Retrospectiva 2014: Como na novela Em Família, mulheres casadas que se apaixonaram por outras mulheres e foram viver com elas

sábado, 17 de janeiro de 2015

O casal formado por Viviane Soares e Rosana Ribeiro posam para ensaio artístico.
“Os sentimentos falaram mais alto que o medo de perder a família”, desabafa Viviane.
Foto: Fernanda Dias / Agência O Globo

De ‘Em família’ para a vida real: mulheres contam como descobriram a homossexualidade após amores héteros


Numa das tantas canções de Vinicius de Moraes, o Poetinha bem avisou: “Para viver um grande amor direito, é preciso ter muito peito, peito de remador”. Não há como negar: no mundo fantástico de flechas e cupidos, nem o mais exímio cardiologista consegue controlar o próprio coração. Pulsante no peito, ele sempre apronta poucas e boas e atiça sentimentos inesperados, como fez com Clara (Giovanna Antonelli), na novela Em família. Casada com Cadu (Reynaldo Gianecchini) — com quem tem um filho —, ela se viu, de repente, apaixonada por Marina (Tainá Müller).

Inspirada na trama do folhetim, a Toda Extra foi atrás de mulheres que viveram histórias parecidas. Pessoas que, após romances heterossexuais, escalaram pedras pontiagudas, entre a rejeição da família e a pressão da religião, para assumir, enfim (e felizes!), um novo amor com outra mulher. São exemplos de mulheres de peito, sem dúvida.

Conheça abaixo essas histórias:



Amor de mulher: Milhelle Capistrano (de roupa listrada) e Priscilla Capistrano posam no Parque Madureira
Amor de mulher: Milhelle Capistrano (de roupa listrada) e Priscilla Capistrano posam no Parque Madureira Foto: Nina Lima / Agência O Globo

Michele Capistrano e Priscilla Capistrano


A história de Michele, de 27 anos, e Priscilla Capistrano, de 28, parece caso de novela. As duas se conheceram no carnaval de 2010, num bloco em Vila Valqueire, na Zona Norte. Michele (de roupa listrada na foto) já havia rompido o relacionamento com o pai de seu filho — Kayo Henrique Lopes, de 7 anos —, mas continuava a morar com ele. Cuidadora de idosos, Priscilla vivia com o marido há quatro anos, num “casamento de corpos separados”, como define. Quando as duas trocaram olhares, no meio da folia, foi amor à primeira vista. “Ficamos no mesmo dia. Foi maravilhoso. Mas eu precisei chutar o pau da barraca. Como cresci em igreja evangélica, aquilo era uma coisa demoníaca”, conta Priscilla, que sofreu ameaças do marido quando revelou tudo: “Ele disse que preferiria que eu morresse a me perder para uma mulher”. Na família de ambas, a maioria dos parentes virou as costas para elas. “O meu pai falou que acabaria com a minha vida se soubesse que eu estava desonrando o nome de Deus”, desabafa Priscilla. “No fim, as dificuldades nos motivaram ainda mais a ficarmos juntas”, opina Michele. Além da tatuagem inspirada nos versos da música “Eu sei que vou te amar” — tema de abertura da novela das nove, coincidentemente —, as duas selaram o amor com um casamento na Igreja Cristã Contemporânea, em Madureira — instituição evangélica inclusiva frequentada pelo casal. Quem entrou com as alianças no templo foi o pequeno Kayo. “Ele insistiu muito para nos casarmos. Hoje, diz orgulhoso que tem duas mães e um pai”, conta Michele, entre as brincadeiras do pequeno, no gramado do Parque Madureira.



Viviane Soares e Rosana Ribeiro (de cabelo curto): “Sofremos discriminação na rua. Até quando andamos de mãos dadas, sentimos alguns olhares”.
Viviane Soares e Rosana Ribeiro (de cabelo curto): “Sofremos discriminação na rua. Até quando andamos de mãos dadas, sentimos alguns olhares”. Foto: Fernanda Dias / Agência O Globo

Viviane Soares e Rosana Ribeiro

“Sempre namorei homens, desde os 16 anos. Há sete, eu me apaixonei pela minha supervisora de estágio. Assumi no escuro, sem saber se ela era gay. No dia em que a gente ficou, entrei em estado de choque, pois, para mim, era impossível beijar uma mulher e gostar. Aí meu marido me viu trocando mensagens com ela e precisei contar tudo”, diz Viviane, de 27 anos, que, na época, tinha uma relação estável com o marido e o filho, hoje com 8 anos. Há oito meses, ela namora a motorista Rosana, de 39. “Sofremos discriminação na rua. Até quando andamos de mãos dadas, sentimos alguns olhares”, afirma Rosana. A família das duas também rejeita o relacionamento: “Minha mãe fez tudo para que o meu primeiro namoro lésbico não desse certo. Foram coisas horrorosas. Ela a perseguia na rua. Precisamos terminar por causa de tanta pressão. Mas faria tudo igual novamente. O sentimento fala muito mais alto do que o medo de perder a família”, desabafa Viviane, sem querer mostrar o rosto nas fotos.



Fabiana Ormonde e Marcelle Esteves enfrentaram a religião para assumir a homossexualidade. “Se fosse mesmo uma questão de escolha, optaríamos por sofrer isso tudo?”, questiona Marcelle.
Fabiana Ormonde e Marcelle Esteves enfrentaram a religião para assumir a homossexualidade. “Se fosse mesmo uma questão de escolha, optaríamos por sofrer isso tudo?”, questiona Marcelle. Foto: Pauty Araújo / Agência O Globo

Fabiana Ormonde e Marcelle Esteves

A religião foi a principal questão enfrentada por Fabiana, de 33 anos, e Marcelle, de 40. Enquanto a primeira cresceu dentro de uma família evangélica tradicional, a segunda praticamente nasceu na Igreja Católica. “Não era nem permitido eu pensar na possibilidade de ficar com uma mulher. O meu casamento estava bem, sem crises. Para resolver a situação, meu ex-marido sugeriu que mudássemos de estado. Mas não quis”, relata Fabiana, estudante de Psicologia, que ficou cinco anos sem falar com a mãe. Depois de assumir a paixão por outra mulher, a assistente social Marcelle desmarcou o casamento com o noivo quase na porta da igreja. “Para mim, foi um conflito interno muito grande. Por causa da religião, não entendia isso como algo natural”, conta. Hoje, as duas vivem juntas, com os três filhos de Fabiana. “Se fosse mesmo uma questão de escolha, optaríamos por sofrer isso tudo?”, questiona Marcelle, que torce por um beijo quente na novela.



“Viemos ao mundo para amar, não para sofrer”, sentencia a escritora Sissa Schultz, de 76 anos - e que, aos 40, se apaixonou por uma colega de trabalho.
“Viemos ao mundo para amar, não para sofrer”, sentencia a escritora Sissa Schultz, de 76 anos - e que, aos 40, se apaixonou por uma colega de trabalho. Foto: Roberto Moreyra / Agência O Globo

Sissa Schultz

“Nunca imaginaria que pudesse ter uma relação com uma mulher. Achava que estava doente e precisava salvar o casamento por causa das crianças”, conta Sissa Schultz, de 76 anos, que, aos 40, descobriu-se apaixonada por uma colega de trabalho. Quando contou para o marido, com quem tinha um relacionamento de 14 anos, ele ficou irritado e foi logo contar a história para a mãe de Sissa. “Eu achava aquilo tão inusitado que fiz oito meses de tratamento psiquiátrico”, lembra. Hoje, ela é muito bem resolvida com a questão sexual. “Dei uma guinada de 180 graus. Mulher é outro departamento: as relações de carinho são muito diferentes”, opina a escritora e moradora de Niterói, que mantém um namoro à distância com uma mulher de Brasília. “Temos que fazer valer tudo aquilo que queremos. Viemos ao mundo para amar, não para sofrer”, afirma ela — que, todos os anos, abre a Parada Gay de Niterói.

Dica da especialista

Se tivesse que conversar com Clara sobre as questões internas que a estão atormentando em “Em família”, a psicóloga Marília Zampieri logo explicaria as diferenças entre “escolha” e “orientação” sexual: “O psicólogo deve colaborar no processo de autoconhecimento do paciente. A orientação independe da escolha. Já as escolhas podem ser feitas contemplando ou não a orientação”. A tese reforça a ideia explanada pelas mulheres entrevistadas nesta reportagem: ninguém simplesmente “escolheria” a orientação mais discriminada pela sociedade. Especialista em terapia comportamental, Marília ainda considera a influência do meio social. “Em alguns casos, esse despertar acontece tardiamente. Se pensarmos em padrões sociais muito rígidos, haverá pouco espaço para que as pessoas considerem a hipótese de determinada orientação”.

Fonte: Extra, 26/04/14

Publicado originalmente em 09/05/14

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