Padre Fábio de Melo: "A questão (do casamento LGBT) só nos tocaria se viessem nos pedir o reconhecimento religioso e sacramental da união"

segunda-feira, 20 de abril de 2015


Em 12 de abril, o padre Fábio de Melo escreveu uma série de mensagens sobre o casamento civil entre pessoas de mesmo sexo que demonstra sua compreensão de um dos pilares das democracias modernas que é o laicismo. Cita inclusive o famoso ditado "dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus".

Em geral, suas tuitadas (ver abaixo) repercutiram bem entre seus seguidores e na sociedade em geral, mas causou irritação entre ultraconservadores que de democracia nada entendem. À guisa de comparação, segue, após os tuítes do padre, um texto da famigerada página ultraconserva Mídia Sem Máscara, de um tal de Flávio Blanco, criticando o secularismo do religioso e acusando-o até de inimigo da Igreja. Vale comparar a clareza e o espírito democrático do Padre Fábio de Mello com o obscurantismo do autor da citada página.

Padre Fábio de Mello se declara a favor do casamento civil gay

O padre Fábio de Melo fez uma declaração que surpreendeu – de maneira positiva – seus seguidores nas redes sociais. Em uma série de mensagens no Twitter, ele se posicionou a favor do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Segundo o religioso, não é a primeira vez que ele fala sobre isso. “Não sou o professor Girafales, mas gostaria de fazer um apontamento. Já falei muito sobre o assunto, mas sempre volta como se fosse novidade”, escreveu.

Para Fábio de Melo, as igrejas devem respeitar cada um como cidadão, independente da religião escolhida.
Se duas pessoas estabeleceram uma parceria, e querem proteger seus direitos, o Estado precisa dar o suporte legal”, afirmou. “A questão só nos tocaria se viessem nos pedir o reconhecimento religioso e sacramental da união”.
E o que poderia parecer polêmico rendeu uma repercussão positiva para o religioso. Seus seguidores no Twitter apoiaram os comentários. “Padre Sábio de Melo”, disse um. “Ele sabe o que é um Estado laico. A separação entre estado e igreja é dos pilares da democracia”, apontou outra. “O senhor é uma pessoa evoluída”, resumiu mais uma fã do padre.

Leia o que disse o padre, que também é cantor e escritor. (Fonte: Veja São Paulo, 12/04/2014)









O secularismo explícito do padre Fábio de Melo

Quando os religiosos se calam, são seus inimigos que se levantam e, sem nenhum pudor, vão fazer de tudo para que as pessoas não apenas aceitam os seus valores, mas os absorvam.

Quando eu estava decidido a falar sobre outros assuntos, superando a questão da manifestação pública de religiosos e sua legitimidade, não é que me aparece o padre pop Fábio de Melo e solta, no twitter, uma sequência de pensamentos que são o exemplo perfeito de tudo o que eu venho expondo por aqui? Lançando meia-dúzia de espirros verbais, consequência, certamente, de um vírus modernista que, parece, tomou conta do sacerdote católico, ele acabou expectorando a visão laicista de sociedade que preenchia seu peito e ansiava ser colocada para fora.

O padre afirmou, sem nenhum rodeio, que “a união civil entre pessoas do mesmo sexo não é uma questão religiosa. Portanto, cabe ao Estado decidir”. E já, nisso, constatamos o aspecto esquizofrênico de suas palavras, expondo que é normal alguém ter duas personalidades, uma religiosa e outra pública e que existem questões que são exclusivamente religiosas, enquanto outras são exclusivamente civis. O que talvez ele não perceba, é que essa fragmentação, no ser e também na sociedade, é fruto de uma doença moderna, como bem alertou Francis Schaeffer, em seu livro A Morte da Razão, ao afirmar que, “não se pode ter verdadeira moral no mundo real uma vez feita essa dissociação. [Da mesma forma] não se tem uma base adequada para o direito, para a lei”. O que Schaeffer quer dizer é que, quando se abre mão da unidade do pensamento, quando se separa as ideias religiosas das civis, estas deixam de possuir qualquer moralidade, pois não têm onde encontrar referências. Mas, o que é mais absurdo nisso tudo, é um líder religioso não atentar para essas coisas, se tornando, dessa forma, um promotor dessa amoralidade social.

E, em uma demonstração explícita de sua fé, não em Jeová, claro, mas em Leviatã, Fábio de Melo ressalta que “o Estado decide através dos que são democraticamente eleitos por nós. São eles que propõem, votam e aprovam as leis”. De fato, ele não está dizendo, formalmente, nenhuma novidade, mas dentro de todo o contexto de suas afirmações, é evidente que o que ele está propondo é que as pessoas religiosas não devem tentar influenciar seus eleitos, expondo suas convicções. Como se os representantes do povo, ao assumirem seus mandatos, se desvinculassem de seus eleitores, agindo de maneira autônoma e com base, apenas, em suas próprias ideias pessoais. Ele esquece que os congressistas não recebem uma carta branca de quem votou neles para fazerem o que bem entenderem, mas devem, sim, refletir a vontade de seus eleitores. E, falando do tema levantado pelo padre, até aqui, a maioria da população brasileira não tem se mostrado favorável ao casamento gay. Portanto, suas afirmações não passam de desvirtuamento, uma forma de despistar os olhos das pessoas do problema principal. Na verdade, o que ele está fazendo é exigir que os fiéis de sua igreja calem a boca e assistam, passivamente, os grupos que trabalham a favor dos direitos dos homossexuais impor sua agenda.

Isso fica ainda mais claro quando o sacerdote diz que “aos líderes religiosos reserva-se o direito de estabelecerem suas regras e ensiná-las aos seus fiéis. E isto o Estado também garante”. Ora, se eu não soubesse quem é o padre Fabio de Melo diria que o seu perfil fora hackeado, pois suas palavras passam ao largo do que se espera de um representante da Igreja. O que ele está afirmando nada mais é que os religiosos não têm direito à voz na sociedade. Que eles podem, por causa de uma mera concessão estatal, discutir seus dogmas internamente, mas que não ousem sair de seus currais eclesiásticos. Nem da boca de ateístas ferrenhos lembro ter ouvido palavras tão segregacionistas! Primeiro, não são os líderes religiosos que estabelecem as regras e ele, como um deles, deveria saber muito bem disso. Ao falar dessa forma engana, propositalmente, sua audiência, dando a impressão que as regras religiosas são meros reflexos das idiossincrasias dos homens. E isso é um típico discurso de um inimigo da Igreja. Em segundo lugar, os religiosos são parte, e constituem uma proporção considerável, da sociedade. Não há, portanto, como ignorar suas demandas, sua forma de enxergar a vida e, também, suas rejeições. E, se estamos em uma democracia, como tanto gostam de afirmar esses filhos da modernidade, por que, então, eles não respeitam-na, principalmente quando a vontade da maioria vai de encontro com suas ideologias?

E, quem diria, eu estaria vivo para presenciar um padre falando, abertamente, contra sua própria instituição!? Fabio de Melo, por mais surpreendente que isso seja, não se sente nem um pouco constrangido em estabelecer que “as igrejas não podem, por respeito ao direito de cidadania, privar as pessoas, que não optaram por uma pertença religiosa, de regularizarem suas necessidades civis“. O que ele está dizendo é muito fácil entender. Ele está determinando que a união civil de homossexuais é um direito indiscutível e deve ser permitida, de qualquer maneira. No entanto, para quem acabara de afirmar que religiosos não devem dar palpites públicos, com base em suas convicções, o padre está sendo bem explícito ao dar o seu. Mas, é claro, o que ele quer dizer, na verdade, é que os religiosos não devem influenciar as decisões públicas quando forem a favor da visão cristã. Se, pelo contrário, forem contra o cristianismo, como é o caso da convicção do próprio padre, aí, sim, eles têm direito de falar o que bem entendem e tentar influenciar as pessoas.

Como vimos aqui, e como eu venho afirmando, quando um lado deixa de expor suas convicções, o outro impõe as deles. Estas afirmações do padre apenas corroboram tudo aquilo que eu tenho compartilhado com vocês: que, na política e na cultura, não há vácuos morais, nem de ideias. Se um dos lados se abstém de influenciar a sociedade, ensinando sobre sua cosmovisão, não adianta achar que vai se criar um campo neutro, amoral, livre de princípios. Na verdade, quando os religiosos se calam, são seus inimigos que se levantam e, sem nenhum pudor, vão fazer de tudo para que as pessoas não apenas aceitem seus valores, mas os absorvam, até o ponto que a religião e seus princípios sejam suprimidos completamente.

E, não se enganem, Fabio de Melo não está sendo ingênuo, nem está errando por entender de maneira equivocada a realidade que o cerca. Suas palavras tornam evidente que ele é, de fato, um agente secularista, com convicções secularistas, que está dentro da Igreja apenas para tentar calá-la ou desvirtuar o seu discurso. E se ele ainda usa batina (ah! me desculpem, ele nem me parece muito afeiçoado a essa vestimenta) é porque acima dele também existem alguns que não discordam tanto de tudo aquilo que o padre anda falando por aí.

Fonte: Mídia sem Máscara, por Flávio Blanco, 17/04/2015

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