Ativista LGBT nigeriano declara que Banco Mundial deveria fazer com que países interessados em receber empréstimos dessem proteção legal à orientação sexual

sexta-feira, 4 de julho de 2014 0 comentários

Adebisi Alimi. / PROJECT SYNDICATE

O custo da homofobia para o desenvolvimento
A proteção legal aos coletivos homossexuais é também uma questão econômica. Existem vínculos entre a pobreza e a homofobia em países que condenam estas relações

Sendo um homossexual que vivia na Nigéria, meu maior desafio foi ter que escolher entre minha sexualidade e meu trabalho. Em 2004, estava iniciando minha carreira como ator. Acabava de sair da universidade e me dera um papel em Rosas e espinhos, uma telenovela de máxima audiência na Galaxy Television, uma das redes mais populares do país. Meu personagem era Ricardo, o filho único de uma família rica que mantinha uma relação com a empregada da casa. Foi então que começaram a circular rumores sobre minha vida privada, por isso decidi que era hora de falar a verdade. Para isso, aceitei ir ao programa de entrevistas mais popular da Nigéria e falar sobre minha sexualidade.

Quase imediatamente, meu personagem foi eliminado da série. E, junto com meu emprego, também desapareceu minha segurança financeira. Assim como muitos homossexuais e lésbicas na África, tive que escolher entre a liberdade econômica e o encarceramento mental.

Naquele ano, Nigéria e Uganda aprovaram leis draconianas contra os homossexuais, o que desatou um debate mundial sobre Direitos Humanos. Este debate também começou no Banco Mundial, cujo presidente Jim Yong Kim, recentemente declarou que a discriminação institucionalizada "é prejudicial para as pessoas e para as sociedades".

As palavras de Kim geraram críticas e controvérsias. Em países como Uganda e Nigéria é comum ouvir que a oposição à discriminação contra homens e mulheres homossexuais, bissexuais e transexuais (LGBT, por sua sigla em inglês) por parte dos governos é uma maneira de impor valores "ocidentais" à África. Mas isto supõe que a homossexualidade é "antiafricana". E, apesar da falta de provas de que algum país ou continente não possua pessoas LGBT (e muitas provas que mostram o contrário), é uma presunção aceita por uma quantidade cada vez maior de líderes africanos.

Em 2006, o então presidente da Nigéria, Olusegun Obasanjo foi um dos primeiros a falar isso. O presidente de Uganda, Yoweri Museveni, seguiu seus passos quando transformou em lei um projeto anti-homossexual em 2014. Outros líderes, desde o presidente da Gâmbia, Yahya Jammeh, até o do Zimbábue, Robert Mugabe, se manifestaram no mesmo sentido.

Estas atitudes oficiais geraram um sofrimento significativo aos homossexuais e lésbicas da África. Na verdade, o preço da homofobia contra os gays em muitos países africanos é doloroso e evidente: sanções legais, ostracismo social e justiça pelas próprias mãos.

No entanto, o que os líderes homofóbicos da África não entendem é que a proteção legal aos coletivos gays não é apenas uma questão de Direitos Humanos, também é uma questão econômica. Kim tem toda a razão e a investigação começou a medir os custos econômicos da homofobia ao explorar os vínculos entre o sentimento anti-gay e a pobreza em países onde as leis e as atitudes sociais condenam as relações entre pessoas do mesmo sexo.

A discriminação institucionalizada é prejudicial para as pessoas e para as sociedades

M.V. Lee Badgett, um economista da Universidade de Massachusetts-Amherst, apresentou as descobertas iniciais de um estudo sobre as implicações econômicas da homofobia na Índia em uma reunião do Banco Mundial, em março de 2014. Badgett estimou que a economia indiana poderia ter perdido até 23,1 bilhões de dólares em 2012 em custos de saúde diretos por causa de problemas de depressão, suicídio e disparidades no tratamento do HIV causados pelo estigma e a discriminação contra os homossexuais.

Além destes gastos concretos, ser diferente pode gerar violência, perda de empregos, rechaço familiar, assédio nas escolas e pressão para se casar. Como resultado disto, muitos homossexuais têm menos educação, menor produtividade, menores ingressos, uma saúde pior e uma expectativa de vida menor.

Na Nigéria, eu comecei o Projeto Independente para Direitos Iguais (TIERS) em 2005 com a intenção de responder e atender à crescente quantidade de pessoas que estavam perdendo o emprego por causa das suspeitas sobre sua sexualidade. Durante nosso primeiro ano oferecemos apoio a dezenas delas. Um jovem, Olumide, recebeu uma moradia depois que sua família o expulsou de casa por ser gay. Outro, Uche, foi despedido de seu emprego como cozinheiro depois de ter revelado sua sexualidade. TIERS o ajudou com o alojamento e com uma quantidade de dinheiro para montar seu próprio negócio de serviço de comida. Embora já se tenham passado quase 10 anos, ainda não podem usar seus nomes reais por questões de segurança.

Em toda África, os custos econômicos da discriminação aumentam de forma paralela à crescente pressão sobre empregadores, proprietários, fornecedores de atenção médica, instituições educativas e outros para que excluam as pessoas LGBT.

Hoje, o Banco Mundial e outras agências de desenvolvimento estão planificando as prioridades de desenvolvimento global que virão depois dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), que oficialmente terminam em 2015 e incluíam pontos específicos para promover a igualdade de gênero e fortalecer as mulheres como uma estratégia para lograr o crescimento econômico. Olhando para o futuro, o Banco deveria adotar o mesmo enfoque sobre os direitos das pessoas LGBT e fazer com que os países que queiram receber empréstimos deem proteção legal à orientação sexual e à identidade de gênero.

O Banco Mundial deveria fazer com que os países que queiram receber empréstimos deem proteção legal à orientação sexual

Gerar reconhecimento pelos direitos das mulheres nos ODM não corrompeu as culturas africanas impondo valores "ocidentais". Na verdade, fortaleceu muitos países africanos, que agora são líderes mundiais do ponto de vista da representação de mulheres no governo. Se tentarmos aplicar uma proteção similar às pessoas LGBT, o investimento e a ajuda internacional podem melhorar o desempenho econômico e robustecer o respeito pelos direitos humanos básicos.

O Banco Mundial, sempre cauteloso em não se envolver em questões "políticas", enfatiza que não é o encarregado de fazer cumprir os Direitos Humanos. Mas também reconhece, e cada vez mais, seu próprio papel como facilitador na hora de ajudar os membros do Banco a cumprir com suas obrigações na área. Os direitos dos LGBT deveriam ser um caso para estabelecer jurisprudência.

A ajuda aos governos que permitem que certos grupos sociais sejam excluídos pode implicar custos econômicos bastante reais. Na hora de considerar novos empréstimos deveriam ser tomadas medidas para assegurar que os benefícios sejam inclusivos no maior grau possível.

Se o Banco - que atualmente empresta à Nigéria quase 5,5 bilhões de dólares (mais de 12 bilhões de reais) e espera outorgar outros 2 bilhões de dólares em cada um dos próximos quatro anos - avançasse nesta direção, outras entidades de financiamento poderiam seguir seus passos. As pessoas LGBT da África precisam desesperadamente destes aliados poderosos em sua luta pelos Direitos Humanos e econômicos.

Adebisi Alimi (@bisialimi), defensor LGBT e ativista pelo HIG, fugiu para o Reino Unido após sofrer uma tentativa de assassinato na Nigéria. Aspen New Voices Fellow em 2014 o Aspen Institute.

Fonte: El País, Sociedade, 27/06/2014

Atendimento de saúde às mulheres lésbicas e bissexuais brasileiras em discussão no Piauí

quinta-feira, 3 de julho de 2014 0 comentários

Da esquerda para a direita, Carmem Lúcia Ribeiro,
Andrea Rufino, Bárbara de Melo e Marinalva Santana

I Colóquio sobre Atenção à Saúde de Mulheres Lésbicas e Bissexuais aconteceu no CCS/ UESPI

Por Mônica Rosa

Para discutir o atendimento de saúde às mulheres lésbicas e bissexuais brasileiras, a Universidade Estadual do Piauí (UESPI) realizou o I Colóquio sobre Atenção Integral à Saúde de Mulheres Lésbicas e Bissexuais. O evento aconteceu na noite da quarta-feira (25) no Centro de Ciências da Saúde (CCS). Na ocasião a professora da UESPI, Andréa Rufino, apresentou os resultados de sua pesquisa de pós-doutorado intitulada: “Saúde sexual e reprodutiva de mulheres que fazem sexo com mulheres”.

O Colóquio foi uma realização da UESPI- através dos Núcleos Corpo e Sexualidade e Núcleo de Estudos e Pesquisa na Saúde da Mulher- e do Grupo Matizes, que defende a livre orientação sexual e os direitos dos LGBTS.

“O objetivo do Colóquio é divulgar e discutir os resultados da pesquisa sobre Saúde Sexual e Reprodutiva de Mulheres Lésbicas”, afirma a professora. “A ideia é que, junto com a comunidade acadêmica, com os profissionais de saúde, a gestão em saúde e a população de mulheres lésbicas e bissexuais, a gente possa chamar a atenção para informações como prevenção de DST, prevenção de HIV, acesso à técnicas reprodutivas, a humanização do atendimento, para mudar uma realidade de preconceito, que prejudica o acesso dessas mulheres ao serviço de saúde”.

A pesquisa foi desenvolvida em cinco capitais do Brasil: Manaus, São Paulo, Porto Alegre, Brasília e Teresina e teve como objetivo perguntar sobre práticas sexuais e prevenção entre as mulheres lésbicas e bissexuais e também conhecer a experiência delas nos serviços ginecológicos em todo o Brasil. “Procuramos entender se há discriminação, preconceito e se as necessidades de saúde dessas mulheres são atendidas”, destacou Andréa Rufino. A pesquisadora já foi matéria de destaque no site da Veja, com sua pesquisa de doutorado que explica que os cursos de medicina no Brasil falam pouco sobre orientação sexual.

A reitora da UESPI em exercício, Bárbara de Melo, esteve presente no Colóquio e destacou a importância da pesquisa. “Esse estudo consegue fazer com que o ensino, a pesquisa e a extensão dialoguem. Hoje a Professora Andréa apresenta alguns dados de sua tese e está dando um retorno para a comunidade. Essa é uma responsabilidade que a universidade deve ter”, disse a gestora.

Para as integrantes do Matizes, a realização do Colóquio é de extrema a importância. Carmem Lúcia Ribeiro, Coordenadora Geral do grupo, afirma: “Esse é um momento ímpar para nós. Pela primeira vez estamos discutindo a saúde de mulheres lésbicas e bissexuais com os profissionais da área de saúde. Nós acreditamos que pautar essa discussão aqui vai facilitar o acesso das lésbicas ao sistema de saúde, principalmente no atendimento ginecológico”.

Marinalva Santana, fundadora e coordenadora do Matizes afirma que ações como essa, aproximam não só a academia, mas também o meio médico. ”A gente acha importante sensibilizar esses profissionais, para que eles percebam o significado de se pensar e discutir as especificidades de mulheres lésbicas e bissexuais”.

As professoras Ana Maria Veloso, Sérgia Oliveira, Maria das Dores Sousa e Lyzianne Bona compuseram a mesa do Colóquio e abriram espaço de discussão com a plateia. Foram tratados temas como a vulnerabilidade das mulheres lésbicas e bissexuais ao HIV, HPV, DSTs e câncer de colo do útero, além da humanização do atendimento e acesso às técnicas reprodutivas. Na ocasião também foram entregues duas cartilhas enfocando o combate ao preconceito nos serviços de saúde. Elas foram elaboradas em conjunto com o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Saúde da Mulher e Núcleo de Estudos, Extensão e Pesquisa em Sexualidade, ambos da UESPI e o Grupo Matizes.

Fonte: Universidade Estadual do Piauí, Notícias, 26/06/2014

Nos EUA, cada vez mais, inconstitucional é proibir o casamento de pessoas do mesmo sexo

quarta-feira, 2 de julho de 2014 0 comentários


EUA: corte retira proibição ao casamento gay em Utah
Corte de apelações considerou inconstitucional - por dois votos a um - ao negar o direito de duas pessoas do mesmo sexo contrair matrimônio

Um tribunal federal de apelações dos Estados Unidos declarou nesta quarta-feira inconstitucional a proibição dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo no estado de Utah.

O procurador-geral de Utah, o republicano Sean Reyes, informou em comunicado que recorrerão da sentença perante o Supremo.

A corte de apelações do Circuito de Denver considerou inconstitucional - por dois votos a um - ao negar o direito de duas pessoas do mesmo sexo contrair matrimônio.

O tribunal fez referência na sentença à quarta emenda que "protege o direito fundamental de se casar, estabelecer uma família, criar filhos e desfrutar da proteção completa das leis estaduais do casamento".

"Um estado não deve negar a expedição de uma certidão de casamento a duas pessoas ou rejeitar o reconhecimento a seu casamento, baseado unicamente no sexo das pessoas na união matrimonial", escreveu o juiz Carlos Lucero.

Esta corte deve ditar sentença em um caso similar em Oklahoma, enquanto o tribunal de apelações de Richmond está estudando a sentença de uma corte inferior que considerou inconstitucional a proibição do casamento entre homossexuais na Virgínia.

Nos EUA, o casamento entre homossexuais é reconhecido em 20 estados além do Distrito de Columbia, a capital.

Fonte: 
Terra, 25/06/2014

Vaticano agora diz que casais LGBT e seus filhos não devem sofrer discriminação na Igreja

terça-feira, 1 de julho de 2014 0 comentários


Gays e seus filhos não deveriam sofrer discriminação da Igreja, diz Vaticano
Segundo documento, Igreja tem que encontrar equilíbrio entre ensinamentos sobre família tradicional e atitude sem juízos de valor em relação aos que vivem em uniões de pessoas do mesmo sexo

CIDADE DO VATICANO - A Igreja Católica Romana tem de ser menos crítica com os homossexuais e, embora ainda se oponha ao casamento gay, deve receber os filhos de casais homossexuais na fé com igual dignidade, assinala um documento do Vaticano divulgado nesta quinta-feira.

O documento de 75 páginas, resultado de um trabalho para o sínodo de bispos católicos previsto para outubro, que discutirá questões da família, também diz que a Igreja com 1,2 bilhão de membros em de tornar-se menos exclusiva e mais humilde.

Conhecido pelo seu nome em latim "Instrumentum Laboris", o documento ressalta a grande diferença entre os ensinamentos oficiais da Igreja sobre questões de moralidade sexual e sua aceitação e compreensão por parte dos fiéis no mundo todo.

O trabalho foi baseado nas respostas a um questionário de 39 perguntas enviado a dioceses em todo o mundo antes do sínodo. Pela primeira vez, em preparação para esse encontro, o Vaticano pediu aos bispos que compartilhem a pesquisa amplamente com os párocos e busquem os pontos de vista dos seus paroquianos.

A posição tradicional da Igreja sobre a homossexualidade levou a alguns casos de exclusão de filhos de homossexuais das atividades da Igreja.

Embora o novo documento não apresente nenhuma mudança imediata na condenação de atos homossexuais e na oposição da Igreja ao casamento gay e à adoção de crianças por gays, ele usa uma linguagem notavelmente menos crítica e mais compassiva do que declarações anteriores do Vaticano.

Segundo o texto, embora os bispos se oponham à "redefinição" do casamento por governos que permitem uniões do mesmo sexo, a Igreja tem que encontrar um equilíbrio entre os seus ensinamentos sobre a família tradicional "e uma atitude respeitosa, sem juízos de valor em relação às pessoas que vivem em tais uniões".

Essa frase ecoa as famosas declarações do papa Francisco sobre homossexuais ao voltar do Brasil em julho passado: "Se uma pessoa homossexual é de boa vontade e está à procura de Deus, eu não sou ninguém para julgá-la".

No passado, o Vaticano se referiu à homossexualidade como "intrinsecamente desordenada" e parte de "um mal moral intrínseco".

A Igreja ensina que os atos homossexuais são pecaminosos, mas as tendências homossexuais não são.

O documento observa que alguns católicos que responderam ao questionário sentiram "um certo mal-estar diante do desafio de aceitar essas pessoas com espírito misericordioso e, ao mesmo tempo, manter a doutrina moral da Igreja ..."

Fonte: O Globo, via Reuters, 27/06/2014

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