Torcida por beijo gay em ‘Amor à vida’

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Novos Tempos: telespectadores torcem para casal gay

Namoradinhos do Brasil: Thiago Fragoso está na torcida por beijo entre Niko e Félix em ‘Amor à vida’

Já Mateus Solano não vê necessidade no carinho entre os personagens
Na reta final da trama de Walcyr Carrasco, os atores analisam a popularidade do casal Félix e Niko, o favorito dos espectadores da trama das 21h que termina na sexta

RIO - Quando “Amor à vida” estreou, em maio de 2013, um romance entre Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago. Fragoso) parecia inviável até mesmo na cabeça do telespectador mais imaginativo. Afinal, enquanto o primeiro foi apresentado como um gay enrustido, pérfido, dono de comentários ácidos, o segundo era a síntese da estabilidade: um rapaz casado, sensível e apaixonado pelo companheiro, o advogado Eron (Marcello Antony), com quem planejava ter um filho.

No meio do caminho, entre uma trama rocambolesca, cheia de encontros e desencontros, idas e vindas, quis o destino — ou melhor, o autor Walcyr Carrasco — que Félix se redimisse e Niko se separasse. E que os dois se gostassem e quisessem ficar juntos. E, talvez o mais improvável: que a dupla tivesse o aval do público e conquistasse o status de casal principal da trama, desbancando Paloma (Paolla Oliveira) e Bruno (Malvino Salvador).

— Niko e Félix são um casal legal, querido. A gente brinca muito com o humor, um fala em cima do outro o tempo todo. Há companheirismo, e os dois têm personalidade forte. O Niko é fofo e não gosta de alguns comentários do Félix, mas, ao mesmo tempo, o acha engraçadíssimo. Essa complexidade faz o casal ficar tão interessante, cheio de sutilezas. E o fato de eles serem gays contribuiu — avalia Thiago, contando que sua mulher (Mariana Vaz) sempre torceu para que os dois ficassem juntos: — Ela estudou com o Mateus no colégio e gosta muito dele. E Félix não tinha um par na história. Anjinho (Lucas Malvacini) era mais um caso. Comecei a achar que havia espaço para esse triângulo — entrega.

Walcyr crê que a aceitação dos personagens não aconteceu por acaso. Mas envolve um processo histórico que começou lá atrás, através de autores como Gilberto Braga, Silvio de Abreu, Gloria Perez e Manoel Carlos.

— Eu apenas dei continuidade a um processo iniciado por eles e espero, sim, dar um passo adiante — torce.

Mesmo garantindo não ter alterado a história por conta da popularidade do casal, ele confirma que o romance não estava previsto na sinopse. Mas, ao longo dos capítulos, ele diz, se manteve antenado para sentir “o que rola e o que não rola”, em um processo intuitivo.

— Veja bem, a pesquisa da novela é feita apenas no início, para uma análise das primeiras respostas. Depois, o autor fica ligado com sua antena e, a partir daí, cria seus caminhos, mas sem especificamente ouvir alguém ou mesmo haver alguma interferência da emissora. O meu segredo é assistir à novela todos os dias, junto com o público — revela o autor.

Para Mateus, Félix passou a novela sendo “deseducado”. Segundo o ator, o personagem “foi mimado pela mãe quando deveria ter sido reprimido, ganhava reprovação do pai quando precisava de incentivo”. Tal desequilíbrio só se transformou em algo positivo quando ele se viu obrigado a vender hot dog com Marcia (Elizabeth Savalla). Foi aí que, diz Mateus, Félix teve que reavaliar os conceitos de vida.

— Ele teve que aprender na marra a dar valor às coisas certas. O Niko é uma delas, mas não a única, e a relação deles mexe com uma outra coisa que é a incapacidade do Félix de amar. Primeiro de ele gostar de si próprio, e segundo de aceitar que alguém possa gostar dele. Como o filho, Jonathan (Thalles Cabral), e a Marcia, que foi fundamental — analisa Mateus, contando que não esperava nenhuma das mudanças. — O Félix passou por tudo e mais um pouco, desde a “revelação” da homossexualidade, passando pelo episódio que assume ter jogado Paulinha (Clara Kastanho) na caçamba, ganhar a presidência até perder tudo.

Ao mesmo tempo, Niko caiu nas graças do público pelo jeito sensível e cativante. Por gostar de Fabrício sem saber que era sequer seu filho biológico. E por adotar Jaime (Kaiky Gonzaga) e criá-lo praticamente sozinho. A loucura de Amarilys (Danielle Winits), por sua vez, funcionou como uma contraponto e aumentou ainda mais a compaixão pelo sushiman.

— O público brasileiro é conservador e, pela primeira vez, não ficou ao lado da mãe, mas, sim, ao lado do afeto mostrado por esse cara que nem sabia que era pai biológico da criança. E isso é muito revolucionário, porque dentro da humanidade de cada um, a opção sexual é o que menos importa — define Thiago.

E tanto ele quanto Mateus concordam ao definir a trajetória de Félix como um conto de fadas. Por que não?

— O Walcyr acredita nesse conto de fadas. Foi bonito o universo que criou, e as pessoas compraram a ideia de que o mal pode se redimir. Não é real. Vejo como uma grande metáfora: tinha o cara totalmente bom e o totalmente mau, e o mal foi contagiado pelo bem. E essa regeneração é a mensagem que a novela pode passar — acredita Thiago.

Mateus também acha que um dos méritos de Walcyr foi não se prender tanto à realidade. Ele crê, por exemplo, que aqueles que torcem para o Félix tiveram que aceitar suas inverossimilhanças ao longo dos capítulos: em alguns momentos, a caricatura; em outras, o drama em demasia:

— Ele faz graça nos piores momentos, chama a secretária de cadela e outras coisas que seriam inverossímeis, mas que a gente gosta de ver e compra.

E o jeito ácido e franco do vilão, sempre permeado pelo humor, foi exatamente o que fez as pessoas gostarem dele e ficarem na torcida para que encontrasse alguém, continua Mateus.

— Vivemos num mundo em que não podemos falar nada, nem ofender ninguém. Acho que ele se tornou uma válvula de escape, e isso foi perceptível quando comecei a ver várias montagens na internet com o rosto dele ao lado de frases preconceituosas ou malvistas. A verdade é que todo mundo tem um Félix dentro de si — desafia. — O público primeiro aceitou o Félix. E depois o fato de que ele precisa de um homem para ser feliz. Algumas pessoas então reviram seus conceitos e seus preconceitos.

E após conversas francas, sinceras e cheias de afeto nos últimos capítulos, Félix e Niko chegaram até a trocar carícias sutis. Nesta última semana, Walcyr sugere, em uma cena, que os dois vão passar a noite juntos. Mas conta que foi “extremamente discreto”. Embora o autor afirme ter o aval da emissora para escrever sobre o que quiser, Thiago acha que o beijo gay não vai acontecer. E nem um casamento, como é de praxe no último capítulo.

— Adoraria ver o casamento, ia ser ótimo gravar, mas acho que o Walcyr teve a preocupação de não ser panfletário. E se tiver o beijo gay, vou fazer feliz, acharia o máximo, mas na nossa sociedade com valores sociais deturpados, acho que seria considerado mais agressivo esse beijo entre homens, mais do que entre mulheres. Talvez por isso não tenha — avalia Thiago, afirmando que não gravou cena de beijo e isso não está no roteiro, por enquanto: — Se chegar um adendo secreto, vou ficar superfeliz.

Já Mateus não vê a necessidade real do afago, já que, para ele, Walcyr “ultrapassou a questão do beijo e tocou em questões até mais profundas”.

— Em cena, eles têm diversas demonstrações de carinho e o beijo não faz falta — assegura.

Crer que não há homofobia seria ingenuidade, conclui Thiago, que, todavia, defende o papel da arte como reflexão.

— A arte é a alma do mundo. Embora o comportamento geral não tenha mudado, me sinto satisfeito por ter tocado ao menos um coração com essa história.

Fonte: O Globo, Natália Castro, 26/01/14 

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