Atriz Mariana Ximenes defende casamento LGBT em entrevista

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Foto: Paulo Giandalia/Estadão
Mariana Ximenes, 32, defendeu o casamento entre pessoas do mesmo sexo e se colocou contra os homofóbicos em entrevista para o blog de Sonia Racy no Estadão (28/10/2013). A atriz, que vive um tórrido romance com Leandra Leal em O Uivo da Gaita, declarou sobre o tema: 
Acho que as pessoas preconceituosas quanto ao casamento gay, por exemplo, deveriam se perguntar: “E se meu filho fosse gay? E se minha filha fosse lésbica? Como eu reagiria?”. Você vai deixar de dar amor, de dar afeto a eles por causa disso? Não acredito nessa possibilidade. Acredito, sim, que tem de ter discussão, aceitação, pensar no amor antes de tudo.
Segue a entrevista na íntegra.

‘Sempre fui muito intensa. Agora, estou mais no caminho da leveza’
Aos 32 anos, a atriz procura ajustar o foco com ajuda da meditação e da ioga. Ficou mais seletiva no que faz, mas continua preocupada com política e questões sociais.

No ar em Joia Rara– nova novela das 6 da Globo –, Mariana Ximenes descreve a si mesma como uma pessoa otimista e de alto astral. “Entendi que o humor transforma tudo nessa vida”, diz a paulistana, de 32 anos. Truque que aprendeu com a experiência de lidar com o sucesso desde cedo. Reservada, a atriz tem fama de workaholic. Mas diz que está em busca de uma fase mais leve – e seletiva. “Entendi, com o passar dos anos, que é preciso ter tempo. Tempo, silêncio e leveza. ” Para aguentar o tranco, faz análise, pratica ioga e meditação nas horas vagas. E um exercício diário: tentar ser mais tolerante.

Na telinha, Mariana interpreta agora a vedete Aurora Lincoln, “uma personagem solar e ambiciosa” que, na trama, terá um romance com um paraplégico, interpretado pelo paraibano Leandro Lima. “Estudei muito o assunto e vi o quanto é possível esse amor”, conta a bela, conhecida por seu engajamento político e sua atuação em causas sociais. Na telona, vive um tórrido romance com Leandra Leal em O Uivo da Gaita. “É preciso pensar no amor antes de tudo”, diz, defendendo o casamento gay. 

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Você começou a fazer novela muito cedo. Ficar famosa logo foi complicado? 

Fiz Fascinação no SBT aos 16 anos, mas minha primeira novela na Globo foi Andando nas Nuvens, em que interpretava uma freirinha. Fui morar sozinha, no Rio, com 17 anos. Lidar com assédio acabou sendo uma consequência do reconhecimento do meu trabalho. Nunca elaborei uma teoria sobre isso, simplesmente aconteceu e eu fui aprendendo a lidar na prática mesmo. Geralmente, atendo as pessoas, não me incomodo. A não ser que alguém seja muito inconveniente.

E já aconteceu de alguém passar do limite com você?

Já, sim! Na vida, você tem de aprender a se colocar, com delicadeza, educação e respeito. Ultimamente, tenho aprendido ainda mais a me colocar, para não me violar. Respeitando o limite do outro, mas, principalmente, o meu. É curioso: só com o tempo você aprende a respeitar seus limites.

Você é conhecida por ser uma pessoa reservada.

É genuíno, não é questão de estratégia. Não sou uma estrategista (risos). Tento não me privar, até porque meu material de trabalho é o material humano, é observar os diferentes comportamentos humanos.

Quem trabalha com você costuma dizer que é perfeccionista e workaholic. Verdade?

Pois é, estou em uma fase um pouco mais leve. Procurando ser mais seletiva, tanto no que diz respeito ao trabalho quanto às coisas que quero fazer. Sempre fui muito cheia de energia. Ainda sou, mas estou procurando e escolhendo canalizar essa energia para algo que realmente queira fazer, tanto no campo profissional quanto no campo pessoal. Entendi, com o passar dos anos, que é preciso ter tempo. Tempo, silêncio e leveza. Sempre fui muito intensa, agora estou mais no caminho.

Além de atuar em TV, teatro e cinema, você já produziu uma peça de teatro. Como foi?

Estou descobrindo esse outro lado. Sou produtora associada do filme Um Homem Só. É uma experiência reveladora, você acompanha todo o processo, passa a entender as etapas para chegar ao produto final. O processo criativo me fascina, mais até do que o resultado. Estou muito interessada no processo e no ser das pessoas, o que elas fazem para sua espiritualidade. E estou cada vez mais entrando em conexão comigo mesma. Não sei se é a idade, mas estou me apropriando da minha consciência.

Faz análise?

Faço. A ioga e a meditação também me ajudam muito. Outra coisa que vem muito do que tenho pensado é a tolerância. Fui às bodas de ouro da Glória Menezes e do Tarcísio Meira e fiquei muito comovida. Pensei: “Esses dois fizeram a história do cinema, da TV e do teatro brasileiros e estão juntos há 50 anos”. E o que eles falaram um para o outro foi tão comovente que me questionei: “Será que a nossa geração vai conseguir? Será que a gente vai ter tolerância para isso?”.

Em um mundo cada vez mais individualista…

Efêmero, que não discute, não tem diálogo de crise. Acho que essa nossa geração tem de pensar em tolerância, nos valores. É claro que a Glória e o Tarcísio passaram por crises, só que o amor prevaleceu. Mas o que é o amor? Como a gente lida com ele hoje em dia? Fiquei muito reflexiva com relação a isso. 

Os atores têm fama de relações instáveis. Concorda?

As pessoas olham os artistas como pessoas que não têm solidez nas relações. E aí eu falo: “Olha só a Glória e o Tarcísio”. Existe solidez, sim.

Quer casar de novo?

Sim, claro. E ter filhos, exercitar minha tolerância. Quero poder observar, ter leveza, calma e tempo para entender melhor nossa existência. Até por isso estou mais recolhida.

Tem religião?

Não. Tenho fé e estou buscando minha espiritualidade.

É vaidosa?

Dentro de um limite saudável. Sou mulher, então, de alguma maneira, a gente tem de se cuidar um pouco, até por questão de higiene e saúde. Mas não sou doente em relação a isso. Como sou atriz, tenho de estar bem sempre para a personagem – pintar o cabelo, estar com as unhas em ordem. Mas, quando estou de férias, evito até fazer as unhas. (risos)

Sua personagem na novela Joia Rara é uma vilã?

Não diria que é uma vilã. Ela é tinhosa, tem humor, é egocêntrica. Veio de Paris atrás de uma fortuna. E a Aurora (Lincoln) gosta de joias, é bem ambiciosa. Além de cantar e dançar.

Quais foram suas referências para montar a personagem?

A Ute Lemper (cantora, bailarina e atriz alemã), que é uma performer – visceral, potente quando canta e quando interpreta. Gosto muito do vídeo dela cantando Kurt Weill (compositor alemão), vi muitas vezes e me inspirou. A Aurora é sensual e usa essa sensualidade a seu favor. Ao mesmo tempo, vai viver um romance com um paraplégico, ou seja, tem um lado humano. Aliás, uma coisa bem legal na novela é abordar esse romance: uma pessoa extremamente ativa, que canta e dança, e uma pessoa que não consegue andar. Conversei com muitos casais, fiz uma pesquisa extensa e entendi que esse amor é possível. Ele tem o foco e ela, a vontade. É essa alquimia que quero descobrir nesses personagens. Conversei muito com o Marcelo Yuka (ex-baterista da banda O Rappa, ficou paraplégico em um assalto no Rio, em 2000).

Você protagonizou cenas quentes com Leandra Leal em O Uivo da Gaita. Como foi fazer o filme no momento em que o País discute homofobia e casamento gay?

Nossa, é triste. Acho que as pessoas preconceituosas quanto ao casamento gay, por exemplo, deveriam se perguntar: “E se meu filho fosse gay? E se minha filha fosse lésbica? Como eu reagiria?”. Você vai deixar de dar amor, de dar afeto a eles por causa disso? Não acredito nessa possibilidade. Acredito, sim, que tem de ter discussão, aceitação, pensar no amor antes de tudo.

Participou de alguma das manifestações que tomaram o País?

Na época (em junho, no auge dos protestos), estava em Portugal, representando o filme Os Penetras no festival de cinema de lá. Mas passei na manifestação dos professores no Rio. Estou inconformada com o que fizeram com os professores – gás lacrimogêneo, tiro de bala de borracha. Eles são educadores, formadores dos futuros cidadãos do Brasil. Não podem ser tratado dessa maneira, como criminosos.

Você é uma pessoa engajada em projetos sociais. Está envolvida em algum agora?

Tento sempre fazer parte de alguma maneira. Já participei muito do AfroReggae, da Cufa (Central Única das Favelas), do MV Bill (famoso rapper, escritor, ator, cineasta e ativista carioca).

Mantém contato com o José Júnior, do AfroReggae?

Faz tempo que não falo com ele. É impressionante o que aconteceu, fiquei chocada. Estive com o MV Bill há pouco tempo, fico feliz que ainda existam pessoas como ele, como o Celso Athayde (famoso escritor e produtor de hip hop, nascido na Baixada Fluminense), como o Júnior. São pessoas que tiveram iniciativa. Não estou tão profundamente dentro disso para poder defender alguém, quero deixar bem claro isso. Mas, de alguma maneira, são iniciativas que levam perspectiva para o jovem da favela, que permitem acesso.

Você é a favor da vinda dos médicos cubanos para o Brasil?

Meu irmão é médico, então eu vejo o tamanho da dedicação de um médico no Brasil. Pude observar muito de perto o que é a formação de um médico. E o País precisa, sim!

Já fez ou tem vontade de fazer campanha política?

Não, nunca. Tenho meus candidatos.

E revela?

Não, porque acho que o voto é secreto mesmo. Mas tenho minha posição.

Acha que a aliança Marina-Campos representa uma nova forma de fazer política – como a dupla tem propalado?

Quem sabe? Gosto muito da Marina, ela é forte, dedicada, devota. Também gosto muito do discurso dela. Quem sabe? Mas vamos esperar um pouquinho para dizer, a aliança acabou de acontecer, né?

Você é ligada em política?

Megaligada. Tenho alguns amigos no meio, como o (deputado federal do PSOL) Jean Wyllys, a (deputada federal do PCdoB) Manuela D’Ávila, Jorge Bastos Moreno (jornalista de O Globo). Fazemos encontros na casa deles para entender o panorama político atual. A gente tem de exercer nossa cidadania. É difícil? É. Não dá para saber quem é o vilão e quem é o mocinho – nem sei se existe vilão e mocinho. Existe tudo. Então, tomar partido de alguém é muito delicado. Meu pai é advogado e me ensinou isso: a gente precisa estar sempre atenta ao que está acontecendo, sempre lendo o jornal, sempre. Aliás, gosto do jornal físico, gosto de pegar. Até tenho tablet, mas…

Qual sua opinião sobre o uso das redes sociais?

Então, essa é uma questão. Não tenho Instagram, Twitter ou Facebook. Mas estou fazendo minhas páginas oficiais, porque há vários perfis falsos na rede. As pessoas estão seguindo esses perfis como se fossem meus.

É difícil manter duas vidas, uma real e uma online?

Eu vi o quanto é importante ter essa vida virtual. Para você se colocar, sabe? Para as pessoas saberem realmente o que estou pensando. Em breve, estarei lançando as minhas plataformas.

Você tem algum sonho que ainda não realizou?

Vários. Acho que a gente vive, se alimenta de sonhos, de metas. Ter metas é fundamental. Mas também gosto de deixar o acaso me surpreender. Gosto de viver o agora, estar inteira, permanecer na minha inteireza da vida. Tem um pensamento que eu adoro e diz: “Não suporto meios-termos, por isso não me doo pela metade. Não sou só meio amigo, nem seu quase amor. Ou sou tudo, ou sou nada. Sabe o que eu quero de verdade? Jamais perder a sensibilidade, mesmo que, às vezes, ela arranhe um pouco a alma. Porque, sem ela, não poderia sentir a mim mesma”. /SOFIA PATSCH

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