Outras cores e vozes do arco-íris, democracia e direitos LGBT: gays libertários (liberais) e de direita

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A entrevista com  Washington e Gustavo, fundadores respectivamente dos blogs Q-Libertários e Gays de Direita segue após a introdução à História do Movimento LGBT abaixo.

Introdução à História do MHB ou MLGBT


Autor: Míriam Martinho

O Movimento Homossexual Brasileiro, ou MLGBT, como se diz atualmente, surgiu em 1978, em São Paulo e no Rio, com a publicação do jornal Lampião da Esquina (RJ) e a formação do grupo Somos de Afirmação Homossexual (SP). Embora igualmente mal-visto tanto pelos adeptos da ditadura militar (de direita) quanto pelos militantes da esquerda ortodoxa, o MHB nasceu sob os eflúvios da contracultura, movimento associado à esquerda não-tradicional que estendia o conceito de política ao corpo, ao comportamento dos indivíduos, à questão sexual e de gênero. 

Logo nos primeiros momentos do movimento, um dos primeiros embates políticos resultou exatamente do choque de perspectivas entre ativistas da esquerda tradicional, autoritária (ligada a grupos marxistas-leninistas, trotskistas, maoístas, stalinistas) e a esquerda contracultural, libertária, que buscava novas maneiras de se pensar e de se fazer política através de formas não-rígidas, não-antagônicas, não-hierárquicas, onde deveria prevalecer a solidariedade comunitária desde as tarefas cotidianas até o sexo e o amor. Político era tudo e, para fazer política, não se precisava estar em um partido. 

Esse embate levou ao racha do grupo Somos que se cindiu em três partes: com o nome Somos ficou o grupo ligado à Convergência Socialista/CS (esquerda tradicional), acusada de querer cooptar e aparelhar a organização com vistas a integrá-la à luta contra a ditadura e à luta de classes; o pessoal “anarquista”, que viria a formar o grupo Outra Coisa de Ação Homossexualista, e o Grupo Lésbico-Feminista (LF). Forçoso lembrar aqui, num aparte, que o LF já existia, como grupo autônomo, desde maio de 1979, e que, no dia do racha do Somos (17 de maio de 1980), apenas formalizou sua saída, motivada também ou principalmente por sua aproximação do movimento feminista e do ideal feminista da manutenção de um grupo exclusivamente feminino. De uma forma geral, contudo, o LF compartilhava da visão contracultural (ainda que algumas de suas integrantes revelassem simpatia pelas teses da CS), tanto que, em outro momento, posteriormente, irá se re-unir com integrantes do Outra Coisa numa mesma sede (1982-1984). 

O racha do Somos repercutiu em todo o incipiente movimento homossexual brasileiro, divulgado pelo jornal Lampião da Esquina e pela correspondência entre os grupos do período. A maioria apoiou as críticas à Convergência Socialista e endossou a bandeira de um movimento autônomo, apartidário, ainda que capaz de alianças com parlamentares de partidos que apoiassem a causa dos direitos homossexuais. De fato, os problemas relacionados à Convergência, à questão político-partidária e à autonomia do movimento homossexual ficaram restritos, como tema e fonte de conflito, apenas ao caso do racha do Somos. Mesmo antes do final desse primeiro ciclo de ativismo tupiniquim, de 1978 a 1983, a questão político-partidária praticamente desaparece e cede lugar à questão da identidade homossexual, como ponto conflitante, só reaparecendo efetivamente em fins dos anos 90. No mais, o MHB entra em declínio acentuado, devido à crise econômica e principalmente à chegada da AIDS (que levou muitos ativistas gays para os grupos de prevenção à síndrome), mantendo-se  os grupos que sobreviveram dentro da bandeira liberal dos direitos iguais, nem mais nem menos. 

Na década de noventa, já a partir do VII Encontro Brasileiro de  Lésbicas e Homossexuais (SP, 1993), tem-se de volta ativistas ligados à esquerda tradicional, provavelmente como reflexo da rearticulação das esquerdas latino-americanas, após o colapso dos regimes comunistas no Leste Europeu e alguns países asiáticos, através do chamado Foro de São Paulo (1990). O espírito da contracultura, que já se findara na própria década de oitenta, desaparece por completo, e a política volta aos esquemas tradicionais, no modelo sindicalista e estudantil, formando-se também núcleos GL do Partido dos Trabalhadores (PT), entre outros, que passam a atuar dentro do MHB ou MLGBT. 

No fim da década de 90, no XIX Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas e Travestis (XIX EBGLT-1997), os glpetistas e outros integrantes de grupos da esquerda autoritária já reiniciam seu processo de tomada de poder, cooptação e aparelhamento do movimento homossexual, processo que chegará ao auge com a eleição de Lula à Presidência da República. De 2003 até hoje, o movimento LGBT se desfigurou por completo, funcionando mais como correia de transmissão do PT (como diria o escritor João Silvério Trevisan) e de ideologias da esquerda “viúva do muro de Berlim” do que como defensor das reivindicações de igualdade de direitos para as cidadãs e os cidadãos LGBT. O ápice desse processo ocorre agora com a participação de ativistas LGBT nas Conferências de Comunicação (Confecom, 17/12/2009) e de Cultura (em outubro de 2009) e no endosso ao chamado Programa Nacional de Direitos Humanos-3 (21/12/2009) , onde, em meio a reivindicações reais de direitos humanos, aparecem propostas claramente autoritárias do governo, como restrições à liberdade de imprensa e de expressão e ameaças ao direito de propriedade (entre outros sintomas de arbítrio), como se sabe pilares da declaração universal de direitos humanos (li num blog desse tipo de esquerdista: a propriedade não tem valor ou proteção em si mesma, mas somente quando se encontre cumprindo sua função social...sic).


Por outro lado, a partir de 2009, ao que tudo indica como reflexo da rearticulação das forças democráticas no Brasil e na América Latina, começaram a surgir também pessoas LGBT que se assumem como libertários (liberais) e até de direita. Tendo em vista que a democracia, valor maior, depende, entre outras coisas, do equilíbrio de forças entre as diferentes ideologias do espectro político e de sua livre expressão, convidei Washington e Gustavo, fundadores respectivamente dos blogs Q-Libertários e Gays de Direita,  para uma conversa sobre esquerda x direita, liberalismo, conservadorismo e os direitos homossexuais, o movimento homossexual, entre outras questões, esperando poder contribuir para o enriquecimento do debate sobre nossas escolhas políticas, sobretudo neste ano de eleições presidenciais. Busco também cumprir a tradição de pioneirismo e quebra de tabus que caracteriza minha militância, abrindo espaço para os que, nesse momento, destoam do coro dos contentes.

  Miriam Martinho, 57 anos, é uma das fundadoras do Movimento Lésbico no Brasil, tendo organizado as primeiras entidades lésbicas brasileiras, a saber, Grupo Lésbico-Feminista (1979-1981), Grupo Ação Lésbica-Feminista (1981-1989) e Rede de Informação Um Outro Olhar (1989....). Editou também as primeiras publicações lésbicas do país, como o fanzine ChanacomChana (década de 80) e o boletim e posterior revista Um Outro Olhar (década de 90 até 2002). Atualmente edita o site Um Outro Olhar On-Line (www.umoutroolhar.com.br), lançado em junho de 2004 e o blog Contra o Coro dos Contentes.
  Fundou igualmente o movimento de saúde lésbica no Brasil, em 1994, realizando a primeira campanha de prevenção às DST-AIDS para mulheres que se relacionam com mulheres, em 1995, e editando as primeiras publicações sobre o tema desde essa época (em 2006 publicou a 4 edição da cartilha Prazer sem Medo sobre saúde integral para lésbicas e bissexuais). Participou da organização do I EBHO (1980), organizou dois encontros LGBT nacionais (VII EBLHO/93 e IX EBGLT/97) e foi sócia-fundadora da Associação Brasileira de Gays,Lésbicas e Travestis (ABGLT-1995). Participou igualmente de vários encontros internacionais com destaque para a IX Conferência Internacional do Serviço de Informação Lésbica Internacional-ILIS (Genebra, Suiça, 28 a 31/03/1986), o I Encontro de Lésbicas-Feministas Latino-Americanas e do Caribe (Taxco, México, 1987) e a Reunião de Reflexão Lésbica-Homossexual (Santiago, Chile/ nov. 1992).


Outras cores e vozes do arco-íris, democracia e direitos LGBT: gays libertários (liberais) e de direita

Washington, do blog Q-Libertários,  tem 29 anos, é graduado em Geografia e trabalha como professor das redes pública e privada de educação, além de fazer alguns trabalhos como geógrafo free-lancer. Vive em Belo Horizonte e mantém seu primeiro relacionamento homossexual de longo prazo.

Gustavo, do blog Gays de Direita, tem 28 anos, é graduado em Administração de Empresas, nasceu e mora em Campinas. Namora há três anos  e planeja morar junto com o namorado em 2010. Nas horas livres gosta de ler, mexer com carpintaria, motores e carros. Gosta de sair com amigos, preferindo bares em vez de boates. Nos domingos, vai à missa com o namorado numa paróquia perto de sua casa.

UOO: Vocês mantêm dois blogs, Gays de Direita e Q-Libertários, que vão na contramão da perspectiva  com que a maioria de ativistas e blogueiros LGBT aborda a questão da homossexualidade que é tradicionalmente mais à esquerda ou de esquerda. Então pergunto, primeiro, quando decidiram lançar os blogs e qual o objetivo deles?

Gustavo:
A ideia de criar o blog surgiu em uma festa na casa de um amigo, onde percebi que praticamente nenhum homossexual ali compartilhava dos mesmos ideais de cunho esquerdista do movimento gay. Além disso, em conversas com amigos em outras ocasiões, notei que havia muita desinformação em relação a temas do interesse dos homossexuais e desconhecimento acerca do verdadeiro caráter da militância LGBT no Brasil.

O blog tem o objetivo de incentivar o debate sobre assuntos da atualidade a partir de uma perspectiva conservadora. Pensamos em vários nomes, mas acabamos optando por “Gays de Direita” mesmo. Julgamos que os resultados de nossa iniciativa têm sido muito positivos: apesar de uns xingamentos, temos recebido muitos elogios e críticas de pessoas que pensam como a gente, além de ter despertado a admiração até mesmo de alguns heterossexuais, que acabaram se tornando fãs do blog. Evidentemente, as publicações do blog não necessariamente representam a opinião de todas as pessoas envolvidas no grupo. Da mesma forma, não esperamos que os leitores concordem com tudo o que é publicado, pois alguns temas inclusive são bastante controversos.

Washington: Não tive, a princípio, a intenção de criar um blog que relacionasse política com assuntos LGBTs. Entristecia-me qualquer tentativa de mesclar identidade sexual com ideologia política. Contudo, ao fazer buscas na internet por sites de temática LGBT percebia que boa parte deles estava atrelada, politica ou ideologicamente, a partidos e movimentos de esquerda. Nessa época, eu já não me considerava de esquerda, embora não quisesse aceitar. Fui doutrinado pelos meus professores a pensar que a esquerda possuía o monopólio dos bons sentimentos. Após uma série de reflexões e estudos, percebi que não compartilhava com a visão de mundo socialista. Procurei por sites ou blogs gays que tivessem alguma afinidade com o que pensava, mas não encontrei nenhum, pelo menos em língua portuguesa. A partir daí, resolvi criar o blog. Sobre o objetivo do mesmo, acredito que seja apresentar às lésbicas, aos gays, aos bissexuais e aos transgêneros a visão que nós, libertários, possuímos da sexualidade humana e dos direitos civis e individuais.

UOO: Gustavo, dizer-se de direita no Brasil, no contexto pouco democrático atual, é como assumir um estigma. Exige coragem portanto. Assumir-se gay e de direita exige muito mais, principalmente porque a direita sempre foi vista como inimiga das pessoas homossexuais, tendo de fato assumido posturas muito reacionárias. Fale um pouco sobre essa (aparente?) contradição. 
 
Gustavo: Intuitivamente, observo que a impressão das pessoas comuns em relação ao socialismo é muito mais negativa do que em relação à direita. Por isso, eu não vejo essa interpretação como uma percepção generalizada dentro da população gay ou fora dela. É perfeitamente normal que homossexuais defendam idéias de direita. Há gays católicos, gays que são virgens e gays que defendem relações monogâmicas e estáveis. Parece-me que quem quer saber de “revoluções” é a cúpula do MHB, totalmente influenciada pelo discurso marxista e alheia aos interesses e necessidades da população homossexual.

As pessoas gostam de falar que existe uma contradição entre ser gay e de direita porque a direita, de um modo geral, não assume um posicionamento pró-gay; no entanto, também não assume uma posição anti-gay. São um ou outro os casos de pessoas de direita que se manifestam de forma contrária aos gays, coisa que também ocorre nas esquerdas.

Minhas pesquisas a este respeito apontam que o MHB, em conjunto com outros movimentos e indivíduos defensores do socialismo, tem adotado uma estratégia gramsciniana de penetração na mídia, cinema, artes em geral, escolas etc. com o objetivo de difundir uma imagem negativa e incorreta a cerca da maneira pela qual, por exemplo, o capitalismo, os militares e Igreja Católica abordam a homossexualidade.

Hoje no Brasil não existe mais ensino, mas sim doutrinação, tendo a verdade sido substituída pela propaganda. E este é o cerne da questão do blog: colocar uma luz sobre a evidente doutrinação que existe dentro da militância e fora dela. Eu acho que o gay brasileiro precisa parar de acreditar no que dizem por aí e passar a investigar os fatos por conta própria.

UOO: Washington, você identifica seu blog como para homossexuais libertários e de centro-direita. Gostaria primeiro que me definisse o que é ser libertário e a relação dessa corrente de pensamento com a questão homossexual. Como também os anarquistas se identificam como libertários, gostaria que estabelecesse qual a diferença entre libertários liberais e de esquerda. Segundo gostaria que explicasse também como define  ser de centro-direita e no que isto se diferencia de ser de direita sobretudo no referente à questão LGBT.

Washington:
O libertarianismo ou libertarismo é uma filosofia política que defende a maximização das liberdades individuais e a minimização do Estado. Na Europa, o termo é usado como sinônimo de liberalismo clássico. Contudo, nos Estados Unidos, a palavra “liberal” ganhou novos contornos. Lá, ela designa uma pessoa adepta de uma economia controlada atrelada ao Estado-providência. Assim, os verdadeiros liberais americanos adotaram o nome de libertários. Embora muita gente enxergue os Estados Unidos como um país bipartidário (democratas versus republicanos), há outros partidos, entre eles o Partido Libertário, o terceiro maior partido do país. Não sei se você sabe, mas o Partido Libertário americano foi o primeiro partido a endossar os direitos para a comunidade LGBT, incluindo o direito de se casar com quem quiser, independente do gênero. Em 1974, o Partido Libertário pediu a revogação das leis contra homossexuais. O libertarianismo difere do anarco-comunismo pelo fato do último ser contrário à propriedade privada e ao dinheiro. Além disso, o anarco-comunismo prega a tomada do poder pela revolução, atitude essa condenada pelos libertários. Durante o processo de criação do blog pensei em exclusivamente libertários. Entretanto, optei por incluir o termo “centro-direita” para ampliar o leque de opções para quem é adepto dessa corrente. Quando se fala em “direita” pensamos em uma série de estereótipos que foram criados pela esquerda. Nada mais injusto e covarde. A “direita” é diversa e congrega uma série de ideias e concepções, muitas conflitantes. Em alguns meios, é comum definir os liberais como de centro-direita.

UOO: Vocês acreditam que essa polarização direita x esquerda que requentaram nos dias de hoje procede? Ela já não havia sido superada por outra visão mais abrangente que apontava para a possibilidade de se superar a dicotomia Estado x mercado?  Ou a questão direita x esquerda vai além dessa dicotomia e não há um meio-termo possível?

Gustavo: Com certeza ainda procede. Eu acho que a definição de direita e esquerda vai além dessa dicotomia, é muito mais abrangente do que as considerações entre liberdade de mercado ou dirigismo estatal. Também defendemos um modelo de Estado menos dominante e uma economia liberal, mas procuramos nos concentrar no modo pelo qual Estado e sociedade interagem na atualidade.

Uma das questões que merecem ser discutidas é esse modelo de Estado, construído a partir de 1988, que protege demasiadamente os ditos “movimentos sociais” e, com isso, acaba criando uma atmosfera de falsa cidadania, na qual os desejos de um pequeno grupo passam a definir a agenda pública. Eu vejo uma insatisfação muito grande, entre os homossexuais, quanto à pretensão da militância gay em criar um modelo de homossexual. Não é raro ver militantes LGBT dizendo que querem proibir a Bíblia, acabar com a família, controlar mídias, instalar “ditaduras do proletariado”, entre outras coisas.

A larga maioria da população brasileira não odeia os homossexuais mas também não quer que eles fiquem ditando regras acerca de como seus filhos devem ser educados, sobre como as pessoas devem se comportar no trabalho ou como devem pensar a respeito de suas doutrinas religiosas.

Washington: Provavelmente não, mas essa discussão é algo que se agrava em muitos países. A polarização entre esquerda e direita remete à Revolução Francesa. Todavia, a divisão entre essas duas correntes varia conforme a época. Antes, a direita foi monarquista; hoje é republicana. Alguns pontos e posturas defendidos pela esquerda atual deixariam Lênin de cabelo em pé. Houve tentativas de encontrar um meio-termo entre as duas grandes correntes: a social democracia, o liberalismo social, a terceira via e o próprio centrismo. Contudo, essas visões e seus defensores não apresentam uma proposta clara, o que abre espaço para interpretações dúbias e bizarras.

UOO: Vocês são bem críticos do atual Movimento LGBT brasileiro. Por quê? Porque o movimento foi aparelhado pelo PT, portanto partidarizado, ou por que o consideram muito de esquerda simplesmente? Se a partidarização fosse de direita (supondo que isso fosse possível), veriam a situação com outros olhos?

Gustavo: Há vários porquês. Primeiro porque noto que boa parte dos militantes é formada por pessoas interessadas em captar recursos públicos ou simplesmente criar projetos para acrescentar no seu “currículo de militante gay”. Não é raro encontrar nessa militância cientistas sociais, jornalistas e advogados que não tiveram sucesso em suas carreiras e buscam na “causa gay” uma desculpa para maquiar seu fracasso profissional.

Segundo, na própria discussão dentro do movimento, vislumbramos uma série de ideias bizarras, chegando-se ao cúmulo de identificar como “aliados” partidos de ideologia comunista, com histórico de massacre de gays sem precedentes em toda a história da humanidade. Esta pregação pelo socialismo está tornando a militância cada vez mais distante do gay comum, impedindo que os militantes compreendam suas reais necessidades. Por esta razão, o público LGBT se sente pouco estimulado a participar da militância, não se identifica com os discursos, preferindo seguir adiante com a própria vida.

Por exemplo, a ABGLT recentemente esteve num evento realizado em Cuba, o pior país da América Latina para os homossexuais. Os gays cubanos têm protestado contra Mariela Castro que se esforça em passar uma imagem de defensora dos direitos gays; seus programas, no entanto, não passam de fachada, não mudando em nada a vida dos gays daquele país. Outro fato bizarro foi a mesma ABGLT ter praticamente ficado em silêncio diante da vinda de Ahmadinejad ao Brasil, em novembro. É verdade que a ONG em questão manifestou o seu apoio à comunidade judaica, mas apenas nominalmente. Aquele era um momento em que os gays deveriam ter se juntado com os judeus e protestado contra Ahmadinejad, considerando que, no Irã, a tortura e a execução de homossexuais são legalizadas. O presidente da associação chegou a dizer, em entrevista, que pediria ao governo Lula licença para protestar, deixando patente que quem manda na ABGLT é o PT.

Terceiro, o movimento gay fica constantemente mudando o foco de suas reivindicações: ora milita pelo “matrimônio” gay, ora tenta aprovar o PLC 122/2006, ora busca eleger candidatos homossexuais. Essa alternância de estratégia acaba custando muito nos campos tático e operacional e, vendo como administrador, parece-me que esses ativistas têm feito um péssimo trabalho. Não é de se estranhar que não conseguem alcançar nenhum dos objetivos concretos a que se propõem, sejam eles bons ou ruins. Eles não têm obtido êxito nem em dar o primeiro passo que consiste em reunir os homossexuais para criar um movimento sólido. Os atuais grupos de militância gay são todos patéticos, com um contingente que varia entre 5 ou 15 pessoas em cada grupo, com pouquíssimas exceções. A ABGLT, que se gaba de ser representante de 220 grupos homossexuais, não passa de um embuste, já que a quantidade de grupos gays no Brasil, segundo um levantamento feito por nós no ano passado, não passava de 110. Isso sem mencionar o fato de a ABGLT ser uma organização fechada, não passa de um grupo de comadres marxistas, como se ser gay demandasse necessariamente ser socialista.

Por fim,  não vejo nenhuma possibilidade de haver uma partidarização à direita no atual cenário do movimento gay. Não acho inclusive que o movimento deveria assumir uma tendência, mas simplesmente procurar priorizar as reais necessidades dos homossexuais brasileiros.

Washington: Não diria que sou um crítico, apenas não compartilho do discurso radical e fundamentalista de determinados setores do movimento LGBT brasileiro. Acho um equívoco essa partidarização apontada por você. A questão dos direitos civis deveria ultrapassar as disputas eleitorais de direita e esquerda. O movimento homossexual vive num mundo fora da realidade. Talvez por influência da esquerda marxista, existe um preconceito contra o setor privado. Como se o dinheiro usado para financiar ONGs, Paradas e entidades LGBTs viesse de Júpiter e não pelo dinheiro do governo, que vem justamente do sistema econômico. Aliás, há aí duas coisas que repudio nesse exemplo: a submissão de entidades homossexuais ao Estado assim como o uso de dinheiro público nas mesmas. Lembra o fascismo italiano, quando os sindicatos ficaram atrelados ao Estado. Acho isso perigoso. Se, hipoteticamente, os movimentos LGBTs fossem subordinados a partidos de “direita”, repudiaria da mesma maneira. O movimento homossexual deve ser independente. Contudo, desejo que haja uma maior abertura do movimento homossexual brasileiro a novas ideias. Em 2006 procurei um grupo LGBT e não fui compreendido. Talvez seja difícil para essas pessoas reconhecer que haja opiniões diferentes.

UOO: Os Planos Nacionais de Direitos Humanos de FHC e de Lula contemplaram algumas reivindicações de direitos homossexuais, mas o de Lula veio com um recheio onde se observam propostas de abolição do direito de propriedade, monitoramento e controle da imprensa, controle de livros didáticos, ampliação do desarmamento da população (e de seguranças!!?) enquanto o governo financia, com $ público, o cada vez mais armado MST), e outras estrovengas autoritárias. Muitos ativistas, que inclusive reconhecem o caráter aberrante desse plano, estão fazendo vista grossa ao cerne da coisa para ver se passam os direitos homossexuais. Como vocês veem essa estratégia?

Gustavo: Recentemente, um militante comunista disse que a população tem dado mais ênfase às questões do aborto, da propriedade privada e à polêmica dos militares do que a questão homossexual. De fato, de todas elas, parece que a questão homossexual é a que menos preocupa. O PT não está interessado em entregar coisa alguma aos homossexuais, embora pudesse fazê-lo, já que possui maioria aliada no Congresso.

Acho engraçado que tão logo a questão do PLC 122/2006 (projeto contra homofobia) arrefeceu, veio em seguida este PNDH-III. Para mim, esse programa, mais do que um esboço de dominação política, é também estratégia para agitar a sociedade e depois o governo dizer que os “cristãos fundamentalistas” têm pressionado o PT nessas questões.

Eu conviveria perfeitamente bem com a esquerda, sem o menor problema. E deve haver uma esquerda. No entanto, os partidos de esquerda que estão aí, com um passado de assassinatos, assaltos, terrorismo e mortes, obviamente não possuem a menor aspiração democrática.

Washington: O PNDH 3 foi alvo de tantas críticas que fica difícil fazer um elogio. Reprovo qualquer tentativa de controle por parte do governo à minha vida, à minha propriedade e à minha liberdade. Eles falam que o Plano saiu de discussões de diversos setores da sociedade. Mas quais setores? Na realidade são os tais movimentos “sociais” ligados aos partidos de esquerda que, segundo os próprios, totalizaram 14 mil pessoas nesses dois anos. Desde quando 14 mil representam 190 milhões de pessoas? Sabemos que os reais objetivos do PNDH 3 são partidários, de ampliar o poder da esquerda e do PT em particular. Tal partido não está nem um pouco interessado em Direitos Humanos. Se estivesse, por que seus dirigentes e militantes não se posicionam contra países que desrespeitam os direitos humanos, como Cuba, China e Venezuela? A recepção de Mahmoud Ahmadinejad pelo presidente Lula, no ano passado, foi uma ofensa àqueles que lutam pelos direitos humanos. 

UOO: Da perspectiva LGBT de direita e libertária, quais as principais bandeiras a serem levadas por um movimento LGBT e como elas deveriam ser encaminhadas?  Há diferenças com as que já são encaminhadas pela militância tradicional ou não?

Gustavo: Penso que a única coisa correta originada do PT foi o projeto de união civil (e os direitos daí derivados, como a transferência da herança ao parceiro e a possibilidade de financiar em conjunto a compra de seu lar), mas esta se tornou uma bandeira abandonada pelos próprios militantes homossexuais. A maioria deles não se vê minimamente interessada em defendê-la, já que alegam que o projeto estaria “defasado” e que outro mais novo e abrangente seria mais oportuno. Uma distorção que tem sido freqüente é chamar este projeto de “casamento gay”, pois passa a ideia de que a lei permitiria nos casarmos dentro das igrejas, o que é um absurdo, pois as religiões têm o seu próprio percurso evolutivo que deve ser respeitado. Apesar do PLC 122/2006 não determinar isto explicitamente, na prática, era um projeto que estava levando a isto.

A questão da AIDS ainda é um campo a ser explorado. Alguns militantes homossexuais têm reclamado da impossibilidade do gay doar sangue, mas este é um problema real, já que há muitos gays que fazem sexo sem camisinha com até 26 homens num único final de semana. Muito se fala que as políticas brasileiras de combate à AIDS são referências internacionais, mas também é dito que gays e jovens constituem população de risco. Se as políticas brasileiras são tão boas, por que os índices de contaminação entre os gays têm aumentado? Esse é o tipo de reflexão que o movimento LGBT deveria fazer; e, ao invés de estimular a promiscuidade sexual, incentivar a fidelidade e a monogamia. 

Deveria também ser criado um sistema de informação e vigilância com relação aos crimes motivados por preconceito que permitisse o acompanhamento dos casos judiciais diretamente pelo público interessado. Atualmente, quando ocorre um crime hediondo, os dirigentes das ONGs fazem suas declarações, mas parece que pára por aí. Nos EUA, fatos assim são acompanhados de perto pelo público gay, que atende prontamente os chamados da militância para protestar.

Washington: Acredito que a militância LGBT deveria focalizar os direitos civis e exigir do Estado o fim de qualquer lei que discrimine pessoas ou organizações com base na orientação sexual. Mas sou contra leis “especiais”. Aqui no Brasil temos a mentalidade de que o governo tem de salvar as pessoas de si mesmas e que seremos uma sociedade democrática através da ação estatal. Por vezes, a militância LGBT age de forma autoritária e incoerente. Vou te dar um exemplo: basta que um líder religioso cristão faça algum comentário se posicionado contra a homossexualidade que temos motins em portas de igrejas, pessoas queimando fotografias do Papa... Por que não se tomou essa mesma postura quando o ultra-homofóbico presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad visitou o Brasil? 

UOO: Sei que no exterior há grupos organizados de LGBT conservadores e libertários, mas, aqui no Brasil, acho que a iniciativa de vocês é pioneira. Vocês pretendem partir para uma organização nos moldes internacionais futuramente?

Gustavo: Claro que sim, porém, para garantir a legitimidade do movimento, não devemos nos associar a nenhum partido político. Mas ainda há muito pela frente. No momento, acompanhamos fatos políticos e violações homofóbicas ocorridos em outros países, entre outras questões. Temos também nos esforçado para denunciar que as técnicas de subversão marxista-leninista, empregadas durante o regime militar pelas esquerdas, estão sendo utilizadas ainda hoje.

Washington: Gostaria muito. Tenho mantido contatos informais com uma organização italiana e outra norte-americana. Mas esbarramos aqui numa série de problemas, como a precariedade de um país como o Brasil e o estereótipo que muitas pessoas desenham dos liberais. Comecei de forma tímida, com o blog e uma lista de discussão. Mas entre os planos futuros desejo ter um site e um espaço para reuniões e encontros. 

UOO: Como vocês veem as próximas eleições para a população homossexual  e o país? Que cenário visualizam?

Gustavo: O presidente da ABGLT deu uma entrevista recentemente recomendando a candidata do PT, Dilma Rouseff. É evidente que a aliança político-partidária da ABGLT está acima do compromisso de representar a população homossexual. Se um pseudo-operário nada trouxe de concreto para a população gay, menos ainda fará uma ex-guerrilheira terrorista e assaltante de bancos, da VAR-Palmares, treinada em Cuba.

De qualquer forma, não creio que a Dilma sairá vencedora. Por outro lado, devemos ficar atentos, pois a troca de um presidente não necessariamente traz impactos positivos sobre o movimento gay. Nesse sentido, um candidato eleito por outro partido pode significar um continuísmo da presente situação, caso ele faça vista grossa aos militantes esquerdistas que fazem carreira como “militantes gays”, cujo único objetivo é obter recursos públicos.

Washington: Não há neste país nenhum partido que se aproxime daquilo que acredite. Há boas tentativas como o Partido Libertário e o Partido Federalista, mas são projetos e dependem da burocracia estatal para a regularização dos mesmos. Não vejo um futuro promissor para um país que apresenta candidatos presidenciais como Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva.

UOO: Por fim, agradecendo pela entrevista, pediria que deixassem uma mensagem para as leitoras e os leitores do site.

Gustavo: Nossa mensagem para os leitores é “invadam” as sedes do movimento gay, procurando participar das reuniões e dos meios de conversação existentes na internet, a fim de ajudar a mudar a situação ou pelo menos para testemunhar a veracidade do que falamos. Algumas dessas organizações se envolvem até em práticas criminosas (tal como o aliciamento de menores, num determinado caso). O problema de pessoas que fazem carreiras em movimentos sociais é que estas não se destinam a resolver os problemas da população, uma vez que os problemas são o motivo de elas estarem ali recebendo verba pública. Recentemente, um homossexual comunista em Cuba foi expulso do partido pelo fato de ser gay. Se fosse verdade que “o capitalismo gera a homofobia”, fatos como esse jamais teriam ocorrido. Por isto é importante analisar a coerência dos discursos dessas pessoas.

Washington: Agradeço, primeiramente, a Miriam Martinho pela confiança e pela oportunidade. Quando paro para ver tudo que os teóricos da esquerda escreveram: ditadura do proletariado, guerras civis, revoluções armadas e sanguinárias, paredón, fica tudo com um ar de morte e monstruosidade. Toda leitura que já fiz sobre liberalismo nunca encontrei um autor que violasse os direitos essenciais dos seres humanos: direito à vida, à liberdade, à propriedade, e por aí vai. Portanto, convido a comunidade LGBT à defesa da igualdade de direitos.

Publicado originalmente no início de 2010

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