'Late-blooming-lesbians’, mulheres que passam a ter relações homossexuais após a maturidade

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Monica Donetto Guedes: "Acho que o amor independe da questão sexual"
- Fabio Rossi / Agência O Globo

Mônica Donetto, psicanalista: ‘Sou hétero, mas posso ser capturada a qualquer momento’

Antes especializada em infância, terapeuta freudiana agora dedica-se às ‘late-blooming-lesbians’, mulheres que passam a ter relações homossexuais após a maturidade
Sou psicanalista, membro titular da Formação Freudiana e autora do livro ‘Em nome do pai, da mãe e do filho’. Há alguns anos, pesquiso a sexualidade na contemporaneidade, com o intuito de pensar as questões que surgem na clínica psicanalítica em torno desse tema, com base na teoria freudiana.”
Conte algo que eu não sei.

O fenômeno das “late-blooming lesbians” (mulheres que passam a se envolver com outras mulheres já na maturidade) é cada vez mais discutido nos Estados Unidos. Há blogs sobre sobre mulheres que passam por isso depois de 35 anos de casadas. No Brasil, já ouvimos sobre o tema dentro dos consultórios, e o fenômeno já ganhou um nome. De repente, essa mulher se encontra dentro de outra experiência sexual. E não é necessariamente algo que ela escondeu.

Então não é uma saída do armário tardia?

Não sempre. É, muitas vezes, um encontro com outro objeto. Os encontros amorosos se dão a partir da pura pulsão. Eles não têm nada a ver com a anatomia. O corpo não é preparado “objetivamente” para uma relação homem-mulher por meio dos aparelhos sexuais.

Mais do que sentir desejo sexual por outra mulher, também há as relações de amor. As duas esferas se relacionam nessa dinâmica?

Acho que o amor independe da questão sexual. Posso morar com uma amiga e amá-la sem sentir desejo sexual por ela. A possibilidade de essas mulheres terem contato com outro corpo feminino é a questão importante. E as meninas já experimentam isso com as amigas na adolescência.

A sexualidade feminina é mais fluida?

Sim. Até por conta dessa experiência inicial das meninas. A experiência com o corpo do outra flui com melhor.

E a sexualidade da mulher e também psicanalista, é mais fluida ainda?

Para mim isso é muito natural. Sou hétero e ainda não passei por essa experiência com outra mulher. Mas posso ser capturada a qualquer momento! (risos). Meu corpo permite essa fluidez, já que a questão passa pelos meus pensamentos, pelos meus estudos.

Como as late-blooming-lesbians lidam com essa descoberta? E os maridos?

Quando chega a falar disso, ela já sabe o que sente e do que gosta. Mas isso causa um transtorno tão grande na sua vida, que ela não chega à análise pela sexualidade, mas pela angústia social. Ela pode entrar em depressão, porque não consegue sair do casamento. Ou, quando consegue falar disso, é bombardeadaa pela família. Os filhos entendem melhor. Os homens sentem que não foram potentes para fazer a mulher gozar dentro de uma estrutura hétero.

Suzane von Richthofen se envolveu com outra mulher na cadeia, depois de matar os pais com ajuda do namorado. Você pensou sobre esse caso?

É bem complexo fazer uma análise selvagem. Mas é um exemplo possível. Estou falando de uma sexualidade fluida, e como a Suzana está presa num lugar só com outras mulheres seria normal encontrar es sa outra experiência.

Brad Pitt e Angelina Jolie têm uma filha criança que só pede para se vestir de homem. E quando a sexualidade se manifesta muito cedo assim, no outro extremo?

A transsexualidade é um campo complexo, que ainda precisa ser investigado, até mesmo no campo médico. Não vejo a psicanálise com recursos para isso. A não ser para acompanhar e ajudar a família a não provocar um adoecimento da criança. Se você tenta forçar a construção dessa identidade, há muito mais prejuízo.

Fonte: O Globo, por Maurício Meirelles, 12/02/2015

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