Perdas, Danos e Afins

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Autor(a): Diedra Roriz

Era um lindo fim de tarde ensolarado, ou só parecia? Michelle não sabia. Talvez, comparado aquela sensação de vazio - como se um vácuo a separasse do resto do mundo, como se o peito estivesse repleto de uma presença amputada, sufocada, com gosto escuro, sombrio - fosse realmente um lindo fim de dia.
          Estacionou o carro, soltou e ajeitou os cabelos, se olhando no retrovisor. Era uma mulher bonita, acostumada a chamar atenção. Em dias que não fossem aquele, onde um leve tremor nas mãos e pequenos e incontroláveis calafrios subiam por sua espinha.
          Ficou sentada dentro do carro, esperando. A espera... Era uma coisa que a irritava, enervava mesmo... Mas, em dois anos de casamento e uma semana de separação, já se tornara um hábito esperar por ela...
          Abriu a agenda. Tentou fazer algumas anotações. Impossível. As mãos pareciam incapazes de responder ao simples comando do cérebro. Tinha passado a semana inteira queimando nessa ansiedade febril, incapaz de qualquer coisa produtiva.
           De vez em quando olhava o relógio, tentando disfarçar a inquietude evidente. Viu quando Amanda apareceu. Ela se aproximou calmamente do carro, abriu a porta do carona e se sentou no banco ao lado de Michelle.
 - Oi. – disse simplesmente.
 - Oi. – respondeu Michelle, a voz um pouco falha, evitando se perder nos olhos dela.
 - Tudo bem?
 - Tudo. - falou quase num sussurro, numa última tentativa de não olhar para ela.
 - Eu... queria... eu... Me desculpa, Mi...
          A mão de Amanda pousou suavemente na perna de Michelle, e os lábios se aproximaram perigosamente da orelha dela, trazendo recordações que a fizeram ter um pequeno arrepio. Exatamente o tipo de reação que Michelle esperava conter.
          A última coisa que Amanda queria era ferir Michelle. A amava. Realmente. Se importava, se preocupava com ela. Mas... não tinha jeito. Estava feito. Impossível voltar atrás. E também era impossível prometer que não faria novamente, porque... era algo incontrolável, mais forte do que ela. Algo do qual ela precisava para viver.
          Uma dor enorme a atingiu. Impressa na voz de Michelle, na forma como ela se afastou bruscamente e perguntou:
 - Desculpas? Pelo que?
          Michelle queria ser firme. Precisava esquecer que a boca da outra podia fazer com que ela perdesse a respiração, que até o mais simples contato de pele provocava nela um ardor estranhamente fascinante. Não podia olhar para Amanda. Precisava manter os olhos longe dos dela, ou então.... Seria novamente sugada para o irresistível e incontrolável redemoinho de paixão...
          Amanda abaixou os olhos. Sem conseguir fitar a mulher na frente dela. Arrependida por ter sido pega, mas não pelo que tinha feito. Por quê? Por que não se arrependia? Não sabia... Apenas parecia que para ela era impossível se conter, se negar aos apelos  passageiros da auto-afirmação que encontrava na sedução e no prazer... O efeito estava na frente dela, nos olhos da mulher que amava, e que estavam... enevoados, nublados, esmaecidos...
 - Você sabe.
          Sim, Michelle sabia. Da forma mais dolorosa, humilhante e deprimente possível. Sentiu o rosto ser erguido delicadamente até os olhos encontrarem os de Amanda. Não ofereceu resistência. Na verdade, não conseguiu. Reação inerente à presença inebriante, sedutora, magnetizante da ruiva. Hipnotizada, enfeitiçada pelos olhos profundamente sedutores, que mergulharam, vasculharam, dominaram os dela com uma facilidade inquietante.
          Foi Amanda quem desviou os olhos. Michelle jamais conseguiria.
 - Eu sei que você já sabe, Mi... Mas, eu queria... Te dar uma explicação...
 - Não quero falar sobre isso.
          Amanda suspirou profundamente. No fundo, bastante aliviada. Não tinha realmente o que dizer. Nem como se justificar. Como explicar que com Michelle, se sentia fraca, sufocada, impotente? Tudo era muito sério, pesado, cheio de responsabilidades, expectativas, cobranças, que a faziam se sentir prisioneira. Enquanto que com as outras era tudo fácil, leve, inconseqüente... E por isso mesmo gerava uma satisfação irresponsável que precisava renovar sempre...
          Passou a mão nos cabelos, jogando-os para trás. Da forma que Michelle amava. O charme de Amanda era tão natural quanto respirar. E causava em Michelle arrepios impossíveis de evitar. 
          Percebendo o efeito que uma simples jogada de cabelos causava, Amanda sorriu.  Com a doçura suave, carinhosa e apaixonada que só Michelle conseguia despertar. Mordeu o lábio inferior quando estranhamente, ela não sorriu de volta. Pelo contrário, os olhos de Michelle se tornaram... cubos de gelo. Amanda reparou bem nisso, e teve medo de perguntar:
 - Mi... O que você quer?
 - Quero me separar de você.
          O sorriso de Amanda se distorceu, virando uma espécie de careta que deixava entrever dolorosamente os dentes.
          Dentes ou presas? Amanda já era uma predadora voraz quando a tinha conhecido. Nenhuma dúvida com relação a isso. Mas Michelle inocentemente pensava que ela poderia mudar, poderia... amadurecer?
          Como julgar, como saber quem na verdade era infantil? Amanda, com suas escapadas furtivas? Ou Michelle, que voluntariamente escolhera fingir que nada via? Até o momento em que o odor putrefato das não verdades tinha se tornado insuportável  - como qualquer corpo em decomposição seria. Impossível continuar fingindo que não existia.
          Principalmente depois do telefonema que tinha recebido na véspera. A menina – pela voz, parecia ser muito novinha – tinha ligado para confirmar o que Michelle já sabia. As infidelidades que Amanda – com o apoio tácito de Michelle – escondia.
          Michelle tinha escutado calada. Cada palavra. Cada suspiro. Se afogando. Puxada pelo redemoinho, o buraco negro que se formava e que a fazia perder até a noção de quem era. Precisava de ar. Precisava voltar à tona. A menina parecia apaixonada. Michelle não a culpava. Pelo contrário. Sentia por ela uma óbvia empatia. Amanda, como sempre, fazendo vítimas sem sutilezas nem remorsos,  com maestria.
           Foi Amanda quem finalmente falou. Devagar, cada uma das palavras machucando, doendo, um enorme esforço, porque... estava mentindo. Na tentativa desesperada de evitar o fim:
 - Mi, me perdoa... Foi só uma vez... Tô arrependida... Acredita em mim... Eu errei, eu sei que... É imperdoável... Mas dois anos de casamento pra você não valem nada? Mi, eu  amo você... Como nunca amei ninguém... Você é a mulher da minha vida... Sou sua, só sua, de corpo e alma... Só que nos últimos meses, você ficou tão fria... tão... inalcançável... Sei que não justifica... Mas eu sou humana... Me sentia carente, magoada, sozinha...
          Michelle riu. Uma gargalhada estrondosa, raivosa, agressiva. Jogando a cabeça para trás e fechando os olhos. E foi com os olhos ainda fechados que disse:
 - A culpa é minha então?
          De repente as duas estavam tão próximas que podiam quase sentir os lábios se tocando. Michelle fechou os olhos, querendo que Amanda a beijasse, que as bocas se colassem numa incoerente mistura de salivas, hálitos e almas. Mas o beijo não veio. Amanda não teve coragem. Michelle tinha fechado a alma para ela, parecia inatingível, distante, inalcançável...
          Michelle voltou a abrir os olhos, tentando disfarçar o estranho desapontamento que sentia.
          Impulsionada por um simples e terrível desespero, Amanda deu sua última cartada. Com um sorriso absurdamente sedutor, falou a frase que tinha conquistado Michelle anos atrás:
 - Eu desisto, se você disser que não sente nada por mim...
 Exatamente como da primeira vez. No aniversário de uma amiga em comum. Amanda tinha se aproximado, iniciando uma conversa que na verdade, não passava de um flerte nem um pouco velado. Michelle já conhecia a fama de Amanda, por isso, e só por isso – desde o primeiro momento tinha ficado de quatro – ficou evitando, resistindo ao máximo, apenas para – depois da frase irresistível, bombástica - ceder, derreter, e... se entregar. Completa e absolutamente.
 Lembranças em flash pipocaram vertiginosamente. Uma montanha russa,  um looping de emoções a atingindo como um soco no estômago só de lembrar da doçura dos beijos, das mãos, dos suspiros e gemidos, da forma intoxicante de Amanda fazer amor.
           Recordações que fizeram a resposta de Michelle sair fraca, trêmula. Nem um pouco convincente:
 - Não sinto mais.
          Propositalmente, Amanda ajeitou uma mecha dos cabelos de Michelle, prendendo-a atrás da orelha. Uma pontinha de esperança surgiu quando Michelle estremeceu com o leve toque. Amanda a olhou bem nos olhos ao dizer:
 - Acho que você tá chateada, mas... Ainda me ama, Mi... Não adianta fingir.
          Amarrada numa camisa de força como o grande Houdini. Poderia, como ele, se libertar? Mas Michelle não era a mestra das ilusões, era a paciente sem alta do manicômio mais cruel do mundo: o amor...
           Juntou todas as forças que tinha para gaguejar:
 - Eu... eu não quero mais.
          Os olhos de Amanda cintilaram. Farejando, vislumbrando, intuindo o que Michelle estava sentindo. A voz soou visceral, ardente, intensa, quando olhou Michelle profundamente nos olhos, e disse:
 - Mentira. Você me ama. Me adora. É louca por mim. E eu por você, Mi...
          Vendada e sozinha com um pé levantado na beira de um precipício. Apenas um passo a separava da queda. Um passo, ou o desequilíbrio. Fosse o que fosse, Michelle gostaria de poder se entregar deliberadamente ao abismo. Mas não podia.
 - Eu quero apagar você da minha vida, Amanda... Esquecer que você existe.
          Michelle nunca tinha visto os olhos de Amanda daquele jeito. Absolutamente secos, como se a dor fosse tão grande quanto muralhas que represassem toda e qualquer forma de lágrima.
 - Não fala assim... Por causa de um erro, de um único erro...
          Michelle nunca conseguiria se lembrar do nome de todas as garotas com quem sabia que Amanda tinha saído. Milhares, um monte delas, mesmo sendo casada com ela. E o tempo todo Michelle fingia que nada estava acontecendo... Sofria em silêncio. Sem nada transparecer. No fundo talvez já soubesse o que tinha que fazer a muito tempo. Apenas protelava porque... tinha medo. De ficar sozinha? Não... De que Amanda mudasse, se arrependesse, deixasse de ser daquele jeito com alguém que não fosse ela...
           Michelle riu balançando negativamente a cabeça. Um riso amargo, sarcástico, doído, como Amanda nunca a tinha visto fazer. Um riso que pareceu abrir uma comporta de palavras, que  jorraram furiosamente:
 - Uma única vez? Uma única vez? Tem coragem de dizer que foi uma única vez? Há meses você tava de caso com aquela menina... Fora as outras, Amanda... Muitas, tantas que pra dizer todos os nomes levaria horas... A lista é imensa! Aliás, mais fácil dizer as pessoas com quem você não dormiu nesses dois anos... Essas, minha querida, dá pra contar nos dedos...
          Fechou os olhos, as lágrimas escorrendo dolorosamente. A lembrança que teve a atravessou como um punhal. Rasgou toda e qualquer razão que ainda pudesse ter...
         Uma noite no quarto delas, em que a pouca luz do abajur deitava nos cabelos ruivos de Amanda um efeito etéreo. Ela estava de olhos fechados, e quando Michelle sentou na cama, abriu os olhos e sorriu um sorriso manhoso, meio adormecido. Quando as bocas se tocaram, o efeito de sempre -  como se o mundo, a vida, o universo mudassem, passassem a ter sentido...
          Como se pudesse ler os pensamentos de Michelle, Amanda se aproximou lentamente. Os olhos fixos nos dela. Segurou o rosto de Michelle entre as mãos, e encostou os lábios nos dela apaixonadamente. Por um instante esqueceram de tudo e apenas se entregaram aquele beijo. Desejado, incendiário, intenso... Mas que durou pouco tempo.
           Fazendo um esforço enorme para se controlar, Michelle colocou as mãos nos ombros de Amanda e a afastou. Na mesma hora em que os lábios se separaram teve vontade de puxar Amanda de volta. Segurou o volante com força, como se tivesse medo que as mãos não a obedecessem. Evitou olhar para Amanda, sabendo que se os olhos voltassem a se encontrar, a beijaria novamente.
 - Amanda, eu não tô brincando, muito menos jogando com você.
 - Nem eu.
          Aquela era a terceira vez que Amanda se sentia daquele jeito, como se uma névoa lhe impedisse de enxergar direito. A primeira vez 11 anos atrás, no enterro da mãe. A segunda vez há apenas 4 anos, no enterro do pai. Ambos pareciam pertencer a uma vida passada. E realmente pertenciam, a uma vida antes de Michelle.
          Michelle tinha entrado na vida de Amanda com a fúria de um anjo salvador, afastando todos os demônios do passado. E criando novos demônios, perigosos e desconhecidos. Mais especificamente, a certeza de que nunca mais poderia dar um salto mortal, passar de um trapézio para outro sem nenhuma proteção.
          Mas aceitava, porque toda e qualquer noção de falta de controle parecia pertencer a uma vida passada. E realmente pertencia, a uma vida antes de casar com Michelle. A única válvula de escape que tinha, era sair com outras mulheres.
 - Michelle... Por favor, me perdoa... – a voz de Amanda era sempre daquele jeito insistente, firme, exigindo respostas imediatas. Não como uma britadeira. Mais como uma goteira, que de tanto bater acabava sempre amolecendo a vontade de Michelle.
          Só que naquele momento, o celular de Amanda tocou. Insistentemente. Michelle suspirou profundamente. Antes de dizer:
 - Não vai atender? Por quê?
          Os olhos duelaram, os de Michelle esperando uma resposta. Os de Amanda tentando negar o evidente. Tão absolutamente sem graça, que não precisou de palavras para Michelle saber:
 - Porque é uma das muitas com quem você me trai.
          Se estivesse no lugar de Amanda, Michelle ficaria sem ter o que dizer. Mas não era o caso:
 - Por favor, Mi... Eu amo tanto você... Eu vou mudar, prometo...
          Amanda usou toda a usual sedução que dela emanava. Verdadeiro campo magnético, que sempre dava a Michelle a impressão de que Terra, Sol, Lua, e estrelas giravam única e exclusivamente em torno de Amanda...
 - Tarde demais... Não quero mais você.
          O olhar dela... Quase fez Michelle voltar atrás... Como um animal ferido, perdido, abandonado... E talvez fosse, na verdade. Mas Michelle não agüentava mais.
          Amanda percebeu, mas não conseguia aceitar. Ainda tentou perguntar mais uma vez:
 - É sua decisão final?
          A resposta de Michelle foi assentir com a cabeça. Sem forças para mais nada. Um sentimento de ausência, de morte, de vácuo, a corroendo por dentro.
          Viu quando Amanda abriu a porta e saiu do carro, batendo a porta com força. Viu quando Amanda se afastou em direção à praia, e ficou ali parada observando o sol que aos poucos descia no horizonte. Mas não a chamou de volta, contrariando o desejo mais verdadeiro e profundo que sentia.
          Correr com o vento se deitando na boca, a respiração intensa. O coração martelando acordes, as mãos bailando músicas inteiras. Desejos rasgados da alma arrancados com o fórceps da desilusão, traição, ressentimento...
          Perdas... Amanda as colecionava... Assim como as culpas... E medos... Eram como morcegos que a rodeavam. A arranhando no rosto, a puxando pelos cabelos... Precisava se livrar, espantar todos eles... Pisou na areia sem tirar os sapatos, caminhou até o mar num transe entorpecente. As ondas molharam os sapatos. Atirou a bolsa na areia, entrou na água até os joelhos. O sol foi sumindo, a escuridão tomando conta dela enquanto Amanda avançava, entrando mar adentro.
          Michelle ligou o carro, pisando no acelerador como se pisasse em si mesma. Ainda olhou para trás, tentando vislumbrar Amanda entre as árvores. Mas só conseguiu enxergar a total ausência de luz. Anoitecera. Uma longa noite sem estrelas.

O conto acima ganhou o segundo lugar no Concurso Nacional de Contos Lésbicos em 2008 realizado pelo Centro de Documentação e Informação Coisa de Mulher

Outros contos: O Dia Seguinte  Aquários 

3 comentários:

  1. NOSSA, A MICHELE COM CERTEZA sofreu, mas foi o melhor a fazer a amanda não vale a pena

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  2. Intenso ate o fim, te deixa com vontade de ler daca vez mais. Incrivel!!!!

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  3. Conto lindíssimo, de bom gosto. Literatura fina.

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