Cordéis contra o preconceito

segunda-feira, 9 de abril de 2012 1 comentários

cordel
Salete Maria
Entrevista com Salete Maria, do blog Cordelirando, sobre seus cordéis inovadores que atacam a homofobia

UOO: Salete, primeiro fale um pouco de você: sua idade, etnia,  sua profissão, formação, cidade onde vive, se é casada ou solteira, etc.
Salete Maria (SM): Sou Salete Maria, cordelista, brasileira. Moro em Juazeiro do Norte, Ceará, cidade considerada a Meca do Sertão em face da figura mítica do Padre Cícero Romão Batista. Nasci em São Paulo por força de um problema social muito sério: o desemprego que, agravado pela seca, assolou o nordeste do país e tangeu meus pais, assim como seus conterrâneos, para o sudeste em busca de “uma vida melhor”. Toda minha ascendência é nordestina. Sou bisneta de romeiros pernambucanos, neta de cearenses analfabetos e filha de resistentes sociais. Meu pai é um lavrador que em São Paulo virou pedreiro e minha mãe é uma camponesa que em São Paulo foi faxineira. Vim ao mundo em 1969, mais precisamente no dia 7 de março. Tenho cinco irmãos e uma filha. Sou advogada, professora universitária e militante de direitos humanos.  Por conta da minha história de vida, desenvolvi a compreensão de que o direito se constrói nas lutas sociais, com muita peleja e poesia. Defendo o pluralismo jurídico e literário e coloco minha formação e minha arte a serviço das causas dos excluídos e marginalizados. Sou solteira e atualmente desenvolvo estudos sobre gênero e direito, em nível de doutorado, na Universidade Federal da Bahia, em Salvador. Escrevo contos, poemas e, sobretudo, cordéis.  

UOO:  Fale um pouco sobre o cordel: sua origem, suas características, seus principais expoentes. 
SM: Eu não conheço consenso acerca da origem da literatura de cordel. Muitos afirmam que é de origem européia. Todavia, já ouvi “vozes sábias” dizerem que esta literatura já existia  desde a época dos povos conquistadores de origem greco-romana; havendo chegado, por volta do século XVI, a península ibérica, mais precisamente a Espanha e Portugal. Nestes lugares este tipo de literatura recebia o nome de “pliegos sueltos”, “folhas soltas” ou “volantes”. Aqui no Brasil o cordel chega com os colonizadores e se instala, primeiramente, na Bahia, em Salvador, e depois se expande para o resto do nordeste.

Muitos sustentam que a característica fundamental do cordel é o fato de ele ser uma espécie de poesia popular, impressa e divulgada em folhetos ilustrados com xilogravura. Todavia, já existem controvérsias sobre isto, uma vez que este “popular” é bastante discutível, sendo também possível a utilização de outras formas de ilustração, tais como desenhos e clichês grafados em zinco, por exemplo.

Dizem que o cordel ganhou este nome porque os folhetos eram expostos amarrados em cordões, estendidos em pequenas lojas de mercados populares ou até mesmo nas ruas, em Portugal.  O  custo do cordel, tal como foi e ainda é produzido, é bastante baixo, comparado com o custo de outras literaturas. Ademais, geralmente estes folhetos são vendidos pelos próprios autores. O cordel ainda goza de um certo prestígio em estados como Pernambuco, Ceará, Alagoas, Paraíba e Bahia. Dizem que tal sucesso é atribuído ao baixo preço e ao tom jocoso presente na narrativa da maioria dos trabalhos. Em geral, os temas tratam de fatos que vão desde a vida cotidiana até grandes fenômenos como secas, cangaço, religiosidade, heroísmo, milagres, festas, política, disputas, etc. Todavia, já existem cordelistas no Brasil discutindo e re-significando este tipo de literatura, inclusive propondo uma crítica ao cordel tradicional, como é o caso da Sociedade dos Cordelistas Mauditos, da qual eu faço parte.

cordelQuanto ao modo de apresentação, ainda é possível se encontrar cordéis sendo acompanhados pela viola em recitais públicos, porém em menor quantidade.
Quanto aos ditos expoentes, pode se dizer que os livros e pesquisas sobre cordel, em consonância com outras formas de historiografia, confere maior visibilidade aos poetas homens, uma vez que a maioria dos entendidos e experts neste campo só destaca os grandes vates, dando a entender que não existem mulheres cordelistas no mundo do folheto. E isto também se reproduz na fala e na prática de muitos amantes do cordel ou até mesmo de respeitados e reconhecidos  produtores deste gênero literário. Uma prova disto é o fato de que a Academia Brasileira de Literatura de Cordel, sediada no Rio de Janeiro registra entre os “imortais” ocupantes das 40 cadeiras, apenas seis mulheres, cuja produção, no meu entender, se apresenta num tom bastante favorável à manutenção deste status quo; valendo destacar que no estatuto desta Academia, apenas 25% de suas cadeiras estão reservadas a não-moradores da capital carioca, ou seja, não há apenas um desequilíbrio na representatividade feminina, há também uma exclusão de ordem geopolítica que impossibilita o ou a cordelista da margem de ser reconhecido pelo cânone.

Sobre os grandes nomes, se você perguntar a qualquer pesquisador ou mesmo cordelista “bem informado”, vão dizer que o poeta da literatura de cordel que fez mais sucesso até hoje foi Leandro Gomes de Barros (1865-1918), que deve ter escrito mais de mil folhetos. 

No entanto, existem muitos poetas por este Brasil afora, mormente no nordeste do país, com excelentes produções, porém ainda sem oportunidade de apresentar seu trabalho. 

UOO: O cordel é uma expressão artística tipicamente nordestina, mas também se encontram cordelistas em outras partes do Brasil. Quais seriam e quem são os artistas mais conhecidos.SM: No Brasil, realmente, o cordel tem sido mais produzido no nordeste, onde ele chegou primeiro, se instalou e encontrou um ambiente fértil para sua expansão e apreciação. Pernambuco, Paraíba e Ceará se destacam entre os estados onde sua presença é mais forte. No Ceará, a região do Cariri, onde eu moro, é um verdadeiro celeiro de produção de literatura de Cordel. É na cidade de Juazeiro onde ainda existe em pleno (porém difícil) funcionamento a Gráfica Lira Nordestina, grande patrimônio e rico legado da produção de cordel no país.

Por outro lado, e sobretudo por conta do êxodo, das diásporas às quais já me referi, o cordel segue sendo apreciado e confeccionado em outros cantos do país. Em estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas é possível encontrar cordel em espaços e feiras de produtos nordestinos.

Como disse, são mais conhecidos os cordelistas homens, havendo sempre o destaque nas diversas obras sobre a temática para poetas como Leandro Gomes de Barros (1865-1918) e João Martins de Athayde (1880-1959), enquanto precursores. As obras em geral e a imprensa oficial têm dado destaque ainda, dentre tantos, aos seguintes nomes: o baiano Antonio Teodoro dos Santos (1916), o pernambucano Apolônio Alves dos Santos (1926); o cearense Arievaldo Viana Lima (1967); o paraibano Cícero Vieira da Silva (1936); o pernambucano Caetano Cosme da Silva (1927); o alagoano Enéias Tavares dos Santos (1932), o paraibano Francisco das Chagas Batista (1882); o pernambucano Francisco de Souza Campos (1926); o paraibano Francisco Firmino de Paula (1911); o paraibano Francisco Sales de Arêda (1916), o pernambucano Inácio Carioca (1932), o pernambucano Jota Barros (1935), o baiano João Damasceno Nobre (1910); o sergipano João Firmino Cabral (1940), o alagoano João Gomes de Sá; o cearense João Lucas Evangelista (1937); o paraibano João Melchiades Ferreira da Silva (1869); o paraibano Jose Camelo Resende, o pernambucano José João dos Santos, conhecido como mestre Azulão, o pernambucano Zé Pacheco, o pernambucano Manoel Monteiro, o baiano Minelvino Francisco Silva, o paraibano Silvino Pirauá, dentre outros. Eu, particularmente li e bebi muito nestas fontes e tenho muito apreço e devoção por Patativa do Assaré. 

Todavia, já existem importantes estudos acadêmicos sobre a produção feminina na literatura de cordel, merecendo destaque a pesquisa da professora da Universidade Federal do Ceará, campus Cariri, Francisca Pereira dos Santos, (Fanka) que também é cordelista e tem  trabalhos publicados sobre  esta questão. Esta pesquisadora já cataloga mais de 30 mulheres produtoras, sendo que a maioria delas mora no nordeste do país. Em sua obra intitulada Romaria de Versos sobre mulheres cearenses autoras de cordel, ela destaca as poetisas Arlene Holanda, Mana, Josenir Lacerda, Maria Anilda, Maria do Rosário, Maria Ivonete, Maria Luciene, Maria Matilde, Maria Vânia, Bastinha e eu. 

Com vistas também a provocar um debate sobre este problema há um cordel meu intitulado MULHER TAMBÉM FAZ CORDEL, que pode ser acessado em nosso blog. Neste cordel contamos a história do início da produção escrita de cordel pelas mulheres no Brasil, mostrando que a primeira a publicar um folheto teve que assinar com pseudônimo masculino, nas primeiras décadas do século passado. Todavia, como as maioria das mulheres fora condenada ao analfabetismo por muito tempo, isto não quer dizer que elas não faziam poesia. Minha avó mesmo, como já disse, sempre recitou e sempre criou, porém no campo da oralidade, já que este era o seu único e possível lugar de manifestação.

cordel
 Existem muitas mulheres escrevendo cordel hoje no Brasil, dentre as quais eu me incluo e sou apresentada como um diferencial, mas não apenas por ser uma mulher escrevendo cordel, mas por ser uma mulher que escreve cordel sobre temáticas femininas, inclusive visibilizando, por este veículo, as mulheres lésbicas.

UOO: Agora nos fale um pouco sobre como se envolveu com cordel.
SM: Bom, eu sou neta de D. Maria José e sobrinha de Zé Alexandre. Ela poeta, cordelista, cega e analfabeta que “dizia” sua poesia e a de outras pessoas que ela escutou durante a toda a vida. Faleceu aos noventa anos, em 2003, sem nunca ter aprendido a ler ou escrever. Foi a primeira mulher a fazer versos que eu conheci. Escutei muito ela recitar. Li muitos cordéis pra ela também.
Meu tio Zé Alexandre mora também em Juazeiro do Norte, é um grande poeta, faz rimas primorosas e muito me influenciou com seus rabiscos e sua sensibilidade poética, já que ele quase não publica. Sempre li para meus parentes da zona rural que, em regra, ou não sabiam ler ou liam muito pouco, e tinham na literatura de cordel uma atividade de deleite ou mesmo um veículo de notícias. Comecei lendo, depois fui produzindo e hoje tenho vários títulos publicados e dois deles premiados.

UOO: Quantos cordéis você já compôs e onde os divulga, além de por seu blog Cordelirando? 
SM:   Tenho mais de quarenta cordéis publicados. Mas tenho muito mais compostos. Nem sempre posso publicar. Nem sempre publico logo que escrevo. Costumo divulgar nos eventos, faço doação para pesquisadores, admiradores e outros cordelistas. Nunca escrevi pensando que as pessoas pudessem apreciar o meu texto porque é um texto muitas vezes polêmico, carregado de paixão e luta, muito intertextual. Através do meu cordel eu dialogo com várias outras literaturas e formas de arte. Escrevo também cordel pensando na música, na cantoria e no teatro, enfim. Tenho o blog intitulado Cordelirando onde publico desde 2007. É um espaço de divulgação.

Mas eu gosto muito também do cordel impresso, da capa, do formato, enfim, da estética real. Recentemente uma grande cantora paraibana, chamada Socorro Lira, resolveu, estimulada por duas grandes amigas em comum, musicar meu cordel intitulado MARIA DE ARAÚJO E SEU LUGAR NA HISTÓRIA (ou a Beata Beat Cult). Este meu cordel trata da história de uma beata lá de Juazeiro do Norte que ao receber a hóstia em comunhão protagonizou um “milagre” que fez com que o Padre Cícero se tornasse o grande taumaturgo do nordeste.

O fato é que a beata fora secundarizada na história, e eu busco narrar o acontecido, num texto teatral irônico, provocativo, dramático, que mistura bendito e embolada, dando visibilidade a esta mulher que era e ainda é um ser marginal na grande história da minha terra. Pois bem. Socorro Lira, ao musicar este cordel, sob a direção da baiana Gal Meirelles, gravou um DVD que vai ser lançado até o final deste ano, junto com uma coletânea de 8 cordéis meus. O projeto recebe o título de dois outros cordéis meus: CORDELIRANDO e MULHER TAMBÉM FAZ CORDEL.

Além disto, atores juazeirenses, tais como Joaquina e André de Andrade têm feito leituras dramáticas do meu trabalho, com apresentação pública em projetos patrocinados pelo Banco do Nordeste do Brasil-BNB. A poetisa potiguar Dath Haak   também recitou e disponibilizou na internet três dos meus cordéis, dentre eles Lesbecause e do Direito de ser gay.  Eu mesma, apesar da timidez, sempre recito em rodas de amigos e às vezes antes de ministrar algumas palestras.

UOO: Qual o tema principal de seus cordéis? E quanto eles se diferenciam dos cordéis tradicionais?
SM:   Veja, no ano 2000 foi criada a Sociedade dos Cordelistas Mauditos, em Juazeiro do Norte. Esta turma é composta por jovens poetas de grande entusiasmo. Integrei esta Sociedade desde o seu nascedouro. Mas antes disto, desde 1996, eu já publicava. Escrevo há bastante tempo. Tenho cordéis sobre variados temas. Na sua totalidade são sobre questões marginais e periféricas. A maioria sobre mulheres, relações de gênero, homossexualidade, cidadania e afins. Também já falei de assédio moral, velhice, analfabetismo, violência, saúde, política, etc. Mas a temática preferencial é a das mulheres e homossexuais. 

Antes de ser da Sociedade, eu já falava das temáticas que os cordelistas mauditos abordam. Pensamos que a diferença entre nós e os ditos tradicionais se dá tanto na forma quanto no conteúdo. Na forma, inovamos com a capa, que além da xilogravura usamos colagens, desenho, foto, etc. E às vezes ilustramos até as folhas internas do cordel. No conteúdo, procuramos abordar de modo crítico, denunciativo, propositivo e emancipatório questões que os cordéis tradicionais tratam no sentido de manter o status quo. Demonstramos a questão da violência contra a mulher, do discurso homofóbico, machista, racista, sexista presente em muitos dos clássicos da literatura de cordel.

Atualmente nossa ‘sociedade’ tá meio dispersa porque os cordelistas precisam trabalhar para sobreviver, mas mesmo assim eu gosto de destacar o valor dos meus colegas. Poetas como Hélio Ferraz, Fanka, Soneca, Batata, Orivaldo, Nicodemos, dentre outros, são os poetas ditos mauditos do Cariri. E são muito bons. Logicamente que de tão mauditos têm divergências entre si, mas isto faz parte da proposta. Eu tenho sido a que mais tem produzido e a que antes da sociedade já tinha este espírito de poesia social e crítica. Fizemos um manifesto que dizia mais ou menos assim: A nossa comunicação se dá através da poesia de cordel, traço da nossa identidade nordestina. Odiamos tecnicistas sem sentimentos literários. Somos contra o lugar comum da globalização que cria signos massificantes e uniformiza o comportamento estético. Nosso movimento movimento pretende, sob uma ótica intertextual, utilizando vários códigos estéticos, redimensionar a literatura de cordel para um campo onde todas as linguagens sejam possíveis. Não somos nem erudito nem popular, somos linguagens. Entramos na obra porque ela está aberta e é plural. Somos poeta e guerreiros do amanhã. A poesia escreverá, enfim, a verdadeira história. Viva Patativa do Assaré e Oswald de Andrade.

De 2000 para cá eu andei revendo algumas questões. Na verdade, não sou exatamente eu ou os mauditos que nos apresentamos como os “diferentes”, são os “iguais” que nos acusaram de não saber fazer cordel, de trair o cordel tradicional. Muitos sustentam que  nós não fazemos literatura de cordel porque nós estamos quebrando tabus e questionando  dogmas do cordel. Mas isto já é tão previsível que meu cordel tem sido acusado de muitas coisas. Eu mesma já sofri ameaça até de morte por causa dos cordéis, já fui ameaçada de processo. Mas eu vou e faço outro cordel ou então parafraseio o poeta Pessoa e indago: viver é preciso? Viver para mim só é possível e só é necessário fazendo poesia, vivendo poesia, dizendo poesia. Enfim, cordelirando....

UOO: Você já compôs cordéis específicos sobre a questão homossexual e lésbica. Quais são?
SM: Compus vários cordéis ditos gays, sim. Falo sobre o que me mobiliza, sobre o que me diz respeito. Tudo que é humano nos diz respeito, disse o filósofo. Os homossexuais, homens e mulheres, dizem que sem eles os direitos não são humanos e eu poetizo: Sem os homossexuais não existe humanidade, não existe poesia. Então, eu escrevo sobre isto, sim.

Meu primeiro cordel ostensivamente gay eu comecei a rabiscar sozinha e aí eu resolvi convidar uma cordelista da sociedade dos mauditos, a Fanka, para produzir comigo, em parceria. O nome deste cordel é A HISTORIA DE JOCA E JUAREZ, que versa sobre um romance que se passou em 1913, na cidade de Juazeiro. Trata-se de um amor proibido entre um zabumbeiro e um jardineiro do Padre Cícero. Procuramos retratar o discurso da igreja, a hipocrisia social e intercalamos personagens fictícias com figuras reais. É um cordel romanceado publicado em 2001.

Mas existem muitos outros que escrevi sozinha, tais como O GRITO DOS MAU ENTENDIDOS que versa sobre uma assembléia de homossexuais, onde eu brinco com personagens do mundo artístico e falo de um evento onde se discute a discriminação e a violência contra gays, tudo intertextualizando com músicas que tem um sentido gay, etc.   Tem outro chamado O QUE É SER MULHER? que não é unicamente gay, mas provoca uma discussão sobre as sexualidades e há uma passagem em que eu pergunto se um homem não pode ser mulher ou se uma mulher não pode amar outra mulher e tal. Tem um outro intitulado DIA DO ORGULHO GAY, no qual eu narro a origem da data do orgulho. Tem um que se chama DO DIREITO DE SER GAY (ou condenando a homofobia) que é próprio para o teatro e que foi recitado pela poetisa Dath Haak.

Tem um que se chama LESBECAUSE onde eu faço uma ode às lesbianas. Tem o que se chama MULHERES FAZEM, onde eu brinco com possibilidades... E, por último, MARIA, HELENA que narra um romance entre duas mulheres do sertão, devotas, simples e lésbicas. Todos estes cordéis podem ser acessados no blog ou então consultados no acervo da cordelteca do SESC de Juazeiro do Norte. 

UOO: Os cordéis têm uma função didática, entre outras. Como tem sido a reação do público hétero aos cordéis de temática homo?
SM: Com efeito, o cordel tem uma função didática, educativa, sim. Para se ter uma idéia, muitas pessoas no Ceará foram alfabetizadas a partir do cordel. A literatura de cordel foi a minha primeira literatura. Todavia, muitos textos de cordel também podem trazer grandes problemas para a formação, para a educação das pessoas. Li, na infância, um cordel chamado A Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho. Este cordel reproduz muito preconceito, é baseado em estereótipos de cego imprestável, inútil e de negro sujo, incapaz...   

Às vezes me torno antipática denunciando estes “clássicos” que muitas vezes são enaltecidos até mesmo por acadêmicos, mas que na verdade são textos extremamente nocivos à idéia de respeito às diferenças, etc. Tenho recebido muitos elogios e muitas críticas também não apenas pelos cordéis de temática homossexual. Mas também tenho recebido prêmios e tenho sido alvo de muito interesse por parte de pessoas que acham que faço um trabalho legal. Na verdade a minha literatura, ou o meu “cordelírio”, tem cumprido uma função política muito forte, assumida e declarada.

Eu realmente gosto e me alimento deste tipo de arte que, infelizmente ainda é bastante marginal, secundária, periférica, menor e desimportante nos círculos e circuitos literários. Por meio dela, eu cuido de questões também consideradas ácidas, inconvenientes, incômodas, etc. Porém, alguns pesquisadores no Brasil já estão investigando academicamente, em nível de especialização, mestrado e doutorado o meu trabalho. Ganhei dois prêmios nacionais de literatura de cordel que me foram concedidos pela Fundação Cultural do Estado da Bahia-FUNCEB nos anos de 2005 e 2006, respectivamente. Em Juazeiro, cidade onde moro, os gays recitam meus cordéis antes de abrir palestras, debates, etc. Há artistas dramatizando meus textos, inclusive o cordel DO DIREITO DE SER GAY, que é um monólogo num tribunal do júri.

Muitos dos meus textos são feitos para o teatro. Então, a temática homo tem chamado a atenção do público, sobretudo pelo fato de vir a partir da literatura de cordel.   A Revista Cult, de 2003, salvo engano, traz um dossiê sobre literatura gay, onde se indaga se é uma bandeira política ou um gênero literário. O professor Gilmar de Carvalho, grande conhecedor da literatura de cordel, tem um texto nesta revista onde ele fala da nossa produção, cita inclusive meu trabalho. Então, em geral, tem sido boa, algumas pessoas estão considerando a nossa produção de cordel como um todo e em especial os de temática  gay, lésbica, enfim, homossexual. 

UOO: Além de elaborar cordéis, você desenvolve outras atividades em prol da cidadania LGBT? 
SM: Veja, sou professora do departamento de Direito da Universidade Regional do Cariri-URCA, fiz opção por ser uma advogada popular, com formação em direitos humanos, estudos gênero, feminismos, mulheres, sexualidades. Concluí em 2002, uma dissertação de mestrado intitulada O Princípio da Igualdade Jurídica e a Discriminação contra Homossexuais: ações e omissões dos poderes públicos no Brasil, pela Universidade Federal do Ceará.

Elaborei os estatutos de duas ONGs Gays no Cariri cearense. Dei assessoria jurídica gratuita a estas entidades, ajudando, portanto, a construção da cidadania LGBT numa região onde há um forte componente de machismo e homofobia, mormente em face da tradição religiosa. Realizei inúmeras palestras, participei de muitos debates, escrevi e ainda escrevo textos sobre o assunto, publiquei na Revista Artemis, etc. Procuro dar minha contribuição.

Estive em Cuba dialogando com mulheres lésbicas e heterossexuais sobre gênero, direito, etc. Sou também um ser cuja sexualidade está em permanente construção. Portanto, não dou uma contribuição desinteressada. Eu, de alguma forma, também sou gay, minhas idéias, meu modo de ser e estar no mundo é marginal, é questionador, é periférico, é gay, por excelência.

UOO: Muita gente vem reclamando hoje em dia da burocratização do Movimento LGBT, apontando seu distanciamento da população LGBT e propondo atividades artísticas como forma de fazer política por uma via menos chata. O que você acha disso?
SM:  Eu penso que é por aí. A aproximação e até a própria (con)fusão do movimento LGBT com os partidos e com o poder institucionalizado muitas vezes engessa, sufoca, imobiliza. A realidade tem demonstrado isto. Não sou uma pessoa anti-partido, ao contrário, já fui até candidata ao governo do meu Estado nas eleições de 2006. Aliás, a única a defender publicamente a criminalização da homofobia e a união entre pares do mesmo sexo naquele habitat. Estou, como muita gente neste país, com um pé atrás com esta política que vivenciamos, que nos fora vendida com um discurso e que se nos apresenta de modo torto, obtuso, enfim.   

cordelTampouco faço um discurso da arte pela arte. Penso que  política e poesia é reflexão e ação constante. A discussão de tudo o que interessa aos seres vivos deve ocupar estes espaços. O discurso pela veia artística é um discurso prazeroso. Costumo dizer que faço uma poética-político-exótico-erótica. Não faço nada sem o prazer de fazer e de viver. Não suporto o amordaçamento da criatividade em nome de uma ideologia, de um edital, de uma campanha, de uma candidatura, de uma burocracia que visa domesticar e roubar a radicalidade da luta pelo respeito ao ser humano. Penso que podemos avançar dialogando com todos e todas que desejam um mundo melhor sem nos algemar, sem nos impedir de grita contra toda e qualquer espécie de opressão, institucionalizada ou não.

UOO: Por fim, deixe uma mensagem para nossas leitoras.
SM: Quero dizer que para mim foi um prazer falar para vocês. Quero seguir dialogando. Tenho um texto que diz que Um outro direito é possível. Tento construir um outro olhar sobre o mundo jurídico, e também sobre a arte em geral, sobre a literatura e em especial sobre a literatura de cordel. Ou seja, partilho com vocês da idéia de que é possível lançar UM OUTRO OLHAR sobre tudo, mormente sobre as sexualidades. Então, me encho de entusiasmo com o contato com gente que quer ser feliz, que quer amar e que pensa que a arte pode ser um modo de se publicizar isto. Obrigada por me ajudarem a seguir cordelirando sempre e mais. Um abraço afetuoso para todas.

Publicado originalmente no site Um Outro Olhar em 24/04/09

Símbolos da comunidade LGBT

sexta-feira, 6 de abril de 2012 5 comentários

IX Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas e Travestis - Em frente ao Teatro Municipal 

Autor(a)
: Míriam Martinho

No início de 1997 (20-26/02), em São Paulo, a Rede Um Outro Olhar organizou, com outros grupos, o IX Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas e Travestis, um encontro muito tumultuado, cujo maior mérito foi ter produzido o embrião das futuras paradas que hoje levam um milhão de pessoas às ruas (os participantes saíram em passeata do Largo do Arouche, passando pela República, pelo Teatro Municipal, cruzando a mitológica Ipiranga com a Avenida São João e terminando atrás da Igreja da Consolação).

Mas, no meio do tumultuado IX EBGLT, deu-se um momento cômico, embora na época não tenha parecido tão risível. Um dos integrantes do grupo de gays e lésbicas do PT-SP de então, sem saber mais o que fazer para espinafrar a comissão organizadora do evento, cismou que o logo do encontro, que consistia de um enorme triângulo rosa (símbolo gay) e dos dois símbolos de Vênus entrelaçados, símbolo das lésbicas, não representava os homens homossexuais.

Munido de duas flechas feitas de papel se encaminhou para o imenso banner, com os desenhos das duas imagens, e fincou as ditas flechas no símbolo das lésbicas, segundo ele para que os gays também pudessem estar representados no evento. Ao fazê-lo, transformou o símbolo das lésbicas não no símbolo de gays e lésbicas mas sim numa variante do símbolo dos bissexuais ou transexuais.

No relatório do encontro, procuramos esclarecer o equívoco, imprimindo alguns dos símbolos da comunidade LGBT para poupar futuros vexames como o do glpetista, o que repetimos agora de forma mais abrangente.

Nesta página, voltamos portanto a mostrar e a falar um pouco dos símbolos genéricos e específicos da comunidade LGBT em todo o mundo para que possamos usá-los apropriadamente e com orgulho.
________________________________________________________________

Símbolos lésbicos

O símbolo de Vênus quando aparece sozinho é o símbolo da mulher, utilizado das mais diferentes formas pelo movimento feminista. Quando aparece em dose dupla e entrelaçado é um dos mais conhecidos símbolos lésbicos. Quando aparece em dose tripla ou mais pode tanto ser símbolo das lésbicas quanto da união das mulheres. É igualmente utilizado em adereços (brincos e colares), camisetas e impressos em geral.

O machado de dupla lâmina (labrys) é outro símbolo lésbico, atualmente mais conhecido. É tido como uma das armas das míticas Amazonas, as mulheres guerreiras da Antiguidade cuja comunidade era formada só por mulheres. Aparece também nas mais diferentes cores e formatos e é utilizado em adereços, camisetas, tatuagens, impressos, etc...

O triângulo negro era o símbolo que os nazistas costuravam na roupa das prisioneiras de seus campos de concentração que saíam dos padrões esperados para a mulher do Terceiro Reich (esposa, mãe e dona de casa). Lésbicas, prostitutas, mulheres políticas envolvidas na resistência ao nazismo (não-judias) tinham as roupas marcadas com este símbolo que há alguns anos foi resgatado por ativistas lésbicas como símbolo de resistência ao preconceito e a opressão.

Símbolos gays

O símbolo de Marte, quando sozinho, representa o homem, quando duplo e entrelaçado representa os homens homossexuais. É amplamente utilizado pela comunidade gay internacional tanto como adereço como em todo tipo de camiseta, impresso, bandeira, etc...

O Triângulo Rosa é o mais conhecido dos símbolos gays e, como o triângulo preto, nos remete aos tenebrosos campos de concentração nazista, onde os homens homossexuais eram obrigados a utilizá-lo para identificação. Ao contrário do triângulo preto, no entanto, que identificava diferentes tipos de mulheres, este símbolo era específico para os gays. Com o moderno movimento de libertação homossexual, o triângulo rosa foi resgatado pelos homens que amam homens como símbolo de orgulho e de resistência contra a opressão.

Símbolos hétero e bissexuais


Os símbolos de Vênus e de Marte entrelaçados formam o símbolo da heterossexualidade. Os duplos signos de Vênus e de Marte entrelaçados formam o símbolo da bissexualidade bem como os triângulos azul e vermelho sobrepostos.

Símbolos andróginos e transgênero




Os signos de Vênus e de Marte unidos em um mesmo símbolo representam a androginia e também a transexualidade. O símbolo do deus Mercúrio é outro dos símbolos dos transgêneros. Uma miscelânea dos signos de Vênus e de Marte também representa os transgêneros.

Símbolos dos Ursos e da comunidade sadomasoquista, bondage, leather


A comunidade SM, leather e sexualmente aventureira costuma ser identificada pela bandeira negra e azul com um coração vermelho ou com uma variante da bandeira do 
arco-íris com uma das faixas preta.

Outro símbolo da comunidade SM é o círculo amarelo com três partes internas em preto que lembram de um lado o símbolo do taoísmo e o chakram da Xena.


Os Ursos, gays que são e gostam de homens encorpados e peludos, se fazem representar por variantes de uma bandeira cuja principal característica é ter a pata de um urso impressa em seu canto superior esquerdo.

Símbolos genéricos da comunidade LGBT

A letra grega Lambda foi adotada por um dos primeiros grupos de luta homossexual, nos Estados Unidos (Gay Activists Alliance of New York), em 1970, e posteriormente consagrada, em 1974, como símbolo internacional da luta pelos direitos de gays e lésbicas no Congresso Internacional pelos Direitos Homossexuais, em Edimburgo, na Escócia. As razões de seu uso pela comunidade LGBT são incertas, mas ela é bastante utilizada no exterior. No Brasil, é pouca conhecida no entanto.


A bandeira do arco-íris se tornou, sem dúvida, o mais conhecido símbolo da comunidade LGBT em todo o mundo. Ela foi elaborada pelo artista plástico Gilbert Baker, para a Parada do Orgulho em San Francisco,em 1978, originalmente com 8 cores que, por restrições de produção gráfica, acabaram reduzidas a 6, representado a vida (vermelho), a saúde/cura (laranja), o sol (amarelo), a natureza (verde), a harmonia (azul) e a espiritualidade (violeta). Ela representa também a unidade na diversidade e, hoje, aparece sozinha, ou em combinação com os outros símbolos LGBT, em bandeiras, impressos, adereços, em tudo que se pode imaginar.          

Gay, Lesbian, Bisexual & Transgender Symbols http://www.lambda.org/symbols.htm

Publicado originalmente no site Um Outro Olhar em junho de 2008

Chat do UOO

quinta-feira, 5 de abril de 2012 0 comentários

Para entrar no Chat da UOO, escolha uma das contas de suas redes sociais (twitter, facebook, my space, yahoo). Você pode se conectar via várias redes e alternar entre elas, mas só pode conversar usando uma delas. O programa do chat pedirá permissão para acessar sua conta de modo a poder conectá-la. A permissão é temporária e você pode revogá-la quando quiser.

Na sala de bate-papo, você verá uma lista de "usuários ativos (active users)" e "usuários disponíveis (available users)" no painel à direita. Os usuários ativos são os que já estão conversando na sala de bate-papo pública. Os usuários disponíveis são os que estão acessíveis para bater papo enquanto visitam o site. Para convidar usuários para um bate-papo público ou privado, clique no nome que lhe interessa no painel à direita e escolha uma das duas opções. Será enviado um convite para o usuário e, se ela/ele aceitar, a sessão de bate-papo começará.

Cada usuário pode controlar sua própria disponibilidade de duas formas: no topo do painel direito, perto do ícone de luz verde, escolha entre online e ocupado. Na própria barra da Wibiya, você verá a mesma luz. Escolhendo o status "ocupado", o usuário não aparecerá para os demais.

Para ter mais informação sobre os usuários, passe o mouse sobre suas imagens. Um balão com informação sobre o usuário aparecerá de acordo com a rede social com a qual ela/ele se conectou.

Observe que cada mensagem tem informações de data, indicando exatamente quando a mensagem foi enviada. Isso lhe ajudará a recuperar o registro de suas mensagens mais recentes. Você também pode minimizar o chat  e reabri-lo quando quiser na barra de ferramentas da Wibiya.

Para mais informações, escreva para uoo@umoutroolhar.com.br. Para conversar com as(os) amigas(os), convide-os para o chat a qualquer dia e hora.

ATENÇÃO: O chat é moderado. Mensagens de teor pornográfico ou ofensivo a qualquer pessoa ou grupo social levarão ao banimento da(o) usuária(o).

Famosos estereótipos lésbicos!

quarta-feira, 4 de abril de 2012 8 comentários

Autora: Míriam Martinho

Passeando pelo orkut, li em uma comunidade uma descrição do que seria a lésbica típica. Segue abaixo:

-Gostar de Cássia Eller e morrer pela Ana Carolina
- Dar a vida por um copo de cerveja no botecão da esquina
- Cheirar cocaína na balada
- Pegar as amigas para não sentir solidão
- Ter cabelo curto ou as unhas horrorosas
- Ser muito masculinizada, bofinho
- Sair de qualquer jeito e não ter um pingo de vaidade
- Adorar forró, sertanejo e afins
- Saber jogar sinuca como ninguém

Bem, faço parte das lésbicas totalmente atípicas, pois não me encaixo em nenhuma das características acima. Entretanto, tendo me aproximado da chamada população lésbica recentemente, após mais de uma década de afastamento, me deparei com um modelo de lésbica bem próximo desses estereótipos. Aliás, a bem da verdade, em 30 anos de trabalho com a população lésbica, acho que esses estereótipos variaram pouco.

Hoje o visual é mais andrógino (o modelito bofinho é minoritário e discriminado) ou mais feminino, todas usam celular e a Web facilitou muito os contatos, mas, fora isso, o que mudou? O grande passatempo da maioria parece continuar sendo as baladas etílicas-tabagísticas de bar em bar, com a diferença de que as tabagísticas têm que ocorrer na rua (graças ao bom Serra). Fora o consumo de outras substâncias ilícitas, como citado na comunidade que mencionei. Dependendo do bar, olhares sequiosos perseguem seus passos, tal e qual nos tempos do Ferro's Bar. Os papos são tudo menos cabeça, e nem precisava tanto. Poderiam girar apenas um pouco em torno de qualquer coisa mais densa que o ar.

Preocupação com direitos, saúde (imagine!), política, os rumos do país...?! Nada! Somente questões de ordem erótico-amorosa parecem integrar o repertório das conversas e outros tantos papos da esfera privada. Não que eu também não aprecie jogar conversa fora, dizer umas bobagens, brincar, mas a recorrência dos mesmos assuntos, sempre superficiais, incomoda.

Pior, embora reclame do isolamento, que o gueto paradoxalmente ameniza e agudiza, e até reflita sobre as razões para o mesmo, quando estimulada, a maioria das lésbicas parece buscar apenas companhia para transcorrer o périplo das baladas e outros programas que reproduzam o modelito lésbica-cerveja-cigarro-samba-forró-mesa-de-sinuca em qualquer lugar. Tentativas de criar alternativas a esse quadro ainda são incipientes e encontram pouca receptividade, prejudicando quem busca mais qualidade de vida também entre as sapas amantes de outros recreios, que ficam sem espaço de socialização. Eu que o diga!

Libertango: Aquilo só podia ser amor

terça-feira, 3 de abril de 2012 5 comentários

Azuis como safiras.
Duramente lapidados.
Autora: Diedra Roiz

O farol alto do carro desceu sobre o asfalto ainda úmido de chuva, as gotículas minúsculas brilhando como pequenas estrelas sob os pneus de borracha.

Lara apoiou o queixo no volante enquanto observava em silêncio as grades entre ela e a casa.

Na verdade um prédio de dois andares protegido por um muro extraordinariamente alto e seu portão de ferro hermeticamente fechado. Parecia ainda mais cinzento à noite. Tudo nele parecia escuro, frio, cimentado. Até mesmo as poucas janelas iluminadas como entidades distantes atrás do muro intransponível. Inatingível.

Inalcançável. Exatamente como Lara.

Os olhos de Lara, assim como as janelas, eram estranhamente parecidos com pedras. Azuis como safiras. Duramente lapidados.
Ela tocou a buzina três vezes, como sempre fazia. Seus olhos se deixaram abater por um momento. O cansaço os amenizando um pouco, ameaçando ficar ali à mostra. Nada que não soubesse fingir, camuflar, esconder.

Rapidamente, as pedras azuis voltaram a ficar inexpressivas como sempre. Anos e anos de prática lhe davam vantagem. Ela mesma já não sabia dizer como fazia. Era quase automático. Como um dom ou super poder. Ou talvez, a falta de algo. Quem olhasse de fora não saberia dizer.

O segurança que abriu o portão disse um:

- Boa noite, doutora.

Quase incompreensível. Não fazia diferença, porque de qualquer forma, Lara não ia perder tempo em responder.

Não se abalou nem estremeceu ao ouvir o portão batendo atrás dela como masmorra que fecha, trancando-a com um guincho-rangido. Um barulho e mais nada.

Saiu do carro, atirou a chave para o manobrista. Os passos ecoaram com um som de castanholas. Lara sorriu com a comparação absurda. Nada nela se aproximava de algo que pudesse lembrar uma dançarina flamenca. Fazia bastante questão disso. Preferia mil vezes uma distante e confortável impessoalidade.

Entrou em casa e a empregada a recebeu como sempre. Tirando a pasta e a bolsa das mãos dela, absolutamente eficiente.

- Boa noite, doutora.

Lara se limitou a um aceno impaciente de cabeça.

- Quer alguma coisa?

Levantou a mão, num gesto que a outra já sabia que queria dizer: “Pode se recolher.” – antes de entrar no longo corredor.

Dora estava no escritório, sentada atrás da escrivaninha dela e da habitual pilha gigantesca de papéis.

O fundo musical era muito mais do que um simples CD. Eram recordações que bailavam, impossíveis para Lara esquecer...

***

- Quero ser seu braço direito.

Lara tinha dito a Dora há alguns anos atrás.

Numa das muitas noites em que tinha ficado sozinha com ela no escritório, trabalhando até mais tarde. Quando ainda não passava de uma estagiariazinha ambiciosa cansada de se insinuar sem resultado.

- Quero uma coisa em troca.

Tinha sido a resposta de Dora. Lara a tinha olhado de uma forma absurdamente firme ao perguntar:

- O quê?

Dora respondeu sem hesitar:

- Você.

Lara não recuou. Sequer se surpreendeu. Os olhos azuis de uma frieza incisiva ao dizer:

- Tudo bem.

Na verdade, fazia tempo que Lara tinha desistido de dar importância aos próprios sentimentos. E mesmo se o fizesse, a exigência de Dora não teria outro efeito. Acostumada que estava em usar os atributos físicos em troca de vantagens, favorecimentos e outros incontáveis pequenos favores.

Não considerava isso como prostituição. Para Lara sexo era uma questão de lógica. Não tinha problemas em fazer. Tirava prazer de quem quer que fosse. Não acreditava em sexo com amor pelo simples fato de jamais ter se apaixonado.

Aos 25 anos, achava que o amor era uma espécie de dogma. Todos aceitam sem questionar se existe mesmo. E não ia perder tempo nem oportunidades por causa de algo que considerava, no mínimo, idiota.

Verdade que Lara nunca tinha feito sexo com uma mulher, mas isso era o que menos importava. Não tinha sido por preconceito ou algo do gênero. Mas simplesmente porque ainda não tinha surgido a ocasião conveniente para que isso acontecesse. Aquele parecia ser o momento perfeito.

***

Lara olhou em volta. Para o quarto impecavelmente arrumado de Dora. Em tudo ele parecia um frigorífico. Um frigorífico onde ela era o pedaço de carne crua pendurado no gancho. Quase podia sentir o sangue pingando no caríssimo – só podia ser caríssimo – e elegantíssimo tapete em frente à cama.

Dora diminuiu a luz. Mergulhando as duas na penumbra, dois vultos indistintos. Colocou uma música. Num volume comedido. O instrumental causando em Lara uma sensação estranha, algo que ela nunca tinha sentido.

Não era bem um incômodo, nem angústia... até parecido, só que... totalmente desconhecido. Mas o que realmente a deixou assustada foi o fato de estar sentindo.

Uma forte impressão de irrealidade a atingiu...
Dora não se aproximou. Ficou alguns passos dela, observando como uma felina. Perguntou:

- Gosta de Piazzolla?

Lara a olhou deixando claro que não tinha compreendido. Dora explicou sem desviar os olhos dos dela um instante, com um tom de voz baixo e rouco, que causou arrepios:

- Astor Piazzolla é um dos compositores de tango mais importantes da Argentina. Essa música é dele. Uma das minhas preferidas. Se chama “Libertango”.


Era a música que rodava? Ou algo dentro dela? Os olhos de Dora pareciam cintilar, como duas pequenas janelas, como se nada mais existisse sobre a terra. Nada além de Lara e ela.

Surpresa, assustada e estranhamente seduzida...

O instinto de Lara foi preciso: precisava sair dali. Mas Dora pegou o rosto dela entre as mãos e se tornou impossível. Encostou os lábios – macios, tão macios – nos dela e aí a idéia de fugir se tornou ridícula.

A suavidade do beijo a fez fechar os olhos e corresponder. A respiração se tornando difícil. Entreabriu os lábios e a língua de Dora a invadiu com uma voracidade suave e sutil.

Lara estremeceu, passou os braços ao redor da cintura dela e a puxou para si.

***

Quando terminou, Lara demorou muito para conseguir sair do estado em que estava e abrir os olhos. Afundada não na extrema maciez do colchão, lençol e travesseiros de pena de ganso e sabe-se lá quantos fios, mas na dolorosa consciência de ter se entregado inteira.

Deitada de lado, o corpo grudado no dela, a mão intimamente pousada na barriga de Lara, Dora a espreitava. Com o olhar satisfeito de predadora que acaba de se banquetear com sua presa.

Os olhos azuis resvalaram nos dela. Pela primeira vez na vida desarmados e sem saber o que fazer. Se Dora percebeu não disse nada. Nem nada fez. Ficou ali parada, olhando enigmaticamente para Lara, durante um longo tempo.

Foram as safiras que se desviaram. Dos olhos para a boca de Dora. Para os lábios que tinham percorrido o corpo dela inteiro. Num reconhecimento de quem sabe muito bem o que está fazendo. Se unindo às mãos e aos dedos para provocar e causar uma inacreditável sensação de... de que? Como definir o delicioso sufocar, queimar, arder, derreter e depois expandir sem barreiras? Completo e total esquecimento do eu, de toda e qualquer outra coisa que não fosse o doce ronronar do prazer. Obrigando Lara a suplicar, implorar, antes de a tomar realmente.

Nunca tinha cogitado a idéia de que sexo poderia ser daquele jeito. E sentiu medo.

Não só pelo fato de não conseguir entender. Nem pelo fato de detestar perder o controle da situação. Mas porque... Nada de bom poderia vir de algo tão... intenso.
Sentou na cama com uma pressa evidente. As mãos tateando em busca das roupas espalhadas. Em vão. Dora a segurou pelo braço, dizendo:

- Ainda é cedo.

A boca de Lara se abriu, mas ela nada falou. Um desespero irracional a dominou. Como num pesadelo em que se quer gritar mas não sai a voz. Ainda mais quando Dora completou num tom abusivamente macio e sedutor:

- Quero mais, muito mais de você.

Lenta, muito lentamente. O coração palpitando ao compasso de Piazzolla no peito, Lara se deitou. E deixou que Dora tivesse irrestrito controle do corpo dela novamente.

***

Com uma rapidez incrível, os dias se transformaram em semanas, e as semanas em meses. E apesar de Lara já ter feito sexo com Dora inúmeras e incontáveis vezes, sempre era surpreendente. Como se o tempo e a quantidade apenas aumentasse o clímax do desfecho.
O acordo entre elas parecia perfeito. Se Lara não se questionasse sobre o verdadeiro preço. Constantemente repassava – ou melhor: ficava remoendo:

- Quero ser seu braço direito.

- Quero uma coisa em troca.

- O quê?

- Você.

E ainda assim continuava sem ter certeza do que aquilo queria dizer.
Se se tratasse apenas de corpo e carne seria fácil, muito fácil de se lidar. Sem problemas. Mas não era. Impossível negar o quanto Dora tinha se tornado dona de Lara por inteiro. Como se naquele contrato verbalmente acertado tivesse vendido o espírito, a alma, o ser.

Não queria pensar, não queria saber. Tentava se dominar, esconder a loucura dos próprios... sentimentos. Sim, eram sentimentos. Por mais que não desejasse tê-los.

Se tornou constante Lara ficar parada, olhando para o nada distraidamente. Sorrindo sem saber porquê.

Nesses momentos de ausência Dora sempre se aproximava. A tocava de leve, carinhosamente. Lara se assustava, saltando ao toque como que mordida por uma serpente. Dora então a olhava daquele jeito enigmático e dizia:

- Você ainda tem muito que aprender.

Deixando Lara sem compreender.

***

- Lara?

A voz de Dora imediatamente a fez parar o que estava fazendo. Levantou os olhos dos papéis, gaguejando como uma garotinha assustada ao responder:

- Q...quê?

Dora sorriu. Enigmaticamente. Antes de dizer:

- Quero que você se mude para cá.

Não tinha escutado direito. Foi disso que Lara tentou se convencer. Não teve jeito. Dora completou:

- Amanhã mesmo.

A reação de recusa que teve foi tão forte que balançou a cabeça em negação sem nem perceber. Perguntou, com uma fraqueza na voz evidente:

- Por quê?

O que Dora estava pensando? O que queria realmente? Lara não conseguia saber. O rosto dela, os olhos, o jeito, eram inexpressivamente impassíveis. Como chamas de gelo.

Observava Lara com a segurança de quem numa sala de interrogatório fica protegida atrás do espelho. Inalcançável, inatingível, intransponível.

De repente, Dora abriu um sorriso. Enigmático e incompreensível, mas um sorriso. Fez Lara se levantar da cadeira. A puxou pela cintura, mergulhou a boca no pescoço que imediatamente se ofereceu. Sussurrou sem parar o que estava fazendo:

- Decifra-me ou te devoro.

- Ah?

A perplexidade de Lara fez Dora sorrir mais ainda. Fez Lara se sentar em cima da mesa. Se encaixou entre as pernas dela, os olhos fixos nos dela:

- Foi o que a esfinge falou para Édipo, minha querida.

Ainda tentou fazer com que ela explicasse. Apesar das mãos de Dora já estarem provocando tremores, passeando no corpo dela com a habilidade de sempre:

- O que você quer dizer?

A resposta de Dora foi colar os lábios nos de Lara vorazmente.

***

O que Lara mais temia não aconteceu. Ganhou um quarto só dela. Em frente ao de Dora, mas só dela. Não que dormisse sozinha.
Às vezes Dora a levava para o quarto dela depois do jantar. Às vezes batia na porta de Lara três vezes, como quem pede consentimento. Lara então dizia, com um sorriso imenso:

- Entra.

Até o dia em que Dora não veio. Lara passou a noite toda sem conseguir dormir direito. Esperando, desejando, querendo que as três batidas na porta acontecessem. Mas o dia amanheceu sem que Dora aparecesse.

Disfarçou como pode as olheiras. Desceu para o café da manhã com uma tristeza inexplicável, inaceitável, incoerente.

Se Dora percebeu não disse nada. Nem nada fez. Ficou ali parada, olhando enigmaticamente para Lara, durante um longo tempo.

Foram as safiras que se desviaram. E não voltaram a encontrar os olhos de Dora enquanto Lara se obrigava a comer.

O dia inteiro foi aquele sofrimento. Mal se falaram. Dora parecia distante, fria, indiferente. Alimentando o terremoto que Lara tinha por dentro.

Quando percebeu que Dora ia se retirar, perdeu o controle completamente. A segurou pelo braço. Perguntou num tom de profundo desespero:

- O que está acontecendo?

Dora a olhou surpresa. Não respondeu. Perguntou também:

- O que você quer dizer?

Lara não pensou, nem maquinou, muito menos planejou o que dizer. Foi sincera:

- Porque você não foi no meu quarto ontem?

Dora sorriu ao responder:

- Porque fiquei esperando você no meu.

A primeira reação de Lara foi franzir a testa. Ainda sem entender. A dúvida se transformou em perplexidade. Depois em alívio. E então, finalmente, em ardor.

Passou os braços ao redor do pescoço de Dora e a beijou. Sem nem perceber que pela primeira vez tomava a iniciativa.

Dominada por algo incontrolável. Algo que a assustava, mas que por outro lado a deixava surpreendentemente liberta.

Parou de se conter como quem faz uma curva e pisa no freio. O instinto a levando a aproveitar tudo que Dora oferecesse. Bebeu dela como de um oásis no meio do deserto. A tocou como um náufrago ao chegar a terra.

Se Dora percebeu não disse nada. Nem fez nada diferente. Continuou do mesmo jeito.

Só que dessa vez Lara compreendeu. O quanto Dora era - sempre tinha sido – apaixonada e intensa. Desde a primeira vez.

***

Horas depois, se deixaram ficar deitadas nuas na cama de Dora - uma nos braços da outra - absolutamente satisfeitas.

Lara com a cabeça encostada no ombro de Dora, que acariciava as costas de Lara carinhosamente.

Lara ergueu os olhos, mergulhando os de Dora num azul profundo e ardente. Sussurrou com uma segurança que as surpreendeu:

- Quero me mudar para cá.

Dora sorriu. Enigmaticamente. A beijou suavemente nos lábios e respondeu:

- Esse quarto sempre foi seu.

Voltaram a se beijar. Dessa vez apaixonadamente.

***

....Lara ficou parada na porta do escritório. Olhando para Dora, as lembranças bailando nos lábios dela sob a forma de um sorriso intenso.

Dora finalmente ergueu os olhos e a viu.

O sorriso de Lara aumentou mais e mais quando Dora correspondeu. A música ainda tocava, rodopiando incessantemente pelo ambiente.
Lara se aproximou. Antes de comentar:

- Piazzolla...

Dora sorriu quando escutou. Lara sorriu de volta. Dessa vez sedutora, envolvente, demonstrando suas intenções claramente. Completou:

- “Libertango”... Essa música me traz ótimas recordações.

Dora afastou a cadeira da mesa, bateu com a mão na coxa, e chamou:

- Vem cá, vem...

Sem hesitação nenhuma, Lara a atendeu. Sentou no colo de Dora e a beijou. Os braços ao redor do pescoço dela, completamente entregue. Sussurrou:

- Quero você.

E Dora a satisfez. Ali mesmo com a porta aberta, pouco se importando com um dos empregados poder entrar e as surpreender.

Infindável tremular de se buscar, se guiar, se perder. Indo e voltando incessantemente.

As mãos provocando tremores, passeando pelos corpos com a habilidade de sempre.

Causando uma sensação conhecida, constante e urgente.

Música que rodava fora e dentro delas. Os olhos cintilando, num
doce e sufocado tormento. Como se nada, nada além das duas existisse sobre a terra.

Os lábios macios, a suavidade dos beijos exigentes, as mãos, dedos e línguas de uma voracidade suave, mas persistente.

Respirações se tornando sutilmente difíceis e trêmulas.

Suave sufocar. Queimando, ardendo, derretendo...

Passionalmente. Antes da explosão certeira.

Completo e total esquecimento de toda e qualquer outra coisa que não fosse a entrega misteriosa, deliciosa e intensa. As unindo num único momento.

Tomadas por algo incontrolável, impossível de se descrever. Fora do espaço e tempo. Irracional e irresistível resfolegar do ardor.

Não se perguntavam, questionavam nem formulavam teorias. Simplesmente aproveitavam e viviam o que sentiam. Sem que para isso fosse necessário algum tipo de tese ou monografia.

E apesar de nunca terem se dito nada – nem precisavam, os meses e anos de atos, cumplicidade e convivência entre as duas falavam mais do que qualquer outro fator - dentro das duas uma firme certeza existia: que aquilo era – só podia ser - amor.

Título original: A Dança das Raposas

Publicado originalmente, em dezembro de 2010, no site Um Outro Olhar

Novas famílias: filhos de duas mães e de dois pais

segunda-feira, 2 de abril de 2012 0 comentários

Mariana e Paula com seus gêmeos

Para desespero dos cons (conservadores), o GNT já exibiu dois programas da série Novas Famílias com famílias onde os pais ou as mães são do mesmo sexo. E exibiu da forma que eles detestam, ou seja, apresentando o quanto os casais LGBT são como outros quaisquer.

Abaixo, dois vídeos com trechos dos programas. Muito legal mesmo! 


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
 
Um Outro Olhar © 2025 | Designed by RumahDijual, in collaboration with Online Casino, Uncharted 3 and MW3 Forum