Autora: Míriam Martinho
Os ativistas do movimento LGBT que depositaram sua confiança no senso de justiça e modernidade de um governo de esquerda assistem perplexos ao descaso do executivo e do legislativo com nossas bandeiras, com nossas conquistas e à posição de protagonista do retrocesso que vimos assistindo. (Traídos,
Oswaldo Braga)
O trecho acima foi retirado do texto "Traídos", do ativista LGBT Oswaldo Braga dando conta de sua perplexidade, diante dos conluios do governo que elegeu com notórios inimigos dos direitos homossexuais, e do sentimento de que os LGBT foram traídos por ele.
Não duvido da sinceridade das declarações desse ativista, mas questiono, contudo, a base de seus sentimentos, considerando que o PT apresentou, nesses anos em que tem estado no poder, indícios incontestes de "volubilidade política", contradizendo bandeiras que pregou durante anos enquanto oposição, fora sua amizade com ditadores mundo afora, alguns deles, como o presidente do Irã, Ahmadinejad, notório assassino de homossexuais, sem falar nos Castro da pobre Cuba prisioneira.
Desde que chegou ao governo federal, o PT tirou sua máscara de partido da ética, de esquerda renovada, não autoritária, e iniciou um processo de desmanche das instituições democráticas brasileiras, sobretudo através da corrupção que espalhou por todo o tecido social do país. Também Dilma, durante as eleições de 2010, pelo projeto de poder do partido, foi mudando de ideias e abraçando evangélicos e católicos conservadores. De tal ordem foi seu compromisso com os "cons" que hoje tanto a Igreja quanto os evanjas dão broncas públicas na dita, quando algo em seu governo não lhes agrada, e ela bota o rabinho entre as pernas. Então, os ativistas LGBT não viram todo esse contexto antes para agora se sentirem traídos?
A população LGBT é uma das mais vulneráveis que existe. O preconceito que a atinge bem como os preconceitos contra as mulheres se sobrepõem às visões de mundo que, desde o século XVII, vêm moldando o mundo em que vivemos, a saber liberalismo, conservadorismo, socialismo. Esses preconceitos são milenares e advêm das religiões abraâmicas (judaísmo, cristianismo, islamismo). Nesse sentido, no máximo, podemos dizer que os conservadores, por serem em geral herdeiros diretos do pensamento dessas religiões (e os que são influenciados por eles), são de fato os nossos grandes inimigos.
Mas a esquerda, a quem o Oswaldo atribui senso de justiça e modernidade, há apenas 30 anos (equivalente a 3 anos de uma vida humana) também tratava os homossexuais na base do porrete, mandando-os para campos de reeducação (eufemismo para campos de concentração) dos quais muitos não saíram vivos, pois a homosssexualidade era considerada contrarrevolucionária, produto da decadência da burguesia. Mesmo em países socialistas que não desenvolveram políticas específicas contra homossexuais, a vida homossexual era ultrarrestrita porque o Estado totalitário, típico desses países, controlando todos os passos dos indivíduos, restringia inclusive a convivência e a coabitação entre pessoas de mesmo sexo.
Vamos lembrar que, aqui mesmo em nosso país, o incipiente Movimento Homossexual Brasileiro (MHB) teve problemas com essa esquerda, em seus primórdios em fins década de setenta, e as então integrantes do MR8, do sr. Franklin Martins, em 1981, tentaram inclusive impedir a participação das lésbicas no Congresso da Mulher Paulista pois, segundo elas, as lésbicas não seriam mulheres. Agora mesmo, na Rússia do sr. Putin, ex-membro da KGB, a polícia secreta da URSS comunista, retornam as restrições até ao direito de se falar de homossexualidade. A sombra do stalinismo ainda parece rondar a terra da vodka. Então, com um histórico desses, não é equivocado primeiro relacionar "governo de esquerda" com senso de justiça e modernidade? Segundo, tendo essa esquerda mudado de postura quanto aos homossexuais num prazo tão curto de tempo, pode ser considerada confiável? Parece que não, não é mesmo?
Por fim, os liberais, no Brasil uma pequena mas influente minoria. Se o pleito dos homossexuais for por direitos iguais perante a lei ou pelo direito de dispor de seu próprio corpo como bem entender, a maior parte dos liberais irá apoiá-lo. Entretanto, se os direitos homossexuais vierem atrelados, como têm estado no Brasil, a socialismos, comunismos, esquerdismos vários, obviamente o apoio não virá. Em geral, aliás, liberais são muito discretos sobre o assunto ou por não considerá-lo muito relevante ou por temer prejudicar alianças políticas que lhes são caras. É que, diante da ameaça "vermelha", os liberais "esquecem" as diferenças que têm com os conservadores (que com o passar do tempo incorporaram sobretudo o liberalismo econômico) e fecham aliança com eles na base do inimigo do meu inimigo é meu amigo.
Os conservadores, por sua vez, num misto de ignorância e má-fé, hoje batem no mantra de que os direitos homossexuais, o feminismo, entre outras demandas da modernidade, são fruto do marxismo cultural. Trata-se de enorme falácia, mas, como contestar tal bobagem, se esses movimentos estão no momento de fato infestados de marxistas entoando louvores a Cuba e organizando manifestações onde os direitos LGBT vêm misturados a uma suposta luta anticapitalista? No próximo 8 de março, por exemplo, Dia Internacional da Mulher, com certeza, "brilhantes" feministas socialistas estarão levando novamente essa bandeira em comemoração a uma data sobre a qual, só para variar, também mentem.
Resumo da ópera: LGBTês não têm aliados automáticos, incondicionais. Só têm alianças contingenciais, condicionais, que se alteram ao sabor dos movimentos que fazem nas peças do xadrez político e dos interesses dos grandes jogadores políticos. Daí a importância fundamental de não se atrelar o movimento LGBT (e outros) a qualquer partido em particular, sobretudo, a partidos que têm projetos de poder claramente antidemocráticos.
Ao contrário do que muitos afirmam, não foram as eleições de 2010 que marcaram a hora da virada dos conservadores, que estão em ascensão, mas sim um evento anterior a elas que funcionou como gota d'água para muita gente cansada dos descalabros do lulopetismo. Esse evento foi a assinatura do famigerado Programa Nacional dos Direitos Humanos III, por Lula e Dilma Roussef (então Ministra da Casa Civil), onde questões legítimas de direitos de homossexuais, negros e mulheres vieram misturados a projetos de censura à imprensa, relativização do direito de propriedade privada, desarmamento da população, entre outras pérolas da cantilena autoritária da esquerda viúva do Muro de Berlim.
Esse programa infame, que depois Dilma renegou mas permanece na pauta do PT e seus movimentos amestrados, funcionou como sinal de alerta para democratas e conservadores e levou, sobretudo, à reação conservadora exacerbada contra temas como o aborto e os direitos homossexuais nas eleições de 2010. No samba do conservador doido, todos esses temas estão intrinsecamente - e não extrinsecamente - ligados ao "socialismo/comunismo" e fazem parte de um plano para destruir a família e a cristandade (sic).
Mais do que outros grupos sociais, por sua vulnerabilidade, homossexuais devem investir pesadamente é na consolidação da democracia (de fato) representativa no Brasil, no Estado de Direito (igualdade perante a lei), onde se inclui a laicidade, na transparência, no fim da corrupção, na cidadania, nos direitos dos indivíduos contra os inimigos da liberdade. Apesar de suas limitações, a democracia constitucional permanece sendo o que de melhor a humanidade inventou para administrar a si mesma. Antes de seu advento, havia as trevas do feudalismo e da monarquia absolutista, dos quais descendem os atuais conservadores. Depois dela, as trevas dos regimes totalitários, fascismo, nazismo, comunismo (dos quais descende boa parte da dita esquerda), onde muitos homossexuais pereceram via campos de concentração e execuções sumárias.
Traídos de fato somos, por nós mesmos, quando deixamos de apoiar a democracia que busca a igualdade e a liberdade, apesar das dificuldades dessa luta, e nos deixamos levar pelo canto de sereia de utopias que o tempo já arquivou por distópicas, e que ninguém deveria - para o bem de todos - retirar de suas mofadas prateleiras.