Movimento LGBT brasileiro: um movimento de uma nota só (Dó Menor)

terça-feira, 12 de junho de 2012

Movimento LGBT brasileiro: um movimento de uma nota só (Dó Menor)

Por Míriam Martinho

Respondi a um colega da listagls sobre o debate a respeito da entrevista do Jean Wyllys, no Entre Aspas, onde o deputado afirmou que o movimento LGBT brasileiro continua insistindo na pauta da criminalização da homofobia em vez de apoiar a pauta do casamento civil igualitário, uma pauta muito mais propositiva, afirmadora de direitosDisse esse colega: "Miriam, quando eu falo que o movimento mudou no mundo inteiro menos aqui, quase sou chicoteado!" 

Dei uma resposta longa o suficiente para virar uma postagem, por isso a transcrevo aqui no site da Um Outro Olhar. Segue com algumas edições adicionais mais apropriadas a um post.
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Phill,

A entrevista da Samantha e do Jean, no que diz respeito à pauta positiva e negativa do movimento LGBT, foi muito boa. Foram direto ao ponto. O atual movimento é um movimento de uma nota só e uma nota em tom menor, sempre negativa e reativa. Estão viciados na negatividade. Há séculos que a única bandeira desse pseudomovimento é a luta contra a homofobia. E diga-se de passagem por uma única via.
 
Os paladinos da luta contra a homofobia precisam explicar seu quase total desinteresse pela reforma do código penal, onde, quem sabe com mais estudo, poderia até ter se tipificado a homofobia como crime (agressão, homicídio) em si mesmo não como simples agravante, independente da aprovação da proposta no Senado. Politicamente seria um avanço de qualquer forma. De repente, talvez não tenham se interessado porque, se houvesse real possibilidade de sucesso dessa empreitada, ficariam sem a velha e rota bandeira em torno da qual tentam criar um cipoal jurídico e burocrático para complicar a vida de todos (inclusive dos LGBT).

Para conseguir algum direito real para a população LGBT, foi preciso que ativistas mais à margem do movimento recorressem ao STF em busca de apoio. E contaram a princípio com a oposição do movimento de uma nota só à sua iniciativa. Não fosse por essa ação, nem sequer o direito à união estável teria sido obtido, ainda que falte uma lei correspondente para sua plena efetividade.

Aliás, em mais um exemplo da pauta negativa desse pseudomovimento, enquanto o Jean Wyllys   lançava a campanha pelo casamento igualitário, o dito movimento de uma nota só (Dó menor) estava mais preocupado em forjar acusações grotescas e vigaristas contra o famigerado Malafaia, em pedir boicote a todos os livros do dito. Todas ações negativas e infrutíferas.

Todo o movimento social busca derrubar leis discriminatórias e propor leis que assegurem direitos a seus "representados". O movimento brasileiro deve ser o único no mundo cuja única preocupação é restringir direitos alheios. Como disse a constitucionalista Samantha Meyer: "- Ninguém gosta de ter seus direitos restringidos por parte do Estado. Isso se mostra de certa forma muito opressor. A gente nunca pode duvidar do poder opressor do Estado. E nós estamos num Estado democrático de direito."

O atual movimento parece aqueles machões autoritários que querem impor sua vontade à sociedade, pela intimidação e pelo constrangimento, em vez de bancar o Don Juan que consegue o que quer com o poder da astúcia e da sedução. Pautas positivas, como a do casamento igualitário, não tiram direitos de ninguém, buscam direitos para uma parcela da população. E dar em vez de tirar sempre terá muito menos oposição. A pauta do casamento igualitário agrega, soma e tem um alcance muito maior, no contexto atual, do que simplesmente oficializar o casamento entre homossexuais. Fala de amor (linguagem universal), fala de direitos iguais (esteio de qualquer democracia), fala da separação imprescindível entre religião e estado. Restringe a munição dos conservadores que ficam com apenas uma bala: a dos dogmas religiosos que definem casamento só como entre homem e mulher. Como o casamento igualitário é uma pauta da área civil, eis que eles não têm como ser contra a proposta sem parecer avessos à laicidade, sem demonstrar que estão querendo meter assuntos religiosos onde eles não cabem.

A pauta do "contra a homofobia" vai em direção oposta, principalmente da forma que vem sendo levada, agregada  ao fascistóide politicamente correto. Ela restringe direitos (independente do acerto ou não dessas restrições), ela antagoniza a sociedade, ela cria muito mais hostilidade do que apoio aos direitos homossexuais. Ela dá força ao discurso conservador que amplia sua influência muito além de seu círculo mais próximo, pois fala em cercear o direito à livre expressão, quer se meter nas relações entre empregadores e empregados e por aí vai. Mexe com a vida de meio mundo, e ninguém quer ver seus direitos restringidos, como bem disse a advogada.

O Wyllys está coberto de razão no que disse não tanto no sentido de deixar a bandeira do "contra a homofobia de lado" (tenho certeza que não foi bem isso que quis dizer) mas sim no de priorizar uma pauta que tenha mais chances de passar uma imagem positiva do ativismo e de ampliar os direitos LGBT. O movimento está em franca retração. Não é possível que as pessoas estejam tão cegas que não percebam a imperiosa necessidade de mudar o disco nem que seja estrategicamente.

Movimento social não é para neguinho e neguinha vir desopilar a bílis nem para aprovar teses. A bílis a gente desopila na terapia, na pista, na sauna, no darkroom, e tese a gente aprova na academia. O movimento de uma nota só caminha para se tornar kamikase, se continuar na velha ladainha.

Pude constatar com meus próprios olhos que a Parada de São Paulo já teve sim pelo menos um milhão de pessoas em algumas de suas edições. Agora, só 270 mil!!?? 

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