Lançamento Imprensa Gay no Brasil em SP: um pouco de nossa história

segunda-feira, 26 de março de 2012

Na próxima quarta-feira, dia 28/03, será lançado, no MAM (Parque do Ibirapuera), o livro Imprensa Gay no Brasil de Flávia Peret (20:15). A sessão de autógrafos  é precedida pelo debate Os gays na Imprensa Brasileira, com a autora e convidados, às 19:00.

Pede-se para confirmar presença pelo telefone 3224.3473, das 14:00 às 19:00, ou pelo e-mail eventofolha@grupofolha.com.br

Segue abaixo entrevista que fiz, com Flávia, em maio de 2010, onde relata o making of de seu trabalho até  vencer a primeira edição do concurso Folha Memória.

Basicamente o livro resgata a trajetória das primeiras publicações de temática homossexual no Brasil, sobretudo a partir da década de 60, chegando aos dias de hoje com a prevalência dos portais e sites LGBT na Internet. Há uma breve abordagem da imprensa lésbica que já teve expressão impressa, mas atualmente se concentra sobretudo no mundo virtual. Acompanha cronologia sucinta e bibliografia. No geral, boa referência sobre o assunto.
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Imprensa Gay no Brasil - Entre a Militância e o Consumo - Entrevista com a jornalista Flávia Peret sobre sua premiada pesquisa


Flávia Peret
Flávia Péret nasceu em Ouro Preto (MG), em 1978, mas vive  em Belo Horizonte, com o músico Frederico Pessoa. Formou-se em Comunicação Social (Habilitação Jornalismo – PUC Minas) e em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). 

Realizou pesquisa de seis meses, financiada pela Folha de S. Paulo e pela Pfizer, sobre a imprensa homossexual brasileira, que rendeu o livro Imprensa Gay no Brasil - Entre a Militância e o Consumo, por sua vez vencedor da primeira edição do concurso Folha Memória, da FSP, a ser publicado pela Publifolha.

Fui uma das entrevistadas de Flávia, em sua pesquisa, pela edição e a produção dos fanzine ChanacomChana, na década de 80, e do boletim, e depois revista Um Outro Olhar, de 1987 até 2002. Agora, com o anúncio de premiação de seu trabalho pelo concurso Folha Memória, que muito me alegrou, invertemos os papéis, e eu a entrevistei. 

Em suas respostas, Flávia fala um pouco da origem da pesquisa que desenvolveu, das dores e delícias de seu trabalho e naturalmente da imprensa LGBT no passado, presente e possíveis futuros. Importante resgate de nossa história e de parte da história da imprensa brasileira. 

Míriam Martinho
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UOO: Porque você decidiu fazer uma pesquisa sobre a imprensa LGBT no Brasil? 

Flávia Péret (FP): O interesse pelo assunto existe há alguns anos. Em 2005, morei em Buenos Aires (Argentina) e fiz uma matéria chamada “Antropologia da sexualidade”. Nesse curso, foi a primeira vez que tive contato com as teorias da sexualidade, principalmente com o pensamento do filósofo Michel Foucault e da socióloga e feminista norte-americana Gayle Rubin. Voltei para o Brasil decidida a estudar o escritor Caio Fernando Abreu e como a questão da homoafetividade aparece em suas obras, mas com as voltas da vida, descobri outros escritores e um assunto (os travestis) que, naquele momento, considerei mais importante do ponto de vista político. Tenho dificuldade em desassociar a pesquisa acadêmica das questões mais concretas e políticas. Dentro da comunidade LGBT, os travestis são as pessoas mais discriminadas, por inúmeros fatores. Iniciei meu mestrado, na Faculdade de Letras da UFMG, pesquisando a representação que é feita dos travestis na literatura brasileira contemporânea. A partir dessa pesquisa descobri a quase inexistência de matérias bibliográficos sobre a literatura gay no nosso país, existem alguns trabalhos muito interessantes sendo desenvolvidos nas universidades e alguns esforços isolados de editoras, mas não uma sistematização, um trabalho mais amplo e também descobri que o mesmo ocorria com a imprensa gay. Naquele momento, há três anos, o tema imprensa gay não era meu foco de pesquisa, mas quando surgiu o prêmio da Folha de S. Paulo decidi que essa lacuna podia ser preenchida, uma tentativa de reconstruir parte da nossa história. Ao falar da história da imprensa gay, falamos também da sociedade brasileira, dos seus avanços e recuos nessa área e também da história da imprensa de forma mais ampla. 

UOO: Que tipo de imprensa LGBT você abordou: pré e pós-ativismo, ativista e comercial? Impressa e virtual? 

FP: Toda. O livro se chama “História da imprensa gay no Brasil: entre a militância e o consumo”. Considero importante mostrar a trajetória — com suas constantes transformações — dos meios de comunicação gays no Brasil. Por isso, não fiz uma classificação por veículo. Pesquisei revistas, jornais, fanzines e sites. 

UOO: Quais publicações você abordou em sua pesquisa? 

FP: Tentei fazer um mapeamento de todas as publicações existentes, mas isso é quase impossível porque, infelizmente, muito material não existe mais. Algumas “relíquias” consegui encontrar no Unicamp, no Arquivo Edgard Leuenroth. Um espaço que reúne o maior acervo da imprensa gay no Brasil. Eu abordo várias publicações, mas falo, com mais detalhes sobre os jornais: O Snob (Rio de Janeiro), O Lampião da Esquina (Rio/SP), o boletim Chana com Chana e as revistas Um Outro Olhar (SP) e a revista Sui Generis (RJ). 

UOO: Quais as maiores dificuldades que encontrou em sua pesquisa? 

FP: A maior dificuldade foi ter acesso ao material, já que vivo em Belo Horizonte e os principais “protagonistas” dessa história vivem ou viverem no Rio de Janeiro ou São Paulo. Também tive dificuldade de reconstruir a história da década de 1950, porque várias pessoas estão falecidas ou muito velhinhas. Tentei entrevistar algumas dessas pessoas, mas, infelizmente não consegui. Outra dificuldade é a pouca referência sobre o tema, então foi um trabalho de escavação mesmo da memória da imprensa gay no Brasil, conversando com amigos, conseguindo material, entrevistando pessoas, pesquisando nos arquivos. Consegui reunir algumas peças dessa história, mas acredito que muito ainda precisa ser feito. Como por exemplo, um esforço de preservar esse material, digitalizando as publicações e disponibilizando para consulta. Alguns jornais estão, literalmente, virando pó. 

UOO: O que considerou mais gratificante  nessa pesquisa? 

FP: O mais gratificante é o interesse das pessoas, principalmente das pessoas que me ajudaram, que participaram do processo de desenvolvimento do livro. Outro ponto foi a receptividade que o projeto teve. 

UOO: Como você vê o histórico da imprensa LGBT, após a pesquisa? Quais os obstáculos, os avanços ocorridos? 

FP: Eu reflito um pouco sobre isso na introdução do livro. A história da imprensa gay não é um caminho reto, linear. Na realidade, é uma história cheia de fracassos, idas e vindas, obstáculos, interrupções. Isso foi uma coisa que me espantou um pouco no começo. No entanto, essa realidade mostra que não é uma história acabada e que também não existe uma fórmula para que os veículos tenham sucesso. Tivemos, no Brasil, iniciativas incríveis em determinados períodos — principalmente na década de 1970 — e depois momentos de publicações mais frágeis do ponto de vista político ou de luta por direitos. É uma espécie de gangorra. Atualmente, temos poucas publicações impressas e muitos sites. Nesse gigantesco universo que é a internet podemos encontrar de tudo: sites de movimentos sociais e ONGs e sites mais comerciais. Acredito que as redes sociais — um tema que abordo superficialmente no livro — serão, no futuro, uma importante ferramenta de discussão e visibilidade. A questão que se coloca é: como extrapolar o espaço das redes e grupos na internet, que continuam segmentados, e levar as questões para toda a sociedade? Quando falamos em imprensa gay, devemos pensar em duas esferas. Primeiro a imprensa segmentada, feita exclusivamente para gays, mas também é importante encontrar brechas na imprensa tradicional. Alguns jornais já fazem isso, como a Folha de S. Paulo e o jornal O Tempo, de Belo Horizonte. Mas, a grande maioria ainda tem dificuldade em abordar o tema. 

UOO: Qual a importância da imprensa LGBT, como expressão de um grupo discriminado, e como parte da imprensa em geral? 

FP: É crucial para qualquer país possuir uma imprensa livre, independente e plural. Plural no esforço (político, ético, editorial) de ser aberta a todas as vozes, opiniões e grupos. Tivemos um movimento de imprensa alternativa importantíssimo no país no período da ditadura militar, mas depois a mídia alternativa, mais combativa, arrefeceu. Em contrapartida, se pensarmos nos movimentos socais e na abertura pós ditadura, vários grupos começaram a pensar a comunicação como algo mais público e democrático. Atualmente, existem movimentos e grupos que lutam pela democratização dos meios de comunicação. Essa luta é importante porque a mídia não pode ser monopólio de poucos grupos ou família. A internet reconfigura um pouco esse quadro. As redes sociais também. Conheço pessoas que, hoje em dia, se informam sobre o que acontece no mundo, apenas usando a internet. De novo coloco a questão: as ferramentas estão aí, mas como serão usadas? Sinto falta do idealismo dos jornalistas, escritores e militantes da década de 1970. Eles tinham muito sobre o que falar, mas não tinham dinheiro para bancar uma publicação impressa, os custos com papel e distribuição eram altos e acabavam fechando. Hoje em dia esse tipo de problema não existe, mas o que está sendo falado na internet? Como é possível mobilizar pessoas, ampliar e potencializar as discussões? Parece um paradoxo, às vezes... 

UOO: Seu texto (Imprensa Gay no Brasil - Entre a Militância e o Consumo) foi o vencedor da primeira edição do concurso Folha Memória, da FSP, e deverá ser publicado pela Publifolha. Já sabe quando será a publicação? E como se sentiu a respeito da premiação, para lá da satisfação pessoal? 

FP: Fiquei muito feliz! Para além da premiação, escrever o livro foi uma experiência muito importante e gratificante. Conhecer as pessoas, descobrir as histórias... 

Acredito que é uma abertura para a temática e acredito também que ao conhecer um pouquinho da história dos veículos e das pessoas que lutaram para que existisse uma imprensa gay no Brasil, estou contribuindo com a memória dessa história. Ainda não tenho previsão de quando o livro será publicado. 

UOO: Você pretende continuar trabalhando com essa temática? Quais são seus planos para o futuro? 

FP: Eu trabalho com essa temática há quatro anos, recentemente escrevi um artigo sobre a vida e obra de dois escritores latino-americanos gays: Manuel Puig (Argentino) e Pedro Lemebel (Chileno). É uma questão que me interessa muito e acho que vou seguir trabalhando, mas mudando um pouco o foco, queria entender um pouco mais do machismo latino americano, a construção que foi feita do sexo no nosso continente e como a literatura se apropria, reflete, reitera (ou não) essas construções. O machismo é o principal agente da homofobobia e acredito que fazer uma crítica ou uma desconstrução do machismo é uma forma de denunciar a perseguição, histórica, às sexualidades não hegemônicas, às convenções sexuais. Neste sentido, mudo um pouco de foco, mas não tanto assim... 

UOO: E falando em futuro, em sua opinião, existe futuro para as publicações LGBT no Brasil? Ou só haverá as produções virtuais? 

FP: Difícil fazer previsões, mas acho que os sites e portais vão continuar dominando. É uma tendência natural, que percebemos com a mídia tradicional também, mas acho que sempre terá espaço para uma ou duas revistas, mais que isso acho complicado em termos de venda e distribuição nacional. E continuo apostando no poder das redes sociais. 

Flávia Peret: flaviaperet@hotmail.com

Publicada originalmente, em maio de 2010, no site Um Outro Olhar

3 comentários:

  1. PARABÉNS FLAVIA PELO TRABALHO, PELA PREMIAÇÃO. TD ISTO SÓ VEM SOMAR À NOSSA LUTA. TELMA

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  2. Ola meus queridos estou eu vindo da parada gay de campinas foi reivindicar respito as difereças , que po sinal foi maravilhosa,ao chagar em são paulo na rodoviria por voltas 22;40 passei por uma sena de transfobia que me deixou muito triste e
    revoltada foi barrada humilhada por uma segurança disendo ela que eu era homem por que eu não tinha documentode mulher então tinha que usar banheiro de homem mais isso sendo dito de uma maneira muito cruelna frete de um monte de mulheres me constrangindo muito fiquei arrazada e isso em uma cidade que diz respeitar a horientão sexual de um individol . então quero saber se tem alguem de imprença na minha lista ou conhce alguem por que quero fazer uma denucia na imprença,amanha vou na DECREDE delegacia de crimes. abrir um botetim de ocorencia mais preciso levar isso a imprença por favor a quem interece não podemos deixar isso aconteceer com mais trans de maneira nennhuma .me liga 11 80306787 renatademorais2@hotmail.com

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  3. Ola boa noite! segue
    convite e flay em anexo, para o Seminário ( Suicídio da População Trans: Limites entre Vida e Morte ) peço por gentileza que divulgue .
    Grata Renata Peron

    APRESENTAÇÃO
    Uma triste realidade permanece invisível aos olhos de atores da sociedade civil e dos poderes públicos: a prática de suicídios decorrentes dos efeitos da transfobia na vivência de travestis, mulheres transexuais e homens trans. Expressão da forma mais intolerante de discriminação em razão da identidade de gênero desta população, a transfobia produz efeitos na experiência social e deteriora subjetividades, extinguindo esperanças e produzindo danos psicológicos ir
    reparáveis.
    https://www.facebook.com/video.php?v=1046435012084463
    https://www.facebook.com/events/962794353811269/
    Grata Renata Peron

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