Fernanda Gentil fala de seu namoro com Priscila Montandon no Domingão do Faustão

quarta-feira, 12 de julho de 2017 0 comentários

Fernanda Gentil e Priscila Montandon (Instagram/Reprodução)

Fernanda Gentil: ‘Tive coragem de me encantar por uma mulher’
'Desde cedo meus pais me ensinaram que a gente se apaixona por caráter, não por carcaça', disse a apresentadora

Fernanda Gentil foi ovacionada pela plateia do Domingão do Faustão do dia 09/07, na Globo. Convidada para participar do quadro Ding Dong, ela falou abertamente sobre sua vida amorosa com a jornalista Priscila Montadon, com quem namora desde o ano passado.
Eu nunca tive de tomar decisão de viver ou não o que eu achava correto. Desde cedo meus pais me ensinaram que a gente se apaixona por caráter, não por carcaça. Então eu não me preocupei muito com o que iam falar, com o que o país ia pensar, e graças a Deus não tenho tempo para ler todos os comentários. Se a gente acreditar em tudo de bom ou tudo de mau que falam é muito perigoso”, disse Fernanda, que recebeu inúmeros ataques na web assim que assumiu o romance.
A minha decisão foi ser feliz. Eu e o Matheus tivemos coragem de reconhecer cedo que o casamento não estava dando certo e tive coragem também, de me encantar por uma mulher, o que foi novidade para mim, e lutar por isso. Eu só devia satisfação aos meus pais e meu irmão, e a partir daí a gente estava junto para passar por essa onda”, completou.
Fernanda Gentil foi casada com Mateus Braga, com quem teve um filho, Gabriel, e assumiu o namoro com Priscila cinco meses após o término de seu casamento. Ao ter o namoro noticiado por um jornal carioca, ela decidiu usar as redes sociais para confirmar a novidade.
Costumo dizer que aquele 29 de setembro, quando a notícia explodiu, foi um dia que eu não vivi. Meu celular não parou, e muita gente ficou sabendo ali, inclusive algumas amigas”, comentou.
Sobre a onda de comentários negativos, ela diz não ter se abalado e optou por se concentrar nas mensagens positivas enviadas por seu fãs. 
Recebi o carinho imenso de muita gente. Para cada crítica, dez se encarregavam de calar aquilo ali. Eu fico preocupada com pessoa que está lá no interior escondida e vive esse dilema, achando que é um problema.”
Fonte:  Veja (Com Estadão Conteúdo), 11/07/2017

Prisioneiras: 80% das detentas têm comportamento homossexual nos presídios brasileiros

terça-feira, 11 de julho de 2017 0 comentários

Drauzio Varella em seu consultório em São Paulo. 

Drauzio Varella: “O único lugar em que a mulher tem liberdade sexual é na cadeia”
Em novo livro sobre uma penitenciária feminina, oncologista discute as marcas do machismo na trajetória das presas

"A prisão é um experimento sádico da nossa sociedade”, afirma o oncologista e escritor Drauzio Varella. Mas sem ignorar a dor provocada pelo confinamento, abandono e distanciamento dos filhos e familiares, o médico vislumbra no cárcere um espaço onde mulheres conseguem se livrar, ao menos temporariamente, da repressão machista que impera do outro lado do muro. “As mulheres são reprimidas desde que nascem, não existe nenhum outro local na sociedade onde ela é livre assim como na cadeia”, afirma Varella em entrevista ao EL PAÍS. Atrás das grades da Penitenciária Feminina da Capital, no Carandiru, convivem em harmonia diversos tipos de sapatões (homossexuais que assumem aparência masculina), entendidas (homossexuais que mantêm aparência feminina) e mulheríssimas (heterossexuais que ocasionalmente tem relações com mulheres) - os termos foram criados pelas próprias presas. A exceção são as aborteiras, que precisam ficar em celas isoladas.

O escritor relata suas experiências tratando de detentas no livro Prisioneiras(Companhia das Letras). A obra fecha uma trilogia – os outros são Carandiru e Carcereiros ambos publicados pela mesma editora - sobre sua vivência de décadas atendendo de forma voluntária presos e presas paulistas. "Cadeia é um lugar muito sensível de uma sociedade. Se você visitar uma cadeia, um pronto socorro e um estádio de futebol lotado, você consegue fazer uma ideia de como é uma sociedade", afirma.

Pergunta. Existe comportamento homossexual nos presídios femininos?

Resposta. O comportamento homossexual entre as presas é muito mais abrangente do que aparenta no início. Isso leva tempo para perceber. Porque essas relações femininas são mais sutis. Na cadeia de homens você percebe que alguns presos são notadamente homossexuais. Mesmo que não sejam travestis, são homossexuais, andam com outro homem que você sabe que é o marido dele. Na cadeia feminina não. Entre elas as relações adquirem uma outra dinâmica. Um número muito grande de presas tem comportamento homossexual, é a maioria esmagadora! Gira em torno de 80%, talvez até mais.

P. No livro você fala sobre os diferentes perfis de homossexualidade no presídio feminino. O que lhe chamou a atenção?

R. O contato com essas diferenças de sexualidade é imediato. Quando você entra numa cadeia feminina tem uns 15% de mulheres que você olha e são homens. Estas mulheres usam o cabelo bem curto, com aquelas riscas que jogador de futebol faz, elas têm trejeitos de homem. Se você faz uma observação mais cuidadosa percebe que elas não se depilam. Quando eu fui examiná-las, percebi que elas não usam calcinha, usam cueca, e tops bem apertados para esconder o seio.

Essas mulheres que têm aparência masculina são sapatões. Na rua é uma palavra pejorativa. Na cadeia não. Elas falam assim: “Sou casada com um sapatão”, com o maior respeito. As que têm o estereótipo feminino não são sapatões, já entram na categoria das entendidas. E com o tempo percebi que não se pode dividir em duas categorias, porque existem vários subtipos: o sapatão original, que já era lésbica do lado de fora, sapatão sacola, que é hetero nas ruas, mas na cadeia assume outra identidade de gênero, sapatão badarosca, sustentada pela parceira, e a chinelinho, que elas dizem que sai da cadeia e abandona o homossexualismo, calça o chinelinho de cristal e vai atrás do príncipe encantado.

P. Por que você acha que o comportamento homossexual predomina nos presídios femininos?

R. O único lugar em que a mulher tem liberdade sexual é na cadeia. Não existe nenhum outro local na sociedade onde ela é livre assim. As mulheres são reprimidas desde que nascem: a menina de dois anos de idade senta com a perna aberta e a mãe diz “fecha a perna”. Essa repressão ocorre o tempo inteiro. Comportamentos que são aceitos e naturalizados para um homem são execrados para mulheres. E no presídio, sem os homens, não existe essa repressão social. Isso faz com que elas tenham o comportamento social que desejarem ter. A homossexualidade está muito mais próxima do universo feminino do que do masculino, e o que a cadeia faz é criar condições que dão liberdade para que a mulher se comporte do jeito que ela achar melhor, sem repressão. E do outro lado você tem a solidão. Essa mulher vive praticamente sozinha, pouquíssimas recebem visitas íntimas, apenas umas 120 de um total de 2.200.

P. Nenhum comportamento sexual é malvisto na cadeia feminina?

R. Existem comportamentos sexuais que não são bem vistos, mas não são reprimidos. Elas não se diminuem de jeito nenhum por ter essa ou aquela conduta sexual. Uma sapatão original, por exemplo, não pode ficar com outra sapatão original. Elas dizem que é “pederastia”. A lógica interna delas é: se você é sapatão original você é um homem, está vendendo a imagem de um homem. Não pode “rebolar”, como elas dizem. O sapatão original nem se deixa tocar e não tira a roupa de jeito nenhum. Na hora do exame você percebe que tem um certo constrangimento, eu tenho sempre muito cuidado. Eu examino uma mulher com muito mais liberdade do que um sapatão. Eu digo “olha, vou ter que levantar a camiseta para poder te auscultar”. É algo que fui aprendendo na prática.

P. A sexualidade então é muito diferente de um presídio masculino...

R. O homossexual ou a travesti no presídio masculino não pode nada. Não pode distribuir comida, não pode brigar com outro, não pode gritar com malandro... Não pode enfrentar jamais. Na detenção morria gente quando acontecia isso. Já no feminino tudo é visto com naturalidade. “Minha mulher”, elas falam. “Sou casada com fulana”, “meu amor foi para o regime semiaberto, estou sozinha, estou triste”. E as guardas, a diretoria, todo mundo respeita, ninguém cria caso.

P. Que outras diferenças você observa entre um presídio masculino e um feminino?

R. A diferença fundamental é que essas mulheres todas têm filhos. É muito raro encontrar alguma sem filhos. O homem quando está preso pode até estar preocupado com os filhos dele - alguns nem aí, né? Mas ele sabe que tem uma mulher cuidando das crianças: uma irmã, uma tia, a mãe... Mas gravidez indesejada é problema para a mulher, não para os homens, porque eles simplesmente abandonam. A mulher vai pra cadeia e perde o controle da família. Ela sabe que as crianças vão ficar desprotegidas: as pessoas abusam de criança com a mãe presa. E os filhos muitas vezes são espalhados. Imagina três irmãos, acostumados a ficarem juntos, e quando a mãe é presa vai cada um para um lado. Imagina a dor dessas crianças. E a mulher sabe disso, sabe que quem está causando isso é ela, ela foi a responsável pela separação. Ainda que de forma involuntária, foi algo provocado pelo crime que ela cometeu.

Quer machismo mais evidente do que um cara ser preso e condenado a mais de 25 anos de cadeia, e a mulher não pode abandonar ele, tem que fazer visita íntima todo final de semana? E quando a mulher vai presa o cara simplesmente desaparece.

P. Um número grande de mulheres foi presa por tráfico de drogas. Como se aproximam desse universo?

R. Muitas vezes o crime foi a forma de sobrevivência que ela encontrou. Não quer dizer que ela tenha a mentalidade perversa. Ela começou a traficar droga, usava um pouco, conhecia os traficantes... Na periferia o traficante muitas vezes é o seu colega de classe, você brincava com ele no recreio. E de repente ele está no crime. Aí num aperto ou até por vontade de melhorar de vida, a mulher tem ali a pessoa que oferece uma oportunidade de trabalho que ela não teria de outra forma. Sem ter que passar por aquela condição sofrida, com um esforço enorme de deslocamento para ir trabalhar, horas e horas todo dia por um salário ruim. E uma vez que elas começam a ganhar dinheiro traficando, esquece.

P. A população carcerária no Brasil não para de crescer. Estamos enxugando gelo?

R. Como a sociedade age? É preciso ter alguma repressão ao crime. Senão vira uma tragédia social, ninguém sai de casa. Só que precisamos estar conscientes de que a repressão não reduz a criminalidade. É uma guerra perdida. Nos anos 90 tínhamos 90.000 presos no Brasil. Agora temos 675.000. Aumentou 700%. E a criminalidade não caiu, a insegurança é cada vez maior. Então aprisionar não reduz a criminalidade.

É preciso que a sociedade reflita: estamos prendendo pessoas que têm que ser presas? Crimes que não são violentos devem ser punidos com prisão? Isso custa caro, não só a manutenção de um preso lá dentro, mas o fato de que ele vai sair pior. Não é à toa que eles chamam cadeia de faculdade do crime. O cara sai de lá articulado, conhecendo muita gente. A cadeia congrega.

P. Se prender não é a solução, como se resolve esse problema?

R. Quer atacar o problema da violência? Tem que ir lá atrás. Três condições aumentam o risco de violência. Por que ela se dissemina nas classes mais pobres? Porque lá estão os fatores de risco. São as crianças que sofreram abuso na infância ou tiveram uma infância abandonada. Que na adolescência não tiveram imposição de limites ou conviveram com outros mais violentos. É a condição de milhões de brasileiros. É de estranhar que não tenhamos mais gente ainda envolvida com o crime.

P. Por que aumentou o número de mulheres presas?

R. São muitos fatores. Primeiro há uma liberdade maior para a mulher. Antes ela ficava trancada em casa. Só que esses direitos que as mulheres conquistaram não foram distribuídos igualmente. Nas classes mais pobres a situação melhorou, mas elas não se beneficiaram tanto dessa evolução econômica e social. Elas ainda vivem numa sociedade profundamente machista. E isso se reflete na iniciação sexual precoce e na gravidez na adolescência. A menina que tem filho aos 14 anos faz o que? Para de estudar. 75% delas param, porque não tem com quem deixar a criança. E ao parar de estudar ela comprometeu o futuro dela e da criança também.

P. Como as presas lidam com quem fez aborto?

R. Elas reprimem as que fazem aborto. Não podem conviver, são expulsas, vão para o seguro [ala da prisão destinada a estupradores e jurados de morte]. É malvisto quase como um estuprador no presídio masculino, mas com um pouco mais de tolerância, porque elas não matam a que fez aborto. Elas dizem que quem pratica aborto “mata criancinhas”.

P. Quais os maiores problemas de saúde das presas?

R. O problema básico delas é a obesidade. Porque lá elas são sedentárias e tem uma dieta rica em carboidratos. Elas ganham peso e ficam hipertensas e diabéticas. Isso é muito comum, assim como a dor nas costas e problemas ortopédicos provocados pelo excesso de peso.

E elas também têm doenças pulmonares relacionadas ao cigarro. Muitas começaram a fumar com 10 anos. Essas têm os lábios azulados e os olhos cheios de vasinhos de sangue. Quando elas entram para o exame eu tenho uma técnica de aterrorizar mesmo. Eu digo “olha, morte por enfisema não desejo pro meu pior inimigo. Olha bem nos meus olhos. Sou médico, não tenho interesse nenhum em você morrer ou ficar viva, não faz diferença nenhuma na minha vida, mas eu tenho obrigação de dizer o que vai acontecer”. Elas ficam muito assustadas, mas nem todas param.

P. Qual a vantagem para um preso de ser do Primeiro Comando da Capital(PCC)?

R. O PCC é uma ideologia. Muito mais do que uma organização criminosa. Eles se impuseram primeiro com a violência, mas só isso não basta, então desenvolveram uma ideologia. Qual a justificativa? Primeiro, acabar com a repressão no sistema. E segundo, vingar a morte dos 111 do Massacre do Carandiru. O PCC é consequência direta do massacre, isso está no estatuto deles. Extorsão das famílias e roubos das coisas que elas traziam para os presos eram comuns. Aí o PCC fala: “nosso problema é se defender do sistema”. Qual a vantagem de ser do PCC? Você tem a segurança dos irmãos[nome dado aos integrantes] em todo o país. No presídio e na rua. E ninguém mais morre na cadeia. Todo mundo diz que o maior sonho de quem está preso é a liberdade. Não é. É se manter vivo. E o PCC garante isso. As famílias do preso recebem cesta básica todo mês... Em compensação, você obedece ordens. Se mandarem matar, você mata.

P. E o papel das mulheres no PCC?

R. Elas não pagam mensalidade sob a justificativa de que elas são mães, que têm criança para cuidar. Os homens do PCC pagam 600 reais. Quando elas são presas, as famílias têm o mesmo direito a uma cesta básica. Se elas são casadas com alguém do PCC, são chamadas de cunhadas. As do PCC são as irmãs. Cunhadas e irmãs são respeitadíssimas. Elas têm autoridade no presídio, mas recebem ordens de fora, da torre geral [apelido dado à cúpula da organização]. As mulheres ocupam o degrau inferior, a base do PCC. Uma ou outra que se destaca pode fazer parte da torre. Mas o comando é dos homens, é uma organização totalmente machista.

P. É possível que surja uma facção só das mulheres?

R. Não, acho difícil. Porque se existisse iria competir com o PCC, e isso é impossível. Eles são muito violentos com concorrentes e com quem vai contra eles.

P. Quem é mais cruel no presídio, homens ou mulheres?

R. Acho que os homens são mais violentos do que as mulheres. A violência da mulher é de outro tipo, não é tanto física, é mais uma tortura psicológica. As histórias que eu escuto das presas antigas são assustadoras. Chegava uma menina bonitinha na cadeia, a sapatão olha e a mulher dela ficava com ciúmes. Aí metia uma gilete na cara da novata. Eu conheço várias mulheres mais velhas, com 50 anos, com cicatriz no rosto. O diretor da cadeia, Maurício Guarnieri, diz que “o homem quando tem um problema com o outro vai lá e mata. A mulher quer ver sofrer”.

P. O estupro é aceito na cadeia feminina?

R. Hoje não existe mais. Tinha estupro antigamente, uma mulher mais forte obrigava a outra a fazer sexo com ela, apesar do estupro sempre ter sido reprimido na cadeia feminina. É curioso. O homem não aceita o estupro, muito embora o faça. [...] O cara mata um pai de família, comete um latrocínio, e é bem visto na prisão. Estuprador morre. As maiores barbaridades que eu vi na cadeia foram contra estupradores. É inesquecível, nos momentos mais inesperados, volta a imagem daqueles corpos mutilados.

P. A situação dos presídios de São Paulo é péssima. Porque não temos mais rebeliões?

R. Existem dois lados desta questão. São Paulo desenvolveu um sistema de administração penitenciária muito competente, que envolve os funcionários, carcereiros e a administração. Existe um setor de inteligência que fica interceptando chamadas telefônicas, juntando pedaços de um quebra cabeça. E tentam se antecipar: “esse cara está levando informação pra lá, vamos transferir”. É um jogo de gato e rato.

Por outro lado, rebelião atrapalha muito os negócios do crime. Existe um interesse do PCC. Já ouviu falar de fuga em São Paulo? Há muito tempo não se fala de fuga. Em nenhuma cadeia do mundo você tem isso. O próprio PCC sabe que não pode bater de frente, já fizeram isso no passado. Mas ir para o enfrentamento causa problemas que repercutem aqui fora. O PCC amadureceu muito com os anos, surgiu com uma violência absurda, mas foi se moderando.

P. O PCC tirou o pé da luta contra o Estado que apregoavam no estatuto?

R. Eles viram que não dava certo para eles, né? Veja quantos morreram em maio de 2006 [naquele mês a facção desencadeou ataques contra agentes de segurança pública, seguidos por uma retaliação de grupos de extermínio]. Você acha que mataram filho de investigador e não morreu ninguém da família de membros do PCC? Fizeram esse tipo de ação em outros Estados, em São Paulo de jeito nenhum. Existe um interesse econômico muito grande. Eles faturam 500 milhões por ano. Imagina. Sem imposto. Que empresa fatura isso?

P. Como retratar as presas de forma a não vitimizá-las nem retratá-las como monstros?

R. É uma coisa meio natural, que eu faço desde o Carandiru. Pensei muito nisso ao escrever o Carandiru. Não gosto de ler livros quando percebo uma intenção oculta do autor. É lógico que toda história passa pelo filtro de quem escreve, mas não posso tomar partido enquanto estou escrevendo. Eu tento contar a história como um narrador que está vendo de fora. Ninguém é vítima. Elas entraram por esse caminho do crime por alguma lógica delas. E independentemente do que fizeram, elas não perdem sua condição humana.

P. O que mais te comoveu em todos esses anos de trabalhos nos presídios?

R. Acho que as cenas que mais me tocam são as cenas de estupro. No Brasil 100% das mulheres sofreram algum tipo de abuso sexual. É um cara que põe a mão na perna, fala um absurdo, aproveita o aperto do ônibus... E isso independe de classe social. Mas é lógico que é pior nas classes sociais mais baixas. E grande parte dos estupros são cometidos por familiares. É o avô, padrasto, vizinho, namorado da mãe... Estupram crianças de seis anos. Imagina que futuro, o que pode acontecer com uma criança que passou por uma coisa dessas... Essas histórias são tão comuns...

P. Toda essa convivência com presos fez de você alguém melhor?

R. Melhor não sei, acho que mais interessante (risos). Porque você não passa por uma experiência dessas incólume. Isso te molda. Penso que se eu não tivesse essa experiência toda eu não teria a visão social que eu tenho. Cadeia é um lugar muito sensível de uma sociedade. Se você visitar uma cadeia, um pronto socorro e um estádio de futebol lotado, você consegue fazer uma ideia de como é uma sociedade. Confinar pessoas em cadeias é um experimento sádico. Como as pessoas se comportam nessa situação? Que regras se estabelecem? Os primatas se organizam.
Fonte: El País, Gil Alessi, Marina Ross, 09/07/2017

Camiseta de apoio à filha lesbiana viraliza no World Pride de Madrid

sexta-feira, 7 de julho de 2017 0 comentários


“Se para você ela é só lésbica, o problema é seu”: a mensagem viral de um pai no World Pride de Madri

Foto da camiseta de apoio de familiares a uma jovem recebeu milhares de curtidas e compartilhamentos

Entre os carros alegóricos, cartazes e cânticos que inundavam as ruas de Madri no último fim de semana, uma camiseta levou o prêmio de melhor mensagem. Era branca com letras pretas, pouco chamativa entre tantas cores e bandeiras de arco-íris. Mas seu trocadilho conseguiu chamar a atenção de um tuiteiro (@juancarlosmohr) que a publicou em sua conta do Twitter.

Em dois dias, a foto da camiseta foi compartilhada mais de 18.000 vezes e recebeu mais de 30.000 likes. Se você só ficou com as letras maiores e com a ideia de que a filha dele é lésbica, aqui vai a mensagem completa. E preste atenção nas letras miúdas.

Minha filha é inteligente, divertida, simpática, bonita, estudiosa, cheia de inquietações, risonha, agradecida, carinhosa, atenciosa, familiar, extrovertida e especial.
O problema é seu se para você ela é só lésbica”
A camiseta foi desenhada por Claudia Álvarez, conhecida como Claudia Limón, uma jovem de 26 anos natural de Cuenca. O homem que aparece na imagem é o pai de sua companheira, explica ela por email ao Verne.
Os pais da Meri queriam levar alguma mostra de apoio à manifestação”, conta. Para Álvarez, seu design não é a única razão do sucesso da camiseta nas redes. “O que verdadeiramente impressionou foi ver uma demonstração de amor e apoio tão incondicional a uma filha independentemente de sua orientação sexual”, acrescenta. “Todo o mérito é desses pais dispostos a usá-la com orgulho”.

Apesar de não aparecer na imagem que se popularizou no Twitter, a mãe de sua namorada também estava com uma camiseta parecida. Os quatro foram à celebração do Orgulho em Madri no sábado passado. Quem realmente mandou a mensagem foram eles. Os pais mais orgulhosos do Orgulho de Madri. 

A comunidade homossexual teve de apropriar-se de rótulos e apelidos que terceiras pessoas utilizavam como insultos até que decidimos torná-los nossos e usá-los com orgulho, nós e nossos pais”, diz Álvarez. “Se essa mensagem te provocar algo que não seja ternura, não acredito que o problema seja nosso”.

A designer gráfica detectou reações negativas sobre a mensagem da camiseta.
Tenho lido comentários de gente se queixando nas redes sociais: Não queremos saber se sua filha é lésbica! Deixe-nos em paz! e coisas do tipo, quando o que tentamos manifestar era justamente o contrário”, observa. “A camiseta é para aquelas pessoas que não querem ouvir falar do tema, mas quando ficam sabendo de sua condição não são capazes de olhar além”.
Álvarez diz que não tem planos de vender a camiseta, mas convida outras pessoas a usarem o design disponível em sua conta do Instagram. “Não acredito que deva lucrar com essa mensagem tão bonita”, diz.

Fonte: El País, 03/07/2016

Microfone é cortado após menina mórmon revelar na igreja que é lésbica

quarta-feira, 5 de julho de 2017 0 comentários

Savannah diz à congregação que é lésbica (credit CNN News Day, via YouTube)

Microfone é cortado após menina mórmon revelar na igreja que é homossexual

Um vídeo de uma jovem menina mórmon revelando à sua congregação que é lésbica e amada por Deus – antes de seu microfone ser cortado por líderes da igreja local – está despertando uma nova rodada de discussões a respeito de como a religião lida com as questões LGBT.

Savannah, de 13 anos, falou no dia 7 de maio em Eagle Mountain, Utah, Estados Unidos, que acredita que ela é filha de pais maravilhosos que não cometeram nenhum erro ao criá-la. Seus comentários surgiram durante um espaço oferecido uma vez por mês, incentivando os fiéis a compartilharem seus sentimentos e crenças.
Eles não erraram quando me deram sardas ou quando me fizeram ser gay,” disse ela, usando uma camiseta branca e uma gravata vermelha. “Deus me ama da forma como eu sou”.
Sua mãe, Heather Kester, disse na última sexta-feira que sua filha estava decidida a se assumir na igreja para ser uma voz e um exemplo para outras crianças LGBT que sofrem para serem aceitas na Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Ela pediu que o nome completo de Savannah fosse omitido para proteger a sua privacidade.

A religião mórmon é um dos muitos grupos conservadores que se opõem aos relacionamentos entre pessoas no mesmo sexo, em meio ao aumento da aceitação social e da decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de legalizar o casamento gay. Ao mesmo tempo, a igreja mórmon está tentando incentivar um posicionamento empático em relação às pessoas LGBT.
Savannah e a coragem de se assumir
O vídeo, feito por uma amiga de Savannah que foi à igreja apoiá-la, chamou a atenção após ter circulado online este mês e aparecido em um podcast LGBT mórmon.

Enquanto alguns consideram Savannah uma heroína, outros mórmons não estão felizes que o fato tenha sido gravado e esteja sendo divulgado por críticos da religião, com o objetivo de denegrir a igreja.

Judd Law, o bispo que lidera a congregação ao sul de Salt Lake City, disse, num comunicado distribuído pela igreja que Savannah é “uma jovem menina corajosa” e que a congregação não está medindo esforços para que ela e sua família se sintam amadas.

No entanto, ele classificou a gravação não autorizada do momento, e a “demonstração inconveniente” de um grupo de adultos não-mórmons que estavam no local, como problemáticas.

Law disse que eles exploraram o evento para politizar o culto e violar o decoro da igreja. “Nós não falamos de política em nossas igrejas, e explorar esta gravação por razões políticas não condiz com a natureza das nossas reuniões,” disse ele.

Law não comentou nem explicou a decisão de dois de seus conselheiros de cortar o microfone. Ele não estava na igreja naquele dia.

Savannah estava no púlpito e leu um texto escrito por ela. Heather disse que não é mórmon, mas seu marido é, e Savannah foi criada sob os ensinamentos da religião.
Eu não escolho ser desta forma e isso não é um modismo,” disse Savannah à congregação no dia 7 de maio. “Eu não posso fazer alguém virar gay… Eu acredito que Deus quer que nós nos tratemos com bondade, mesmo se as pessoas forem diferentes, principalmente se elas forem diferentes”.
Seu microfone foi cortado após cerca de dois minutos – pouco depois de ter dito que não é uma “pecadora terrível” e que algum dia espera ter uma parceira, se casar e ter uma família. Ela se virou para ouvir algo que um homem usando um terno lhe disse e depois foi retirada do púlpito.

Heather disse que sua filha veio até ela e chorou no seu colo. A mãe disse à menina que seu discurso havia sido lindo e que Deus a amava.
Eu me senti arrasada por ela,” disse Heather, acrescentando: “Eu fiquei brava pela forma como eles lidaram com a situação”.
Após a igreja mórmon de Utah ter recebido críticas em 2008 por ajudar a liderar a luta pela proposta da Califórnia de banir constitucionalmente o casamento gay, líderes religiosos passaram vários anos desenvolvendo cuidadosamente um tom mais empático em relação à comunidade LGBT. O plano foi interrompido em 2015, quando a igreja adotou novas regras proibindo que crianças que vivem com pais homossexuais sejam batizadas antes de completar 18 anos.

Em outubro do ano passado, líderes da igreja atualizaram um site criado em 2012 para dizer aos membros que sentir atração por pessoas do mesmo sexo não é um pecado ou uma medida de fé, e que esta sensação pode nunca ir embora. No entanto, a igreja lembrou os membros de que ter relações sexuais homossexuais viola crenças fundamentais da doutrina, que não irão mudar.

Scott Gordon, presidente da Fair Mormon, uma organização voluntária que apoia a igreja, escreveu um post em um blog defendendo a igreja contra a onda de críticas decorrente do incidente.

Gordon disse que não havia problema no fato de que Savannah se assumiu homossexual durante seu discurso, mas que ela ultrapassou o limite quando caracterizou erroneamente os ensinamentos da igreja ao dizer que Deus gostaria que ela tivesse uma parceira e se casasse.
Embora você possa acreditar em quase tudo que quiser, você não pode pregar isso estando no púlpito,” disse Gordon.
Britt Jones, uma mórmon bissexual que lidera um podcast chamado “I like to look for Rainbows” (Eu gosto de procurar arco-íris, em tradução livre), que falou sobre a história de Savannah, disse que os líderes da igreja deveriam ter permitido que a menina terminasse seu discurso.
As questões homossexuais não são suficientemente debatidas na igreja,” disse Britt, que é casada com uma mulher e tem filhos. “Foi algo muito corajoso e admirável, especialmente para alguém tão jovem, não apenas pelo fato de que ela quis falar por si mesma, mas também porque quer ser uma voz para outros que estejam sofrendo em solidão”.

Brady McCombs, The Associated Press

Fonte: Yahoo Notícias, 28/06/2017

Bloqueada por dizer "sapatão"

terça-feira, 4 de julho de 2017 0 comentários

A advogada Eloisa Samy Santiago, 48, diz que foi censurada duas vezes pelo Facebook ao refutar discursos misóginos

Lésbica é bloqueada por exaltar a palavra 'sapatão' no Facebook
Remover conteúdos unilateralmente é arbitrário e viola o Marco Civil da Internet", diz o advogado José Milagre, dono de um dos escritórios pioneiros em direito digital. "Rede social não é juiz, não cabe a ela decidir o que fere ou não o direito à liberdade de expressão."
Basta a advogada Eloisa Samy Santiago, 48, postar "sapatão" que sua conta é bloqueada pelo Facebook, ela diz. Eloisa é reincidente: num dos posts, compartilhou frase de outro usuário —"Hoje acordei com vontade de matar uma mulher"— para refutar o discurso misógino. Ficou mais um mês sem a conta
Sou lésbica, mas não posso me chamar de 'sapatão' e ter orgulho disso. Sou censurada, sem chance de defesa."
O Facebook afirma que tem 4.500 funcionários treinados para diferenciar discursos de intolerância de conteúdos críticos a ela. Não tem funcionado para a advogada.

Numa rede com 2 bilhões de usuários ativos, são milhões de denúncias por semana. A empresa não divulga quantas dessas postagens são excluídas, mas é pouco factível que os revisores deem conta da tarefa. O Facebook anunciou que contratará mais 3.000 para a função.

Enquanto parte da sociedade cobra mais rigor das redes sociais em relação aos discursos intolerantes, outra parte acha que não cabe às plataformas definir os limites da liberdade de expressão.
Remover conteúdos unilateralmente é arbitrário e viola o Marco Civil da Internet", diz o advogado José Milagre, dono de um dos escritórios pioneiros em direito digital.
Para Sérgio Amadeu, pesquisador e membro do Comitê Gestor da Internet no Brasil, a lei 12.965/14 "veio para evitar que se destruísse a liberdade de expressão, ao impedir a remoção de conteúdo sem ordem judicial".

As redes sociais se valem dos seus termos de uso para ocultar ou remover conteúdos e até cancelar contas. Também há ferramentas que bloqueiam a interação entre usuários, como a opção de retirar caixas de comentários.

O vice-presidente de engenharia do Twitter, Edward Ho, afirmou em artigo que a rede de 310 milhões de usuários ativos no mundo vai coibir a criação de "contas abusivas e ocultar tuítes potencialmente abusivos ou de baixa qualidade".

Não há detalhes sobre o que seria abusivo ou de baixa qualidade. Em nota à Folha, o Twitter diz apenas que é prioridade combater o ódio.
Desde que as regras estejam dentro da lei, essa é a forma mais rápida de tirar do ar um post, caso a pessoa se sinta prejudicada", diz a promotora Fernanda Souza, do Núcleo de Combate a Crimes Cibernéticos da Procuradoria da República em São Paulo.
Para o advogado Milagre, é ilegal.
Rede social não é juiz, não cabe a ela decidir o que fere ou não o direito à liberdade de expressão."

Fonte: UOL, por Kleber Nunes, Thaiza Pauluze, 30/06/2017

Parlamento alemão aprova casamento entre pessoas de mesmo sexo

segunda-feira, 3 de julho de 2017 0 comentários

Casal se beija após votação no Bundestag
Casal se beija após votação

Parlamento alemão aprova casamento gay

Em votação histórica, Merkel vota contra legalização do matrimônio homoafetivo, mas diz esperar que aprovação traga coesão social. Nova legislação permite também que casais do mesmo sexo adotem uma criança.

O Bundestag (Parlamento alemão) aprovou o casamento gay nesta sexta-feira (30/06). Em votação histórica, sobre o chamado "casamento para todos", 393 parlamentares votaram a favor da legalização, e 226, contra. Houve quatro abstenções.
Angela Merkel vota contra casamento gay
Merkel: "Espero que a votação de hoje promova o respeito entre diferentes opiniões"
A chanceler federal alemã, Angela Merkel, que no início da semana mudou de posição e se disse a favor de liberar os membros da conservadora União Democrática Cristã (CDU) para votar de acordo com a própria consciência em vez de seguir as diretrizes do partido, votou contra a legalização.

"Para mim, o casamento previsto na Lei Fundamental [Constituição] é o entre homem e mulher", justificou Merkel após a votação, acrescentando que sua decisão foi pessoal, mas que espera que a aprovação do casamento homoafetivo tenha efeitos positivos na sociedade.

"Espero que a votação de hoje não só promova o respeito entre diferentes opiniões, mas também traga mais coesão e paz social", disse a chanceler federal.

Karte Homo-Ehe brasilianisch
Direito de adotar

A reforma concede direitos matrimoniais completos a casais homossexuais, incluindo o de adotar uma criança.

Merkel disse ter mudado de posição em relação à adoção por casais do mesmo sexo, à qual por muito tempo se opôs. Ela rotulou suas declarações sobre o tema no passado de "insatisfatórias". 

Pensei muito sobre a questão do bem-estar da criança e agora [...] estou convencida de que os casais do mesmo sexo devem poder adotar crianças", disse Merkel.

Desde 2001, gays e lésbicas estavam autorizadas a formalizar uniões civis na Alemanha. A permissão do casamento gay deve entrar em vigor até o final deste ano.

Todos os potenciais parceiros de coalizão de Merkel após as eleições legislativas de 24 de setembro, incluindo os social-democratas de seu principal adversário, Martin Schulz, têm defendido a legalização do casamento gay na Alemanha.

Fonte: Deutsche Welle, 30/06/2017

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