São Paulo, uma das cidades mais LGBT do mundo

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013 2 comentários


Como hoje é aniversário de São Paulo, além de parabenizá-la, vale lembrar que, no ano passado, ela foi eleita, por uma pesquisa do portal GayCities.com, em parceria com a companhia aérea American Airlines, um dos melhores destinos gay friendly - receptivo ao público LGBT - em todo o mundo. Na época, a capital paulista apareceu em quarto lugar, com 6% dos votos. Tel-Aviv (43%), em Israel, ficou no topo da lista. Nova York (14%), nos Estados Unidos, ficou em segundo lugar. Em seguida, vem Toronto (7%), no Canadá. Madri e Londres ficaram em quinto lugar, com 5% dos votos.

A pesquisa também avaliou outros oito quesitos das cidades, entre eles melhor gastronomia, moda e vida noturna. São Paulo foi citada novamente no quesito "Cidade do Orgulho Gay". Ficou em segundo lugar, com 12% dos votos, atrás de São Francisco, nos Estados Unidos, que liderou a lista, com 29% das citações.

Naturalmente, o título Cidade do Orgulho Gay se deve a Parada do Orgulho LGBT que atrai turistas tanto de outros estados do Brasil como do exterior (49,8% de outros Estados  e 2,1% de estrangeiros, de acordo com o Observatório do Turismo da Cidade da SPTuris).  Boa parte dos turistas de outros países é dos Estados Unidos, Inglaterra, África do Sul e Itália. Segundo pesquisa feita pela SPTuris, os turistas LGBT são atraídos principalmente pelo entretenimento e pelas compras. 

Também, segundo  Associação Brasileira de Turismo para Gays, Lésbicas e Simpatizantes (Abrat-GLS), o roteiro cultural de São Paulo também é outro dos grandes atrativos para homossexuais, por ser repleta de museus, teatros e cinemas.

Vamos registrar ainda que São Paulo é candidata a sediar os Gays Games de 2018 pelo Brasil. No site dos organizadores dos Gay Games, você pode descobrir como apoiar a ideia dos jogos em nossa Sampa querida. Acesse o site e sua página no Facebook e saiba como.

Falta agora dar mais segurança aos LGBT nas ruas da cidade, pois tem havido alguns casos de agressões a gays extremamente lamentáveis, inclusive em pontos considerados nobres da cidade, como Pinheiros (vide caso recente envolvendo André Baliera). Mas ainda chegaremos lá!

Para um roteiro LGBT de Sampa, clique aqui. E (re)veja o vídeo abaixo, que apresenta São Paulo, como a cidade da diversidade, o que ela é mesmo.

Pelo direito de criticar o "homossexualismo"

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013 3 comentários

Projeto assegura a líder religioso liberdade de criticar homossexualismo


A Câmara analisa o Projeto de Lei 4500/12, do ex-deputado Professor Victório Galli (PMDB-MT), que garante a liberdade de expressão religiosa quanto a questões envolvendo a sexualidade. De acordo com a proposta, os líderes religiosos poderão ensinar a doutrina professada pela sua igreja quanto à sexualidade, de acordo com os textos sagrados.

Victório Galli afirma que o objetivo da medida é assegurar o direito constitucional de livre manifestação do pensamento. O temor é de que o projeto de lei que criminaliza a homofobia (PLC 122/06, que tramita no Senado) possa vir a prejudicar o ensino religioso de que o homossexualismo é pecado. Segundo o autor, se o PLC for aprovado, o líder religioso que ensinar que o homossexualismo é pecado correrá o risco de ser preso.

Victório Galli
“O cerceamento da liberdade de expressão durante a realização dos cultos representaria interferência indevida do poder público na atividade das igrejas, impedindo o pleno funcionamento dessas cerimônias e rituais religiosos, em ostensiva violação do mandamento constitucional”, diz Victório Galli.

Tramitação

A proposta tramita em conjunto com o PL 6314/05, que será votado pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) e pelo Plenário.

Íntegra da proposta: 

Reportagem – Oscar Telles
Edição – Pierre Triboli

Fonte: Agência Câmara Notícias 23/01/2013 (Clique no link da Agência para votar na enquete sobre esse projeto)

Em Vale Tudo, censura vetou falas de lésbicas, mas liberou maconha

0 comentários

Laís e Cecília, na novela Vale Tudo, sem final feliz

Agora que está para estrear uma nova novela com um casal de mulheres, onde uma delas inclusive se chama Odete Roitman, a vilã da novela Vale Tudo, vale a pena lembrar que, nessa história também havia um casal de lesbianas, um dos primeiros a aparecer na telinha e que, como de praxe na época, acaba separado pela morte de uma das parceiras.

No texto abaixo, do site 180 graus, especula-se se Cecília teria sido morta por pressão da censura. Ao fim dos texto, vídeo com cena das namoradas na novela Vale Tudo.

Teria Cecília (Lala Deheinzelin) sido morta por pressão da censura, como se especulou durante anos?

Além do assassino da vilã Odete Roitman (Beatriz Segall), a novela "Vale Tudo" (1988) deixou alguns outros mistérios a serem resolvidos quando terminou como um sucesso de audiência e de crítica em janeiro de 1989. Um deles é sobre o casal de lésbicas da trama. Teria Cecília (Lala Deheinzelin) sido morta por pressão da censura, como se especulou durante anos?

Durante a pesquisa feita nos arquivos da Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP) em Brasília, pôde se constatar que os autores Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Básseres estavam falando a verdade quando disseram que a morte de Cecília já estava prevista desde o início da novela.

De acordo com o perfil do personagem enviado aos censores, Cecília tinha "45 anos, bonita, simpática, irmã de Olivério [esse era o nome provisório do personagem Marco Aurélio, interpretado por Reginaldo Faria]. Mora há 15 anos com uma amiga, Fátima [esse era o nome provisório de Laís, vivida por Cristina Prochaska]. As duas têm uma pousada em Búzios e vivem lá. [...] Morre por volta do capítulo 50. Participação especial."

A subtrama pretendia discutir uma questão que ainda não foi totalmente resolvida no Brasil: quem tem direito à herança quando um dos integrantes de uma relação homossexual morre? Na novela, Laís acabou herdando a pousada, embora Marco Aurélio, por pura ganância, quisesse tomar conta da herança que, por lei, lhe era de direito.

Mesmo assim, os censores ficaram de olho no desenvolver da história. Nos arquivos de "Vale Tudo", é possível encontrar diálogos inteiros a respeito do assunto que foram veementemente vetados. Em outro desdobramento da história, especulava-se sobre a homossexualidade de Tiago (Fábio Villa Verde). Ele era filho de Heleninha (Renata Sorrah) com Marco Aurélio e sofria com as pressões do pai machista. O personagem, no entanto, não era gay. Apenas era mais sensível que outros meninos e iniciaria sua vida sexual com sua namorada também virgem.

Em um das cenas vetadas, Cecília e Laís perguntam a Heleninha (Renata Sorrah) se ela aceitaria que se seu filho Tiago fosse homossexual. Categórica, a personagem que se tornou notória por seus porres na novela, responde que só queria que seu filho fosse feliz.

Em outro diálogo, a mesma Heleninha comenta com Ivan (Antonio Fagundes) que não sabe se pode chamar isso [a suposta homossexualidade do filho] de problema. Em ofício do dia 21 de julho de 1988, o diretor da DCDP, Raymundo Eustáquio de Mesquita, justifica o corte da cena.

"A fala da personagem Helena não mostra apenas ‘um desabafo de mãe’, mas apresenta um desvio de comportamento de forma absolutamente natural, isento de problemas, o que sabemos está longe de corresponder à realidade."

Cristina Prochaska, a Laís, conversou com a reportagem sobre o episódio. Segundo ela, as cenas escritas sugeriam que as atrizes demonstrassem intimidade, mas que o clima de autocensura nos bastidores era maior.

"A gente era levada a fazer a cena com sensualidade menos evidente para evitar uma censura maior. Lembro de ter lido cena de beijo na boca, selinho, mas não lembro de ter gravado. O público, no entanto, torcia pela Laís. Diziam que sentiam muito e que o direito da herança era ‘meu’. A Laís conquistou o público porque era uma fofa, não era uma sapatão maluca."

Maconha e cacofonia

O rigor dos censores no corte de cenas era outro dos mistérios de "Vale Tudo". Por exemplo, nos diálogos de Marco Aurélio e de César (Carlos Alberto Riccelli), dois personagens amorais da trama, os autores sempre colocavam a interjeição "porra!" ao início ou ao fim da fala. A censura ia lá e cortava. "Puta", "piranha" e "bicha" também não eram toleradas. A linguagem vulgar tinha a intenção de sublinhar o mau caráter de ambos.

Os autores então, por pura provocação, apelaram para a cacofonia para driblar a tesoura. Não adiantou. Em um dos laudos, os censores exigem corte das falas de Poliana (Pedro Paulo Rangel) em que ele diz: "Pô... Raquel... Pô... Raciocina..."

"Foi a época mais criativa da TV brasileira. Não digo que era uma coisa boa, mas, sob pressão, havia um diálogo permanente com a censura. Do tipo: ‘vamos ver se isso você deixa passar’.", contou o autor Aguinaldo Silva, satisfeito ao saber que pelo menos uma de suas provocações funcionou.

Em uma das cenas da novela, César aparece manipulando um punhado de maconha. Ao fim da cena, seu amigo Olavo (Paulo Reis) diz: "Passa a bola!". A censura não viu problema por não haver close na droga. Aguinaldo Silva explica o porquê da cena: "Ele era michê, estelionatário, ladrão, golpista e não puxava fumo? Colocamos isso para dar mais veracidade ao personagem."

"Vale Tudo" foi a última novela a ser censurada pela DCDP. O órgão foi extinto com a aprovação da Constituição de 1988.

Fonte: 180 graus

Pérola Negra: Ellen Oléria, talentosa e assumida

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013 0 comentários

Ellen Oléria
Seguindo a tradição de que praticamente todas as cantoras brasileiras são lésbicas, embora a maioria não se assuma, a brasiliense Ellen Oléria, vencedora do The Voice Brasil, em dezembro último, cantou, encantou e assumiu sua orientação sexual sem neuras nem sustos. Tanto que suas namorada e mãe foram focadas pelas câmeras da Globo, na plateia do programa, em vários momentos.

Ellen, ganhou prêmio  de R$ 500 mil, carro e direito a gravação de um CD pela Universal que, se depender dela, chegará às lojas ainda neste primeiro semestre de 2013.

A cantora cogita incluir no disco algumas das canções que mais entusiasmaram o público ao longo do programa da Globo, como Maria Maria, Taj Mahal e Anunciação, mas, no geral, promete novidades e um CD festivo e cheio de balanço


Como não podia deixar de ser, além do talento, Ellen Oléria chamou a atenção no “The Voice” por ser negra e homossexual assumida. Em entrevista ao O Globo, de sábado último (19/1), comentou sobre o assunto: 

"- Não sei o que acontece que as pessoas gostam tanto de falar da minha negritude, mas acho maravilhoso. Creio que cabem pra mim todos os rótulos que eu escolher carregar. Sou negra, sou lésbica... E espero que eu possa inspirar as pessoas com essa minha maneira de lidar com as coisas, sejam elas negras ou não, lésbicas ou não."

Esperamos que ela realmente inspire outras lesbianas a seguir sua maneira de lidar com essas coisas. Passa da hora de tratar o assunto de forma natural. E (re)vejam abaixo Ellen cantando Anunciação e uma entrevista dela ao Cadão Volpato, em 2011, no programa Metrópolis, bem antes do sucesso no The Voice, onde seu talento já era reconhecido. 


Com informações de O Globo

Índia proíbe homossexuais de recorrer à barriga de aluguel

terça-feira, 22 de janeiro de 2013 0 comentários

Ativistas homossexuais: cada vez mais casais homossexuais ou solteiros
estrangeiros  recorrem a barrigas de aluguel para se tornarem pais na Índia

Nova Délhi - A Índia proibiu os casais homossexuais e os solteiros estrangeiros de recorrerem à barriga de aluguel no país, indicou um comunicado do ministério do Interior, no qual se especifica que os pais adotivos deverão ser "um homem e uma mulher, casados há ao menos dois anos".

O setor das barrigas de aluguel remuneradas está em pleno crescimento na Índia e cada vez mais casais homossexuais ou solteiros estrangeiros recorrem a elas para se tornarem pais.

As novas regras, transmitidas às embaixadas estrangeiras no fim de 2012, estabelecem que os casais de outros países que desejarem recorrer a uma barriga de aluguel na Índia deverão ser "um homem e uma mulher, casados há ao menos dois anos".

A diretiva também informa que o pedido de um visto autoriza a entrada no país dos pais adotivos de um bebê nascido de uma barriga de aluguel na Índia para evitar que estas crianças depois sejam vítimas de um vazio jurídico.

Os casais também precisarão solicitar um visto médico, e não um visto turístico, segundo as novas regras.

Estas mudanças passaram desapercebidas durante os últimos dias de 2012 e acabam de ser publicadas pela imprensa indiana.

Não se sabe o número de mulheres indianas que atuaram como barrigas de aluguel em troca de remuneração, mas, segundo médicos e especialistas, são cada vez mais. Um projeto de lei está em andamento para regular esta atividade.

Algumas pessoas consideram que a falta de legislação neste âmbito favorece uma economia da barriga de aluguel e facilita a exploração das mulheres mais pobres.

Fonte: Exame via AFP

Moralidades anacrônicas e o histórico fascista da Igreja Católica

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013 0 comentários

Em pacto com a Igreja, Mussolini criou o Estado do Vaticano
 e tornou o catolicismo religião de Estado

Por Míriam Martinho

Ainda na esteira das manifestações contra o casamento LGBT em Paris, segue abaixo entrevista, publicada no Estadão de sábado (19/1), com o sociólogo Ricardo Mariano, sobre a ofensiva da Igreja Católica e outras denominações cristãs (também judias e muçulmanas) contra a modernidade, as liberdades individuais e a isonomia de direitos.

E já que essa instituição nefasta insiste em posicionar-se contra a universalização e a equalização de direitos, cabe a todos os democratas lembrar um pouco o histórico recente da dita. Nem vamos retornar à Idade Média onde a "santa" reinou despoticamente sobre a Europa, dando início ao terror como forma de subjugação dos povos, via torturas e execuções de pessoas - sobretudo mulheres - afogadas ou queimadas vivas em praças públicas.

Lembremos apenas do passado recente desta "santa" e seu apoio, no século passado, ao nazifascismo. Lembremos que foi para simbolizar o pacto entre o Fascismo e a Igreja, que Mussolini assinou o famoso tratado de Latrão, em 1929, criando o Estado do Vaticano e tornando o catolicismo religião de estado. Em retribuição, as associações católicas, com raras exceções, passaram a integrar as organizações fascistas e, em 1932, o papa outorgou ao Duce a Ordem da Espora de Ouro, a mais alta distinção concedida pelo Estado do Vaticano.

Lembremos também que, na Alemanha, em março de 1933, o partido católico Zentrum, liderado por um prelado católico (padre Kaas), votou a favor de dar plenos poderes a Hitler, permitindo que o tirano pudesse atingir a maioria de dois terços necessária para suspender os direitos garantidos pela Constituição alemã. 

Bandeira do Deutschen Christen
Lembremos ainda que Hitler também foi apoiado pela igreja protestante, a ponto dessa igreja criar o movimento nazi-protestante chamado Deutschen Christen liderado pelo pastor Ludwig Müller. Müller e outros religiosos (católicos e protestantes) se tornariam membros do NSDAP (partido nazista). 

O Führer, que se dizia católico, retribuiu a gentileza, tornando obrigatória uma prece a Jesus nas escolas públicas alemãs (como os evangélicos tentam fazer aqui no Brasil), e reintroduziu a frase Gott mit uns (Deus está conosco) nos uniformes do exército alemão.

Hitler saúda padre e o pastor luterano Ludwig Müller

Por fim, ver, ao final da entrevista do sociólogo Ricardo Mariano, um vídeo sobre as ligações da Igreja Católica com o nazifascismo e outros governos autoritários do século passado. Em alguns momentos, é preciso pausar o vídeo para ler o texto (há descompasso entre as imagens e o texto), mas vale a pena.

Não era novidade para mim as intimidades da Igreja com o nazifascismo, mas admito que não sabia de tantos detalhes. Quando disse, em meu texto sobre a marcha dos reacionários franceses, no dia 13 último, que se tratava de uma manifestação fascista, me referia naturalmente ao fato de ser uma manifestação antidemocrática, pois que contra a igualdade de todos perante a lei, contra os direitos de um determinado grupo social.

Fica claro, contudo, por essas informações sobre a relação da Igreja e de pastores com o nazifascismo, que a expressão fascista, no referente à Igreja, tem também um lastro histórico e que a oposição da mesma ao comunismo não se deu pela questão dos direitos humanos, tão infringidos pelos regimes totalitários comunistas, mas sim apenas porque o comunismo atentava contra seus interesses como instituição (os regimes do gênero perseguiram as religiões e os religiosos em geral).

Daí que concluo repetindo mais uma vez o meu mantra: entre socialistas e conservadores, sobretudo religiosos, o páreo é duríssimo para saber quem ganha o prêmio de maior autor de crimes contra a humanidade.

Com informações de CMI Brasil, A cumplicidade da igreja com o fascismo  

‘Moralidades anacrônicas’

Para sociólogo, apesar da resistência da Igreja Católica, a modernidade aponta para novos modelos de família


Hoje não levantam mais os bracinhos,
mas a mentalidade fascista permanece a mesma

Destaque: Recorrem a fantasias delirantes de que, no caso da legalização das adoções por casais gays, a sexualidade dos pais poderá influenciar a sexualidade das crianças, prejudicando-as pela ausência de uma referência de gêneros. Como se não bastasse, acusam, absurdamente, os homossexuais de serem responsáveis pelo aumento dos casos de pedofilia. A partir de preconceitos infundados, leituras bíblicas fundamentalistas, teologias de matiz integrista e moralidades religiosas extemporâneas, defendem a discriminação de pessoas por suas orientações sexuais, propondo publicamente que o Estado as trate de modo desigual. Portanto, opõem-se à isonomia de direitos. Essa é justamente a reivindicação dos movimentos LGBT: igualdade de direitos. Só querem assegurar o direito jurídico de casar e de adotar crianças, como qualquer outra família.

Por séculos, a Igreja Católica lutou contra as liberdades de expressão e de pensamento, contra o princípio da tolerância, contra a modernidade. Mas mudou muito, sobretudo a partir do Vaticano II, ao sucumbir e se adaptar a valores, princípios e instituições da democracia liberal. Nas últimas décadas, seus pendores conservadores falaram alto, ficando obcecados pela defesa da família e da vida. A garantia do Estado laico depende da vigilância e da mobilização política constante por parte dos defensores da laicidade.

Paris parou. Desta vez não foram intelectuais e críticos franceses hasteando incendiárias bandeiras liberais na Champs-Elysées. Foram milhares de manifestantes religiosos - católicos, evangélicos e muçulmanos, entre outros - em marcha contra o casamento gay, que o presidente François Hollande pretende legalizar. “Foi uma reação de diferentes forças da direita francesa - e nada melhor que escolher Paris para conferir visibilidade ao movimento político”, comenta o sociólogo Ricardo Mariano nesta entrevista.

No paralelo, no mesmo domingo, militantes feministas fizeram topless mirando a janelinha de Bento XVI, em Roma. Contra o Angelus que recitava o papa, as ativistas do Femen mostraram corpos ilustrados com provocativos slogans como In Gay We Trust - e foram rapidamente cobertas por policiais e fiéis. “Foi uma resposta, uma provocação. Ali, na sede da Santa Sé, a manifestação não passaria em branco”, diz Mariano. 

Para o sociólogo, a hierarquia eclesiástica católica tem como ideal de modelo familiar o núcleo formado por um casal heterossexual, unido pelo casamento monogâmico, e sob a autoridade masculina. “Mas tal modelo está em rápido declínio. Crescem as uniões estáveis, as famílias monoparentais, os casais sem filhos”, afirma. 
Onze países reconhecem o casamento gay, como Argentina, Bélgica, Canadá, Holanda, Islândia, Noruega e Suécia. No Brasil, desde as rodadas de discussões no Supremo Tribunal Federal em 2011, é reconhecida a união civil homoafetiva. Nos últimos tempos, Estados Unidos e França parecem caminhar nessa linha, para legalizar o casamento gay. “Aos poucos, os políticos estão perdendo o medo de se insurgirem contra moralidades anacrônicas”, continua Mariano, um estudioso das relações espinhosas entre política e religião, e autor de Laicidades em Debate (EdiPUCRS) e de Neopentecostais: Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil (Loyola). De Porto Alegre, ele falou ao Aliás.

Mussolini, com as bençãos de Deus
No domingo passado, uma manifestação massiva contra o casamento gay tomou as ruas de Paris. Isso pode ser interpretado como uma ofensiva da Igreja Católica? 

Foi uma reação que mobilizou diferentes forças da direita francesa - e nada melhor do que escolher Paris para conferir visibilidade a qualquer movimento político reivindicativo. Entre essas forças, a Igreja Católica, zelosa defensora da discriminação estatal das minorias sexuais. Historicamente, as direitas se posicionam contra a universalização e a equalização de direitos. A hierarquia eclesiástica católica e a maioria dos grupos protestantes têm como modelo familiar ideal o núcleo formado por um casal heterossexual, unido pelo casamento monogâmico (que se pretende indissolúvel, pois sagrado), com ou sem filhos, sob a autoridade masculina. Porém, tal modelo está em rápido declínio. Crescem as uniões estáveis, as famílias monoparentais, os casais sem filhos. E as famílias resultantes das mais diversas recomposições de indivíduos divorciados e seus filhos de outras uniões. Além disso, o casamento religioso e civil não é mais o principal vínculo das relações conjugais. Atualmente, o que une os casais são os laços afetivos, independentemente de qualquer rito religioso ou documento. E a área do direito da família, cada vez mais secularizada, tem isso em alta conta. Mas lideranças católicas e evangélicas tendem a considerar legítimos - quer dizer, “normais” e “naturais” - o casamento heterossexual e a família nuclear, que seriam inspirados por Deus. Salvo algumas exceções (como as igrejas evangélicas compostas por gays), as lideranças consideram as práticas homossexuais antibíblicas, imorais, patológicas, pecaminosas e promíscuas. Inferiorizam, estigmatizam e discriminam as minorias sexuais. Assim, estabelecem hierarquias de gênero. 

Por quê? 
Esses grupos religiosos acreditam que as práticas sexuais e os arranjos familiares dos gays atentam contra normas e valores cristãos, culturalmente dominantes. Normas e valores que consideram universais, os únicos corretos e desejados por Deus. Recorrem a fantasias delirantes de que, no caso da legalização das adoções por casais gays, a sexualidade dos pais poderá influenciar a sexualidade das crianças, prejudicando-as pela ausência de uma referência de gêneros. Como se não bastasse, acusam, absurdamente, os homossexuais de serem responsáveis pelo aumento dos casos de pedofilia. A partir de preconceitos infundados, leituras bíblicas fundamentalistas, teologias de matiz integrista e moralidades religiosas extemporâneas, defendem a discriminação de pessoas por suas orientações sexuais, propondo publicamente que o Estado as trate de modo desigual. Portanto, opõem-se à isonomia de direitos. Essa é justamente a reivindicação dos movimentos LGBT: igualdade de direitos. Só querem assegurar o direito jurídico de casar e de adotar crianças, como qualquer outra família. 


Que impacto isso causa na sociedade? 

Esses grupos religiosos legitimam a homofobia. No Brasil, o Projeto de Lei 122/2006 (que propõe a criminalização da homofobia) provocou diversas reações contrárias e homofóbicas de grupos cristãos, principalmente evangélicos. Entre outros absurdos, dizem que os homossexuais querem estabelecer uma “ditadura gay” no País. Nas suas igrejas, tentam “libertar” as supostas vítimas do demônio da homossexualidade, tentam curá-las por intervenção divina e práticas psicoterápicas proibidas, pois anticientíficas e antiéticas, segundo o Conselho Federal de Psicologia. Frente às mudanças culturais, aos novos e pluralistas arranjos familiares e ao surgimento do movimento gay nas últimas décadas, os grupos cristãos conservadores reagiram fortemente, mobilizando-se para fazer lobbies e pressionar partidos, parlamentares e governantes, para impor obstáculos morais e políticos a quaisquer mudanças jurídicas a respeito do casamento, da família, da união civil. 

Le Monde cita uma ofensiva midiática do Vaticano, tanto que o papa estreou no Twitter. Bento XVI está tentando se modernizar? 

Decididamente, os dois últimos pontificados não se preocuparam nem agiram para empreender nenhuma espécie de novo aggiornamento, muito menos no plano da moralidade sexual e da família. Ao contrário. Eles parecem voltados a um passado menos pluralista e menos democrático. Desconectado com seu tempo e com suas urgências, João Paulo II se manteve firme, vetando o uso da camisinha em pleno auge da epidemia da aids. A moral sexual defendida pela Igreja Católica tem se mantido reacionária, marcada por posições tradicionalistas, em crescente descompasso com o avanço dos direitos humanos nessas matérias. Quanto aos jovens, a defesa de abstinência sexual para solteiros, por exemplo, está a anos-luz de constituir uma estratégia razoável para conquistá-los. Proposta de um anacronismo infindo, ainda mais diante da crescente emancipação individual e individualizante em relação a moralidades e instituições religiosas tradicionais. 
O sociólogo argentino Juan Marcio Vaggione diz que a política é uma dimensão constitutiva da Igreja Católica. Bento XVI tem sido acentuadamente político? 

Não me parece que o pontificado de Bento XVI seja mais político e politizado que o de seus antecessores. A questão é que a Igreja Católica, assim como outras instituições religiosas tradicionais, está cada vez mais pressionada pela secularização desenfreada de diversas áreas da vida, com o avanço do pluralismo cultural, os desafios éticos impostos pelas descobertas científicas, os outros movimentos religiosos, as rápidas transformações comportamentais e culturais, etc. Por certo, a rápida descatolicização da Europa e da América Latina vem pesando na forte reação defensiva e conservadora da Igreja contra quaisquer mudanças legislativas na família e na moralidade sexual. Na modernidade, um dos principais redutos das instituições religiosas tem sido justamente a esfera da moralidade focada na vida privada. Mas convenhamos que, na prática, as instituições religiosas perderam há tempos o poder que outrora tinham sobre a conduta dos indivíduos. Basta observar que a Igreja Católica não tem mais poder sobre as mudanças demográficas na América Latina para questões como o uso de métodos contraceptivos, os novos padrões de relacionamento afetivo e namoro, os hábitos sexuais. Tais mudanças comportamentais agora passam a ser legitimadas em diferentes países. Pipocam aprovações da união civil de homossexuais. Aos poucos, os políticos estão perdendo o medo de se insurgirem contra moralidades sexuais anacrônicas. Em plena campanha presidencial norte-americana, Barack Obama se manifestou favorável ao casamento gay. Agora, na laica república francesa, é a vez de François Hollande bancar a ideia. 
Enquanto milhares desfilam em Paris contra o casamento gay, a Catedral Nacional passará a realizar essas uniões em Washington... 

Atualmente, a Igreja Católica é internamente bastante diversificada - apesar de correntes teológicas conservadoras serem hegemônicas no momento. Por séculos, a Igreja Católica lutou contra as liberdades de expressão e de pensamento, contra o princípio da tolerância, contra a modernidade. Mas mudou muito, sobretudo a partir do Vaticano II, ao sucumbir e se adaptar a valores, princípios e instituições da democracia liberal. Nas últimas décadas, seus pendores conservadores falaram alto, ficando obcecados pela defesa da família e da vida. A garantia do Estado laico depende da vigilância e da mobilização política constante por parte dos defensores da laicidade. 

A religião deve ocupar o espaço público? 

A democracia moderna é agonística por natureza. Em sociedades pluralistas, espera-se que ocorram divergências, disputas, conflitos entre diferentes atores sociais que sustentam distintos interesses, ideologias, moralidades e valores. As instituições e autoridades públicas devem resguardar a paz, a ordem social, o cumprimento da lei e o próprio direito fundamental de todos para manifestar livremente suas ideias, suas preferências e seus valores no espaço público. Se se quer assegurar a democracia, não se pode negar o direito dos grupos religiosos de vir a público para defender seus interesses, protestar contra atos do governo, politizar suas demandas. É constitutivo da democracia. Além disso, os grupos religiosos não são intrinsecamente conservadores na política, nem tradicionalistas na moral. Por exemplo, as seitas protestantes desempenharam destacado papel na formação da democracia norte-americana, enquanto as igrejas protestantes dos negros foram fundamentais na luta pelos direitos civis. Por sua vez, a Igreja Católica também passou por mudanças teológicas e políticas consideráveis. A partir da década de 1960, após o aggiornamento promovido pelo Concílio Vaticano II, que reconheceu o direito à liberdade religiosa e deu relativa abertura ao princípio da laicidade, a ala católica progressista avançou celeremente na América Latina. Disseminou a Teologia da Libertação, as comunidades eclesiais de base, as pastorais sociais. Quatro anos depois do golpe militar no Brasil, a Igreja Católica rompeu com a ditadura e se tornou um baluarte da defesa das liberdades civis, dos direitos humanos e da redemocratização. A guinada ideológica da Igreja Católica demonstra empiricamente que não se pode definir qualquer religião, incluindo aí as distintas vertentes islâmicas, como intrinsecamente conservadoras ou incompatíveis com a democracia e os princípios basilares da modernidade. 

Encíclicas de João Paulo II e Bento XVI criticam a modernidade. Numa mirada de longo prazo, o sr. diria que o Vaticano vem mesmo na linha da politização? 

Na primeira carta de seu pontificado, no dia 25 de dezembro de 2005, Bento XVI afirma que “a justa ordem da sociedade e do Estado é dever central da política”. Após reconhecer a distinção entre Estado e Igreja, o papa admite que a política não pode ser encargo imediato da Igreja. Para o pontífice, “a Igreja não pode nem deve tomar nas próprias mãos a batalha política para realizar a sociedade mais justa possível”. Mas, a seu ver, não pode ficar à margem na luta pela justiça. Essa observação preconiza a atuação da Igreja na esfera pública lato sensu, embora não necessariamente na política partidária. Porém, para definir a justiça, o Estado precisa recorrer à razão. O inconveniente disso é que a razão, a seu ver, tende a padecer de uma “cegueira ética, derivada da prevalência do interesse e do poder que a deslumbram”. Por isso, para o pontífice, cabe à fé católica o papel de descortinar novos horizontes para além do âmbito da razão e purificá-la de sua cegueira. No intento de colaborar para a construção de uma sociedade justa, atribui à Igreja um papel de mediadora da política. Assim, apesar de salvaguardar, parcialmente, a moderna autonomia do Estado e da política em relação aos poderes religiosos, Bento XVI defende um papel decisivo da Igreja na confirmação da ética. Com sua “laicidade sã”, o papa procura mobilizar e municiar doutrinariamente suas bases para lutar a fim de manter a Igreja influente na esfera pública. A perspectiva de Bento XVI repousa numa crítica tipicamente conservadora aos preceitos racionais e seculares das esferas jurídica e política e à razão científica, numa visão religiosa que deprecia a modernidade. 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
 
Um Outro Olhar © 2025 | Designed by RumahDijual, in collaboration with Online Casino, Uncharted 3 and MW3 Forum