Batom ou Camisa Xadrez?

segunda-feira, 30 de abril de 2012 1 comentários

Da camisa xadrez da butch...
Autora: Stella Ferraz

Uma das razões pela qual Joana D’Arc foi para a fogueira é porque insistia em usar roupas masculinas. Embora houvesse também razões de ordem política, os trajes que a jovem francesa usava escandalizavam e, pior, estavam absolutamente fora das normas prescritas para as mulheres da época. Se o hábito não faz o monge, com certeza lhe dá a aparência de um. Há um dito na comunidade árabe que afirma que eles recebem as pessoas como elas se apresentam, mas se despedem de acordo como elas são. 

A verdade é que o vestuário tem muito a ver com a mensagem que queremos dar de nós mesmas. Até recentemente o traje discriminava as pessoas por idade (crianças, jovens, adultos e idosos) e classe social (realeza, nobreza, burguesia, povo): a menina devia vestir-se de uma determinada forma, a mulher casada de outra e a viúva ainda de um terceiro modo. O mesmo com os rapazes; usavam calças curtas em pequenos, e o uso de calças compridas, marcava para eles a passagem a um estágio mais maduro de vida.

No decorrer do tempo, a roupa tem sido um sinal exterior de classe social e status na sociedade. Os escravos brasileiros eram obrigados a usar roupas brancas, e não lhes permitiam outra cor senão essa, para dificultar-lhes a fuga. Basta conferir as célebres pinturas de Debret e Rugendas com nossos negros, todos devidamente uniformizados em branco. Da mesma forma os presos usavam roupas listradas, para discriminá-los e tornar-lhes complicada a evasão do presídio.

Na Idade Média, certos tipos de tecidos e cores eram privilégios da nobreza. A burguesia também se distinguia das demais classes por roupas que lhes eram próprias e não se confundiam com as da realeza. Em nosso passado recente, a palavra da ordem da esquerda era o uso da roupa o mais próxima possível do padrão operário, num esforço para identificar-se e vestir seus ideais, enquanto que a pequena burguesia corre sempre atrás das etiquetas e grifes para aparentar um status e um poder aquisitivo que está longe de ter.

... pela liberação de Coco Chanel....
A virada de Coco Chanel

 Este final de século e de milênio marca a transição entre as imposições da veste e a liberação dessas imposições. Para essa virada, houve uma mulher que desempenhou um papel preponderante: Coco Chanel, que desenhou trajes práticos para as mulheres e inventou o prêt-à-porter, o pronto para vestir, que dispensava a costureira particular, era produzido em série e muito mais barato. A partir dela, a moda passou a ser algo ao alcance do proletariado e da pequena burguesia.

 Hoje é comum vermos mulheres de meia idade em trajes de juventude sem com isso criar escândalo. Já não se impõe uma veste que discrimine ou que privilegie. Cadeias de lojas como C&A e Marisa oferecerem modelos da moda a custo popular. Não somos mais obrigadas a nos vestir dentro de um determinado modelo. Hoje, mais do que nunca, quem dita a moda e a forma de se vestir somos nós mesmas.

Já podemos vestir o que sentimos que somos. Não há mais imposições externas, salvo, claro, uns poucos, por exemplo, quando você é advogada e deve ir ao Fórum. Ali, você em que usar uma saia, quer queira quer não.

O importante é que cada uma pode vestir o que é. Ou o que sente que é. Aí entra a tipologia: as que fazem o gênero butch ou caminhoneira, porque se sentem mais masculinas e querem ser vistas e compreendidas desse modo, e outras que se entendem por chics e já ganharam o preconceituoso apelido de lesbian chic.

.... às lesbian chics
Muitas butches, menos providas de idéias, procuram no guarda-roupa básico masculino a sua melhor expressão: camisa xadrez larga que lhe disfarce o busto, jeans (com a carteira no bolso de trás) e mocassino. As mais inspiradas atacam de camiseta pólo e outros modelitos menos batidos com a mesma calça jeans e o mesmo mocassino.

Meu primeiro romance GLS, Preciso Te Ver, foi considerado por muita gente um cenário de lesbian chics. As personagens principais usavam lenços Hermes (que nem a própria autora pode comprar e modelitos Chanel. Não que só houvesse lesbian chics na estória, havia jornalistas que usavam camisetas com slogans e veterinárias de botina. Mas o que marcou foram as heroínas, que andavam mesmo com todos os signos de poder aquisitivo. Nesse romance eu me guiei pela máxima de Joãozinho Trinta: pobre gosta de luxo; intelectual é que gosta de pobreza.

Vestida para ser a gente mesma
Em meu segundo romance, A vila das meninas, absorvi as críticas, deixei o conselho do Carnavalesco de lado, e situei a cena num ambiente em que as pessoas pegavam o ônibus, usavam camiseta Hering e comiam pastel. Enfim, as personagens tinham um estilo de vida inclusive ao alcance de sua autora. A roupa ajudou a situar quem eram as personagens.

E aí chegamos ao que interessa: lesbian chic ou butch, ou, simplesmente, mulheres que amam mulheres e amam se vestir cada qual de seu jeito, o importante é que nos conheçamos para saber o que melhor nos cai bem, o que melhor nos favorece dentro de um estilo nosso, que faz a nossa cabeça.

O autoconhecimento vai nos ajudar a selecionar o que queremos vestir. Mesmo aquelas que parecem não ligar para roupa e para moda, muitas vezes, na verdade, estão sinalizando: eu me visto assim porque não me preocupa a roupa, mas o conteúdo. Pode estar sinalizando sem querer, no entanto, que é uma pessoa que cabe no ditado: quem se enjeita se rejeita... E dar a ideia de que se não é capaz de cuidar de si, muito menos dos outros e de uma namorada.

Outras que capricham demais, podem estar passando a sensação de vácuo, vazio interior. O que pode resultar num primeiro movimento de rejeição, da mesma forma como se dá com as desmazeladas. Muitas vezes nos sentimos muitas, várias em uma. Pelo menos é como eu me sinto: num dia, executiva, no outro butch, no seguinte chic ou feminina. E acabo compondo um visual para cada momento: hoje é  jeans, amanhã uma calça com pregas, depois de amanhã um vestido e salto alto. Mas em todas essas variações há uma constância que sou eu e meu estilo.

Sejamos uma ou várias, o importante é vestirmos o que realmente somos. Joana D’Arc foi condenada por vestir-se de homem e nós seremos se nos vestirmos de outra coisa que não nós mesmas.

Stella C. Ferraz é autora dos romances lésbicos Preciso te Ver e A Vila das Meninas, publicados pela ed. Brasiliense. Artigo originalmente produzido para a Revista Um Outro Olhar n. 34

Portal de música eletrônica LGBT divulga o single "Call me Bitch"

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portal de música eletrônica para o público LGBT
Divulgação da música Call me Bitch pelo Ômega Hitz, portal de música eletrônica para o público LGBT. Segue o texto de divulgação, link do ômega Hitz e o single. Para quem gosta do gênero, uma boa pedida.

Nas vozes das divas Nicky Valentine e Natalia Damini, o single produzido por Patrick Sandim está agitando as pistas de todo o país.

A parceria de Nicky Valentine com Natalia Damini para Call Me Bitch é sucesso nas pistas de todo o Brasil. Produzida por Patrick Sandim, com remixes assinados por influentes produtores nacionais e internacionais, a faixa já é considerada um dois his de 2012. Presença forte nos principais clubes e rádios do país, o single é destaque nos sets de importantes nomes como Bruno Pacheco, Ana Flor, Breno Barreto, Tommy Love, entre outros DJs do cenário eletrônico. Além de debutar em diversos charts de música eletrônica pelo Brasil.

Call Me Bitch é o primeiro projeto entre duas cantoras da cena eletrônica nacional. O sucesso rendeu uma tour - que leva o nome do hit - por diversos lugares do Brasil. Elogiada pelos DJs, mídia e cena eletrônica,  Call Me Bitch  consagrou suas interpretes e revelou Dj Patrick Sandim, hoje residente de importantes projetos em São Paulo, com turnê promocional já marcada pelas principais capitais.

Nicky Valentine é a voz principal do single e o convite para Natalia Damini aconteceu em Abril de 2011, quando Damini apresentava seu segundo single, Your Lies. A faixa lançada em Janeiro, figurou com destaque no carnaval, ganha força nos principais clubes pelo Brasil, além de ocupar a primeira posição entre os singles mais pedidos na Ômega Hitz, maior portal de música eletrônica para o público LGBT.

Casamento civil entre pessoas do mesmo sexo: os mesmos direitos com os mesmos nomes

quinta-feira, 26 de abril de 2012 0 comentários

Divulgando abaixo o texto do portal Casamento Civil Igualitário, uma campanha que vale a pena encampar. Direitos iguais, sem mais nem menos. Vai ser uma batalha dura, mas uma caminhada precisa mesmo de um primeiro passo, e ele foi dado. Vamos caminhar juntos. Ao fim do texto, o link para o abaixo-assinado em apoio à PEC do Jean Wyllys. Esta postagem ficará em destaque de agora em diante.

Nós, brasileiras e brasileiros de todas as idades e de todas as cores, de todas as religiões e crenças ou de nenhuma delas, de todas as orientações sexuais e identidades de gênero, falantes de diferentes sotaques e das mais diversas gramáticas do português brasileiro — e de outras línguas, trabalhadores/as das mais diversas profissões e moradores/as de todas as regiões, do centro e da periferia, do morro e do asfalto, queremos expressar nosso apoio incondicional ao projeto de emenda constitucional apresentado pelo deputado federal Jean Wyllys para garantir o direito ao casamento civil aos casais do mesmo sexo.

Porque acreditamos que “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”, como diz a Declaração Universal dos Direitos Humanos, e que “Todos são iguais perante a lei e, sem distinção, têm direito a igual proteção da lei”, como diz a Constituição brasileira.

Porque a proibição do casamento civil aos homossexuais é uma violação aos direitos humanos, inadmissível numa sociedade democrática, que não só exclui os casais do mesmos sexo e suas famílias do acesso a dezenas de direitos reconhecidos na lei aos casados, como também os humilha e desrespeita, privando-os do reconhecimento simbólico que a instituição do casamento civil representa na nossa cultura e tratando-os como se eles e suas famílias fossem menos valiosos do que o resto das pessoas.

Porque o Judiciário já tem avançado no reconhecimento do direito ao casamento civil dos/as homossexuais, e o Legislativo não pode continuar se omitindo, obrigando as pessoas a entrarem com ações na justiça para exercer um direito fundamental, reconhecido em todos os tratados internacionais, como é o direito a se casar com a pessoa que amam.

Por isso tudo, reclamamos ao Congresso a urgente aprovação da emenda constitucional do casamento igualitário e dizemos, com os LGBT, que queremos, para todos e todas, os mesmos direitos com os mesmos nomes.

Jean Wyllys: "Não existe Estado de direito enquanto o casamento for negado aos homossexuais"  

Pe. Marcelo Rossi: "Casamento entre homossexuais não é de Deus"

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Pe. Marcelo Rossi
O Brasil tem problemas seríssimos a encarar: saúde e educação sucateadas, infraestrutura idem, desindustrialização, corrupção pandêmica, e por aí vai. Apesar de tanta coisa sobre o que pensar e sobretudo tanta coisa para se mudar, os únicos motivos para polêmica, no país, parecem ser os temas relativos a moral e aos costumes, protagonizados principalmente por duas turmas em permanente conflito: ativistas LGBT e conservadores religiosos. Mal acaba uma polêmica e já se instaura outra em função de excessos de ambos os lados.

A mais nova se relaciona com as declarações do  padre Marcelo Rossi  sobre casamento homossexual. Em entrevista à revista Quem desta semana, o padre afirmou que respeita o casamento entre homossexuais, apesar de a palavra de Deus ser clara que o homem e a mulher foram criados para unirem e dar frutos. “Respeitamos, não quero fazer polêmica, mas todo cristão que crê na palavra de Deus sabe que existe os dois. Fora isso, não é de Deus”, argumentou.

Diante da obstinada oposição desses religiosos aos direitos civis de um segmento da população brasileira, em nome de Deus, só nos resta pedir para conversar com este senhor, sem intermediários, e confirmar as razões que ele tem para se opor aos direitos humanos. E se ele não aparecer para o debate, dá-se o assunto por encerrado, pois não?

Falando nisso, vamos assinar a PEC em favor do casamento igualitário. 

Em Israel, corrente conservadora passa a aceitar a ordenação de rabinos LGBT

segunda-feira, 23 de abril de 2012 0 comentários

Na última sexta-feira, a corrente conservadora do judaísmo, chamado Movimento Conservador, decidiu admitir a presença de gays e lésbicas como candidatos ao rabinato em Israel, à semelhança do que já ocorre nos Estados Unidos há alguns anos. 

A decisão foi tomada, por quase unanimidade (apenas um rabino dos 18 votantes se absteve de votar), pelo conceituado seminário rabínico Schechter, em Jerusalém, com base numa espécie de isonomia religiosa, ou seja, todos são iguais não apenas perante a lei mas também aos olhos de Deus, já que todos são feitos à sua imagem. Os estudantes gays e lésbicas começam a poder participar para o curso de ordenação que dura dois anos já no próximo ano letivo. 

Agora, das  três principais correntes do judaísmo — reformista, conservadora e ortodoxa — apenas a ortodoxa segue mantendo-se contrária à ordenação de gays e lésbicas bem como de quaisquer mulheres como líderes religiosas. E como é esta corrente que monopoliza os serviços públicos ligados à religião, como casamentos (não existe união civil no país) e funerais, os futuros rabinos homossexuais ainda terão bastante trabalho pelo frente para obter plena aceitação.

Fonte: Com informações de O Globo

Procura-se mulher feminina. Para quê?

sábado, 21 de abril de 2012 4 comentários

amizade entre lésbicas
Autora: Míriam Martinho

De vez em quando aceito um daqueles convites tipo “Fulana de Tal quer ser sua amiga no ...”, ou “beltrana convidou você para participar da comunidade ou grupo X no ....” ou ainda eu mesma ponho um anúncio nos sites que tem classificados a fim de fazer amizade e trocar umas palavras. Nessas, no pouco tempo que tenho para tais coisas, até consegui bater uns bons e divertidos papos furados com algumas mulheres dos 4 cantos desse nosso Brasil cor de anil.

No geral, contudo, a experiência é meio frustrante porque a maioria das lésbicas vive em estado permanente de caça, caça para ficar, caça para casar, e amizade simplesmente - que é bom – nada. Aliás, a palavra amizade, para a maioria das lésbicas, parece ser uma espécie de código que significa na verdade que você está em temporada... de caça.

Se não, me digam, por que haveria alguém que está apenas em busca de amizade querer saber se você é feminina, masculina ou andrógina? Nas primeiras tecladas com uma dessas caçadoiras enrustidas, pois dizia que estava em busca de amizade, um bom tempo da conversa girou em torno de saber a minha aparência física, não se eu era gorda ou magra, alta ou baixa, mas sim se eu pintava os cabelos e as unhas, fazia a sobrancelha, usava batom, saia e sapato de salto porque ela fazia tudo isso e assim é que apreciava uma outra mulher.

Convenhamos que, quando nossa busca é por uma parceira sexual ou amorosa, para ficar ou casar, até que requisitos como os citados acima podem fazer uma boa diferença. Eu mesma não tenho tesão pelo masculino seja em homens seja em mulheres. O masculino me evoca várias coisas, a maioria delas positivas, mas não me atrai sexualmente. Meu lugar do desejo é mesmo o feminino naturalmente nas mulheres mas até em homens (certa vez me peguei impressionada por uma travesti super-feminina...rsss). Não falo do feminino tipo perua, pois não me agrada muito a estética over, mas o feminino light, discreto e charmoso.

Agora, quando o assunto é amizade, o que me interessa é se a mulher em questão é boa pessoa, se tenho afinidades com ela, de gostos, de humor. Nesse sentido, tanto faz sua aparência, se a figura é feminina, masculina, andrógina, se é negra, branca, oriental, alta, baixa, destra ou ambidestra, subaquática....

Na verdade, essa busca de mulheres femininas, até para simples amizade, tem muito a ver com o preconceito contra a visibilidade das mulheres masculinizadas, visibilidade lésbica, que fique claro, e também com a necessidade de se encaixar num papel mais palatável aos olhos heterossexuais. Para as enrustidas, que ainda há aos montes, uma butch é uma saída do armário a ser evitada. Para as normalizadoras, uma butch incomoda porque não se encaixa no modelito feminista da igualdade entre os pares que, transportado do terreno da cidadania para o da sexualidade, resulta simplesmente desastroso, pois preconiza que as parceiras têm que ser iguais na cama e no visual, em outras palavras, ambas femininas.

Tive uma colega butchezinha que tinha uma namorada bem femme e que, na cama, adorava os papéis assim bem divididos, mas que, no social, morria de vergonha do caso. Daí que na rua elas fingiam que não se conheciam, pois a moça não queria ser vista com aquela bandeira ambulante que era sua amante butch. O mais tristemente engraçado é que essa minha colega butch aceitava essa situação humilhante. Tá certo que a menina era uma gatinha, mas gatinhas existem muitas e com uma cabeça bem melhor.

Então, tanto nos discriminaram e não aprendemos nada com isso? Na hora do vamos ver, também discriminamos? Que maus! Deixemos disso e retomemos o aprendizado do respeito a todas as identidades lésbicas existentes, das sapatilhas às sapatonas, das entendidas às lésbicas politizadas, lembrando que, como diz o ditado, principalmente quando o assunto é amizade, quem vê cara não vê coração.

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