Stormé DeLarverie: a lésbica negra que deu início à rebelião de Stonewall

quarta-feira, 28 de junho de 2017

24 de dezembro de 1920 - 24 de maio de 2014

Stormé DeLarverie: a lésbica negra que deu início à rebelião de Stonewall

por Míriam Martinho

Nos depoimentos dos presentes à 01:20 da madrugada, do dia 28 de junho de 1969, no bar Stonewall Inn, há consenso sobre quem atuou como estopim da famosa revolta de lésbicas, gays, drags queens e kings contra os abusos da polícia. Segundo as narrativas, foi uma lésbica butch (sapata, bofinho) a iniciadora da revolta que virou marco do moderno movimento pelos direitos homossexuais. Essa lésbica foi agredida por um policial com um cassetete, o que a deixou sangrando, e reagiu desferindo um soco em quem a atacara. Foi algemada e arrastada para o camburão, mas conseguiu se desvencilhar várias vezes, em uma luta que durou 10 minutos. Enquanto era arrastada definitivamente para o veículo da polícia, virou-se para a multidão, aglomerada em frente ao bar, e bradou: “Por que vocês não fazem alguma coisa?” Assim que um policial conseguiu empurrá-la para o banco detrás do camburão, a multidão respondeu à sua pergunta se tornando uma turba incontrolável. Nascia um momento histórico.

25 homens e uma garota chamada Stormé DeLarverie

A identificação dessa sapata que incitou a multidão à luta é matéria sujeita a disputas, mas prevalece a versão de que ela tenha sido Stormé DeLarverie. DeLarverie era uma lésbica mestiça (ou negra, pelos padrões americanos) nascida em 1920, em Nova Orleans, filha de mãe negra e pai branco, que seguiu carreira artística como cantora, apresentadora e mestre de cerimônias, apresentando-se nos palcos do Apollo Theather e Radio City Music Hall.

Stormé DeLarverie, como drag king, entre as drags queens da trupe The Jewel Box Revue

Fez a princípio o modelito feminino, como cantora, mas se destacou mesmo foi atuando, durante os anos 50 e 60, como drag king, com a trupe The Jewel Box Revue. Foi a única mulher do grupo formado basicamente por homens. Isso numa época em que fazer cross-dressing era ilegal, e as pessoas podiam ser presas por não usar roupas do “gênero apropriado”. O grupo se identificava como personificadores de mulheres e homens (female and male impersonators) e impressionistas femininos ou imitadores de mulheres (feminine impressionists and femme mimics).

Os maiores personificadores de mulheres do mundo

Stormé DeLarverie nunca buscou crédito como catalizadora de um movimento histórico, mas muitas pessoas a apontaram como a legendária lésbica que conclamou lésbicas, gays e drags à ação. Muitas lembraram também das palavras que gritou com todas as forças para a multidão e que incitaram a rebelião de Stonewall. Quando entrevistada para o livro de Charles Kaiser “The Gay Metropolis: The Landmark History of Gay Life in America (1997)”, DeLarverie relembrou o soco que deu no policial que a agrediu e das palavras que endereçou à multidão.

Por essa razão, entrou para a História como a Rosa Parks da comunidade homossexual, uma honrosa referência à costureira negra que se recusou a ceder seu lugar para um branco, em um ônibus, foi presa e fichada por isso e, com seu gesto de resistência, desatou um boicote à companhia de ônibus que a discriminara, boicote, por sua vez, deflagrador do movimento pelos direitos civis dos negros americanos. No caso do movimento pelos direitos homossexuais, exatamente um ano depois de Stonewall, em 28 de junho de 1970, foi organizada a primeira parada do orgulho de gays e lésbicas, partindo de um ponto de concentração entre a Sixth Avenue e a Waverly Place. Muitas outras se seguiram nos EUA. Hoje, há paradas pelos direitos homossexuais em todo o mundo.

Após deixar a carreira artística, Stormé DeLarverie também serviu à comunidade lésbica, por décadas, como vigilante voluntária das ruas onde se situavam os bares lésbicos em Nova York. Foi também porteira de muitos deles. Ela patrulhava esses locais para – como dizia afetuosamente – manter suas garotas seguras. DeLarverie era andrógina, alta, bonita e andava (legalmente) armada. Trabalhou como vigilante até os 80 anos, quando se aposentou no início dos anos 2000. Apesar de sua importância histórica, Stormé DeLarverie passou seus últimos anos meio abandonada pela comunidade pela qual tanto fez. Morreu dormindo, no Brooklyn, no dia 24 de Maio de 2014, mas estará sempre viva em nossas memórias como a legendária lésbica que deu início à rebelião de Stonewall.

Stormé DeLarverie
Notas 

1.Alguns depoimentos afirmam que, ainda dentro do bar, outras sapatas já teriam saído no braço com a polícia antes da icônica lésbica ter sido arrastada para o camburão. 

2. Ativistas transgênero vêm dizendo ter sido trans as pessoas que iniciaram a rebelião de Stonewall (sic), mas trata-se de fabulação. No famoso bar, havia lésbicas e gays, sendo que alguns eram drag kings e queens. O termo e sobretudo a "identidade trans" só entram em circulação no mercado das ideias a partir da década de 90. Como se pode observar pelas imagens, mesmo em drag, eles se definiam como homens e mulheres e como personificadores de mulheres e homens e não como trans.

Fontes: Stonewall Riots BigBooButch HuffPost


2 comentários:

  1. RICARDO AGUIEIRAS28 de junho de 2017 18:11

    Que vida maravilhosa! Só consigo admirar vidas assim! Belo artigo, há compartilhei.

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  2. Artigo muito bom e interessante. A história precisa ser sempre revelada. As ações de pessoas comuns e corajosas mudam o mundo.

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