, 17/10/1981). No período entre a dissolução do coletivo anterior (LF) até o início do GALF (julho a outubro de 81), que apelidei de período de limbo, eu e Rosely tentamos reunir ex-integrantes do LF e lésbicas de outros grupos feministas, para ao menos produzir uma nova edição do tabloide ChanacomChana. Pelos registros da época, foram feitas duas tentativas nesse sentido, ambas fracassadas. Na segunda tentativa, quatro lésbicas apareceram, incluindo uma ex-integrante do LF, mas nada de concreto surgiu desse encontro.

A ideia de retomar o ChanacomChana foi adiada então para outro momento. O primeiro ano do GALF foi de dificuldades, já que só eu e Rosely nos assumíamos publicamente ao menos nos Movimentos Feminista e Homossexual da época. As demais integrantes do grupo desse período apenas colaboravam com pequenas tarefas internas e financeiramente. Fora isso havia o problema da manutenção da sede do GALF, pensada para ter sido do extinto LF, que morreu na praia. Fomos salvas pelo gongo (de perder a sede), quando o grupo gay Outra Coisa veio nos propor dividir o espaço em meados de 1982.


Com essa parceria, a mais frutífera e harmoniosa de toda a minha militância, os dois grupos começaram a realizar várias atividades conjuntas na sede (também externamente) que voltaram a mobilizar mais pessoas para seus objetivos. O GALF, em particular, começou a receber um maior afluxo de mulheres a partir de outubro de 1982. Com mais estabilidade financeira e maior afluxo de pessoas para suas atividades, a ideia de produzir uma publicação para a entidade foi retomada. Considerando que o GALF encampou o histórico do grupo lésbico-feminista como seu (um grande equívoco, aliás), a retomada do título ChanacomChana também pareceu natural.

Como o coletivo do GALF não tinha condições financeiras para publicar outro tabloide como o ChanacomChana 0, decidiu-se partir para a confecção de um fanzine com os parcos recursos gráficos existentes. Assumi então a tarefa hercúlea (ou melhor amazônica) de produzir os fanzines ChanacomChana, confeccionando as matrizes (bonecos) das publicações com textos datilografados, num layout pop-pobre que misturava colagens de fotos, textos, letras adesivas, guache, nanquim, corretivos, etc, aproveitando um pouco de minha experiência com artes plásticas. Apesar do resultado sofrível em particular dos primeiros números, o boletim foi encampado pelas lésbicas de então sem problemas, mais interessadas em ler alguma publicação que falasse de suas vivências do que com questões estéticas. Em termos de conteúdo, os primeiros números do Chana, em especial, trazem fundamentalmente contribuições das próprias integrantes do coletivo do GALF da ocasião, que eu revisava na medida do possível. Na parte de edição, fora a escolha das imagens, desde os primeiros números, passei a definir e produzir as seções do CCC, como as de informes (com traduções de notícias internacionais inclusive), poesias, cartas de grupos e cartas pessoais para correspondência (troca-cartas).

  Após a bem-sucedida invasão do Ferro’s Bar, em 19 de agosto de 1983, para poder romper com o veto do dono do bar à venda do Chana no local, o GALF já se tornou mais conhecido publicamente, processo amplificado pela participação de Rosely Roth em dois programas da Hebe Camargo, de grande audiência nacional, em 1985 e 1986. Como resultado, com nosso incentivo, um número maior de contribuições de lésbicas de todo o país passou a chegar à caixa postal do grupo, me dando maiores possibilidades de escolha de textos para publicação. Concebi o ChanacomChana, em consonância com outras integrantes do grupo, com a perspectiva de, por um lado, torná-lo um veículo de comunicação do GALF e sua militância, e, de outro, como um espaço de reflexão das lésbicas em geral sobre suas vivências e sofrências. Esse segundo objetivo visava também conscientizar as lésbicas sobre a necessidade de se mobilizar por seus direitos.

Para a impressão do Chana, Rosely Roth ficava encarregada de levar as matrizes dos boletins às gráficas dos diretórios acadêmicos de faculdades e da Câmara Municipal de São Paulo, neste último caso para serem impressas nas cotas de parlamentares, como a da sempre solidária vereadora Irede Cardoso, de saudosa memória. A tiragem era de 500 exemplares, tida como cota mínima para impressões em offset, mas seu escoamento, entre vendas e doações, ficava na metade disso. Posteriormente, após a invasão do Ferro’s, Rosely também passou a batalhar anúncios entre os donos e as donas dos bares e boates de lésbicas da época. A venda do boletim, da qual eu também participava, se dava nesses locais e através de assinaturas. 


Um Outro Olhar: homenageando o LesbRadar e buscando um público mais amplo

Após 12 edições, o ChanacomChana foi substituído pelo boletim Um Outro Olhar, em setembro de 1987, ainda no período de vigência do GALF. Esse nome surgiu de forma curiosa, numa conversa, a partir da tradução errada, feita por uma das integrantes do GALF, Luiza Granado, do título de um filme húngaro de temática lésbica chamado “Um Outro Jeito (Another Way)”. Ela lembrou do filme como Um Outro Olhar, eu pensei nas diversas possibilidades semânticas desse ‘um outro olhar”, e ele virou nome do novo boletim e, posteriormente, nome também da Rede de Informação Um Outro Olhar (o terceiro grupo do qual fui cofundadora).

No lançamento do Dia do Orgulho Lésbico, em 2003, a plateia ainda riu do Chanacomchana

No editorial que fiz para o primeiro número do Um Outro Olhar, eu destaco que o GALF queria, com seu novo título, espelhar o jeito especial que as lésbicas tinham de se olhar (LesbRadar) e trazer de fato novas maneiras de ver não só as relações entre mulheres como também o próprio “ser mulher” na muito patriarcal sociedade brasileira, buscando autoimagens mais positivas e perspectivas mais amplas em todas as direções. Embora não citado nesse editorial, buscávamos também com o novo título ampliar nosso público-alvo, já que o debochado título ChanacomChana incomodava parte das lésbicas da época. Prova disso é que, mesmo em 2003, durante o lançamento do dia do orgulho lésbico, quando lembramos do histórico da manifestação no Ferro’s Bar, o nome do Chana ainda provocou risos da plateia  e exclamações de que o título Um Outro Olhar fora uma mudança para bem melhor. Hoje, observo curiosamente uma maior simpatia pelo título Chanacomchana.

No boletim Um Outro Olhar, mantive parte das seções já iniciadas no ChanacomChana como as clássicas “Poesias”, “Troca-cartas”, “Cartas na Mesa“, e as seções “Em Movimento” e “Histórias de Heterror”, e acrescentei a “Deu no Jornal” e a “Publicações Recebidas” (ou material recebido). Como as contribuições das colaboradoras do GALF cresceram bastante, em nível nacional, e a biblioteca do grupo também cresceu expressivamente com publicações recebidas do Brasil e do exterior, o trabalho de edição desse material para publicação se tornou maior e mais complexo, me tomando um bom tempo de trabalho. Nesse sentido, para aliviar a sobrecarga, publiquei, ao longo das edições tanto do Chana quanto do UOO, pedidos de ajuda para a datilografia dos textos e a diagramação dos boletins, obtendo sucesso na diagramação de 9 números dos 21 produzidos (de fato 20, já que os números 19 e 20 vieram numa única edição), apesar de detestar o resultado estético dessa delegação. Nesse sentido, também solicitava que as colaboradoras enviassem o material já datilografado para nos poupar o trabalho de ainda ter que datilografar os textos. Embora em escala bem menor do que no Chanacomchana, tal fato explica a colcha de retalhos de tipos gráficos que ainda se vê em alguns números do Um Outro Olhar.
A venda do boletim Um Outro Olhar passou a se dar pelo sistema de associação do GALF e, posteriormente, a partir do número 11, em meados de 1990, pelo da Rede de Informação Um Outro Olhar, poupando o trabalho de venda em bares e boates. Eram feitas cópias do boletim original, em copiadoras, pagas com antecedência, como uma encomenda, o que explica haver  poucos exemplares remanescentes dessa publicão, com exceção do número 1 que foi feito ainda em offset. Em média eram produzidas 200 cópias dos UOO para as associadas do GALF e da RILUOO, mais conhecida como Rede, embora tenha havido caso de edições com mais cópias. Assim como o CCC, o UOO também era enviado para associações congêneres do Brasil e do exterior na base da permuta com as publicações dessas organizações ou simplesmente como cartão de visitas.


O boletim Um Outro Olhar teve 21 edições, publicadas de setembro de 1987 a janeiro de 1994 (edição verão-outono), evoluindo para o formato de revista a partir de 1995 (exemplo acima). Neste período  a Rede de Informação Um Outro Olhar passou a receber financiamento governamental para seus projetos sobre saúde da mulher lésbica e da mulher em geral, originando outro boletim, Ousar Viver, que foi encartado na revista Um Outro OLhar. Mas a revista e o encarte serão temas de outra radiografia.

Digitalizações dos boletins ChanacomChana e Um Outro Olhar

Iniciei as digitalizações das publicações que produzi, para os grupos dos quais fui cofundadora, no final de 2017, atendendo inclusive a demanda de pesquisadores e pesquisadoras por acesso a esses materiais. Até então, fazia cópias dessas publicações e vendia os números da revista Um Outro Olhar para os interessados. Nesse período, contudo, tive uma série de questões pessoais a resolver que interromperam essa atividade. Deixei então apenas as revistas para digitalizar numa copiadora, já que não exigiam qualquer trabalho de reedição gráfica e as disponibilizei no Google Drive da Um Outro Olhar no início de 2018. No caso dos boletins, porém, havia vários problemas a solucionar nos originais derivados do desgaste do tempo, como perda das letras adesivas e das colagens de imagens que ilustravam as matérias, muitas manchas, páginas totalmente amareladas, algumas com vários apagamentos, etc.. Neste ano, enfim, tive condições de encarar esse trabalho e começar, enfim, a reeditar graficamente parte dos boletins, em particular algumas capas do CCC, as mais lesadas pelo tempo. Embora se trate de trabalho ainda em andamento, já disponibilizei o material para consulta.

Linha do tempo dos dispositivos de escrita com que foram  feitos o CCC e o UOO

Reeditar graficamente os boletins foi como tomar o túnel do tempo para a época em que os produzia daquela forma tão precária dos anos 80 e 90 que descrevi neste texto. Só que, desta vez, tive como auxiliar o mui famoso e poderoso Photoshop que transforma em beldades até as mais feias das criaturas. Aliás, a evolução gráfica do CCC, UOO e da revista Um Outro Olhar bem poderia servir também para traçar uma linha do tempo dos avanços tecnológicos da grande revolução da informação que, nas últimas décadas, permitiu a qualquer pessoa ter um veículo individual ou coletivo de comunicação quase sem custo na vastidão da Internet. Não pude deixar de pensar no que teria feito com os recursos técnicos de hoje para a produção dos CCC e UOO. Os primeiros CCC eram feitos ainda com máquinas de escrever antigas, depois com máquinas de escrever elétricas, assim como o Um Outro Olhar, depois com os editores de texto dos primeiros PC (baseados em DOS), com saída via impressoras matriciais, depois, já, na era Windows,  com os aplicativos de editoração de páginas, como o Page Maker, até chegar, na editoração e layout feitos pelas próprias gráficas onde a revista Um Outro Olhar e outros materiais da Rede foram impressos.

Conclusão

Hoje existe um esforço no sentido de individualizar as pessoas que atuaram nos grupos de gays e lésbicas na década de 80 e início da década de 90 ou colaboraram com eles, na base do quem era quem e fazia o quê. Segundo me disse um historiador, para “homenagear todas vocês que lutaram tanto por nossos direitos que estão novamente ameaçados”. No caso dos grupos de lésbicas, mais do que dos gays, o anonimato ou anonimato parcial se devia fundamentalmente à ditadura da heterossexualidade obrigatória quase hegemônica. Trocando em miúdos, 99% das lésbicas viviam no armário, incluindo feministas homossexuais e até as que migraram do lésbico-feminista para outros grupos feministas. No caso específico do GALF, em menor caso da Rede, além do armário prevalente, para a indistinção do que fazia cada ativista, colaborava ainda a tola visão meio anarquista e coletivista reinante no grupo que secundarizava as atuações individuais, forçando plurais de modéstia em prol de um coletivo amorfo, pois transeunte ou intermitente, encarnado numa sigla.

Espero, portanto, com esta radiografia dos CCC e UOO, ter contribuído um pouco para esse esforço de individualização. Ainda que meu nome apareça como editora, em boa parte dos números dessas publicações, faz-se necessário sem dúvida esse esclarecimento para coibir usurpações. Em termos legais, significa que detenho exclusivamente  a titularidade dos direitos autorais sobre as coleções ChanacomChana e Um Outro Olhar (Lei  nº 9.610/98, artigos 24, 17, parágrafo segundo). 

E boa leitura!

O material abaixo é estritamente para leitura e consulta. Para quaisquer outras finalidades, entre em contato direto comigo pelo e-mail uoo@umoutroolhar.com.br 
Os créditos das coleções ChanacomChana e Um Outro Olhar boletins e revistas devem ser dados a Míriam Martinho com link para esta página. 

Sumário ChanascomChanas
ChanacomChana: do 1 ao 12
© Coleção Chanacomchana. Míriam Martinho 

Boletim Um Outro Olhar: do 1 ao 21 (acompanha complemento desta edição)

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*Miriam Martinho é uma das fundadoras do Movimento Homossexual brasileiro, em particular da organização lésbica, tendo co-fundado as primeiras entidades lésbicas brasileiras, a saber, Grupo Lésbico-Feminista (1979-1981), Grupo Ação Lésbica-Feminista (1981-1989) e Rede de Informação Um Outro Olhar (1989....). Editou também as primeiras publicações lésbicas do país, como o fanzine ChanacomChana (década de 80) e o boletim e posterior revista Um Outro Olhar (década de 90 até 2002). Atualmente administra as páginas Um Outro Olhar e Contra o Coro dos Contentes. 

Fundou igualmente o movimento de saúde lésbica no Brasil, em 1994, realizando a primeira campanha de prevenção às DST-AIDS para mulheres que se relacionam com mulheres, em 1995, e editando as primeiras publicações sobre o tema desde essa época (em 2006 publicou a 4 edição da cartilha Prazer sem Medo sobre saúde integral para lésbicas e bissexuais). Participou da organização do I EBHO (1980), organizou dois encontros LGBT nacionais (VII EBLHO/93 e IX EBGLT/97) e foi sócia-fundadora da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis (ABGLT-1995). Participou igualmente de vários encontros internacionais com destaque para a 8ª Conferência Internacional do Serviço de Informação Lésbica Internacional-ILIS (Genebra, Suiça, 28 a 31/03/1986), o I Encontro de Lésbicas-Feministas Latino-Americanas e do Caribe (Cuernavaca, México, 1987) e a Reunião de Reflexão Lésbica-Homossexual (Santiago, Chile/ nov. 1992).

Nanda Costa e Lan Lanh esperam casal de gêmeas

quarta-feira, 30 de junho de 2021 0 comentários

Nanda Costa e Lan Lanh - Foto: Rê Duarte | DuHarte Fotografia

A família de Nanda Costa e Lan Lanh cresceu! Ou melhor, dobrou de tamanho! A atriz e a percussionista anunciaram na noite de domingo (27) que estão à espera de gêmeas. 
Um segredo guardado com muito carinho. Somos 4. Duas mães e duas filhas", publicou a atriz ao anunciar a novidade nas redes sociais.
Em entrevista ao Fantástico elas contaram que optaram por fertilização in vitro - procedimento no qual a fecundação do óvulo com o espermatozoide é feita em laboratório; depois, o embrião é transferido para o útero. A gravidez veio na terceira tentativa.
Tudo vem no momento certo", acredita Lan Lahn. "A gente só queria que o doador tivesse saúde", disse Nanda, que revelou estar de cinco meses.
A descoberta de que estão à espera de não apenas um, mas dois bebês, foi marcado por emoção.
No dia da ultra que a gente escuta o coração eu coloquei para gravar porque é um som incrível. Eu falei 'como bate forte o tambor, é um Olodum, já me apaixonei. Aí o médico: não, é o olodum. são dois", contou a percussionista que fez uma música, batizada Duas Mães, em homenagem às filhas.
Juntas há quase oito anos, elas contam que os bebês estão trazendo muita alegria para toda família, sobretudo após a perda do pai da percussionista.
A gente está vivendo um momento tão angustiante, todo esse processo da pandemia. Eu perdi meu pai há 2 meses para a covid, e eu acho que essa notícia assim de duas crianças foi tão bom, está sendo tão bom de dar para família, para os amigos assim. Dá uma esperança", comemorou Lan.
Nanda falou publicamente pela primeira vez sobre seu relacionamento com Lan Lanh em entrevista à revista Marie Claire, em agosto de 2018. As duas já estavam juntas havia quase cinco anos, mas mantinham o namoro longe dos holofotes.
Não acho que eu me escondi, acho que eu me preservei. A gente vive num país extremamente preconceituoso e eu não queria ser rotulada, como sempre buscam rotular. Eu sempre me senti muito livre", disse ela, na ocasião.
Desde então, o sonho da maternidade sempre esteve em pauta. Em live também com a Marie Claire em abril passado, ela contou que havia congelado óvulos. Nanda disse também que seu relacionamento com Lan Lahn se fortaleceu na quarentena.
A Lan é muito mais tranquila, e eu sou um pouco mais desesperada. Ela fica mais tempo curtindo as coisas. Mas mantemos muito bem esse equilíbrio. Ela cozinha super bem, e eu aprendi alguns macetes para ajudar e fazer comida também. Eu e a Lan nos ajudamos o tempo inteiro. Vai ser legal ser nosso filho”, comentou a atriz, que comentou que será uma mãe liberal e ‘de boa’.
Clipping À espera de gêmeas: Nanda Costa e Lan Lanh celebram gravidez em fotos, Marie Claire, 28/06/2021

Rosely Roth: ouçam nossas vozes no dia mundial da pessoa com esquizofrenia

segunda-feira, 24 de maio de 2021 1 comentários

Rosely Roth: ouçam nossas vozes

Míriam Martinho

24 de maio foi estabelecido internacionalmente como Dia Mundial da Pessoa com Esquizofrenia, dia em que o psiquiatra Philippe Pinel, empossado chefe de um sanatório de homens em Paris, contrariando o entendimento daquele tempo (1793), removeu as algemas dos pacientes que ficavam presos às paredes da instituição. Ele também abre a semana de conscientização sobre a doença. Neste período, especialistas e grupos de apoio de amigos, familiares e portadores de esquizofrenia fazem diversos eventos, agora fundamentalmente online, para trazer ao público informações sobre a enfermidade a fim de desestigmatizá-la e a seus portadores. No Brasil, apenas nos últimos 4 anos se passou a celebrar o dia, ainda de forma tímida, mas crescente.

À guisa de contribuição a essa causa, resumo um pouco do que aprendi a respeito do assunto, a partir também da vivência com uma amiga portadora do problema. A esquizofrenia é um transtorno mental grave que afeta cerca de 23 milhões de pessoas em todo o mundo e se caracteriza por um conjunto de sintomas, rotulados de positivos (ou produtivos) e de negativos. Os sintomas positivos ou produtivos são os surtos psicóticos que causam delírios, levando as pessoas a desenvolverem falsas crenças, criarem realidades paralelas, mesmo diante de provas contundentes em contrário, e produzem alucinações, levando as pessoas a ouvirem, verem ou sentirem coisas que não existem. Os sintomas negativos, quando a pessoa não está em surto, são a abulia, falta de vontade, dificuldade até de realizar simples tarefas domésticas, o embotamento afetivo e a alternância de humor, variando da ansiedade à depressão. Em casos mais graves, há inclusive perda cognitiva, de concentração e memória. 


A esquizofrenia é considerada uma doença do desenvolvimento cerebral

O cérebro de uma pessoa com o distúrbio se desenvolve com uma espécie de bug (falha) que passa a dar problema quando o processo de maturação cerebral se conclui a partir do fim da adolescência, início da fase adulta. Por isso, o aparecimento dos sintomas ocorre majoritariamente na faixa dos 20-30 anos, com prevalência, nos homens, na faixa dos 20-25 anos e, nas mulheres, na faixa dos 25 aos 30. A doença atinge mais o sexo masculino, pois, segundo algumas teses, o hormônio feminino, o estrogênio, funcionaria como uma espécie de antipsicótico natural, o que também explicaria o surgimento de sintomas psicóticos em mulheres na menopausa.

Esse bug, por sua vez, tem importante origem genética somada a fatores ambientais como problemas durante a gestação ou parto (acarretando danos ao cérebro do feto/nascituro), traumas na infância, oriundos de abusos e violência, e uso de drogas na adolescência. Pessoas com parentes portadores de esquizofrenia, em particular de primeiro grau, tem quase 15% de possibilidades de desenvolver a doença. Em gêmeos, quando um deles apresenta sintomas psicóticos, o outro tem 50% de chances de desenvolver psicose também. Usuários de drogas igualmente podem ter surtos psicóticos isolados que funcionem, no entanto, como um gatilho para o desenvolvimento da esquizofrenia. Álcool, Maconha, crack e anfetaminas (as populares bolinhas), especialmente esta última por alterar os níveis de dopamina no cérebro, produzem surtos psicóticos bem parecidos com os da esquizofrenia e podem desembocar nela.

A esquizofrenia se expressa por níveis elevados de dopamina no cérebro (sendo a dopamina a substância química que transmite mensagens entre as células via receptores em suas superfícies) e é considerada a causa dos surtos psicóticos quando desregulada. Daí os medicamentos antipsicóticos em geral funcionarem bloqueando certos receptores de dopamina, com exceção das medicações mais recentes, chamadas de segunda geração, que interferem em outras substâncias da química cerebral, como a serotonina, e agem como moduladores da dopamina em vez de bloqueadores, produzindo menos efeitos colaterais. No ano passado, pesquisadores da UNICAMP afirmaram que a doença também está relacionada a uma célula chamada oligodendrócito, responsável pela produção da bainha de mielina, uma espécie de fio condutor das informações no cérebro que, nas pessoas com esquizofrenia, fica meio desencapado, gerando perdas de dados e mau funcionamento cerebral.

O tratamento para a esquizofrenia consiste na medicação (antipsicóticos) para controle dos sintomas produtivos (os surtos), psicoterapia cognitivo-comportamental (para ajudar o paciente a saber lidar com a doença) e a arte terapia, como utilizada pela psiquiatra alagoana Nise da Silveira que abriu um canal de comunicação com seus pacientes esquizofrênicos através da pintura numa época em que pessoas com transtornos psiquiátricos mofavam em horrendos manicômios. Um outro bom filme sobre tema, como o Nise: No coração da Loucura, é o "Palavras na Parede do Banheiro", indicação de uma portadora de esquizofrenia, que está no Amazon Prime Video e no Youtube. Trata-se de um drama adolescente que pega leve com o tema, mas descreve bem os sintomas da enfermidade.



Uma boa definição da doença foi dada pelo Dr. Wagner Gattaz, médico psiquiatra e professor de psiquiatra do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, em entrevista ao portal do Dráuzio Varella.
A esquizofrenia é uma doença frequente e universal que incide em 1% da população. Ocorre em todos os povos, etnias e culturas. Existem estudos comparativos indicando que ela se manifesta igualmente em todas as classes socioeconômicas e nos países ricos e pobres. Isso reforça a ideia de que a esquizofrenia é uma doença própria da condição humana e independe de fatores externos. Em cada 100 mil habitantes, surgem de 30 a 50 casos novos por ano."

Sem dúvida, como causa, a origem da esquizofrenia parece realmente independer de fatores externos, o que já não acontece no que diz respeito aos tratamentos, onde as diferenças socioeconômicas e até ideológicas podem fazer toda a diferença entre uma doença crônica e uma morte anunciada. O vídeo abaixo sintetiza as informações sobre a doença de forma sensível e propositiva.


Psiquiatria versus antipsiquiatria: uma brincadeira de mau gosto à beira do precipício

Durante o período posterior à Segunda Guerra Mundial, o mundo ocidental viu surgir, ao lado de uma grande abundância material, sobretudo nos EUA, a emergência da revolução contracultural que mudou comportamentos e costumes de uma maneira radical. No cômputo geral, ela foi a revolução mais bem-sucedida das esquerdas, mudando de fato as sociedades para melhor, embora nem tudo tenha sido um mar de rosas. Em sua insurgência contra a razão tecnocrática dos impérios americano e soviético em conflito, que ameaçava o mundo com o holocausto nuclear, os contraculturais acabaram jogando o bebê junto com a água suja da bacia descambando para um irracionalismo sem peias, romantizando a marginalidade e a loucura. No bojo dessa visão neorromântica, surgiu a chamada antipsiquiatria que afirma serem as doenças mentais meras “construções sociais”, não passando de rótulos que a medicina psiquiátrica inventou para controlar e adestrar os diferentes e dissidentes da sociedade capitalista.

Como não cabe me estender sobre esse assunto complexo e polêmico neste texto, resumo que os adeptos dessa teoria tiveram o mérito de colaborar para acabar com os tenebrosos manicômios, no que ficou conhecido como luta antimanicomial. Como demérito, com base na ideia estapafúrdia da não existência das doenças mentais (sic), saíram aqui no Brasil e em outros lugares do mundo fechando também os hospitais psiquiátricos e demonizando os médicos psiquiatras. Assentados nos escritos do pai da teoria, o italiano Franco Basaglia, conhecidos como Psiquiatria Democrática, não só manicômios, mas também hospitais psiquiátricos deveriam ser substituídos por atendimentos terapêuticos através de centros comunitários, centros de convivências e tratamento ambulatorial. No Brasil, essa visão ganhou forma de lei (Lei 10.216/2001), em 2001, denominada Reforma Psiquiátrica, mas, como na prática a teoria é outra, acabou foi deixando a população de baixa renda desamparada por não terem sido  construídos substitutos a contento para os hospitais psiquiátricos fechados. Fora outros aspectos discutíveis da lei, tais como delimitar um prazo único para a internação de qualquer paciente, independente de cada caso particular.

Em 2009, o poeta Ferreira Gular (10/07/1930 - 04/12/2016), pai de dois filhos com esquizofrenia, se insurgiu contra essa lei, propondo no mínimo uma revisão da dita. Em artigos (Uma lei errada, Boas intenções não bastam) na Folha de São Paulo e entrevista na Época (Ninguém aguenta uma pessoa delirante em casa), Gullar afirmou:
As famílias de posses continuam a pôr seus doentes em clínicas particulares, enquanto as pobres não têm onde interná-los. Os doentes terminam nas ruas como mendigos, dormindo sob viadutos.” (Uma lei errada).
Assim como a lei da chamada "psiquiatria democrática" pretende fazer de conta que doença mental não existe e o esquizofrênico é apenas um dissidente, o hospital disfarçado expressaria o mesmo preconceito da sociedade em face da questão.
Mentiras e hipocrisia não resolvem problema algum. Doença mental não é motivo de vergonha, não pode ser estigma para ninguém, trata-se de uma enfermidade como outra qualquer. O cérebro é um órgão do corpo humano como o coração ou os rins e, por isso, pode adoecer como qualquer um deles. Porque uma de suas funções é produzir pensamentos, se passa a funcionar mal, o cara perde o controle do que pensa, ouve vozes ou sofre alucinações.” (Boas intenções não bastam)
Ninguém é a favor de manicômio ou de encerrar uma pessoa pelo resto da vida. Isso não existe há muito tempo. Mas hoje as famílias sem recursos não têm onde pôr seus filhos. Eles vão para a rua. São mendigos loucos, mendigos delirantes. Podem agredir alguém. É imprevisível o que pode acontecer. O Ministério da Saúde tem de olhar isso. O hospital-dia é uma boa coisa. Mas para o doente ir para o hospital-dia ele tem que querer ir. Quando entra em surto, é evidente que não vai querer ir para o hospital-dia. Dizer que os doentes serão encarcerados é terrorismo. (Ninguém aguenta uma pessoa delirante em casa)

Segue abaixo a entrevista do poeta. 

 Rosely Roth: ouçam nossas vozes 

Minha leitura dos textos e da entrevista do poeta Ferreira Gullar à revista Época, em 2009, foram fundamentais para eu vir a falar abertamente, nesse mesmo ano, da vivência de minha companheira e amiga Rosely Roth com a esquizofrenia que, no caso dela, infelizmente culminou em suicídio. Aliás, até hoje, apesar dos grandes avanços no tratamento da doença, que vem permitindo cada vez mais uma vida produtiva aos portadores da enfermidade, o índice de suicídios entre os pacientes ainda é bem alto. Segundo o presidente da Associação Psiquiátrica da América Latina, Antônio Geraldo da Silva, a esquizofrenia está associada com aumento de dez vezes do risco de morte por suicídio, e 50% dos pacientes esquizofrênicos podem tentar o suicídio em algum ponto do curso da doença, sendo mais comum durante os anos iniciais.

Inspirada nas falas de Gullar, discorri sobre a condição de Rosely no texto 19 de Agosto: Primeira Manifestação lesbiana contra a discriminação no Brasil dizendo o seguinte:
Como a confirmar a máxima pessoana de que morre jovem o que os deuses amam, Rosely brilhou intensamente em sua breve vida, ceifada aos trinta anos de idade pela grave enfermidade que a acometeu. Ao final de 1987, durante o IV Encontro Feminista Latino-Americano e do Caribe (19 e 25 de outubro), no México, Rosely passou a apresentar as alterações perceptivas, tanto auditivas quanto visuais, que caracterizam a esquizofrenia, doença que atinge jovens adultos na faixa dos 28 a 30 anos (no caso das mulheres). Fruto de um desequilíbrio químico-cerebral, de provável origem genética, a esquizofrenia, apesar dos avanços nos medicamentos de controle dos surtos, ainda hoje leva mais de 10% de suas vítimas ao suicídio, inclusive porque a acompanham períodos de intensa apatia e depressão. Após 2 anos e meio lutando com a doença, Rosely se suicidou no apartamento de sua namorada, Vera Lúcia S. de Barros, em Madureira, subúrbio do Rio de Janeiro, no dia 28 de agosto de 1990.

Sua morte provocou grande choque mesmo entre aquelas pessoas que acompanhavam de perto seu calvário e sabiam da possibilidade de um trágico desfecho. Como sempre acontece em casos de suicídio, ainda mais de pessoas de grande potencial humano como Rosely, formou-se uma espécie de tabu sobre o acontecido, como se morrer de uma doença grave fosse motivo de vergonha e não uma simples fatalidade a que estamos todos sujeitos de um jeito ou de outro. Tal tabu inclusive não combina com a memória de uma mulher que se destacou exatamente pela quebra dos silêncios e dos tabus em relação à lesbianidade e cuja trajetória de ativista foi um exemplo de luta contra a insanidade do preconceito e da discriminação. Que ele se desfaça, portanto, não só por Rosely mas também como uma contribuição à desmistificação da doença que a acometeu da qual padecem milhares de pessoas no mundo inteiro.
Tenho pouco a acrescentar ao que disse em 2009, mas cabe trazer mais alguns dados com base sobretudo na questão da disputa surreal entre psiquiatras e antipsiquiatras no manejo dessa condição tão grave e delicada. Quando Rosely teve o primeiro surto psicótico, vendo e ouvindo coisas inexistentes, foi atendida por uma psiquiatra que também participava do IV Encontro Feminista Latino-Americano e do Caribe no México. Essa psiquiatria não teve qualquer dúvida em afirmar que Rosely estava em surto psicótico, prescrevendo-lhe medicação apropriada, e que, ao retornar ao Brasil, precisaria ser internada e se afastar da militância. Quando voltamos a São Paulo, informei à família dela o que me dissera a psiquiatra, mas não parece que tenham levado a sério o diagnóstico. Como se não bastasse, o psicólogo com quem Rosely fazia terapia, provavelmente da turma da antipsiquiatria, disse a ela que sofrera uma violência, por terem lhe prescrito antipsicótico, que ela não tinha nada do que fora dito e mais alguns outros leros. Rosely então suspendeu a medicação, resultando, como não podia deixar de ser, em novo surto, que serviu ao menos para cair a ficha da família da necessidade de internação.

Nos dois anos e 10 meses, para ser mais precisa, em que Rosely lutou contra a doença, sempre houve disputas ideológicas sobre sua condição e confusão de diagnósticos. A gente mesma que acompanhava seu calvário já nem sabia o que pensar, pois não havia Internet na época para sanar as dúvidas (os computadores pessoais haviam acabado de chegar aos lares brasileiros) e se ficava à mercê dos ditos especialistas e suas ideologias, como se não fosse óbvia a condição da moça, à luz do meu conhecimento de hoje sobre o tema. Foram 5 surtos e 5 internações durante esse período, e, já no início de 1990, Rosely se declarava cansada da situação. Quando não estava em surto, sentia-se prostrada, sem forças para nada, sequer cozinhar, lavar roupa, etc., como ela mesma dizia. Mantivemos sempre contato, por carta e telefone. mesmo quando foi morar no Rio. Sua namorada também me ligava sempre, em longos telefonemas. E um desses telefonemas foi exatamente no fatídico dia 28 de agosto de 1990. Vera me ligou desesperada pedindo para falar com Rosely porque não estava encontrando a psiquiatra que tratava dela, e Rosely já havia tentando se jogar pela janela. Falei com Rosely que, entre falas lúcidas e outras meio delirantes, disse que não queria mais viver do jeito que vivia (referindo-se às internações e à doença). Tentei acalmá-la e levantar sua moral, dizendo que haveria melhores dias e que acharia novo sentido para a vida. Conversei então novamente com sua namorada, e desligamos. Cerca de uma hora depois, Vera me ligou desta vez para dizer que Rosely havia conseguido se suicidar. Tive dificuldade de acreditar no fato e pedi que outra pessoa, além de Vera, confirmasse a tragédia, o que ocorreu. Depois só restou avisar a família de Rosely do acontecido.

Moral dessa história: a esquizofrenia não é nenhuma "construção social". Nosso corpo, que inclui nosso sexo, e as doenças que o afligem, estejam no baço, no útero, no cérebro, são realidades materiais, são construções naturais, mesmo que anômalas. Que ninguém mais compre essa ideia contra-iluminista e negacionista de doença mental como construção social. A aceitação do paciente de sua própria condição é essencial para o sucesso de seu tratamento, o que não vai rolar caso, como se não bastasse seu descolamento da realidade, ainda estiver às voltas com gente lhe dizendo que está apenas com algum problema emocional. Palavras, aliás, da socióloga Vera Soares, uma portadora da doença em depoimento, que vale a leitura integral, para a revista Época:
Superar o transtorno não significa estar curada da doença. A pessoa só supera a doença se ela se aceitar. Se não aceitar que é doente, não engaja no tratamento. E, se não trata, não supera. A esquizofrenia é grave. Exige medicação e psicoterapia. Não tem cura, mas você pode aprender a lidar com ela. Viver com esquizofrenia também exige autoconhecimento. Eu sei, por exemplo, que devo evitar situações de estresse para não ter novos episódios de psicose. Já me conheço e sei quais são meus gatilhos de estresse. Evito e tento controlar a situação. Desta forma, lido melhor com a doença.

Os manicômios não vão retornar. Existiam sobretudo porque até a década de 50 não havia antipsicóticos e, portanto, possibilidade dos pacientes conviverem em sociedade. Desde então, porém, ocorreram avanços significativos no controle dos surtos e mudanças radicais no tratamento dos portadores da esquizofrenia e outros transtornos mentais. Nada mais de confinamentos, abandono, maus-tratos. Já na época em que Rosely ficou doente, ela me escreveu de um dos estabelecimentos em que ficou internada, considerado até hoje um hospital modelo para tratamento de doenças da mente, o Instituto Bairral, localizado em Itapira, a 170 quilômetros de São Paulo. Rosely descreveu o local da seguinte maneira (talvez se estivesse ficado por lá ainda estaria viva):

Aqui em Itapira tem piscina. Todas as noites tem atividades: jogos filmes, culto e dança. Leio o jornal todos os dias.

Fechar  hospitais psiquiátricos tem tanto sentido quanto fechar hospitais do câncer, do coração e de tantas outras especialidades. Demonizar psiquiatrias tem tanto sentido quanto demonizar cardiologistas, oncologistas, ginecologistas. Médicos não devem ser colocados em altar nem demonizados. É verdade que a medicina psiquiátrica tem um passado muito ruim não só no trato de pessoas com transtornos mentais mas igualmente de gente sem problemas dessa natureza que foi internada em manicômios por ser apenas fora do comum. Não celebramos à toa o 17 de maio, dia da retirada da homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças. Todavia, é preciso lembrar que médicos e cientistas também são filhos de seu tempo e limitados ao conhecimento científico de sua época. Eles também mudam na medida das mudanças sociais e científicas. Uma posição crítica sobre o complexo biomédico farmacêutico, que é fundamental, não pode descambar para a posição anticientificista da "construção social" para tudo, em particular doenças.

A articulação que se faz para fechar hospitais psiquiátricos públicos seria muito melhor empregada na transformação desses hospitais em centros médicos de excelência como o Instituto Bairral. Os médicos e pesquisadores da doença são peças fundamentais no trato adequado dos pacientes e desenvolvimento de novos tratamentos. Recentemente, cientistas paulistas criaram exame capaz de diagnosticar a esquizofrenia e a bipolaridade a partir de amostras de sangue. Mesmo que, como afirmam, ainda levem uns cinco anos para poder aplicar o achado na prática, abre-se aí mais um caminho para maior precisão diagnóstica e novos tratamentos. Seria o caso dos adeptos da esquizofrenia como "construção social" nos explicarem como esse exame pode ser desenvolvido a partir de doenças que não existem. O mesmo vale para os antipsicóticos, principalmente porque não dá pra falar que os pacientes se autosugestionam sobre a eficácia da medicação na maior parte dos casos, né mesmo? 

 Para mais informações, clique aqui, aqui

A banda Larking Poe, das irmãs Megan e Rebecca Lovell, fez a música abaixo, Mad as a Hatter (Louco de Pedra), em homenagem a seus avós, vítimas de esquizofrenia e demência. No início da performance, Megan fala que a doença mental é uma daquelas coisas muito difíceis de se comentar, algo desconfortável de se falar, mas uma coisa sobre a qual que deveríamos falar abertamente. #OuçamNossasVozes

I know what time is
Time is a thief
It'll steal into bed and rob you while you sleep
You'll never feel it
It pulls off the covers, and rifles through your head
Then you'll wait to find you can't remember what you just said
It happens to everyone
Just like the father of my father, time stole his mind
And I can't forget that one fourth of his blood is mine
I try not to worry

Please don't come for me
I promise I'll be great
Just let me keep what's mine
Please don't come for me
If you must then just please wait and let me have some time
Please don't come for me
Mind over matter when you're as mad as a hatter

It's hard to draw a clear distinction
When you are who you are
Through the looking glass, the past and future begin to blur
Though I keep playing
Well they say the world is what you make it
You think, speak and breathe
And those rules solidify, stuck in a world of make believe
You make the best of what you are given

Off with the head, off with the head
Paint the roses, paint the roses

Please don't come for me
I promise I'll be great
Just let me keep what's mine
Please don't come for me
If you must then just please wait and let me have some time
Please don't come for me
Mind over matter when you're as mad as a hatter




Há 10 anos STF reconhecia união estável homoafetiva

quarta-feira, 12 de maio de 2021 0 comentários

"Tudo que não está juridicamente proibido, está juridicamente permitido. A ausência de lei não é ausência de direito, até porque o direito é maior do que a lei." 
A constatação é do ministro Ayres Britto, hoje aposentado do Supremo Tribunal Federal, em voto histórico no julgamento que equiparou as relações entre pessoas do mesmo sexo às uniões estáveis entre homens e mulheres, e que completa dez anos nesta quarta-feira (5/5).

Ayres Brito foi relator da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 4.277 e da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 132. Seu voto foi seguido por integralmente por seis ministros.

Os ministros Ricardo Lewandowski, Gilmar Mendes e Cezar Peluso divergiram em alguns pontos da maioria do colegiado, mas acompanharam o ponto central da ADI. A condenação da discriminação e de atos violentos contra homossexuais foi unânime.

A análise da matéria pelos ministros também enveredou no sentido de que o caráter laico do Estado veta que a moral religiosa limite a liberdade das pessoas. A problemática foi abordada, por exemplo, nos votos dos ministros Marco Aurélio e Celso de Mello.

Em seu voto, Marco Aurélio destacou o papel contramajoritário do Supremo — citou a decisão tomada em relação à Lei da Ficha Limpa — ao lembrar que as normas constitucionais de nada valeriam se fossem lidas em conformidade com a opinião pública dominante.

Já Celso de Mello afirmou que o Estado deve dispensar às uniões homoafetivas o mesmo tratamento atribuído às uniões estáveis heterossexuais. Não há razões de peso que justifiquem que esse direito não seja reconhecido, frisou o ministro. "Toda pessoa tem o direito de constituir família, independentemente de orientação sexual ou identidade de gênero", disse.

Ao dar provimento as duas ações que pediam o reconhecimento da relação entre pessoas do mesmo sexo, os ministros decidiram que a união homoafetiva deve ser considerada como uma autêntica família, com todos os seus efeitos jurídicos.

Sustentações orais históricas

Ao se pronunciar sobre o tema, o então procurador-geral da República, Roberto Gurgel, afirmou que a ação visava reconhecer que todas as pessoas têm os mesmos direitos de formular e perseguir seus planos de vida desde que não violem direitos de terceiros.

Gurgel citou dados do IBGE, de acordo com os quais havia 60 mil casais homossexuais no país. Outra sustentação oral histórica foi feita pelo então advogado Luís Roberto Barroso, que representado o governo do Rio de Janeiro, subiu à tribuna para falar que a história da civilização é a história da superação do preconceito.

Na época, o atual ministro do STF lembrou de casos em que homossexuais foram punidos apenas por declarar sua opção sexual.
Duas pessoas que unem seu afeto não estão numa sociedade de fato, como uma barraca na feira. A analogia que se faz hoje está equivocada. Só o preconceito mais inconfessável deixará de reconhecer que a analogia é com a união estável", afirmou Barroso.
O advogado também frisou que o direito das minorias não deve ser tratado necessariamente pelo processo político majoritário. Ou seja, pelo Congresso. 
 Mas sim por tribunais, por juízes corajosos", disse.
Por fim, o então advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, também defendeu o reconhecimento das uniões homoafetivas. "O reconhecimento dessas relações é um fenômeno que extrapola a realidade brasileira e o primeiro movimento de combate à discriminação que sofrem esses casais vem do Estado, com o reconhecimento de benefícios previdenciários", afirmou.

Outros seis amici curiae defenderam as uniões homoafetivas. Contra o reconhecimento, falaram dois amici. A principal foi a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Clique aqui para ler o voto do relator, ministro Ayres Britto
Clique aqui para ler o voto do ministro Ricardo Lewandowski
Clique aqui para ler o voto do ministro Marco Aurélio

Clipping Decisão do STF que reconhece união estável homoafetiva completa 10 anos, 05/05/2021, Conjur

O famoso meme "silêncio gay" se origina de entrevista da atriz Jodie Foster aos 17 anos

quarta-feira, 5 de maio de 2021 0 comentários

Jodie Foster e a atual mulher, a atriz Alexandra Hedison

Famosa nas redes sociais, a cena que deu origem ao meme do "silêncio gay" aconteceu há 42 anos

Em 1992, Jodie Foster levou o Oscar de ‘Melhor Atriz’ por sua atuação no icônico filme ‘O Silêncio dos Inocentes’, em que viveu a agente do FBI Clarice Starling. Quatro anos antes, a atriz havia recebido seu primeiro prêmio no mais importante evento do cinema em Hollywood, vencendo na mesma categoria por ‘Acusados’.

Ao longo de sua carreira, Foster foi indicada oito vezes na premiação. Já na premiação do Globo de Ouro, ela recebeu dez indicações e venceu três vezes: as interpretações que ganharam estatuetas do Oscar também renderam prêmios aqui, somadas ao filme The Mauritanian, lançado neste ano.

Em outra ocasião, em 2013, recebeu da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood, durante o Globo de Ouro, o prêmio Cecil B. DeMille. A distinção honorária tem como objetivo homenagear artistas importantes que tiveram notáveis contribuições para a indústria audiovisual.

Mas o sucesso e proeminência da atriz não foi reconhecido somente nos Estados Unidos: ela também recebeu troféus da Academia Britânica de Cinema e Televisão. Jodie levou prêmios para casa em três anos da premiação BAFTA Film Award.

Além de suas imensuráveis contribuições ao longo de anos de carreira no mundo do cinema, Foster também originou um meme muito famoso na internet, embora muitos de fato não saibam como o termo foi criado. Trata-se do conhecido ‘gay silence’, traduzido como ‘silêncio gay’, que sempre viraliza em Tweets.


A origem do meme

Como relatou o portal de notícias Pink News em 2017, a repórter do BuzzFeed Ellie Bate, do Reino Unido, foi a primeira pessoa a associar o meme, que começou a se espalhar na internet naquele ano a partir de uma publicação na rede social Tumblr, a uma entrevista dada pela atriz em 1979.

Foster iniciou sua carreira no cinema muito cedo, estrelando no filme Napoleão e Samantha, de 1972, aos apenas 10 anos de idade. Ao longo de sua adolescência, continuou interpretando personagens e, inclusive, dando entrevistas sobre sua carreira e vida.

Aos 17 anos, ela teve que lidar com uma repórter heteronormativa que a questionava sobre sua vida amorosa e gosto pessoal em rapazes. A entrevistadora a pergunta: "Você tem um namorado fixo?". A resposta é claramente desconfortável. Rindo, ela diz que não: “Eu não tenho tempo. E suponho que não penso muito nisso."

Ainda assim, a jornalista a pressiona, questionando "que tipo de cara” ela gostaria, “realmente”. É aí que vem o ‘gay silence’: a menina lambe os lábios, dá um sorriso, pausa por um momento e então responde: "Não sei. Suponho que gostaria de alguém que entendesse meu negócio”.

A jovem Foster estava claramente relutante em responder a pergunta inconveniente da entrevistadora. Com caretas, meio sorrisos e uma ironia impressionante, a atriz conseguiu se livrar dos questionamentos incômodos.

Atualmente, Jodie é casada com a também atriz Alexandra Hedison, com quem iniciou um relacionamento em 2014. Ela também tem dois filhos, Kit Bernard Foster e Charles Bernard Foster, ambos com a ex-companheira Cydney Bernard, de quem se separou em 2008, após 14 anos de relação.

A icônica cena gerou o meme que é usado geralmente para relatar situações desconfortáveis as quais pessoas homossexuais são submetidas ao longo de suas rotinas. Um exemplo é a frase “quando as pessoas estão dizendo coisas homofóbicas ao seu redor e não percebem que você é gay”.

Confira o trecho aqui:



Clipping A icônica história por trás do meme "gay silence", por Isabela Barreiros,  Aventuras na História, 02/05/2021

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