Sitcom "One Day at a Time", que abordava homofobia, é cancelada

segunda-feira, 25 de março de 2019

Isabella Gomez vive Elena em "One Day at a Time"  Imagem: Reprodução/YouTube

Cancelada, "One Day at a Time" era a série de TV que melhor entendia a homofobia

Os fãs de One Day at a Time, sitcom da Netflix, lamentaram ontem a notícia do cancelamento da série após três temporadas. A produção conquistou o seu fiel grupo de admiradores não só pela excelência cômica, como também por abordar questões sociais importantes de forma sempre acertada -- entre elas, a homofobia dentro do ambiente familiar.

A decisão do cancelamento vem, pelo menos em parte, por conta do esforço da Netflix para se firmar como produtora, e não só distribuidora, de conteúdo -- One Day at a Time era fruto da parceria com a Sony, e por isso já estava em posição fragilizada dentro da plataforma.

Enquanto o estúdio promete tentar achar uma nova casa para a série, sabemos que será uma missão difícil. A Netflix tem os direitos exclusivos das três temporadas já lançadas, de forma que produzir um quarto ano de One Day at a Time não parece um bom negócio para outros serviços de streaming e canais convencionais.

É uma pena, mas pelo menos "One Day at a Time" teve tempo de contar uma das histórias sobre homofobia mais importantes dos últimos anos de TV. No decorrer de suas três temporadas, a série da Netflix mostrou Elena (Isabella Gomez) sofrendo com a rejeição do pai, Victor (James Martinez), se fortalecendo no amor do resto de sua família, e encontrando enfim uma espécie reconciliação.

Elena com o pai, Victor (James Martinez), em "One Day at a Time" Imagem: Reprodução/YouTube

O mundo fora do armário

A decisão tomada por Elena de se assumir para a sua família foi um dos momentos centrais da primeira temporada de One Day at a Time. Logo de cara, a série acertou ao não forçar uma circunstância em que a sexualidade de Elena é exposta sem sua permissão, baseando as cenas decisivas de sua saída do armário em diálogos com a família.

Penelope (Justina Machado), a mãe de Elena e protagonista da série, sabe que não há nada de errado ou imoral na sexualidade da filha -- mas, ainda assim, tem algumas dificuldades para entendê-la, acolhê-la e (com o tempo) celebrá-la. A jornada da personagem é honesta, refletindo como um pai ou mãe não preconceituosos, mas que nunca precisou pensar muito nisso, provavelmente lidaria com a descoberta de que seu filho ou filha é gay ou lésbica.

A situação é diferente quando Elena reencontra o pai, que trabalha com segurança privada fora dos EUA e vem para o país a fim de comparecer à festa de aniversário de 15 anos da filha. O "machão" Victor (James Martinez) não reage bem quando a filha se assume para ele, negando-se a reconhecer que sua sexualidade é válida ou algo além de uma fase -- argumento que muitas pessoas homossexuais já ouviram de parentes.

No episódio final da primeira temporada, Victor se enfurece com a filha por ela ter escolhido usar um terno (costurado pela avó, Lydia) ao invés de um vestido na festa de 15 anos. Ele deixa o evento antes da tradicional dança de pai e filha, levando a um dos momentos mais tocantes de One Day at a Time, provavelmente a cena pela qual a série vai ser mais lembrada: Penelope se levantando da mesa e tomando o lugar do ex-marido na dança.

Elena dança com a mãe, Penelope (Justina Machado), em "One Day at a Time" Imagem: Divulgação/IMDb

Família "remendada"

Nas temporadas seguintes da sitcom, a história de Elena e a rejeição de Victor ficaram em segundo plano. Trata-se de outro acerto de One Day at a Time: gays e lésbicas não são definidos só pelas feridas deixadas pela homofobia, e Elena era uma personagem única, cheia de dimensões, que tinha toda uma família para fortalecê-la. Quando o tema ressurgia, no entanto, a série tratava de deixar claro a profundidade destas feridas.

Isso aconteceu, especialmente, nos episódios finais da terceira temporada. Neles, Victor retorna para a vida da família a fim de anunciar que vai se casar novamente, e chamar os dois filhos para serem padrinho e madrinha na cerimônia. O pai de Elena mostra esforço genuíno para não ofender a filha, e diz que a nova namorada o guiou por um caminho de empatia e aceitação.

Onde a série acerta nesta reconciliação é em colocar o fardo sob os ombros de Victor, e não de Elena. Muito frequentemente, gays e lésbicas da ficção levam broncas ou são punidos por não procurarem fazer as pazes com aqueles que os rejeitaram, ofenderam, abandonaram ou machucaram. Em One Day at a Time, a linha desenhada é clara: Victor estava errado, e é dele a responsabilidade de reconquistar a confiança da filha.

O último momento entre os dois é simbólico. Reconhecendo o esforço do pai, Elena faz um brinde durante o casamento que o emociona, mas confessa ao irmão, Alex (Marcel Ruiz), que ainda sente a dor do abandono, de quando ele a deixou sozinha na sua festa de 15 anos. E One Day at a Time, mais uma vez não castiga ou critica Elena por este ressentimento, porque entende que ele é válido.

Ao invés disso, a série faz Victor provar seu comprometimento com a aceitação da filha ao chamá-la para dançar "De Niña a Mujer" durante a festa -- a mesma música que tocou no finale da primeira temporada da série. De todos os momentos em que One Day at a Time mostrou entender um leque de temas complicados melhor do que qualquer outra série de TV, este talvez seja o mais potente.

Fonte: Entretenimento UOL, por Caio Coletti, 16/03/2019Para mais informações sobre direitos e conquistas das mulheres em geral, acesse Contra o Coro dos Contentes

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