CEO da Apple assume que é gay com muito orgulho

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Tim Cook, o novo executivo-chefe da Apple apresentando
o iPhone em 2011 - Chris Hondros/Getty Images/VEJA

Tim Cook, CEO da Apple, sai da nuvem: 'Sou gay'

A onda de coragem que tem tirado dezenas de celebridades do armário, nos últimos dois anos, chegou à nuvem. Mais especificamente, à Apple, a gigante da tecnologia, criadora de alguns dos objetos mais desejados em todo o mundo, como iPads e iPhones. Em carta aberta publicada na manhã desta quinta-feira no site da revista americana Bloomberg Businessweek, Tim Cook, o executivo que assumiu o comando da empresa após Steve Jobs, anunciou: "Tenho orgulho de ser gay". O anúncio é um marco: Cook é, até aqui, o CEO mais importante a tornar pública a sua orientação homossexual.

No texto assinado para a Bloomberg Businessweek, o executivo disse ter decidido se abrir para ajudar a obter igualdade de direitos entre as pessoas, independentemente da orientação sexual. "Ao passo que nunca neguei minha sexualidade, também nunca a escancarei em público, até agora. Então, vou ser claro: eu tenho orgulho de ser gay e considero que ser gay é um dos grandes dons que Deus me deu", escreveu ele no artigo.

Cook inicia o texto justificando a decisão de falar sobre a sua vida pessoal. "Ao longo da minha vida profissional, tentei manter um nível básico de discrição. Tenho uma origem humilde, e não procuro atrair atenção para mim mesmo. A Apple já é uma das companhias mais visadas no mundo, e eu gosto de manter o foco em desenvolver nossos produtos e as coisas incríveis que nossos clientes podem ter", diz. "Ao mesmo tempo, eu acredito profundamente nas palavras do Dr. Martin Luther King, que disse: 'A pergunta mais persistente e urgente da vida é: 'O que você está fazendo para os outros?"'. Muitas vezes eu me coloco essa pergunta, e foi tentando respondê-la que eu percebi que o meu desejo de manter minha privacidade pessoal tem me impedido de fazer algo importante", continuou, para então fazer o anúncio que, acredita, pode contribuir para a equalização de direitos.

"Por anos, fui aberto sobre a minha orientação sexual com algumas pessoas. Muitos colegas na Apple sabem que eu sou gay e isso não parece fazer diferença na maneira como me tratam. Claro que eu tenho a sorte de trabalhar em uma companhia que ama a criatividade e a inovação e sabe que elas só podem florecer quando você abraça as diferenças. Nem todo mundo é tão sortudo", prossegue Cook. É aí que ele diz que, embora nunca tenha negado a sua sexualidade, nunca a propagandeou, e que tem orgulho de ser como é.

Leia na íntegra a carta aberta de Tim Cook:

"Ao longo da minha vida profissional, tentei manter um nível básico de discrição. Tenho uma origem humilde, e não procuro atrair atenção para mim mesmo. A Apple já é uma das companhias mais visadas no mundo, e eu gosto de manter o foco em desenvolver nossos produtos e as coisas incríveis que nossos clientes podem ter.

Ao mesmo tempo, eu acredito profundamente nas palavras do Dr. Martin Luther King, que disse: 'A pergunta mais persistente e urgente da vida é: 'O que você está fazendo para os outros?'. Muitas vezes eu me coloco essa pergunta, e foi tentando respondê-la que eu percebi que o meu desejo de manter minha privacidade pessoal tem me impedido de fazer algo importante. É isso o que me traz aqui hoje.

Por anos, fui aberto sobre a minha orientação sexual com algumas pessoas. Muitos colegas na Apple sabem que eu sou gay e isso não parece fazer diferença na maneira como me tratam. Claro que eu tenho a sorte de trabalhar em uma companhia que ama a criatividade e a inovação e sabe que elas só podem florecer quando você abraça as diferenças. Nem todo mundo é tão sortudo. 

Ao passo que nunca neguei minha sexualidade, também nunca a escancarei em público, até agora. Então, vou ser claro: eu tenho orgulho de ser gay e considero que ser gay é um dos grandes dons que Deus me deu.

Ser gay me deu uma compreensão profunda do que significa pertencer a uma minoria e me abriu uma janela para os desafios que os membros de grupos minoritários enfrentam no dia a dia. Fez de mim uma pessoa com maior empatia, o que me conduziu a uma vida mais plena. É difícil e desconfortável algumas vezes, mas isso me dá a confiança necessária para ser eu mesmo, para seguir o meu próprio caminho, e para superar as adversidades e a intolerância que encontro. Isso também me dá a pele (dura) de um rinoceronte, que vem a calhar quando você é o CEO da Apple.

O mundo mudou muito desde que eu era criança. Os Estados Unidos estão se abrindo para o casamento entre pessoas do mesmo sexo, e as figuras públicas que bravamente assumiram a sua sexualidade vêm ajudando a mudar a percepção das pessoas e tornar a nossa cultura mais tolerante. Ainda assim, existem leis nos livros, na maioria dos Estados, que permitem aos empregadores demitir pessoas com base unicamente em sua orientação sexual. Há muitos lugares onde os proprietários de imóveis podem despejar um inquilino por ele ser gay, ou onde podemos ser impedidos de visitar parceiros doentes e compartilhar de seu legado. Inúmeras pessoas, especialmente crianças, enfrentam o rosto e o abuso de todos os dias por sua orientação sexual.

Eu não me considero um ativista, apenas entendo o quanto tenho sido beneficiado pelo sacrifício de outros. E acho que, se ouvir o CEO da Apple dizer é gay pode ajudar alguém a lidar com a sua luta interna para assumir quem realmente é, ou trazer conforto a quem se sente solitário ou inspirar quem luta por igualdade de direitos, então terá valido a pena abrir mão da minha privacidade. 

Admito que não foi uma decisão fácil. A privacidade permance um bem importante para mim, e eu gostaria de assegurar uma boa quantidade dela. Eu fiz da Apple o trabalho da minha vida e vou continuar a investir virtualmente todo o tempo que posso em ser o melhor CEO que possa ser. É isso o que nossos funcionários merecem -- e nossos clientes, desenvolvedores e fornecedores, também. Parte do progresso social é entender que uma pessoa não é definida apenas por sua sexualidade, raça ou gênero. Eu sou um engenheiro, um tio, um amante da natureza, um filho do Sul, um fanático por esportes, e muitas outras coisas. Espero que as pessoas respeitem meu desejo e deem atenção ao trabalho que desenvolvo com alegria.

A empresa que eu tenho tanta sorte de dirigir tem advogado por direitos humanos e por igualdade para todos. Nós tomamos uma posição firme de apoio a um projeto de lei de igualdade no local de trabalho antes mesmo do Congresso, assim como nos posicionamos a favor da união homoafetiva em nosso Estado natal, a Califórnia. E nos pronunciamos sobre o Arizona quando o Legislativo daquele Estado aprovou uma lei discriminatória contra a comunidade gay. Nós vamos continuar a lutar por nossos valores, e acredito que qualquer CEO desta empresa incrível, independentemente de raça, sexo ou orientação sexual, faria o mesmo. Eu, pessoalmente, vou continuar a defender a igualdade para todas as pessoas até o fim da vida. 

Quando chego ao meu escritório, todas as manhãs, sou saudado por fotos do Dr. King e de Robert F. Kennedy. Não tenho a pretensão de que este texto vá me colocar ao lado deles. Tudo o que este texto faz é me permitir olhar para esses dois e saber que eu estou fazendo a minha parte, mesmo que pequena, para ajudar os outros. Nós vamos pavimentar o caminho da Justiça juntos, tijolo por tijolo. Este é o meu tijolo.

Fonte: Veja, 30/10/2014

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