Lei de 2018 criou penas específicas contra o estupro corretivo de lésbicas

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019 0 comentários

Desenho de Charles Laveso

Estupro corretivo: entenda o crime de violência sexual contra lésbicas

A lei 13.718, sancionada em setembro de 2018, criou penas específicas para novas formas de violência contra mulheres. Novas, porém, elas são apenas no que diz respeito à legislação: são agressões praticadas muito antes da criação da lei e, entre elas, está o chamado estupro corretivo, prática violenta de que lésbicas, em sua maioria, além de gays e trans, relatam ser vítimas. Segundo o texto, o estupro corretivo é uma tentativa de "controlar o comportamento social ou sexual da vítima." Ou seja, é quando o crime é cometido na tentativa de "corrigir" uma característica da vítima, como sua orientação sexual.

Segundo a advogada especializada em direitos das mulheres Gabriela de Souza, lésbicas são os alvos principais. Ela, que já atende dois casos com essa tipificação, afirma que as mulheres relatam ouvir frases homofóbicas no momento da violência. Comentários como "você vai conhecer um homem de verdade e aprender a gostar disso" ou "você vai virar mulher de verdade" estão entre essas frases. 
São agressões com falas sempre muito violentas e ligadas à não aceitação da exposição das mulheres como lésbicas", diz Gabriela.
Aumento de pena A proposta de inserir o termo estupro corretivo em nossa legislação foi levada à Câmara dos Deputados em 2017, pela então deputada Tia Eron (PRB-BA), nomeada nova secretária de Políticas Públicas para Mulheres do Ministério de Mulher, Família e Direitos Humanos. Foi anexado a outros textos que já tramitavam no Congresso e aprovado no ano passado. Com a nova lei, se comprovado o estupro corretivo, a pena para o crime de estupro, que é de seis a dez anos, aumenta de um terço a dois terços --podendo ir de oito a 17 anos de prisão--, de acordo com a advogada Ananda Hadah Rodrigues Puchta, especialista em direitos humanos..
Mas entra como aumento da pena de todos os crimes sexuais contra vulneráveis (menores de 14 anos) e crimes contra a liberdade sexual", explica Ananda. Entre esses crimes estão o de importunação sexual (pena de um a cinco anos) e assédio sexual (pena de um a dois anos).
Machismo extremo, como explica Gabriela, o termo já vem sendo usado por movimentos feministas e de gays e lésbicas há pelo menos 20 anos. "Mas é uma prática milenar a de tentar 'corrigir' lésbicas. Apenas foi nomeada mais recentemente", diz.

"É o machismo extremo quando o homem acredita que, por ser o 'macho' e possuir o falo, tem o poder de corrigir uma mulher que ele julga ter um comportamento errado", diz ela, que acredita ser um avanço incluir o termo no Código Penal, ainda que tardiamente.

Dossiê do lesbocídio

Não há números de casos de estupros corretivos no Brasil. No geral, são registrados apenas como estupro, que ainda assim é um crime subnotificado, o que significa que as ocorrências são muito maiores do que as denúncias realizadas pelas vítimas. Um dos raros levantamentos sobre violências cometidas contra lésbicas, o "Dossiê Sobre Lesbocídio no Brasil", lançado no ano passado, mostra que, em 2017, houve 54 mortes de lésbicas no país, sendo que em 3% dos casos foi cometido estupro seguido de assassinato. 

Fonte: Universa (UOL), por Camila Brandalise, 04/02/2019

Famílias de gays e lésbicas já se destacam entre os arranjos tradicionais

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019 0 comentários

Gilberto, Rafaela, Paulo Henrique e Rodrigo mostram que o carinho e o acolhimento
 foram essenciais em casa, assim como em qualquer família

Famílias formadas por pai, mãe e filhos já não são maioria no país
A sociedade brasileira se acostuma com uma mudança, cada vez mais visível, da configuração tradicional das famílias no país

O tradicional arranjo de família — com pai, mãe e filho(s) — mudou. Além das formações convencionais, novas configurações crescem e mostram desafios diários enfrentados por mães e pais sozinhos, divorciados que unem as famílias, crianças que são criadas pelos avós, coparentalidade e casais homoafetivos que lutam para que seus afetos sejam respeitados. O que há de comum entre eles é o amor, cada um à sua maneira. As diferentes formas de composição familiar mostram que o gênero, a idade e o status civil de quem cria não importam; prevalecem sempre o respeito e a união.

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) revelam que, desde 2005, o perfil composto unicamente por pai, mãe e filhos deixou de ser maioria nos domicílios brasileiros. No estudo, o tradicional arranjo ocupava 42,3% dos lares pesquisados — uma queda de 7,8 pontos percentuais em relação a 2005, quando abrangia 50,1% das moradias.

Moradores de Teresópolis (RJ), o jornalista Gilberto Scofield Junior, 53 anos, e o corretor de imóveis Rodrigo Mello, 34, vivem juntos há 15 anos e oficializaram a união na última sexta-feira. Eles são pais de Paulo Henrique, 9, e Rafaela, 18, que personificaram um grande sonho do casal. O processo de adoção do menino durou cerca de um ano e meio. Paulo chegou a ser rejeitado por três casais heterossexuais e acabou adotado em 2014. Rafaela foi acolhida dois anos depois.

A vida do casal mudou completamente em 23 de outubro de 2014, quando o companheiro Rodrigo recebeu a notícia de um grupo de entidades de adoção sobre a disponibilidade de Paulo, que, à época, tinha 4 anos. Ele estava em um abrigo na cidade de Capelinha (MG), no Vale do Jequitinhonha.
Foram sete horas de viagem, entre carro e avião. A primeira impressão foi emocionante, ele era muito carente, muito carinhoso. Quando chegamos lá, descobrimos que ele tinha uma irmã, a Rafaela. Naquele momento, não estávamos preparados para adotar os dois. O juiz pediu para não tirar o contato com ela, e eles iam se falando”, conta Gilberto.
Até a adoção de Rafaela, muito aconteceu. A decisão de aumentar a família veio após um período de trabalho na China. “Por conta da política de filho único (no país oriental), as meninas eram abandonadas, principalmente no interior. Ficamos tocados com isso e a ideia amadureceu”, lembra Gilberto. O carinho e o acolhimento se tornaram os ingredientes necessários para romper as barreiras da adaptação.
É um pouco mais difícil quando é uma criança que não acompanhamos desde o início. Buscamos entender a psicologia por trás das ações e preencher instintivamente lapsos passados. O acolhimento fez com que as crianças se adaptassem. Paulo foi rapidamente ambientável. Rafaela, por ser maior e estar na fase da adolescência, levou mais tempo”, conta.
Gilberto, Rodrigo, Paulo Henrique, Rafaela e os animais de estimação da casa formam uma família como qualquer outra; lidam com as alegrias e as preocupações diárias similares às de pais tradicionais. Questionado sobre a aceitação dos filhos em relação à presença de dois pais em casa, Gilberto afirma que são bem resolvidos.
Os amigos perguntam: São dois pais? Eles respondem que sim e não questionam mais. O colégio deles é progressista.
Para Gilberto, o estranhamento da sociedade é ligado ao preconceito dela e da maneira como julgam as pessoas que não seguem os padrões considerados tradicionais, da heteronormatividade.
Educar é um exercício diário. Isso se passa exercendo, dando exemplo. Negociamos na base da conversa, mas isso não me impede de ser rígido quando preciso, de cobrar disciplina. Buscamos convencer, inspirar naturalmente”, diz. Paulo Henrique, inclusive, fala com emoção sobre o relacionamento com os pais e garante: “Amo meus pais. Eles fazem tudo por nós e nos amam muito. Carinho é o que não falta”.
Márcia e Rayssa: mudanças amenizaram os preconceitos

Ato político

Mari Mira e Patrícia Egito, ambas com 32 anos, se conheceram há cinco anos no trabalho. Pati era produtora cultural do antigo Balaio Café e Mari atuava como VJ e produtora cultural no local. Não demorou para que se tornassem amigas. Logo se apaixonaram e pouco tempo depois estavam morando juntas. Este ano, decidiram fazer uma festa para celebrar a união entre elas. Foi uma forma de reunir os amigos e os familiares “na luta pelo bem viver das famílias LGBTs”.
Sentimos a importância e a necessidade de reafirmar nosso amor perante a sociedade. Queremos nos tornar visíveis, tanto ao nosso redor quanto dentro das estatísticas. Fizemos para mostrar que casais como nós existem e nossos afetos devem ser respeitados e legitimados sempre. ‘Amor como luta’ foi a frase que norteou a nossa cerimônia”, explica Mari.
Sócias em um restaurante de gastronomia brasileira há três anos, já compartilhavam, sob o mesmo teto, angústias, realizações e alegrias. Tudo isso envolto numa relação de respeito e apoio das famílias de ambas.
Elas são muito integradas à nossa vida. Sabemos que isso é um privilégio e somos muito gratas. Juntas, nós nunca sofremos preconceito, mas, nas nossas vidas individualizadas, sim. São histórias que já estão gastas, queremos falar de outras coisas”, pontua.
A psicóloga e economiária Márcia Lopes, 56, é mãe solo e enxerga a estruturação da família como algo que perpassa qualquer rótulo. O importante é o carinho, o respeito e a união. A filha Rayssa, de 33 anos, nunca teve contato com o pai — e sempre foi algo muito bem resolvido na conjuntura familiar. Isso porque, explica Márcia, a rede de apoio dela se manteve muito consistente, com o apoio de pais, tios e primos.
Sei que sou muito privilegiada, porque sempre tive apoio emocional e financeiro. Mas reconheço as dificuldades das mulheres que resolvem ser mães sozinhas e não têm essas condições. É um caminho muito mais árduo, com diversos obstáculos e desafios”, destaca.
A vida de Márcia mudou desde quando se tornou mãe. Apesar dos desafios de conduzir sozinha a educação de uma pessoa e de arcar com todos os custos disso, a psicóloga afirma que nunca se sentiu só. Evidentemente, quando situações difíceis acontecem, gostaria de ter com quem desabafar, mas nada que a família não consiga dividir.
A maternidade mudou a minha vida. A gente passa a repensar prioridades e abre mão de alguns desejos pessoais em prol de outro alguém. É muito prazeroso”, conta, emocionada.
Ela ressalta as mudanças na sociedade que, mesmo lentas, já amenizaram o preconceito em torno de mães solo:
Hoje em dia, não é algo tão incomum. Naquela época, era mais difícil. Mas é muito prazeroso também ouvir pessoas que conhecem a minha história dizendo que me admiram por isso”.
O apoio dos parentes é fundamental para Patrícia e Mari (foto: Luísa Dalé/Divulgação)
Sangue

A psicóloga Priscila Preard explica que o conceito de família vai além do compartilhamento consanguíneo.
Família é um lugar em que, independentemente da orientação sexual, condição financeira, existe amor, respeito, diálogo, cuidado, afeto. É com quem compartilhamos os problemas e as conquistas. Família não precisa ser de sangue”.
A especialista relata que a diversidade do mosaico familiar começou há muitos anos, com o auxílio de fatores como a entrada da mulher no mercado de trabalho, a chegada da pílula anticoncepcional, a legalização do divórcio e, mais recentemente, com a conquista da união homoafetiva.
Acredito que, no campo homoafetivo, teve o reconhecimento jurídico. Eles galgaram isso e foram para outra esfera, de criar filhos. Em relação aos pais ou mães solo, a mudança vem de muito tempo, desde a Revolução Industrial. A mulher entendeu que o campo amoroso não necessariamente tem a ver com a formação familiar. Também teve a entrada dela no mercado de trabalho, que deu maior independência”, aponta.
No entanto, famílias formadas por homossexuais e pais e mães solteiros ainda enfrentam preconceito na sociedade.
Tanto homoafetivos quanto quem cria sozinho enfrentam preconceito. As dificuldades de quem cria sozinho também são maiores, pois, muitas vezes, não dispõe de uma rede de ajuda, que facilitaria nos cuidados em alguns momentos”, completa.
Para ela, é preciso deixar claro que a orientação sexual não dita a capacidade de laço afetivo.
Não é porque é diferente de algum modo que não vai cuidar ou dar amor. É um princípio ético. A sociedade precisa entender que, por mais que não ame ou goste daquele modelo familiar, tem que respeitar e considerar o próximo. Pode não ser a favor, mas tem que respeitar”.
Família é um lugar que, independentemente da orientação sexual, condição financeira, existe amor, respeito, diálogo, cuidado, afeto. É com quem compartilhamos os problemas e as conquistas. Família não precisa ser de sangue”  Priscila Preard, psicóloga
Fonte: Correio Brasziliense, por Ingrid Soares e Gabriela Vinhal, 25/12/2018

Juliana Pereira conta que o assassino de sua namorada era obcecado por ela

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019 0 comentários

Juliana Pereira e a namorada, Vanusa da Cunha Ferreira

"Ele era obcecado por ela", diz namorada de motorista assassinada em Goiás

A corretora de imóveis Juliana Pereira, de 40 anos, contou à Universa que o empresário artístico Parsilon Lopes dos Santos, 45, preso após ter confessado assassinar Vanusa da Cunha Ferreira, de 36, alimentava uma obsessão pela motorista e técnica de enfermagem -- mesmo sabendo que ela era homossexual. Juliana e Vanusa namoravam e planejavam construir uma casa e se mudar para Caldas Novas, no interior de Goiás. Vanusa desapareceu no sábado (19), em Aparecida de Goiânia (GO) e na tarde de domingo (20) foi encontrada, já sem vida, perto de um motel em Goiânia. Na quarta-feira (23), Santos confessou os crimes de tentativa de estupro, homicídio, vilipêndio a cadáver e ocultação do corpo. Ele está preso na Delegacia de Investigações Criminais desde então. Segundo Juliana, o suspeito estaria também devendo cerca de R$ 1.300 a Vanusa, referente a corridas que não teriam sido pagas.

Segundo a corretora de imóveis, Santos era cliente de Vanusa havia três meses e havia se tornado invasivo no comportamento.
Eu achava um pouco estranho o fato de eu estar com ela e ele ficar mandando mensagem. Quando ela não respondia, ele insistia e insistia. Eu falava 'meu Deus, amor, esse cara é louco' e respondia 'não, é porque ele é sozinho mesmo, ele precisa que eu faça essa corrida, mas não vou fazer porque estou com o meu amor, não vou sair daqui para ir lá, já falei que estou ocupada e ele fica insistindo'", relembra. "
Às vezes, ele mandava áudio dizendo 'você está tão ocupada assim que não pode me levar em tal lugar?'. Eu achava demais. Mas ela disse 'não, amor, esta é a última corrida que vou fazer com ele, porque vou receber o restante que ele está me devendo, dá quase R$ 1.300 e preciso pagar umas coisinhas e arrumar os pneus'", diz Juliana que, por também já ter tido experiência como motorista, estranhava o comportamento de Santos 
Não era igual a qualquer outro passageiro. Como eu também já trabalhei com aplicativo, eu sei como tratam a gente. Quando a gente fala que está ocupada, e que não vai poder atender a pessoa para uma corrida particular, eles respondem: 'OK, então, pode me passar o contato de alguém que você conheça, de confiança?'. Ele não era assim. Tinha que ser ela."
As duas haviam retomado o relacionamento
 de 3 anos em dezembro.
Para Juliana, o crime pode ter sido resultado de uma rejeição de Vanusa, e ela não descarta que também tenha tido caráter homofóbico. 

Ele sabia que ela tinha essa orientação, então pode ser que ele tenha tentado algo para mudar a orientação sexual dela, como a maioria dos homens faz quando sabe. No caso dele, era uma obsessão por ela", diz. 
A corretora chegou a se questionar se estava sendo muito ciumenta.

 Eu achava que era um pouco de ciúme meu, mas realmente estava me incomodando. Eu falava para ela que esse cara era apaixonado, mas ela falava que não, que ele tinha namorada e que era 'até bom' assim [que ele soubesse da orientação sexual dela] também porque ela não ficaria com ciúme por [Vanusa] andar para baixo e para cima com ele. Mas como ele viu que ela não aceitou [fazer sexo com ele], fez o que fez. Estou sem chão! Revoltada, sofrendo muito e não tenho palavras para expressar a dor que sinto. Dói e dói muito saber que foi tirada a vida de uma mulher maravilhosa como ela, jovem, forte, batalhadora, fiel, companheira... Me faltam palavras para falar da Vanusa, ela era uma supermulher".

A relação de Juliana e Vanusa 

A corretora e a motorista namoraram por três anos, mas haviam enfrentado um período de alguns meses de separação após Juliana ter se mudado para Fortaleza (CE) a trabalho. Elas haviam reatado o relacionamento no mês passado. 
No dia 18 de dezembro, nos reencontramos. Foi lindo, ela chegou por volta das 3h da manhã em Caldas Novas (GO), onde eu estava a passeio, e foi ao meu encontro. Daquele dia para cá, nos encontrávamos às escondidas até que eu estivesse 100% livre para gritar para o mundo inteiro o nosso amor. Ela aceitou me encontrar assim, às escondidas, esperou eu voltar de viagem com a minha família e com a [namorada] que eu tinha, para que não magoasse a mulher com quem eu estava. Nos falávamos dia e noite, mesmo em viagem. O combinado era: 'dia 16, você será só minha, minha vida'. Palavras dela. E aconteceu." 
 Segundo Juliana, as duas tinham planos de irem morar juntas em Caldas Novas. 
Já estávamos com tudo certo. Ela ia sair do Hugol [Hospital Estadual de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira, onde também atuava como técnica de enfermagem], e trabalharia como enfermeira porque, como tenho contatos lá na área da saúde, e estava tudo encaminhado"
Juliana diz que já se preocupava com o
comportamento de Parsilon quanto à Vanusa
Ela trabalhou no Hugol até as 19h da sexta, fez uma videochamada a caminho da rodoviária, para então começar a trabalhar com ele. Essa foi a última vez em que a vi viva, linda, feliz e maravilhosamente contente, falando que estava com saudades demais e que precisava ver o amor dela. Nos falamos até às 2h32 do dia 19. Eu tinha muito medo, sabia o perigo que ela corria. Mas, nessa noite, ela estava em um lugar público, com pessoas que até então ela conhecia, não estava nas quebradas da cidade correndo risco. Até que teve esse fim terrível." 
A corretora ainda foi a primeira a notar a ausência da namorada e a iniciar as buscas por ela. 

Queria muito tê-la encontrado com vida. Tanto busquei, tanto procurei e tanto quis trazê-la para casa e não fui capaz. Mesmo sendo a primeira a dar falta dela e começar as buscas. Era só isso que eu queria."
 O conforto para ela, neste momento, vem justamente de seus últimos momentos ao lado de Vanusa.
Nós tínhamos que ficar bem. Deus fez com que nos reencontrássemos do dia 18 de dezembro ao dia 18 de janeiro. Na madrugada do dia 19, nos vimos novamente e ela foi encontrar com Deus. Já estava escrito o dia e a hora dela. Mas ela precisava estar em paz comigo e eu com ela. O que me conforta é que ela se foi muito feliz e realizada comigo, o  coração dela transbordando de amor. Ela passou os últimos dias com o amor da vida dela e eu a amando mais que nunca. Só espero que o culpado realmente pague e que a justiça seja feita."

Fonte: Mariana Gonzalez, da Universa, em São Paulo, 24/01/2019 

A bicampeã de vôlei Fabi Alvim anuncia gravidez de sua mulher

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019 0 comentários

Fabi Alvim anuncia a gravidez da mulher, JuliaImagem: @fabialvim/Instagram

Bicampeã olímpica Fabi anuncia que sua mulher está grávida.

Bicampeã olímpica pela seleção brasileira, Fabi anunciou a gravidez de Julia Silva, sua mulher e gerente de seleções da Confederação Brasileira de Vôlei, nesta quarta-feira (23), em uma postagem em sua conta no Instagram. Em contato com a reportagem do UOL Esporte, a assessoria de imprensa da ex-atleta confirmou que Julia está grávida de 16 semanas. "Nosso sonho se tornando realidade! Obrigada, Julia Silva, por dividir essa missão de formar uma família! Vamos juntas viver intensamente cada cada momento! O amor e respeito é a base de tudo", escreveu Fabi, 38 anos

Jogadoras que atuaram com Fabi na seleção brasileira, como Jaqueline, Fê Garay e a líbero Camila Brait, usaram a imagem para parabenizar a jogadora pelo feito. "Que lindas. Muito feliz por vocês! Vão conhecer o maior amor do mundo inteiro. Parabéns casal", escreveu Camila Brait que foi mãe há pouco tempo. "Parabéns! Deus abençoe a família", disse Jaque. "Lindas. Toda a felicidade do mundo para vocês", completou Fê Garay. Ainda na rede social, Fabi respondeu a um seguidor que ironizou o fato de um casal de duas mulheres esperarem um filho. "Grávida, como? Milagre?", escreveu ele. "Pode ser também. Chame como achar melhor. Muito amor para você", respondeu ela.... - 

Em entrevista ao UOL Esporte publicada em 2017, a então jogadora do Sesc (RJ) admitiu o desejo de ser mãe, embora entrando em poucos detalhes a respeito. "Eu vou ter filho. Vou ser mãe. Isso é mais certo que parar de jogar vôlei. É um desejo", afirmou na ocasião. "Não sei se vou gerar esse filho, mas eu vou ter filho, com certeza. Isso é uma vontade que tenho desde que nasci. Se tem uma coisa que eu sempre soube que iria ser é ser mãe. Mas não sei de que forma vai ser", comentou.... 

À reportagem, falou também sobre seu relacionamento com Julia. "Tenho uma relação hoje, preservo minha relação por uma questão de não querer misturar muito. Vida pessoal é vida pessoal, aqui na quadra é vida profissional. A gente fala muito, é muito invasivo em algumas coisas que eu procuro não misturar. A gente tem que falar das coisas esportivas e pessoais no momento certo", declarou. 

"Mas sou muito bem relacionada há quase quatro anos, sou feliz, (com) uma relação estável, onde eu quero certamente construir e aumentar. Me vejo muito feliz nesse aspecto. É uma coisa que a gente busca: uma parceria, uma pessoa que nos ajude fora de quadra, dentro da quadra. E eu achei". concluiu Fabi. 

Medalhista de ouro em Pequim-2008 e Londres-2012, Fabi seguiu atuando no vôlei até o meio de 2018, quando fez sua última Superliga. Já longe da seleção, ela se tornou comentarista de vôlei da Globo. Hoje, ela tem feito preparação como triatleta. Colegas de Globo da ex-jogadora também a parabenizaram pela notícia. "Viva. Ainda mais amor para vida de vocês", escreveu Luis Roberto que divide transmissões de vôlei com ela. "Que notícia linda. Parabéns. A vida vai se inundar ainda mais de amor", falou a apresentadora Lizandra Trindade.... 

Fonte: UOL Esportes, Leandro Carneiro, 23/01/2019

A Favorita: Rainha Anne, suas amantes e as questões de Estado

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019 0 comentários

Abigail (Emma Stone), rainha Anne (Olivia Colman) e a duquesa de Marlborough (Rachel Weisz)

Análise: 'A Favorita' revela as tensões entre as razões de Estado e desejo humano
O ótimo 'A Favorita', do grego Yorgos Lanthimos, é um filme sobre os bastidores do poder; longa que estreia nos cinemas brasileiros está na disputa do Oscar 2019 em 10 categorias

A Favorita, de Yorgos Lanthimos, é, no principal, um filme sobre os bastidores do poder. Na Inglaterra do século 18, a rainha Anne (Olivia Colman) reina, mas quem governa é sua “favorita”, Sarah Churchill, a duquesa de Marlborough (Rachel Weisz), um Rasputin de saias que age nas sombras. O equilíbrio do poder é abalado com a chegada de Abigail (Emma Stone), que logo cai nas graças de Sua Majestade e ameaça a posição de Sarah.

Eis aí um enredo folhetinesco e que, dizem, se baseia em fatos reais. Dessa contradança erótico-político das três sai toda a graça de uma obra que, precisa e perfeita na reconstituição de um tempo, jamais lhe é reverente, como às vezes acontece com filmes de época.

Pelo contrário, o grego Lanthimos adentra o espaço íntimo da monarquia britânica com dose brava de senso crítico, sentido humorístico afiado e verve não raro sardônica. Como aquele personagem de Machado de Assis, interpreta a História com “a pena da galhofa e a tinta da melancolia”. 

Há a trama, em que mulheres governam, porém cercadas de homens poderosos. Todo um “sistema” em torno de Anne limita seu poder, em tese absoluto. E esse sistema é regido por homens, intérpretes de um interesse de Estado que transcende caprichos individuais. No entanto, sempre há o desejo humano, que faz com que decisões fluam por caminhos nem sempre racionais. Anne tem uma posição delicada e frágil. Para uma rainha, casada ainda por cima, manter em palácio uma amante, ou duas, pode ser um fator e tanto de desestabilização política.

É mérito de Lanthimos ambientar essas intrigas palacianas num ambiente com tons de fantástico, com angulações inusitadas e lentes que reforçam a estranheza de tudo aquilo. 

Olivia Colman
Mas, claro, nada seria possível sem a excelência do elenco, em especial a presença dessa atriz extraordinária que é Olivia Colman. Não é para qualquer uma interpretar uma rainha todo-poderosa que, no entanto, se revela em sua fragilidade humana. Voluntariosa, muitas vezes sábia, outras frívola, Anne era escrava de um corpo enfermiço, que a sujeitou a inúmeras doenças ao longo de sua vida (1665-1714).

Há algo de soturno na maneira como Anne percorre os labirínticos corredores do palácio em sua cadeira de rodas. E também na maneira como, em meio a futricas, puxadas de tapete, rivalidades e intrigas, tem de se haver com toda uma série de graves decisões a tomar. 

Em meio a questões tão importantes, os males de amor de uma rainha parecem não ter a menor importância. Mas, na escala humana, perder um grande amor equivale a perder uma guerra. Essa costura assimétrica e mal alinhavada entre a intimidade e a política faz o encanto desse filme que disputa o Oscar em 10 categorias.



Fonte: O Estado de S. Paulo, Luiz Zanin Oricchio, 24/01/2019

Dona de restaurante vegano de Araraquara (SP) acusa locador de discriminação

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019 0 comentários

Nathália Mendonça Santos registrou boletim de ocorrência na Delegacia da Mulher em
Araraquara (SP) 
Foto: Amanda Rocha/A CidadeON

Dona de restaurante acusa locador de homofobia em Araraquara
Boletim de ocorrência foi registrado como injúria e será acompanhado pela Assessoria de Políticas Públicas LGBT da cidade. Nathália Mendonça Santos registrou boletim de ocorrência na Delegacia da Mulher em Araraquara (SP)

A proprietária de um restaurante vegano de Araraquara (SP) registrou um boletim de ocorrência contra o proprietário do prédio onde seu estabelecimento funcionava, no centro da cidade. Ela diz que teve que sair do local por causa de homofobia.

Segundo Nathália Mendonça dos Santos, de 27 anos, o dono do estabelecimento a teria expulsado na sexta-feira (18) após diversas discussões. Em entrevista ao G1, a empresária disse que o motivo seria um suposto beijo que ela e a namorada teriam dado há alguns dias no local.

O caso foi registrado na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Araraquara como injúria e terá acompanhamento da assessora de políticas públicas LGBT da prefeitura, Filipe Brunelli.

Polícia esteve no prédio, no centro, para averiguar os fatos — Foto: Amanda Rocha/ACidadeOn

Homofobia

Segundo relato de Nathália, o estabelecimento alugado há quatro meses fica na frente da casa dos proprietários e os conflitos começaram no domingo (13), quando o sogro do dono teria visto um beijo entre ela e a namorada.
Ele tem 60 e poucos anos e chamou a atenção dos proprietários do local, falando que não gostou do que tinha visto. Falou que não era certo, uma coisa que não era natural, que não queria que a neta de 9 anos visse”, disse.
Na segunda-feira (14), o proprietário e a esposa marcaram uma reunião com Nathália para pedir para ela não repetisse o comportamento no restaurante. Eles teriam pedido para que, se ela fosse beijar a namorada, o fizesse “no banheiro rapidinho”.
Eu sai do serviço acreditando que foi uma discussão de um caso isolado. Eles sabiam e criaram caso dizendo que não é coisa normal, mas eu sou assim e não vou mudar, posso ir ao local quando eu quiser porque o espaço é meu, eu alugo, pago por mês e posso receber qualquer tipo de pessoa, não são eles que vão definir”, afirmou.
Na quarta-feira (16), Nathália foi ao prédio com outras pessoas depois da meia noite para carregar o celular. Incomodado, o proprietário teria ligado para a mãe da empresária e reclamado que ali não era lugar de namorar.

Na sexta-feira, Nathália disse que tentou conversar com o dono do lugar e pedir que qualquer reclamação fosse reportada a ela. Ao que ele teria estabelecido horários para que ela usasse o espaço.
Ele disse: ‘Não quero você dentro deste local fora do horário das 11h às 14h e das 20h às 23h. Se você está infeliz, saia do espaço. Então eu te peço o local porque isso não é uma coisa normal'”, relatou Nathália.

Segundo o que ela registrou no B.O. minutos depois ele começou a tirar as cadeiras do restaurante alegando que elas não constavam do acordo para locação do imóvel.

Ainda segundo Nathália, a mulher do proprietário teria usado o termo “aberração” e o homem disse para ela tirar as coisas dela do restaurante e a desafiado a provar que eles eram homofóbicos.

Nathália e a namorada teriam recebido ofensas de proprietário do imóvel em Araraquara (SP)
Foto: Amanda Rocha/ACidadeON

Maioria dos clientes do restaurante é de lésbicas e gays

Nathália e a namorada teriam recebido ofensas de proprietário do imóvel em Araraquara (SP)

Segundo Nathália, 90% dos seus clientes são homossexuais e são eles que representam grande parte da renda da família.

O restaurante vegano funcionava em dois horários, pela manhã e a noite e segundo a empresária, vendia em torno de 40 marmitas e 50 lanches por dia.

Além de Nathália, sua mãe e sua tia trabalhavam no lugar e todas tem a renda do restaurante como principal.
É a única renda que a gente tem. Ele tirou a única coisa que eu tinha para sustentar a minha casa”.
Após registrar o B.O. Nathália foi orientada a aguardar uma convocação do Núcleo Especial Criminal (Necrim), órgão especializado da Polícia Civil do Estado de São Paulo que promove a solução de conflitos de interesse decorrentes de crimes de menor potencial ofensivo.

Assessoria LGBT acompanhará o caso

A responsável pela Assessoria de Políticas Públicas LGBT de Araraquara, Filipe Brunelli, afirmou que está acompanhando o caso. Segundo Brunelli, as ofensas e discussões puderam ser ouvidas quando estava em uma ligação com Nathália. O registro da ocorrência também foi incentivado pela assessora.
A assessoria está aqui para isso. Para construir e garantir a cidadania das pessoas LGBT. Nós LGBTs somos muito marginalizados, é tão difícil arrumar um emprego. Aí quando montamos um negócio para podermos sobreviver, acontece isso”, disse.
A empresária e sua namorada serão encaminhadas à defensoria pública onde será designado um advogado que tratará as medidas indenizatórias. O pedido de processo por homofobia também será encaminhado à Justiça.

Empresária apresentou recibo de pagamento de aluguel de restaurante em Araraquara
em nome da mãe.
Proprietário nega preconceito

O G1 tentou entrar em contato com o proprietário do prédio por telefone diversas vezes, mas não obteve sucesso.

Em entrevista gravada ao site A CidadeON, o homem alegou não ser homofóbico e disse que reclamou do barulho que Nathália estaria causando e que ela teria desrespeitado o pedido de silêncio após o horário do expediente.
Eu só reclamei que a gente tem que ter um respeito mútuo porque eu moro nos fundos e ela tem o estabelecimento na frente. Já peguei ela com a namorada, nunca reclamei. O fato que foi a bagunça fora do horário. Se ela quiser namorar pode namorar aqui o quanto quiser, mas não tendo desrespeito com a gente que mora aqui”, afirmou.
Ele disse ainda que Nathália poderia estar inventando falsas acusações contra ele para sair do prédio sem pagar aluguéis que estariam atrasados, mas a empresária apresentou ao G1 recibos que comprovariam o pagamento dos aluguéis.
*Sob supervisão de Fabiana Assis, editora do G1 São Carlos e Araraquara.

Fontes: A CidadeOn (por Amanda Rocha) e G1 São Carlos e Araraquara

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