Livro para conversar sobre a saúde sexual de lésbicas e bissexuais

quarta-feira, 13 de março de 2019 0 comentários

Larissa Darc é autora do “Vem cá: vamos conversar sobre a saúde sexual de lésbicas e bissexuais”
 | Foto: Paloma Vasconcelos/Ponte Jornalismo

O que nasceu para ser um trabalho de conclusão de curso de jornalismo, se tornou um projeto de vida. A autora do livro ‘Vem cá: vamos conversar sobre a saúde sexual de lésbicas e bissexuais’, Larissa Darc, 21 anos, conta como foi o processo de pesquisa investigativa sobre o tratamento do atendimento ginecológico para mulheres que amam mulheres.

Quando começou a pensar no livro, Larissa ficou dividida entre três temas: educação, periferia e sexualidade.
Na hora de decidir, eu pensei em fazer algo sobre sexualidade. Quando peguei o recorte LGBT, percebi que mesmo dentro do meio as mulheres lésbicas e bissexuais ainda são marginalizadas. Como Angela Davis, que eu usei como fundamentação teórica, diz: a gente precisa compreender que existem diversos tipos de opressão. Um homem gay vai sofrer opressão por ser um homem gay e uma mulher lésbica vai sofrer opressão tanto por ser lésbica quanto por ser mulher”, defende a jornalista.
A ideia inicial do livro era falar sobre mulheres que amam mulheres, abordando temáticas como saúde, educação e diversos outros temas que permeiam a vida de mulheres lésbicas e bissexuais. Mas, quando começou a pesquisar sobre o campo da saúde, Darc reparou que sua visão precisava mudar um pouco.
Encontrei tanta coisa, encontrei tanto relato e a falta de informação prévia pra fundamentar o capítulo, que eu percebi que era aquele o meu tema. Eu tinha muito medo de ir a fundo nesse tema, mas era aquele tema”, assegura.
Esse medo, explica a autora, vem do tabu que é falar sobre sexo entre mulheres na sociedade. “Sou uma mulher, jovem, queria falar sobre sexo e era sobre sexo entre vaginas. Tive muito medo de entrar nesse assunto e atrelar meu nome a esse assunto porque eu venho de uma família que não conversa abertamente sobre sexo. Sexo lésbico é um tabu ainda maior e falar sobre esse tema é um assunto muito pessoal porque eu sou uma mulher bissexual. Então, eu não escreveria só sobre outras pessoas, tanto que no livro eu me coloco muito em primeira pessoa, pois é um tema pessoal. O livro começa com um relato meu de uma situação que eu passei em um consultório médico em 2015”, conta.

Como um convite para um diálogo, o nome do livro é uma referência ao “ponto G” da mulher. “Esse movimento é quando a gente introduz um dedo no canal vaginal e faz o movimento do ‘vem cá’, com isso a gente consegue alcançar o ponto G”, explica a autora. As cores da capa são inspiradas na composição da bandeira lésbica.

Depois de definir o recorte, Larissa se deparou com um problema: a falta de especialistas sobre o assunto.
Como o principal ponto do livro é o despreparo dos profissionais em lidar com mulheres que não transam com caras, ou que transam com caras e com meninas, foi muito difícil achar profissionais. No meio do processo, eu dei um recorte e decidi falar só com mulheres, então todas as entrevistas são com mulheres. Por isso, quando eu comecei a procurar médicas que atendiam meninas lésbicas e tinham propriedade pra falar sobre o assunto, não queria alguém que não entendesse do assunto, pois li algumas reportagens e tinha entrevistas com médicas que não faziam ideia do que estavam falando, elas falavam para as meninas usarem plástico filme durante o sexo, sendo que não foi feito para isso”, explica.
Quando começou a conversar com médicas especialistas na saúde sexual de mulheres que se relacionam com mulheres, a autora descobriu que a falha no atendimento começa na faculdade.
As faculdades de medicina não formam os médicos para nada que não é heteronormativo [relacionamentos pessoas heterossexuais como padrão social], isso exclui tanto gays quanto lésbicas. Uma das médicas me falou que em algum momento da faculdade deram uma cartilha para ela sobre sexo gay e ponto. Então eles não falam nada do que foge do heteronormativo. Quando elas vão fazer a residência médica em ginecologia, as boas residências são em obstetrícia, que é pra cuidar de mulheres grávidas, então não existe preparo nenhum”, explica.
De contrapartida, encontrar histórias de descaso e despreparo médico foi fácil. Um dos casos contados é o de Cris Cavalcante, sobrevivente de um câncer descoberto em estágio avançado, quando já estava do tamanho de uma bola de futebol americano. O motivo da demora do diagnóstico foi a negligência médica: os médicos que atenderam Cris não quiserem realizar os exames por ela ser lésbica e não ter tido relações com homens.
Foi a primeira vez eu fiz uma apuração e não tive desafio. Eu postava em qualquer grupo de mulheres lésbicas perguntando se alguma delas já tinha tido algum problema com atendimento ginecológico e vinha uma enxurrada de relatos. Eu tive que escolher os relatos que mais me impactaram”, relembra Larissa.
Uma das descobertas da autora, durante o processo de produção do livro, são as ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis) que mulheres lésbicas e bissexuais estão vulneráveis a contrair por não existir um método de prevenção ou proteção durante o sexo.
Depois do livro, eu fiquei pensando bastante sobre ações que já podem ser feitas, já que não existe nenhum dispositivo de proteção de IST entre lésbicas. Existe a camisinha, que serve para relação com pênis, tanto a masculina quanto a feminina, e só. E nenhuma das duas se adapta perfeitamente à relação sexual entre mulheres. Seria legal fazer alguns estudos, mas isso leva tempo”.
Mesmo com diferença no atendimento particular e público, como explica Larissa, o sistema ginecológico de modo geral não está preparado para atender mulheres lésbicas e bissexuais.
No SUS, além do exame ser bem mais curto, você não sabe quem é o médico que vai te atender, se ele é bom ou não, e tem a questão da demora. Na primeira vez que eu fui ao médico, que é a primeira vez que eu conto no livro, demorou muito para me atenderem, eu estava com um corrimento e não sabia o que era, precisei ir num farmacêutico que minha mãe confiava, falar os sintomas, ele presumir que era uma determinada infecção, me passar o antibiótico e eu dei sorte de ter dado certo, mas podia ser uma infecção que me desse alguma consequência. Depois eu fui em uma médica particular, que me atendeu super bem, mas até hoje eu tenho dúvidas se ela me atendeu bem porque eu já tinha tido relações com homem ou por que ela era particular”, detalha a autora.
Apesar disso, Larissa assegura que a melhor alternativa para a saúde dessas mulheres ainda é o atendimento ginecológico.
Eu sei que a violência que elas sofrem é uma realidade comum e constante, mas tem algumas coisas que podem aliviar boa parte do sofrimento. Pessoas que já fizeram papanicolau sabem que é bem incômodo quando se coloca o espéculo, que é aquele instrumento que se usa para dilatar a entrada da vagina para poder coletar o material, mas ninguém fala que existem tamanhos diferentes – então há tamanhos menores que podem ser usados por mulheres lésbicas, que tem tamanho de um dedo”, explica.
O livro, feito por mulheres para mulheres, será lançado em São Paulo em março. A autora garante que o objetivo é trazer à tona a discussão para, assim, estimular mulheres lésbicas e bissexuais de se atentarem à saúde sexual. “Eu espero que esse livro chegue nas pessoas para que elas comecem a pensar nisso e conversar sobre isso. O livro não traz nenhuma resposta definitiva pois é uma reportagem. Se a gente não estiver pela gente mesmo não vai ser eles que vão estar. Se a gente não pensar em formas de melhorar o atendimento médico, em formas de criar dispositivos de proteção, em formas da gente cuidar da gente mesmo, eu tenho certeza de que não vai ser o governo que vai fazer isso”, defende Larissa.

Data: 19 de março; Horário: 19h30
Local: Livraria Tapera Taperá – Av. São Luís, 187 – República, 2º andar, loja 29 – SP

Fonte: Ponte (direitos humanos, saúde, segurança pública), por Paloma Vasconcelos, 03/03/2019

Ver também Cartilha Prazer Sem Medo (saúde e sexualidade para lesbianas) 

Penhora parcial de salário de bancária para quitar indenização por homofobia

segunda-feira, 11 de março de 2019 0 comentários



Juíza de Belém autoriza penhora parcial de salário para quitar indenização por homofobia

Com base em precedentes do Superior Tribunal de Justiça, que afirmam que o salário pode ser penhorado se medida não afetar subsistência, a juíza Andréa Cristine Corrêa Ribeiro, da 3ª Vara do Juizado Especial Cível de Belém, autorizou a penhora de 10% do salário líquido de uma bancária condenada a indenizar um homossexual após ofendê-lo no Facebook.

O caso teve início em dezembro de 2011, quando a mulher começou a ofender o rapaz que namorava um sobrinho dela. Em mensagens privadas, ela afirmou, entre outras coisas, que a homossexualidade era doença, que não seria possível ser cristão e homossexual, e que eles deveriam ser "queimados em praça pública".

Inconformado com os repetidos ataques, o rapaz entrou com ação pedindo que ela fosse condenada a indenizá-lo, além de estabelecer uma multa caso ela volte a ofendê-lo. O jovem foi representado pelo advogado Hugo Leonardo Pádua Mercês (foto).

A sentença reconheceu a prática de homofobia e condenou a mulher a indenizar o rapaz em R$ 8 mil.
Está evidente nos autos que a promovida escolheu as piores palavras para humilhar, denegrir, xingar e ridicularizar o promovente. A postura da promovida foi ainda além, pois que prega de modo claro e inequívoca a violência física, o homicídio pela simples opção homossexual do promovente", diz a sentença.
Após recurso, a Turma Recursal Permanente ainda aumentou o valor da indenização para o teto de 40 salários mínimos vigentes na época da ação, o que corresponde a R$ 24,8 mil.

Porém, apesar da condenação, o valor não foi pago pela bancária. A Justiça chegou a determinar a penhora de bens, mas nenhum foi localizado. Foi então que o advogado Hugo Mercês pediu a penhora de 30% do salário da empregada pública, conforme precedentes do STJ que autorizam a penhora parcial de salário.

Ao julgar o pedido, a magistrada autorizou a penhora parcial, mas de apenas 10% a ser depositado em conta judicial até quitar o valor da condenação que, com os juros, já ultrapassa R$ 50 mil

Na decisão, a juíza explicou que autorizar a penhora de 30% do salário prejudicaria a subsistência da bancária. Isso porque, apesar de ela ganhar R$ 7,6 mil brutos, o salário líquido é de R$ 3,6 mil.
Analisando o caso concreto, verifico que, apesar do salário da requerida ser razoável, o mesmo encontra-se comprometido com diversas despesas, de modo que a mesma percebe pouco mais da metade deste valor", concluiu a juíza.
Clique aqui para ler a decisão.
0003246-87.2012.814.0302

Fonte: Jornal Portal, por Rodrigo Monteiro, 09/03/2019

Ana e Paula inventaram juntas uma paixão na terceira idade

sexta-feira, 8 de março de 2019 1 comentários

Ana Teixeira conversa com Sarah Oliveira em O Nosso Amor a Gente Inventa

A Ana demorou pra acreditar no amor que a Paula inventou por ela. Ainda bem que a Paula tinha certeza do que estava imaginando e esperou. Ana e Paula inventaram juntas não só uma paixão mas uma família inteira. Duas avós que se amam e um mundo onde afeto e respeito são a regra.

Amar é um ato revolucionário, sempre foi. Às vezes dá certo, às vezes dá errado, não importa: fundamental é viver uma história de amor – e sobreviver para contá-la, claro. No programa O Nosso Amor a Gente Inventa, a apresentadora Sarah Oliveira sai em busca de narrativas amorosas que marcaram a vida de pessoas comuns. Com direito a música-tema – Eu te Amo Você, de Kiko Zambianchi – interpretada por Mariana Aydar e direção de Vera Egito.


Fonte: Hysteria, 03/03/2019

Proibida de usar banheiro feminino, por aparência masculina, lésbica processa Makro

quarta-feira, 6 de março de 2019 0 comentários

Thais Cyriaco teve de usar o banheiro masculino por cinco meses mesmo sendo mulher

Chefe proíbe lésbica de usar banheiro feminino e a chama por nome de homem

A auxiliar de limpeza Thais Cyriaco, 30, foi obrigada a usar o banheiro masculino do supermercado onde trabalha, em Campinas, no interior de São Paulo, por cinco meses.
Eu sou mulher, mas uma promotora do supermercado me viu no banheiro feminino e reclamou com a gerente de Recursos Humanos. No dia seguinte, minha supervisora me procurou e disse: 'Já que você parece homem, vai ter que usar o banheiro masculino'. Eu retruquei. Disse que era mulher e que não queria, mas ela foi irredutível".
No mesmo dia, a mesma supervisora, segundo a auxiliar de limpeza, passou a chamá-la por um nome masculino: Thalisson. Ela relembrou a chefe que seu nome, na verdade, é Thaís, mas foi em vão. "
Ela ignorava quando eu pedia que me chamasse pelo meu nome. Eu ficava muito chateada, mas não era mais incisiva por medo de perder o emprego".
A funcionária conta que dois colegas procuraram a supervisora na tentativa de ajudar Thaís.
Um homem disse que se sentia desconfortável comigo no mesmo vestiário que ele. Ela ignorou. Depois, uma colega a corrigiu quando a chefe me chamou de Thalisson. Ela, de novo, ignorou. Minha colega me perguntou o porquê de ela errar, propositalmente, meu nome. Eu fiquei sem graça, não sabia a resposta".
Thaís entrou com um processo contra a rede de supermercados, onde ainda trabalha. Tanto ela como os colegas se sentiam constrangidos ao entrarem no banheiro e, para evitar situações embaraçosas, Thaís passou a não se trocar no trabalho.
Eu vestia uma roupa para ir trabalhar e, quando chegava lá, colocava o uniforme por cima. Passava calor, mas não importava, eu não queria entrar naquele vestiário cheio de homens".
Na hora de usar o banheiro, ela conta que sentia medo.
Tentei poucas vezes, mas desisti. Eu me sentia péssima. Evitava ao máximo. Passava o dia com vontade de fazer xixi, mas tentava aguentar até em casa. Quando ficava impossível, corria para o banheiro adaptado e rezava para que estivesse vazio. Foram cinco meses de sofrimento".
A proibição só foi suspensa na última semana de fevereiro, depois da abertura do processo. Mas, apesar de estar autorizada a voltar a utilizar o banheiro feminino, Thaís conta que não houve um pedido de desculpas nem explicações.
Todo mundo me olha torto. A situação só piora".
Thaís relembra que, quando a chefe a informou da proibição, disse a ela que não se tratava de preconceito.
É claro que é, de que outra forma eu posso encarar isso? Já tive vontade de chorar várias vezes. Minha mulher percebeu o quão triste eu estou com tudo isso. Ficou puta, queria ir até o mercado tirar satisfações. Eu que não deixei".
Outro lado

Procurada pela reportagem, a rede de supermercados Makro afirma que está apurando o caso.
O Makro informa que tão logo recebeu a informação da liminar, iniciou uma apuração para esclarecer e elucidar os fatos. A rede esclarece que a funcionária terceira Thais de Paula Cyriaco, contratada de uma empresa que presta serviço de limpeza à loja de Campinas, solicitou ao seu empregador que fosse tratada pelo gênero masculino, adotando o nome de Thalyson. O Makro foi comunicado deste posicionamento pela empresa terceirizada e, alinhado com seus valores de respeito à diversidade e à inclusão, imediatamente apoiou a decisão pessoal da funcionária, assim como sua escolha em utilizar o banheiro que melhor refletisse sua identidade de gênero. De acordo com seu código de conduta, o Makro não admite qualquer tipo de discriminação ou preconceito e reitera que acatou de imediato a decisão da liminar. Como parte dos seus valores e de sua política, a rede reforçará seu posicionamento junto aos funcionários e quadro de fornecedores, enquanto avança nas investigações mediante os novos fatos apresentados."

Fonte: Universa, por Talyta Vespa, 26/02/2019


Entrevista com a ativista Micky Beula, de Moçambique, onde a homossexualidade deixou de ser crime

segunda-feira, 4 de março de 2019 0 comentários

Micky Beula e companheira - Foto: Arquivo pessoal

'A homossexualidade já não é crime em Moçambique'
Entrevista com a ativista lésbica Micky Beula, da Beira/Moçambique
A organização LGBT Lambda Moz (“Energia Positiva“ em grego) foi fundada em 2006 e continua a lutar pelo seu reconhecimento formal, uma vez que uma organização que advoga pelas minorias sexuais é considerada, pelo governo moçambicano, "incômodo público e imoral". Infelizmente, não é raro que as famílias contratem homens para estuprar familiares lésbicas, a fim de colocá-las "no caminho certo”. Ou "expulsar" a sua orientação sexual com espancamentos e privação de comida.

Micky Beula, de 39 anos, é lésbica e ativista LGBT, vive em relação estável com Vanussa, há 10 anos. Ela trabalha na Beira. Nesta entrevista para Heike Friedhoff, Micky conta como descobriu sua sexualidade, como a sociedade moçambicana reage aos homossexuais e como ela advoga, enquanto ativista da Lambda, pelos direitos LGBT.
Micky Beula

H: Quando e como você despertou para a sua sexualidade?
M: Aos nove anos percebi que era diferente, mas naquela época não se falava abertamente sobre orientação sexual, porque era um tabu e ninguém conseguia me explicar o que significava que eu gostasse de garotas e gostasse de fazer coisas que especialmente meninos gostam, como jogar futebol e andar sem camiseta. Observei as meninas e devorei seus corpos com os olhos, mas não ousei dizer nada. Eu realmente gostei de uma garota do bairro e ela foi a primeira que eu beijei. Para mim, ela era minha amante, mas para ela era uma piada e eu não passava de uma amiga. Eu aceitei isso para poder continuar a beijá-la. Ela ainda é minha amiga e diz que me admira por ter tido a coragem de seguir meu coração e me esforçar para ser quem realmente sou.

No começo minhas irmãs eram as únicas com quem eu podia conversar e elas me explicaram que eu era lésbica porque me sentia atraída por mulheres. No início, mantive minha orientação sexual em segredo frente ao resto da minha família. Só mais tarde, com a ajuda de minhas irmãs, contei a verdade aos meus pais e irmãos, e não foi fácil para eles aceitarem.

Eu fui discriminada na escola e as outras crianças me identificaram a palavras “feias” como "Maria menino". No começo, eu pensei que estavam fazendo isso porque eu me vestia como um garoto e gostava de jogar futebol, mas depois percebi que também estavam me discriminando por causa da minha orientação sexual. Entre a 8ª e a 12ª série, muitas vezes pensei em largar a escola porque não aguentava mais estar sendo constantemente insultada com palavrões e estar sendo atacada. Mas eu lutei e terminei meus estudos.

H: Como é hoje? A sociedade moçambicana aceita pessoas com uma orientação sexual diferente?
M: Até hoje, existem tabus e discriminação contra os LGBT e a maioria da sociedade é homofóbica e não considera outra orientação sexual como algo normal. Eles acham que somos possuídos por espíritos malignos e precisamos passar por uma limpeza espiritual para sermos libertados desses maus espíritos.

Eu sou uma mulher forte e invencível e muito clara sobre a minha orientação sexual, mas se eu não tivesse encontrado alguém como eu no movimento LGBT, eu não sei como eu iria suportar a discriminação cotidiana. A minha família agora aceita a mim e a minha parceira, mas ainda há problemas com a família da Vanussa, com quem estou há mais de 10 anos. Por exemplo, quando as celebrações familiares acontecem, Vanussa recebe um convite como solteira. Eles ignoram que somos um casal. Nós não iremos a tais eventos se não formos ambas convidadas.

Casais de mulheres de Moçambique


HF: Você já foi vítima de violência por ser lésbica?
MB: Felizmente, nunca experimentei violência física, mas a violência psicológica e verbal é frequente. As pessoas olham para você pejorativamente ou fazem comentários que doem muito, como se isso fosse normal. Eu luto contra os preconceitos diariamente.

H: Desde quando você é ativista LGBT e como chegou a este engajamento?
M: Em 2005 comecei a me envolver como ativista porque sentia a necessidade de aprender mais sobre mim mesmo e porque queria me engajar para que um dia sejamos aceitas integralmente e possamos exercer os nossos direitos como todo mundo. Eu vi que as preocupações de outros ativistas também são minhas preocupações. Desde 2014, trabalho na organização LGBT Lambda e sou coordenadora do Centro de Moçambique.

H: Quais as conquistas que a Lambda e o movimento LGBT já conseguiram alcançar em Moçambique?
M: Nossa maior conquista é que a homossexualidade não é mais considerada um crime e que isso foi removido do código penal. Hoje, a homossexualidade é uma orientação sexual.

Lambda também lutou muito para não rotular as pessoas LGBT com nomes pejorativos. Hoje já existe uma lei do trabalho que diz, que todo aquele que discriminar uma pessoa por causa da sua orientação sexual será julgado e condenado. O fato de que hoje, por exemplo, podemos dar palestras em escolas e de que existem pessoas e organizações que também se identificam com a nossa causa são grandes conquistas para nós.

Através da existência da Lambda, mais pessoas LGBT encontraram a coragem de assumir abertamente a sua orientação sexual. Há também casais LGBT que adotaram crianças e a Ação Social motiva outros casais homossexuais a adotarem também, pois tiveram boas experiências. Por mais de 10 anos, Lambda vem lutando pela sua legalização e até ao final do ano retrasado conseguimos um sucesso parcial nesse processo, já que o Conselho Constitucional de Moçambique afirmou que se recusar a legalizar a Lambda é ilegal. Esperamos que o processo possa progredir agora.

H: O que você deseja para o futuro? Você tem um sonho?
M: Eu gostaria de ver os direitos humanos da comunidade LBGT em Moçambique reconhecidos e quero ser respeitada e exercer os meus direitos como qualquer outra/o. Meu sonho é casar e fazer um cruzeiro com minha esposa Vanussa e conhecer o mundo. E gostaria de ser conhecida como uma das pessoas que advoga pela visibilidade e pelos direitos das pessoas LGBT em Moçambique.

H: Você quer fazer um comentário final?
M: Seria ótimo ter contatos com organizações LGBT em outros países e trocar ideias com elas, por exemplo, sobre o problema da legalização e que estratégias podem ser tomadas para alcançá-la. Ou como conseguiram passar leis como o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Seria muito útil para nós aprendermos e nos beneficiarmos das experiências de outros países.

Fonte: Folha de Pernambuco, Mulheres em Movimento (Carla Batista), por Heike Friedhoff,  25/02/19

Shopping Metrô Tucuruvi condenado a indenizar casal de mulheres impedidas de dar "selinho' no local

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019 0 comentários

Foto: Reprodução / Pheeno

Shopping é condenado a indenizar lésbicas impedidas de darem 'selinho' no local
Segundo o parecer do magistrado 'as autoras, foram expostas a situação vexatória, em público,simplesmente por conta da sua orientação sexual'

A justiça de São Paulo condenou o Shopping Metrô Tucuruvi a indenizar um casal de mulheres que foi impedido por um segurança do shopping de dar um selinho dentro das dependências do local. O caso foi exposto no Facebook por Bruno Ruiz Segantini, um amigo de Marjorie e Thamires.

O casal caminhava pelo estabelecimento quando trocaram o selinho, assim como qualquer outro casal hétero. Foi então que um segurança as abordou e exigiu que as duas não fizessem aquilo ali. Indignadas com a atitude preconceituosa do rapaz, elas entraram com um processo contra o shopping.

O juiz deu parecer favorável às reclamantes e pediu ao shopping o valor de uma indenização sem prejuízo de apuração criminal. O valor da sentença não foi revelado. Por ter tramitado em julgamento, a decisão não cabe mais recursos.
De fato, as autoras, foram expostas a situação vexatória, em público, simplesmente por conta da sua orientação sexual, sendo presumíveis a dor, humilhação, frustração e raiva que sentiram, situação que ultrapassa, e muito, o mero aborrecimento”, disse o juiz na conclusão do veredicto.
Fonte: Top Mídia News, 21/02/2019

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