Amores violentos: agressões entre casais de lesbianas 

terça-feira, 7 de agosto de 2012 8 comentários

Estabeleceu-se o dia 25 de novembro como dia de luta contra a violência contra a mulher. Neste dia, estatísticas da violência masculina contra as mulheres são apresentadas e campanhas são realizadas contra o problema. No entanto, um tipo de violência contra as mulheres tão nefasto ou até mais nefasto que a violência masculina geralmente é deixado de lado nestas abordagens. Trata-se da violência que as mulheres cometem contra as mulheres seja a violência mais generalizada da tristemente célebre inimizade feminina seja a violência doméstica entre mulheres.

Assunto indigesto para muitas, a violência entre mulheres pode deixar marcas ainda mais fundas que a violência masculina na medida que suas vítimas não têm a quem recorrer. Os homens violentos contam com o movimento feminista em seus calcanhares e, apesar de forma ainda precária, as mulheres heterossexuais dispõem das delegacias das mulheres e da proteção da heteronormalidade para se amparar. As lésbicas não.

Algumas já viveram inclusive o paradoxo de ter, como molestadoras, lésbicas que se dizem feministas (sic) e que contam com a indulgência do movimento de mesmo nome para com seus abusos. Outras que procuraram apoio em delegacias da mulher tiveram que encarar uma segunda violência, além da já sofrida: a violência do preconceito contra a homossexualidade.

Conscientes de que a violência física ou psicológica venha de quem vier, venha como vier, é sempre violência e deve ser combatida, abrimos espaço para iniciar uma discussão sobre este tema tão delicado reproduzindo abaixo o texto da psicóloga Kátia Horpaczky sobre violência entre mulheres e solicitando a nossas leitoras que nos enviem depoimentos ou relatos sobre casos dessa natureza para que juntas possamos mudar este quadro dramático.

Míriam Martinho

Amores violentos

Para algumas lésbicas, a agressão física é a melhor resposta para os problemas no relacionamento


Antes de começar, no entanto, vamos definir a violência doméstica entre casais como qualquer agressão física, sexual e/ou psicológica em que um dos parceiros tenta estabelecer e manter controle e poder sobre o outro. 

Existe sim violência doméstica (ou seja, dentro da própria casa) entre lésbicas. Muitas desconhecem que em uma relação dessa natureza possa existir esse lado negro da subjugação, da anulação do próprio ser humano, da intimidação, da dor e do silêncio. O raciocínio simples é de que quem ama, seja um casal hetero ou homossexual, não se agride. Não deveria haver espaço para agressões no amor. 

A violência doméstica entre casais gays só começou a ser estudada na década de 90 (no caso dos heterossexuais ela é pesquisada desde 1970) e ainda muita resistência em se falar deste assunto. Atualmente, a questão tende a sair da esfera do desconhecido, ao se desfazer dois mitos: o estereótipo de socialização da mulher (naturalmente, elas são não-violentas) e a visão idílica das relações lesbianas (seriam relações entre iguais, fora de toda forma de poder). O mito existe e seu objetivo é silenciar aquilo que a violência nas relações lesbianas desmascara. Acreditava-se que as lésbicas estavam imunes. Afinal, não estão.

Dou voltas e voltas a tentar descortinar um motivo, um único motivo que possa justificar a agressão física e a agressão psicológica. Não há, absolutamente, qualquer razão para que se tenha um comportamento violento com quem amamos. Ou então, não amamos.

Não quero com isto dizer que pensava que só os homens são violentos e que a relação lésbica estava imune por nela não haver homens. Nada disso. Minha convicção era que um amor sublime, como é o amor entre duas mulheres, estava imune. Também não consigo perceber o que leva um homem ou uma mulher a baterem no marido ou na mulher. Não digo que o amor entre casais hétero seja menos verdadeiro do que existente entre duas mulheres. O fato é que a violência entre os casais heterossexuais é, infelizmente, mais familiar. Os agressores sempre justificam a violência como conseqüência de um ato da parceira. “Ela me fez fazer isto”. “Ela provocou”. “Ela procurou por isto”. Algumas vezes, as próprias vítimas acreditam nisso.

As lésbicas também são vítimas de ataques de ciúmes doentios, de problemas psicológicos graves, de demonstrações de poder dolorosas e de manipulações psicológicas. A violência de um ponto de vista feminista é definida como a tradução do controle e do poder exercido sobre alguém. Existem outras definições:

Esta definição, como todas as que se referem às correntes feministas – está ligada à dominação masculina. Quando tomamos consciência da forma como é definida a violência nas relações lesbianas, encontramos pontos comuns entre elas, mas também algumas diferenças: “Uma lésbica sofre violência quando começa a temer sua companheira, quando modifica seu comportamento por causa de abusos sofridos ou do medo de abusos futuros, quando desenvolve uma consciência particular ou adota tipos de comportamento destinados a evitar a violência e isto contra seus próprios desejos e preferências. O poder e o controle podem se estabelecer sem agressão física, por meio de agressões psicológicas ou verbais. (Centre de Santé des Femmes de Montréal, 1995 : P.9)

Desta forma, assim como nas relações heterossexuais, trata-se do poder e controle que uma exerce sobre a outra. Assim: “Pelo poder e controle que exercem, tentam satisfazer suas necessidades pessoais sem nenhuma referência às necessidades e desejos da outra”. (Centre de Santé des Femmes de Montréal, 1995 : p.9)

O papel do ciúme quando ele entra na relação

O ciúme nem sempre vem de fora para dentro, pode vir de nossas inseguranças, fantasias e medos. Ele ameaça e pode até levar ao rompimento da relação. No relacionamento amoroso estamos sempre pensando no ser amado, no que já foi vivido, na troca de carinho e de prazer, sempre estamos construindo e reconstruindo a relação no pensamento, garantindo assim que continuemos investindo no futuro dessa relação, muitas vezes “idealizando”. E é aí que muitas vezes as coisas saem erradas, pois o que foi “idealizado” não corresponde à realidade. Muitas vezes, há uma grande distância entre o sonho e a realidade.

Uma relação amorosa não se sustenta só com sonhos, ela é baseada, principalmente, com a realidade, com a troca, com o relacionamento em si. A relação idealizada deve estar de acordo com a realidade e, para que isso aconteça, passamos a buscar sinais do amor, provas, atos e gestos amorosos. Quando não encontramos ou não encontramos do jeito que imaginamos, cria-se o ambiente favorável para a instalação do ciúme, que traz junto a possível introdução de um “terceiro” na relação.

Tipos ciumentos

Com o surgimento de um terceiro na relação, ou a simples possibilidade, conduz a alguns tipos de reação e de tentativa de resolução. Um desses tipos é o “tipo heróico” aquele que aceita e admite o interesse e até mesmo o amor do seu par por outra pessoa, tendo como fala: “Pode ir, se é isso que você quer” ou mesmo “Tudo bem, contanto que você seja feliz”.

Mesmo estando com raiva, magoado ou mesmo com ódio, tenta superar, se submetendo a tentar ser do “jeito” que a pessoa amada deseja, ou no mínimo do jeito que ele acha que o “amado” gostaria, passando a imitar e ter como modelo o “terceiro”. Neste caso, quando a relação termina, a pessoa sente-se obrigada a desistir da “amada”, e muitas vezes o faz sentindo muita raiva, mágoa e até ódio. Sua reação é de destruir o passado, as lembranças, as memórias, os presentes, tendo em seguida a apatia e até mesmo a depressão.

Outro tipo é o “passional” sua característica é baseada na exclusividade do prazer. Por exemplo: “Só ela me dá prazer”, “Sem ela não vivo”, não é apenas uma busca é muito mais do que isso, chega a ser uma necessidade, passando do desejo, do prazer, para a dependência e necessidade.

Este tipo acontece na esfera do pensamento, então muitas vezes a introdução do “terceiro” é fantasiosa, só acontece na fantasia, sem correspondência na realidade. O ciúme neste tipo é muito forte e persecutório, podendo tornar a vida da “amada” um verdadeiro inferno.

Existe ainda a “paixão unilateral” que se estabelece na eminência de uma separação e o que o ciúme se instala imediatamente, pois a pessoa vive o tempo todo achando que vai ser abandonada, rejeitada, trocada, descartada. A “amada” passa a ser a única fonte de prazer. “Prefiro morrer a perder a pessoa amada”. A pessoa passa a se menosprezar, se desqualificar, passando a achar qualquer pessoa melhor e mais interessante do que ela. Acha que só ela ama e que só ela sofre. Tem ciúmes da própria sombra.

Doses de ciúmes

Podemos falar em três gradações de ciúmes. O ciúme normal, a pessoa fica triste, tem sentimento de perda ou mesmo pensa ter perdido o “amado”, causando dor e sofrimento. A pessoa sofre uma ofensa ao seu narcisismo e sua auto-estima fica comprometida. Pode também se sentir responsável pelo rompimento e fica ainda mais deprimida. Essas situações podem ser reais e atuais, mas não são sempre racionais, porque muitas vezes podem ter suas raízes em fases mais infantis.

No ciúme projetado a sua característica é a própria infidelidade praticada por um dos parceiros ou no desejo de ser infiel. Não podemos descartar que a fidelidade sempre estará sujeita a tentações, pressões e cobranças. As pessoas que tendem a projetar o ciúme sempre estão negando seus desejos, suas dificuldades ou até mesmo suas infidelidades. Quanto mais sentem essa pressão, mais elas suspeitam da fidelidade do “amado” e assim aliviam sua própria consciência.

A terceira gradação é o ciúme delirante, classificado nas formas da paranóia. É a gradação mais forte, chega a ser patológico. Nesse tipo, o ciumento transforma a relação dual em triangular e o “amado” passa a ser objeto de ressentimento, de frustrações atuais ou do passado, o “amado” passa ser a parte ruim da pessoa. Nesse nível, o ciumento se sente enganado, abandonado, e começa a criar uma realidade cheia de histórias e mentiras, passa a acreditar nessa realidade e começa a reagir. As formas de contra-ataque podem ser das mais brandas até as mais violentas. O ciumento vai envolvendo o “amado” nas suas histórias, confundindo-o, criando pseudo provas com interpretações delirantes. “Estou sendo traído”.

Um manual sobre o tema violência doméstica lançado pelo Grupo Gay da Bahia (GGB) fez lembrar que entre casais de homossexuais, lésbicas, travestis e transexuais também podem ocorrer ameaças, humilhações, tapas e até mortes — nada diferente do que ocorre entre alguns casais heterossexuais. A diferença, quando ela existe, é que nos casais heterossexuais é o homem que costuma bater; nos outros, geralmente, é o mais fraco que apanha.

Números não oficiais divulgados pelo GGB estimam que mais de uma centena de gays, lésbicas e travestis (GLTs) são assassinados por ano, no Brasil. Segundo Luiz Mott, professor da Universidade Federal da Bahia e fiador desses números, entre cinco e dez desses casos seriam de amantes que mataram parceiros.

Para finalizar, gostaria de lembrar que quando nos relacionamos amorosamente, deveríamos também fazer uma distribuição dos nossos sentimentos e afetos em outras relações como amizade, família..etc. Dessa forma, o “outro” não se tornará “tudo” para nós. É importante manter uma vida independente do relacionamento amoroso, pois isso ajuda a enriquecer a relação. São experiências e histórias que podem ser trocadas com a parceira e que vão ajudar a enriquecer e fortalecer o relacionamento no dia-a-dia. É importante lembrar que cada um de nós tem uma história de vida, interesses diversos que podem ser compartilhados. Se, por ventura, você tem uma relação sufocante com sua parceira que não está fazendo bem a você, nem a ela, é preciso conversar. Não destrua uma relação com agressões, sejam físicas ou psicológicas, elas podem causar feridas e mágoas desnecessárias. Não deixe a situação chegar a este ponto. Pense a respeito. Se não conseguir chegar a uma conclusão, procure ajuda. Não manche sua história de amor.

Kátia Horpaczky é Psicóloga Clinica, Psicoterapeuta Sexual de Família e Casal

Publicado originalmente, no site Um Outro Olhar, em 24/11/05

Fantástico aborda a discriminação familiar, a mais dolorosa das homofobias

segunda-feira, 6 de agosto de 2012 0 comentários

Homofobia familiar, a mais dolorosa
Por Míriam Martinho

O programa Fantástico deste último domingo apresentou um quadro sobre a homofobia familiar, sem dúvida a mais dolorosa das homofobias. E a mais indiscutível.

São poucas as pessoas homossexuais que passaram incólumes a essa triste experiência que marca, às vezes de forma indelével, toda uma vida. Diferente do preconceito e da discriminação que vem de estranhos, a homofobia familiar vem de quem deveria nos amar e proteger e em relação a quem somos mais vulneráveis emocionalmente.

Mesmo considerando que os pais de homossexuais também são vítimas da homofobia, já que introjetam os preconceitos sociais, a relação entre país e filhos é vertical, os pais são a autoridade da casa e, não raro, chegam a expulsar os filhos do lar por conta desses preconceitos, cegos quanto ao destino da jovem ou do jovem rejeitados. Quando não chegam a esses extremos, vários passam a destratar os adolescentes dentro de casa, tornando a situação dos jovens muito difícil.

Por isso, pode-se dizer que a Globo deu mais uma bola dentro, em prol dos direitos LGBT, como já vem se tornando rotina por meio de seus programas e novelas. Discutir o tema da homofobia familiar, num dos programas de maior audiência da televisão brasileira, é um grande passo para que o tema comece a ser debatido de forma mais ampla pela sociedade e ideias surjam de como pelo menos amenizar esse tipo de conflito tão amargo.

Abaixo o vídeo com o quadro do programa sobre o assunto e o texto referente.

Principais agressores de homossexuais são da própria família

Estudo analisou quase sete mil denúncias de violência física e psicológica. Os casos foram registrados principalmente pelo Disque 100, um serviço de denúncias contra violações dos direitos humanos.

Uma pesquisa sobre homofobia no Brasil revela: os principais agressores dos homossexuais são da própria família. O Fantástico abriu uma linha especial pra ouvir essas histórias.

“Violência física, discriminação, humilhação e ameaça. tudo isso eu já passei e passo na minha casa. O tempo todo ele ficava falando que eu tinha que sair de casa, que ia me dar um sumiço. Meus dois irmãos também não aceitam, não falam comigo. Eles falam que eu tenho uma doença”.
O relato é de um jovem, que tem medo e prefere não mostrar o rosto. Ele descreve o tipo mais comum de agressões a homossexuais no Brasil. Segundo um relatório pioneiro da Secretaria Nacional dos Direitos Humanos, os principais agressores são da própria família.

“É como se eu morasse em casa, mas fosse um estranho. Eu me sinto um estranho hoje. Eu não me sinto um membro da família”, diz.

A amostra é grande: o estudo analisou quase sete mil denúncias de violência física e psicológica. Os casos foram registrados principalmente pelo Disque 100, um serviço de denúncias contra violações dos direitos humanos.

“Justamente para que no momento em que a pessoa faz a denúncia, ela seja recebida com todo o respeito e exista uma investigação. Nós identificamos também que as circunstâncias de impunidade também no caso dos crimes de caráter homofóbico contribuem para a continuidade dessa violência”, diz a ministra da Secretaria de Direitos Humanos Maria do Rosário.

A maior parte das agressões aconteceu dentro de casa. E mais: são as mães quem mais agridem os filhos por serem gays. Uma professora universitária sabe há 20 anos que seu caçula é homossexual. E há 15 comanda uma instituição para reaproximar pais e mães de seus filhos gays.
“Para uma mãe é muito difícil. Falou homossexual hoje em dia a maioria das pessoas já aceita, como filho do vizinho. Mas filho da própria pessoa ainda é difícil”, diz Edith Modesto, presidente do Grupo de Pais de Homossexuais.

Ela diz que muitos filhos têm medo de como os pais vão reagir.

“Uma vez, um deles me falou e eu nunca mais me esqueci. Ele falou ‘Edith, para o meu maior amigo eu já contei, porque se eu perder o meu amigo, eu posso arrumar outro. Mas se a mãe não me quiser mais, como eu vou fazer?’”, conta Edith.

Para Felipe, que trabalha no grupo como voluntário, o mais difícil foi contar para a mãe.
“Eu tinha medo de falar, mas ‘eu acho que ela vai agir diferente, acho que não vai ser assim’”, conta o estudante Felipe Santos Mário. Mas foi.

“Tivemos um desentendimento, ela me bateu e aí dois dias ou um dia depois eu saí de casa. Ela falou ‘olha, eu não quero mais você aqui porque não dá, você não muda e eu não aceito. Meu filho pra mim morreu quando você falou que era homossexual’", lembra Felipe.

O Fantástico abriu um canal exclusivo para ouvir histórias de homofobia. Foram 50 relatos em apenas 24 horas. São casos de humilhações, ameaças e agressões contra filhos, netos e irmãos.

“Durante três ou quatro anos foram violências constantes. Surras, meu pai me jogava no chão e batia com os dois pés em cima de mim. Meu pai falava que ia orar para Deus para Deus me matar, para Deus me levar porque ele não queria ter filho homossexual”, relata um homossexual.

“Ele chegou em casa e começou a me agredir. Disse que eu pagarei tudo que eu faço, ele me ameaçou, ele disse que eu morrerei de câncer pelas coisas que faço”, diz outro.

A violência não é sempre física. Mas o sofrimento é indisfarçável.

“Eu vejo meus primos crescendo, meus primos levando as suas respectivas namoradas pra um encontro de família e eu não poder levar a minha. Isso é muito triste pra mim porque é uma discriminação na minha família”, reclama mais um.

A jovem que gravou esse depoimento também não quis mostrar o rosto.

“Eu queria ter amigos na minha casa, é uma coisa que eu não tenho. Eu convivo com os meus avós desde que eu nasci e hoje, depois que eles descobriram que eu sou homossexual, não existe mais paz na minha casa, não existe mais diálogo. Eu vivo com dois estranhos. Eu não escolhi ser assim, eu simplesmente sou assim. A única coisa que eu queria pedir para eles é que eles me respeitassem”.

Cláudia Jimenez sofre  de homofobia internalizada?

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A atriz Cláudia Jimenez, de 52 anos, em entrevista a Folha de São Paulo, em 13/03/10, afirmou que se relacionava com mulheres porque era muito gorda e não se achava com cacife para seduzir um homem. Igualmente afirmou que sua veia comediante surgiu como forma de defesa contra o sentimento de rejeição. Tirando uma de tudo procurava mostrar que não ligava se alguém a chamasse de feia, embora ligasse. Transcrevo sua fala abaixo:

"Não tinha sensualidade, era muito mais gorda do que sou hoje. Não tinha forma nem vaidade. Achava que não tinha cacife para seduzir um homem. Como tinha de ser amada, me joguei nas mulheres", diz.

"Com o humor, foi a mesma coisa: me servia de escudo, de instrumento de defesa. 'Olha como sou 'fodona', como nem ligo se alguém me chamar de feia!' Mentira!" 

A patrulha ideológica do politicamente correto já saiu crucificando a artista, reduzindo uma questão complexa ao mínimo denominador comum da homofobia internalizada e generalizando que ela deu a entender que lésbicas são lésbicas porque não conseguem atrair os homens. Algumas chegaram a afirmar que hoje Jimenez sai com homens jovens porque os banca.

Podemos dizer que Cláudia deve ter tido uma vida miserável já que suas escolhas, em dois departamentos fundamentais da vida, como o amor e o trabalho, foram determinados por sentimentos de rejeição, mas não podemos nos colocar no lugar dela e afirmar que suas declarações sejam fruto de mera homofobia internalizada. De repente, ela descobriu que preferia homens assim como muitas mulheres – como a gente sabe muito bem - passam a vida com homens e, subitamente, tomam coragem para viver com mulheres, seus verdadeiros objetos de desejo. 

Sobretudo, Cláudia falou de sua experiência pessoal e não em nome das lésbicas. Acho que seria mais proveitoso refletir sobre a questão da obesidade no meio lésbico que é por demais condescendente em relação à falta de cuidado de muitas com a boa forma. Agora, além dos aspectos estético e de saúde relacionados à obesidade, vale a pena se perguntar se a gordinha não está com você porque não se acha em condições de arrumar um homem. Chato, né?

Publicada originalmente, no site Um Outro Olhar, em 17 de março de 2010

Diálogo para o entendimento

domingo, 5 de agosto de 2012 0 comentários

Tenha um ouvido amigo para sua amada
Talvez mais difícil do que encontrar a princesa encantada seja nos entender com ela. Depois de um tempo que nos parece infinito percorrendo bares, boates (até aquele som alto e música bate estaca você aturou para encontrar a sua bela), teclando nos chats e frequentando a feirinha da Praça Benedito Calixto aos sábados (se você ainda não foi, e está sem princesa encantada, agarre essa dica), você finalmente encontra sua cara metade para viver com ela felizes para todo o sempre. 

Como já se disse aqui, os romances de amor estampam o the end imediatamente após o happy end por bons motivos. Não vá o happy end espichar demais e por descuido revelar o que vem depois do the end! Porque, então, pode ser tarde demais: o público há de descobrir com horror e espanto que o que vem a seguir não é só lua de mel, tesão e felicidade, mas também uma certa dose de passio (de onde vem palavra paixão) que é sofrimento. 

Não é um sofrimento amargo, infeliz, mas é um sofrimento. Falo aqui da adaptação. Passados os primeiros momentos de enlevo e encantamento, aquelas semanas de paixão acelerada, olhos brilhando, suor nas mãos e muita taquicardia, quando o casal começa a se acomodar enquanto casal, aí sim se inicia o verdadeiro relacionamento, a possibilidade das enamoradas criarem um mundo e uma vida para si mesmas. E é aqui que a porca torce o rabo e a coisa pega. Muitas vezes é aqui, onde começa o relacionamento, que muito namoro vai pro brejo. Conheci uma mulher fascinante que tinha namoros arrebatados, vivia intensamente a paixão e, depois de 3 meses, todo aquele frenesi amoroso se esvaía pelo ar e acabava o namoro. Não raro nem a amizade ficava. 

Por quê? Porque mais difícil do que encontrar a princesa encantada é nos entendermos com ela. Você já deve ter ouvido comentários desse tipo: F. é divertida e engraçada, mas quando está com a namorada muda. Ou este outro comentário que alguém faz da própria namorada: Impossível conversar com ela, não dá. 

A base do entendimento é o diálogo, um princípio da diplomacia que deveria ser estendido a todas as relações, principalmente as amorosas. Infelizmente, há duas coisas que não nos ensinam nos bancos escolares: relacionamento amoroso (só aquelas aulas de biologia com mitose e meiose pelo meio) e parental abilities (habilidades a adquirir para o exercício da paternidade e maternidade), que começa a ser uma disciplina nos Estados Unidos, mas que ainda não chegou por estas bandas. 

Entendimento e diálogo, lamentavelmente, exigem paciência e tolerância. Uma pena que paciência seja uma condição sine qua non, porque pedir paciência já é demais para quem quase a perdeu na busca da amada. Observe. Quantas vezes a namorada traz um problema e sua cara metade mal a ouve e já lhe sapeca uma solução prática, rápida, segura e, mais importante do que nunca, eficaz para fazer com que a outra feche a boca, cale aquele problema e mude para um assunto mais agradável? Se ela volta a tocar naquela tecla, o que fazemos? Repetimos o refrão com ar de mestra cansada: “já não lhe disse que é para fazer isso e aquilo?” E nos admiramos quando ela não segue nossa sugestão. E se a amada cai na asneira de contar suas desventuras a uma terceira pessoa na nossa frente, quantas de nós não dizemos: “já falei como resolver! Ela só se queixa e não faz nada do que eu disse. Não sei porque então me pede ajuda!” 

Onde está o entendimento? Não está, porque ou falta paciência, ou falta amor para ouvir os lamentos, queixas da amada em relação ao trabalho, família etc. O que fazemos é encerrar a sessão de lamúrias e queixumes com uma solução qualquer que tem por objetivo não tanto ajudar a amada, mas nos poupar de ouvir seus problemas. Desafortunadamente, não há soluções prêt-à-porter, prontas como roupas nos cabides. Você diz o seu número e a cor desejada e, záz, eis a solução para seu problema. 

Somos complexas e as soluções também o são. Cada pessoa tem uma cara, um estilo, uma forma de encarar a vida e vivê-la. O que serve para Maria não serve para Zélia. As únicas soluções razoavelmente boas são aquelas sob medida. Assim, quando sua namorada começar a falar de seus problemas, não lhe proponha uma solução que serve para você. Dificilmente servirá para ela, terá a cara dela e o estilo dela. 

Ouça. A maior parte das vezes, o que as pessoas e, namoradas principalmente, querem e precisam é de um ouvido amigo. Alguém que as ouça tantas vezes elas tenham necessidade de falar, queixar-se, reclamar. Geralmente, de tanto falar, começam a entender melhor o problema e sua dinâmica, e hão de descobrir, por si mesmas e a seu modo, a melhor saída. Que é a saída do jeito delas e não do seu ou do meu jeito. 

Saber ouvir é um passo importante para transformar uma grande paixão num grande amor.

Stella C. Ferraz é autora dos romances lésbicos Preciso te ver, A Vilas das Meninas e Pássaro Rebelde, publicados pela ed. Brasiliense.
Publicado originalmente no site Um Outro Olhar em 18/07/04

Clipping: Plano de combate à homofobia: governo engata marcha lenta

sexta-feira, 3 de agosto de 2012 0 comentários

Governo enrola a bandeira do arco-íris
O governo da presidente Dilma Rousseff perdeu a pressa em relação ao lançamento do Plano Nacional de Cidadania para Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transsexuais. Em maio, assessores envolvidos na elaboração da proposta haviam revelado que o Palácio do Planalto estava disposto a acelerar o processo e que o prazo de lançamento, previsto para dezembro, poderia ser adiantado para agosto ou setembro. Agora, porém, não se fala mais em prazos.

No mês passado, o projeto foi discutido e aprovado no conselho nacional que analisa políticas para o setor, vinculado à Secretaria de Direitos Humanos. Na discussão, os conselheiros enfatizaram o combate à homofobia.

Com o sinal verde, a proposta seguiu para a Casa Civil da Presidência da República e, de lá, para os 18 ministérios que participarão das ações. Eles têm prazo até setembro para devolver o documento e as suas propostas orçamentárias, isto é: quanto pretendem desembolsar para tocar o plano.
Nesse ritmo, dezembro voltou a ser o horizonte mais provável para o lançamento. Mas não há garantias. De acordo com um assessor do governo, o que se pode dizer com segurança é que o assunto está sendo analisado com muita atenção.

O que preocupa o governo agora são as eleições municipais e suas articulações políticas. Elas envolvem, é claro, grupos ligados a igrejas evangélicas, cada vez mais presentes na cena eleitoral e, na maioria das vezes, contrários às reivindicações dos gays. Só em São Paulo, 15 pastores vão concorrer a cadeiras na Câmara dos Vereadores.

Passada a eleição, o plano pode enfrentar outro foco de resistência religiosa. Com a proximidade da vinda do papa Bento 16, ao Brasil, prevista para julho de 2013, a cúpula da Igreja Católica deve elevar o tom de seu discurso contra o aborto, a concessão de direitos aos homossexuais, a política de prevenção da aids. Após a derrota no Supremo Tribunal Federal (STF), no julgamento da questão da anencefalia, o episcopado brasileiro tenta exibir mais combatividade.

Fonte: Ronaldo Arruda

Moda para lesbianas: entre as recos e as andróginas

quinta-feira, 2 de agosto de 2012 2 comentários


Por Míriam Martinho

O mundo da moda, dos cuidados com o corpo e a aparência sempre foram considerados terrenos inóspitos para as sapatas, pouco ligadas em geral - como os homens heterossexuais - a esse departamento da vida.

Entretanto, como tudo felizmente muda, alguns homens aderiram ao metrossexualismo, passando a se preocupar também com o visual e os cuidados corporais. Idem para muitas lésbicas, como ficou claro com a turma da série The L Word. No exterior, inclusive os cortes de cabelo estilo soldado reco (como na foto acima) passaram a ser tidos como uma marca registrada da visibilidade lésbica, estilo que, como escolha, tudo bem, mas como modelo se torna bem chato. Como todos os modelos são, diga-se de passagem.

Agora as irmãs de origem coreana A Lee e Vee Lee, dos EUA, decidiram criar roupas para mulheres com base em trajes masculinos. E lançaram uma linha de roupas, chamada Androgynous, que, segundo dizem, acabará com a frustação das mulheres que gostam de camisas, calças, coletes e jaquetas mas não encontram o que lhes sirva no departamento masculino das lojas de departamentos.

Segundo as manas, a linha Androgynous foi criada para celebrar o que lhe torna diferente e a destaca do resto do mundo. Não por menos o mote da coleção declara: "É preciso coragem para ser genuína". A intenção das estilistas é lançar a coleção neste segundo semestre (outono no hemisfério norte) e para isso estão pedindo apoio para o projeto.

Pessoalmente, prefiro o look andrógino do que o reco e gostaria muito que alguma estilista brasileira inaugurasse esse filão em nossa terra. É um visual que mescla o clássico com o despojado, num resultado bem moderno.

E lésbicas masculinas ou femininas devem sim se cuidar. O modelito baranga, que muitas adotaram por séculos, já era. Pior ainda quando a baranga inventa teorias supostamente feministas para justificar o que não passa de desleixo e negligência consigo própria.

E você se identifica mais com as recos, as andróginas, ou seu estilo é o feminino? 

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