Vinte e duas mulheres apaixonadas dizem sim às companheiras

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Por amor à mulher e à Polícia. Silvana Gomes casou fardada e Veronice de noiva.
 As duas agora assinam Lacerda. (Fotos: Cleber Gellio)

De vestido, buquê e apaixonadas, 22 mulheres dizem sim às companheiras
Paula Maciulevicius

A marcha nupcial deu o tom. As portas se abriram. E todos os olhares se voltaram a elas. Pelo tapete vermelho da Escola Superior da Defensoria Pública, 22 noivas cruzaram o corredor sob os desejos de felicidades de pais, amigos e familiares até chegarem ao altar e viver o momento tão esperado. Do “sim”. Desta vez, dito em coro.

De todas as noivas, apenas três seguiam o tradicional vestido branco. Nas mãos, os buquês de rosas contrastavam com as roupas, na maioria em tons claros, que elas seguravam com tanto orgulho. Os olhos passaram toda emoção de quem realizou neste domingo o sonho de menina. Serem levadas ao altar e entregues a quem vai lhes prometer amor na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.

As lágrimas que caíram não roubaram o brilho do olhar e nem tampouco borrou a maquiagem. Mãos trêmulas de nervoso e ansiedade, junto de toda luta para o grande dia, foi o que impediu que a fotografia registrasse qualquer falha. A manhã deste domingo foi perfeita, como elas sempre sonharam.

Minutos antes de o casamento começar, uma das noivas vivia o estresse que a maioria delas passou hoje. Karla Ajala, 23 anos, andava de um lado para o outro com o afilhado nos braços perguntando se todo mundo já tinha chegado.

“Não, ele não é meu filho. É meu afilhado e vai ser o pajem. Mas ‘fulano’ já chegou mesmo?”, perguntava a um dos convidados, enquanto respondia à imprensa. Sim, Karla, todos estavam ali só esperando a entrada de vocês.

A noiva mal dormiu a noite e ainda não tinha visto a futura esposa, Leilane. Mas uma coisa era certa: “ela vai estar linda”, dizia. E estava.

A expectativa, os sorrisos e a ansiedade. Elas também dividiram
estes sentimentos antes da troca de alianças.

Foi na fila para entrada dos pais que o Lado B achou o único pai que ia conduzir a filha ao altar. Elas conquistaram o direito de dizer ‘sim’, mas esbarram em muitos ‘nãos’ por aí e por conta disso, a família prefere comemorar o casamento no anonimato.

O pai da noiva é um senhor de 65 anos, que sofre de mal de Parkinson e sentia câimbras desde o início da manhã e nem por isso deixou o papel de lado. “Eu acho lamentável ser o único aqui. Todos os pais deviam apoiar a ideia dos filhos, desde que não seja droga, vandalismo, crime, essas coisas. Desde que não seja o errado. Eu só quero que elas tenham uma vivência feliz. Se está bom para a família e para os filhos, a gente deve apoiar”, dizia.

Com todo orgulho, ele exibia o que desejava à filha e à nora: a felicidade. Foi ele quem anunciou à filha que fazia questão de levar ela ao altar. “Eu falei: eu vou entrar com você e vou levar você. Ela chorou. Mas é claro que eu ia levar, eu gosto muito dos meus filhos”, revelou.

No intervalo entre os últimos minutos de solteira para os primeiros de casadas, as noivas, filha e nora do pai acima, viviam a emoção do momento que para qualquer mulher é único. Naquele período que antecede a marcha nupcial, quem segurou o choro até ali, desaba. “É uma emoção muito grande. Minha família é tudo para mim, se eles não aprovassem, eu não ia estar aqui agora”, contou. Ela casou-se de vestido, mas fugiu do branco. Preferiu um de festa, longo e de tafetá cinza. Entre os sentimentos do 'antes', estava o receio de tudo dar errado misturado a maior emoção, com exceção do nascimento dos filhos.

“Depois das minhas duas filhas este momento é único”, descrevia. A noiva dela concordou, mas as palavras mal saíam da boca. Ela foi a primeira a cruzar o corredor do casamento coletivo realizado pela Defensoria do Estado. Emoção que transbordava o limite da própria felicidade para a ruptura do preconceito e chegar a alcançar o sonho de declarar o amor no altar. “Estou realizando um sonho meu e dela. A gente lutou muito e é uma felicidade imensa”, acrescentou.

Geliane Mascarenhas, agora assina Bitencourt, com a mulher Ruth Pereira Bitencourt.
A aliança que significa vitória para o casal.

A cerimônia decorreu com um ‘sim’ em coro perante ao juiz de paz. Um casal foi sorteado para ter o nome lido da forma tradicional: ‘Geliane e Ruth’ responderam que aceitavam uma a outra como legítima cônjuge até que a morte vos separe.

Entre vestidos brancos e smookings, um traje em especial chamou atenção. A policial militar Silvana Gomes Lacerda, 33 anos, se casou fardada. Ela demonstrou amor à mulher Veronice da Silva, de 35 anos, e também à corporação. “Eu gosto de ser Polícia”, respondeu a soldado quando questionada do por quê da vestimenta. O tom de azul contrastado com o branco do vestido de Veronice deu um toque especial às fotografias.

Mantendo a postura firme, Silvana disse que estava feliz e que o nervosismo fazia parte sim, mas custou a derramar uma lágrima. A emoção foi mesmo quando a noiva entrou. Veronice chegou ao altar levada pelo filho.

“Estou muito emocionada, realizando um sonho”, disse. O menino, Jeferson Lopes Moraes, 18 anos, concordou. “Eu também estou, é o nosso sonho”. Ao Lado B falou o quanto lutou ao lado delas para que este momento chegasse.“Eu fui criado com elas, quando eu entreguei a minha mãe, não consegui falar nada. Passou um filme na minha cabeça, desde criança. Não é de hoje, elas sempre quiseram. Minha relação de sonho é ver o sonho dela realizado”.

Depois de todas sentadas perante os convidados é que se via a alegria no rosto de cada uma delas. Até a chegada do ‘sim’ de hoje, não foi só pelo pedido de casamento que elas tiveram de esperar. Foi pela decisão da Justiça de permitir a união homoafetiva. Foi de esperar que, no papel, elas pudessem concretizar o que já vivem há anos. O amor de uma pela outra.

Do casamento saíram 11 casais de noivas que têm pela frente, além dos desafios da vida de um casal, a missão diária de lidar com o preconceito. A aliança que elas trocaram hoje simboliza mais que o amor e a fidelidade. É a prova da união de duas pessoas que se amam acima de todo e qualquer preceito. “Eu tinha vontade de preencher num papel de cadastro como ‘casada’, mas não dava para por. Agora dá”, brincou a noiva Veronice.

“Foi muita emoção. Quer coisa melhor que ver minha filha feliz? Ela é aquela, a mais bonita. Foi a maior felicidade da minha vida. Se eu morresse hoje, ia morrer feliz”, finaliza a mãe de uma das noivas.

Fonte: Campo Grande News, 07/07/2013

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