A ética do outing: Quando é válido assumir os outros!

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012 1 comentários

Autora: Míriam Martinho

Coming out of the closet é a expressão em inglês que, na tradução para o português, virou o célebre "sair do armário". "Sair do armário" é quando uma pessoa decide assumir sua homossexualidade ou qualquer outra preferência sexual não-ortodoxa publicamente.

Outing, por sua vez, é a expressão também em inglês que designa o ato de tirar alguém do armário à revelia. Ação política controversa, pois implica expor a privacidade alheia, ela divide opiniões em sua aplicação, mas vem sendo utilizada cada vez mais em todo o mundo.

Para alguns ativistas LGBT, o outing deveria ser feito com tod@s @s enrustid@s, pois eles contribuem pouco ou nada para o avanço dos direitos humanos LGBT, embora se beneficiem imensamente dos ganhos conquistados pelos que tiveram a coragem de se assumir.

O argumento é consistente, mas esbarra no fato de que as pessoas dependem de empregos para sobreviver, e a homossexualidade, ou qualquer outra atividade sexual diferente da heteronormalidade tradicional, pode ainda ser motivo de demissão no trabalho, pode criar problemas na relação da pessoa com a família e mesmo em seu círculo pessoal de socialização.

Por essa razão, o outing indiscriminado, mesmo de celebridades, não costuma ser bem aceito. Prefere-se incentivar as pessoas a que se assumam espontaneamente no seu ritmo de auto-aceitação para que o sair do armário se dê com o mínimo de problemas em relação ao entorno de cada um(a).

Entretanto, há uma variante do outing que tem ganho cada vez mais adeptos: o outing de pessoas que, embora pertencentes a minorias sexuais, atuam contra os direitos dessas minorias ou contra membros dessas minorias, por razões pessoais egoístas, como ascender na carreira, ou para prejudicar um desafeto.

Nesses casos, o outing é não só moralmente justificável como necessário. Ao não fazê-lo, principalmente contra gente influente, permite-se que essas pessoas continuem agindo em prejuízo da comunidade ou dos indivíduos aos quais atingem diretamente. O silêncio e a inação da comunidade em relação a essas pessoas torna a todos cúmplices de suas atitudes hipócritas e deploráveis. Pelo contrário, ao assumi-las, encoraja-se pelo menos algumas delas a pensar duas vezes antes de repetir as mesmas ações no futuro.

Concordo inteiramente com essa última perspectiva. Pior do que os que lutam contra nossos direitos, não sendo da comunidade, só mesmo os que, sendo do meio, atuam contra os interesses coletivos ou contra membros da comunidade por razões mesquinhas.

Obviamente, não se fala aqui de pessoas que são discretas simplesmente, reservadas, e não ficam levantando bandeira a toda hora e em todo o lugar. Essas pessoas agem naturalmente, não escondem que são LGBT mas também não ostentam, não podendo, portanto, ser classificadas como “no armário” muito menos como traidoras da causa.

Fala-se aqui de enrustidos que chegam ao ponto de difamar e perseguir outros membros da comunidade enquanto secretamente continuam mantendo relações não-heterotradicionais. Estes devem ser assumidos para expor sua hipocrisia e destruir sua má influência.

O outing às vezes é mal-visto porque utilizado também por pessoas sem princípios que invadem a privacidade alheia para faturar com matérias sensacionalistas ou para simplesmente prejudicar alguém. Principalmente celebridades costumam sofrer com a imprensa marrom que não mede esforços para divulgar detalhes picantes da vida íntima de artistas, políticos e gente influente em geral.

Nesse quesito, não só a homossexualidade de alguns mas também o fetichismo de outros são um prato cheio para os escândalos. Em março de 2008, o então presidente da FIA (Federação Internacional de Automobilismo), Max Mosley, foi vítima desse tipo de ação anti-ética. Um vídeo, em que ele aparece, com algumas mulheres, em cenas sadomasoquistas de temática nazi,  foi divulgado na Internet, pelo tablóide inglês News of The World, e virou um escândalo total.

Mosley foi várias vezes ameaçado de demissão e afirmou que a revelação devastou sua família. De qualquer forma, conseguiu dar a volta por cima, assumiu suas preferências e até conseguiu processar o jornal por invasão de privacidade. Segundo o ex-presidente da FIA à epoca, a divulgação das imagens foi obra de alguém da área das corridas a fim de desestabilizá-lo.

Naturalmente, o outing político nada tem a ver com esse tipo de ação mercantilista e de má-fé. Ele é estritamente destinado aos hipócritas que, embora membros de uma comunidade estigmatizada, usam dos estigmas que a afetam para atacar indivíduos dessa mesma comunidade ou para, ao combater a luta pelos direitos dessa comunidade, usufruir de benesses pessoais. O outing dessas pessoas é, nessas circunstâncias, como afirma o ativista Peter Tatchell, da aguerrida organização inglesa OutRAge, a quem devo muitas das idéias desse artigo, uma potente técnica de auto-defesa queer.

Publicado originalmente em Um Outro Olhar em janeiro de 2009

Nota atualizada: Exemplo de possível homossexual que inclusive falava publicamente contra os direitos homossexuais foi o americano J. Edgar Hoover, nada menos que o fundador do Federal Bureau of Investigation, o FBI. Embora não exista prova indiscutível de sua homossexualidade, Hoover tinha uma amizade com seu principal assistente, Clyde Tolson, que levantou a suspeita de que fosse gay, já que eram inseparáveis, viveram juntos por 50 anos e nunca tiveram família ou namoradas.

O filme J. Edgar, de Clint Eastwood, com Leonardo di Caprio no papel principal, gira em torno da vida desse controverso e poderoso personagem e está em cartaz nos cinemas brasileiros. Veja abaixo o trailer legendado.

Carnaval sem Preconceito

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012 1 comentários

A Prefeitura do  Rio de Janeiro, através da Coordenadoria Especial da Diversidade Social (CEDS), sob coordenação do estilista Carlos Tufvesson, lançou ontem, terça-feira, dia 14, a campanha Rio Carnaval Sem Preconceito. Versão 2012 da mesma bem-sucedida campanha do ano passado, a Rio Carnaval Sem Preconceito distribuirá, em blocos, praias, bailes, aeroportos e na rodoviária Novo Rio, panfletos informativos sobre doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), preservativos e lubrificantes provenientes da parceria com a Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil, e cartões com informações sobre o carnaval carioca. Veiculará também, em rádio, televisão (na TV Globo durante a programação de Carnaval), bailes, o inspirado samba-enredo, composto pelos bambas Arlindo Cruz e Luana Carvalho, Rio Carnaval Sem Preconceito. Ver abaixo.

Participam do clipe grandes nomes  das escolas de samba cariocas como Noca da Portela, Delegado, Tia Suluca, Lucinha Nobre e Rogério Dorneles (porta-bandeira e mestre-sala da Portela); musas de diversas agremiações como Juliana Alves, Quitéria Chagas, Flávia Piana, Milena Nogueira e Ana Paula Evangelista; as atrizes Suzana Pires, Antonia Fontenelle, Cinara Leal e Michelle Martins; as cantoras Beth Carvalho, Angela Ro Ro e Teresa Cristina e figuras conhecidas do público, como a repórter especial Fernanda Honorato, Talytha Pugliesi, Lucinha Araújo, Diana Balsini, Aloísio de Abreu, Liliane Reis, Thiago Chagas, Clarisse Miranda e Nicole Nandes.

Mais informações: Coordenadoria Especial da Diversidade Social (CEDS-RJ) 

Rio Carnaval Sem Preconceito
(Arlindo Cruz / Luana Carvalho)

É VERÃO, A CIDADE ESTÁ EM FESTA
É O REINADO DA ALEGRIA
TRAGA AS SUAS FANTASIAS
MANDE EMBORA O DESAMOR

DE PÉ NO CHÃO NÃO EXISTE DIFERENÇA
NEM DE COR E NEM DE CRENÇA
VALE TUDO EM NOME DO AMOR
SAMBA É TRADIÇÃO NO MEU RIO DE JANEIRO
UM REDENTOR PRA ABRAÇAR O MUNDO INTEIRO

VEM SER MAIS UM
UM SER DE PAZ NA MULTIDÃO
DEIXAR FALAR SEU CORAÇÃO
SER CARIOCA NO PRAZER DE SONHAR

FOLIÃO, TER LIBERDADE É NÃO TER MEDO
SACODE A POEIRA E BATE NO PEITO
O RIO É CARNAVAL SEM PRECONCEITO

TOLERÂNCIA ZERO COM A DISCRIMINAÇÃO
VOCÊ QUER, EU QUERO
MAIS RESPEITO E INCLUSÃO
FELICIDADE É O NOSSO DIREITO
VAMOS LÁ, MEU RIO CARNAVAL SEM PRECONCEITO

Maternidade Lésbica: mulheres que gostam de mulheres  e são mães!

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Venturas e desventuras da maternidade nas palavras de nossas entrevistadas de Brasília (DF), Lusilene, digitadora, 39, que tem uma menina de 6 anos, e Recife (PE) Amanda, 33, produtora, que tem um menino de 1 ano e 8 meses.

UOO: Primeiro, falem um pouco de suas vidas. Vocês se identificam como lésbicas ou bissexuais?

Amanda: Agora como lésbica, mas já tive experiências com homens.
Lusilene: Olha, eu me identifico mais como lésbica do que bi, pois, apesar de já ter namorado homens, quando era mais nova, prefiro as mulheres porque a gente se entende melhor. Moro sozinha com minha filha. Viemos para Brasília em 2005. É uma cidade onde me identifico muito porque foi aqui onde tudo começou.

UOO:  Vocês tiveram filhos numa produção independente ou num casamento formal?

Amanda: Produção independente...
Lusilene:  A minha filha veio por acaso, foi um descuido. No começo foi difícil admitir que estava grávida.

UOO:
  Se casaram, casaram por pressão social ou familiar ou por amor simplesmente?

Amanda: Não casei. o pai do meu filho é um amigo.
Lusilene:  Nunca me casei nem pretendo me casar com homens.

UOO:  Vocês sempre quiseram ser mães ou acabaram sendo para atender as convenções sociais que afirmam que todas as mulheres devem ser mães?

Amanda:  Não planejei, mas tinha vontade sim.
Lusilene:  Nunca pensei em ser mãe, não me imaginava como mãe, mas agora afirmo que ser mãe é muito bom.

UOO:  Vocês têm quantas crianças? Meninas e meninos? E quantos anos ela(s), ele(s) têm?

Amanda:  Tenho 1 menino de 8 anos..Lindo de morrer e muito amado.
Lusilene:  Só tenho uma filha de 6 anos.

UOO:  Sempre se interessaram também por mulheres? E sempre vivenciaram esse interesse ou só após a separação?

Amanda:  Tive minha primeira namorada aos 14 anos. Sempre soube do meu interesse por mulheres.
Lusilene:  Sempre me interessei por mulheres, e isso já vem desde a minha adolescência; só que tinha medo de me assumir totalmente.

UOO:  E como tem sido o relacionamento de sua(s) namorada(s) com seus filhos?

Amanda:  Estou com o que considero meu primeiro relacionamento sério e longo, por isso, o contato maior com o assunto foi mesmo com ela, e eles se adoram (meu filho e minha namorada). Ele já sabe de tudo porque acho que um exemplo que posso deixar pra ele é de que se deve ir atrás do que se ama, e ser quem se é, sempre.
Lusilene:  Não tenho namorada atualmente, mas quando tive o relacionamento foi péssimo: ela não gostava da minha filha e queria que eu desse mas atenção a ela do que pra minha filha. Só que eu sabia dividir as coisas, e ela não entendia. Por isso terminamos.

UOO:  Vocês acham que as mães lésbicas sofrem mais preconceito da sociedade do que as lésbicas que não têm filhos?

Amanda:  Acho que sim porque temos que conviver com mães, professoras, e, infelizmente, as pessoas do meu convívio que não aceitam a minha condição, usam isso pra me atingir mais fundo. Só que eu me faço respeitar e sem fazer nada, apenas sendo quem sou. Quem tem o que fazer são eles, aprendendo a lidar com a diferença.
Lusilene:  Acho que sim, mas ainda não sofri esse tipo de preconceito, porque não gosto de falar da minha vida pessoal com as pessoas no trabalho, e tenho amigas que tem filhos e não sofreram nenhum preconceito. De qualquer forma, acho que as pessoas têm que respeitar a opção de cada uma.

UOO: A família de vocês sabe que se relacionam com mulheres? Se sim, como eles encaram? E os pais de suas crianças?

Amanda:  Minha família sabe, e tenho a sorte de ter uma mãe que me apóia. Alguns irmãos não apóiam (são 5, sou a sexta, caçula, imagine...), mas, como disse, só vão até onde eu deixo. E o pai do meu filho nunca se meteu nessa área da minha vida.
Lusilene:  A minha família não se mete muito na minha vida, mas, se eu arrumar alguma namorada, com certeza já saberei a opinião deles porque eles não admitem que eu namorei uma mulher e falam que é uma doença e etc. O pai da minha filha não sabe que ela existe; a gente só ficou uma vez, e ai aconteceu.

UOO:  Quais os problemas que vocês enfrentam como mães lésbicas: com a família, com amigos, no trabalho, na escola?
Amanda:  Coisas do tipo ver meu filho chateado por causa de crianças que não vieram na festinha dele, e eu sabendo pelo que foi ...Pessoas da família dizendo que eu não posso expor ele a esse tipo de coisa, ou até olhares tortos, na escola.. e coisas do gênero.. Mas também tenho grandes pessoas comigo e com ele, que me ajudam muito. Não faço disso um drama porque não é nem quero que ele ache que seja. Tiramos de letra e somos felizes.
Lusilene:  Vários. É difícil a gente se encontrar. Os meus amigos gays se afastaram de mim, quase não falo com eles.. No trabalho, ninguém sabe que sou lésbica. Na escola, minha filha fica sendo motivo de piadas....mas estou dando um jeito nisso.

UOO: : E da própria população lésbica? Vocês acham que as lésbicas preferem as mulheres sem filhos?

Amanda:  Acho que varia, como numa relação heterossexual: tem gente que prefere sem, que prefere com, e para quem não faz diferença.
Lusilene:  Lógico que elas preferem as mulheres sem filhos, por isso que ainda estou sozinha.

UOO:  Por fim, que mensagem gostariam de deixar para as leitoras e leitores da UOO?
Amanda:  Nunca deixem de fazer e ficar com quem amam, todos os tipos de amor, e preconceito é coisa de gente limitada, não se limite a elas..bjs.
Lusilene: Que lutemos pelos nossos direitos e que sejamos mais unidas porque precisamos vencer todos os preconceitos que existem.

Originalmente publicada em 09/05/07 no site Um Outro Olhar

Jô Soares arrasa o homofóbico Marcelo Crivella!

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O vídeo abaixo foi postado em agosto de 2011, mas tão divertido que vale o registro atual para a gente desopilar um pouco o fígado. Trata-se de trecho de uma entrevista que o senador evangélico Marcelo Crivella concedeu ao Jô Soares no programa do Jô. 

Entre outras pérolas, Crivella afirma - como de praxe - que o PLC 122 quer calar a boca de quem critica o homossexualismo. E o Jô retruca: "- O homossexualismo é passível de crítica? Isso é que eu não entendo. É como dizer assim...vamos criticar agora o gordo. O gordo é um pecador porque é contra a natureza. É antinatural. Logo é pecado..."

Outra do gordo, quando Crivella declara que ele (Jô) pressupõe que as pessoas nascem homossexuais: "- ...Ou nascem ou não nascem... que seja uma opção. Sujeito chega aos 50 anos e diz assim 'vou virar viado'. O que é que a Igreja tem a ver com isso? Por que o sujeito é mais pecador por causa de uma opção sua? Eu não vejo qual é o pecado já que não interfere na sua salvação. Eu não vejo ninguém no céu barrando a entrada de uma pessoa - você é viado, vai pro inferno... Eu não consigo ver isso..."

Tão exaltado o Jô fica sobre o assunto que mal deixa o Crivella falar, tanto que o próprio até reclama disso. Para quem dizia que o Jô Soares era até homofóbico, por conta de suas piadinhas sobre gays, pode ir reavaliando seus conceitos. O boneco do ventríloquo 666 teve que se esforçar para não mostrar quem realmente fala quando ele abre a boca.

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