De dia Maria, de noite João...

sábado, 17 de março de 2012

Max, personagem da The LWord
Autor(a): Míriam Martinho
Tempos atrás falar das diferenças eróticas entre as lésbicas era coisa meio interdita. A influência do feminismo radical nos fazia acreditar que, entre quatro paredes, tinha que ser tudo também igualitário. Ambas tinham que ser “mulheres (femininas)”, e o que ela fazia com você, você também tinha que fazer com ela para que o casal não fosse acusado de reproduzir os papéis sexistas das relações heterossexuais baseadas na opressão da mulher pelo homem. Até hoje encontramos representantes dessa corrente um tanto xiita do feminismo que confunde alhos com bugalhos e que quis/quer tirar da sexualidade humana aquilo que melhor a define: o lúdico, a brincadeira, o teatro erótico.

Felizmente, sapatas valentes souberam contestar essa camisa-de-força, e sua coragem, expressa em textos que atravessaram o tempo e os continentes, nos libertaram desses equívocos ideológicos. Em termos de sexualidade, e não só, como diria a belíssima O que será? (A flor da Pele) que posto abaixo, as coisas são na base do “que não tem medida nem nunca terá; o que não tem remédio, nem nunca terá, porque não tem receita....; o que não tem vergonha nem nunca terá, o que não tem governo nem nunca terá porque não tem juízo.”

Carmen, personagem
da The LWord 
Daí que hoje se fala mais abertamente da sexualidade lésbica, de nossas fantasias eróticas, sem tantos pudores. Em mesas de bar, comunidades virtuais na Web, blogs lésbicos, o assunto retorna de forma recorrente seja pela via de manuais de primeiros passos, para adentrar na vida amorosa sem muitos percalços, seja pela discussão do que se espera de uma parceira, seja reivindicando menos moralismo no meio lésbico, enfim, o que não falta é papo sobre o assunto.

Entre os temas levantados, um dos mais divertidos é a história das moças que sinalizam pelo look e atitudes um determinado papel sexual mas que na hora do bem bom se revelam de outra natureza (rsss). Então, é aquela moça toda fino trato, emplumada, empetecada e maquiada que, na hora do amor, se revela um tremendo João ou, ao contrário, aquela moça de pisada firme, de ombros jogados, cheia de atitude e visual entre a Shane e o Max da The L Word que nos finalmentes aparece toda Maria, lânguida e faceira.

Como ainda não é muito costume se perguntar das preferências sexuais das potenciais parceiras, muita gente quebra a cara logo de cara. É a famosa roubada lésbica. Para tal problema, existem várias soluções, dependendo de cada uma. Depois do susto, você se recupera e segue no embalo, procurando aceitar a realidade como ela é e tirando máximo proveito da situação, pois você é versátil. Você não consegue rebobinar o DVD da sua fantasia tão acalentada com a moça e tenta levar a situação para onde você queria (com jeitinho claro). Você literalmente broxa e faz um meia boca, desmarcando qualquer outra possível interação futura.

Ou então, você faz o quê?

fotos: personagens Carmem e Max de The L Word
Música: O que será (A Flor da Pele)?
Na voz de Nana Caymmi



O Que Será? (À Flor da Pele)
 Chico Buarque

O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
O que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
O que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo

Publicado originalmente, no blog Contra o Coro dos Contentes, em 10/10/2008

8 comentários:

  1. Não me surpreendo mais com o excesso de passividade de "bofinhos". E adoro! Ao contrario do óbvio as mais passivas que encontrei eram bofinhos. E são dessas que mais gosto.

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  2. Oi querida, no caso no meio gay isso também acontece, eu não sei como é no caso das lésbicas, eu sempre achei que elas perguntavam uma para outra se era ativa ou passiva, como no meio gay tem, aliás eu odeios versáteis hehehe, não é comigo. queria discutir mais isso esse tabu também, sinto-me mto incomodado mesmo muitas vezes e olha que eu sou bem feminino, até faço crossdressing mas às vezes me deparo com algumas coisas viu, dá até vontade de desistir.

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  3. Há alguns dias eu lançei uma questão parecida numa comunidade do Orkut, A lésbicas Cult do RJ, e fiquei impressionada como algumas lésbicas realmente ainda têm esse preconceito em assumir papéis sexuais (sempre ou vez por outra).

    Eu como lésbica mais ou menos recente, disse que nas duas relações que tive (incluindo a atual), os papéis sexuais acabaram se definindo naturalmente, mas sem que se tornassem obrigação. Em uma acabei sendo mais ativa, na atual, bastante passiva e fiquei (e fico) muito satisfeita das duas maneiras.
    Mas quando falei isso, veio logo gente com esse papo de feminismo x machismo, padrões hétero e o cacete.Como assim?? Esse povo não tem fantasias??
    Belo post Miriam, parabéns.

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  4. Não tenho preconceito com relação às mulheres que adotam papéis bem definidos no relacionamento, ou em alguma aventura do tipo "ficar". A única coisa que faço questão é de sinceridade e conforto na relação. O que importa acima de tudo é o prazer das duas pessoas,acima de tudo,e do papel que resolveram assumir, seja ele qual for.

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  5. que loucura isso, na minha minima experiencia gay eu fico pensando que seria no minimo engraçado
    rs

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  6. seria cômico... se na hora não ficasse totalmente embaraçoso!

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  7. Costumo dizer que pra mim ser passiva ou ativa não importa muito o importante é ser "PARTICIPATIVA". rs
    Julie MG

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  8. Qdo era solteira, me incomodava muito na hora da paquera as meninas que me faziam a bendita pergunta"vc é ativa ou passiva?".Não tenho problema nenhum com papeis sexuais, mas acho ruim definir isso antes mesmo de ir pra cama, acho que cria barreiras, gostoso mesmo é se descobrir, ver o que o sexo das duas se torna.Já fui passiva, ativa e na maioria dos meus relacionamentos não tinha papel definido, o que acho muito mais gostoso.Pra mim, sexo e regras são duas coisas que não combinam.

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