Os versos lesbianos de Manuela Amaral

terça-feira, 1 de maio de 2012


Manuela Amaral
Manuela Amaral (1934-1995) é uma poetisa portuguesa contemporânea cuja obra é marcada pela temática do amor entre mulheres. Quando publicamos a primeira edição das poesias que seguem abaixo, em meados de 2008, havia poucos dados online sobre ela.

Hoje há um pouco mais, contudo, preferimos deixar como referência o site Manuela Amaral In Memoriam de uma leitora, Tergon, que diz ter conhecido a poeta pessoalmente. Suas poesias são eróticas e belas.  Confira abaixo.


MODELAGEM
Moldei meu corpo
à tua forma nua
e de nós duas
nasceram madrugadas

AMOR GEOMÉTRICO
Angulosamente ternas
goticamente nuas
somos a geometria do amor.

TERRA VIRGEM
Terra virgem onde desbravei caminhos
Terra aberta onde lancei sementes
Terra incendiada
Vulcão
Cratera
Terra-de-hoje
Símbolo de outras eras
Terra de ninguém que me pertence.

APOGEU
Mulher em minha cama
Mulher quase animal
Mulher que se transborda
que me sobra
e chega
Mulher deitada no meu corpo insónia.

MULHER DE MIM
Mulher secreta
direita ao meu encontro
Meu espasmo de infinito
Meu canto
quase grito
Mulher só-minha
inventada em espanto

PARA ALÉM DO AMOR
E muito mais importante do que o nosso orgasmo
é a ternura-depois
o ficarmos abraçadas
o não dizermos nada
o tomarmos um uísque
às cinco da manhã.

ACTO CRIADOR
Com gestos pagãos
dou forma-mulher
à tua estatura
e faço escultura
ao longo das mãos

Num golpe de mestre
renasço-te virgem
em obra criada
Já não és mulher
És só o fluido
que escorre de mim
ideia
vertigem
Depois uma fúria qualquer
começa a alastrar-se
em todo o teu corpo
Um vento selvagem
possui os teus braços
as pernas
o ventre
Um grito demente
percorre-te a voz
E és volúpia
o espaço
e a noite

POEMA VERTICAL
Abrimos os corpos. Rasgámos silêncios.
Na mesma vertigem nós fomos o espaço
Nós fomos a sede
Nós fomos a fonte
Abrimos distâncias. E tudo inventámos.
A vida e a morte num gesto de febre
subiam em compasso
em tempo de espera
 E a luta
 E a raiva
 Nas nossa artérias um sangue mais quente
 e o teu movimento em ritmo louco
 E a minha renuncia de não ser mais eu.
 De ser o teu corpo. De ser a tua carne
 Baloiço de membros
 de pernas e braços
 Mulher que eu embalo
 que guardo em meu ventre
 que bebe de mim
 a quem eu me dou
 de quem me alimento
 Mulher incarnada
 na minha loucura
 Um grito. Uma pausa. Um gesto mais lento.
 E a vida a esvair-se
 num estertor da morte
 Depois o cansaço no espasmo da noite
 E nós renascidas
 E livres no tempo.

AUTO DE FÉ
Não me
arrependo dos amores que tive
dos corpos de mulher por quem passei
a todos fui fiel
a todos eu amei

Não me arrependo dos dias e das noites
em que o meu corpo herói ganhou batalhas
A um palmo do umbigo eu fui primeira
a divina
a deusa
a verdadeira mulher - sem rival

Amei tantas mulheres de quem nem sei o nome
eu só me lembro apenas
de abraços
de pernas
de beijos
e orgasmos
E no amor que dei
e no amor que tive
eu fui toda mulher - fui vertical.
Eu fui mulher em espanto
fui mulher em espasmo
fui o canto proibido e solitário
Só tenho um itinerário Amor-Mulher

3 comentários:

  1. São lindos..são ótimos Tem um embalo quase que embriagante.

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  2. o site Manuela Amaral In Memoriam tem actualizações com fotos Vão ver

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  3. o site Manuela Amaral In Memoriam tem actualizações com fotos Vão ver

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