Retrospectiva 2014: Na eterna disputa entre conservadores e socialistas, desta vez, Jean Wyllys ganhou a parada

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Jean Wyllys e Rodrigo Constantino














No artigo abaixo de O GLOBO (07/03/2014), o deputado federal do PSOL, Jean Wyllys, contestou apropriadamente o texto Tudo pela Narrativa do economista Rodrigo Constantino, também atual colunista da VEJA e recém-convertido ao conservadorismo. No citado texto, Constantino, apelidado por outros liberais (de verdade) de neoconstantino ou neoconservantino, exercita mais uma vez sua cisma com os movimentos sociais em geral, misturando, como de praxe fazem os conservadores, alhos com bugalhos e inclusive mentindo descaradamente.

Nunca houve silêncio ensurdecedor do movimento LGBT sobre a homofobia na África nem do movimento feminista sobre a situação das mulheres nos países islâmicos. Também é fato que a homofobia estatal que hoje predomina no continente africano se origina da expansão do fundamentalismo evangélico na região. E contra fatos não há argumentos.

Wyllys também costuma às vezes tentar encaixar a realidade em sua moldura ideológica (vide sua declaração infame de que os médicos cubanos trazidos ao Brasil não estão em situação de semi-escravidão), mas na resposta ao, também muitas vezes cego pela ideologia, sr. Constantino, desta vez, saiu-se melhor. E se saiu melhor exatamente porque se pautou pelos fatos em sua resposta. O movimento gay não é de esquerda nem de direita, nem os direitos humanos, nem os homossexuais. Há gays e lésbicas (e heterossexuais) de todas as ideologias, religiões, cores, etc. Felizmente, diga-se de passagem.

Míriam Martinho

Desonestidade intelectual
O movimento gay não é de esquerda nem de direita, nem os direitos humanos, nem os homossexuais. Há gays e lésbicas (e heterossexuais) de todas as ideologias, religiões, cores

Jean Wyllys

Em espaço no GLOBO, um colunista que diz que o caviar é de esquerda afirmou que o movimento gay não fala da lei homofóbica de Uganda. Lembremos: ela impõe pena de prisão perpétua para quem “introduzir o pênis no ânus ou na boca de outra pessoa do mesmo sexo” e também condena os heterossexuais que tiverem um conhecido gay e não o denunciarem. Segundo ele, isso ocorre porque o movimento gay é de esquerda e a esquerda não critica os africanos (?!).

O bizarro raciocínio é que “condenar os africanos pela homofobia não ajuda na narrativa de minorias vítimas do ‘imperialista’ branco do Ocidente”, já que a homofobia seria um traço cultural desses povos (?!); e criticá-la iria contra o multiculturalismo, que ele associa à esquerda e opõe ao liberalismo e, portanto, aos gays.

O colunista diz ainda que não me pronunciei sobre a lei de Uganda e acrescenta que as feministas não denunciam a opressão contra as mulheres nos países islâmicos, já que os multiculturalistas “defendem atrocidades em culturas diferentes para negar a superioridade ocidental”, e que, para nós (gays, multiculturalistas, esquerdistas, tudo junto e misturado), toda narrativa deve servir para “pintar o homem branco judeu ou cristão como o maior vilão”.

São tantos equívocos juntos que dá preguiça responder, mas vamos lá:

1 - O movimento gay não é de esquerda nem de direita, nem os direitos humanos, nem os homossexuais. Há gays e lésbicas (e heterossexuais) de todas as ideologias, religiões, cores e preferências musicais; e existem, no mundo inteiro, movimentos LGBT com as mais diversas identidades políticas;

2 - Desde que o projeto de lei do deputado ugandense David Bahati começou a ser tramitado, em 2009, organizações LGBT do mundo inteiro vêm realizando uma campanha internacional para denunciá-lo, e, desde que a lei foi promulgada pelo presidente Museveni, essa campanha se intensificou. Por exemplo, a organização All Out já recolheu mais de 300 mil assinaturas contra a lei;

3 - Claro que já me pronunciei sobre o assunto! Como me pronunciei também no caso da lei homofóbica russa, aliás;

4 - A lei de Uganda, como outras dos 38 países da África que criminalizam a homossexualidade, não provém de nenhum traço cultural africano, mas da herança colonial (a primeira norma antigay de Uganda copiava o artigo 377 do Código Penal da Índia, introduzido pelo Império Britânico: foram os britânicos que levaram as leis “antissodomia” às colônias) e, mais recentemente, da ação das igrejas evangélicas fundamentalistas dos EUA, que investem milhões de dólares para espalhar a homofobia na África e financiar as campanhas dos políticos homofóbicos (assistam ao documentário “God loves Uganda!”). E até onde sabemos, o império britânico e as igrejas evangélicas americanas fazem parte do Ocidente.

5 - Claro que muitos ativistas gays e feministas, eu inclusive, denunciamos a opressão contra mulheres e homossexuais nos regimes islâmicos! Isso não tem nada a ver com esquerda e direita! Será que o colunista pensa que a ditadura iraniana é socialista?;

6 - Já que o colunista diz que nós (gays, multiculturalistas e esquerdistas) somos contra o “homem branco judeu” (?!), recomendo-lhe ler minha última coluna na revista “Carta Capital”, onde falo do antissemitismo e da homofobia do chavismo — porque o preconceito também não é de esquerda nem de direita.

Mas a desonestidade intelectual virou tática desse colunista.

Fonte: O Globo, 07/03/2014

Publicado originalmente em 10/03/14

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