Diálogo para o entendimento

domingo, 5 de agosto de 2012

Tenha um ouvido amigo para sua amada
Talvez mais difícil do que encontrar a princesa encantada seja nos entender com ela. Depois de um tempo que nos parece infinito percorrendo bares, boates (até aquele som alto e música bate estaca você aturou para encontrar a sua bela), teclando nos chats e frequentando a feirinha da Praça Benedito Calixto aos sábados (se você ainda não foi, e está sem princesa encantada, agarre essa dica), você finalmente encontra sua cara metade para viver com ela felizes para todo o sempre. 

Como já se disse aqui, os romances de amor estampam o the end imediatamente após o happy end por bons motivos. Não vá o happy end espichar demais e por descuido revelar o que vem depois do the end! Porque, então, pode ser tarde demais: o público há de descobrir com horror e espanto que o que vem a seguir não é só lua de mel, tesão e felicidade, mas também uma certa dose de passio (de onde vem palavra paixão) que é sofrimento. 

Não é um sofrimento amargo, infeliz, mas é um sofrimento. Falo aqui da adaptação. Passados os primeiros momentos de enlevo e encantamento, aquelas semanas de paixão acelerada, olhos brilhando, suor nas mãos e muita taquicardia, quando o casal começa a se acomodar enquanto casal, aí sim se inicia o verdadeiro relacionamento, a possibilidade das enamoradas criarem um mundo e uma vida para si mesmas. E é aqui que a porca torce o rabo e a coisa pega. Muitas vezes é aqui, onde começa o relacionamento, que muito namoro vai pro brejo. Conheci uma mulher fascinante que tinha namoros arrebatados, vivia intensamente a paixão e, depois de 3 meses, todo aquele frenesi amoroso se esvaía pelo ar e acabava o namoro. Não raro nem a amizade ficava. 

Por quê? Porque mais difícil do que encontrar a princesa encantada é nos entendermos com ela. Você já deve ter ouvido comentários desse tipo: F. é divertida e engraçada, mas quando está com a namorada muda. Ou este outro comentário que alguém faz da própria namorada: Impossível conversar com ela, não dá. 

A base do entendimento é o diálogo, um princípio da diplomacia que deveria ser estendido a todas as relações, principalmente as amorosas. Infelizmente, há duas coisas que não nos ensinam nos bancos escolares: relacionamento amoroso (só aquelas aulas de biologia com mitose e meiose pelo meio) e parental abilities (habilidades a adquirir para o exercício da paternidade e maternidade), que começa a ser uma disciplina nos Estados Unidos, mas que ainda não chegou por estas bandas. 

Entendimento e diálogo, lamentavelmente, exigem paciência e tolerância. Uma pena que paciência seja uma condição sine qua non, porque pedir paciência já é demais para quem quase a perdeu na busca da amada. Observe. Quantas vezes a namorada traz um problema e sua cara metade mal a ouve e já lhe sapeca uma solução prática, rápida, segura e, mais importante do que nunca, eficaz para fazer com que a outra feche a boca, cale aquele problema e mude para um assunto mais agradável? Se ela volta a tocar naquela tecla, o que fazemos? Repetimos o refrão com ar de mestra cansada: “já não lhe disse que é para fazer isso e aquilo?” E nos admiramos quando ela não segue nossa sugestão. E se a amada cai na asneira de contar suas desventuras a uma terceira pessoa na nossa frente, quantas de nós não dizemos: “já falei como resolver! Ela só se queixa e não faz nada do que eu disse. Não sei porque então me pede ajuda!” 

Onde está o entendimento? Não está, porque ou falta paciência, ou falta amor para ouvir os lamentos, queixas da amada em relação ao trabalho, família etc. O que fazemos é encerrar a sessão de lamúrias e queixumes com uma solução qualquer que tem por objetivo não tanto ajudar a amada, mas nos poupar de ouvir seus problemas. Desafortunadamente, não há soluções prêt-à-porter, prontas como roupas nos cabides. Você diz o seu número e a cor desejada e, záz, eis a solução para seu problema. 

Somos complexas e as soluções também o são. Cada pessoa tem uma cara, um estilo, uma forma de encarar a vida e vivê-la. O que serve para Maria não serve para Zélia. As únicas soluções razoavelmente boas são aquelas sob medida. Assim, quando sua namorada começar a falar de seus problemas, não lhe proponha uma solução que serve para você. Dificilmente servirá para ela, terá a cara dela e o estilo dela. 

Ouça. A maior parte das vezes, o que as pessoas e, namoradas principalmente, querem e precisam é de um ouvido amigo. Alguém que as ouça tantas vezes elas tenham necessidade de falar, queixar-se, reclamar. Geralmente, de tanto falar, começam a entender melhor o problema e sua dinâmica, e hão de descobrir, por si mesmas e a seu modo, a melhor saída. Que é a saída do jeito delas e não do seu ou do meu jeito. 

Saber ouvir é um passo importante para transformar uma grande paixão num grande amor.

Stella C. Ferraz é autora dos romances lésbicos Preciso te ver, A Vilas das Meninas e Pássaro Rebelde, publicados pela ed. Brasiliense.
Publicado originalmente no site Um Outro Olhar em 18/07/04

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