Ejaculação Feminina: você já teve?

sábado, 11 de fevereiro de 2012 5 comentários


Ejaculação Feminina: você já teve?
Autor(a):
Míriam Martinho

Já foi para cama com a amada, fez de tudo e no auge da coisa, jorrou como chafariz? Morreu de gozo e vergonha, pensando que tinha feito xixi sem querer? Confundiu-se, enrolou-se e reprimiu o que, ainda por cima, foi um de seus melhores momentos de prazer? Bom, então fez mal. De acordo com médicos e sexólogos, desde os anos 50, a ejaculação feminina é considerada um fato indiscutível pelo menos para algumas mulheres. Inclusive o que hoje se argumenta é que toda mulher é capaz de ejacular, variando apenas a quantidade de líquido expelido (de algumas gotinhas a verdadeiros jatos) relativa à capacidade de contração muscular de cada dama durante o orgasmo.

E de onde vem essa fonte de prazer, você deve estar se perguntando. Vem de minúsculas glândulas, chamadas parauretrais, situadas na esponja uretral, também conhecida como Ponto G, tecido esponjoso que envolve a uretra (canal que conecta a bexiga ao exterior, por onde se faz xixi) e que faz parte do sistema clitoriano. Durante o orgasmo, contrações musculares expelem este fluido das glândulas parauretrais, por dois igualmente minúsculos ductos, localizados em ambos os lados do canal uretral, em pouca ou muita quantidade. Pesquisas realizadas no fluido expelido, de uma maneira geral, revelaram pouca uréia e creatinina, componentes da urina e bem mais glicose e ácido prostático fosfatoso, elementos semelhantes aos encontrados no sêmen. Assim, de posse dessas informações, as potentes ejaculadores que andavam se reprimindo e até fazendo cirurgias para incontinência urinária, com vistas a não molhar a cama ou a(o) parceira(o), sentiram-se menos constrangidas e passaram a soltar a franga (ou seria melhor dizer a rolha?). 

AS PIONEIRAS NO ASSUNTO 

Bom, o certo é que essa nova expressão de prazer (digo nova, por ser de recente discussão, pois até Shakeaspeare já falava nas “águas do meu amor”) deve muito de sua vinda à luz às médicas ligadas ao movimento feminista que, desde a década de setenta, passaram a redesenhar a anatomia do clitóris, demonstrando que sua parte visível (a glande) nada mais era que a ponta de um iceberg, cujo corpo possuía uma estrutura interna muito maior e mais complexa do que a sonhada pelos vãos tratados de anatomia tradicional. Foram elas que apontaram a esponja uretral, como responsável pela ejaculação feminina e, mais recentemente, esclareceram ser esta esponja parte do sistema clitoriano e não simplesmente um ponto ou região como indicado, na década de 50, pelo médico Ernest Grafenberg (1881-1957), a quem o ponto G deve o nome). 

Além delas, outras pesquisadoras vêm aprofundando seus estudos sobre este órgão sexual feminino e lançando novas luzes sobre o assunto. Em 1998, a urologista australiana Helen O’Connell dissecou o clitóris de cadáveres de mulheres de várias idades, revelando que o corpo desse órgão de forma triangular, que se conecta à glande, é tão largo quanto à primeira junta do polegar, com dois braços de até 9 centímetros que adentram o corpo e terminam a apenas alguns milímetros das pontas da coxa. Entre esses braços, há, em cada lado da cavidade vaginal, dois bulbos, anteriormente chamados de bulbos do vestíbulo, por haverem sido considerados como partes da vagina, e que O’Connell agora quer denominar de bulbos do clitóris. A médica também afirma que, ao contrário da visão anatômica tradicional, o clitóris sim se conecta à uretra, rodeando-a em três lados enquanto um quarto lado se inserta na parede frontal da vagina. De fato, de acordo com O’Connell, os nervos cavernosos do clitóris se estendem ao longo das paredes do útero, da vagina, da bexiga e da uretra. Assim sendo, uma das aplicações, entre várias, dos estudos dessa médica, é a preservação da função sexual em mulheres que precisam ser submetidas a cirurgias na região pélvica, como retirada do útero, cirurgia para incontinência urinária e câncer na bexiga. 

Legal mesmo será comparar a visão de O’Connell e a das médicas feministas e ver no que elas diferem e no que acrescentam dados uma a outra a outra. Com certeza, após tanto tempo sem a atenção devida aos seus órgãos sexuais, as mulheres só têm a ganhar com essa comparação bem como com as novas descobertas sobre o tema que seguramente surgirão nos próximos anos.

LEVE A TOALHA PARA A CAMA

Enfim, embora, em algumas pesquisas com ejaculadoras, seus fluidos tenham apresentado mais elementos de urina do que de ejaculação, hoje a maioria das (os) entendidas (os) bota a mão no fogo pela verdadeira ejaculação feminina, fruto – repetindo – das glândulas parauretrais, situadas na esponja uretral, que pode ser sentida ao se inserir o dedo na parte da frente da vagina, pressionando na direção do osso púbico ou do monte-de-vênus. Além disso, de qualquer forma, é sempre bom lembrar que tem gente que também gosta de praticar o que as gringas chamam de watersports (esportes aquáticos) ou golden showers (banho dourado ou chuva dourada), práticas sexuais que envolvem urina de uma ou de outra forma. Saídas do armário sadomasoquista pela chegada da AIDS e pela necessidade da discussão de todas as práticas sexuais com vistas à prevenção, os watersports também passaram a ser citados nos folhetos de prevenção as DST para lésbicas, perdendo um pouco de seu caráter de tabu. Assim, seja por uma coisa ou outra, para alcançar ou intensificar o orgasmo, se for o seu caso, vale mais a pena perder a vergonha, achar uma companheira igualmente potente ou pelo menos compreensiva e simplesmente levar a toalha para cama. 

Bibliografia
CHALKER, Rebecca. Female Ejaculation: Fact or Fiction? In: NYC?LHF. New York City Lesbian Health Fair, May 4, 1996, p. 79-83.
CHALKER, Rebecca. Anatomy of the Clitoris. In: NYC/LHF. New York City Lesbian Health Fair, May 4, 1996, p. 85-89.
WILLIANSON, Susan & NOWAK, Rachel. The Truth about women. In: New Scientist Planet Science. 1998.
KEFER, Alex. Female Ejaculation – Just What is it? In: The Human Sexuality Web.
CHUI, Glennda. Research called faulty on female sexual organ. In: San Jose Mercury News, July 29, 1998.

Versão original deste texto: Boletim Ousar Viver, ano 5, n. 10, Fevereiro de 2000. Míriam Martinho. Publicado online em Um Outro Olhar, 29/12/05.

Do lado do Mappin, mesmo com chuva

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012 0 comentários

São Paulo,13 de junho de 1980, primeira passeata homossexual no Brasil

No dia 13 de junho de 1980, ocorreu a primeira passeata de bichas, lésbicas e travestis (também com feministas e negros) contra o delegado Wilson Richetti (junho/1980) que fazia arrastões nos bares gays, lésbicos, prendia prostitutas e travestis. Abaixo, Rose Mancini, participante do Grupo Lésbico Feminista à época, relata sua experiência do evento (Rose aparece no círculo mais claro).
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Do lado do Mappin, mesmo com chuva

por Rose Mancini 

Cheguei no lugar do encontro antes da hora. Na frente do Teatro Municipal, do lado do Mappin. Nos encontramos com os olhos. Sem abraços e sem contatos. Não tínhamos dúvidas sobre a importância da manifestação. Só os nossos olhares mostravam o medo e as esperanças que moravam em nós. Nada podia dar errado. Era como tirar fotografia de um casamento. A ocasião era quase única e talvez irrepetível. Naquele tempo o lema era: "segurar a barra', "não deixar cair", "não sujar" "ir à luta”, em síntese, deixar do melhor modo possível o dia 13 de junho. Não estávamos ali para festejar Santo Antonio nem o dia dos namorados. 

Contagiadas pelo medo, cada gesto era medido. Tínhamos que colher o momento crucial e estar no lugar certo para não só seguir um movimento, porém - mais do que isso - criar o evento. Existia uma fórmula? Não sabíamos. O importante e necessário era compreender como se mexer dentro da cena. Inventávamos. Com panfletos tentávamos explicar porque estávamos ali provocando desconforto e incomodando os passos cansados e inseguros das pessoas.

Nós estávamos ali contra a polícia e a favor das vítimas. Contra o abuso dos policiais, que ofendiam nossos sentimentos íntimos, feriam os corpos e nos turbavam moralmente. Estávamos ali para agir contra um modo criminoso que frustrava o desejo e tentava nos paralisar com o terror, com a violência, transformando-nos em vítimas do medo. Porque as ofendidas eram as mulheres e as trans que do sexo viviam. E que ninguém defendia porque iam contra as regras do pai branco que queria dominar sem contrastes, eliminando fisicamente as diferenças e desigualdades. Nós estávamos ali para ir contra a marginalização, a misoginia e a morte. Contra as cicatrizes e a infecção do medo. 

Decididamente tínhamos que estar prontas. Colocando-nos na frente, para poder enquadrar a praça ou a rua. Enquadrar tudo. Víamos a praça lotada, a rua com os carros que passavam, e o Mappin que descarregava na calçada um monte de gente com saquinhos brancos e verdes e sacolinhas. No bolso da minha calça larga, eu também tinha uma para guardar nosso estandarte. 

Lá em cima nas escadas, com os nervos à flor de pele, ofegantes, eu e a Rosana. Ela me ajudava a desembrulhar a faixa que íamos usar dali a pouco e que por horas estava me enfaixando todo o tórax como a conter uma grande explosão. Cuidadosa, desenrolava do meu corpo a faixa e meio sorrateiramente a fazia escorregar até o chão molhado. Cheirava a tinta fresca e grudava um pouco também. Era feita de algodão e escrita com tinta esmalte e pincel (ainda não se usava o spray e por isso demorava muito para secar). Teca, Míriam e Conceição tinham trabalhado durante a noite na confecção. Ficou muito bonita, saiu um ótimo trabalho. Era longa, mas se lia muito bem. 

Me enrolavam e desenrolavam a faixa na barriga sempre quando tinha uma manifestação. E no final da passeata também era eu que levava a faixa para casa, na barriga ou toda amassada em uma sacola. "Sem dar bandeira" e nem mostrar o meu pânico, aproveitando do meu corpo redondo e que disfarçava bem. Fazia o meu papel de "bala embrulhada'.

Quase desmaiando pelo cheiro que emanava da faixa e pela preocupação de ser descoberta, ia pela cidade como uma nova Kamikaze, lutando contra a vontade de abrir as vestes, na rua ou dentro do ônibus lotado, para mostrar que não tinha medo de nada e nem de ninguém. Não era verdade. O cheiro da tinta entrava no meu cérebro. E claro que eu estava morrendo de medo. Estava carregando um símbolo proibido. Vivíamos traumatizadas pela antecipação de um trauma. 

Chegando antes:
-Vai, sobe lá e fala!. - Quem vai ler? - Lê rápido! 

Nesse jogo, sem diretor, nós que tínhamos chegado cedo tomamos o lugar: - Quem lê? – Quem toma conta?- Quem avisa se eles chegarem?- Quem dá o sinal?- O que se faz se...? 

A polícia estava espreitando, e os infiltrados se viam pelos óculos escuros e o ar de vazio em volta deles. A visão era boa das escadarias. Um milhar, nós estávamos ali em mil. Poucos? Tantos? Esperamos ainda? O que? Quem? Partimos? Começamos? A notícia tinha circulado.
Era um milhar com um objetivo. Sim, nossos corações jovens, cheios de paixão e esperança nos impeliam a partir. As motivações eram claras, a complicação estava em pô-las em prática, agir, dirigir. Faltava um maior conhecimento de ações públicas. Só a sensibilidade, nessas ocasiões, não ajuda, não basta. Não tinha nada de codificado ou de habitual. Quando começar?
Mas de repente - como telecomandadas - começamos a marcha e entramos no meio da multidão que, saindo das lojas e escritórios com os guarda-chuvas abertos, avançava decidida, na certeza de ter que enfrentar uma longa estrada. Pegar o primeiro ônibus ou o metrô para chegar em casa o mais cedo possível, antes da novela das oito, e finalmente esquecer o mundo. Entramos aí, nesse meio. Como um cordão trançado, simples e sem dar na vista. Depois das dezoito. Entramos nesse meio para aumentar a impressão de que éramos muitos. Aumentar a pressão. Dar uma impressão! 

Tínhamos que conquistar gente para engrossar nossas fileiras, para mostrar que éramos muitos mais e ainda mais. As pessoas indo embora no tradicional e seguro rush, e nós ali para frear, bloquear, estancar, mas sem querer ser invasivas. Queríamos demonstrar que muita gente estava mobilizada, fazer parecer que éramos mais do que éramos, que tinha chegado a hora de reagir ao abuso de poder, que finalmente todos tinham acordado do pesadelo.

Abrimos a faixa e começamos a dar os braços para fazer as pessoas andarem mais devagar, como se disséssemos: "Assumimos esse risco para que reflitam". Abraçadas seguíamos fechando a rua. Bloqueando os passos rápidos e desesperados de cansaço. Assustando os que, conformados, nos seguiam até lerem distraídos sob a própria cabeça: "Contra a Violência policial. Ação Lésbica Feminista". Algumas tentavam passar por baixo ou romper a nossa barreira natural de corpos. Outras nos empurravam para mostrar que não tinham nada a ver com aquilo. ”Não sou sapatão". Empurrão e resignação. Sabiam que logo lá na frente subiriam no ônibus, e tudo teria terminado. Era uma barreira, e a barreira no começo era muito sólida.
Estávamos na Avenida São João, e fomos subindo e parando o trânsito. A adrenalina cadenciava os nossos passos e dava um novo ritmo aos nossos corações. Improvisando para fazer coincidir os eventos com os deslocamentos e prever o fluxo. Tínhamos que segurar com discrição a multidão por um tempo antes de ela chegar aos pontos dos ônibus. O objetivo valia a intervenção. Estávamos ali para exigir que parassem de perseguir, torturar e matar pessoas que tinham cometido só o crime de amar de forma não convencional. Não tinham culpa de não fazer coincidir corpo, coração, sexo e a cor da pele com as regras morais, sociais e religiosas. Não tinham culpa de existir. 

E foi assim que, no trajeto, uma mulher quase nua se debruçou sobre o peitoril da janela de um prédio e, em peignoir transparente, começou a dançar para nós. Rir com a gente que comovidas começamos a gritar: “-Vem, desce, vem com a gente, vem aqui pra dançar". Ela nos mandou um beijo, primeiro beijando as pontas dos dedos da mão direita, depois colocando-as sobre o coração, e o lançou sobre nossas cabeças. A emoção e o rumor invadiram a rua e fizeram todas as janelas da Rua Julio de Mesquita se abrirem. Seguimos em frente com mais força e menos medo, e as janelas se povoaram de pessoas alegres e muito pobres. “Vem com a gente... estamos aqui por vocês. Para que vocês vivam na liberdade da sexualidade que quiserem". E elas responderam algo como: -"Temos medo, não podemos descer, eles nos matam, somos putas!” ao que nós respondemos: -"Somos todas Putas!". 

Camisolas transparentes. Corpos abraçados que subiam nos parapeitos das janelas e esvoaçantes corpos nus que se acariciavam, se despiam, se mostravam como a pedir e desejar uma homologação: o direito de existir. Foi um momento fundamental dessa passeata, da história. Eu nunca tinha visto nada parecido. A emoção irradiava em ondas e aos poucos chegava até o fundo e voltava com palavras de encorajamento e com slogans que respondiam à nossa emoção e inventavam outras. No Largo do Arouche, a policia que lá já estava começou a ser mais evidente e a nos espremer, diminuindo a largura da nossa manifestação. Começamos a encolher, a juntar os panfletos e nos separar das emoções. 

Eu tentei embrulhar a faixa comprida, molhada e muito visível, mas a sacola que tinha no bolso não se desdobrava. Preocupada com a possível repressão, saí do aglomerado, comecei a procurar uma saída, despistei e entrei em uma travessa, uma ruazinha muito escura onde larguei sem dó a faixa da nossa passeata. Corri de volta e esbarrei de relance num policial que estava entrando na rua. Nossos destinos se cruzaram de passagem, mas superei esse obstáculo. Parei de tremer e voltei a respirar. Aí sim corri com gosto e medo, mas com o coração livre como a prostituta nua da janela. 

Nada de chá de cadeira na delegacia ou coisa pior. Dessa vez para mim, tinha dado tudo certo. Continuei correndo e fiquei mais tranquila só no Largo do Anhangabaú. Rezando agnosticamente para a "nossa senhora das lésbicas” fazer a policia nos esquecer, para que ninguém tivesse tido tempo de tirar fotos da gente que poderiam servir como provas no caso de sermos presas. Enquanto entrava no metrô, molhada, continuava a pedir a essa nossa senhora que nos protegesse contra os policiais para continuarmos a ser espontâneas e inesquecíveis.

Milão. 09/05/2009

Publicado originalmente em Um Outro Olhar em maio de 2009

Clipping legal: Vaticano reconhece 4.000 casos de pedofilia e admite resposta inadequada

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Se se preocupasse mais com os próprios
pecados do que com os alheios, a resposta da
Igreja à pedofilia de seus padres não seria tão inadequada 
Um total de 4.000 casos de abusos sexuais a menores realizados por padres foram denunciados para a Congregação para a Doutrina da Fé nos últimos dez anos, informou nesta segunda-feira o prefeito da instituição, William Levada, que admitiu que a resposta da Igreja foi "inadequada".

Levada deu estas declarações na Universidade Gregoriana de Roma durante a abertura de um simpósio sobre pedofilia, que irá até o dia 9 de fevereiro e que reúne líderes religiosos.

Durante o ato o prefeito leu uma mensagem do papa Bento 16, no qual afirma que a cura das vítimas deve ser "a preocupação prioritária" da comunidade cristã e que isso tem que ocorrer ao lado de uma "profunda renovação da igreja em todos os níveis".

Levada, por sua parte, destacou a luta do pontífice contra o abuso de menores, o que começou quando ele era o cardeal Joseph Ratzinger.

O prefeito afirmou que Bento 16 sofreu nos últimos anos "duros ataques" por parte da imprensa, "quando deveria ter recebido a gratidão de toda a igreja e de fora dela" pelo trabalho realizado e sua postura de "tolerância zero" com a pedofilia.

Levada, no entanto, admitiu que as 4.000 denúncias "evidenciaram a inadequada e insuficiente resposta da igreja".

O religioso ressaltou a necessidade da Igreja colaborar com as autoridades civis para enfrentar os casos de padres pedófilos, destacando que o abuso sexual de menores de idade não só é um delito religioso, mas também um crime.

Levada disse ainda que embora as leis civis variem de nação para nação, o princípio sempre é o mesmo: "a igreja tem a obrigação de cooperar com a lei civil e denunciar esses crimes às autoridades competentes".

Fonte: UOL Notícias em 06.02.2012

Guerra nada santa entre autoritários: explica os vetos de Dilma aos direitos homossexuais

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012 0 comentários

Magno Malta e o rabo preso de
 Dilma Rousseff com os evangélicos
O Senador evangélico, Magno Malta (PR), fez ontem à noite, dia 08/12/2012, discurso, a partir das notas taquigráficas abaixo que vazaram na Internet, contra o ministro petista Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência), por suas declarações no Fórum Social de Porto Alegre, onde este falou da importância de disputar a classe C com os líderes evangélicos que seriam conservadores tacanhos.

Sua fala, como pode se ver abaixo, descreve as relações íntimas que esses grupos autoritários, petistas e evangélicos, têm mantido em seu afã de manter o poder de Estado no Brasil. Mostra também o rabo preso de Dilma Roussef com a agenda evangélica e explica os vetos que tem feito a materiais com temática homossexual. Agora mesmo, surgiu um novo veto a mero vídeo de prevenção a DST/AIDS entre homens homossexuais, que de público passou a ficar restrito a espaços gays. Veja abaixo o vídeo sobre prevenção e confira o absurdo do veto.

Veja também  a fala de Magno Malta, transcrita abaixo, no segundo vídeo a partir do 2:03 até 4:44.  E depois, no terceiro vídeo, desde o início. Em seguida, no quarto vídeo, a resposta de Gilberto Carvalho, tentando por panos quentes na polêmica.

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Venho a esta tribuna nesta tarde, Deputado Audifax, para revelar o meu inconformismo, a minha indignação, a chamada indignação dos justos com uma fala infeliz, mal colocada, irresponsável, Deputado Manato, do Sr. Ministro Gilberto Carvalho. Eu queria que os assessores dele me ouvissem agora ou que alguém telefonasse para ele me ouvir, para essa figura impoluta, esse deus do Olimpo – nem vocês conseguem falar com ele –, para essa figura saber que não devo nada a ele. Eu não fui nomeado por Gilberto Carvalho, o meu cargo não é um CC4, não é um CC3. Eu cheguei aqui com 1,3 milhão de votos vindos do Estado do Espírito Santo. Nada devo a Gilberto Carvalho e por isso, Sr. Gilberto Carvalho, camaleão, o senhor que fica da cor da situação, comigo é diferente, chefe. É tempo ruim o tempo inteiro e eu vou falar para o senhor o que eu penso.

Esse cidadão chegou ao fórum no Rio Grande do Sul, Deputado Lelo, e lá indagado – esses caras precisam entender que, na era da tecnologia, até para falar em escola primária é preciso saber o que fala, porque pode haver um menino filmando, gravando num celular –, ele abriu a boca e disse que, depois das conquistas, a oposição virou pó, o que eu acho um desrespeito muito grande. É um desrespeito grande. Eu acho que a oposição é benéfica, porque a oposição o alerta, o põe acordado, o põe aceso o tempo inteiro. É irresponsável a colocação.

Senador Paim, o senhor que tem um genro pastor, uma filha pastora; Aldifax, você que é de confissão evangélica, esse cidadão disse o seguinte: “A próxima batalha, a próxima disputa ideológica será com os evangélicos, pois esses conservadores – palavras do nosso Ministro Gilberto Carvalho, do nosso não, de vocês do PT – têm uma visão de mundo controlada por pastores de televisão”.

Sr. Gilberto Carvalho, lave a sua boca com álcool! Lave a sua boca com álcool! O senhor precisa aprender a respeitar. Precisa aprender a respeitar. Eu vou dizer quem são os evangélicos do Brasil.

Esses pastores de televisão certamente deveriam estar presos mesmo e deveriam ser punidos severamente, porque esses pastores evangélicos – e acho que também os padres da Canção Nova, da Século XX, da Rede Vida – usam o vídeo para incitar movimentos de violência nas ruas. Esses pastores ensinam os jovens a usar droga e coroam a bebida alcoólica. São esses pastores os responsáveis pelos motéis do Brasil. São eles responsáveis pelas editoras de revista pornográfica. São esses pastores que incitam os adolescentes e os jovens a usarem crack. Por isto, Gilberto Carvalho, o Brasil está vivendo esta epidemia: porque a culpa é dos evangélicos incitados por esses pastores. Ah, vá procurar sua turma, Gilberto Carvalho! Vá procurar sua turma! Você está brincando com quem? Eu vou dizer a você quem são os evangélicos.

Gilberto Carvalho, as igrejas evangélicas no Brasil são formadas por ex-alguma coisa. As igrejas evangélicas, Deputado Manato, as igrejas evangélicas, Zezinho, são formadas por ex-alguma coisa no seu corpo, César Colnago. Sabem quem? Ex-drogados, ex-prostitutas, ex-presidiários, de lares destruídos. Vocês entram numa igreja e têm todos eles com uma história para contar, uma história de sofrimento, até o dia em que foram alcançados pelo poder maravilhoso e pela portentosa mão de Cristo, com a mensagem salvadora do Evangelho. Esses são os evangélicos.

Sr. Gilberto Carvalho, não são os evangélicos que compram e vendem cocaína no Brasil. O tráfico de drogas não é nosso. O contrabando na fronteira não pertence a nós.

Sr. Gilberto Carvalho, me deixa dizer uma coisa e vou lembrá-lo. No processo eleitoral da primeira eleição do Lula, Senador Paim, no segundo turno, querido Deputado Paulo Foletto, o Lula era satanizado, no Brasil, e eu recebi a missão de cruzar este País “dessatanizando” o Lula, e o fiz: 25 dias dentro de um jato, falando 5 ou 6 vezes por dia pelo País inteiro. Acabei no Rio Grande do Sul, no segundo turno do Olívio Dutra, dentro do estúdio, no último debate.

Esse povo evangélico que votou no senhor, Senador Paim, trouxe-o para esta Casa para ouvir o meu discurso, hoje, de desabafo por essa fala irresponsável desse Ministro meia-boca.

Vou mais além: esses evangélicos entenderam. Veio o segundo mandato do Lula, fizemos a mesma coisa. Cruzamos o País, eu e o Líder do PT, Walter Pinheiro.

Ô ex-seminarista católico, cristão, como o senhor diz, Sr. Gilberto Carvalho, que não respeita ninguém, o Líder do PT, hoje, no Senado, foi trazido a esta Casa pelo voto da Bahia, com 70% de votos evangélicos, dos irmãos dele de confissão de fé. O Walter Pinheiro é evangélico. Eu sugiro ao senhor que peça à Presidente Dilma para fazer uma reunião e tirar o Walter da liderança.

Sr. Gilberto Carvalho, o senhor se esqueceu da eleição da Dilma? Vocês não se prepararam para o segundo turno porque o salto estava tão alto que acharam que iriam ganhar no primeiro. Ninguém esperava que a evangélica Marina crescesse.

E, infelizmente, Deputado Lelo Coimbra, o debate para a presidência da República se deu em torno de uma questão: aborto! E sabe por que ele chama, vai ao Rio Grande do Sul e fala isto, que nós somos conservadores? Porque ele estava falando para pessoas que são a favor do aborto.

Você se esqueceu da lição, Gilberto Carvalho? Você sabe por que Dilma foi para o segundo turno? Porque os e-mails diziam que ela era “abortista”, um debate que se deu em torno do tema aborto.

Aí, veio o segundo turno. Ninguém sabia o que fazer. Aí, eu disse para mim mesmo: “Lá eu não vou”. O Governador Renato Casagrande, que está aqui, a eleição terminou num dia e, no outro dia, ele me ligou: “Você vai para Brasília?” Perguntei: “Fazer o quê?” “O Lula está chamando, e a Dilma, porque deu segundo turno, e precisamos ir lá para uma grande reunião”. Falei: “Não vou, não. Já fiz isso uma vez, já me enganaram uma vez, não vão fazer a segunda”.

O Walter Pinheiro me ligou e me ligou o Pastor Everaldo, presidente do PSC, que estava sendo cortejado e bajulado por Gilberto Carvalho. Gilberto Carvalho, hoje, não atende um telefonema dele, nem olha na cara dele, e olhem que é Líder de uma bancada de 16. Não precisa mais! Tentou me convencer e falei que não ia. Eu sei o que se deu no pleito eleitoral municipal.

Quero lembrar, Presidente Paim, ao nosso querido – querido nada!... Não vou ser hipócrita e chamar esse cara de querido, não – Gilberto Carvalho... V. Exª estava na disputa, com a história que tem, para Senador no Rio Grande do Sul, e era o terceiro. Gilberto Carvalho, você sabe o que eu fiz? Eu vim a Brasília gravar propaganda eleitoral para Paim. Sabe para pedir voto a quem? Meus irmãos evangélicos do Rio Grande do Sul, seu cara de pau! Cara de pau! Você precisa de um vidro de óleo de peroba.

Não devo nada a você, Gilberto Carvalho. Muito pelo contrário. O que aconteceu? A minha família me convenceu, porque o que estavam fazendo com Dilma era uma maldade, era injusto. Não era justo. E, como eu imagino que precisamos sobreviver com justiça... Eu ouvi falar do PL nº 122, dizendo que estava na conta da Dilma. A Dilma nunca mexeu, nem conhecia PL nº 122, nem sabia nada disso. Eu que batalhei aqui neste Senado, V. Exª na Comissão de Direitos Humanos, para poder enterrar o PL nº 122, que foi uma luta da ex-Senadora Fátima Cleide, e nós não deixamos votar. E, enquanto estiver aqui, não vai votar.

Disseram que foi Dilma. Muita mentira, muita ilação, muita falsidade com aqueles e-mails. Eu vim para cá, fui para uma reunião em que estava Palocci – Palocci já caiu –, estava Gilberto Carvalho e estava José Eduardo Dutra, numa reuniãozinha pequena, numa sala pequena. Manato, César Colnago, eu olhei para o Everaldo, Presidente do PSC, e falei: “Olha bem para a cara do Gilberto Carvalho, isso é um mentiroso. Ele já fez isso uma vez. Eu só estou aqui porque acredito em Justiça, não é por causa de você não, porque você é um Deus do Olimpo. Quando subiu ao poder, você nem atende a telefonema de ninguém. Agora, nós viramos a solução de novo para vocês. Agora, eu sou solução de novo para vocês. Então, me esqueça, porque eu não acredito em você. Você é mentiroso.”

Gilberto Carvalho, eu falei para você, não falei? Você é mentiroso, eu continuo pensando. Eu entrei em um jato, César Colnago, fiquei 27 dias. Cumpri um mapeamento no Brasil, para “dessatanizar” a Dilma, para desfazer o que os e-mails fizeram, para que ela pudesse derrotar o candidato Serra. Ela cresceu 14% nesse segmento, no segundo turno. E o Sr. Gilberto Carvalho acompanhou tudo. Aí, Dilma ganhou, ninguém conseguia mais falar com ele, porque aí aliviou, o emprego estava garantido, era Ministro de novo. Agora, ele vai ao Rio Grande do Sul e solta essa pérola. Barriga não dói só uma vez, cara de pau! Barriga dói mais vezes.

Sabe, vocês estão loucos para fazer um projeto para acabar com o crack no Brasil. Sabem que dia vai acabar? Nunca! A Presidente da Secretaria Nacional Antidrogas, uma despreparada, deu uma entrevista na Folha de S. Paulo, Manato, dizendo que falar em crack no Brasil como epidemia é uma falácia. Olha que brincadeira! A Secretária Nacional Antidrogas!

Mas vocês vão resolver como? Vão colocar mais dinheiro no SUS, para que o Ministro – aliás, meu grande amigo Padilha, que eu respeito muito – possa fazer um programa de internação de viciado em crack? Mamãe, me acode! Mamãe, me acode!

Ei, Gilberto Carvalho, você está tentando atacar quem mais tira drogado das ruas deste País, quem mais devolve filhos às suas famílias neste País, quem mais enxuga lágrimas de mãe que chora, de pai que se angustia com filho drogado neste País, Sr. Gilberto Carvalho?

Agora, por que faz isso? Porque o programa é diferente, o projeto é diferente, o projeto é de Deus. É do homem que é ganho por dentro, que é salvo, que é limpo por dentro, para depois tratar o caráter e a saúde dele, porque, se ele não for limpo por dentro, jamais vai se recuperar, Gilberto Carvalho. Mas já percebi que disso você não sabe nada. Disso você não conhece nada, ex- seminarista!

Vejo Senadores aqui, não sei como eles se comportam, até porque ninguém é tão doido quanto eu. Ouço burburinhos aqui e ninguém consegue falar bem desse rapaz. Ele mente com muita facilidade, escamoteia e tem comportamento dúbio.

Vou falar uma palavra aqui e ele só vai poder me processar quando eu não tiver mais mandato: safado! Eu acho bom você respeitar, rapaz. Acho bom você respeitar o povo. Acho bom você respeitar as pessoas que promovem paz neste País, aqueles que podem subir o morro, ganharem almas para Jesus, abrir uma igreja, aqueles que podem ouvir um traficante dizer que largou uma arma, que fazia a mãe chorar, que perdeu a escola, que esteve três anos na cadeia e lá conheceu Jesus, o Evangelho e hoje estou aqui, dentro da igreja, pregando o Jesus.

Gilberto Carvalho, tem 30 anos que recupero drogados. Acha que eu não conheço a fórmula? A fórmula é Jesus. Sabe onde eu encontrei? Nas orações da minha mãe, quando eu era menino. Então, em defesa da memória da minha mãe, Gilberto Carvalho, que era uma evangélica, eu repudio você. Eu repudio você e lhe peço um favor, onde você me encontrar não me estenda à mão, cidadão. Não me estenda à mão!

Quero dizer a você que estou representado alguns Senadores aqui. Eu avisei a eles da minha fala a eles e eles disseram que estariam na televisão assistindo. É tudo que eu gostaria de falar: nos respeite, Gilberto Carvalho.

Você estava falando de quem? Dos pastores da televisão? De quais os padres que você estava falando? Os padres da Canção Nova, que fazem um trabalho maravilhoso com os jovens no Brasil? Um trabalho lindo e que tem como representante o Eros Biondini. Você estava falando de quem? Da Vida? De quem você estava falando? De Silas Malafaia, que é pregador do evangelho, que tem posições, por que Silas é contra o PL 122, por que Silas é contra o aborto?! Isso lhe ofende? Você estava falando de quem? De Valdomiro Santiago, que prega o evangelho abertamente, que manda o doente trazer o laudo do médico e Jesus cura. Depois manda voltar no médico e volta e Jesus curou. Você esta falando de quem? Quem é desses que está fazendo mal ao País, S. Gilberto Carvalho?

Vamos esperar, S. Gilberto Carvalho. Só quero entender se a sua palavra é a palavra do seu Partido, porque nós temos um pleito eleitoral municipal agora, S. Gilberto Carvalho. E saiba que o nosso povo vota. O nosso povo vota.

Atenção Renê Terra Nova, atenção Silas Malafaia, Robson Rodovalho, atenção Pastor Zé Wellington, Pastor Manoel Ferreira! Os líderes deste País! Atenção, Convenção Batista, presbiterianos, maranatas! Atenção, Universal! Olhem só o que esse rapaz falou! Olhem só o que esse rapaz falou!

A sua filha, que é evangélica, é candidata à vereadora, não é, Paim? E será uma grande vereadora, se herdou o seu DNA de luta pelos menos favorecidos e se cresceu ouvindo o seu discurso, a sua batalha e tem Jesus no coração. É ela que Gilberto Carvalho quer enfrentar, porque ela é fundamentalista, radical e tem uma visão tacanha de mundo, muito pequenininha! Visão grande é a sua! Só não é visionário, o senhor é sabido!

Que Deus tenha misericórdia de Gilberto Carvalho!



Baila Comigo: Dança de Salão para o público LGBT

4 comentários

Conheci Giovane Salmeron durante as comemorações do Dia do Orgulho Lésbico (19 de agosto) de 2006, quando ele ministrou uma aula de dança de salão para as participantes do evento, introduzindo-as nos primeiros passos do mambo e do bolero, culminando com um arretado forró. Após uma hora e meia de bailado, todas estavam suadas e exaustas, mas com sorrisos radiantes pela dinâmica e a diversão da atividade.

Em outubro de 2008, Giovane abriu seu próprio espaço em São Paulo onde também desenvolveu o Projeto Duco et Ducitur (do latim “conduzo e sou conduzido”) para o público LGBT. Como ele disse - e eu concordo -, "A Dança, enquanto prática social, nos dá a sensação de pertencimento e estabilidade de que tanto precisamos e merecemos."

Posteriormente, Giovane se mudou para Aracaju (SE), onde reside até hoje e, claro, continua dançando. Clique aqui para acessar sua página no Facebook ou aqui para lhe mandar um e-mail. Esperamos que Giovane retome o projeto que iniciou aqui em Sampa onde quer que permaneça morando.

Ao final da entrevista, a bela dança de duas mulheres no filme Tango (1998), de Carlos Saura, e a apresentação de um casal masculino no International Queer Tango Festival em Berlim (2011).

Míriam Martinho
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UOO:
Giovane, primeiro, um pouco de você, de sua formação. Qual sua idade, sua orientação sexual, sua formação acadêmica como dançarino ou arte-educador, quando começou a dançar...
Giovane Salmeron (GS)Sou paulistano, com família na zona leste da capital, mas há 12 anos vivo na região central da cidade. Nasci em 09 de março de 1978 e tive já as minhas histórias com as meninas, o que me fez amadurecer e completar, neste ano, 12 anos de relacionamento com outro homem, com quem a cada dia vivencio novidades (mas a dança ainda não o tocou...).

Sou Licenciado em Artes Plásticas pela Escola de Comunicações e Artes da USP, Pedagogo pela Universidade Ibirapuera e Especialista em Dança e Consciência Corporal pela FMU/SP. Na Dança, além da Pós-Graduação, me graduei no quinto nível da Royal Academy of Dancing of London – Ballet Clássico, por meio do Estúdio de Dança Marina Lambertti, na região do aeroporto de Congonhas. Na época, eu tinha 21 anos e, assistindo a um vídeo de Cats (o musical da Broadway) eu senti que, mesmo vindo de uma família que não valorizava a Dança, eu seria capaz de dançar e fui à luta.

O problema era conseguir uma bolsa de estudos, então, com as páginas amarelas na mão, fui entrando em contato com várias academias até que a Marina me aceitou. Sou muito grato à ela por essa atitude e por me incentivar a iniciar uma turma na época da Dança de Salão.

Com relação à formação em Danças Sociais, entre workshops, vídeos e eventos, tomei aulas na academia de Andrey Udiloff em Pinheiros (a quem sou muito grato apesar de os nossos projetos serem diferenciados) e no estúdio da Stella Aguiar (que além da gratidão foi e tem sido uma ótima parceira de trabalho). Quando do auge do Tango, tive aulas com Graziella (professora das domingueiras de Tango do Café Piu-Piu) e, claro, com muitos outros professores e estúdios em Buenos Aires.

Atualmente, sou professor de Danças Sociais particular, atendo grupos em domicílio, ministro aulas no Núcleo Criativo e atuo como Personal Dancer em São Paulo, interior, Rio de Janeiro e Buenos Aires.

UOO:  E qual sua trajetória na área de dança e mais especificamente da dança de salão? Que projetos já realizou?
GS: 
Na Dança de Salão, iniciei numa academia de Fitness, na rua Augusta, em São Paulo, que em muito me auxiliou no início da carreira, trabalhando posteriormente com grupos particulares na ECA/USP, Academia Movimento & Dança na Vila Buarque, Interlagos, UNIB (realizei em 2007 o 1º Retiro de Dança e Consciência Corporal que terá sua segunda edição em 2009), SESC Paulista, SESC Consolação (ambos em parceria com Stella Aguiar), Pricewaterhouse & Coopers (também numa parceria com Stella) e, agora, além dos particulares, tenho me dedicado ao meu Projeto mais antigo e atual, o Núcleo Criativo, no qual desenvolvo minhas pesquisas sobre condução e dança entre parceiros de mesmo sexo.

UOO:  Como você situa a dança de salão hoje em termos de gosto popular: abrange todas as faixas etárias ou é uma atividade mais dos apreciadores dos ritmos clássicos (forró, samba, bolero...)?
GS: As Danças Sociais, sob minha perspectiva, estão hoje divididas, basicamente, entre dois públicos: os jovens, que se apropriam da dança como linguagem e buscam uma virtuose técnica, competitiva, em que imperam os modismos (Forró Universitário, Salsa, Zouk e mais atualmente o Tango Eletrônico), e os adultos, de meia idade ou que passam pela melhor idade que, consideram a dança momento apropriado para a troca de idéias, para vivências saudosistas, seguindo a etiqueta e um código social mais tradicional.

De certa maneira, antes de lidarmos com a diversidade sexual, é preciso compreender que, a Dança de Salão, enquanto prática social, ainda é incipiente no Brasil e que, estamos agora, colhendo os frutos de 20 anos atrás, quando a Lambada incitou milhares à prática da Dança à dois e o interesse pelo aprendizado técnico.

Hoje, o panorama que se apresenta, reserva aos jovens uma performance por vezes exagerada, em detrimento da etiqueta, das regras sociais por eles consideradas antiquadas e aos adultos, mais tradicionalistas, o fardo do satirizado “Baile da Saudade”, onde se saúdam aos clássicos, em especial o Bolero, o Fox-Trot e a Valsa.

UOO:  Em outras atividades que mexem com o corpo, há necessidade de um certo condicionamento físico prévio. Você faz esse condicionamento em suas aulas? Pessoas de todas as idades podem dançar?
GS: O que costumo fazer, quando o grupo corresponde ao estímulo, é um aquecimento, acompanhado por uma música de prática, dentro da temática da aula, tratando de aquecer as articulações, alongar a musculatura e relaxar os pontos de tensão mais evidentes para favorecer a sintonia com a atividade. Costumo dizer que se deixa o mundo lá fora, desliga-se os celulares para curtir aquela única hora da semana que é só sua e de mais ninguém.

Quanto à faixa etária, não há limites. Quando recebo um novo aluno, trato de perguntar se há algum impedimento físico que limite a atividade ou se há uma predisposição à labirintite, o que limita os giros a serem realizados. No mais, tenho uma regra, sempre superestimar os meus alunos. Claro. Faço sempre mais do que eles acham que podem e utilizo informações rítmicas, visuais e sensoriais para auxiliá-los em sua superação.

UOO: Quantas aulas em média são necessárias para fazer bonito na pista? Qual o ritmo mais fácil e o mais difícil de aprender?
GS: No geral, com aproximadamente 03 meses de aulas ininterruptas, uma vez por semana, já estimulo os alunos à sair para dançar, em grupo. Com 06 meses, a base está firme e surgem as figuras intermediárias. Seguramente, após 01 ano assíduo de aulas, a segurança e a criatividade tornam-se prazer na dança.

Quanto à questão rítmica, as modalidades mais fáceis, ao contrário do que acreditam os aprendizes, são aquelas mais rápidas e frenéticas, recheadas de giros, como o forró, rock, e o soltinho, onde há mais possibilidade de improviso. Já o bolero, a rumba e o tango, por ter uma marcação mais definida, exigem mais paciência e concentração dos alunos. Quanto mais lenta a música, aumenta o desafio de manter-se em sintonia com o parceiro.

UOO: Quando decidiu iniciar um trabalho específico de dança de salão com a população LGBT?
GS:
 Quando em viagem a Buenos Aires, fui convidado à dançar por um senhor que ao final me apresentou a esposa. Neste momento pude perceber que, focalizando em novos objetivos que não a sedução, a busca de um parceiro sexual, a dança pode ser objeto de prazer entre duas pessoas de mesmo sexo. Iniciei então uma pesquisa e participei do 1º Festival Internacional de Tango Queer de Buenos Aires, em 2007, quando então pude perceber que o mundo está aberto à esta novidade, principalmente a Europa e América do Norte.

UOO: Existe uma diferença na abordagem da dança de salão para os casais homo e hétero?
GS: Sim. Em primeiro lugar, a questão social da condução. Homens são condutores naturalmente aceitos e mulheres, como na sociedade, devem ser conduzidas, orientadas.

Quando surge um casal homo, em primeiro lugar é preciso definir se há um condutor e um conduzido ou se ambos farão os dois papéis. Acho mais interessante a segunda opção, o que torna o trabalho mais demorado e instigante, uma vez que, a cada novo movimento, ambos terão de aprender as duas possibilidades condutivas.

UOO: Fale um pouco de seu Projeto Duco et Ducitur (do latim “conduzo e sou conduzido”), de como surgiu, de seu objetivo.
GS: Surgiu durante a elaboração do Projeto de Especialização em Dança e Consciência Corporal da FMU/SP, quando observei e pontuei práticas sociais de dança em São Paulo e Buenos Aires. Então, percebi a necessidade de ensinar aos casais homo a linguagem social da dança.

Outras iniciativas surgiram por parte de outros profissionais, mas creio que os problemas e o êxito desta atividade está na integração dos casais depois do aprendizado. Eles participam das aulas assiduamente, mas na hora de dançar de fato, em locais apropriados, não se sentem aceitos, impelidos, apoiados.

Por exemplo, um puxão de orelha nas meninas que freqüentam o Café Vermont Itaim: há nessa casa uma das pistas mais aconchegantes que já vi. Durante a apresentação das bandas, com hits dançantes, a pista fica vazia. Apenas quando o DJ executa a seleção eletrônica é que a pista ferve. Por que motivo? Desta maneira, vamos sedimentando a idéia de que gay só curte Tecno, Bate-estaca, o que não é verdade.

Quando observamos os rapazes que freqüentam o ABC Bailão, percebemos que, sob o pretexto da música eletrônica, muitos deles se deixam embalar pela dança a dois durante as seleções de Forró, Bolero, Vanerão, Rock e Samba, oferecidas pela casa.

O Projeto Duco et Ducitur, vem possibilitar não apenas uma revisão metodológica do ensino da dança, mas a prática em locais reconhecidos, por meio da inserção destes casais nos espaços tradicionalmente direcionados à dança de salão, ensinando a linguagem corporal da dança contextualizada aos espaços onde ela de fato acontece.

UOO: Em outubro deste ano (2008), você inaugurou seu espaço de trabalho Núcleo Criativo Giovane Salmeron em São Paulo. Qual a proposta desse espaço, além da promoção da dança de salão naturalmente?
GS: 
Oferecer a possibilidade de aprendizado das Danças Sociais sob a perspectiva da Diversidade, ensinando homens e mulheres ambos os papéis condutivos na Dança, estimulando a troca de papéis e o desenvolvimento de novas movimentações baseadas naquelas já tradicionais. Além disso, realizar encontros, workshops, práticas e claro, propiciar a sociabilização dos alunos.

UOO: Além do trabalho no Núcleo Criativo, que outros projetos você vem desenvolvendo e que pretende encaminhar em 2009?
GS: 
Como disse, sou Personal Dancer (profissional contratado para dançar com aqueles que não possuem um par fixo ou querem treinar a linguagem da dança) e à cada dia tenho ampliada a minha gama de clientes e destinos, entre eles Rio de Janeiro, Vitória, Buenos Aires, Capital e interior, além de eventos e navios temáticos voltados ao público dançante. Ainda que apenas 01 deles seja homem, espero que outros parceiros surjam durante a minha trajetória.

Em 2009, pretendo oferecer no Núcleo Criativo, workshops, espaços para discussão sobre diversidade, dança e sociedade, projeção de filmes temáticos, debates e claro, muita prática de dança. Além disso, organizar o 2º Retiro de Dança e Consciência Corporal, repetindo o sucesso da primeira edição em 2007.

Além disso, à cada dia estimular mais e mais casais homoafetivos a desenvolver a técnica e o prazer pela dança a dois ou a duas.

UOO: Você declarou em artigo que os casais de mesmo sexo já vem sendo aceitos com mais naturalidade em espaços de dança de salão convencionais. Poderia citar alguns deles não só em São Paulo como em outras cidades?

GS: 
Naturalidade é a palavra que utilizei por fazer parte do grupo e ter muita firmeza em impor a minha presença nestes locais. Está claro que, em todos eles, no primeiro momento, há um impacto (muito mais freqüente quando dançam dois homens juntos), mas que, como costumo dizer, dura 05 minutos ou duas músicas (é o tempo que leva para aqueles que estavam no bar ou no banheiro retornar e reiniciar a discussão).

Em São Paulo, locais como as domingueiras do Clube Homs, organizadas pela figura simpática de Nayah, o Havana Club, o Café Vermont Itaim, o ABC Bailão, o União Fraterna, são locais onde já estive e claro, guardadas as proporções, superei os 05 minutos.

É difícil, não vou ocultar a verdade. Numa dessas casas, a mais badalada, onerosa e requintada, tentaram nos fazer parar e sair. Conversando com superiores, fomos convidados a permanecer e, infelizmente, a gerência da casa foi substituída. Utilizei-me, em email de agradecimento à Gerência Geral do estabelecimento, da lei Nº 10.948, DE 5 DE NOVEMBRO DE 2001 e por fim o funcionário foi demitido. Não era a minha intenção, mas de fato, não busco tolerância, busco respeito. Se tiver de ser assim, assim será.

UOO: Você conhece outros trabalhos análogos ao seu em outras cidades brasileiras que pudéssemos indicar?
GS: 
Sei que no nordeste, em especial Bahia, há muitos pesquisadores envolvidos com questões afins, mas não há ainda uma proposta que una pesquisa e metodologia numa única empreitada. Em São Paulo, há academias que se propõe à receber casais homossexuais em condições especiais, porém há sempre a questão de onde dançar depois do aprendizado.

A minha busca não está apenas no ensino, está na contextualização. Nós somos o “novo”, a “novidade” há muito tempo. Agora é hora de sermos apenas parte da realidade. Dentre os objetivos do Projeto Duco et Ducitur, estão as ações educativas direcionadas aos estabelecimentos voltados às Danças Sociais, para a recepção de casais homoafetivos e troca de papéis condutivos. Planejo para 2009 a distribuição de uma cartilha que versará sobre etiqueta na dança e respeito às paridades diferenciadas.

Quanto às iniciativas voltadas ao público LGBT, cito o Festival Internacional de Tango Queer, que acontece em Buenos Aires durante o segundo semestre (entre novembro e dezembro), que teve a sua segunda edição entre 01 e 07 de dezembro de 2008 e tem gerado uma série de outras ações não apenas na Capital Argentina, mas na Suécia, Austrália, Japão, Canadá, Reino Unido, Holanda e Estados Unidos. No Brasil, (ainda) não há repercussão, devido à resistência dos latino americanos a aderirem ao movimento. Na edição de 2007, apenas 01 latino americano (eu) figurava entre europeus, canadenses, japoneses e americanos.

UOO: Por fim, Giovane, deixe uma mensagem para nossas leitoras e leitores. E muito obrigada pela entrevista.
GS: 
Como mensagem, tenho em mente a imagem do encontro realizado junto a Um Outro Olhar no prédio da Ação Educativa, na Consolação, em 19 de agosto de 2006, quando mulheres de muitas cores, muitos anseios e muitos amores se reuniram para dançar, para extravasar, para viver. Espero encontrá-las em breve, para o despertar de novas possibilidades, de novos desafios e descobertas.

A Dança, enquanto prática social, nos dá a sensação de pertencimento e estabilidade de que tanto precisamos e merecemos.Pense nisso! Dançar não é o bastante. Tolerar não é o bastante. Amar o próximo, talvez o seja. Um forte abraço!



Cai proposição 8 que impedia casamentos LGBT na Califórnia

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012 0 comentários

Diane Olson, à esquerda, e Robin Tyler, à direita, são um dos casais
que entrou com apelação para derrubar a Proposição 8/AP photo
A famigerada proposição 8 que barrou os casamentos LGBT na Califórnia (EUA), em novembro de 2008, por meio de plebiscito (52% dos californianos a aprovaram), cinco meses após a Suprema Corte do estado ter legalizado as uniões entre pessoas do mesmo sexo, foi considerada inconstitucional por uma corte federal de apelação ontem, dia 07/02/12. Não se sabe, contudo, quando os casamentos serão retomados no estado, pois ainda pode haver outras disputas legais.

Para os casais LGBT que entraram com a apelação, embora a Constituição americana permita que os cidadãos criem leis que considerem desejáveis, torna-se imprescindível no mínimo mostrar uma razão legítima para a elaboração de um projeto que tenta tratar pessoas de forma diferenciada perante a lei. Segundo eles, a proposição nem deveria ter sido encaminhada.

Cerca de 18.000 casais LGBT já tinham casado oficialmente no intervalo entre a aprovação do casamento e sua suspensão pela chamada proposição 8. Como a retomada efetiva dos casamentos não parece estar num horizonte próximo, já há grupos de ativistas planejando iniciar coleta de assinaturas para novo plebiscito, em novembro, desta feita para repelir de vez a infame Proposição 8, agora combalida mas ainda não nocauteada.

Com informações da NBCNews

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