Monge zen-budista realiza casamentos LGBT em templo no Japão

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Rev. Takafumi Kawakami em Shunkoin, um subtemplo do Templo Myoshinji

Este monge budista quer realizar casamentos gays em templo no Japão

O casamento entre pessoas do mesmo sexo não está legalizado no Japão. No entanto, existe um templo Budista japonês onde lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e membros de outros grupos minoritários podem se casar: o templo Shunkoin em Hanazono, Kyoto. Casais gays do mundo inteiro visitam o templo.

Como é que o templo Shunkoin começou a realizar cerimônias de casamento LGBT? O HuffPost Japão fez essa mesma pergunta ao Reverendo Taka Zenryu Kawakami, sumo sacerdote do Shunkoin.

O sacerdote admite ter tido preconceito contra a comunidade LGBT quando era mais jovem. "Eu não sou gay e na minha infância não havia pessoas LGBT. O meu antigo ‘eu’ tinha um preconceito contra essas minorias", disse. Kawakami nasceu em uma família que tem dado origem a sumo sacerdotes Shunkoin por gerações.

Depois de graduar-se da Escola Hanazono (afiliada ao templo budista Rinzai), ele estudou inglês na Universidade Rice no Texas e depois na Universidade Estadual do Arizona.
Um dia eu estava tomando um chá com um amigo e uma pessoa passou perto de nós e deu para perceber que era um gay. Eu fiz um comentário discriminatório. Meu amigo respondeu: 'Eu também sou gay. É assim que você se sente assim sobre mim, Taka?’”, relembra Kawakami.

Quando ele disse isso eu lembrei de como fui discriminado por ser asiático na minha viagem pelo Sul do país", disse o sacerdote.
Por ter sofrido na pele o preconceito eu senti uma imensa vergonha e mudei completamente de postura. Quando isso aconteceu os meus amigos começaram a se abrir comigo, assumindo-se gays ou lésbicas".
Kawakami se formou em estudos religiosos e psicologia na Universidade Estadual do Arizona e morou nos Estados Unidos por aproximadamente oito anos. Em 2004 ele retornou ao Japão para começar o seu treinamento ascético no templo Zuiganji na prefeitura de Miyagi, já que a experiência como sacerdote o ajudaria a prosseguir os estudos.

Em 2006 Kawakami concluiu seu treinamento e retornou a Shunkoin onde teve a oportunidade de dar aulas em inglês de zazen (meditação zen budista) a um conhecido americano. As pessoas souberam das aulas e os turistas começaram a entrar em contato.

Em 2007, Kawakami tornou-se oficialmente sumo sacerdote no Shunkoin e começou a oferecer aulas de meditação para um número cada vez maior de falantes da língua inglesa.

A primeira pessoa a perguntar sobre cerimônias de casamento para casais do mesmo sexo foi uma mulher da Espanha que tinha visitado Shunkoin várias vezes para aprender a meditação zazen.
Você pode realizar cerimônias aqui?' ela me perguntou", relembrou Kawakami. "Eu disse para ela, ‘Sim, podemos.' Então, ela disse 'Eu tenho mais uma pergunta. Minha parceira é mulher.' E eu respondi, 'Está bem.'"
Kawakami buscou nos textos sagrados do Budismo Mahayana e confirmou que esse tipo de casamento não contradiria as escrituras. Ele esperava ouvir críticas por realizar a cerimônia ali, mas ele também tinha certeza que sua vontade de realizar as cerimônias de casamento do mesmo sexo no templo apoiaria a causa LGBT abrindo caminhos para uma maior aceitação na sociedade japonesa.
As razões que fazem as pessoas LGBT não serem aceitas no Ocidente e no Japão são diferentes", disse ele. "No Japão, não há pressão religiosa de grupos como os conservadores cristãos. Então você não vê o mesmo tipo de oposição forte que existe no Ocidente.
Por outro lado, no Japão há uma pressão em direção ao conformismo, um sentimento de que ‘Nós todos somos iguais; somos todos heterossexuais’ – e isso dificulta a vida de quem é LGBT. Eu pensei que se mais lugares, como o meu templo, pudessem mostrar que ativamente aceitam casamentos gays isso daria uma maior atenção ao problema", adicionou ele.
 Casais gays do mundo todo vão para Kyoto casar-se no templo Shunkoin.
(John Lander via getty images)


Em 2010, o casal de espanholas realizou uma cerimônia pública de casamento no templo. Na primavera de 2014 Shunkoin, em parceria com o Hotel Granvia Kyoto, começou a oferecer pacotes turísticos de casamentos budistas para casais LGBT.

Cinco casais se registraram esse ano. Até agora, em 2015, oito casais vieram aqui para declarar o seu amor, disse Kawakami. Seis desses casais vieram de fora e dois deles eram japoneses -- dois homens e duas mulheres.
Muitos casais são de mulheres. Este foi o primeiro ano que tivemos um casal onde os dois eram japoneses, o que me deixa muito feliz. Espero que tenhamos mais casais como eles no futuro", disse Kawakami.
Desde que as cerimônias de casamento do mesmo sexo começaram em Shunkoin, Kawakami tem dado palestras na General Electric e na Universidade de Tokyo e tem sido convidado para falar em outras instituições.
O missionário Luís Fróis registrou que no período dos Estados Guerreiros, daimyo [lords] tinham relações sexuais com seus mensageiros. O amor entre pessoas do mesmo sexo está descrito na shunga, arte [erótica] do período Edo e era aceito", disse Kawakami.

Isso mudou durante [o período Meiji]. Durante a fase ‘Sair da Ásia, Unir-se a Europa’, a definição de 'país civilizado' como produto de uma nação ocidental, de base protestante, foi importada e com ela veio o pensamento que o amor entre gays era pecado. Se olharmos cuidadosamente para a história, podemos ver que um Japão pré-Meiji era 'gay friendly'", disse ele.

Não devemos agir como se fosse certo deixar de lado a comunidade LGBT só porque eles são uma minoria", disse Kawakami".
De acordo com pesquisas 7,6 por cento da população do Japão é LGBT. Isso significa que aproximadamente sete por cento da população no Japão não tem a opção de se casar. Isso não pode trazer felicidade ao país inteiro."
Não se trata somente dos direitos gays, acredita Kawakami. Uma sociedade onde as mulheres, as pessoas com deficiências, os imigrantes e outros grupos minoritários possam ser felizes, é o caminho para a felicidade em todo o país, disse ele.

Esta história originalmente apareceu no HuffPost Japão. Foi traduzida e editada por motivo de clareza.(Tradução: Simone Palma)
Fonte: Huff Post Brasil, 09/11/2015

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