Professora demitida por ser homossexual receberá indenização da prefeitura

sábado, 9 de março de 2013 0 comentários


A professora aposentada Carmem Silvia Geraldo, de 57 anos, ganhou ação contra o município de Campo Grande, por ter sido afastada do cargo na Escola Municipal Onira dos Santos, na zona rural da Capital. Carmem mantinha um relacionamento homoafetivo com Noyr Randora Marques, que lecionava na mesma escola e também foi demitida, em uma clara atitude arbitrária e homofóbica da Secretaria Municipal de Educação (Semed), então administrada pelo prefeito Nelson Trad Filho (PMDB) e o secretário de Educação, Volmar Vicente Filippin.

Hoje, seis anos após ingressar com uma ação contra o município, a decisão favorável à Carmem foi publicada no Diário de Justiça de MS, e a Terceira Câmara Cível de juízes determinou o pagamento de R$ 30 mil por danos morais à Carmem. Para ela, fica de lição para todas as mulheres e homossexuais que existe punição para atos discriminatórios como o sofrido por ela. "Corram atrás de seus direitos. Pode levar tempo, como demorou para mim, mas, a justiça foi feita. Mais do que a parte financeira, o importante foi provar que eu era um boa profissional, e não tinha feito nada de errado para ser demitida", acredita.

O relato de Carmem e Noyr remete ao sentimento de impotência e indignação diante da perda do emprego, e à repressão dos próprios colegas de trabalho. Carmem começou a lecionar na escola em janeiro de 2007. À época, mantinha um relacionamento com Noyr há cerca de oito meses. Como a escola ficava afastada de Campo Grande, os funcionários moravam em um alojamento, no mesmo local. "Nossa equipe era composta por três professoras: eu, Noyr e Maria de Jesus, e mais dois professores. Sempre tive um bom relacionamento com todos, inclusive com a coordenadora e a diretora da escola", conta.

O erro, segundo Carmem, foi confiar demais em Maria de Jesus. Após três meses de trabalho na escola, Carmem contou para a colega que se relacionava com Noyr. "Nós três passávamos o dia juntas, e isso passava uma sensação de cumplicidade. Eu pedi para ela não comentar com ninguém, mas, talvez por inveja da nossa felicidade, ela contou para a irmã da diretora da escola, porque sabia que o namoro chegaria no ouvido dela".

A partir de então, teve início o "período mais turbulento" na vida de Carmem e Noyr. A diretora fez com que os funcionários da escola assinassem uma ata, em que o pedido da demissão de ambas era solicitado. "Ela encaminhou o documento para a Semed, que deu a orientação para se livrar de nós duas", conta Carmem que, por ser concursada, foi afastada do cargo, sob alegação de "demonstração de prática de atos incompatíveis com a função de educadora". Noyr, que era contratada do município, foi demitida sem justa causa. As duas garantem que nenhum dos 100 alunos que frequentavam a escola na época sabiam do relacionamento das professoras. "Ninguém sabia, nem os próprios professores. Éramos extremamente profissionais, e só tínhamos envolvimento fora do horário de trabalho. Foi um choque muito grande", garante Noyr.

Vitória veio apenas seis anos depois

Em 2008, Carmem optou por ingressar com uma ação contra o município. Ela pediu R$ 500 mil por danos morais, alegando a "ausência de procedimentos administrativos obrigatórios a administração municipal". "Na realidade, o valor que vou receber (R$ 30 mil) é irrisório, quando penso em tudo que passei. Dói muito, não dá para mensurar a dor", diz Carmem.

Noyr também entrou com uma ação no Ministério do Trabalho e, assim como no caso de Carmem, a prefeitura recorreu por diversas, e ela aguarda o resultado. "Ainda cabe recurso, mas, estou confiante de que, assim como chegou a vez da Carmem, a justiça também será feita por mim. Fico muito feliz pela decisão da justiça e sei que essa vitória não é só dela, é de todos os homossexuais e mulheres do país", comemora Noyr.

Hoje, as professoras não estão mais juntas - Carmem reside em Campo Grande e Noyr em Miranda, no interior do Estado - mas, garantem que os problemas fortaleceram o relacionamento e que elas pretendem continuar amigas. Procurados pela reportagem, o então secretário de Educação e o ex-prefeito Nelson Trad Filho não quiseram comentar o caso.

Fonte: MidiaMax News

Nova série de vídeos pelo Casamento Igualitário no Brasil

quinta-feira, 7 de março de 2013 0 comentários


Campanha Nacional pelo Casamento Civil Igualitário, lançada em abril de 2012, começa a divulgar uma nova série de vídeos que contará com a participação de artistas, comunicadores sociais e acadêmicos de distintas universidades e profissões, que vão responder, de forma clara e didática, a todas as dúvidas que muitas pessoas ainda têm sobre esse tema e a todos os questionamentos que habitualmente são feitos contra o direito de gays e lésbicas a se casarem.

No primeiro vídeo dessa nova fase, intitulada Perguntas e respostas sobre o casamento civil igualitário,  o apresentador Marcelo Tas e a advogada Maria Berenice Dias pessoas respondem àqueles que dizem ser contra o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo porque a finalidade do mesmo seria a procriação (segue o vídeo abaixo).

Em todos os países do mundo em que o debate sobre o casamento igualitário começou a ganhar força, perguntas como essa foram feitas. E outras semelhantes: “É verdade que a palavra casamento significa “união de homem e mulher” e por isso não poderia ser usado para definir a união entre pessoas do mesmo sexo? Por que os gays e as lésbicas não se conformam com a união civil? E qual é a diferença entre a união civil e a união estável? O que é que é mesmo a união civil? O casamento pertence às igrejas? Qual a diferença entre casamento civil e religioso? E o que é que a Bíblia diz sobre a homossexualidade? É verdade que o casamento sempre foi entre um homem e uma mulher? E o que acontece com a adoção de crianças? No Brasil, o casamento entre dois homens ou duas mulheres já é legal? Em todo o país ou apenas em alguns estados? O que foi que o STF decidiu? Em quais países o casamento entre dois homens ou duas mulheres é legal?”

Com informações da Campanha Nacional pelo Casamento Civil Igualitário

Comerciais com temática lesbiana (para conhecer ou relembrar)

quarta-feira, 6 de março de 2013 0 comentários

Fruto Proibido

Comerciais de carros, roupas, lingeries, bebidas e companhias de aviação com temática lesbiana. Para ver, rever e se divertir!

Casamento LGBT ainda não chegou à cidade maravilhosa

terça-feira, 5 de março de 2013 0 comentários

As noivas de Paris

Casamento gay para os paulistanos e nada para os cariocas

Os gays cariocas não estão com a mesma sorte do que os paulistanos. Na última sexta-feira (01), foi aprovado pela lei o casamento homossexual nos cartórios sem a necessidade da autorização judicial. Agora não é preciso registrar a união estável para depois solicitar a conversão em casamento nem será necessário recorrer à Justiça. Basta ir direto a um dos 832 Cartórios de Registro Civil e solicitar a habilitação.

Para entender a situação em São Paulo: até a edição da norma, os processos de casamento homossexual eram submetidos à apreciação do juiz que fiscaliza cada cartório. Se a resposta fosse positiva, o casamento era realizado. Caso contrário, o casal era obrigado a recorrer à Segunda Instância do TJ-SP (Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo), que na maioria dos casos autorizava a união.

“Foi o maior avanço pelos direitos iguais que tivemos no país na última década”, diz Carlos Tufvesson, da Coordenadoria da Diversidade Sexual, pasta da prefeitura do Rio. Tufvesson e o arquiteto André Piva, juntos há 17 anos, se casaram em 2011, com uma grande festa no MAM-RJ (Museu de Arte Moderna), mas não conseguiram a habilitação — o pedido de conversão de sua união estável em casamento foi negado pelo juiz da 1ª Vara de Registro Público da capital, o que contrariou a decisão dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que decidiram reconhecer união estável entre pessoas do mesmo sexo dia 25 de outubro de 2011.

“Esse é um momento muito importante, não só para os homossexuais de São Paulo, mas para toda a sociedade brasileira. Muita gente ainda não tem conhecimento, mas o casamento civil igualitário já é uma realidade em Alagoas, Bahia, DF, Espírito Santo, Piauí." Jean Wyllys  

“Entramos com uma ação no Supremo de descumprimento de sentença da plenária do STF, confiante na justiça do meu país. A lei tem que ser cumprida! A lei da união estável assegura o direito à conversão em casamento civil quando solicitada, tanto que vários casais do mesmo sexo já casaram em nosso país! No Rio, existe apenas uma Vara de Registros Públicos e ficou essa questão nada técnica tanto que alguns casais já tiveram essa decisão derrubada em segunda instância”, diz Tufvesson. No fórum central da cidade do Rio existe apenas uma única Vara de Registros Públicos, onde obrigatoriamente são encaminhados estes mesmos pedidos.

“É um avanço necessário, mas as pessoas têm que entender que casamento gay não é uma fusão de empresas e não é uma questão patrimonial. Não quero me casar para receber os bens do meu marido. O grande problema do sistema é não reconhecer que temos uma relação que é baseada no amor como entre qualquer casal que se ama. Não estou casado há dezessete anos por sexo!”, diz ele. “União estável é uma coisa, casamento é outra. A única maneira de ter igualdade de direito é com o casamento civil. Um exemplo: se eu for atropelado, o André não pode me ver no hospital porque não é família. A união estável não muda o seu estado civil”, explica Tufvesson.

O Deputado Federal Jean Wyllys, primeiro parlamentar assumidamente gay do congresso e um dos maiores militantes da luta pelo casamento civil igualitário em todo o país, diz: “Esse é um momento muito importante, não só para os homossexuais de São Paulo, mas para toda a sociedade brasileira. Muita gente ainda não tem conhecimento, mas o casamento civil igualitário já é uma realidade em Alagoas, Bahia, DF, Espírito Santo, Piauí. Com São Paulo comprando essa briga, ganhamos um apoio importante para igualdade continuar avançando no restante do país e garantir a mudança na legislação para que nenhum casal gay ou lésbico passe por diversos tipos de discriminação legal e social”.

Fonte: Coluna Bruno Astuto, Revista Época, 04/03/2013

Ator e diretor Clint Eastwood, republicano de longa data, também apoia casamento igualitário

segunda-feira, 4 de março de 2013 0 comentários

Clint Eastwood 
Na rapidez que a aprovação do casamento LGBT caminha internacionalmente, só vão ficar contra ele as alas mais reacionárias dos partidos conservadores, os fundamentalistas católicos e evangélicos, o PT e a Dilma Roussef (estes últimos em razão de seus conluios com a bancada evangélica).

Nos EUA, até os republicanos já apoiam. Entre eles, o aclamado ator e diretor Clint Eastwood, de Menina de Ouro, Gran Torino, Invictus, entre outros grandes filmes. Ao que tudo indica, os EUA deverão legalizar o casamento em todo o país em breve. 

Vejam o destaque e a notícia completa abaixo:

Destaque: Em uma surpreendente iniciativa, 131 republicanos – incluindo assessores dos ex-rivais de Obama na campanha presidencial Mitt Romney e John McCain – apresentaram um documento pedindo que a Suprema Corte revogue a proibição do casamento gay.

Inclusive o ator e diretor Clint Eastwood, um republicano de longa data, que apoiou publicamente Romney na Convenção Nacional Republicana, se uniu a antigos membros do governo da administração de George W. Bush, legisladores e ex-governadores que assinaram a proposta.

Pressão para que Supremo reconheça casamento gay

Obama acelera processos para legitimação da união de pessoas do mesmo sexo

Chantal Valery

Uma improvável coalizão que reúne grandes corporações, legisladores republicanos e até o cineasta Clint Eastwood ao governo de Barack Obama encontrou uma causa comum ao pedir à Suprema Corte dos Estados Unidos que legalize o casamento homossexual.

Os nove juízes do Supremo, que decidem alguns dos assuntos mais polêmicos para a sociedade americana, irão analisar – entre os dias 26 e 27 de março – a delicada questão das uniões entre pessoas do mesmo sexo.

O casamento homossexual está proibido a nível federal mas foi legalizado em nove estados do país e na capital, Washington DC, criando uma anomalia constitucional.

Em um movimento sem precedentes, o governo do presidente Obama apoiou oficialmente o casamento gay ao enviar um documento à Suprema Corte pedindo a anulação da lei federal que define o casamento como a união entre um homem e uma mulher.

Esta é a primeira vez que um presidente dos Estados Unidos apoia publicamente os direitos dos homossexuais diante da Suprema Corte.

Segundo o documento, a Lei Federal de Defesa do Casamento de 1996 (Defense of Marriage Act, Doma), que proíbe o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo, “viola a igualdade de direitos prevista na Constituição” através da 14ª emenda.

A Doma “nega a dezenas de milhares de casais do mesmo sexo, que estão casados sob leis estaduais, uma série de importantes benefícios federais disponíveis para os casais heterossexuais,” destaca a carta assinada pelo procurador-geral dos Estados Unidos, Donald Verrilli.

Na quinta-feira, o governo foi mais além e enviou um documento à Suprema Corte de Justiça para se opor à intenção do estado da Califórnia de proibir o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

O governo de Obama evocou a cláusula de “proteção igualitária” para questionar a constitucionalidade da “Proposição 8” da Califórnia, medida aprovada em referendo em 2008 e que proíbe o casamento gay nesse estado do oeste do país.

Obama explicou nesta sexta-feira a motivação diante de sua atitude: “não sentia que fosse algo que este governo pudesse evitar, sentia que era importante para nós articularmos o que acredito que este governo representa”.

Esta atitude foi qualificada como “histórica” pelo grupo gay Human Right Campaign.

Nove estados (Connecticut, Iowa, Maine, Maryland, Massachusetts, New Hampshire, Nova York, Vermont e Washington) assim como a capital do país, Washington, autorizam o casamento homossexual.

Em uma surpreendente iniciativa, 131 republicanos – incluindo assessores dos ex-rivais de Obama na campanha presidencial Mitt Romney e John McCain – apresentaram um documento pedindo que a Suprema Corte revogue a proibição do casamento gay.

Inclusive o ator e diretor Clint Eastwood, um republicano de longa data, que apoiou publicamente Romney na Convenção Nacional Republicana, se uniu a antigos membros do governo da administração de George W. Bush, legisladores e ex-governadores que assinaram a proposta.

Jogadores de futebol americano, assim como 13 estados do país, grupos de defesa de direitos humanos, sociólogos, especialistas conservadores e liberais se encontram entre os signatários da petição enviada à Corte para revogar a proibição na Califórnia e legalizar o casamento gay.

Proposta também foi apoiada por companhias como Apple, Nike, Facebook e Morgan Stanley.

Fonte: AFP, de WASHINGTON

Religião e Homossexualidade: por uma espiritualidade inclusiva!

sábado, 2 de março de 2013 0 comentários

Paulo Stekel
Paulo Stekel tem 42 anos, é natural de Santa Maria (RS), mas reside atualmente em Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre (RS). Músico, jornalista, professor autodidata de línguas sagradas e especialista em decifração de escritas antigas, cresceu como católico, porém se converteu ao Budismo em 1995. Assinou declaração de união estável, em 2007, em cartório de Porto Alegre, com seu companheiro de quase 12 anos e busca um templo budista para celebrar o casamento religioso.

Paulo também atua como ativista em assuntos relacionados a à espiritualidade e aos direitos LGBT por meio do blog e do movimento Espiritualidade Inclusiva que lançou simultaneamente em dezembro de 2011. Conversamos com ele, na entrevista que se segue, sobre seu trabalho e a difícil relação entre as religiões e a homossexualidade.  

UOO - Paulo, qual escola do Budismo você segue? E como o Budismo encara a questão da homossexualidade?
Paulo Stekel (PS)Eu sempre quis me aproximar do Budismo. Aos 9 anos de idade li meu primeiro livro que falava em Budismo e desejei intensamente ser iniciado por um lama tibetano. Me tornei budista em 1995, quando recebi iniciação na Escola Niyngma do Chagdud Gonpa orientado por S.E. Chagdud Tulku Rimpoche, em Santa Maria, minha cidade natal. Recebi ensinamentos de diversos lamas e instrutores budistas desde então. Ainda que tenha chegado ao Budismo formal através do Vajrayana, popularmente chamado de “Budismo Tibetano”, me considero apenas “budista”, sem qualquer preferência ou preconceito quanto a linhagens ou escolas. Respeito todas as linhagens e todos os mestres.

No tocante a como o Budismo encara a homossexualidade, posso dizer que ele é bem menos desfavorável ao assunto que as religiões teístas ocidentais. Não há condenações expressas na doutrina budista, nem obrigações, nem proibições. Tudo depende da percepção de cada praticante e de como ele transforma suas percepções em conhecimento, sabedoria e amor compassivo. Apesar de alguma ou outra referência levemente negativa quanto à sexualidade não-heteronormativa advinda de certos mestres budistas, são opiniões pontuais e não representam a palavra oficial do Budismo e muito menos do Buda sobre o assunto. Há países predominantemente budistas – como o Japão – que possuem uma farta literatura demonstrando que as relações homossexuais sempre foram aceitas de alguma forma na sociedade. Demonstrei isso no extenso (e polêmico) artigo O Buda Gay, que publiquei no blogue do Movimento Espiritualidade Inclusiva em 2012. 

UOO - Você é assumido nos ambientes budistas que frequenta? 
PS: Em todos eles e fora deles! Sou assumidamente budista e assumidamente gay em todos os ambientes, o que não significa desfraldar em cada lugar uma bandeira do Buda e outra do arco-íris. Mas, ao interagir com as pessoas, aos poucos minhas convicções – religiosas e sexuais – vão ficando claras para todos. Faço isso de um modo que julgo tranquilo, sem ficar me limitando nem forçando a barra para me expressar como sou em minha essência ou demonstrar aquilo no que acredito e vivo diariamente.

UOO - Seu companheiro também é budista? Se sim, já tentou “casar” em algum templo? 
PS: Meu companheiro não é budista. É umbandista. Isso nunca foi um problema, mas uma oportunidade muito preciosa de ambos conhecerem melhor a religião um do outro sem, com isso, ultrapassarem-se as fronteiras do respeito, descambando para algum proselitismo ou conversão de um para a religião do outro. Afinal, todo o envolvimento espiritual com uma tradição religiosa deve vir de uma decisão interna intransferível e intocável.

Quanto a “casar” em algum templo, no caso, um templo budista, já manifestei meu desejo. Contudo, quando fiz esse pedido ao Chagdud Gonpa, por volta de 2008, o argumento absurdo que me foi apresentado em contrário era o fato de que apenas eu era budista, meu companheiro não. Isso não me convenceu. Foi um deslize do Chagdud Gonpa que, infelizmente, só depõe contra a seriedade do trabalho despreconceituoso que se pretende estar sendo realizado lá. Diante desta negativa realizamos uma cerimônia simbólica de um “casamento universalista”, que foi dirigido por um sacerdote africanista e assistido por dezenas de amigos e amigas, em sua maioria, heterossexuais... 

Atualmente, estamos avaliando com outro grupo budista – não tibetano – a possibilidade da realização de tal cerimônia (sutilmente) negada pelo Chagdud Gonpa. 

UOO - Quando lançou sua página “movimento espiritualidade inclusiva” e quais são seus objetivos? 
PS: O blogue e o próprio Movimento Espiritualidade Inclusiva foram lançados simultaneamente em dezembro de 2011. O Espiritualidade Inclusiva é um movimento social nascido em Canoas (RS), mas com ação em âmbito nacional, constituído pelo coletivo de pessoas pertencentes à comunidade LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) e por seus simpatizantes, apoiadores e divulgadores. É um movimento social, organizado em coordenadorias com caráter consultivo e deliberativo, afinado com a agenda LGBT internacional e a Declaração dos Direitos Humanos, de natureza não-partidária e que não defende uma religião em particular em detrimento das demais.

O Movimento possui dois objetivos principais: enfrentamento, crítica e denúncia da homofobia em geral e da homofobia religiosa em especial; enaltecimento, visibilidade e apoio às ações inclusivas vindas do meio religioso-espiritual, sejam de religiões ou espiritualidades consideradas inclusivas, sejam ações pontuais advindas de religiões historicamente homofóbicas. 

UOO - Você deu o nome de “movimento” a seu blog porque também realiza atividades fora do ambiente virtual. Quais são elas e quais seus projetos futuros? 
PS: Exatamente. O blogue é apenas um dos canais do Movimento Espiritualidade Inclusiva. Temos um conjunto de propósitos práticos que, aos poucos, estão sendo implantados, como as coordenadorias estaduais e os Grupos de Encontro nas cidades, que objetivam o compartilhamento de experiências, entre outras coisas.

O trabalho dos Grupos de Encontro se baseia em 5 propostas: Inclusividade (Inclusão dos LGBT em todas as áreas da sociedade em condições de igualdade, em especial no meio religioso e espiritual); Combate à Homofobia (especialmente a homofobia religiosa); Formação do Cidadão LGBT (um cidadão LGBT consciente de seu lugar no mundo saberá lutar por seus direitos com muito mais propriedade); Movimento LGBT Amplo (Crítica, auto-crítica e afinação do discurso sempre que possível e lógico no que concerne às deliberações do que chamamos de Movimento LGBT amplo nacional e internacional); Cultura LGBT (estudo e compreensão desta cultura). 

Quanto ao mecanismo de ação, os Grupos de Encontro sempre consideram as 3 atividades principais do Movimento a ser desenvolvidas dentro e fora das reuniões: 

1ª – Produção de material teórico para efeitos práticos: artigos, debates, ensaios, teses, etc. Tudo isso deve ser compartilhado em nosso blogue oficial para acesso de toda a sociedade e para melhorar a argumentação da comunidade LGBT. Todos aqueles que possuem o dom da palavra e da escrita são chamados a contribuir com o movimento. 

2ª –Compartilhamento de experiências a respeito de inclusão, homofobia, descobrir-se LGBT, assumir-se, anseios espirituais, etc. Este compartilhamento pode ocorrer por escrito e publicado no blogue oficial na forma de relato e também durante as reuniões dos Grupos de Encontro, seminários municipais, regionais ou estaduais e outros eventos que venham a ser organizados.

Paulo Stekel (centro) na organização da 4ª Parada Livre de Canoas (RS), em novembro de 2012

3ª – Ações próprias ou em caráter de apoio do tipo organização de ou participação em palestras, seminários, encontros, intervenções, protestos, passeatas, auxílio a LGBTs em situação de perigo ou conflito de natureza religiosa, engajamento em políticas públicas ou campanhas do terceiro setor (ONGs LGBTs ou não) que tenham afinidade com as propostas do movimento, etc.

Fora isso, temos participado de eventos de natureza religiosa (diálogo interreligioso, marchas religiosas, eventos universalistas, etc.) e de natureza pró-LGBT (seminários, congressos e palestras sobre sexualidade e orientação sexual, paradas livres, concursos miss gay, etc.), como forma de mostrar nossa proposta tanto a religiosos quanto a LGBTs. Aqui em Canoas, fazemos parte da Comissão Interreligiosa que se reúne com a Prefeitura e somos uma das entidades da sociedade civil envolvidas na organização da Parada Livre da cidade, que tem se pautado por uma apresentação mais ativista e conscientizadora que apelativa ou fútil, mas sem retirar a diversão da festa. 

UOO - As religiões abrâamicas (judaísmo, cristianismo, islamismo) estão entre as grandes inimigas dos direitos homossexuais no mundo contemporâneo. Acredita que o preconceito contra os homossexuais é inerente a essas doutrinas ou tudo não passa de questão de interpretação dos textos ditos sagrados? 
PS: A interpretação dos textos sagrados acaba por ser, no final das contas, a práxis da religião viva, ou seja, da religião enquanto fenômeno histórico seguindo na linha do tempo. Isso é mais importante do que pensar que o preconceito é inerente. E essa interpretação, como a própria História demonstra, vai mudando ao longo do tempo. Em umas religiões, a interpretação avança mais rapidamente em direção a uma justiça social conectada com a modernidade; em outra, claudica e capengueia lentamente. É o caso, ao meu ver, das religiões abraâmicas, mas não em seu todo, pois as correntes de que são constituídas não possuem todas a mesma interpretação. Desta forma, em linhas gerais, o Judaísmo se furta a falar claramente no assunto e, desta forma, suas ações diretas contra LGBTs são menos intensas; o islamismo tende a falar abertamente contra LGBTs e seu modo intenso, quando conectado à lei islâmica (a sharia), acaba por justificar ações criminosas contra a vida de pessoas unicamente por causa de sua orientação sexual; o Cristianismo é mais leve no tocante a ações violentas contra LGBTs, mas isso não o livra de ser considerado um promotor da violência através da incitação causada pelo discurso homofóbico de alguns de seus líderes.

UOO - A que atribui o crescimento das denominações neopentecostais no Brasil? E qual a razão para sua obsessiva campanha contra os direitos LGBT? 
PS: Sendo bem sincero, acho que os neopentecostais crescem tanto porque suas doutrinas prometem coisas muito mais materiais que espirituais a uma população majoritariamente miserável, sem educação, sem perspectiva de desenvolvimento e abandonada espiritualmente por aqueles que eram seus preceptores até então, diga-se, os líderes católicos. Estes últimos se preocuparam mais em enriquecer a Igreja e esqueceram, de fato, dos pobres. Alguns católicos se insurgiram contra isso, e o Vaticano de certo modo os calou. Então, sobrou uma vaga para os neopentecostais, onde os mais letrados e espertos são os que ganham em cima dos mais ignorantes, salvo raras exceções.

A obsessiva campanha anti-direitos LGBT dos neopentecostais se deve, creio, a uma soma de fatores: o machismo inerente à sociedade brasileira; a normatização visível nos modos neopentecostais de exigir dos fiéis certa vestimenta, postura, adesão a “campanhas” arrecadadoras, estilo de vida “santa” e comportamento “cordeirinho” que aos gays não agrada nem um pouco, já que, em geral, quebram paradigmas; o literalismo na interpretação bíblica aliado a uma visão teológica deficiente pouco dada à contextualização e à adaptação à vida moderna – a não ser naqueles pontos que interessam à eficácia da evangelização. Este último fator é determinante pois, na definição de “vida santa” neopentecostal não há espaço para o que foge da família constituída por um homem e uma mulher. Então, o LGBT é considerado aberrante. 

UOO - O pastor Silas Malafaia se tornou provavelmente o maior inimigo dos direitos LGBT no Brasil, mas o ativismo parece não saber fazer-lhe frente. A que atribui essa ineficiência? 
PS: Cheguei à conclusão de que Malafaia até tem um certo grau de inteligência e sabe que está indo além da conta, mas se aproveita muito bem disso para chegar a seu objetivo: eclipsar seus concorrentes – diga-se, Macedo, Santiago e mesmo R. R. Soares. Pretende, inclusive, fazer a diferença, enfatizando o estudo teológico, a ética e a qualificação em seu staff de pastores. Pura estratégia de marketing! O que ele quer mesmo é crescer mais do que os concorrentes. Os LGBT nem sequer são seu alvo principal. Isso foi uma circunstância. Seu alvo principal, para quem souber perceber as sutilezas, são os outros pastores milionários que estão por aí. Ele apenas usa os LGBT para conseguir aparecer na mídia. Não tem gás para muito mais que isso.

Quanto à forma como muitos ativistas têm tratado a homofobia de Malafaia, um pouco da ineficiência se deve ao discurso ideológico de alguns e à ignorância sobre religião de outros, ou ambas as coisas. Contrapor fanatismo (ideológico) a fanatismo (religioso) em argumentação tem como resultado a anulação de ambos, gerando uma batalha sem vencedores. Radicalismos não funcionam. Sem conhecer o adversário e sua doutrina não é possível vencê-lo em seu próprio terreno. Nós, no Movimento Espiritualidade Inclusiva, procuramos conhecer o universo de todas as religiões e espiritualidades, para podermos confrontar a homofobia advinda delas em seus próprios campos de ação, sem qualquer tendenciosidade ideológica, partidária ou religiosa, já que nos pautamos no Estado Laico. 

UOO - Após a entrevista do pastor Malafaia a Marília Gabriela, surgiu uma campanha LGBT para cassar seu registro de psicólogo. Você não acha que essa ação é contraproducente já que ele não exerce a profissão? Não seria mais adequado tentar processá-lo por dano moral coletivo com base na analogia que fez entre homossexuais e bandidos? 
PS: Com certeza, seria mais eficaz, pelo menos no sentido de causar mais opinião pública. A cassação do registro foi uma atitude pequena, pouco expressiva nesse caso, já que, como você disse, ele não exerce a profissão de psicólogo. A cassação tem apenas um valor simbólico, mas uma responsabilização por dano moral coletivo teria um valor real em favor da dignidade da pessoa LGBT.

UOO - Graças a um acordo de lideranças, nesta última quarta-feita (27/02), o PT abriu mão da vaga da presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara em favor da sigla cristã PSC que faz parte da base de apoio do governo Dilma Rousseff. A lista desse partido para o cargo é encabeçada pelo deputado federal e pastor Marco Feliciano (PSC-SP), notório homofóbico e racista. Qual sua opinião sobre essa "novidade"?
PS: O Pastor Deputado Marco Feliciano é muito pior que Malafaia, não só por ser menos inteligente, mas também por ser muito mais mal-intencionado. Ao lado de Magno Malta, é um dos fundamentalistas mais ignorantes e perigosos do Brasil. Ter alguém assim presidindo a Comissão de Direitos Humanos na Câmara dos Deputados é como deixar a raposa cuidando das galinhas, algo absurdo e que, infelizmente, toda a base governista está permitindo.

Se ele acabar sendo mesmo o presidente da comissão e se, referendado, não for destituído, mesmo por força de apelo popular, seja pela petição da ONG Avaaz ou protestos generalizados, teremos em nosso país a semente do mais vil fundamentalismo cristão racista e homofóbico, algo só visto até aqui nos EUA, onde pastores insanos matam a si e a seus fiéis envenenados, armam atentados terroristas e atacam homossexuais de todas as formas possíveis. É isso o que queremos para nosso Brasil? Nós, do Movimento Espiritualidade Inclusiva, não!

Se ele ficar na comissão, nos juntaremos aos muitos que protestarão contra o que ele representa e, não querendo ser profético, podemos estar diante de algo que pode descambar para combates violentos de natureza ainda desconhecida... infelizmente."

UOO - Há muitas igrejas inclusivas cristãs, apesar de todo o preconceito da doutrina oficial. Você acha que vale mais a pena construir igrejas, templos, centros, etc... especificamente LGBT do que tentar mudar a cabeça das igrejas institucionalizadas? 
PS: Sendo, mais uma vez, bem sincero, acho que não. Se a tendência das Igrejas Inclusivas for funcionarem como uma alternativa LGBT às denominações homofóbicas que estão aí mais como espécie de igrejas PARA LGBTs, sua perenidade está ameaçada. Sou muito mais favorável à criação de divisões inclusivas LGBT nas religiões, igrejas e doutrinas já existentes do que novas denominações que se assemelham a “religiões gays”. É uma forma mais legítima de lutar por direitos. Isso se coaduna com o propósito principal da dignidade LGBT no campo religioso-espiritual, como entendido pelo Movimento Espiritualidade Inclusiva: buscar o reconhecimento por parte das religiões-espiritualidades da NATURALIDADE da diversidade de gêneros e orientações sexuais. Não buscamos tolerância, condescendência, mas o reconhecimento desta naturalidade cada vez mais comprovada por pesquisas científicas sobre a orientação sexual em animais, por exemplo. Mas, reconheço nas Igrejas Inclusivas um trabalho útil num sentido relativo quanto à conscientização da sociedade sobre a diversidade que circunda a todos.

UOO - Considerando o papel de boa parte das religiões no fomento e manutenção dos preconceitos contra as pessoas homossexuais, quais ações de contra-ataque considera imprescindíveis? 
PS: No Movimento Espiritualidade Inclusiva nos propomos a utilizar o meio mais eficaz para esse intento: pesquisar, reconhecer e denunciar o preconceito embutido nas religiões através de nossos estudos e artigos, como os publicados em nosso blogue. Isso causa o debate, a réplica, a tréplica e supre os ativistas mais inteligentes com os argumentos aprofundados adequados para se contra-atacar quando necessário. Aliás, entre os inúmeros elogios que os artigos de nosso blogue recebem estão exatamente aqueles que fazem referência ao quanto alguns ativistas encontram nele material de suporte a suas argumentações com a família – especialmente quando são famílias evangélicas – , no trabalho, na escola ou mesmo entre amigos gays ainda em conflito. O argumento é e deve ser nossa maior arma contra o preconceito. Afinal, se o preconceito é um pré-conceito, um conceito desenvolvido antes do conhecimento do objeto, a melhor forma de contrapô-lo é através do conhecimento que existe como um lapso; enfim, devemos nos propor a causar um colapso, se me permite o trocadilho. De um colapso, nasce o novo conceito, talvez menos discriminatório.

UOO - Por fim, deixe uma mensagem para nossas (os) leitoras e leitores. E grata pela entrevista. 
PS: Tenho vivido há 42 anos num processo intenso de busca por conhecimento externo e por autoconhecimento. Sei que sou mais do que aparento aos outros e a mim mesmo. Então, não sou um homem gay, um homem músico, um homem jornalista, um homem escritor, etc. Sou mais que os rótulos que possam alcunhar-me ou que eu mesmo venha a me dar. Quando percebi isso, e devo muito ao Budismo por chegar a essa compreensão, não me tornei um ativista LGBT fanático, mas alguém que busca a igualdade no sentido relativo, algo que se aproxima da justiça social desejada por todos, mas com diferenças de oportunidade, já que as capacidades individuais são variáveis. 

Minha principal mensagem a todos os LGBT é: conheçam-se primeiro, mas conheçam-se muito além de gêneros e orientações sexuais; conheçam-se por inteiro, por fora e, principalmente, por dentro. Assim, vocês serão muito fortes, inatingíveis em suas essências e realmente dignos como seres vivos conscientes e autoperceptivos. Desta forma, nenhum preconceito os atingirá no coração. 

Minha mensagem aos não-LGBT é exatamente a mesma, pois nesta visão não há separação entre LGBT e não-LGBT. Somos um todo complexo e, para conhecermo-nos melhor, o espelho do outro visto com serenidade pode ser um mestre fantástico. 

Sarva Mangalam! (Haja benefício para todos os seres sencientes!)

Movimento Espiritualidade Inclusiva 
e-mail: espiritualidadeinclusiva@gmail.com

Assine a petição contra a indicação do pastor Marco Feliciano para a Presidencia da Comissao de Direitos Humanos da Câmara Federal

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