Na noite do dia 19 de agosto de 1983, as então integrantes do Grupo Ação Lésbica Feminista (GALF), “invadiram” o Ferro’s Bar, no centro de São Paulo, para poder voltar a vender seu boletim Chanacomchana que fora proibido no local em 23 de julho de 1983.
Situado na Rua Martinho Prado n.º 119, em frente à sinagoga Beth-El, atual Museu Judaico de São Paulo , o Ferro’s Bar, desde sua inauguração em 1961, sempre fora reduto da boemia paulistana, frequentado por atores, atrizes, jornalistas, escritores, gays e prostitutas.
Na década de 70, porém, consagrou-se como ponto de encontro das lésbicas de São Paulo, apesar das relações entre os donos do bar e as clientes nem sempre terem sido cordiais. No caso das integrantes do GALF, os donos do bar implicaram com a venda do boletim Chanacomchana, por seu nome muito explícito, acusando as ativistas do grupo de estarem fazendo arruaça no recinto, embora, de religiosos a camelôs, todos pudessem vender de tudo lá dentro.
A manifestação para reverter a proibição do Chanacomchana no Ferro’s contou com o apoio de ativistas do então Movimento Homossexual, como o grupo Outra Coisa de Ação Homossexualista e o grupo Somos, feministas e parlamentares como a vereadora Irede Cardoso (PT), além da cobertura da Folha de São Paulo que registrou o evento em texto e fotos. Contou também com um lance cômico para seu sucesso: alguém, já dentro do bar, tirou o boné do porteiro que mantinha a porta fechada para as manifestantes e o atirou no meio das mesas. Enquanto ele saía atrás do boné, um rapaz abriu a porta do bar e as integrantes do GALF consumaram a “invasão”.
Figura de destaque do que os jornalistas Carlos Brickman e Vanda Frias chamaram de happening político, a ativista Rosely Roth subiu em algumas cadeiras e discursou pelo direito do GALF poder vender seu boletim num bar sustentado pelas lésbicas. A manifestação terminou com a vereadora Irede Cardoso mediando, junto aos donos do bar, a promessa de que não mais impediriam a venda do Chanacomchana no Ferro’s. E Rosely arrematou a conversa afirmando apropriadamente: “Ele só voltou atrás por causa de nossa força, de nossa união. A democracia neste bar só depende de nós!"
O bem-sucedido happening político do Ferro’s Bar garantiu não só que o GALF pudesse voltar a vender seu boletim sem problemas, como também que o estabelecimento colocasse anúncios no próprio Chanacomchana. Entrou para a História , resgatado 20 anos depois, em 2003, como Dia Nacional do Orgulho Lésbico, homenageando igualmente Rosely Roth , falecida em 28 de agosto de 1990.
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