Jogadoras de golbol americanas são casadas e lutam contra a homofobia

domingo, 18 de setembro de 2016

Casadas há 18 anos,  as jogadoras Asya e Jen são mães de Ryder Miller-Armbruster

Bronze no golbol, americanas são casadas e marcam posição contra a homofobia

O mundo pode ser um lugar inóspito para quem não enxerga (ou enxerga pouco) e é discriminado por isso e também por se apaixonar por uma pessoa do mesmo sexo. Mas as americanas Jen Armbruster, 41, e Asya Miller, 36, agarram esse emaranhado de problemas com a mesma firmeza com que pegam uma bola e arremessam para o outro lado da quadra.

Casadas desde 2007, Jen e Asya são jogadoras de golbol, esporte criado em 1946 para reabilitação de feridos de guerra, e representaram os Estados Unidos na Paraolimpíada do Rio. Jen é cega (perdeu a visão após sentir dores nos olhos aos 14 anos e até hoje não sabe a causa), já disputou sete vezes os Jogos e ganhou quatro medalhas (uma de ouro, duas de prata e agora duas de bronze), assim como sua companheira, que tem visão parcial (tem a doença de Stargardt, que causa degeneração de parte da retina) e participou de duas edições a menos do evento.

As americanas venceram o Brasil na disputa pelo bronze na sexta-feira (16) por 3 a 2. Os três gols dos Estados Unidos foram marcados por Jen.

As jogadoras são mães de Ryder Miller-Armbruster, 5, criado desde seu nascimento em Portland, cidade norte-americana conhecida por ser um reduto liberal. Na cabeça do casal, a cidade é um contraponto a Michigan, terra natal de Asya.
Existem leis em Michigan segundo as quais médicos poderiam negar tratamento de saúde ao meu filho. Eu não quero viver em um lugar assim com a minha família. As apólices de seguro não reconhecem casais do mesmo sexo, então não podemos compartilhar benefícios. Mesmo tendo familiares em Michigan, não gostaríamos de viver assim", diz Jen.
Em Portland, ela diz que nunca passaram por algum episódio de discriminação. 
Lá, nossa relação não é surpreendente ou nova. É algo esperado até. Além disso, como a Asya me guia, muitas pessoas não nos veem como um casal."
As duas se conheceram há 18 anos, como rivais em partidas de golbol, e já presenciaram episódios explícitos de discriminação em vestiários –que, segundo elas, não existem na seleção americana.
Muitas atletas são lésbicas, não é nada demais. No entanto, quando éramos mais novas, vivemos episódios em que companheiras de time não eram reconhecidas por suas orientações sexuais. Eram chamadas de 'aquelas pessoas', eram tratadas como se não existissem, ninguém perguntava de seus companheiros em conversas sobre relacionamentos", diz Asya.
Em quadra, existem duas facetas de Jen e Asya. Por um lado, são referências profissionais para as gerações mais jovens.
Sabemos que somos modelos para atletas mais jovens, mas apenas agimos da maneira que somos. Encorajamos as mais novas em suas dificuldades, sobre os conflitos que algumas têm em se posicionar publicamente sobre suas orientações sexuais e a coragem que devem ter nesse momento, e os pais delas nos procuram, confiam em nós. Temos orgulho de romper barreiras e apoiamos as demais a buscarem respeito. De maneira geral, todos nos aceitam muito bem", conta Jen, que também é companheira de Asya em passeatas em defesa dos direitos dos homossexuais - "na faculdade, eu participava mais do movimento, mas continuo marcando presença em eventos sempre que posso", diz a mais jovem do casal.
Por outro lado, elas encontram brechas na postura rígida de atletas profissionais e se permitem alguns tratamentos mais ternos em quadra.
Somos profissionais, mas também tomamos a liberdade de usar alguns incentivos mais carinhosos ou mesmo apelidos. Quando ela arremessa, às vezes eu grito 'boa jogada, querida' ou "é isso aí, Boo'. É algo natural", diz Jen, concordando que a afinidade entre ambas pode ajudar na orientação durante os jogos.
A Asya é mais musical, se agita antes dos jogos, anda de um lado para o outro do vestiário, conversa. No vestiário, eu prefiro ficar quieta, em silêncio, para me concentrar. Cada um tem um jeito", acrescenta. Seu pai, Kenneth Armbruster, é militar, carreira que Jen planejava seguir. No entanto, o projeto foi invertido, e hoje ele é o treinador de golbol da filha.
Sobre o Brasil e sua torcida, que enfrentaram duas vezes ao longo do torneio –uma na primeira fase e outra na disputa pelo bronze–, elas também lamentam o barulho feito durante as partidas. Na terça-feira (13), um atleta iraniano do futebol de cinco pediu silêncio à torcida e foi vaiado.
Do ponto de vista da acessibilidade, não temos do que nos queixar. Sempre há algum funcionário disponível para ajudar em espaços de locomoção mais difícil. Sobre os brasileiros, eles são muito apaixonados e é muito difícil para eles fazer silêncio. Às vezes, não há nenhum lance importante acontecendo e a torcida vibra muito, o que nos confunde um pouco, porque então perdemos noção de onde está a bola exatamente", explica Jen. No esporte, há um guizo no interior da bola para emitir sons que servem de referência aos atletas.
Retornando a Portland em breve, Jen e Asya já têm uma lista de hobbies para retomar. A primeira gosta de esquiar, escalar montanhas, andar de bicicleta e ler, enquanto a segunda prefere cozinhar e cuidar do jardim. Antes disso tudo, querem passar um tempo brincando com Ryder.

Fonte: FSP, Guilherme Seto, 17/09/2016

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